Tem alguém o direito de pleitear que seu “passado digital” seja re-escrito (ou apagado)?

A nova Ombudsman (não deveria ser Ombudswoman ou Ombudsperson, a seguir a orientação dos Politicamente Corretos?) da Folha retoma um assunto que discuti aqui em três posts anteriores.

Vide:

Sobre o direito de que se esqueça o que dissemos e fizemos (5/4/2010)
http://ec.spaces.live.com/blog/cns!511A711AD3EE09AA!3428.entry

Ainda sobre o Memorioso… (20/2/2010)
http://ec.spaces.live.com/blog/cns!511A711AD3EE09AA!3317.entry

O Memorioso e o Pensoso… (14/2/2010)
http://ec.spaces.live.com/blog/cns!511A711AD3EE09AA!3311.entry

A nova Ombudsman menciona que quem a antecedeu no cargo discutiu o assunto em 2008. Não sei dizer que é verdade. Mas mesmo que tenha sido, ela omitiu a discussão dos primeiros meses deste ano, que motivou os meus posts.

O tema é interessante.

Aqui vai a manifestação da Ombudsman.

A seguir transcrevo também o artigo de Ferreira Gullar na mesma Folha, sobre a memória. É um contraponto interessante, que se liga com algumas coisas que já escrevi aqui sobre memória e identidade pessoal. (Não tenho paciência de ir procurar a referência – está lá atrás…).

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Folha de S. Paulo
16 de Maio de 2010

SUZANA SINGER
ombudsman@uol.com.br

Em algum lugar do passado

"Injustiças" eternizadas em arquivos digitais de jornais são principal dilema ético em encontro anual de ombudsmans

NA MILENAR Oxford (Inglaterra), 31 ombudsmans de 16 países discutiram até ontem os rumos da imprensa na era digital. Em um salão de 1618, igualzinho ao refeitório de Hogwarts, onde Harry Potter graduou-se em bruxaria, os "representantes dos leitores" brindaram pela sobrevivência de um jornalismo independente, preciso e que preste contas ao público.

Como o Lord Voldemort, que a cada livro de Potter parece mais assustador, os problemas que os ombudsmans enfrentam, graças aos avanços tecnológicos, vêm se tornando mais complexos.

O dilema ético que mais provocou debate no encontro anual da Organização de Ombudsmans de Imprensa (ONO) foi o de como lidar com "injustiças" eternizadas em arquivos digitais. Nenhum dos jornais representados em Oxford tem, em seus códigos de conduta, regras de como responder àqueles que exigem que seus nomes sejam retirados da internet.

Um garoto de 12 anos escreveu a um jornal inglês, há poucas semanas, pedindo que seja apagada reportagem que o citava como vítima de bullying -tipo de humilhação entre crianças em escolas. O depoimento, dado seis anos atrás, era da própria mãe do menino, que procurou o jornal na esperança de que as ofensas cessassem.

Graças ao Google, os colegas do garoto, agora em outro colégio, descobriram a história e começaram a atormentá-lo. O pesadelo se repetia. O que fazer? Não há nada de errado com a reportagem, mas, como lembrou um ombudsman, foi uma decisão da mãe dar publicidade ao caso, e jornalistas não costumam ouvir o que a criança tem a dizer.

Na Bélgica, um rapaz cúmplice de assassinato cumpriu sua pena, foi solto, mas não consegue emprego nem namorada porque seu nome aparece ligado ao crime sempre que alguém pesquisa na internet.

A terapeuta designada pelo Estado para acompanhar o rapaz pediu ao único jornal que publicou seu nome que deletasse a notícia, porque estaria inviabilizando a sua ressocialização. O diário trocou o nome dele por iniciais. Mas é correto reescrever o passado de alguém?

Arquivo X

A Folha não mexe nos arquivos digitais, porque os considera cópias do que foi impresso. Se houve um erro no passado, mantém a notícia original, mas coloca uma nota remetendo para uma correção.

Muitas vezes, o que falta é acompanhar um caso. Se foi noticiado que o sr. X foi acusado de corrupção, e depois ele é considerado inocente pela Justiça, o jornal coloca uma nota na notícia original remetendo para a decisão judicial a favor do sr. X.

Na era da internet, é preciso cuidado redobrado com o que se diz na mídia. Quando uma jovem fala hoje sobre como perdeu a virgindade, precisa considerar que, daqui a 20 anos, seu nome estará associado a sexo sempre que alguém "der um google" sobre ela. São "vidas marcadas para sempre", como definiu meu antecessor, Carlos Eduardo Lins da Silva, em 2008.

Não é agradável para o ombudsman dizer "sinto muito", "a vida é assim mesmo" para um menino acossado por colegas, um ex-condenado tentando refazer a vida ou uma pessoa arrependida de suas declarações juvenis. Em apenas três semanas no cargo, tive que recusar, em nome da Folha, dois pedidos de mudanças de arquivos -não descrevi os casos, porque, mesmo com o anonimato garantido, os requerentes não permitiram que suas histórias fossem citadas.

Seria perfeito vestir uma capa da invisibilidade como a de Harry Potter e fugir ao debate, mas não dá. Considero a posição da Folha consistente. Se o jornal ceder em um caso, por mais justo que pareça, haverá outro e mais outro, sempre com bons argumentos. Estaremos reescrevendo a história, o que é um grande risco para todos.

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Folha de S. Paulo
16 de Maio de 2010

FERREIRA GULLAR
Surto filosófico



Estou maravilhado com a minha descoberta de que a memória é parte do presente que vivo



EU, HOJE, estou invocado e quando fico assim dano-me a pensar qualquer coisa. O que me leva a isso, não sei, mas quase sempre é alguma ideia ou indagação que surge inesperadamente e aí me ponho a futricá-la.

É o que ocorre agora, quando me dou conta de que a memória não é o que sempre pensei que fosse e que as pessoas, em geral, pensam que é.

Pensa-se que memória é a faculdade que nos permite lembrar de fatos e coisas do passado; ter memória é
ser capaz de evocar o que já ocorreu e se foi. Mas acabo de perceber que não é só isso: a memória é constitutiva do presente, é parte dele.

Veja bem, não estou dizendo que você, de certo modo, é também seu passado, que o agora é feito também do que houve antes. Pode ser e pode não ser mas, de qualquer modo, não é isso que pretendo dizer, não é isso que acabo de intuir.

Estou dizendo que só consigo acender o fogão porque me lembro como se faz para acendê-lo, me lembro qual botão se deve apertar depois de abrir o gás; estou dizendo que só escrevo aqui e agora o que escrevo porque me lembro o que significa a palavra "lembro", a palavra "me", a letra "A", "B", "C", enfim, a gente faz e raciocina porque lembra.

Certamente, cientistas e filósofos já sabem disso, já falaram disso. Não pretendo, assim, ter descoberto a pólvora mas, diga-se, que é próprio dos poetas descobrirem o que já sabemos, mas esquecemos ou não lhe demos a devida importância.

O poeta é aquele cara que se surpreende com o óbvio e, ao fazê-lo, torna-o surpreendente, pelo menos para si mesmo. Assim é que estou aqui maravilhado com a minha descoberta de que a memória é parte do presente que vivo e não apenas do passado que vivi.

E, aí, meu caro, abre-se campo para uma série de indagações como que diferença há entre a memória que nos traz o passado distante e a que, sem nos darmos conta, nos permite falar e acender o fogão.

Temos, em nós, um depósito de memórias afetivas, sepultadas em nosso esquecimento, porque não queremos reviver a dor que nos provocaram ou o que é uma placa sensível que tudo registra e exibe quando circunstâncias determinam?

Seria o caso do biscoito champanhe que Proust mastigou após molhá-lo no chá, apenas uma modalidade de lembrança que não se diferencia essencialmente desta lembrança banal que nos faz saber que a palavra memória começa com "M"?

Nesta descoberta da memória como sendo outra coisa que a preservação do passado, teríamos o que então?

Veja bem, no instante mesmo em que corto o bife no prato, faço-o porque estou municiado da lembrança de como se corta bife, usando garfo e faca, coisa que, aos dois anos de idade, não conseguia fazer, porque ainda não aprendera a usar o talher.

E o que é o aprendizado, senão memória? E essa memória está de tal modo inserida no presente, que é parte constitutiva dele: fazer é lembrar como fazer, sem se dar conta de que lembra. E ainda: a memória não apenas nos permite fazer por já sabermos como nos ajuda a descobrir novos modos de fazer, corrigindo o sabido, e assim engendra o futuro.

Suponhamos que vou escrever um poema que, porque ainda não o escrevi, não sei como será: estou entregue ao jogo do acaso e da necessidade. O tema é o sorriso da moça que vi na rua, há pouco, e de que me lembro ainda; é, portanto, memória, passado, mas o poema por fazer é o futuro -futuro que, sem o sorriso lembrado, jamais seria inventado.

E então me espanto ao constatar que a memória nos ajuda a inventar a vida, a sepultar o passado, que, não obstante, aumenta a cada segundo.

A vida é também lembrar sem se dar conta disso.

E daí que há mais de um tipo de memória: aquela do biscoito proustiano, em que lembro consciente de que lembro e que, ao contrário daquela outra memória, ocupa o presente e o torna apenas lembrança e outro -ou outros- que, em lugar de negá-lo, o constitui: ao cortar o bife estou inteiro neste ato presente, sou inteiramente atual, como a memória que está a serviço dele e é ele.

Se é impossível pensar sem nada saber, é que só é possível pensar graças à memória. Mas pensar é quase sempre inventar o que se pensa.

Por exemplo, foi por saber o que era a memória que percebi que ela era mais do que eu sabia dela. Assim, a descobri como constitutiva do presente, donde se conclui que eu só posso superar o que já sei e não o que ainda não sei, que, por sabê-lo, não é memória, mas se tornará assim que o conheça.

A memória me permite inventar o futuro de que me lembrarei, como passado, futuramente.

Entendeu? Se não, releia a crônica pacientemente, pois é possível que o consiga… É o que eu vou fazer agora.

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Em São Paulo, 16 de Maio de 2010

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