O valor do trabalho (II)

Observa a Cristina Almeida (em discussão na minha lista "LivreMente"): 

"Eu continuo a pensar no valor do trabalho… no valor do trabalho dos professores. É o mercado quem dever ‘taxar’ o valor do trabalho do professor?"

Vou procurar tornar a discussão um pouco mais complexa.

Como procurei deixar claro na minha mensagem "O Valor do Trabalho", há um certo sentido do termo "valor", que chamo de subjetivo, que independe do valor (objetivo) econômico ou financeiro desse trabalho (isto é, do que se paga por ele, caso ele esteja sendo feito num contexto salarial).

Posso escolher a profissão de professor, digamos, por causa desse valor, que não é econômico e muito menos financeiro: posso gostar de ensinar, posso gostar de estar perto de crianças, posso achar que ensinar é a profissão mais importante na Terra, posso achar que fui chamado por Deus (vocacionado) para fazer isso, independentemente do retorno financeiro, etc.

No caso do professor universitário, e falando pessoalmente, minha principal razão para escolher a profissão, já lá se vão 35 anos, foi um valor subjetivo, não econômico: o grande controle sobre o meu tempo que ela me proporciona e a conseqüente liberdade de (entre outras coisas) ficar discutindo essas coisas aqui no meu tempo de trabalho (que não é o caso desta mensagem específica: são 7h da manhã de domingo e estou aqui desde às 5h30m — "aqui" sendo o meu computador e a Internet…).

Se formos falar no "valor do trabalho" nesse sentido de "valor subjetivo", nossa discussão vai se enveredar por caminhos totalmente diversos. Vamos estar falando de sentido de missão ou vocação, de realização pessoal, etc. Vamos estar discutindo o fato de que há muita gente que trabalha, voluntariamente, virtualmente de graça. Religiosos, em geral, pelo menos os mais tradicionais, trabalham em troca de muito pouco. Venho de uma família de pastor, e sei bem o que é isso. O religioso trabalha porque acredita no que faz, e não trabalha para ganhar dinheiro — embora precise de algum para se manter (e, no caso dos não celibatários, aos seus). Na verdade, a gente que literalmente paga para trabalhar.

O sentido de valor que discuti na seqüência do artigo sobre o Wal-Mart, tem que ver com outro tipo de valor, o chamado "valor econômico" — ou até mesmo financeiro. Tem que ver, em última instância, com remuneração, com salário.
E foi em relação a esse tipo de valor que disse que não há um critério absoluto que permita determinar quando vale, em dinheiro, o seu ou o meu trabalho para terceiros. Nosso trabalho vale o que alguém está disposto a pagar por ele.

O mercado não "taxa" o nosso salário. Na verdade, como já disse, o mercado é uma abstração. O mercado somos nós todos que compramos, vendemos, trocamos bens e serviços. O mercado é você, quando você contrata uma empregada doméstica ou uma diarista ou alguém para cortar a grama do seu jardim ou limpar a fossa de sua casa. O mercado é você quando você compra comida, roupa, livro, disco, etc. O mercado é você quando você assiste a um filme, a uma peça de teatro, a um concerto. O mercado é você quando coloca os seus filhos na escola, mesmo que a escola seja pública (as pessoas, no Brasil, ainda podem optar por colocar os filhos na escola particular ou na pública — é uma opção). O mercado é você, quando você vende o seu trabalho em troca de dinheiro que lhe permite comprar outros bens e serviços de que você precisa ou que você quer e não tem condições de produzir.

Assim sendo, o mercado não "taxa" o nosso salário: caso sejamos assalariados, ele, o mercado (i.e., alguém) nos paga o nosso salário. A nossa relação com nosso empregador é tal que podemos recusar o salário que ele oferece e buscar alguém mais que nos pague o que achamos que valemos. Ou podemos trabalhar como autônomos. Ou abrir um negócio que vá até mesmo envolver a contratação de funcionários, invertendo o nosso papel. O clamor que hoje há contra o trabalho dito escravo é um reconhecimento de que, em 99% dos casos, num país como o nosso, o trabalho não é escravo e decorre de um relacionamento livre (muitas vezes regido por contrato) entre as partes — dos quais sempre podemos sair com relativa facilidade.

A tese do Thomas Sowell, que eu totalmente endosso, é de que não basta que alguém tenha dinheiro para nos pagar mais para que concluamos que, logo, esse alguém deve nos pagar mais.

Essa tese, que causa revolta em alguns, é, tenho certeza, endossada por todos nós na prática. Duvido que qualquer um de nós paguemos às nossas empregadas domésticas tudo aquilo que podemos pagar — aquilo que elas, no sentido subjetivo do termo, valem para si mesmas (ou até mesmo para nós). Nós pagamos, em geral, o preço médio que o mercado (isto é, as outras pessoas) estão dispostas a pagar. Se pagarmos muito menos, correremos o risco de perder a empregada. Se pagarmos muito mais, estaremos perdendo dinheiro, porque poderíamos arrumar outra empregada, que faria a mesma coisa, por um salário menor.

Espero que a questão tenha ficado mais clara agora.

Há um artigo curioso do Diogo Mainardi na VEJA do dia 18 explicando porque ele não faz palestras… Tem relação com o que está sendo discutido aqui.

Em Campinas, 15 de maio de 2005

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