Administrar o Tempo é Planejar a Vida, v.0 (1998)

NOTA: Este artigo é resumo, redigido em 1998, a pedido de meu amigo Wilson Azevedo, de um livreto, Administração do Tempo, que escrevi em 1992.

Geralmente quem escreve sobre administração do tempo não o faz porque seja especialista na questão, mas, sim, porque quer aprender mais sobre o assunto. Pelo menos foi esse o meu caso. Vou relatar aqui algumas de minhas descobertas, como roteiro para a leitura do quarto texto.

1) Administrar o tempo não é uma questão de ficar contando os minutos dedicados a cada atividade: é uma questão de saber definir prioridades. Provavelmente (numa sociedade complexa como a nossa), NUNCA vamos ter tempo para fazer tudo o que precisamos e desejamos fazer. Saber administrar o tempo é ter clareza cristalina sobre o que, para nós, é mais prioritário, dentre as várias coisas que precisamos e desejamos fazer – e tomar providências para que essas coisas mais prioritárias sejam feitas, sabendo que as outras provavelmente nunca vão ser feitas (mas tudo bem: elas não são prioritárias).

2) Dentre as coisas que vamos listar como prioritárias, algumas estarão ali porque nos são importantes, outras porque são urgentes. Imagino que algo que não é NEM importante NEM urgente não estará na lista de ninguém. E também sei que na lista de todo mundo haverá coisas que são IMPORTANTES E URGENTES. Não resta a menor dúvida de que estas coisas devem ser feitas imediatamente, ou, pelo menos, na primeira oportunidade. Poucas pessoas questionarão isso. O problema surge com coisas que consideramos importantes, mas não urgentes, e com coisas que são urgentes, mas às quais não damos muita importância.

3) Digamos que você considere importante ficar mais tempo com sua família. Por outro lado, você tem que trabalhar x horas por dia. Se o seu trabalho é mais importante do que ficar com a sua família, o problema está resolvido: você trabalha, mesmo que isso prejudique a convivência familiar. Mas e se o trabalho não é mais importante para você do que a convivência familiar? Neste caso, provavelmente o trabalho é urgente, no sentido de que tem que ser feito, pois doutra forma você vai ser despedido (ou perder clientes, se for autônomo ou empresário) e vai ter dificuldades para manter sua família (embora, sem trabalho, provavelmente vai poder passar mais tempo com ela…). Aqui o conflito é entre o importante e o urgente – e é aí que a maior parte de nós se perde, e por uma razão muito simples: algumas das tarefas que temos que realizar não são selecionadas por nós, mas nos são impostas. Isto é: não somos donos de todo o nosso tempo. Não temos, em relação ao nosso tempo, toda a autonomia que gostaríamos de ter. Quando aceitamos um emprego, estamos, na realidade, nos comprometendo a ceder a outrem o nosso tempo (e, também, o nosso esforço, a nossa capacidade, o nosso conhecimento, etc.). Este é um problema real e de solução difícil: não somos donos de boa parte de nosso tempo.

4) Acontece, porém, que geralmente usamos mal o tempo que dedicamos ao trabalho (e, por isso, temos que fazer hora extra ou trazemos trabalho para casa), ou mesmo o tempo que passamos em casa. Usar mal QUER DIZER que muitas vezes usamos o nosso tempo para fazer o que não é nem importante nem urgente, mas apenas algo que sempre fizemos, pela força do hábito. Alguém me disse, quando eu era criança, que a gente nunca deveria abandonar a leitura de um livro, por pior que ele fosse. Que bobagem! Mas quanto tempo desperdicei terminando de ler coisa que de nada me serviu por causa desse conselho! Uma vez me peguei dizendo à minha família que não poderia fazer algo (não me lembro o quê) domingo de manhã porque precisava ler os jornais. Eu lia, religiosamente, a Folha e o Estado aos domingos de manhã (sinto muito, folks: há tempo que não freqüento escola dominical). Lia por hábito. Achava que um professor tem que se manter informado. Mas quando disse que “precisava” ler os jornais me dei conta de que realmente não precisava lê-los. O que é de pior que poderia me acontecer se eu não lesse os jornais, me perguntei. NADA, foi a resposta que tive honestamente que dar. Se houver algo importante nos jornais provavelmente fico sabendo no noticiário da TV, ou na VEJA. Mas daí me perguntei: e preciso ler a VEJA todas as semanas? Resposta: não. Existe algo que eu prefiro ler/fazer naquelas manhãs de domingo que ganhei? Claro, muitas coisas – PARA AS QUAIS EU ANTES NÃO TINHA TEMPO. Ganhei as horas dos jornais, ganhei as horas da VEJA, fui ganhando uma horinha aqui outra ali, para as coisas que eu realmente queria fazer há muito tempo e não achava tempo…

5) Administrar o tempo é ganhar autonomia sobre a sua vida, não é ficar escravo do relógio. É uma batalha constante, que tem que ser ganha todo dia. Se você quer ter a autonomia de decidir passar mais tempo com a família, ou sem fazer nada, você tem que ganhar esse tempo deixando de fazer outras coisas que são menos importantes para você. Em última instância pode ser que você até tenha que, eventualmente, arrumar um outro emprego ou uma outra ocupação.

6) O tempo é distribuído entre as pessoas de forma bem mais democrática que muitos dos outros recursos de que nós dependemos (como, por exemplo, a inteligência). Todos os dias cada um de nós recebe exatamente 24 horas (a menos que seja o último dia de nossas vidas): nem mais, nem menos. Rico não recebe mais do que pobre, professor universitário não recebe mais do que analfabeto, executivo não recebe mais do que operário. Entretanto, apesar desse igualitarismo, uns conseguem realizar uma grande quantidade de coisas num dia – outros, ao final do dia, têm o sentimento de que o dia acabou e não fizeram nada. A diferença é que os primeiros percebem que o tempo, apesar de democraticamente distribuído, é um recurso altamente perecível. Um dia perdido hoje (perdido no sentido de que não realizei nele o que precisaria ou desejaria realizar) não é recuperado depois: é perdido para sempre.

7) Há os que afirmam, hoje, que o recurso mais escasso na nossa sociedade não é dinheiro, não são matérias primas, não é energia, não é nem mesmo inteligência: é tempo. Mas tempo se ganha, ou se faz, deixando de fazer coisas que não são nem importantes nem urgentes e sabendo priorizar aquelas que são importantes e/ou urgentes.

8) Quem tem tempo não é quem não faz nada: é quem consegue administrar o tempo que tem de modo a poder fazer aquilo que quer.

9) Por outro lado, ser produtivo não é equivalente a estar ocupado. Há muitas pessoas que estão o tempo todo ocupadas exatamente porque são improdutivas – não sabem onde concentrar seus esforços e, por isso, ciscam aqui, ciscam ali, mas nunca produzem nada. Ser produtivo é, em primeiro lugar, saber administrar o tempo, ter sentido de direção, saber aonde se vai.

10) Administrar o tempo, em última instância, é planejar estrategicamente a nossa vida. Para isso, precisamos, em primeiro lugar, saber aonde queremos chegar (definição de objetivos). Onde quero estar, o que quero ser, daqui a 5, 10, 25, 50 anos? O segundo passo é começar a estrategiar: transformar objetivos em metas (com prazos e quantificações) e decidir, em linhas gerais, como as metas serão alcançadas. O terceiro passo é criar planos táticos: explorar as alternativas específicas disponíveis para se chegar aonde queremos chegar, escolher fontes de financiamento (emprego, em geral, é fonte de financiamento), etc. Em quarto lugar, fazer o que tem que ser feito. Durante todo o processo, precisamos estar constantemente avaliando os meios que estamos usando, para verificar se estão nos levando mais perto de onde queremos vamos querer estar ao final do processo. Se não, troquemos de meios (procuremos outro emprego, por exemplo).

11) Mas tudo começa com uma verdade tão simples que parece uma platitude: se você não sabe aonde quer chegar, provavelmente nunca vai chegar lá – por mais tempo que tenha.

12) Quando o nosso tempo termina, acaba a nossa vida. Não há maneira de obter mais. Por isso, tempo é vida. Quem administra o tempo ganha vida, mesmo vivendo o mesmo tempo. Prolongar a duração de nossa vida não é algo sobre o qual tenhamos muito controle. Aumentar a nossa vida ganhando tempo dentro da duração que ela tem é algo, porém, que está ao alcance de todos. Basta um pouco de esforço e determinação.

Campinas, 27 de Março de 2001

Administração do Tempo – Entrevista para a Revista “É Domingo” (de Sorocaba)

[Entrevista dada por e-mail em 25/02/2007 para Vanessa Olivier, da revista É Domingo, de Sorocaba.]

É Domingo:

Como organizar o tempo na vida pessoal, conseguindo um equilíbrio entre trabalho, família, lazer?

Eduardo Chaves:

Interessei-me pelo tema porque, há uns 15 ou 16 anos, andava assoberbado pelas demandas do  trabalho – era professor da UNICAMP, consultor de empresas, consultor de escolas, tinha filhos para criar, etc. Lazer, nem se pensava. Muitas vezes a família ia para a praia e eu ficava trabalhando. Trazia trabalho para casa à noite. A maior parte das pessoas conhece bem o problema. Mas, por outro lado, li, naquela ocasião, que o presidente de uma grande empresa multinacional havia saído de férias por 30 dias, indo para a Terra do Fogo, e que esquecia do trabalho durante aqueles dias e queria ser esquecido: nem deixava o telefone de onde estava. Perguntei-me: como ele consegue?

Fui estudar a questão e percebi, primeiro, que não há solução fácil ou mágica. A vida contemporânea é complexa mesmo e faz inúmeras demandas sobre o nosso tempo. Mas, embora nem fáceis nem mágicas, há medidas que podem nos ajudar a assumir controle de nossa vida – porque é disso, em última instância, que se trata.

A primeira medida é ganhar clareza sobre como gastamos o nosso tempo – fazendo um acompanhamento detalhado dos nossos dias durante um certo período.

A segunda medida é analisar cuidadosamente esses dados, classificando-os entre “Importantes e Urgentes”, “Importantes mas não Urgentes”, “Não-Importantes mas Urgentes” e “Não-Importantes e Não-Urgentes”.

A terceira medida é imediatamente deixar de fazer o que não é nem importante nem urgente. Ler jornais e revistas semanais de cabo a rabo, navegar sem rumo pela Internet, checar os e-mails duzentas vezes por dia, arranjar os ícones de aplicativos no desktop, brigar com a operadora de telefone por causa de um erro de cinco reais na conta, etc. – nada disso é importante ou urgente. Ganham-se preciosos minutos por dia e por semana deixando de fazer isso.

A quarta medida é tentar lidar com o que é urgente mas não importante. Como as coisas aqui são urgentes, não é possível simplesmente deixar de fazê-las. A solução é delega-las. Uma secretária, um assistente, um estagiário, um office boy, uma empregada doméstica – ou mesmo o cônjuge ou os filhos – podem assumir muitas dessas tarefas. O problema é que muita gente não consegue delegar. Conheço um grande advogado que não delega a estagiários nem mesmo a tarefa de ir ao fórum para acompanhar o andamento de processos. Segundo alega, uma vez fez isso e perdeu um prazo importante porque o estagiário bobeou. Mas nunca iremos conseguir administrar o tempo se não soubermos delegar – e lidar com eventuais problemas à medida que aconteçam.

Isso resolvido, temos de lidar com o que realmente vale a pena: as coisas importantes.

Algumas delas são também urgentes: se não pudermos delegá-las a quem possa realizá-las bem, temos de nos dedicar a elas imediatamente e fazê-las o mais rápido possível. Sem relaxo, mas, também, sem perfeccionismo. A incapacidade de delegar e o perfeccionismo são, talvez, os dois maiores inimigos da boa administração do tempo. A pressa, dizem, é inimiga da perfeição. Mas a busca da perfeição, embora necessária nas artes e no esporte, é inimiga da gestão eficaz do tempo. O artista e o esportista só conseguem chegar perto da perfeição porque são focados exclusivamente numa coisa – e deixam tudo o mais de lado. Nós, pobres mortais, que não podemos fazer isso, tempos de abrir mão da busca da perfeição  – sem, porém, abrir mão de certos padrões de qualidade.

Outras coisas importantes não são tão urgentes, ou assim parece. A nossa tendência aqui é procrastinar – empurrá-las com a barriga. A procrastinação é o terceiro grande inimigo da boa administração do tempo. Ter tempo de qualidade com a família é importante para você? Priorize isso. Abra mão, se necessário, de outras coisas menos importantes. Cuidar de sua saúde, exercitar-se, ter lazer, é importante para você? Priorize isso. Nada faz com que algo importante se torne também urgente como um grande susto com a saúde: um infarto, por exemplo. Sei do que falo nesta questão – embora às vezes me pegue me comportando como se não soubesse…

É Domingo:

Qual são as consequências para quem não consegue tempo para a saúde, para o lazer, para a família?

Eduardo Chaves:

Um infarto, por exemplo, como acabo de mencionar… Ou o cônjuge encontrar alguém que lhe dê mais tempo e atenção… Ou perceber que os filhos cresceram e você não notou, e, hoje, são quase estranhos em suas vidas… Ninguém conscientemente deseja essas coisas. Mas, frequentemente, nos comportamos como se as desejássemos.

É Domingo:

No que isso pode prejudicar no mundo dos negócios?

Eduardo Chaves:

Uma pessoa de negócio com problemas de saúde ou com problemas familiares não tem condições de apresentar o mesmo desempenho que apresentaria se a saúde estivesse 100% e tudo estivesse bem com o cônjuge e os filhos.

É Domingo:

Quais são as principais barreiras encontradas pelas pessoas que não conseguem administrar sua agenda? E como elas podem rompê-las?

Eduardo Chaves:

Já as listei: incapacidade de delegar, perfeccionismo, procrastinação. É possível adquirir novos hábitos nessas áreas – mas não é fácil: exige determinação, paciência e persistência. Sempre vai haver recaídas – mas não podemos usá-las como justificativa para voltar aos velhos hábitos.

É Domingo:

O que é preciso saber para conseguir sucesso na vida profissional e pessoal?

Eduardo Chaves:

Gosto de listar os Seis P’s: Pensamento, Propósito, Paixão, Plano, Produção, Persistência.

O sucesso só vem para quem sabe o que busca, para quem sabe aonde quer chegar. Essa a função do Pensamento: uma ideia norteadora que vai nos servir de bússola.

Mas o Pensamento só não basta: é preciso que ele se transforme em um Propósito.

É preciso que esse Propósito seja perseguido com Paixão.

Mas a Paixão não é substituto para a elaboração de um Plano racional para realizar o Propósito.

Um Plano certamente não pode ficar no papel: precisa ser posto em prática, transformado em ação. Essa é a função do que chamo de Produção.

Por fim, Persistência. Vai haver problemas e dificuldades, haverá horas em que ficaremos tentados a desistir… Mas os que são bem sucedidos são aqueles que, mesmo quando caem, “levantam-se, sacodem a poeira e dão a volta por cima”.

É Domingo:

Por fim, sua formação profissional e especialidades.

Eduardo Chaves:

Fiz curso de Graduação e Mestrado em Teologia e Doutorado em Filosofia. Fui professor universitário durante 35 anos – 32 dos quais na UNICAMP, da qual me aposentei no final do ano passado. Há cerca de 25 anos me enveredei pela área do uso da tecnologia na eficiência pessoal, no treinamento, na educação. Isso é hoje uma de minhas áreas de atuação profissional, como consultor. A Microsoft é minha principal cliente aqui. Desde janeiro deste ano sou Secretário Adjunto de Ensino Superior do Governo do Estado de São Paulo.

Em Campinas, 25 de fevereiro de 2007

“O CAOS em Revista”: Editoriais e Artigos de Eduardo Chaves, publicados e censurados de 18-3-1966 a 18-8-1966 [2a edição, revista e ampliada]

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NOTA DE 24.10.2021

A matéria que a seguir republico, em duas partes, ambas em 2a edição, ambas revistas, mas apenas a primeira ampliada, é totalmente de minha autoria (exceto por um texto chamado Manifesto dos Quinze, que indico claramente não ter sido escrito por mim).

Primeira Parte

A Primeira Parte foi publicada anteriormente, neste mesmo blog em que agora publico a presente matéria, Liberal Space, na forma de três artigos sequenciais, escritos em 2006, quinze anos atrás (escrevo esta nota em 24.10.2021), que formam um bloco integrado. Ele foram divididos em três artigos apenas por dificuldade de publicar um artigo de blog muito longo. Tanto é assim que, posteriormente, em 2015, com tecnologia mais evoluída, eu agrupei os três artigos em um só e publiquei o resultado, como um artigo só, em um outro blog meu, Autobio Space.

É essa publicação agrupada na forma de um artigo “três-em-um” que eu republico abaixo, com correções, revisões e ampliações, como Primeira Parte.

Segunda Parte

A Segunda Parte foi totalmente escrita, na forma de Editoriais e Artigos, nos meses de Março a Agosto de 1966 (cinquenta e cinco anos atrás, pois escrevo, como já dito, em 24.10.2021). A publicação, em 1966, foi feita no jornal acadêmico O CAOS em Revista, de saudosa memória, que era o órgão oficial do Centro Acadêmico “Oito de Setembro” (CAOS), órgão de representação dos alunos do Seminário Presbiteriano do Sul (SPS), de Campinas, SP, instituição de ensino da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB). Todos os meus Editoriais e Artigos foram censurados. Em alguns casos, a posteriori, envolvendo a determinação (pela Congregação do Seminário) da cessação imediata da distribuição do jornal e o confisco dos exemplares remanescentes (que não haviam ainda sido distribuídos). Isso se deu com os números de Março e Abril de 1966. E, neste ponto, a Congregação do Seminário implantou a censura prévia para qualquer publicação oriunda dos alunos, não só para as publicações do CAOS. Como um grupo de alunos não envolvidos com a Diretoria do Centro Acadêmico, do qual eu era Secretário, além de Editor do jornal, publicou um Manifesto, que ficou conhecido como o Manifesto dos Quinze, por este ser o número dos signatários. Os quinze e seu mentor, Prof. Waldyr Carvalho Luz, fizeram isso sem a autorização prévia da Congregação (fato por mim comprovado mediante carta à Congregação e resposta dela). E a Congregação não os puniu por desobedecer à sua instituição de censura prévia. Diante disso, o CAOS resolveu partir para a desobediência civil e publicou o número de Maio de 1966 de “O CAOS em Revista”, sem submetê-lo previamente à Congregação. O jornal foi novamente censurado (a posteriori) e seus exemplares remanescentes foram confiscados, mas, prevendo o que iria acontecer, editamos e imprimimos o jornal na surdina, fizemos uma tiragem maior e conseguimos distribuir cerca de 200 exemplares antes de a Congregação se manifestar.

Esta Segunda Parte contém apenas as matérias escritas em 1966 (de 18.3.1966 a 18.8.1966), com exceção do Manifesto dos Quinze (transcrito abaixo). Ela foi publicada anteriormente no meu blog Autobio Space, em 7.11.2015, em preparação para a comemoração dos Jubileu de Ouro — 50 Anos — dos Eventos de 1966, o que acabou não acontecendo, em 2016.

Dados da Publicação Anterior dos Materiais

Para facilitar o acesso do leitor, aqui estão os endereços originais de todos os artigos mencionados.

O primeiro artigo, que tem o título de Quarenta anos depois do CAOS: 1966-2006 (I), foi publicado em 8.9.2006, no blog Liberal Space, no endereço https://liberal.space/2006/09/08/quarenta-anos-depois-do-caos-1966-2006-i/.

O segundo artigo, que tem o título de Quarenta anos depois do CAOS: 1966-2006 (II), foi publicado também em 8.9.2006, no mesmo blog, Liberal Space, no endereço https://liberal.space/2006/09/08/quarenta-anos-depois-do-caos-1966-2006-ii/.

O terceiro artigo, que tem o título de Quarenta anos depois do CAOS: 1966-2006 (III), foi publicado também em 8.9.2006, no mesmo blog, Liberal Space, no endereço https://liberal.space/2006/09/08/quarenta-anos-depois-do-caos-1966-2006-iii/.

Esses três primeiros artigos, que, agrupados, formam a Primeira Parte do presente artigo, foram agrupados em um só, para simplificar o acesso, e republicados, em outro blog meu, Autobio Space, em 7.11.2015 (vai fazer seis anos, em poucos dias), com o título “Quarenta Anos depois do CAOS: 1966-2006”, no endereço https://autobiospace.wordpress.com/2015/11/07/quarenta-anos-depois-do-caos-1966-2006/.

O artigo que aqui é publicado como Segunda Parte contém exclusivamente material de natureza histórica, referente à chamada Crise de 1966 no Seminário Presbiteriano do Sul, de Campinas, da Igreja Presbiteriana do Brasil.

Ele contém os Editoriais e Artigos meus escritos para O CAOS em Revista, escritos em 1966 (quarenta anos antes dos três artigos da Primeira Parte), para os interessados na História da Igreja Presbiteriana do Brasil, que assim, podem consultá-los sem meus comentários contextualizadores.

O título original do quarto artigo (o único artigo da Segunda Parte) é “‘O CAOS em Revista’: Editoriais e Artigos de 18-3-1966 a 18-8-1966 (com censura posterior ou prévia)“, e ele foi publicado em meu blog Autobio Space, em 7.11.2015 (na mesma data do artigo agrupado mencionado anteriormente), no endereço https://autobiospace.wordpress.com/2015/11/07/o-caos-em-revista-editoriais-e-artigos-de-18-3-1966-a-18-8-1966-com-censura-posterior-ou-previa/. Na edição original o título era levemente diferente.

Registre-se que o material da Segunda Parte está contido, quase totalmente, nos artigos da Primeira Parte, mas, nesta, está quebrado em diversas citações, que dificultam o entendimento da sequência e da unidade do material.

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PRIMEIRA PARTE

Apresentação da Primeira Parte

Esta é uma contribuição do autor, protagonista e testemunha ocular dos fatos, para a História da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), pois seu conteúdo é tal que as publicações oficiais da IPB, e mesmo os artigos e livros de seu historiador oficial, ignoram, escondem ou camuflam as informações aqui contidas.

Quarenta Anos Depois do CAOS (1966-2006)

CAOS era um acrônimo certo para o nosso Centro Acadêmico naqueles tempos: Centro Acadêmico “Oito de Setembro”. A época, em si, já era de caos, sem necessidade de um CAOS para conturbar ainda mais as coisas.

O Centro Acadêmico “Oito de Setembro” reunia os alunos daquilo que o pessoal da Igreja chamava de “Seminário Presbiteriano do Sul”, localizado em Campinas. A gente, aluno muito metido a besta, dizia que o CAOS reunia os alunos da “Faculdade de Teologia de Campinas da Igreja Presbiteriana do Brasil”. Afinal de contas, a gente (segundo o nosso próprio entendimento) não estudava teologia: estudava e interpretava a realidade brasileira à luz da teologia. Apesar de o Ministério da Educação não reconhecer o Seminário como uma instituição de ensino superior, para nós ele era simplesmente a nossa Faculdade. Ponto final. Até que voltou a ser Seminário e degradou ainda mais para ser Instituto Bíblico…

Não que a gente achasse que o ensino ali ministrado pelos professores fosse de categoria tal a justificar o upgrade para Faculdade. Pelo contrário: nossa opinião, de alunos, acerca da qualidade dos nossos professores e do ensino que nos proporcionavam era a pior possível. “Medíocres” era o rótulo mais generoso que lhes dávamos – com uma ou outra exceção.

O Rev. Francisco Penha Alves, o famoso “Chicão”, era uma delas. Afinal de contas, ninguém pode ser considerado medíocre se ele mesmo se rotula como tal. Ele não era pretensioso: conhecia suas limitações. Era pastor, formado em teologia, em seminário… Mas nos dava aula de filosofia e sociologia. Tive o meu primeiro curso de filosofia com ele. Usava basicamente dois livros como texto s básicos para suas aulas: Living Issues in Philosophy, de H. H. Titus, e Introduction to Philosophy, de George Thomas White Patrick. Era bom professor. Conquistava os alunos para a sua matéria. Devo a ele ter me interessado pela filosofia. Não conseguiu fazer o mesmo com a sociologia.

Eu tinha uma outra exceção: o Rev. Osmundo Affonso Miranda, professor de Novo Testamento, com doutorado no Seminário de Princeton. Ele via talento em mim e eu o admirava. Quando em circunstâncias trágicas ele deixou o Seminário de Campinas – digo, a Faculdade de Teologia de Campinas – para voltar aos Estados Unidos com os filhos, me deu um monte de livros dele e me legou os arquivos pessoais das pesquisas que havia feito para suas teses de Mestrado e Doutorado.

O resto era triste. Alguns, ressalvo, eram gente boa, no plano pessoal, mas péssimos professores – simplesmente despreparados ou, então, extremamente dogmáticos. Outros, nem gente boa eram – além de também serem despreparados ou dogmáticos. Deixo de citar os seus nomes por generosidade (embora os nomes de alguns apareçam adiante em outro contexto).

Entrei na Faculdade de Teologia de Campinas, pertencente à Igreja Presbiteriana do Brasil, em Fevereiro de 1964. O primeiro dia de aula foi 17 de Fevereiro, uma segunda-feira. O nome oficial da instituição era Seminário Presbiteriano do Sul. Mas a gente preferia chamar a instituição de Faculdade de Teologia. Minha festa de calouro estava programada para o dia 1º de abril. É evidente que não houve. Os militares, dando início ao golpe político-militar, com amplo apoio da sociedade, levaram de roldão a minha festa de calouro. Eu tinha uma madrinha, a Yara Lígia, mas nunca entrei com ela na festa. Ela me deu, porém, como presente, o livro Conheça-se a Si Mesmo, de Karen Horney. Na dedicatória dizia: “Ao meu afilhado, Oscar, a bênção de sua madrinha, Yara Lígia”. Yara, estou tentando… (Todo mundo me chamava de Oscar, naquela época, e não Eduardo, porque meu nome é composto, Eduardo Oscar, mas Oscar era o nome de meu pai).

Os dias que transcorriam entre o início das aulas e a festa dos calouros eram de trote. Os calouros tinham de andar de gravata o tempo todo – até indo para o banho. E, por falar em banho, havia o banho de um calouro toda noite, depois do café das 21h. A gente tomava café e os calouros corriam pros quartos. Dali a pouco ouvia o coro dos veteranos subindo as escadas e cantando: “A árvore da montanha, olê-le-a-ô, a árvore da montanha, olê-le-a-ô… A árvore tinha um galho, ai-ai-ai que amor de galho…” Tortura pura. Ameaçavam entrar num quarto, recuavam. Às vezes pegavam um calouro, levavam até o meio do caminho, e desistiam: voltavam e pegavam outro que já se julgava livre por aquele dia. O destino? Uma banheira velha cheia de água no segundo andar do alojamento velho. A gente era levado de óculos, relógio, sapatos, roupa e jogado dentro da água. Às vezes um veterano aparentemente bonzinho dizia: “Ah, vamos tirar os sapatos do calouro, coitado: ele só tem esses…”. Quando o dito calouro caía na água, já encontrava os pobres sapatos flutuando na banheira. Ao sair do banho, o calouro banhado era abraçado pelos veteranos… Ser considerado não-calouro, porém, só depois da festa – que, no meu caso, nunca houve… Culpa dos milicos. Os veteranos precisaram decretar que nossa condição, a partir de um certo momento, era de não-calouro, dando a festa como se tivesse acontecido.

Demorou um pouco para que o espírito repressivo do Golpe de 64 penetrasse os diversos escalões da Igreja Presbiteriana e permitisse que um grupo de pastores perpetrasse, dentro da Igreja, um golpe dentro do golpe. O artífice dessa manobra foi o Rev. Boanerges Ribeiro. O Diabo deve tê-lo em alta conta. Ao perceber que o clima político era propício a uma guinada fundamentalista dentro da Igreja, montou uma estrutura semi-partidária que o levou ao cargo de Presidente da Igreja numa eleição feita em Fortaleza, durante a reunião do Supremo Concílio, em Junho de 1966. Dali para frente foi sarrafo na moçada.

Para entender a razão do sarrafo, é preciso explicar, para aqueles que nunca viveram em Seminário, o que é a vida ali dentro.

Cheguei no Seminário crente piedoso, e tinha certeza de que sairia de lá pastor. Quando saí de lá, dois anos e seis meses depois, tinha perdido a piedade e tinha sérias dúvidas de que realmente viria a ser pastor um dia. Nunca fui.

Do ponto de vista do comportamento, quando cheguei ao Seminário não bebia, não fumava, não dançava, guardava o Domingo. Quando saí de lá, tinha começado a fumar, e, embora nunca de forma exagerada, bebia cerveja, vinho, e, às vezes, até um golinho de pinga. Também tinha tentado aprender a dançar e achava uma bobagem a guarda do Domingo.

O que aconteceu nesse processo? Como é que se processam essas mudanças, que são, na realidade, um processo de desconversão – o caminho inverso de um processo de conversão?

Em outro artigo vou tratar desse processo de desconversão. Aqui basta descrever, com grandes pinceladas, o ambiente que o tornou possível.

O médico que estuda medicina, parece perder o respeito pela doença. Ele muitas vezes a trata de forma brincalhona. Lembro-me de que uma vez minha mãe precisou ser operada, e meu pai assistiu à operação – que foi feita no Hospital Presbiteriano de Rio Claro, pelo amigo dele, e depois amigo meu, Dr. Eduardo Lane. Meu pai ficou irritadíssimo, porque enquanto esperava que a anestesia fizesse efeito, Eduardo Lane (segundo relatou meu pai) havia ficado a fazer uma discreta batucadinha na barriga de minha mãe, sem ligar muito para a gravidade da situação…

Bem, com quem estuda teologia algo semelhante acontece. Rapidamente se perde o espírito de reverência diante das coisas sagradas. Brinca-se com tudo. Dá-se apelido a quem antes não se ousava dizer o nome. O Deus dos Judeus, em Hebraico, é chamado de YHWH – pronunciado Yahweh em Inglês, Iavé (ou Javé, ou Jeová), em Português. Bom, se Deus é Iavé, Jesus Cristo deve ser Iavezinho… Fazia-se gozação com as passagens bíblicas, brincava-se com os milagres… Nada disso significava perda de fé. Era apenas o preço a pagar pela familiaridade excessiva com as coisas ditas sagradas.

Mas não era só a doutrina que era objeto de brinquedo. Brincava-se também com a ética. Embora a maioria absoluta dos seminaristas fosse tão pura quanto o puríssimo coração de Maria, os veteranos adoravam pretender que não eram, para impressionar – através do choque e do escândalo – os calouros… Eles davam a entender que se envolviam em ousadias sexuais que, é mais do que certo, nem em pensamento se arriscavam a perpetrar. Falavam da zona como se fosse um local visitado cotidianamente… E, naturalmente, fumavam, bebiam e dançavam – coisas que, para presbiterianos conservadores, eram quase tão pecaminosas quanto fornicar. No que diz respeito a fumar, beber e dançar não era apenas blefe: aprendi a fazer essas coisas no Seminário. Quanto às outras, se o intuito era chocar, chocavam; se era escandalizar, escandalizavam. Mas os calouros logo viravam veteranos e percebiam que a maior parte desses alardeados comportamentos eram blefe.

Em 1966 entrou uma turma de alunos especialmente conservadora no Seminário. Gente mais de idade, vários casados e com família. Formaram uma patota – e decidiram que iriam converter os devassos veteranos. Conquistaram o apoio do Rev. Waldyr Carvalho Luz (pelos veteranos apelidado de Rev. Trevas), e se reuniam, diariamente, para orar pela regeneração dos colegas que caminhavam rápido no caminho da perdição. Achavam-se os bons, os puros, os eleitos. E nós, os veteranos (eu já estava no meu terceiro ano), adorávamos provocá-los.  E, para provocá-los, exagerávamos nossa heterodoxia (heresia mesmo) e nosso comportamento divergente.

Em Março de 1966 explodiu uma crise no Seminário, da qual, felizmente ou infelizmente, não sei, fui pivô – e estopim. No dia 18 – cerca de um mês, portanto, depois do início das aulas – um estudante do curso breve (curso de três, e não de cinco anos, como era normal), Floramonte Dias Gonçalves, pregou um sermão de prova sobre o livro de Jonas, pressupondo não só a historicidade do profeta mas de todos os mínimos detalhes do relato bíblico. Na exegese do colega, Jonas realmente sofreu um naufrágio, foi engolido por uma baleia, ficou três dias na barriga da baleia e, depois, foi vomitado na praia de Nínive, para onde estava indo quando o ocorreu o naufrágio.

Na crítica ao sermão, o mais conservador de nossos professores, o Rev. Waldyr Carvalho Luz, foi o que mais falou: elogiou o aluno pelo sermão, dizendo, entre outras coisas, que ele fez muito bem em tomar por incontroversa a historicidade do livro, “sem ficar procurando chifres na cabeça de cavalo”. Embora o Rev. Earle D. Roberts (professor de Velho Testamento) houvesse mencionado, meio en passant, que a interpretação histórica do livro enfrentava uma série de problemas levantados pela crítica literária e textual, não explicitou quais seriam esses problemas. O Rev. Osmundo Affonso Miranda (meu guru, professor de Novo Testamento) disse que não concordava totalmente com a interpretação dada ao livro, mas não passou disso. Na verdade, o  comportamento do Rev. Osmundo me irritou mais do que o do Rev. Waldyr, cuja posição não me surpreendeu. Surpreendeu-me, entretanto, a omissão do Rev. Osmundo – até porque eu o admirava muito, tanto no plano pessoal como no profissional. Fui para o quarto pensando o que fazer.

Dias antes, a Diretoria do Centro Acadêmico “Oito de Setembro” (CAOS), do qual eu havia sido eleito Secretário para o ano letivo de 1966, havia decidido publicar um jornalzinho e eu fora escolhido para ser o seu Editor/Redator. Dei-lhe o título, deliberadamente provocante, de “O CAOS em Revista”. Eis o meu primeiro Editorial:

” Em sua reunião de 18 de fevereiro do corrente a Diretoria do CAOS decidiu que se publicasse, periodicamente, um jornal informativo da Diretoria, designando-nos, naquela mesma ocasião, responsáveis pela sua edição. Exatamente um mês após sai o primeiro número. Como primeiro é este um número experimental, para o qual pedimos a opinião dos colegas, para que ele venha a ser a expressão do corpo discente de nossa casa. Não é, porém, apenas a opinião dos colegas que solicitamos. Pedimos também a colaboração de cada um através de artiguetes escritos, através de trechos ou excertos traduzidos de livros ou revistas, através da indicação de livros e artigos recomendáveis. Esperamos que os colegas nos tragam suas colaborações. Será distribuído, gratuitamente, apenas um exemplar para cada colega. A pessoa que desejar mais números terá que pagá-los a razão de Cr$ 200 cada. Será esta uma maneira de arranjarmos um pouco de fundos para a contínua publicação do jornal. Cada vez que houver material suficiente, nas mãos do redator, para a tiragem de um número, este sairá. Contamos, pois, com a colaboração de todos. “

A crítica do sermão (mais do que o sermão em si) me deu o assunto para o primeiro número. O resto foi recheio.

Com toda a paixão dos meus 22 anos, escrevi um pesado artigo sobre o assunto com o título de “Instituto Bíblico em Campinas”. Chamar a Faculdade de seminário já era ofender. Chamar o Seminário de “Instituto Bíblico”, era chamar para briga. Institutos Bíblicos eram, em geral, instituições sem tradição acadêmica, e sem regulamentação, que preparavam leigos para o trabalho na Igreja em locais afastados em que não havia pastores em número suficiente. No artigo, ressalvei o direito de o colega Floramonte pregar sobre o que quisesse, do jeito que quisesse. O que não era admissível, argumentei, sendo a ocasião um sermão de prova, feito, portanto, para fins didáticos, era que os mestres se calassem sobre os problemas e as interpretações alternativas do livro de Jonas. Os problemas eram tantos, afirmei, que ignorá-los era equivalente a não ver chifres na cabeça de um boi – frase que especialmente feriu o Rev. Waldyr, de quem eu era, até aquele momento, um dos alunos mais queridos, por ter tirado algumas das maiores médias em Grego na história do Seminário (acima de 98.5, em três semestres consecutivos). Além do mais, o Rev. Waldyr havia sido colega de meu pai no Seminário.

Mas em vez de resumir o artigo, êi-lo na íntegra:

” Estamos ainda debaixo do revoltante impacto que nos causou a crítica ao sermão pregado hoje por um de nossos colegas. Queremos, de início, esclarecer que tudo o que aqui vamos dizer não visa à pessoa e às idéias do pregador, mas sim à posição e às idéias dos “críticos”, membros do corpo docente desta “Faculdade”. Colocamos estas duas palavras entre aspas porque não reputamos críticos os que não levam em conta a obra e os resultados da Crítica, fazendo de sua “crítica” tão simplesmente uma avaliação da simpatia do pregador, de sua vestimenta, de sua linguagem, de sua elocução, da estrutura homilética de seu sermão, de sua liturgia, negligenciando o cerne do sermão que é a interpretação dada ao teto. Para se fazer esta interpretação a Crítica Histórico-Literária e Textual é simplesmente considerada “farrapos”. Além do mais não consideramos Faculdade uma instituição de ensino que se aliena, através de seus professores (mas graças a Deus não através de todos os seus alunos) do movimento intelectual teológico contemporâneo. O que está se dando aqui é que nosso Seminário, tido aí por fora como “Faculdade de Teologia”, não passa, atualmente, de um Instituto Bíblico, que acha virtude, através de alguns de seus professores, em nem se aproximar dos problemas levantados pela Crítica Bíblica, e que acha que os alunos não precisam conhecê-los, pois são irrelevantes.

Vejamos, porém, o caso concreto.

Pregou-se, hoje, uma sermão de prova biográfico sobre JONAS. Como base da mensagem do pregador estava a pressuposição de que o livro de Jonas é um livro histórico no sentido de que as informações nele contidas são historicamente fidedignas, e que o que nele é registrado se deu literalmente como o descreve o livro. O Jonas de que o livro fala foi tido como o profeta Jonas, filho de Amitai, que profetizou em Israel, no século VIII, no reinado de Jeroboão II (Cf. II Reis 14:25). Reafirmamos que o pregador tinha pleno direito de fazer o que fez, ou seja, de dar esta interpretação conservadora ao livro. Não o criticamos por isso. Afirmamos também que os mestres tinham pleno direito de concordar com o pregador a respeito de sua interpretação e da linha de sua mensagem, o que de fato fizeram. Com o que não concordamos, porém, é que o outro lado da questão não tivesse sido sequer mencionado! Um dos professores mencionou de passagem que o livro apresentava problemas críticos, mas nem sequer esboçou quais e que tipos de problemas seriam estes. Apenas afirmou (certamente opinião pessoal sua) que a Crítica havia tornado o livro em “farrapos”, subentendendo-se daí que se é impossível pregar sobre o livro de Jonas com uma interpretação outra que não a sua pessoal, naquele contexto representada também pelo pregador e pelos outros críticos. Um outro crítico mencionou que sua opinião era diferente, mas não julgou conveniente apresentá-la. De qualquer forma o sermão foi tido como muito feliz, pela interpretação sadia, pela riqueza de material, etc., pois fugiu dos problemas críticos, “não procurando chifres na cabeça de cavalo”. Embora um crítico houvesse achado que o sermão carecia de melhoras, a impressão tida após a crítica é que o sermão do colega foi o tipo de sermão ideal, “ungido” (o termo foi usado).

Nossa intenção, aqui neste artiguete, pelo qual somos pessoalmente responsáveis, é apresentar o outro lado da questão, como um dever de consciência, pois o outro lado foi redondamente ignorado pelos “críticos” do referido sermão. Se o fazemos é no interesse de esclarecer os colegas, mostrando que o livro de Jonas é “pregável” mesmo depois de a ele ser aplicada uma crítica bastante radical.

Vamos à questão.

O livro de Jonas é diferente de todos os outros escritos proféticos do Velho Testamento no sentido de que não contém uma coleção de oráculos de um profeta, mas é simplesmente uma história a respeito de um profeta. Pode ser esta a razão pela qual um livro que não reivindica de modo algum ter sido escrito por um profeta (o v.1 diz: “Veio a palavra do Senhor Jonas, filho de Amitai, dizendo:…” – Notar que o livro é escrito na terceira e não na primeira pessoa: “Jonas se dispôs”, “Jonas orou”, etc.), e que no aspecto literário pertence a um tipo bastante diferente, foi incluído entre os Livros dos Doze Profetas. Nem podemos dizer que o livro de Jonas seja um conto profético de natureza histórica e biográfica, porque a base requerida para tal não está presente no livro. O livro de Jonas é um poema didático, podemos mesmo dizer que um poema parabólico, escrito para mostrar que Deus se compadece mesmo dos ímpios quando eles se arrependem (3:10; 4:10). Este poema foi escrito com uma moral dirigida contra a intolerância dos Judeus e sua arrogância para com as nações pagãs, resultantes da doutrina da eleição mal interpretada em um sentido particularista. Bastava somente esta moral para que concluíssemos que o livro é pós-exílico, pois sua atitude básica toma por pressuposta a influência de Dêutero-Isaías com sua idéia de salvação universal. O capítulo 3, versículo 3, dá a entender que Nínive era considerada uma cidade legendária, dos tempos antigos. Além do mais, a linguagem do livro, com seus aramaísmos, e com formas hebraicas bem posteriores em seu vocabulário e estilo (1:6, 7; 2:1; 3:2, 7; 4:6, 8) não permite que se date o livro anteriormente ao século V. Como terminus ad quem há o fato de o livro ser pressuposto no século II (Cf. Eclesiástico 49:12; Tobias 14:4,8).

Não há dúvida, entretanto, de que o autor do livro de Jonas tivesse tido a intenção de fazer com que o Jonas por ele descrito fosse entendido como o Jonas do século VIII. Isto era comum na antiguidade, quando a questão de direitos autorais e de direitos de nome não era problema jurídico. Qualquer pessoa podia escrever um livro em nome de outrem, ou poderia por seu nome em obra de outrem, ou poderia ainda, como no caso, usar a pessoa de outrem como personagem de seus escritos. O autor, contudo, não pretendeu estar escrevendo naquela época. Além do mais há muito no livro que indica que ele vem de um período bem posterior ao século VIII, além do que apresentamos acima. A cidade de Nínive não era tão grande no século VIII. Além do mais é difícil de se crer que uma cidade tão grande quanto a descrita tenha se convertido “desde o menor até o maior” (3:5), o rei inclusive 3:6 sqq. Note-se que em nenhum lugar mais, nem na Bíblia, nem fora dela, se menciona “Rei de Nínive”, pois o rei não era de Nínive, e sim da Assíria, país cuja capital era Nínive, e que isto não tenha sido registrado em nenhum lugar, nem nas crônicas assírias nem nas israelitas. Por cima é difícil de harmonizar como a Nínive convertida a YHWH, inclusive com seu rei, no século VIII, tivesse, com o restante da Assíria, ainda naquele mesmo século (721), conquistado Israel e destruído Samaria, levando cativos os líderes.

Por todos estes motivos é difícil crer na historicidade do livro como tal. Não negamos que tenha existido um Jonas, filho de Amitai, profeta. O que afirmamos é que ele não é o protagonista deste episódio, e que o que é narrado no livro de Jonas é uma parábola escrita com a finalidade acima apresentada, a saber, de mostrar aos Judeus que Deus se compadece e quer a redenção mesmo dos ímpios e gentios. Porque esta mensagem é apresentada com igual clareza por Deutero-Isaías é que se coloca o livro de Jonas mais ou menos na mesma época.

Agora perguntamos: Reconhecer isto é “procurar chifres na cabeça de cavalos”? Cremos que não reconhecê-lo é ignorar chifres na cabeça de um boi! Continuamos: reduz isto o livro de Jonas a “farrapos”? Absolutamente! Devemos deixar de pregar sobre o Bom Samaritano somente porque ele não é histórico? Evidentemente não! Se isto é verdade podemos pregar sobre o livro de Jonas mesmo que o episódio e o personagem ali descritos não sejam históricos. O que importa é a mensagem que o autor quis transmitir, ao criar esta parábola: quebrar as tradições nacionalistas dos Judeus, mostrando que Deus ama até os inimigos de Israel!

Embora o livro por seu tipo literário não seja profético, seu espírito o é, particularmente na tendência geral de pensamento a ele imprimida, quando foi escrito, em tempos pós-exílicos. Para por em cheque o particularismo exclusivista do Judaísmo pós-exílico, e a distorção da doutrina da eleição imposta pelo egoísmo religioso, este livro testifica a grandeza da profética concepção de Deus, e a ampla tolerância que esta concepção implica! O livro ainda hoje é uma voz profética e uma permanente advertência contra tudo o que estreita e particulariza a religião, e contra todo exclusivismo religioso. Porque pretendeu mostrar que a compaixão de Deus é maior que o coração humano, que sua vontade de salvar alcança mesmo além dos limites de seu próprio povo, e portanto o leva à tarefa missionária, este livro pertence aqueles no Velho Testamento que prepararam o caminho para o Evangelho.

Os colegas julguem se a crítica que aplicamos ao livro, privando-o de sua historicidade, tornou-o “impregável”, esfarrapou-o. Julguem se, em uma Faculdade de Teologia do gabarito que a nossa pretende ter, pode alguém pregar sobre Jonas nos termos em que se pregou, sem que qualquer dos professores presentes à crítica tivesse sequer levantado o problema da historicidade do livro.

Aos Colegas, a palavra! “

A crise estava iniciada.

Eis a versão do caso dada pelo Rev. Waldyr Carvalho Luz, em sua autobiografia:

” Eu encontrava séria resistência e era indisfarçada a má vontade para comigo da parte da maioria dos alunos e de certos professores. Assim é que ao criticar um sermão pregado pelo seminarista Floramante [sic] Dias Gonçalves, elemento sério, firme, um dos poucos que se me revelavam amigos, eu o louvei pelo teor edificante da mensagem e pelo fato de não ceder aos pressupostos críticos que negariam a historicidade do profeta e do livro, dizendo eu que tais críticos achariam até “chifres em cabeça de cavalo”. Essa afirmação minha irritou profundamente os “doutos” adeptos da mentalidade liberal-modernista e, na manhã seguinte, circulava um jornaleco ou folhetim do famigerado CAOS (Centro Acadêmico Oito de Setembro), o grêmio dos estudantes, em que um seminarista que viera para o Seminário muito crente e piedoso, filho de consagrado pastor meu contemporâneo de Seminário, agora um dos mais virulentos corifeus da nova linha de pensamento, derramava todo o seu amargo fel em insultuoso artigo contra mim e minha posição teológica. O folhetim não publicaria defesa minha, já que era privativo dos estudantes. A Congregação, fugindo a suas responsabilidades, não tomou medida alguma contra o deselegante rabiscador de inuendos e agravos. Eu, porém, em nada me abalei com esse proceder, seja do estudante, seja da Congregação. ” (Negrito acrescentado na referência a mim como “o deselegante rabiscador de inuendos e agravos”…).

A Congregação, na realidade, determinou ao Reitor (o pacato Rev. Júlio Andrade Ferreira, por quem sempre tive enorme estima pessoal até que faleceu, recentemente), que apreendesse a edição do jornal – o que ele constrangidamente fez (porque, entre outras coisas, também era amigo de meu pai e de minha mãe), mas não antes de havermos distribuído mais de 200 cópias e escondido outras tantas.

O Rev Waldyr, oficiosamente e por iniciativa própria, e certamente com a melhor das intenções (concedo-lhe isto), chamou meu pai a Campinas, mostrou-lhe o artigo, e disse-lhe que, não fora a consideração a ele, meu pai e tutor, eu poderia ter sido suspenso ou mesmo expulso do Seminário incontinenti – no que certamente exagerava. Lembro-me bem de que assistia a uma aula de Alemão, à noite, no Instituto Goethe, no centro da cidade, quando vi meu pai parado perto da porta, do lado de fora. Pensei que minha mãe houvesse morrido, ou que algo igualmente grave houvesse acontecido. Peguei minhas coisas e saí da aula. O assunto era o artigo. Fui severamente repreendido pelo pai e ameaçado de perder a bolsa de estudos pelo tutor. De nada adiantou argumentar. As linhas da batalha estavam definidas.

Voltei para o Seminário naquela noite e quase não dormi. Na noite em claro refleti sobre tudo o que estava acontecendo e tomei a decisão de seguir a minha consciência, que de nada me acusava, e que me lembrava de que mais vale lutar para preservar e ampliar as liberdades que temos do que depois lastimar o seu cerceamento ou mesmo a sua extinção.

Nesse estado de espírito fiquei sabendo, através de um dos colegas (não me lembro quem), que teria sido o meu pai (e tutor), na conversa que teve com o Rev. Waldyr, quem teria recomendado a minha expulsão do Seminário. Liguei para o meu pai para interpelá-lo e verificar a veracidade da informação. Foi uma conversa tensa, que o deixou extremamente preocupado, a tal ponto que ele me enviou, bastante tempo depois, em 30 de abril, um relato escrito do que teria sido a conversa dele com o Rev. Waldyr. Passo por cima do relato por ser muito longo.

Nos dias seguintes à conversa com meu pai, sentei-me à maquina de escrever e escrevi o Editorial do segundo número do jornal, relatando o que acontecera com o primeiro e protestando contra o empastelamento determinado pela Congregação e executado, creio que a contragosto, pelo Reitor. Inspirei-me em Da Liberdade, de John Stuart Mill. Afinal, não estava desobedecendo a nenhuma ordem superior, porque a resolução da Congregação, determinando a apreensão do primeiro número, não havia proibido a publicação de um segundo, nem a discussão do que havia acontecido.

Publicado o segundo número do jornal, em 18 de Abril de 1966, a pancada veio mais forte. O segundo número do jornal também foi apreendido e a Congregação agora determinou que os estudantes nada publicassem sem a prévia censura da Congregação. Eis o editorial-artigo, chamado “Ainda Jonas”, que foi o carro chefe do número:

” No número anterior, primeiro de nosso jornal, procuramos, em um artigo que teve um Sitz im Leben de todos conhecido, dizer algumas palavras sobre o livro de Jonas. Naquele ocasião dissemos que o livro tinha uma mensagem ainda hoje relevante, pois era “uma voz profética e uma permanente advertência contra tudo o que estreita e particulariza a religião, e contra todo exclusivismo religioso”. Nosso interesse hoje é assinalar a relevância e o oportunismo desta mensagem no contexto imediato em que nos encontramos, a saber, na vida da IPB.

Vimos, no artiguete passado, que a mensagem de Jonas foi um brado de protesto contra o nacionalismo particularista dos judeus que se consideravam detentores únicos e exclusivos da divina graça, e que, assim fazendo, limitavam à ação de Deus à nação política Israel. Deus estava cercado dentro dos limites políticos da nação. Qual a relação que isto pode ter com a IPB? A relação é que, ainda hoje há o grupo que se considera detentor exclusivo e único da graça divina, grupo este que, assim fazendo, procura limitar a ação de Deus, não a uma nação política, mas a um círculo ideológico, que procura cercar Deus, não dentro de limites políticos, mas de limites ideológicos.

Concretizamos: aqueles que, no seio da IPB, estão preocupados em tirar do seu caminho todos os que não concordarem em gênero, número e caso com os padrões rígidos de sua “ortodoxia” superada estão praticando o mesmo tipo de exclusivismo religioso (senão pior) praticado pelos judeus aos quais foi dirigida a mensagem do livro de Jonas. Estas normas “ortodoxas” têm se tornado os limites cerceadores da ação de Deus. Quem delas se afastar — dizem, ou se não dizem assim o entendem, pois suas atitudes o comprovam — afasta-se do próprio Deus, e então não é digno de permanecer na IPB. Precisa ser expurgado (palavra, por eles, estimadíssima!).

Vimos, contudo, no artigo passado, que quando o homem estabelece limites que particularizam e estreitam a órbita da ação de Deus o próprio Deus encontra um meio de arrasar com essas pretensões do coração humano. As obras do autor de Jonas e de Dêutero-Isaías são em Israel  evidências típicas disto. Foi porque os israelitas não atentaram ao fato de que Deus queria quebrar (como de fato quebrou) estas barreiras particularizantes que foram por Ele rejeitados.

É conscientes desta verdade que levantamos a nossa voz em protesto contra a estreiteza de mente de alguns dentro da IPB para os quais até opinião é delito, para os quais a livre expressão do pensamento é causa suficiente para expurgo! Como é mais fácil lutar para manter as liberdades que já temos do que lutar para reconquistar as liberdades perdidas, “O CAOS em Revista” se dispõe, em suas páginas, a dar livre expressão ao pensamento dos alunos. O número presente é exemplo disto. Não podemos permitir que nos tolham a liberdade de termos os nossos próprios pensamentos e o livre direito de expressá-los. É esta a base da democracia. É esta a base do regime presbiteriano. Em sua obra Utilitarianism, Liberty and Representative Government (New York: Dutton, 1910) John Stuart Mill faz notar, com toda razão, que silenciar a expressão de uma opinião é roubar a raça humana, tanto a geração presente como a posterior, sendo ainda mais prejudicados os que discordam do que os que mantêm a opinião, pois, se a opinião é correta, aqueles que dela discordam estão perdendo a oportunidade de trocar o erro pela verdade, e, se é errada, os dela discordantes perdem o grande benefício de adquirir uma percepção mais clara e mais viva da verdade, proveniente de sua colisão com o erro. Se as idéias que temos expresso e, esperarmos, continuaremos a expressar através deste jornal não são verdadeiras e são perniciosas, não vingarão, pois a melhor maneira de destruir uma idéia falsa é expô-la! Quem tiver com a verdade não precisa temer idéias, por mais estapafúrdias que sejam, pois terão com que refutá-las, através de um franco diálogo. Aqueles que se crêem portadores de idéias verdadeiras, se querem mantê-las, devem torná-las continuamente relevantes, e não impedir que novas idéias apareçam e sejam disseminadas.

Aquilo que tem sido considerado como delito, isto é, a apresentação de idéias que não se harmonizam inteiramente com os padrões oficiais, o delito de opinião, é um crime que devemos praticar diariamente, sob quaisquer riscos. Se deixarmos de ser “criminosos” neste campo, estaremos roubando as gerações passadas que lutaram, até o sangue, para obter as liberdades de que somos herdeiros, a geração presente que estará tendo sua voz sufocada e reprimida, e a geração futura que sentirá que uma geração deixou de realizar o seu papel na história!

Neste espírito e com este alvo é que “O CAOS em Revista” sai, exatamente um mês depois do primeiro, em seu segundo número. “

O Rev. Waldyr novamente contatou meu pai para informá-lo do ocorrido. Com meu pai, nova conversa difícil. Meu pai relutava em acreditar que eu estivesse agindo de moto próprio. Em uma atitude que mais do que tudo ofendia os meus brios, ele achava que outros estavam me usando e que eu estava apenas servindo de “inocente útil”. É difícil discutir quando o outro lado acredita que você é apenas porta-voz.

A comunicação do Seminário com o meu pai deixou, no mês de Maio, de se fazer apenas de forma oficiosa, por intermédio do Rev. Waldyr. Em 11 de maio de 1966, o Rev. Júlio Andrade Ferreira, Reitor do Seminário, escreveu, a meu pai e tutor, uma carta, para comunicar a decisão tomada pela Congregação vinte e dois dias antes. Eis a carta:

” Campinas, 11 de maio de 1966

Rev. Oscar Chaves
Cx. 626
Santo André, SP

Prezado Colega:

Escrevo-lhe esta, na qualidade de Reitor do Seminário Teológico Presbiteriano de Campinas, para comunicar a decisão tomada pela Congregação desta Casa de Ensino, em sua reunião do dia 19 do mês p.p., nos seguintes termos:

“Encaminhar ao PLIS, presbitério a que é filiado o estudante Eduardo Oscar de Campos Chaves, comunicação do caso criado pelo referido aluno, constante de duas publicações no folhetim CAOS EM REVISTA e demais informações atinentes ao caso. Registra-se que na discussão e votação desta matéria não tomaram parte os professores Waldyr Carvalho Luz e Américo Justiniano Ribeiro”.

Junto os dois números do referido jornal do CAOS, bem como a informação de que o 2º número saiu após ter o Reitor dado ordem para que o 1º fosse recolhido, bem como após o Deão ter tido conversa com o aluno, mostrando a inconveniência de atitudes como a assumida pelo aluno, no fazer a crítica constante do 1º artigo.

Pessoalmente, desejo esclarecer que a Congregação resolveu mandar o caso ao Presbitério do aluno, sem tomar, ela mesma, alguma atitude direta quanto ao caso, em virtude de situação interna, que dificilmente poderia expor. O julgamento do aluno, contudo, dificilmente poderia ser justo se todos esses elementos não fossem considerados.

Era o que me cumpria dizer.

Abraça-o, colega e companheiro na seara do Mestre,

Rev. Júlio Andrade Ferreira
Reitor “

Não tenho certeza de qual seria a “situação interna, que dificilmente poderia expor” em virtude da qual a Congregação do Seminário, segundo o Rev. Júlio, resolveu não tomar “alguma atitude direta quanto ao caso”, e que tornaria o meu julgamento, naquela esfera, “dificilmente justo”. Imagino que os problemas diziam respeito aos dois professores que se omitiram de votar no caso, os Revs. Waldyr Carvalho Luz e Américo Justiniano Ribeiro, que persistiam em abster-se nas votações, mas, por trás, tentavam tramar as ações.

As coisas estavam nesse pé quando explodiu outra bomba — agora do outro lado. Sob a coordenação do Rev Waldyr Carvalho Luz, um grupo de alunos, dos mais conservadores (e, acrescente-se, academicamente mais fracos), escreveu um texto-denúncia, intitulado Manifesto dos Quinze, em que relatavam, para a Igreja, todos os desmandos que estariam ocorrendo no Seminário — que iam desde modernismo teológico, com rejeição das idéias calvinistas, desvios éticos, com aceitação, prática e defesa do fumo, da bebida, do amor livre, etc. O manifesto foi enviado para virtualmente todas as igrejas do país — sem haver sido submetido a apreciação da Congregação!

O texto completo desse Manifesto é o seguinte:

” Aos Membros, Oficiais e Ministros da Igreja Presbiteriana do Brasil

Saudações no Senhor,

Sentimos um dia que Deus nos chamava para o sagrado ministério da Palavra. Obedecendo a esse chamamento, decidimos entregar a vida ao serviço do Senhor, não medindo as dificuldades, os problemas, os sacrifícios que teríamos de enfrentar. Foi nesse propósito que viemos para o Seminário. Não tínhamos ilusões de que não iríamos encontrar um céu aberto. Esperávamos, entretanto, encontrar um ambiente favorável para os estudos, um meio apropriado para cultivar espiritualidade, uma atmosfera de seriedade moral e de respeito, particularmente para com as pessoas e as instituições da Igreja. Preferiríamos não dizer da desilusão que tivemos.

Não queremos prejudicar o Seminário ou a Igreja. Nem desejamos atingir pessoas. Somos os primeiros a reconhecer nossa imperfeição, nosso pecado, nossas falhas, nossa pobreza espiritual, nossas deficiências em todo sentido, contudo, aspiramos um Seminário melhor, mais vida espiritual, mais firmeza de caráter, mais consagração, fé mais vigorosa, convicção mais sólida, testemunho mais cristão e espírito mais dedicado na evangelização e na obra da Igreja. Temos silenciado até agora por que não queríamos nem de longe concorrer para o agravamento da situação. Só Deus sabe das angústias de nossa alma e das preocupações de nosso espírito, das lágrimas que temos vertido, das noites mal dormidas, das lutas em oração que temos sustentado. Chegamos, porém, a um ponto em que não mais podemos manter-nos calados. Por amor ao Seminário e à Igreja temos de sair a público para clamar contra os abusos que presenciamos e a situação em que vivemos. Com tristeza infinita, temos de apelar a todos os corações crentes a que se levantem para defender esta Casa, que tanto amamos, e a IPB nesta hora crítica.

Com o maior dos pesares temos de dizer que o Seminário não é hoje a Casa de Profetas, de onde saíam homens de Deus, fiéis à Bíblia e ardendo de entusiasmo pela salvação dos pecadores, ministros piedosos que continuem a obra dos grandes homens do passado, grandes na fé, grandes na consagração, grandes no fervor, grandes na piedade, prontos a todo sacrifício, varões de Cristo sem reservas. O Seminário é hoje um lugar onde se zomba dos que levam a sério a Bíblia, a oração, a vida espiritual; onde se desmoraliza de todas as formas a liderança da Igreja, suas instituições e seus homens de confiança; onde se hostilizam professores que não se dobram aos interesses do grupo dominante; onde se defende a libertinagem e a imoralidade; onde existem clubes dos que se reúnem para fumar e beber; em cujo refeitório se praticam atos que ferem a mais elementar educação e onde a própria oração é motivo de ridículo e zombaria; onde se defende o amor livre e se condena como pietismo e moralismo todo esforço de viver cristãmente, segundo os padrões do Evangelho; onde se tacham de estreitos todos quantos mantêm firmes as doutrinas do Calvinismo clássico e aceitam a Bíblia como inspirada Palavra de Deus; onde se veiculam idéias modernistas como se fossem a verdade de Deus, somente porque os teólogos do dia e os estafetas dos evoluídos desta e de outras terras o proclamam; onde não existe interesse geral pela evangelização e pela conversão dos pecadores; onde uma cúpula ativista, politiqueira, de simpatias pronunciadamente esquerdista, exerce inexorável pressão sobre os colegas que não rezam pela sua cartilha e trama de maneira traiçoeira contra os líderes da Igreja que não obedecem à sua linha de pensamento; onde figuras estranhas ao Seminário e até à IPB, muitos até ministros, não sentem escrúpulos em manter encontros para desmoralizar a Igreja, autoridades eclesiásticas e professores da instituição de maneira desleal e revoltante; onde impera a irreverência e o cinismo; onde palavrões e piadas picantes são a norma de não poucos; onde a dignidade feminina e a pureza pessoal são objeto de alusões que não podemos aqui referir. Onde colegas são humilhados e tratados de maneira contrária ao amor de que tanto falam, especialmente aqueles que são novatos, vítima de trotes que refletem bem o espírito evoluído dos seus promotores; onde a vida espiritual e devocional é baixa, tanto quanto o pode ser; onde os cultos são mal assistidos e por alguns inteiramente desprezados; onde um círculo de oração iniciado por um grupo desejoso de mais vida devocional é hostilizado e combatido; onde a maioria indiferente e acomodada, querendo manter uma neutralidade impossível, acaba sempre fazendo a jogada da liderança negativista; onde as próprias autoridades não parecem em condições de agir com firmeza.

Irmãos no Senhor, não dissemos tudo que poderíamos dizer. O próprio deão do ano passado, Rev. Dr. Osmundo Afonso Miranda, traçou um retrato bem realista da situação em seu relatório à Diretoria do Seminário, que é um brado de alerta contra a referida situação. A situação é séria, o sentimos. Por amor a Cristo e Sua Palavra, por amor à IPB e seu ministério autêntico, por amor aos crentes sinceros de hoje e às gerações do futuro, é preciso por paradeiro a esses desmandos. Aqui, diante de nosso Deus, obedecendo à voz de nossa consciência, com o coração sangrando de tristeza, bradamos pedindo que alguma coisa seja feita. Não podemos ficar indiferentes nem calar-nos; seríamos cúmplices desse processo de desmoralização da Causa. Pensai no que estamos relatando, informai-vos de tudo, orai muito e agi com firmeza. E que Deus, o nosso Deus, nos dê forças para não fugirmos ao dever, para sermos fiéis à Sua vontade. Amém.

Hermes Mariano, Presbitério de São Paulo
Ariovaldo C. Bomfim, Presbitério de São Paulo
Elpídio Gonçalves. Presbitério do Rio Doce
Evandro Luiz da Silva, Presbitério de Cuiabá
Floramonte Dias Gonçalves, Presbitério Oeste de Goiás
Célio J. Duarte, Presbitério Florianópolis
Francisco Antônio Maia, Presbitério de Brasília
Silas Augusto Tscherne, Presbitério de Rio Claro
Dirceu Xavier de Mendonça, Presbitério de Rio Claro
Gilson Barbosa Gomes, Presbitério do Rio de Janeiro
Eldman Francklin Eler, Presbitério de Governador Valadares
Adolfo Potenciano, Presbitério de Goiânia
José Silvério Júnior, Presbitério de Brasília
José dos Anjos, Presbitério Norte de Minas
Jarbas Dantas, Presbitério de Campinas “

Aqui está um resumo das principais denúncias nele feitas, nas palavras do Rev. João Dias de Araújo:

As de ordem piedosa: Há quem zombe da Bíblia, da oração e da vida espiritual; a vida devocional é baixa; os cultos mal assistidos ou desprezados; o círculo de oração combatido.

As de ordem doutrinária: Desprezo ao calvinismo, apego ao modernismo, negação da inspiração [da Bíblia], etc.

As de ordem ética: Há libertinagem, imoralidade, fumo, bebida, amor livre, palavrões, piadas atentando à pureza feminina, etc.

As de ordem administrativa: Há os que desmoralizam a liderança da Igreja, hostilizam professores; “uma cúpula ativista, politiqueira, de simpatias pronunciadamente esquerdistas, exerce inexorável pressão sobre os colegas”; “tramam de maneira traiçoeira contra os líderes da Igreja que não obedecem à sua linha de pensamento”; “elementos de fora, até ministros, vêm aqui, tramam, etc. “.

Eis o que diz o Rev. Waldyr sobre o manifesto em sua autobiografia:

” Ante o estado de coisas vigente, autoridades sem pulso, alunos sem disciplina, ensino acomodatício, vago, difuso, incerto, incapaz de dirimir dúvidas e firmar vocações, a vida espiritual do Seminário em nível raso, alunos mais sérios e responsáveis, que se não podiam conformar com a situação, decidiram encontrar-se em reunião de oração às seis e meia da tarde nos dias de aula, convidando-me para com eles participar. Eram reuniões ferventes de súplica a Deus em favor do Seminário, rogando-se ao Senhor interviesse e mudasse as coisas para que o ambiente fosse o de real Casa de Profetas e não um reduto de fariseus, mercenários e agitadores, como estava sendo. Essa plêiade de seminaristas, menos de vinte, ridicularizada pelos colegas avançados e revolucionários, com lágrimas não raro, preservava a pureza da fé, o alvo do ministério, a espiritualidade real, a ética genuína, em orações tocantes e sentidas, brotadas de corações sinceros e almas piedosas.

Vinha essa prática sendo mantida já por meses, quando se realizou no Seminário um encontro de qualquer comissão ou grupo de estudos, de que fazia parte o Rev. Domício Pereira de Mattos, um dos expoentes da corrente liberal. Como costumava acontecer sempre que vultos dessa mentalidade apareciam no Seminário, foi ele convidado a falar aos estudantes, promoção do famigerado CAOS. Havíamos encerrado a reunião de oração, quando chegaram dois do grupo, Gilson Barbosa Gomes e Adolfo Potenciano, visivelmente indignados, dizendo não agüentarem mais a situação, revoltados com o que haviam ouvido nesse encontro, em que o canhestro convidado buscara desestimular os que visavam ao ministério, a seu ver, carreira falida e parasitária, a serviço de uma Igreja retrógrada, dizendo que ele continuava no ministério somente porque, já cinqüentenário, não acharia outro emprego, além de que, perguntado por um dos futuros alunos de Exegese aos Romanos, como impedir que eu fosse o professor, ferindo os ditames de até comezinha ética, a despeito de colegas de Seminário que fomos, aconselhava-os a promoverem desordem em classe, buscando irritar-me com provocações e acintes, que eu perderia a serenidade e eles acabariam levando a melhor. Com os dois solidarizaram-se os demais membros do grupo e decidiram redigir um manifesto à Igreja, expondo tudo o que se passava de irregular no Seminário, embora na época fosse proibido pela Congregação qualquer pronunciamento de alunos a entidades externas [Ênfase acrescentada]. Não se dirigiram à Congregação porque sabiam de sobejo que a questão seria abafada em seu clássico imobilismo. Elaboraram o documento, que veio a ser conhecido por MANIFESTO DOS QUINZE, tantos os seus signatários, e o despacharam aos quatro cantos do país para conhecimento de pastores e igrejas. Foi uma bomba! A repercussão foi enorme e traria resultados inimagináveis.

A Congregação ficou entalada em agudo dilema. Os fatos referidos eram de extrema gravidade. Eu que tomara conhecimento do teor do documento desde o início, por muitos havido como de minha lavra, o que não era bem verdade, pois que não o redigi, apenas revi a fraseologia e linguagem, indaguei dos rapazes se eles tinham provas objetivas de tudo quando denunciaram, e afirmavam que sim, porquanto, do contrário, corriam sério risco de exemplar punição. Não tomar medida nenhuma comprometeria a Congregação, inda mais que estava próxima a reunião do Supremo Concílio. Punir os signatários do documento comprovaria evidente parcialidade. Apurar os fatos poderia acarretar pesadas críticas e desprestigiar a Direção do Seminário. Como algo teria de ser feito, decidiu a Congregação encarregar uma comissão de professores, de que eu não fazia parte, de, à base do Manifesto, elaborar um questionário a ser respondido, de surpresa, pelos alunos. Constou de vinte e oito quesitos que abordavam todos os aspectos envolvidos, menos questões políticas. Era esperança de muitos que os acusados negassem o que deles se dizia e os não-acusados pouco ou nada confirmassem que pudesse convalidar as denúncias contidas no Manifesto. Dos acusados apenas um se furtou a responder objetivamente, os demais todos confessaram as faltas denunciadas; dos signatários, um recuou do que havia subscrito, justamente Gilson Barbosa Gomes, que de início se mostrara tão inconformado, os não-denunciados, por sua vez, confirmaram os fatos incriminados. A Congregação não teve outra solução senão encaminhar todo o material ao supremo Concílio para apreciação. Os quinze estavam vindicados! “

A Congregação não puniu os alunos que haviam desrespeitado a sua Resolução nem repreendeu o mestre que os incitou a fazê-lo, tendo até mesmo, segundo admite, ajudado na redação da peça. Não vindo a punição, considerei-me moralmente justificado, nessas circunstâncias, a também ignorar a Resolução da Congregação e publicar o terceiro número do jornal — e foi isso que fiz. 

Foi este o meu Editorial no terceiro número de “O CAOS em Revista”, publicado em 18 de Maio de 1966:

” Novo dia 18. Novo “O CAOS em Revista”. Até aqui temos podido ser pontuais. Esperamos poder continuar a sê-lo.

Muitas coisas aconteceram em nossa casa desde que o segundo número saiu. Dentre elas merece destaque, não pelo conteúdo, mas pela repercussão, o Manifesto (na falta de melhor palavra) que um grupo de quinze alunos endereçou aos membros da Igreja Presbiteriana do Brasil, delatando coisas que se passam aqui dentro (e até as que não se passam), separando estas coisas de seu contexto, julgando-as erradas e pedindo punição para quem as comete. Deve ser dito ainda que o referido manifesto está sendo espalhado ilegalmente, pois não passou pela Congregação, canal competente para o envio de qualquer documento dos alunos para fora dos limites do Seminário.

“O CAOS em Revista” lamenta o sucedido. Lamenta por várias razões.

Em primeiro lugar, o referido manifesto veio dividir definitivamente nossa comunidade. Antes dele havia correntes, tendências divergentes, que não chegavam, contudo, a ser grupos. Havia mesmo aqueles que eram neutros a qualquer corrente: os que se chamavam de “a terceira força”. O manifesto, no entanto, acabou com tudo isto, criando dois grupos apenas: o dos que assinaram o manifesto (quinze) e o grupo dos restantes. Este fato decepou qualquer esperança de se poder viver em real comunidade aqui.

Em segundo lugar, lamenta pelo simples fato de que “roupa suja se lava em casa”.

Lamenta, ainda, pelo mal que os colegas signatários do referido manifesto vão causar ao membros da IPB, escandalizando-os desnecessariamente. Porque o instrumento de escândalo não são tanto os que cometeram determinadas coisas tidas por erradas quanto os que as espalharam a um contexto inteiramente diferente e não preparado para ouvi-las. Se observarmos o que Paulo tem a dizer a respeito do comer carne de porco, vamos notar que o erro não estava no comer em si, mas no escândalo que isto podia causar. Correto. São feitas e ditas coisas aqui dentro de nosso dormitório e de nossos quartos (não tantas e tão terríveis quanto o referido manifesto pretende que sejam) que não escandalizam ninguém no ambiente em que estão sendo feitas e ditas. Levadas, contudo, para um ambiente não preparado para ouvi-las, estas coisas servem de escândalo. O culpado deste escândalo, contudo, não é quem faz o ato, mas quem o espalha para um ambiente não preparado para ouvi-lo.

Isto é o que mais lamentamos no manifesto. Não lamentamos o mal que seus signatários pretenderam causar aos outros, “neutros e liberais”. Lamentamos, sim, pelo mal que causarão e já estão causando, inconscientemente, a uma enormidade de crentes inocentes, que não precisavam saber das dificuldades internas de nossa casa, que, porque internas, deveriam ser resolvidas aqui dentro. A atitude dos que assinaram o manifesto, dos que orientaram ou estimularam a sua confecção, dos que o estão enviando e distribuindo não é nada pastoral em relação aos membros da Igreja que eles querem salvar! Eles, os responsáveis pelo manifesto, não tinham o direito de escandalizar os membros humildes e inocentes das nossas Igrejas. Por isso é que reputo correta a opinião de um pastor que ao receber o manifesto disse: “Isto é antes de um ato de covardia para com os membros da Igreja!” É construindo e não destruindo que se deve alcançar um objetivo.

“O CAOS em Revista” registra, pois, com pesar, esta mancha negra nos anais do corpo discente desta casa. Continuaremos, porém, a lutar, de modo franco e legal, à luz do dia, através do diálogo leal, para que cada um tenha a liberdade de pensamento e ação indispensáveis à vida de cada verdadeiro homem, de cada verdadeiro cristão. É com o intuito de restabelecer diálogo que o redator escreveu o artigo “Parafraseando”. Ele tem esperado em vão a contribuição dos colegas. E ainda espera. Por que algum dos colegas signatários  do manifesto não se decide a um diálogo franco em lugar de fazer ataques subversivos e inesperados? É uma tática mais madura e mais máscula. As páginas de “O CAOS em Revista” estão à espera.

Enquanto isto, colegas, lutemos para que, em nosso meio, cada um possa ter a autonomia de pensamento que o cristão precisa ter. “Lembrai-vos sempre de que não existe felicidade sem liberdade, e de que o fundamento da liberdade é a coragem” (Péricles, Discurso aos Atenienses, citado por Tucídides, em A Guerra do Peloponeso, Livro 2, citado por Celso Furtado, em Dialética do Desenvolvimento). “

O artigo “Parafraseando”, citado no Editorial, foi este, que segue, também escrito por mim:

“ Propôs Jesus também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos por se considerarem justos, e desprezavam os outros” (Lucas 18:9).

Certa vez, em uma Faculdade Teológica, passaram a existir dois grupos: um que se dizia “conservador” e outro que era taxado de “modernista”. Certo dia os conservadores oraram assim: “Ó Deus, graças te damos porque não somos como os demais colegas: defensores da libertinagem e da imoralidade, fumantes e beberrões, defensores do amor livre, mantenedores de simpatias pronunciadamente esquerdistas, irreverentes, cínicos, contadores de piadas e desrespeitadores da dignidade feminina. Louvamos-te, ó Deus, porque assim não o somos. Nós fazemos reunião de oração diariamente, ocasião em que um rabino nos instrui a respeito das idéias ortodoxas da tua palavra e a respeito do calvinismo clássico que tu nos legaste; nós, por ocasião das refeições, ficamos quietos: chegamos a bater palmas e a sorrir para mostrar nosso amor cristão, mesmo quando são proferidos discursos que nos criticam; aceitamos a Bíblia toda como palavra inspirada de Deus; estamos sempre aos pés dos líderes da Igreja para aprender deles como agir honesta, franca e desinteressadamente; saímos três ou mais vezes por semana para pregar a tua palavra, embora nosso estudo seja com isso prejudicado: contudo, teu sábio servo do passado já dizia que “o muito estudar é enfado da carne” — aliás o teu Espírito colocará nos nossos lábios a mensagem, mesmo que nada tenhamos estudado! Ó Deus, atenta para isto: somos fiéis servos e testemunhas da tua palavra aqui neste Seminário; para conseguirmos sê-lo chegamos até a desrespeitar as leis da Congregação, ó Deus, pois mandamos, por trâmites ilegais, um formidável manifesto aos crentes da tua igreja, condenando tudo o que de errado se passa aqui dentro, fora do nosso grupo, evidentemente; por amor à tua causa, ó Deus, chegamos ao ápice da ousadia e da coragem ao afirmar que as próprias autoridades que dirigem este Seminário não parecem estar em condições de agir com firmeza. Mas nós o estamos, ó Deus, e te agradecemos por isto.”

O resto todo o mundo sabe. Aquela criatura de tão excelentes qualidades, o fariseu da parábola de Jesus, não foi o que desceu para casa justificado, mas sim aqueles que era roubador, injusto e adúltero, aquele que era um pária moral na sociedade de sua época. Estranho, não? Mas real. No entanto seria bom perguntar por que o fariseu, que era o pietista, o legalista, o moralista, o ortodoxo da época de Jesus, não foi justificado. A razão parece óbvia, embora muitos não a queiram ver: o fariseu não foi justificado porque colocou como critério de sua auto-avaliação diante de Deus o seu próximo, o publicano. E, nestas circunstâncias, aferindo-se por um critério imperfeito, o fariseu jactou-se diante de Deus, orgulhou-se, e creu que poderia trazer nas mãos e apresentar diante de Deus algo de bom: o seu comportamento, o seu modo de agir, o seu zelo pelo cumprimento da lei divina. E não foi justificado embora praticasse atos muito bons em sua vida, se os considerarmos isolados de sua motivação e de seu contexto. Porque todas as vezes que nos avaliamos por critérios e padrões imperfeitos nos tornamos orgulhosos.

Às vezes este orgulho é disfarçado sob a capa de uma pseudo-humildade, sob palavras tais como estas: “Somos os primeiros a reconhecer nossa imperfeição, nosso pecado, nossas falhas, nossa pobreza espiritual, nossas deficiências em todos os sentidos, contudo…” (grifo meu). Não são, no entanto, nossas palavras a coisa que tem importância primária. É nossa atitude que, lhes subjaz, que é o primariamente importante. Mesmo que pronunciemos, em lágrimas e com o coração sangrando, palavras que falem a respeito de nossa humildade, se nossa atitude for a de um juiz apontando erros nos outros, não estaremos sendo humildes, mas orgulhosos.

Será bom perguntar porque sentimos um prazer imenso em apontar as falhas, erros e os defeitos dos outros, principalmente quando estes são pessoas mais preeminentes que nós, em outros setores, ou talvez no mesmo a que nos dedicamos. Porque no instante que fazemos isto podemos nos jactar e nos consolar intimamente, dizendo: “embora fulano seja melhor estudante que eu, embora se destaque mais em certos círculos, na hora em que souberam que ele faz isto e aquilo eu subirei na cotação do povo, mediante o rebaixamento do outro!” A raiz de todo mexerico, fuxico e de toda delação está nesse nosso desejo de nos compararmos com os outros e de ver neles falhas, e de torná-las ainda mais negras, através de generalizações precipitadas e de mentiras mesmo, porque assim teremos maior realce. Isto até me faz lembrar da história daquela ordem de monges, que nada mais tendo de que se orgulhar orgulhavam-se de sua humildade!

O erro do fariseu não foi fazer todas aquelas coisas. Foi comparar-se com o que não fazia, e julgar-se superior, julgar-se na condição de juiz do seu próximo. Todas as vezes que nos aproximamos de Deus auto-avaliando-nos por critérios imperfeitos nos tornamos orgulhosos, e nos sentimos no direito e em condições de apresentar a Deus alguma realização nossa, algo que nos conceda mérito diante dele. E todas as vezes que assim fazemos estamos sendo fariseus: mesmo que aquilo que estejamos apresentando a Deus seja a nossa fé, seja a nossa “ortodoxia”, seja a nossa conduta impecável!

O mérito do publicano estava em que, quando quis avaliar-se, não tomou para si critérios humanos, e, portanto, imperfeitos, mas colocou o próprio Deus como padrão de sua auto-avaliação. E porque assim agiu sentiu-se imediatamente arrasado. Não viu mérito algum em sua pessoa. Diante de Deus ele não era nada. Então, não podia orgulhar-se. Simplesmente não tinha de quê. Só pode dizer: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador”. E foi justificado.

Como esta parábola deve ter chocado os ouvintes de Jesus! Como aquela crítica tremenda aos “santos” e “justos” fariseus, aos “ortodoxos”, e a sentença de que o publicano havia sido justificado deve ter arrasado os ouvintes de Jesus! Justamente o publicano, que não era apenas “modernista e liberal”, mas HEREGE! No entanto, o impacto que a parábola causou nos ouvintes de Jesus foi esquecido e hoje a parábola não faz parte da Bíblia de muita gente tida por aí como exemplo de santidade.

Finalmente uma palavra aos “quinze”: o que fazeis, vós os que assinastes o manifesto, com textos tais como este (Lucas 18:9:14)? Simplesmente o ignorais? Por diversas vezes já tenho ouvido a acusação de que nós, os “modernistas”, recortamos a Bíblia, para fazer nossa exegese ou formular nossas doutrinas. Será que é verdade? Ou, em última instância, será que é toda a verdade? Porque o que posso perceber é que vós, os conservadores e “ortodoxos”, também a recortais, não através da exegese, mas através do vosso comportamento, através de vossas vidas! E, em assim fazendo, vos tornais mais liberais do que os próprios. Quero crer, no entanto, que assim o fazeis ignorantemente e não de espírito premeditado. Quero, com sinceridade, crer que é inconscientemente que extraís de vossas Bíblias, em vossa vida e através de vossa conduta, textos tais como o acima mencionado, que não é o único. Ou será que não percebestes que a vossa atitude em fazendo o manifesto que fizestes, não permite que a Parábola do Fariseu e do Publicano continue mais em vossas Bíblias? O mesmo se dá com textos tais como Mat. 7:1 sqq; Tiago 4:11-12 e outros.

Minha opinião particular é que fostes, a maioria de vós os “quinze”, ingênuos simplesmente. Não pudestes perceber as dimensões do que fizestes. Os outros, os  “não-ingênuos” que vos manipularam, não passam também de ingênuos nas mãos de outros menos ingênuos do que eles. Quando tiverdes adquirido um pensamento crítico e uma capacidade independente de avaliar as coisas, o que se dará do segundo ano em diante, embora haja alunos que já cheguem aqui com estas qualidades, então podereis observar o quanto fostes insensatos. E vos arrependereis muitíssimo. Pois então vereis porque as vossas expectativas de ter 2/3 dos alunos ao vosso lado (correspondentes ao I e II ano somados), expectativas estas bastante vivas no início deste ano, vieram a falhar, e sois apenas quinze em uma comunidade de quase oitenta. Tendes apenas dois do segundo ano em vosso meio. Os outros “abriram os olhos” (o que não significa que tenham se tornado “modernistas” – apenas perceberam quão estreitos sois). Então (quando adquirirdes um espírito crítico mais aguçado, na pressuposição de que este Seminário vai ajudar-vos a aguçá-lo), vereis porque é que um professor que luta ano a ano para ver seu circulo de influência crescer não consegue, cada ano, fazer com que sua influência abranja senão um pequeno número de calouros. Seu contato influente com os alunos termina em três semestres. Vereis porque de professor de mais ou menos cinco matérias veio ele a lecionar apenas uma, presentemente. Mas é somente o tempo que vos poderá mostrar isto. É com paciência que espero que ele e o Espírito Santo (por que não?) realizem o seu trabalho. “

Para se aquilatar a distância que separava pai e filho, eis a carta que meu pai escreveu ao meu colega Evandro Luiz da Silva, signatário do Manifesto dos Quinze, e líder estudantil do movimento, e, por um tempo, muito admirado por meu pai (depois se desentenderam de forma lastimável e lamentável):

” Esta carta, dirigida a você e extensiva aos seus colegas que assinaram  aquele manifesto, é para dar-lhes o meu apoio  integral e o meu grande abraço pela coragem, pela firmeza, e pela sinceridade que vocês demonstraram naquele brado de alerta. Graças a Deus, nem tudo está perdido. Estava faltando justamente isso que vocês revelaram naquele papel, estava faltando uma denúncia corajosa contra o atual estado de coisas no Seminário, mas uma denúncia partida aí de dentro, mesmo, de alunos que vivem aí e sentem o drama em suas próprias carnes. Quando os de fora acusavam, eram taxados de exagerados, de ignorantes da vida do Seminário, de inimigos dos alunos. Mas agora vocês fizeram o que já deviam ter feito há muito tempo: Deram o alarme! E esse alarme irá despertar a Igreja Presbiteriana e estimular outros alunos que devem estar sentido o mesmo nos outros Seminários. Sei que vocês irão sofrer com a atitude que tomaram, irão ser mal compreendidos, até por alguns de seus próprios Presbitérios. A acusação é tão forte (e diz a verdade) que muitos não acreditam, porque uma grande parte do ministério não sabe o que se passa aí na ex-Casa de Profetas. Vocês sofrerão, mas tenham coragem: vocês não estão sozinhos. Continuem firmes, e Deus os abençoe. O abraço do amigo e companheiro de lutas, Oscar Chaves, pastor da Igreja Presbiteriana de Santo André.

PS. A única nota triste daquele manifesto, para mim, é não estar lá a assinatura do meu filho.”

Os “companheiros de lutas” acabaram lutando um com o outro e dividindo a Igreja Presbiteriana de Santo André em duas, uma para cada um…

O artigo “Parafraseando” lança várias farpas contra o mentor docente dos “Quinze”, o Rev. Waldyr Carvalho Luz. É ele o “rabino” mencionado na frase “Nós fazemos reunião de oração diariamente, ocasião em que um rabino nos instrui a respeito das ideias ortodoxas da tua palavra e a respeito do calvinismo clássico que tu nos legaste”.

Também é o Rev. Waldyr o presumido “não-ingênuo” (deliberadamente entre aspas) que manipulou os “Quinze”, mas que estava sendo manipulado pela direção da Igreja, a quem eu acuso, quando digo: “Minha opinião particular é que fostes, a maioria de vós os ‘quinze’, ingênuos simplesmente. Não pudestes perceber as dimensões do que fizestes. Os outros, os ‘não-ingênuos’ que vos manipularam, não passam também de ingênuos nas mãos de outros menos ingênuos do que eles.” (Alguns anos depois, o próprio Rev. Waldyr seria expulso do Seminário, junto com o Rev. Américo Justiniano Ribeiro, que era parente do Rev. Boanerges Ribeiro).

Também é ao Rev. Waldyr que faço menção quando digo: “Então (quando adquirirdes um espírito crítico mais aguçado, na pressuposição de que este Seminário vai ajudar-vos a aguçá-lo), vereis porque é que um professor que luta ano a ano para ver seu circulo de influência crescer não consegue, cada ano, fazer com que sua influência abranja senão um pequeno número de calouros. Seu contato influente com os alunos termina em três semestres. Vereis porque de professor de mais ou menos cinco matérias veio ele a lecionar apenas uma, presentemente.”

A única disciplina que o Rev. Waldyr acabou lecionando no Seminário era Grego — uma matéria na qual era excelente professor, mas que era desprovida de maior conteúdo teológico, e, portanto, não suscitava muita controvérsia (exceto pelo método do professor, que teve que ser revisado várias vezes, especialmente no tocante às suas famosas “topadas”, ou provas sem data marcada). Enquanto eu estudava no Seminário a Congregação tentou atribuir-lhe a disciplina “Exegese do Novo Testamento”, mas os alunos se recusaram a tê-lo como professor.

Em sua autobiografia o Rev. Waldyr dá sua própria versão desses fatos. Procura explicar-se e até certo ponto defender-se da acusação, nunca no texto explicitada, de que seu comportamento foi no mínimo incoerente. Foi inicialmente o paladino e o maior defensor das mudanças que a Igreja procurava realizar dentro do Seminário. Quando as mudanças finalmente o alcançaram, virou repentinamente crítico da administração, passou de telhado a estilingue, assumiu posturas de oposição.

No que me diz respeito, sempre usou sua famosa retórica para (do seu ponto de vista) atacar-me, sem jamais explicitar o meu nome. Eis, por exemplo, um outro incidente que ele relata a meu respeito:

” Boa amostra do espírito desse aluno [o editor do jornal] dá-o o seguinte fato. A Editora da tradução do NOVO DICIONÁRIO DA BÍBLIA para o português pediu-me fazer a concatenação dos itens compostos para impressão. Como eu não dispunha de tempo para esse trabalho, sugeri algum seminarista. Autorizado pela editora, consultei o referido escrivinhador, moço inteligente, de bom preparo, competente para esse mister. Quis saber primeiro quanto lhe pagariam. Quando lhe disse qual a remuneração prevista, ele que estava em férias, com muito tempo disponível, apesar de tratar-se de livro importante para o povo crente, respondeu que por esse preço não faria o trabalho. Procurei, então, outro seminarista, Célio João Duarte, modesto, firme de convicções, piedoso e consagrado, que, ao dizer-lhe da gratificação oferecida, se prontificou a fazê-lo de graça para ajudar a Igreja, aceitando a custo o minguado pagamento proposto. Não pude deixar de contrastar a atitude dos dois: aquele, avançado de idéias, defensor dos postulados sociais, argentário e ambicioso, a preocupar-se com o dinheiro, este, conservador de pensamento, fiel à doutrina da Igreja, dominado pelo espírito de servir à Causa, desprendido e indiferente a recursos materiais. Era incontestável evidência do espírito diferente gerado pelas duas posições teológicas antagônicas. E enquanto este entrou para o ministério, pastor fiel e dedicado que o tem sido, aquele ‘arripiou carreira’ e hoje parece nem religião ter! ”

Devo deixar aqui registrado que, em todo esse processo, o Rev. Waldyr, não sei se em respeito ao meu pai, ou em consideração à “promessa intelectual” que, para ele, eu representava, sempre me tratou, no nível pessoal, de forma extremamente cortês, naquela época e depois. O mesmo não posso dizer de sua esposa, Da. Amélia Luz, que, um dia, na saída da Escola Dominical da Igreja do Jardim da Guanabara, que funcionava no prédio do Seminário, investiu contra mim, tirando satisfações pelas críticas que fazia ao seu marido, falando aos gritos e criando um verdadeiro escândalo no pórtico do Seminário. Que me lembre, não lhe disse nada, em resposta. Sempre tive receio de altercações verbais públicas, preferindo, consistentemente, a via escrita para me debater. (Recentemente, neste ano de 2006, por ocasião do enterro de minha tia, Alice de Campos Sanvido, encontrei Da. Amélia Luz, que me tratou de forma cortês).

Voltando para 1966, eu pretendia publicar um quarto número de “O CAOS em Revista” no mês de Junho – no dia 18, para manter a regularidade. Esse número não saiu. Explico porquê.

No fim de Maio e início de Junho percebi que a história ia acabar mal. A situação política do país prenunciava um endurecimento político, e, dentro da Igreja, parecia certa a vitória do candidato da reação, Rev. Boanerges Ribeiro, que fazia campanha de Norte a Sul do Brasil, prometendo, entre outras coisas, “limpar” e “desinfetar” (ou “salvar”) os Seminários.

O Manifesto dos Quinze começava a surtir efeito também. Algumas Igrejas, entre elas uma de Belo Horizonte e outra do Presbitério de Rio Claro, ajudaram a espalhar o Manifesto pelo Brasil, como prova de que precisava ser eleito um Presidente do Supremo Concílio que tivesse, como parte de seu programa, a “salvação” do Seminário. O circo estava armado.

A Congregação do Seminário apertava o cerco. Embora, em sua reunião de 19 de Abril, a Congregação houvesse decidido não se manifestar sobre o conteúdo dos dois primeiros números de “O CAOS em Revista”, apenas remetendo a questão ao meu Presbitério, depois do número de Maio ela se reuniu novamente e decidiu “reprovar energicamente” as matérias publicadas. Além disso, numa reunião da qual infelizmente não tenho a ata, mas cujo teor me foi oficialmente comunicado, a Congregação deu ordem explícita e inequívoca ao CAOS para não publicar mais nenhum “O CAOS em Revista”, ou equivalente, sem o visto escrito do Reitor ou do Deão. Por fim, o Redator recebeu, pessoalmente, uma repreensão enérgica pela matéria dos três primeiros números e foi advertido de que seria exemplarmente punido por indisciplina no caso de reincidência.

Eu, com meus jornais, acabara por tornar-me o estopim da crise do Seminário de Campinas. Certamente não seria poupado em hipótese alguma. Assim sendo, saí a procurar emprego. Fiz um teste na Bêndix e, no dia 13/6, na Bosch, que me chamou em seguida. Comecei a trabalhar dia 20/6 — por ora ainda mantendo meu quarto no dormitório do Seminário. Como comecei a trabalhar no final do último mês do primeiro semestre, não me vi forçado a tomar nenhuma decisão. Resolvi, até certo ponto, deixar os fatos se desenrolarem por si mesmos.

Preparei, entretanto, um Editorial para o quarto número de “O CAOS em Revista”, que deveria sair em 18 de Junho (para manter o cronograma previsto) e que teria apenas um Editorial, que explicasse o que vinha ocorrendo, e uma seção do livro A Formação da Mentalidade (Mind in the Making), de James Harvey Robinson, então bastante popular aqui no Brasil [traduzido para o Português pelo grande Monteiro Lobato – EC em 2015], que eu considerava relevante para o entendimento do que estava acontecendo. É este o Editorial que escrevi:

” Ainda um “O CAOS em Revista”. O último deste semestre. Os leitores já acostumados à sua leitura talvez notem que, neste número, “O CAOS em Revista” está um pouco diferente, em seu conteúdo, dos números anteriores: está menos vivo. Motivos vários contribuíram para que isso se desse, dentre os quais a falta de tempo do Redator e a falta de colaboração dos colegas no sentido de enviarem artigos, traduções, poesias, etc., para serem publicados.

Outro motivo ainda, a ser notado, é a ordem explícita e inequívoca da Congregação do Seminário Presbiteriano do Sul, que determinou que nenhum “O CAOS em Revista”, ou equivalente, fossem publicado sem o visto do Senhor Reitor ou do Senhor Deão. Esta ordem explícita, acrescentada da reprovação enérgica feita ao Redator, pela matéria contida nos três primeiros números do jornal, e da ameaça de punição por indisciplina em caso de reincidência, esclarecem, sem possibilidade de equívoco, a posição da Congregação e a posição que ela nos reserva. (Observe-se que os dois primeiros números do jornal foram julgados duas vezes pela Congregação. Na primeira vez, ela decidiu não opinar sobre eles, enviando-os ao Presbitério do Redator. Na segunda vez, por razões ignoradas, decidiu reprovar a matéria sobre a qual em vez anterior havia se omitido).

O campo que a Congregação nos permite abranger, contudo, torna-se demasiado restrito quando notamos que ela considera a matéria contida no terceiro jornal fora da competência e do direito de manifestação de um jornal do corpo discente. Torna-se difícil, pois, formular um jornal em que tratar de problemas que diretamente afetam a vida de todos os alunos é considerado “fora da competência” de um jornal de alunos.

Assim sendo, resolvemos, em protesto, transcrever uma seção (Seção 4, no Capítulo II) do livro A Formação da Mentalidade, de James Harvey Robinson. Se o trecho que será transcrito for lido em seqüência aos três primeiros números do jornal, poderá comunicar uma mensagem bastante relevante. É o que esperamos. ”

A matéria que seria transcrita do livro de Robinson procurava mostrar que a maior parte das pessoas não aceita as idéias que tem em função de exame crítico, mas, sim, em função das circunstâncias que se encontra. Aqui estão algumas passagens importantes:

” Somos incrivelmente descuriosos da formação das nossas crenças, mas por elas nos enchemos de amor quando no-las querem roubar. Torna-se óbvio que não são propriamente as idéias que nos são caras, sim o nosso amor próprio. [ . . . ]

Gostamos de continuar a crer no que nos acostumamos a aceitar como verdade, e a revolta sentida quando duvidam das nossas verdades estimula-nos a ainda mais nos apegarmos a elas. O resultado é que a maior parte do chamado raciocínio humano consiste em descobrirmos argumentos para continuarmos a crer no que cremos.  [ . . . ]

Esta distinção entre “boas” e “reais” razões é das mais importantes nos domínios do pensamento. Podemos de pronto dar o que chamamos as nossas “boas” razões para sermos católicos ou maçons, republicanos ou democratas, amigos ou inimigos da Liga das Nações. Mas as razões “reais” ficam em outro plano. Não há dúvida que a importância desta distinção é notória, embora obscura. Um missionário batista concorda prontamente em que o budista não é budista por conseqüência do cuidadoso estudo que fez dessa crença, mas simplesmente porque nasceu numa família budista de Tóquio. Mas considerará ofensivo à sua fé reconhecer que a sua parcialidade para com certas doutrinas provém de ter tido ele uma progenitora afiliada à igreja batista de Puddlebury. [ . . . ] Mas nem um nem outro perceberá por que motivo está defendendo as suas opiniões pessoais.

As razões “reais” das nossas crenças vivem ocultas de nós mesmos, tanto quanto dos outros. À medida que crescemos, muito naturalmente vamos adotando as idéias ambientes relativas à religião, às relações de família, à propriedade, aos negócios, ao governo. Absorvêmo-las, de tanto ouvi-las zumbir em torno de nós, no seio do grupo em que vivemos. Ademais, como Trotter notou, essas idéias, como produto da sugestão e nunca do raciocínio, possuem o característico de parecerem perfeitamente óbvias. [ . . . ]

Este espontâneo e leal apoio aos nossos preconceitos — este processo de descobrir “boas” razões para justificá-los — recebe dos cientistas modernos o nome de “racionalização” — palavra nova para coisa muito velha. Nossas “boas” razões nada valem para o honesto esclarecimento de um assunto, porque, por mais solenemente que sejam apresentadas, não passam, no fundo, de resultados de preferências pessoais, ou preconceitos, não refletindo nenhum sadio desejo de acertar. . . .

O fato de uma idéia ser antiga e largamente espalhada não constitui argumento a seu favor, mas sim argumento para que tal idéia seja estudada e testada, a fim de verificarmos se não passa de mera racionalização. “

O Reitor e o Deão não aprovaram nem o Editorial nem a matéria a ser transcrita do livro de Robinson – e o jornal abortou.

Preparei ainda um quinto número do jornal, para ser publicado dia 18 de Agosto, mas com o aborto do número anterior, o quinto, evidentemente, não viu a luz do dia: fui expulso da instituição antes. Eis o que dizia (diria) o Editorial de Agosto:

” Temos em mãos o que seria “O CAOS em Revista” do mês de Junho, mas que não o foi, por causa do aborto que sofreu. O Editorial, que naquela ocasião escrevemos, procurava dar um relato sucinto dos acontecimentos que culminaram na colocação, naquela oportunidade, de “O CAOS em Revista” sob a tutela da Congregação do SPS [Seminário Presbiteriano do Sul], fato este que, por sua vez, ocasionou o aborto mencionado.

Um tempo relativamente longo decorreu desde então. Vivemos em outro contexto: temos outro Reitor, temos outro Presidente no Supremo Concílio. A cúpula que dirigia os destinos da IPB [Igreja Presbiteriana do Brasil] foi trocada. Há uma nova direção.

Todos estes acontecimentos, todas estas mudanças, toda esta “renovação”, pareceriam ser sinais de que a IPB rejuvenesce, reforma-se, atualiza-se, sofre uma renovação, no verdadeiro sentido do termo, sem as aspas indispensáveis ao emprego anterior da palavra. Mas, todos sabemos, isto não é verdade. A IPB preferiu, através da maioria dos representantes presentes ao Supremo Concílio, dar-se um outro rumo: o de lutar, em pleno século de viagens interplanetárias e de armas nucleares, como se fosse “remanescente de uma época de cavalaria”, para usar a apta imagem de Dietrich Bonhoeffer [em Letters and Papers from Prison], isto é: usando uma linguagem que não é a nossa do século XX; valendo-se de meios de ação que mais se assemelham aos da Idade Média; pregando idéias que há um século já eram tidas como desatualizadas, anacrônicas, conservantistas, vetustas; empregando métodos de pressão e repressão que nos fazem lembrar a Santa Inquisição Medieval; sendo dirigida por uma cúpola que, no seu totalitarismo, faria Hitler tremer de inveja no túmulo; expressando-se através de um órgão oficial que nada fica a dever aos periódicos do Rev. Raphael Camacho e do Mr. Robert Rapp! A IPB chegou a este ponto. Ou, melhor dizendo, permitiu que a conduzissem a este ponto.

Lembro-me de uma frase de Goethe, lida algures, que diz: “Muitos preferem morrer a pensar”. Na minha opinião, esta frase explica a razão de ter a IPB se deixado levar à situação em que se acha: “Muitos preferem morrer a pensar”. A IPB já sofre, agora, e vai sofrer muito mais ainda, os resultados da “preguiça intelectual” daqueles aos quais se delegaram poderes para decidir a respeito dos destinos da Igreja. Isto porque, enquanto a maioria prefere morrer a pensar, há aqueles, poucos e raros, que quase morrem de pensar para descobrir meios de manipular a maioria não-pensante, a fim de que esta venha a servir a seus objetivos pessoais, egoístas, de “will to power”. E o resultado, trágico, mas inevitável, a menos que os não pensantes se decidam a pensar por si, é que, muitas vezes, uma pessoa, que se proponha este alvo, consegue manipular uma multidão, quase sempre de boa fé, levando-a a satisfazer às suas aspirações (suas, bem entendido, do manipulador). É mais fácil, realmente, deixar que os outros pensem por nós; que nos ditem o que fazer; que decidam quais destinos devam ser os da Igreja; quais normas devam regê-la; quais doutrinas devam ser sua confissão. É o caminho mais fácil, o “caminho largo”, mas aquele que leva à negação completa do dom da inteligência.

“Contudo”, talvez diga alguém, “o prezado jovem está se esquecendo de algo muito importante: foi o Espírito Santo que fêz com que se deliberasse em Fortaleza como foi deliberado. Ou será que o irmão é dos ‘modernistas’ que não crêem no Espírito Santo?” Sim, muitos já disseram isto, e não só uma vez. E é aqui que se situa, no meu entender, a maior heresia dos “situacionistas” presbiterianos de hoje: a heresia de fazer a vontade soberana, ilimitada, perfeita de Deus identificar-se com sua finita, limitada, imperfeita, egoísta e pecaminosa vontade, a heresia de cercear os limites da ação divina, a heresia de orientar o Espírito Santo em lugar de procurar dele genuína orientação, a heresia de buscar Deus apenas como um meio útil na aquisição de um determinado objetivo e não como um fim em si, a heresia de colocar doutrinas e normas de conduta em nível superior à vontade específica de Deus para o nosso hic et nunc, a heresia de fazer com que a mensageira se torna mensagem, a heresia de tornar a serva maior do que o seu Senhor!

Parece que exagero. Provo, contudo. Tenho em mãos uma carta escrita pelo Conselho da IP [Igreja Presbiteriana] de Belo Horizonte, data de 2 de julho, quase dez dias antes do Supremo Concílio — carta esta para cuja elaboração um de nossos colegas, especialmente chamado a Belo Horizonte, emprestou sua valiosa cooperação! A carta, que deveria ser enviada a todas as Igrejas Presbiterianas do Brasil, acompanhada de uma cópia do “Manifesto dos 15”, reimpresso por aquela Igreja, denuncia em alto e bom som a “orientação modernista que os nossos Seminários vêm dando aos seus alunos [oxalá!], nossos futuros pastores”. Depois de analisar a situação, o referido Conselho, encabeçado pelo Rev. Wilson de Souza, faz as seguintes sugestões aos Conselhos das Igrejas às quais se destina a carta:

” a) Ore e convide outros irmãos a orarem, pedindo a Deus uma solução certa para o problema, promovendo, se possível, reuniões de oração com esta finalidade.

. . . . .

c) Telegrafe AGORA e peça a outros irmãos para telefonarem HOJE ao Presidente do Supremo Concílio, solicitando solução urgente para os problemas dos nossos Seminários”.

Até aí compreende-se. A aberração, contudo, vem depois, quando a carta continua:

“Esses telegramas poderão ter redações, mais ou menos, como estas:

— ‘Solicito SC tome providências enérgicas contra modernismo reinante nossos seminários’.

— ‘IP de (nome da cidade) espera que SC promova expurgo modernistas que atuam em nossos seminários’. “

Mais do que em qualquer outro lugar, aqui se faz presente a heresia atrás mencionada. Aconselhava-se a orar, pedindo a Deus a solução do problema. Para que orar, entretanto, se a solução já estava decidida, como bem o expressam os “telegramas-padrão”. Ei-la, clara, insofismável: EXPURGO dos que conosco não concordam. Esta solução já estava pronta, já havia sido tomada muito antes do Supremo Concílio. E do mesmo modo todas as outras. Aqueles belos apelos feitos pelo agora Presidente do Supremo Concílio, através de sua imprensa privada, para que a Igreja orasse, pedindo que o Espírito Santo orientasse o Supremo, eram desnecessários. As principais decisões e soluções já estavam no bolso de seu colete, Deus sabe já há quanto tempo! Uma prova inequívoca disto é o fato de ter sido designado relator da Comissão que iria estudar os problemas dos Seminários, ninguém menos do que o Rev. Wilson de Souza, o capacho atrás mencionado, que já se demonstrara parcialíssimo e preconcebido em relação ao problema. E a arbitrariedade acompanhou todas as outras decisões. Pobre Espírito Santo! Invocaram-no tanto, mas manietaram-no, cercearam-lhe a ação. Talvez tivesse ele uma outra solução para os problemas, talvez ele não fosse tão conservador quanto se dizem ser os atuais chefes da Igreja, mas seu parecer não foi aceito, talvez por ter sido expresso por alguém da ala contrária, talvez por não se identificar com os moldes dos “telegramas-padrão” e com os planos do partido vitorioso.

E assim caminha o tempo. A história, contudo, saberá passar seu julgamento (além de Deus que será bem capaz de passar o seu) sobre este negro período na vida da IPB. Enquanto, porém, o futuro não vem, para apresentar os vários aspectos e matizes da situação, é dever nosso, ao qual não nos podemos escusar, levantar uma voz profética contra o estado de coisas em que nos encontramos. “O CAOS em Revista” sempre se dispôs a isto. O artigo de Tristão de Athayde reflete o conflito das gerações. O de Alvino Alves, mais específico, é muito oportuno ao caracterizar a ortodoxia conservadora. “O Pequeno Inquisidor”, colaboração anônima, recebida pelo Correio, ataca o problema ainda mais específico da “inquisição” que nos visitou aqui.

O Redator aproveita para comunicar que deixará o cargo, a partir do próximo número, em virtude de seu desligamento do Seminário, a partir de 5 de Setembro até o final do ano. Agradece a colaboração, o estímulo, e o incentivo que recebeu durante o tempo que dirigiu o jornal, e coloca-se, mais do que nunca, ao lado daqueles que, cientes de sua responsabilidade para com Deus e os homens, para com o homem do século vinte, procuram evitar que a Igreja se torne mais uma relíquia, entre outras, dentro de nossa história. Agradece ainda àqueles que programaram este número, e o realizaram, sem os quais ele não sairia.

E até breve. “

O até breve foi um até nunca mais.

Com exceção dos signatários do Manifesto dos 15, nenhum dos demais alunos do Seminário pode se matricular normalmente no segundo semestre de 1966. Para ter direito à matrícula, teriam de assinar um documento em que se comprometiam a se comportar, em doutrina e comportamento, como o Seminário exigiu. Para sua honra, nenhum o fez. Assim, fomos todos literalmente expulsos do Seminário Presbiteriano de Campinas em Agosto de 1966.

Em 8 de Setembro daquele ano, o funesto ano de 1966, não houve celebração no Seminário. E o CAOS não jogou futebol contra ninguém: o CAOS havia sido fechado. Pensaram que com isso acabaria o caos. Não acabou. 

Transcrito em “Liberal Space” em Campinas (ainda!), 8 de Setembro de 2006 

Transcrito aqui em São Paulo, 7 de Novembro de 2015.

o O o

SEGUNDA PARTE

Apresentação [escrita em 2015 e revista e ampliada nesta data de 24.10.2021]

Esta é uma contribuição para a História da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) que suas publicações oficiais, e mesmo os artigos e livros de seu historiador oficial, escondem ou camuflam. 

O material desta Segunda Parte consiste, como afirmado atrás, de Editoriais e Artigos meus escritos para o jornal O CAOS em Revista, no ano de 1966. Os interessados na História da Igreja Presbiteriana do Brasil, que assim o desejem, podem consultá-los aqui, sem os meus comentários contextualizadores que aparecem na Primeira Parte — exceção feita a esta Apresentação.

[O material aqui contido está contextualizado no meu outro artigo “Quarenta Anos Depois do CAOS (1966-2006), que constitui a Primeira Parte do atual artigo, publicado em 2006 (quarenta anos depois do material contido nesta Segunda Parte) e que constitui a Primeira Parte deste artigo.]

Em 2016, cinco anos atrás, completou-se o Jubileu de Ouro da Crise de 1966 no Seminário Presbiteriano de Campinas e da grotesca intervenção autoritária de Boanerges Ribeiro no Seminário e na IPB, intervenção cujos efeitos nefastos se manifestam até hoje no caráter fundamentalista daquela denominação. Passou em brancas nuvens o dito Jubileu. As pessoas que foram vítimas dessa intervenção, e que ainda estão vivas, deveriam ter feito um Desagravo Contra a IPB. Não fizeram. Incluo-me entre os culpados, embora escreva o tempo todo sobre a referida crise. Esta segunda edição, agora em 2021, de material publicado em em 2017, serve de lembrança dos 55 anos da Crise de 1966 que se deplora neste ano.

É bom que se diga que a IPB sempre foi conservadora (sendo herdeira da “Old School” da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos da América, a chamada “Igreja do Norte”, cujo principal teólogo era o princetoniano Charles Hodge), mas a partir de 1966 tornou-se, na minha forma de ver e entender, fundamentalista, mais para Carl McIntire do que para Charles Hodge.

Eis aqui os meus Editoriais e os meus artigos em “O CAOS em Revista”, órgão oficial do Centro Acadêmico Oito de Setembro (CAOS) do Seminário Presbiteriano do Sul, em Campinas. Eu era o redator-chefe do jornal, que teve vida curta. Eu escrevi cinco Editoriais. Os jornais em que apareceram os três primeiros foram confiscados. Os dois últimos não chegaram a ser publicados, sendo vítimas da “Censura Prévia” instaurada no Seminário.

Para os que possam se assustar com a linguagem meio agressiva, registro que eu tinha apenas 22 anos quando vivi essa experiência, que me marcou, na época, e que continua de certo modo a me marcar até hoje.

1. Primeiro Editorial (18/3/1966) [Publicado e censurado nos dias seguintes, sendo o jornal confiscado]

Em sua reunião de 18 de fevereiro do corrente a Diretoria do CAOS decidiu que se publicasse, periodicamente, um jornal informativo da Diretoria, designando-nos, naquela mesma ocasião, responsáveis pela sua edição. Exatamente um mês após sai o primeiro número. Como primeiro é este um número experimental, para o qual pedimos a opinião dos colegas, para que ele venha a ser a expressão do corpo discente de nossa casa. Não é, porém, apenas a opinião dos colegas que solicitamos. Pedimos também a colaboração de cada um através de artiguetes escritos, através de trechos ou excertos traduzidos de livros ou revistas, através da indicação de livros e artigos recomendáveis. Esperamos que os colegas nos tragam suas colaborações. Será distribuído, gratuitamente, apenas um exemplar para cada colega. A pessoa que desejar mais números terá que pagá-los a razão de Cr$ 200 cada. Será esta uma maneira de arranjarmos um pouco de fundos para a contínua publicação do jornal. Cada vez que houver material suficiente, nas mãos do redator, para a tiragem de um número, este sairá. Contamos, pois, com a colaboração de todos.

2. Primeiro Artigo (18/3/1966): “Instituto Bíblico em Campinas” [Publicado e censurado nos dias seguintes, sendo o jornal confiscado]

Estamos ainda debaixo do revoltante impacto que nos causou a crítica ao sermão pregado hoje por um de nossos colegas. Queremos, de início, esclarecer que tudo o que aqui vamos dizer não visa à pessoa e às idéias do pregador, mas sim à posição e às idéias dos “críticos”, membros do corpo docente desta “Faculdade”. Colocamos estas duas palavras entre aspas porque não reputamos críticos os que não levam em conta a obra e os resultados da Crítica, fazendo de sua “crítica” tão simplesmente uma avaliação da simpatia do pregador, de sua vestimenta, de sua linguagem, de sua elocução, da estrutura homilética de seu sermão, de sua liturgia, negligenciando o cerne do sermão que é a interpretação dada ao teto. Para se fazer esta interpretação a Crítica Histórico-Literária e Textual é simplesmente considerada “farrapos”. Além do mais não consideramos Faculdade uma instituição de ensino que se aliena, através de seus professores (mas graças a Deus não através de todos os seus alunos) do movimento intelectual teológico contemporâneo. O que está se dando aqui é que nosso Seminário, tido aí por fora como “Faculdade de Teologia”, não passa, atualmente, de um Instituto Bíblico, que acha virtude, através de alguns de seus professores, em nem se aproximar dos problemas levantados pela Crítica Bíblica, e que acha que os alunos não precisam conhecê-los, pois são irrelevantes.

Vejamos, porém, o caso concreto. Pregou-se, hoje, uma sermão de prova biográfico sobre JONAS. Como base da mensagem do pregador estava a pressuposição de que o livro de Jonas é um livro histórico no sentido de que as informações nele contidas são historicamente fidedignas, e que o que nele é registrado se deu literalmente como o descreve o livro. O Jonas de que o livro fala foi tido como o profeta Jonas, filho de Amitai, que profetizou em Israel, no século VIII, no reinado de Jeroboão II (Cf. II Reis 14:25). Reafirmamos que o pregador tinha pleno direito de fazer o que fez, ou seja, de dar esta interpretação conservadora ao livro. Não o criticamos por isso. Afirmamos também que os mestres tinham pleno direito de concordar com o pregador a respeito de sua interpretação e da linha de sua mensagem, o que de fato fizeram. Com o que não concordamos, porém, é que o outro lado da questão não tivesse sido sequer mencionado! Um dos professores mencionou de passagem que o livro apresentava problemas críticos, mas nem sequer esboçou quais e que tipos de problemas seriam estes. Apenas afirmou (certamente opinião pessoal sua) que a Crítica havia tornado o livro em “farrapos”, subentendendo-se daí que se é impossível pregar sobre o livro de Jonas com uma interpretação outra que não a sua pessoal, naquele contexto representada também pelo pregador e pelos outros críticos. Um outro crítico mencionou que sua opinião era diferente, mas não julgou conveniente apresentá-la. De qualquer forma o sermão foi tido como muito feliz, pela interpretação sadia, pela riqueza de material, etc., pois fugiu dos problemas críticos, “não procurando chifres na cabeça de cavalo”. Embora um crítico houvesse achado que o sermão carecia de melhoras, a impressão tida após a crítica é que o sermão do colega foi o tipo de sermão ideal, “ungido” (o termo foi usado).

Nossa intenção, aqui neste artiguete, pelo qual somos pessoalmente responsáveis, é apresentar o outro lado da questão, como um dever de consciência, pois o outro lado foi redondamente ignorado pelos “críticos” do referido sermão. Se o fazemos é no interesse de esclarecer os colegas, mostrando que o livro de Jonas é “pregável” mesmo depois de a ele ser aplicada uma crítica bastante radical.

Vamos à questão.

O livro de Jonas é diferente de todos os outros escritos proféticos do Velho Testamento no sentido de que não contém uma coleção de oráculos de um profeta, mas é simplesmente uma história a respeito de um profeta. Pode ser esta a razão pela qual um livro que não reivindica de modo algum ter sido escrito por um profeta (o v.1 diz: “Veio a palavra do Senhor Jonas, filho de Amitai, dizendo:…” – Notar que o livro é escrito na terceira e não na primeira pessoa: “Jonas se dispôs”, “Jonas orou”, etc.), e que no aspecto literário pertence a um tipo bastante diferente, foi incluído entre os Livros dos Doze Profetas. Nem podemos dizer que o livro de Jonas seja um conto profético de natureza histórica e biográfica, porque a base requerida para tal não está presente no livro. O livro de Jonas é um poema didático, podemos mesmo dizer que um poema parabólico, escrito para mostrar que Deus se compadece mesmo dos ímpios quando eles se arrependem (3:10; 4:10). Este poema foi escrito com uma moral dirigida contra a intolerância dos Judeus e sua arrogância para com as nações pagãs, resultantes da doutrina da eleição mal interpretada em um sentido particularista. Bastava somente esta moral para que concluíssemos que o livro é pós-exílico, pois sua atitude básica toma por pressuposta a influência de Deutero-Isaías com sua idéia de salvação universal. O capítulo 3, versículo 3, dá a entender que Nínive era considerada uma cidade legendária, dos tempos antigos. Além do mais, a linguagem do livro, com seus aramaísmos, e com formas hebraicas bem posteriores em seu vocabulário e estilo (1:6, 7; 2:1; 3:2, 7; 4:6, 8) não permite que se date o livro anteriormente ao século V. Como terminus ad quem há o fato de o livro ser pressuposto no século II (Cf. Eclesiástico 49:12; Tobias 14:4,8).

Não há dúvida, entretanto, de que o autor do livro de Jonas tivesse tido a intenção de fazer com que o Jonas por ele descrito fosse entendido como o Jonas do século VIII. Isto era comum na antigüidade, quando a questão de direitos autorais e de direitos de nome não era problema jurídico. Qualquer pessoa podia escrever um livro em nome de outrem, ou poderia por seu nome em obra de outrem, ou poderia ainda, como no caso, usar a pessoa de outrem como personagem de seus escritos. O autor, contudo, não pretendeu estar escrevendo naquela época. Além do mais há muito no livro que indica que ele vem de um período bem posterior ao século VIII, além de que apresentamos acima. A cidade de Nínive não era tão grande no século VIII. Além do mais é difícil de se crer que uma cidade tão grande quanto descrita tenha se convertido “desde o menor até o maior” (3:5), o rei inclusive 3:6 sqq. Note-se que em nenhum lugar mais nem na Bíblia, nem fora dela, se menciona “Rei de Nínive”, pois o rei não era de Nínive, e sim da Assíria, país cuja a capital era Nínive, e que isto não tenha sido registrado em nenhum lugar, nem nas crônicas assírias nem nas israelitas. Por cima é difícil de harmonizar como a Nínive convertida a YHWH, inclusive com o seu rei, no século VIII, tivesse, com o restante da Assíria, ainda naquele mesmo século (721), conquistado Israel e destruído Samaria, levando cativos os líderes.

Por todos estes motivos é difícil crer na historicidade do livro como tal. Não negamos que tenha existido um Jonas, filho de Amitai, profeta. O que afirmamos é que ele não é o protagonista deste episódio, e que o que é narrado no livro de Jonas é uma parábola escrita com a finalidade acima apresentada, a saber, de mostrar aos Judeus que Deus se compadece e quer a redenção mesmo dos ímpios e gentios. Porque esta mensagem é apresentada com igual clareza por Deutero-Isaías é que se coloca o livro de Jonas mais ou menos na mesma época.

Agora perguntamos: Reconhecer isto é “procurar chifres na cabeça de cavalos”? Cremos que não reconhecê-lo é ignorar chifres na cabeça de um boi! Continuamos: reduz isto o livro de Jonas a “farrapos”? Absolutamente! Devemos deixar de pregar sobre o Bom Samaritano somente porque ele não é histórico? Evidentemente não! Se isto é verdade podemos pregar sobre o livro de Jonas mesmo que o episódio e o personagem ali descritos não sejam históricos. O que importa é a mensagem que o autor quis transmitir, ao criar esta parábola: quebrar as tradições nacionalistas dos Judeus, mostrando que Deus ama até os inimigos de Israel!

Embora o livro por seu tipo literário não seja profético, seu espírito o é, particularmente na tendência geral de pensamento a ele imprimida, quando foi escrito, em tempos pós-exílicos. Para por em cheque o particularismo exclusivista do Judaísmo pós-exílico, e a distorção da doutrina da eleição imposta pelo egoísmo religioso, este livro testifica a grandeza da profética concepção de Deus, e a ampla tolerância que esta concepção implica! O livro ainda hoje é uma voz profética e uma permanente advertência contra tudo o que estreita e particulariza a religião, e contra todo exclusivismo religioso. Porque pretendeu mostrar que a compaixão de Deus é maior que o coração humano, que sua vontade de salvar alcança mesmo além dos limites de seu próprio povo, e portanto o leva à tarefa missionária, este livro pertence aqueles no Velho Testamento que prepararam o caminho para o Evangelho.

Os colegas julguem se a crítica que aplicamos ao livro, privando-o de sua historicidade, tornou-o “impregável”, esfarrapou-o. Julguem se, em uma Faculdade de Teologia do gabarito que a nossa pretende ter, pode alguém pregar sobre Jonas nos termos em que se pregou, sem que qualquer dos professores presentes à crítica tivesse sequer levantado o problema da historicidade do livro.

Aos Colegas a palavra!

3. Segundo Editorial (18/4/1966): Ainda Jonas [Publicado e censurado nos dias seguintes, sendo o jornal confiscado]

No número anterior, primeiro de nosso jornal, procuramos, em um artigo que teve um Sitz im Leben de todos conhecido, dizer algumas palavras sobre o livro de Jonas. Naquele ocasião dissemos que o livro tinha uma mensagem ainda hoje relevante, pois era “uma voz profética e uma permanente advertência contra tudo o que estreita e particulariza a religião, e contra todo exclusivismo religioso”. Nosso interesse hoje é assinalar a relevância e o oportunismo desta mensagem no contexto imediato em que nos encontramos, a saber, na vida da IPB.

Vimos, no artiguete passado, que a mensagem de Jonas foi um brado de protesto contra o nacionalismo particularista dos judeus que se consideravam detentores únicos e exclusivos da divina graça, e que, assim fazendo, limitavam à ação de Deus à nação política Israel. Deus estava cercado dentro dos limites políticos da nação. Qual a relação que isto pode ter com a IPB? A relação é que, ainda hoje há o grupo que se considera detentor exclusivo e único da graça divina, grupo este que, assim fazendo, procura limitar a ação de Deus, não a uma nação política, mas a um círculo ideológico, que procura cercar Deus, não dentro de limites políticos, mas de limites ideológicos.

Concretizamos: aqueles que, no seio da IPB, estão preocupados em tirar do seu caminho todos os que não concordarem em gênero, número e caso com os padrões rígidos de sua “ortodoxia” superada estão praticando o mesmo tipo de exclusivismo religioso (senão pior) praticado pelos judeus aos quais foi dirigida a mensagem do livro de Jonas. Estas normas “ortodoxas” têm se tornado os limites cerceadores da ação de Deus. Quem delas se afastar — dizem, ou se não dizem assim o entendem, pois suas atitudes o comprovam — afasta-se do próprio Deus, e então não é digno de permanecer na IPB. Precisa ser expurgado (palavra, por eles, estimadíssima!).

Vimos, contudo, no artigo passado, que quando o homem estabelece limites que particularizam e estreitam a órbita da ação de Deus o próprio Deus encontra um meio de arrasar com essas pretensões do coração humano. As obras do autor de Jonas e de Deutero-Isaías são em Israel  evidências típicas disto. Foi porque os israelitas não atentaram ao fato de que Deus queria quebrar (como de fato quebrou) estas barreiras particularizantes que foram por Ele rejeitados.

É conscientes desta verdade que levantamos a nossa voz em protesto contra a estreiteza de mente de alguns dentro da IPB para os quais até opinião é delito, para os quais a livre expressão do pensamento é causa suficiente para expurgo! Como é mais fácil lutar para manter as liberdades que já temos do que lutar para reconquistar as liberdades perdidas, “O CAOS em Revista” se dispõe, em suas páginas, a dar livre expressão ao pensamento dos alunos. O número presente é exemplo disto. Não podemos permitir que nos tolham a liberdade de termos os nossos próprios pensamentos e o livre direito de expressá-los. É esta a base da democracia. É esta a base do regime presbiteriano. Em sua obra Utilitarianism, Liberty and Representative Government (New York: Dutton, 1910, p.79) John Stuart Mill faz notar, com toda razão, que silenciar a expressão de uma opinião é roubar a raça humana, tanto a geração presente como a posterior, sendo ainda mais prejudicados os que discordam do que os que mantêm a opinião, pois, se a opinião é correta, aqueles que dela discordam estão perdendo a oportunidade de trocar o erro pela verdade, e, se é errada, os dela discordantes perdem o grande benefício de adquirir uma percepção mais clara e mais viva da verdade, proveniente de sua colisão com o erro. Se as idéias que temos expresso e, esperarmos, continuaremos a expressar através deste jornal não são verdadeiras e são perniciosas, não vingarão, pois a melhor maneira de destruir uma idéia falsa é expô-la! Quem estiver com a verdade não precisa temer idéias, por mais estapafúrdias que sejam, pois terão com que refutá-las, através de um franco diálogo. Aqueles que se crêem portadores de idéias verdadeiras, se querem mantê-las, devem torná-las continuamente relevantes, e não impedir que novas idéias apareçam e sejam disseminadas.

Aquilo que tem sido considerado como delito, isto é, a apresentação de idéias que não se harmonizam inteiramente com os padrões oficiais, o delito de opinião, é um crime que devemos praticar diariamente, sob quaisquer riscos. Se deixarmos de ser “criminosos” neste campo, estaremos roubando as gerações passadas que lutaram, até o sangue, para obter as liberdades de que somos herdeiros, a geração presente que estará tendo sua voz sufocada e reprimida, e a geração futura que sentirá que uma geração deixou de realizar o seu papel na história!

Neste espírito e com este alvo é que “O CAOS em Revista” sai, exatamente um mês depois do primeiro, em seu segundo número.

X. “O Manifesto dos Quinze” [Única matéria NÃO escrita por Eduardo Chaves]

[NOTA: Entre o segundo e o terceiro número do jornal, houve a publicação, fora do jornal, do nefasto Manifesto dos Quinze. Para fazer sentido dos Editoriais e do artigo que segue, publico-o aqui, inclusive com o nome de seus indignos signatários.]

Aos Membros, Oficiais e Ministros da Igreja Presbiteriana do Brasil

Saudações no Senhor,

Sentimos um dia que Deus nos chamava para o sagrado ministério da Palavra. Obedecendo a esse chamamento, decidimos entregar a vida ao serviço do Senhor, não medindo as dificuldades, os problemas, os sacrifícios que teríamos de enfrentar. Foi nesse propósito que viemos para o Seminário. Não tínhamos ilusões de que não iríamos encontrar um céu aberto. Esperávamos, entretanto, encontrar um ambiente favorável para os estudos, um meio apropriado para cultivar espiritualidade, uma atmosfera de seriedade moral e de respeito, particularmente para com as pessoas e as instituições da Igreja. Preferiríamos não dizer da desilusão que tivemos.

Não queremos prejudicar o Seminário ou a Igreja. Nem desejamos atingir pessoas. Somos os primeiros a reconhecer nossa imperfeição, nosso pecado, nossas falhas, nossa pobreza espiritual, nossas deficiências em todo sentido, contudo, aspiramos um Seminário melhor, mais vida espiritual, mais firmeza de caráter, mais consagração, fé mais vigorosa, convicção mais sólida, testemunho mais cristão e espírito mais dedicado na evangelização e na obra da Igreja. Temos silenciado até agora por que não queríamos nem de longe concorrer para o agravamento da situação. Só Deus sabe das angústias de nossa alma e das preocupações de nosso espírito, das lágrimas que temos vertido, das noites mal dormidas, das lutas em oração que temos sustentado. Chegamos, porém, a um ponto em que não mais podemos manter-nos calados. Por amor ao Seminário e à Igreja temos de sair a público para clamar contra os abusos que presenciamos e a situação em que vivemos. Com tristeza infinita, temos de apelar a todos os corações crentes a que se levantem para defender esta Casa, que tanto amamos, e a IPB nesta hora crítica.

Com o maior dos pesares temos de dizer que o Seminário não é hoje a Casa de Profetas, de onde saíam homens de Deus, fiéis à Bíblia e ardendo de entusiasmo pela salvação dos pecadores, ministros piedosos que continuem a obra dos grandes homens do passado, grandes na fé, grandes na consagração, grandes no fervor, grandes na piedade, prontos a todo sacrifício, varões de Cristo sem reservas.

O Seminário é hoje um lugar onde se zomba dos que levam a sério a Bíblia, a oração, a vida espiritual; onde se desmoraliza de todas as formas a liderança da Igreja, suas instituições e seus homens de confiança; onde se hostilizam professores que não se dobram aos interesses do grupo dominante; onde se defende a libertinagem e a imoralidade; onde existem clubes dos que se reúnem para fumar e beber; em cujo refeitório se praticam atos que ferem a mais elementar educação e onde a própria oração é motivo de ridículo e zombaria; onde se defende o amor livre e se condena como pietismo e moralismo todo esforço de viver cristãmente, segundo os padrões do Evangelho; onde se tacham de estreitos todos quantos mantêm firmes as doutrinas do Calvinismo clássico e aceitam a Bíblia como inspirada Palavra de Deus; onde se veiculam idéias modernistas como se fossem a verdade de Deus, somente porque os teólogos do dia e os estafetas dos evoluídos desta e de outras terras o proclamam; onde não existe interesse geral pela evangelização e pela conversão dos pecadores; onde uma cúpula ativista, politiqueira, de simpatias pronunciadamente esquerdista, exerce inexorável pressão sobre os colegas que não rezam pela sua cartilha e trama de maneira traiçoeira contra os líderes da Igreja que não obedecem à sua linha de pensamento; onde figuras estranhas ao Seminário e até à IPB, muitos até ministros, não sentem escrúpulos em manter encontros para desmoralizar a Igreja, autoridades eclesiásticas e professores da instituição de maneira desleal e revoltante; onde impera a irreverência e o cinismo; onde palavrões e piadas picantes são a norma de não poucos; onde a dignidade feminina e a pureza pessoal são objeto de alusões que não podemos aqui referir. Onde colegas são humilhados e tratados de maneira contrária ao amor de que tanto falam, especialmente aqueles que são novatos, vítima de trotes que refletem bem o espírito evoluído dos seus promotores; onde a vida espiritual e devocional é baixa, tanto quanto o pode ser; onde os cultos são mal assistidos e por alguns inteiramente desprezados; onde um círculo de oração iniciado por um grupo desejoso de mais vida devocional é hostilizado e combatido; onde a maioria indiferente e acomodada, querendo manter uma neutralidade impossível, acaba sempre fazendo a jogada da liderança negativista; onde as próprias autoridades não parecem em condições de agir com firmeza.

Irmãos no Senhor, não dissemos tudo que poderíamos dizer. O próprio deão do ano passado, Rev. Dr. Osmundo Afonso Miranda, traçou um retrato bem realista da situação em seu relatório à Diretoria do Seminário, que é um brado de alerta contra a referida situação. A situação é séria, o sentimos. Por amor a Cristo e Sua Palavra, por amor à IPB e seu ministério autêntico, por amor aos crentes sinceros de hoje e às gerações do futuro, é preciso por paradeiro a esses desmandos. Aqui, diante de nosso Deus, obedecendo à voz de nossa consciência, com o coração sangrando de tristeza, bradamos pedindo que alguma coisa seja feita. Não podemos ficar indiferentes nem calar-nos; seríamos cúmplices desse processo de desmoralização da Causa. Pensai no que estamos relatando, informai-vos de tudo, orai muito e agi com firmeza. E que Deus, o nosso Deus, nos dê forças para não fugirmos ao dever, para sermos fiéis à Sua vontade. Amém.

Hermes Mariano, Presbitério de São Paulo
Ariovaldo C. Bomfim, Presbitério de São Paulo
Elpídio Gonçalves. Presbitério do Rio Doce
Evandro Luiz da Silva, Presbitério de Cuiabá
Floramonte Dias Gonçalves, Presbitério Oeste de Goiás
Célio J. Duarte, Presbitério Florianópolis
Francisco Antônio Maia, Presbitério de Brasília
Silas Augusto Tscherne, Presbitério de Rio Claro
Dirceu Xavier de Mendonça, Presbitério de Rio Claro
Gilson Barbosa Gomes, Presbitério do Rio de Janeiro
Eldman Francklin Eler, Presbitério de Governador Valadares
Adolfo Potenciano, Presbitério de Goiânia
José Silvério Júnior, Presbitério de Brasília
José dos Anjos, Presbitério Norte de Minas
Jarbas Dantas, Presbitério de Campinas

4. Terceiro Editorial (18/5/1966) [Publicado e censurado nos dias seguintes, sendo o jornal confiscado]

Novo dia 18. Novo “O CAOS em Revista”. Até aqui temos podido ser pontuais. Esperamos poder continuar a sê-lo.

Muitas coisas aconteceram em nossa casa desde que o segundo número saiu. Dentre elas merece destaque, não pelo conteúdo, mas pela repercussão, o Manifesto (na falta de melhor palavra) que um grupo de quinze alunos endereçou aos membros da Igreja Presbiteriana do Brasil, delatando coisas que se passam aqui dentro (e até as que não se passam), separando estas coisas de seu contexto, julgando-as erradas e pedindo punição para quem as comete. Deve ser dito ainda que o referido manifesto está sendo espalhado ilegalmente, pois não passou pela Congregação, canal competente para o envio de qualquer documento dos alunos para fora dos limites do Seminário.

“O CAOS em Revista” lamenta o sucedido. Lamenta por várias razões.

Em primeiro lugar, o referido manifesto veio dividir definitivamente nossa comunidade. Antes dele havia correntes, tendências divergentes, que não chegavam, contudo, a ser grupos. Havia mesmo aqueles que eram neutros a qualquer corrente: os que se chamavam de “a terceira força”. O manifesto, no entanto, acabou com tudo isto, criando dois grupos apenas: o dos que assinaram o manifesto (quinze) e o grupo dos restantes. Este fato decepou qualquer esperança de se poder viver em real comunidade aqui.

Em segundo lugar, lamenta pelo simples fato de que “roupa suja se lava em casa”.

Lamenta, ainda, pelo mal que os colegas signatários do referido manifesto vão causar ao membros da IPB, escandalizando-os desnecessariamente. Porque o instrumento de escândalo não são tanto os que cometeram determinadas coisas tidas por erradas quanto os que as espalharam a um contexto inteiramente diferente e não preparado para ouvi-las. Se observarmos o que Paulo tem a dizer a respeito do comer carne de porco, vamos notar que o erro não estava no comer em si, mas no escândalo que isto podia causar. Correto. São feitas e ditas coisas aqui dentro de nosso dormitório e de nossos quartos (não tantas e tão terríveis quanto o referido manifesto pretende que sejam) que não escandalizam ninguém no ambiente em que estão sendo feitas e ditas. Levadas, contudo, para um ambiente não preparado para ouvi-las, estas coisas servem de escândalo. O culpado deste escândalo, contudo, não é quem faz o ato, mas quem o espalha para um ambiente não preparado para ouvi-lo.

Isto é o que mais lamentamos no manifesto. Não lamentamos o mal que seus signatários pretenderam causar aos outros, “neutros e liberais”. Lamentamos, sim, pelo mal que causarão e já estão causando, inconscientemente, a uma enormidade de crentes inocentes, que não precisavam saber das dificuldades internas de nossa casa, que, porque internas, deveriam ser resolvidas aqui dentro. A atitude dos que assinaram o manifesto, dos que orientaram ou estimularam a sua confecção, dos que o estão enviando e distribuindo não é nada pastoral em relação aos membros da Igreja que eles querem salvar! Eles, os responsáveis pelo manifesto, não tinham o direito de escandalizar os membros humildes e inocentes das nossas Igrejas. Por isso é que reputo correta a opinião de um pastor que ao receber o manifesto disse: “Isto é antes de um ato de covardia para com os membros da Igreja!” É construindo e não destruindo que se deve alcançar um objetivo.

“O CAOS em Revista” registra, pois, com pesar, esta mancha negra nos anais do corpo discente desta casa. Continuaremos, porém, a lutar, de modo franco e legal, à luz do dia, através do diálogo leal, para que cada um tenha a liberdade de pensamento e ação indispensáveis à vida de cada verdadeiro homem, de cada verdadeiro cristão. É com o intuito de restabelecer diálogo que o redator escreveu o artigo “Parafraseando”. Ele tem esperado em vão a contribuição dos colegas. E ainda espera. Por que algum dos colegas signatários  do manifesto não se decide a um diálogo franco em lugar de fazer ataques subversivos e inesperados? É uma tática mais madura e mais máscula. As páginas de “O CAOS em Revista” estão à espera.

Enquanto isto, colegas, lutemos para que, em nosso meio, cada um possa ter a autonomia de pensamento que o cristão precisa ter. “Lembrai-vos sempre de que não existe felicidade sem liberdade, e de que o fundamento da liberdade é a coragem” (Péricles, Discurso aos Atenienses, citado por Tucídides, em A Guerra do Peloponeso, Livro 2, citado por Celso Furtado, Dialética do Desenvolvimento, p. 7).

5. Segundo Artigo (18/5/2015): “Parafraseando” [Publicado e censurado nos dias seguintes, sendo o jornal confiscado]

“Propôs Jesus também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos por se considerarem justos, e desprezavam os outros” (Lucas 18:9).

Certa vez, em uma Faculdade Teológica, passaram a existir dois grupos: um que se dizia “conservador” e outro que era taxado de “modernista”. Certo dia os conservadores oraram assim: “Ó Deus, graças te damos porque não somos como os demais colegas: defensores da libertinagem e da imoralidade, fumantes e beberrões, defensores do amor livre, mantenedores de simpatias pronunciadamente esquerdistas, irreverentes, cínicos, contadores de piadas e desrespeitadores da dignidade feminina. Louvamos-te, ó Deus, porque assim não o somos. Nós fazemos reunião de oração diariamente, ocasião em que um rabino nos instrui a respeito das idéias ortodoxas da tua palavra e a respeito do calvinismo clássico que tu nos legaste; nós, por ocasião das refeições, ficamos quietos: chegamos a bater palmas e a sorrir para mostrar nosso amor cristão, mesmo quando são proferidos discursos que nos criticam; aceitamos a Bíblia toda como palavra inspirada de Deus; estamos sempre aos pés dos líderes da Igreja para aprender deles como agir honesta, franca e desinteressadamente; saímos três ou mais vezes por semana para pregar a tua palavra, embora nosso estudo seja com isso prejudicado: contudo, teu sábio servo do passado já dizia que “o muito estudar é enfado da carne” — aliás o teu Espírito colocará nos nossos lábios a mensagem, mesmo que nada tenhamos estudado! Ó Deus, atenta para isto: somos fiéis servos e testemunhas da tua palavra aqui neste Seminário; para conseguirmos sê-lo chegamos até a desrespeitar as leis da Congregação, ó Deus, pois mandamos, por trâmites ilegais, um formidável manifesto aos crentes da tua igreja, condenando tudo o que de errado se passa aqui dentro, fora do nosso grupo, evidentemente; por amor à tua causa, ó Deus, chegamos ao ápice da ousadia e da coragem ao afirmar que as próprias autoridades que dirigem este Seminário não parecem estar em condições de agir com firmeza. Mas nós o estamos, ó Deus, e te agradecemos por isto.”

O resto todo o mundo sabe. Aquela criatura de tão excelentes qualidades, o fariseu da parábola de Jesus, não foi o que desceu para casa justificado, mas sim aqueles que era roubador, injusto e adúltero, aquele que era um pária moral na sociedade de sua época. Estranho, não? Mas real. No entanto seria bom perguntar por que o fariseu, que era o pietista, o legalista, o moralista, o ortodoxo da época de Jesus, não foi justificado. A razão parece óbvia, embora muitos não a queiram ver: o fariseu não foi justificado porque colocou como critério de sua auto-avaliação diante de Deus o seu próximo, o publicano. E, nestas circunstâncias, aferindo-se por um critério imperfeito, o fariseu jactou-se diante de Deus, orgulhou-se, e creu que poderia trazer nas mãos e apresentar diante de Deus algo de bom: o seu comportamento, o seu modo de agir, o seu zelo pelo cumprimento da lei divina. E não foi justificado embora praticasse atos muito bons em sua vida, se os considerarmos isolados de sua motivação e de seu contexto. Porque todas as vezes que nos avaliamos por critérios e padrões imperfeitos nos tornamos orgulhosos.

Às vezes este orgulho é disfarçado sob a capa de uma pseudo-humildade, sob palavras tais como estas: “Somos os primeiros a reconhecer nossa imperfeição, nosso pecado, nossas falhas, nossa pobreza espiritual, nossas deficiências em todos os sentidos, contudo…” (negrito meu). Não são, no entanto, nossas palavras a coisa que tem importância primária. É nossa atitude que, lhes subjaz, que é o primariamente importante. Mesmo que pronunciemos, em lágrimas e com o coração sangrando, palavras que falem a respeito de nossa humildade, se nossa atitude for a de um juiz apontando erros nos outros, não estaremos sendo humildes, mas orgulhosos.

Será bom perguntar porque sentimos um prazer imenso em apontar as falhas, erros e os defeitos dos outros, principalmente quando estes são pessoas mais preeminentes que nós, em outros setores, ou talvez no mesmo a que nos dedicamos. Porque no instante que fazemos isto podemos nos jactar e nos consolar intimamente, dizendo: “embora fulano seja melhor estudante que eu, embora se destaque mais em certos círculos, na hora em que souberam que ele faz isto e aquilo eu subirei na cotação do povo, mediante o rebaixamento do outro!” A raiz de todo mexerico, fuxico e de toda delação está nesse nosso desejo de nos compararmos com os outros e de ver neles falhas, e de torná-las ainda mais negras, através de generalizações precipitadas e de mentiras mesmo, porque assim teremos maior realce. Isto até me faz lembrar da história daquela ordem de monges, que nada mais tendo de que se orgulhar orgulhavam-se de sua humildade!

O erro do fariseu não foi fazer todas aquelas coisas. Foi comparar-se com o que não fazia, e julgar-se superior, julgar-se na condição de juiz do seu próximo. Todas as vezes que nos aproximamos de Deus auto-avaliando-nos por critérios imperfeitos nos tornamos orgulhosos, e nos sentimos no direito e em condições de apresentar a Deus alguma realização nossa, algo que nos conceda mérito diante dele. E todas as vezes que assim fazemos estamos sendo fariseus: mesmo que aquilo que estejamos apresentando a Deus seja a nossa fé, seja a nossa “ortodoxia”, seja a nossa conduta impecável!

O mérito do publicano estava em que, quando quis avaliar-se, não tomou para si critérios humanos, e, portanto, imperfeitos, mas colocou o próprio Deus como padrão de sua auto-avaliação. E porque assim agiu sentiu-se imediatamente arrasado. Não viu mérito algum em sua pessoa. Diante de Deus ele não era nada. Então, não podia orgulhar-se. Simplesmente não tinha de quê. Só pode dizer: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador”. E foi justificado.

Como esta parábola deve ter chocado os ouvintes de Jesus! Como aquela crítica tremenda aos “santos” e “justos” fariseus, aos “ortodoxos”, e a sentença de que o publicano havia sido justificado deve ter arrasado os ouvintes de Jesus! Justamente o publicano, que não era apenas “modernista e liberal”, mas HEREGE! No entanto, o impacto que a parábola causou nos ouvintes de Jesus foi esquecido e hoje a parábola não faz parte da Bíblia de muita gente tida por aí como exemplo de santidade.

Finalmente uma palavra aos “quinze”: o que fazeis, vós os que assinastes o manifesto, com textos tais como este (Lucas 18:9:14)? Simplesmente o ignorais? Por diversas vezes já tenho ouvido a acusação de que nós, os “modernistas”, recortamos a Bíblia, para fazer nossa exegese ou formular nossas doutrinas. Será que é verdade? Ou, em última instância, será que é toda a verdade? Porque o que posso perceber é que vós, os conservadores e “ortodoxos”, também a recortais, não através da exegese, mas através do vosso comportamento, através de vossas vidas! E, em assim fazendo, vos tornais mais liberais do que os próprios. Quero crer, no entanto, que assim o fazeis ignorantemente e não de espírito premeditado. Quero, com sinceridade, crer que é inconscientemente que extraís de vossas Bíblias, em vossa vida e através de vossa conduta, textos tais como o acima mencionado, que não é o único. Ou será que não percebestes que a vossa atitude em fazendo o manifesto que fizestes, não permite que a Parábola do Fariseu e do Publicano continue mais em vossas Bíblias? O mesmo se dá com textos tais como Mat. 7:1 sqq; Tiago 4:11-12 e outros.

Minha opinião particular é que fostes, a maioria de vós os “quinze”, ingênuos simplesmente. Não pudestes perceber as dimensões do que fizestes. Os outros, os  “não-ingênuos” que vos manipularam, não passam também de ingênuos nas mãos de outros menos ingênuos do que eles. Quando tiverdes adquirido um pensamento crítico e uma capacidade independente de avaliar as coisas, o que se dará do segundo ano em diante, embora haja alunos que já cheguem aqui com estas qualidades, então podereis observar o quanto fostes insensatos. E vos arrependereis muitíssimo. Pois então vereis porque as vossas expectativas de ter 2/3 dos alunos ao vosso lado (correspondentes ao I e II ano somados), expectativas estas bastante vivas no início deste ano, vieram a falhar, e sois apenas quinze em uma comunidade de quase oitenta. Tendes apenas dois do segundo ano em vosso meio. Os outros “abriram os olhos” (o que não significa que tenham se tornado “modernistas” – apenas perceberam quão estreitos sois). Então (quando adquirirdes um espírito crítico mais aguçado, na pressuposição de que este Seminário vai ajudar-vos a aguçá-lo), vereis porque é que um professor que luta ano a ano para ver seu circulo de influência crescer não consegue, cada ano, fazer com que sua influência abranja senão um pequeno número de calouros. Seu contato influente com os alunos termina em três semestres. Vereis porque de professor de mais ou menos cinco matérias veio ele a lecionar apenas uma, presentemente. Mas é somente o tempo que vos poderá mostrar isto. É com paciência que espero que ele e o Espírito Santo (por que não?) realizem o seu trabalho.

6. Quarto Editorial (18/6/1966) [Censurado previamente: não chegou a ser publicado]

Ainda um “O CAOS em Revista”. O último deste semestre. Os leitores já acostumados à sua leitura talvez notem que, neste número, “O CAOS em Revista” está um pouco diferente, em seu conteúdo, dos números anteriores: está menos vivo. Motivos vários contribuíram para que isso se desse, dentre os quais a falta de tempo do Redator e a falta de colaboração dos colegas no sentido de enviarem artigos, traduções, poesias, etc., para serem publicados.

Outro motivo ainda, a ser notado, é a ordem explícita e inequívoca da Congregação do Seminário Presbiteriano do Sul, que determinou que nenhum “O CAOS em Revista”, ou equivalente, fossem publicado sem o visto do Senhor Reitor ou do Senhor Deão. Esta ordem explícita, acrescentada da reprovação enérgica feita ao Redator, pela matéria contida nos três primeiros números do jornal, e da ameaça de punição por indisciplina em caso de reincidência, esclarecem, sem possibilidade de equívoco, a posição da Congregação e a posição que ela nos reserva. (Observe-se que os dois primeiros números do jornal foram julgados duas vezes pela Congregação. Na primeira vez, ela decidiu não opinar sobre eles, enviando-os ao Presbitério do Redator. Na segunda vez, por razões ignoradas, decidiu reprovar a matéria sobre a qual em vez anterior havia se omitido).

O campo que a Congregação nos permite abranger, contudo, torna-se demasiado restrito quando notamos que ela considera a matéria contida no terceiro jornal fora da competência e do direito de manifestação de um jornal do corpo discente. Torna-se difícil, pois, formular um jornal em que tratar de problemas que diretamente afetam a vida de todos os alunos é considerado “fora da competência” de um jornal de alunos.

Assim sendo, resolvemos, em protesto, transcrever uma seção (Seção 4, no Capítulo II) do livro A Formação da Mentalidade (Mind in the Making), de James Harvey Robinson. Se o trecho que será transcrito for lido em seqüência aos três primeiros números do jornal, poderá comunicar uma mensagem bastante relevante. É o que esperamos.

7. Matéria para ser transcrita em 18/6/1966 [Censurada previamente também: não chegou a ser publicada]

Somos incrivelmente descuriosos da formação das nossas crenças, mas por elas nos enchemos de amor quando no-las querem roubar. Torna-se óbvio que não são propriamente as idéias que nos são caras, sim o nosso amor próprio. . . .

Gostamos de continuar a crer no que nos acostumamos a aceitar como verdade, e a revolta sentida quando duvidam das nossas verdades estimula-nos a ainda mais nos apegarmos a elas. O resultado é que a maior parte do chamado raciocínio humano consiste em descobrirmos argumentos para continuarmos a crer no que cremos.  . . .

Esta distinção entre “boas” e “reais” razões é das mais importantes nos domínios do pensamento. Podemos de pronto dar o que chamamos as nossas “boas” razões para sermos católicos ou maçons, republicanos ou democratas, amigos ou inimigos da Liga das Nações. Mas as razões “reais” ficam em outro plano. Não há dúvida que a importância desta distinção é notória, embora obscura. Um missionário batista concorda prontamente em que o budista não é budista por conseqüência do cuidadoso estudo que fez dessa crença, mas simplesmente porque nasceu numa família budista de Tóquio. Mas considerará ofensivo à sua fé reconhecer que a sua parcialidade para com certas doutrinas provém de ter tido ele uma progenitora afiliada à igreja batista de Puddlebury. . . . Mas nem um nem outro perceberá por que motivo está defendendo as suas opiniões pessoais.

As razões “reais” das nossas crenças vivem ocultas des nós mesmos, tanto quanto dos outros. À medida que crescemos, muito naturalmente vamos adotando as idéias ambientes relativas à religião, às relações de família, à propriedade, aos negócios, ao governo. Absorvêmo-las, de tanto ouvi-las zumbir em torno de nós, no seio do grupo em que vivemos. Ademais, como Totter notou, essas idéias, como produto da sugestão e nunca do raciocínio, possuem o característico de parecerem perfeitamente óbvias.

. . .


Este espontâneo e leal apoio aos nossos preconceitos — este processo de descobrir “boas” razões para justificá-los — recebe dos cientistas modernos o nome de “racionalização” — palavra nova para coisa muito velha. Nossas “boas” razões nada valem para o honesto esclarecimento de um assunto, porque, por mais solenemente que sejam apresentadas, não passam, no fundo, de resultados de preferências pessoais, ou preconceitos, não refletindo nenhum sadio desejo de acertar. . . .

O fato de uma idéia ser antiga e largamente espalhada não constitui argumento a seu favor, mas sim argumento para que tal idéia seja estudada e testada, a fim de verificarmos se não passa de mera racionalização.

8. Quinto Editorial: 18/8/1966 [Censurado previamente também: não chegou a ser publicado]

Temos em mãos o que seria “O CAOS em Revista” do mês de Junho, mas que não o foi, por causa do aborto que sofreu. O Editorial, que naquela ocasião escrevemos, procurava dar um relato sucinto dos acontecimentos que culminaram na colocação, naquela oportunidade, de “O CAOS em Revista” sob a tutela da Congregação do SPS [Seminário Presbiteriano do Sul], fato este que, por sua vez, ocasionou o aborto mencionado.

Um tempo relativamente longo decorreu desde então. Vivemos em outro contexto: temos outro Reitor, temos outro Presidente no Supremo Concílio. A cúpola que dirigia os destinos da IPB [Igreja Presbiteriana do Brasil] foi trocada. Há uma nova direção.

Todos estes acontecimentos, todas estas mudanças, toda esta “renovação”, pareceriam ser sinais de que a IPB rejuvenesce, reforma-se, atualiza-se, sofre uma renovação, no verdadeiro sentido do termo, sem as aspas indispensáveis ao emprego anterior da palavra. Mas, todos sabemos, isto não é verdade. A IPB preferiu, através da maioria dos representantes presentes ao Supremo Concílio, dar-se um outro rumo: o de lutar, em pleno século de viagens interplanetárias e de armas nucleares, como se fosse “remanescente de uma época de cavalaria”, para usar a apta imagem de Dietrich Bonhoeffer [em Letters and Papers from Prison], isto é: usando uma linguagem que não é a nossa do século XX; valendo-se de meios de ação que mais se assemelham aos da Idade Média; pregando idéias que há um século já eram tidas como desatualizadas, anacrônicas, conservantistas, vetustas; empregando métodos de pressão e repressão que nos fazem lembrar a Santa Inquisição Medieval; sendo dirigida por uma cúpula que, no seu totalitarismo, faria Hitler tremer de inveja no túmulo; expressando-se através de um órgão oficial que nada fica a dever aos periódicos do Rev. Raphael Camacho e do Mr. Robert Rapp! A IPB chegou a este ponto. Ou, melhor dizendo, permitiu que a conduzissem a este ponto.

Lembro-me de uma frase de Goethe, lida algures, que diz: “Muitos preferem morrer a pensar”. Na minha opinião, esta frase explica a razão de ter a IPB se deixado levar à situação em que se acha: “Muitos preferem morrer a pensar”. A IPB já sofre, agora, e vai sofrer muito mais ainda, os resultados da “preguiça intelectual” daqueles aos quais se delegaram poderes para decidir a respeito dos destinos da Igreja. Isto porque, enquanto a maioria prefere morrer a pensar, há aqueles, poucos e raros, que quase morrem de pensar para descobrir meios de manipular a maioria não-pensante, a fim de que esta venha a servir a seus objetivos pessoais, egoístas, de “will to power”. E o resultado, trágico, mas inevitável, a menos que os não pensantes se decidam a pensar por si, é que, muitas vezes, uma pessoa, que se proponha este alvo, consegue manipular uma multidão, quase sempre de boa fé, levando-a a satisfazer às suas aspirações (suas, bem entendido, do manipulador). É mais fácil, realmente, deixar que os outros pensem por nós; que nos ditem o que fazer; que decidam quais destinos devam ser os da Igreja; quais normas devam regê-la; quais doutrinas devam ser sua confissão. É o caminho mais fácil, o “caminho largo”, mas aquele que leva à negação completa do dom da inteligência.

“Contudo”, talvez diga alguém, “o prezado jovem está se esquecendo de algo muito importante: foi o Espírito Santo que fêz com que se deliberasse em Fortaleza como foi deliberado. Ou será que o irmão é dos ‘modernistas’ que não crêem no Espírito Santo?” Sim, muitos já disseram isto, e não só uma vez. E é aqui que se situa, no meu entender, a maior heresia dos “situacionistas” presbiterianos de hoje: a heresia de fazer a vontade soberana, ilimitada, perfeita de Deus identificar-se com sua finita, limitada, imperfeita, egoísta e pecaminosa vontade, a heresia de cercear os limites da ação divina, a heresia de orientar o Espírito Santo em lugar de procurar dele genuína orientação, a heresia de buscar Deus apenas como um meio útil na aquisição de um determinado objetivo e não como um fim em si, a heresia de colocar doutrinas e normas de conduta em nível superior à vontade específica de Deus para o nosso hic et nunc, a heresia de fazer com que a mensageira se torna mensagem, a heresia de tornar a serva maior do que o seu Senhor!

Parece que exagero. Provo, contudo. Tenho em mãos uma carta escrita pelo Conselho da IP [Igreja Presbiteriana] de Belo Horizonte, data de 2 de julho, quase dez dias antes do Supremo Concílio — carta esta para cuja elaboração um de nossos colegas, especialmente chamado a Belo Horizonte, emprestou sua valiosa cooperação! A carta, que deveria ser enviada a todas as Igrejas Presbiterianas do Brasil, acompanhada de uma cópia do Manifesto dos Quinze, reimpresso por aquela Igreja, denuncia em alto e bom som a “orientação modernista que os nossos Seminários vêm dando aos seus alunos [oxalá!], nossos futuros pastores”. Depois de analisar a situação, o referido Conselho, encabeçado pelo Rev. Wilson de Souza, faz as seguintes sugestões aos Conselhos das Igrejas às quais se destina a carta:

“a) Ore e convide outros irmãos a orarem, pedindo a Deus uma solução certa para o problema, promovendo, se possível, reuniões de oração com esta finalidade.

. . . . .

c) Telegrafe AGORA e peça a outros irmãos para telefonarem HOJE ao Presidente do Supremo Concílio, solicitando solução urgente para os problemas dos nossos Seminários”.

Até aí compreende-se. A aberração, contudo, vem depois, quando a carta continua:

“Esses telegramas poderão ter redações, mais ou menos, como estas:

‘Solicito SC tome providências enérgicas contra modernismo reinante nossos seminários.

IP de (nome da cidade) espera que SC promova expurgo modernistas que atuam em nossos seminários’.”

Mais do que em qualquer outro lugar, aqui se faz presente a heresia atrás mencionada. Aconselhava-se a orar, pedindo a Deus a solução do problema. Para que orar, entretanto, se a solução já estava decidida, como bem o expressam os “telegramas-padrão”. Ei-la, clara, insofismável: EXPURGO dos que conosco não concordam. Esta solução já estava pronta, já havia sido tomada muito antes do Supremo Concílio. E do mesmo modo todas as outras. Aqueles belos apelos feitos pelo agora Presidente do Supremo Concílio, através de sua imprensa privada, para que a Igreja orasse, pedindo que o Espírito Santo orientasse o Supremo, eram desnecessários. As principais decisões e soluções já estavam no bolso de seu colete, Deus sabe já há quanto tempo! Uma prova inequívoca disto é o fato de ter sido designado relator da Comissão que iria estudar os problemas dos Seminários, ninguém menos do que o Rev. Wilson de Souza, o capacho atrás mencionado, que já se demonstrara parcialíssimo e preconcebido em relação ao problema. E a arbitrariedade acompanhou todas as outras decisões. Pobre Espírito Santo! Invocaram-no tanto, mas manietaram-no, cercearam-lhe a ação. Talvez tivesse ele uma outra solução para os problemas, talvez ele não fosse tão conservador quanto se dizem ser os atuais chefes da Igreja, mas seu parecer não foi aceito, talvez por ter sido expresso por alguém da ala contrária, talvez por não se identificar com os moldes dos “telegramas-padrão” e com os planos do partido vitorioso.

E assim caminha o tempo. A história, contudo, saberá passar seu julgamento (além de Deus que será bem capaz de passar o seu) sobre este negro período na vida da IPB. Enquanto, porém, o futuro não vem, para apresentar os vários aspectos e matizes da situação, é dever nosso, ao qual não nos podemos escusar, levantar uma voz profética contra o estado de coisas em que nos encontramos. “O CAOS em Revista” sempre se dispôs a isto. O artigo de Tristão de Athayde reflete o conflito das gerações. O de Alvino Alves, mais específico, é muito oportuno ao caracterizar a ortodoxia conservadora. “O Pequeno Inquisidor”, colaboração anônima, recebida pelo Correio, ataca o problema ainda mais específico da “inquisição” que nos visitou aqui.

O Redator aproveita para comunicar que deixará o cargo, a partir do próximo número, em virtude de seu desligamento do Seminário, a partir de 5 de Setembro até o final do ano. Agradece a colaboração, o estímulo, e o incentivo que recebeu durante o tempo que dirigiu o jornal, e coloca-se, mais do que nunca, ao lado daqueles que, cientes de sua responsabilidade para com Deus e os homens, para com o homem do século vinte, procuram evitar que a Igreja se torne mais uma relíquia, entre outras, dentro de nossa história. Agradece ainda àqueles que programaram este número, e o realizaram, sem os quais ele não sairia.

E até breve.

o O o

Do “E até breve” até hoje já vão mais de 55 anos.

Todo o material, Primeira e Segunda Parte, transcrito aqui neste blog, em Segunda Edição, Revista e Ampliada, na Estância Turística de Salto, SP, em 24 de Outubro de 2021.

Eduardo CHAVES

LIVROS MENCIONADOS

Celso Furtado, Dialética do Desenvolvimento (Editora Fundo Cultura, São Paulo, 1964. A passagem citada é o mote do livro, que se encontra na p.7. Eu adquiri esse livro em Campinas em 1964, ano de sua publicação.

Dietrich Bonhoeffer, Letters and Papers from Prison (SCM Press / Collins / Fontana Books, 1953). A passagem referida se encontra em uma carta de 30.4.1944, dirigida “a um amigo”, pp.90-93 dessa edição das Cartas e Papéis da Prisão, que eu adquiri em Campinas, em 10.8.1964.

George Thomas White Patrick, Introduction to Philosophy, 2nd edition, revised (Houghton Mifflin Company, Cambridge, MA, 1952 – 1935 foi a data da primeira edição).

Harold H. Titus, Living Issues in Philosophy: An Introductory Textbook, 4th edition (American Book Company, New York, 1964 – edições anteriores de 1946, 1953 e 1959).

James Harvey Robinson, The Mind in the Making: The Relation of Intelligence to Social Reform (Harper & Brothers Publishers, New York and London, 1921). As passagens citadas foram retiradas da Parte II, Capítulo 4, “Rationalising”, pp.40-48. Tenho também a tradução de ninguém menos do que Monteiro Lobato para o Português, sob o título A Formação da Mentalidade, 3a edição (Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1957). As passagens citadas foram retiradas da Parte II, Capítulo 4, “Racionalização”, pp.21-26. O texto citado foi, naturalmente, retirado da tradução de Monteiro Lobato.

João Dias de Araújo, Inquisição sem Fogueiras: Vinte Anos de História da Igreja Presbiteriana do Brasil, 1954-1974, 3a edição (Instituto Superior de Estudos da Religião, Rio de Janeiro, 1985 – a 1a edição é de 1975 e a segunda, de 1982). A citação feita foi retirada das pp.56-57. Há uma 3a edição revista e atualizada, publicada pela Fonte Editorial, em 2010, com Apresentação de Derval Dasílio, e uma 4a edição, em ebook, formato Amazon Kindle, publicada pela Editora Resistência Reformada, em 2020, com Apresentação do Conselho Editorial do Resistência Reformada, Prefácio de Cláudio Márcio Rebouças da Silva, e Posfácio de Ricardo Quadros Gouvêa.

John Stuart Mill, Utilitarianism, Liberty, and Representative Government (New York: Dutton, 1910). O livro On Liberty fica nas pp.61-170. As ideias mencionadas estão discutidas na p.79, no primeiro parágrafo do Capítulo II, que trata Liberdade de Pensamento e Discussão.

Waldyr Carvalho Luz, Nem General, Nem Fazendeiro: Ministro do Evangelho (Editora Luz para o Caminho, Campinas, 1994). Os textos citados estão nas pp.267-268 (“Eu encontrava séria resistência… “), p.268 (“Boa amostra do espírito desse aluno…”), pp.269-271 (“Ante o estado de coisas vigente…”).

Wilfred Trotter, Instincts of the Herd in Peace and War (Macmillan, New York, 1st ed., 1915; 2nd ed., 1919). Trotter é mencionado na passagem citada de James Harvey Robinson, que, em seu livro, se refere especialmente às pp.1-65 do livro de Trotter. Na edição brasileira do livro de Robinson o nome de Trotter está grafado de forma errada, como Totter.

NOTA:

Pretendo ainda transcrever aqui neste artigo, numa Terceira Parte, as cartas e outros documentos pessoais mencionados, que eu eu possuo em forma manuscrita, datilografada ou mimeografada. São documentos raros.

A Igreja, o Estado, o Casamento e a Família

Desde os vinte anos (em 1963) fui um liberal clássico, estilo “laissez faire”. Tornei-me um liberal desse tipo lendo o livro On Liberty, de John Stuart Mill, no meu último ano do Ensino Médio. (Comecei a minha escolaridade quase aos nove anos, e, por isso, terminei a chamada Educação Básica já na maioridade). Essa minha defesa do Liberalismo Clássico foi confirmada e radicalizada quando, aos trinta anos (em 1973), encontrei Ayn Rand e li Atlas Shrugged, pela providencial mediação de Charles King, meu colega no Pomona College, segunda instituição de ensino superior em que trabalhei. Charles posteriormente se tornou presidente do Liberty Fund, instituição liberal na área da cultura e da educação criada por Pierre F. Goodrich ((da família de B. F. Goodrich, o magnata da empresa de pneus criada em 1870). Em Pomona, Charles era responsável pela área de Filosofia Política e eu estava atuando na área de Metafísica, Lógica e Filosofia da Religião. Quanto a mim, ao fazer setenta anos (em 2013), já aposentado há seis anos da UNICAMP, e depois de ter voltado para a igreja e para a teologia, e de ter escrito bastante em defesa do Liberalismo Clássico, fui forçado a reconhecer que, na filosofia política, eu havia avançado para um Libertarianismo Anarquista, à la Murray N. Rothbart. Considero esse um avanço significativo, depois de defender o Liberalismo Clássico ao longo de cinquenta anos, dos meus vinte aos meus setenta anos. Por mais que alguns possam imaginar que se trate de evidência de senilidade, não acredito que se trate disso…

Mas isso significa que hoje estou convicto da possibilidade de uma vida social sem estado, baseada em uma mistura daquilo que David Smith chamava de interesse próprio, ou auto interesse racional (rational self interest), aquilo que Ayn Rand chama de egoísmo racional, bom senso (que inclui o sentido de uma justiça natural (aquela que nos leva a dizer, em várias situações, “isto não é justo”, that isn’t fair), e a percepção de que vale mais a pena, no longo prazo, ser bom, tolerante e pacífico, e conviver bem, e em ordem, uns com os outros, criando instituições privadas, do que as alternativas que envolvem viver em perpétuo conflito e desordem. Pode parecer meio utópico, mas essa postura mas não envolve a criação prévia de um novo homem, altruísta, defensor da igualdade substantiva, batalhador pela justiça social, inconformado com o estado do mundo; uma nova sociedade, sem classes, sem competição, em que a igualdade substantiva sempre tem a condição de trunfo (trump), sobrepujando-se à liberdade; um novo mundo que parece ser o paraíso, que foi perdido no Éden mas é reganho da sociedade sem classes e, por isso, sem conflito, com igualdade, e, por conseguinte, felicidade geral. Aquilo que, hoje, é uma Utopia.

 Na minha visão, basta apenas apelar ao nosso auto interesse racional, que inclui o nosso desejo de viver bem, em paz e em ordem, e o nosso senso natural de justiça, de que a cada cabe apenas aquilo que ele fez por merecer e que lhe é devido. E isso pode ser alcançado sem Estado (donde a referência ao anarquismo), em um clima de libertaridade (o caráter libertário, a mais plena liberdade possível), em que existem desigualdades, mas elas são justas, e, por isso, não intoleráveis.

E tudo isso pode ser feito também em um ambiente de desescolarização — certamente sem escolas públicas ou estatais e até mesmo sem escolas quaisquer,  überhaupt, ou tout court. Digo isso para conectar esta discussão com outro grande interesse meu: a Educação (não a Escola, na qual hoje não tenho nenhum interesse).

Tudo isso tem que ver, naturalmente, com o Estado, ou melhor com a desestatização da sociedade — mas o que tem que ver com a Igreja? O título deste trabalho, afinal de contas, é “Igreja e Estado”.

Antes de me referir ao que penso, é mister que diga que, embora seja defensor do Libertarianismo Anárquico, sou realista o suficiente para ter certeza de que, tão cedo, o Estado não vai embora de livre e espontânea vontade, por iniciativa própria, nem vai ser extinto, contra a sua vontade, pela vontade do povo. Logo, temos de lidar de forma racional e sensata com essa realidade, mesmo que não gostemos dela.

Isso posto, começo meu argumento.

Um postagem na forma de foto com texto que eu compartilhei no Facebook diz o seguinte:

Eis a foto:

Eu fiz o seguinte comentário ao postar essa foto:

Eis o que observei ao compartilhar essa imagem no Facebook:

“Compartilho, mas tenho reservas quanto a esta colocação, [reservas] que já expus em vários artigos, e resumirei aqui, se e quando recomendável. Compartilho, para que a colocação seja discutida, sem endossá-la.”

As reservas que tenho quanto a esta colocação já foram esclarecidas o suficiente nesta série de artigos que publiquei, no meu blog Liberal Space, entre 17 de abril de 2008 e 30 de junho de 2015 — um período de sete anos que terminou seis anos atrás, quase na data exata.

Pensei que o assunto estivesse esgotado — evidentemente, não está, como o mostra a postagem exibida atrás (a fotografia com letreiro).

  1. [17.04.2008] “A Interferência do Estado na Vida Privada: O Casamento”, em https://liberal.space/2008/04/17/a-interferencia-do-estado-na-vida-privada-o-casamento/
  2. [09.04.2013] “O Casamento entre Homossexuais”, em https://liberal.space/2013/04/09/o-casamento-entre-homossexuais/
  3. [19.05.2013] “Ainda o Casamento entre Homossexuais”, em https://liberal.space/2013/05/19/ainda-o-casamento-entre-homossexuais/
  4. [19.11.2014] “Casamento Homossexual, Poligamia / Poliandria, Casamento Poliafetivo, Casamento Incestuoso (Entre Pessoas Relacionadas por Parentesco)”, em https://liberal.space/2014/11/19/casamento-homossexual-poligamia-poliandria-casamento-poliafetivo-casamento-incestuoso-entre-pessoas-relacionadas-por-parentesco/
  5. [27.04.2015] “Contrato Civil de Convivência e Casamento (Religioso)”, em https://liberal.space/2015/04/27/contrato-civil-de-convivencia-e-casamento-religioso/
  6. [05.06.2015] “As Igrejas, o Casamento e a União Civil”, em https://liberal.space/2015/06/05/as-igrejas-o-casamento-e-a-uniao-civil/
  7. [30.06.2015] “Ainda o Casamento Gay (agora a propósito de decisão da Suprema Corte americana”, em https://liberal.space/2015/06/30/ainda-o-casamento-gay-agora-a-proposito-de-decisao-da-suprema-corte-americana/

Como esclareço no primeiro artigo o Estado não deveria meter o seu bedelho nos relacionamentos amorosos e sexuais dos indivíduos, para tentar regulá-los. Como, porém, esses relacionamentos, muitas vezes, geram, além de bebês, expectativas de direito sobre pensões, heranças, etc., o Estado, existindo, fatalmente irá tentar regular essas questões. Não devia, mas deve.

É forçoso reconhecer que, ao longo do tempo, o Estado, sob pressão dos indivíduos, vem retirando sua patinha de algumas dessas questões.

Antigamente, em muitos países, o mero engajamento em relações sexuais fora do casamento, aquilo que a Bíblia chama de fornicação, por parte de indivíduos livres e desimpedidos, solteiríssimos da silva, e de sexo diferente, era considerado crime. Hoje isso não mais se dá — exceto, aqui no Brasil, quando um dos parceiros é menor de quatorze anos (idade antes da qual o Estado presume — erroneamente, porque um adolescente de quatorze anos nos dias de hoje é plenamente capaz de dar consentimento — que ninguém é capaz de dar consentimento, presumindo-se coerção, o que torna o ato, não simplesmente um mero relacionamento sexual, mas um relacionamento sexual não consentido, ou seja, um estupro.

Antigamente, em muitos casos, o mero engajamento em relações sexuais por parte de indivíduos maiores de idade mas do mesmo sexo, era crime. Hoje isso não mais se dá, indivíduos do mesmo sexo podendo até “se casar”, como o povo diz.

Antigamente, em muitos países, o mero engajamento em relações sexuais por parte de indivíduos de sexo distinto, maiores de idade, mas casados um com o outro, o que a Bíblia chama de adultério, termo ainda usado hoje, era crime. Deixou de sê-lo há bom tempo.

E assim vai.

Para livrar-me do encargo de formular ainda uma vez, ab initio, o que penso sobre o assunto, resumirei o meu argumento a partir do artigo mais recente dos mencionados, artigo que escrevi há quase exatamente seis anos atrás, no dia. Nele discuto uma série de argumentos que basicamente implicam, em seu conjunto, a afirmação contida na postagem mencionada atrás (a fotografia com letreiro dizendo “Não foi o ESTADO que criou a FAMÍLIA. Logo, não tem AUTORIDADE para MUDAR o conceito de família.”).

a. A ideia de que alguém, Deus ou um outro ser, ou uma sociedade ou grupo social qualquer criou o casamento e a família nos moldes que o pessoal conservador, religioso ou não, imagina (um homem e uma mulher unidos em casamento para a vida toda, produzindo seus descendentes) é um mito. Nem mesmo na Bíblia há um relato da criação do casamento propriamente dito, como ele é entendido pelos conservadores. Segundo um dos relatos bíblicos, Deus criou primeiro o homem, e, depois, percebendo que ele estava meio entediado, sem o que fazer, criou a mulher. Outro relato sugere que eles foram criados juntos. Mas em nenhum dos relatos se afirma eles foram colocados lado a lado e indagados por Deus se era de sua livre e espontânea vontade que compareciam perante ele para se unir pela vida inteira a fim de manter relações sexuais e produzir descendentes, sendo fieis um ao outro até que a morte os separasse. Independentemente do que possa ter sido dito no momento da criação do homem e da mulher, supondo que foram criados, para não complicar demais o argumento, o relato bíblico mostra que os patriarcas e heróis da fé transavam livremente, com pessoas de sexo diferente ou do mesmo, tinham, no caso dos homens, várias mulheres, e independentemente disso, mantinham relacionamentos adulterinos e incestuosos, que, em alguns casos, geravam prole, etc. Longe de isso ser uma anomalia era o costume dos povos primitivos que aparecem nas páginas da Bíblia, para nos ater à religião cristã. O que encontramos na Bíblia — e na história — é qualquer coisa mas não o casamento convencional defendido pelos conservadores, cristãos ou não.

b. Mesmo que a história, bíblica ou não bíblica, relatasse que os primeiros casais humanos aderiam fielmente ao padrão conservador do casamento, é uma falácia genética, que ignora o fato do desenvolvimento social (ainda que não biológico) humano, imaginar que esse fato, por si só, endossa e valida esse padrão per secula seculorum. Mesmo que o relacionamento entre os sexos tivesse sido, originalmente, heterossexual, para a vida toda, com exigência de fidelidade completa até que um dos dois morresse, isso não prova que esse tipo de relacionamento deva ser mantido para sempre, independentemente das mudanças sociais e biológicas. Fornicação e adultério, bem como atração sexual entre pessoas do mesmo sexo, com o consequente relacionamento sexual entre elas, sempre houve no mundo — e nem a Bíblia não nega isso. Poligamia em paralelo (ainda que apenas para os indivíduos do sexo masculino) existiu em todos os tempos, e a poligamia em série, por morte ou divórcio, sempre existiu, ainda que algumas sociedades primitivas tenham exigido que a mulher fosse enterrada junto com seu marido, se ele morresse antes dela… Por conseguinte, essa história de “conceito original de família” é balela.

c. Por muito tempo, a regulação do relacionamento sexual entre as pessoas era feita pelas instituições religiosas, privadas, não pelo Estado. Foi apenas recentemente que o Estado começou a regular esse relacionamento. Mesmo assim, nunca (que eu saiba) impediu que instituições religiosas implementassem a sua própria regulação, dentro do seu âmbito.  

d. A partir, pelo menos, da Revolução Americana, que resultou na independência das colônias britânicas na América, evento que se celebra no dia de hoje, e que começou a acontecer nesse dia em 1776, firmou-se, em nações fundadas nos direitos individuais e na liberdade, o princípio de que deve haver separação entre a religião (e as igrejas) e o Estado, sem desobrigar as pessoas religiosas e os membros das Igrejas de cumprir seus deveres para com o Estado em áreas ou em relação a questões que não são caracteristicamente religiosas ou morais (envolvendo a consciência).

e. A partir desse momento, consagrou-se o princípio de que o Estado pode até regular algumas questões privadas, como as envolvendo o casamento e a família, naquilo que elas possuem ou envolvem de obrigações para com terceiros em geral. Os Estados Unidos da América, enquanto entidade política, não são um país religioso, muito menos cristão. São um país em que a religião e as igrejas são claramente separadas do Estado, que, assim, só pode ser entendido como laico ou não religioso. Mas a Constituição Americana não exige que os governantes da nação sejam ateus ou agnósticos, que o lema da nação seja “In God We Trust” (Em Deus Confiamos), que a Constituição e o dinheiro (as notas e moedas de dólar) façam referência a Deus.

f. Assim sendo, mesmo países criados sob inspiração religiosa, como os Estados Unidos, ou mesmo, até certo ponto, o Brasil, a Igreja (ou a religião) é uma coisa e o Estado é outra — embora o Brasil tenha tido uma religião oficial pelo menos até o início do período republicano.

g. O que acabou acontecendo nesses países, tanto no Brasil como nos Estados Unidos, foi que o Estado veio a reconhecer e a afirmar a validade, em todo o território nacional, de contratos de união civil (normalmente chamados de “casamentos civis” e, mais recentemente, “contratos de união estável”) entre duas pessoas não casadas de qualquer sexo (ou gênero, se preferem) — e, acrescente-se, de qualquer raça, cor, nacionalidade, religião, preferência política, etc. Num primeiro momento, era apenas o primeiro desses quesitos que estava em jogo — sexo ou gênero. Mas já houve época em que casamento civil interracial era banido e deixou de sê-lo. Provavelmente, num futuro não muito distante, o Estado vai liberar casamento entre mais de duas pessoas (a chamada união poliafetiva ou poliamorosa, antigamente chamada de poligamia), ou entre pessoas que são parentes próximos (o chamado, até aqui, de incesto).

h. Não há nada antirreligioso nessas decisões, como não havia na decisão concernente ao divórcio — embora os católicos e os evangélicos conservadores também tenham protestado. O estado está regulando contratos de convivência civil (CCC) entre duas (e oportunamente mais de duas) pessoas não casadas (e oportunamente já casadas — nada havendo que impeça uma pessoa de ter múltiplas uniões civis). Não se está desafiando Deus, ou a Bíblia. Não nos esqueçamos de que os Patriarcas da Fé do Velho Testamento, Abraão, Isaque e Jacó, eram todos “poliamorosos” ou polígamos — e alguns heróis do Velho Testamento chegaram até mesmo a ter conjunções carnais, como diz o pessoal do direito, incestuosas).

i. Cada igreja ou cada grupo social tem total liberdade de definir um casamento mais significativo ou profundo ou espiritual ou carregado de valores do que o civil da forma que quiser. Pode decidir que ele será exclusivamente hétero e entre apenas duas pessoas (necessária e comprovadamente virgens, se preferem), durará para sempre, não podendo ser desfeito (mesmo que um dos envolvidos, ou os dois, estejam sofrendo de forma desesperadora por causa desse casamento, ou que o casamento envolva violência mental ou física, ou manipulação invasiva dos direitos de um cônjuge por parte do outro cônjuge).

j. Num estado laico não faz sentido que evangélicos, católicos e judeus — para não falar nos maometanos — tentem impor seus valores religiosos a todo mundo. Imaginem que os judeus ortodoxos resolvam que um homem só pode casar se for circuncidado. Vocês acham justos que o estado adote esse ponto de vista religioso e obrigue todo humano masculino a se circuncidar? Não faz sentido, não é verdade? Também não faz sentido querer que duas pessoas, para se unir em união  de convivência civil e viver em família, tenham de ser de sexos ou gêneros diferentes.

k. Por fim, já faz muito tempo que a finalidade principal do casamento civil não é a procriação, mas, sim, a parceria, o companheirismo, o apoio mútuo, a união de esforços para um fim comum, etc. Erra, portanto, e fundamentalmente, demonstrando uma imperdoável pobreza de espírito, Hélio Schwartsman, na Folha de 30.06.2015, quando afirma que “O casamento, vale lembrar, é um mecanismo através do qual o indivíduo pede ao Estado licença para manter relações sexuais com outra pessoa.” Nem de longe. Relações sexuais regulares fazem parte do casamento da maioria das pessoas — mas não de todas. Mas estão longe de ser a única razão para o casamento — em especial numa sociedade liberada como a nossa, em que a maior parte das pessoas começa a ter relações sexuais bem antes de se casar (sem pedir para ninguém, muito menos para o Estado através de sua direção, governo), em muitos casos mantém relações sexuais extraconjugais, e, findo o casamento, continua a ter uma vida sexual regular e normal (em alguns casos, até em asilos de idosos).

l. E as igrejas podem continuar a implementar exigências mais estritas e rígidas para as relações afetivas, amorosas e sexuais entre as pessoas, considerando que a sua versão dessas relações é mais válida do que a preconizada pelo Estado.

m. Mas o Estado estará ultrapassando seus limites se proibir que as igrejas façam isso ou se exigir que elas considerem a união de convivência civil proposta pelo Estado como plenamente equivalente ao casamento que elas endossam (mesmo que haja sobreposição de funções, atribuições e deveres).

n. Assim, oponho-me tanto à intervenção do Estado em questões que envolvem exclusivamente a Igreja como a intervenção da Igreja em questões que dizem respeito exclusivamente ao Estado (numa sociedade em que o Estado ainda continua a existir).

É isso…

Em Salto, 4 de Julho de 2021. Have a good Fourth of July.

“O Difícil Papel das Madrastas”

Assunto complicado é ser madrasta… Mais complicado do que ser padrasto, pelo que parece…

Aqui, matéria da Revista Crescer. [Ver a referência completa no final].

Mas em 2011 fiz um post sobre o assunto, com material do UOL, e com o título “Madrasta Antes dos 30 Anos”, que gerou muita discussão neste mesmo blog, Liberal Space. Quem quiser consultar, pode acessar:

https://liberal.space/2011/04/19/madrasta-antes-dos-30/

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Aqui está o material da Revista Crescer, disponível no seguinte URL:

https://revistacrescer.globo.com/Educacao-Comportamento/noticia/2021/02/o-dificil-papel-das-madrastas-maes-podem-enlouquecer-brigar-xingar-nos-nunca.html

O difícil papel das madrastas: “Mães podem enlouquecer, brigar, xingar. Nós, nunca”

Mulheres que se tornaram madrastas contam suas experiências e revelam como buscam ajuda para lidar com os conflitos: “Precisamos provar que não vamos ser ‘bruxas más'”, desabafam. Conheça histórias

SABRINA ONGARATTO
DO HOME OFFICE25 FEV 2021 – 11H34
ATUALIZADO EM 25 FEV 2021 – 11H34

“Padrasto é herói, assumiu uma família. Madrasta é palavrão, está tentando ocupar o lugar da mãe”, compara uma bióloga gaúcha de 25 anos, que prefere não revelar seu nome. Ela conta que se tornou madrasta recentemente e a notícia veio de surpresa. “Descobrimos durante a pandemia que meu marido tinha uma filha de 5 anos. Em março, vai fazer um ano que estamos vivenciando a ‘madrastidade’ e a paternidade”, diz. Segundo ela, a situação é complexa. “A criança é fruto de sexo casual e já tinha o registro de outro pai na certidão. Até o ano passado, esse homem acreditava ser o pai biológico”, completa.

+ “Minha filha chama a madrasta de ‘mamãe’ – e tudo bem!”

“No começo, foi difícil definir meu papel, ocupar meus espaços e viver o luto por ter casado com meu marido sem filhos e saber que ele tinha uma filha, que não saiu de mim. Atualmente, a maior dificuldade é saber quais batalhas eu devo lutar. Às vezes, abraçamos o mundo e tentamos resolver problemas e situações que não são nossas”, reflete.

AMOR E PACIÊNCIA

Quem já passou pela experiência concorda que não é fácil, mesmo quando a pessoa já entra na relação sabendo que o outro tem filhos. Uma advogada do Rio de Janeiro, que também não quis revelar sua identidade, tem dois enteados e conta que, na época em que conheceu o marido, um deles tinha 6 anos e a outra era um bebê de apenas 10 meses. “Sou madrasta há 4 anos. Quando o conheci, meu marido estava divorciado há apenas 8 meses e buscava os filhos quinzenalmente. No início, não nos encontrávamos nesses dias, pois ele se dedicava integralmente a eles. A menor ainda era um bebê e o mais velho estava confuso com a separação. Então, tivemos muito cuidado”, lembra.

SAIBA MAIS:

+ Então você chegou

+ Padrasto emociona com votos para enteado em casamento

O primeiro encontro aconteceu em um passeio na praia. “A pequena era uma bebê maravilhosa, mas que não me dava muita confiança, pois era agarradíssima ao pai. Quantas broncas tomei nas minhas tentativas de trocar as fraldas… O pai, cuidadoso, tinha todo o ritual com a princesa dele. Mas, após algumas noites em claro, cuidando das crises de bronquite e muitos penteados na frente do espelho, fomos estabelecendo nossa relação. Já com o maior, foi mais fácil! Eu era a companheira para todas as brincadeiras e sua defensora oficial em todas as encrencas e bagunças”, conta.

No entanto, ela diz que, ao longo dos anos, a relação foi mudando. “Quando o litígio entre meu marido e a mãe das crianças aumentou, sofri o impacto direto. O maior, hoje com 10 anos, que era superapegado a mim, foi se afastando. Já chega na nossa casa bem reativo, mas, com muito amor e paciência, vamos nos reaproximando. É um processo bem triste e doloroso, em que todos sofrem. A pequena, que hoje está com 5 anos, é mais tranquila. Ela tem uma afinidade natural com o pai e nossa família, então, esse processo leva, no máximo, uma noite”, disse.

MADRASTA PELA TERCEIRA VEZ

A analista judiciária Ana Carolina Reis Paes Leme, 38 anos, de Curitiba, no Paraná, poderia escrever um livro com cada uma de suas experiências. “Já fui madrasta de uma garota de 17 anos; depois, de duas meninas de 10 e 12 anos e, hoje, me casei e sou madrasta de um menino de 6 anos e dois adultos, de 23 e 26 anos”, conta. “Ah, também sou vódrasta. Minha enteada mais velha tem um filho de 3 anos”, completa.

Ana Carolina conta que a relação com a primeira enteada foi muito tranquila. “Mantemos contato até hoje”, diz. Porém, passou por alguns conflitos na segunda experiência. “Namorei um homem que tinha duas meninas. Me identifiquei muito com elas e tínhamos um bom relacionamento até viajarmos os quatros juntos. A viagem foi de 28 dias para a Europa. Tudo correu relativamente bem até o 22º dia, quando eu perdi a paciência e ficou bem complicado administrar os conflitos. O namoro, claro, acabou. Porém, eu decidi buscar ajuda para compreender melhor o que tinha acontecido”, lembra. “Hoje, acredito que consegui achar um equilíbrio ao desvendar qual é o meu papel como madrasta. Casei com o pai deles, então, a casa é minha, são minhas regras e eles me respeitam muito. Sou a esposa do pai e nunca quis ocupar o lugar da mãe”, afirma.

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MADRASTA X MÃE

Mas nem sempre é fácil chegar a esse entendimento e mais, fazer com que todos a respeitem. Para Ana Carolina, os estereótipos criados pela sociedade atrapalham muito. “As histórias da Disney sempre nos colocam numa posição de bruxa má”, desabafa. Ela ainda esclarece: “Para mim, a melhor definição de madrasta vem do inglês ‘step mother’ ou ‘step mom’, que significa mãe substituta. A madrasta exerce, sim, um papel de cuidado quando a mãe não se encontra no local. Dessa forma, nos dias de semana e finais de semana que o enteado está formalmente com o pai, a criança estará, sim, com o pai e a madrasta”.

Mas, segundo Ana Carolina, um dos maiores desafios é manter um bom relacionamento com a mãe das crianças. “Os meus enteados de 26 e 23 anos são de uma mãe e o de 6 anos é de outra. Eu sou a terceira esposa. Com a primeira, tenho um ótimo relacionamento e admiro muito, mas nunca conversamos sobre a educação dos filhos dela, pois são adultos. A mãe do menino de 6 anos prefere não manter contato comigo e eu tento respeitar, na medida do possível. Eu até gostaria de perguntar a ela sobre certas rotinas do filho dela, mas como não tive abertura, achei melhor não ‘forçar’ a amizade”, diz.

Já a bióloga gaúcha conta que a relação com a mãe da enteada é mais turbulenta. “Não conseguimos construir uma relação de respeito porque, infelizmente, muitas vezes, ela usa a filha como ‘moeda de troca’. Se não buscamos na hora que ela quer ou não pagamos o que ela pede, nos nega convívio”, diz.

Assim como a bióloga, a advogada carioca conta que, apesar de conseguir manter um bom relacionamento com os enteados, o maior problema também costuma ser com a mãe das crianças. “Infelizmente, a relação não é boa”, lamenta. Mesmo assim, ela tenta fazer com que isso não interfira no clima familiar. “Nunca quis ser a mãe dos meus enteados. Quando estão na nossa casa, os recebo com muito amor e também busco oferecer o que tenho de melhor, inspirar o amor ao próximo, oferecer educação, alimentar, estimular a leitura, enfim… Conheço meus enteados desde muito pequenos e os amo como filhos, apesar de muitos não compreenderem esse amor”, disse.

BUSCANDO EQUILÍBRIO

Para Ana Carolina, o primeiro passo para que a relação seja saudável é cuidar-se. “É preciso estar com autoestima muito boa para encarar o desafio de ser madrasta. Mãe pode enlouquecer, brigar, xingar. Madrasta nunca! Nós não temos esse direito. Precisamos ser plenas e estar muito bem com nós mesmas ‘para dar conta do recado’. Porque a criança vai te testar, vai te irritar e você não pode explodir, porque essa explosão poderá significar o rompimento de um relacionamento com o enteado e com o pai dele”, alerta.

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Segundo ela, as dúvidas sobre como proceder com o enteado e como abordar o companheiro sobre os filhos sempre vão existir. Por isso, uma boa dica é buscar uma rede de apoio e falar sobre o assunto. “Eu busquei um grupo nas redes sociais e está sendo um porto seguro. Temos encontros virtuais, grupos no WhatsApp, formamos inclusive subgrupos e, a qualquer momento que alguma de nós está em apuros, a gente se reúne para discutir o problema e auxiliá-la a resolver o imbróglio! (risos)”, conta.

REDE DE APOIO

Ana Carolina faz parte do “Somos Madrastas”. O grupo foi criado por Mariana Camardelli que é educadora parental, terapeuta e escritora, mas, mais do que isso, ela é enteada e também madrasta. “Sou enteada, madrasta e mãe, nesta ordem”, pontua. “A vontade de fazer parte de um grupo que apoiasse emocionalmente mulheres que se tornaram madrastas existe desde que eu me tornei uma — há mais ou menos seis anos. Nunca encontrei esse grupo e foi por isso que decidi criar-lo”, revela. “Ser madrasta é um papel cheio de preconceitos da sociedade e pode ser um lugar muito solitário, por isso acredito que é super importante abrir essa conversa e trazer para perto mulheres que precisem de apoio, de um lugar seguro para desabafar, de entendimento e empatia”, completa.

Mariana diz que, durante os bate-papos, duas questões sempre estão presentes. “Um é o sofrimento advindo do estereótipo em si, de entrar em um relacionamento já com esse rótulo, que acaba gerando bastante ansiedade e confusão. Parece que a gente entra na história devendo, sabe? Que a gente precisa provar que não vai ser ‘bruxa má’. É desgastante a sensação de não poder errar, não poder falar ou fazer alguma coisa apenas porque existe esse estereótipo”, explica. “Outra angústia é a de não saber qual o seu papel. Até onde falar? O que fazer? Como se comportar? Educar ou não a criança? Pouco se conversa abertamente sobre o tema, transformando ele ainda mais em tabu. E assim a gente segue perdidas”, lamenta.

Hoje, o Somos Madrastas tem 17 mil seguidoras no Instagram e 25 grupos de WhatsApp fechados para trocas entre as mulheres, com cerca de 600 pessoas ao todo. Além disso, com o objetivo de organizar os conteúdos e ampliar a conversa, Mariana conta que está lançando no próximo mês, uma comunidade gratuita na internet. “Será um ambiente seguro de troca e de cocriação. Para entrar, a pessoa precisará apenas fazer um cadastro e terá oportunidade de ler, comentar, conversar com outras mulheres e participar de cursos, atendimentos em grupo e jornadas”, esclarece.

“Ao entrar em qualquer relacionamento, você entra em uma montanha russa de emoções. Tem que segurar bem firme pra não cair do carrinho. Só que quando somos madrastas, o carrinho é um pouco mais veloz”, compara a bióloga gaúcha. “O Somos Madrastas foi e é minha mola no fundo do poço. Eu estava muito mal por não saber lidar com minhas angústias e frustrações. Em meio uma pandemia, me vi madrasta e sem rede de apoio, estava enlouquecendo. Mas o grupo me acolheu e me fez enxergar que tem como fazer dar certo e, principalmente, ocupar meu papel sem ofender ninguém”, completa a bióloga.

A advogada carioca também dá um conselho importante: “Busque se colocar no lugar da mãe para entender a perspectiva dela. Fale bem da mãe para os pequenos e veja o sorriso que se abre no rostinho deles. Nunca se esqueça que mãe é mãe e madrasta é madrasta. As duas são igualmente maravilhosas e devem somar na educação de crianças e adolescentes”. “Meu enteado já me chamou carinhosamente de sapadrasta (ao me conhecer), bancodrasta (quando me pedia mesada), semidrasta (quando eu era noiva do pai dele) e depois quasedrasta (após o casamento civil). Então, quando o pai deu a ele a certidão de casamento, ele leu atentamente e me perguntou: “Onde aqui está escrito que você é minha madrasta?”, nós todos rimos muito. Conclusão: Pode ser divertido ser madrasta”, finalizou.

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Transcrito de:

https://revistacrescer.globo.com/Educacao-Comportamento/noticia/2021/02/o-dificil-papel-das-madrastas-maes-podem-enlouquecer-brigar-xingar-nos-nunca.html

Em Salto, 26 de Fevereiro de 2021

Administração do Tempo – Entrevista para a Revista “É Domingo” (de Sorocaba)

 [Entrevista dada por e-mail em 25/02/2007para Vanessa Olivier, da revista É Domingo, de Sorocaba.]

É Domingo:

Como organizar o tempo na vida pessoal, conseguindo um equilíbrio entre trabalho, família, lazer?

Eduardo Chaves:

Interessei-me pelo tema porque, há uns 15 ou 16 anos, andava assoberbado pelas demandas do  trabalho – era professor da UNICAMP, consultor de empresas, consultor de escolas, tinha filhos para criar, etc. Lazer, nem se pensava. Muitas vezes a família ia para a praia e eu ficava trabalhando. Trazia trabalho para casa à noite. A maior parte das pessoas conhece bem o problema. Mas, por outro lado, li, naquela ocasião, que o presidente de uma grande empresa multinacional havia saído de férias por 30 dias, indo para a Terra do Fogo, e que esquecia do trabalho durante aqueles dias e queria ser esquecido: nem deixava o telefone de onde estava. Perguntei-me: como ele consegue?

Fui estudar a questão e percebi, primeiro, que não há solução fácil ou mágica. A vida contemporânea é complexa mesmo e faz inúmeras demandas sobre o nosso tempo. Mas, embora nem fáceis nem mágicas, há medidas que podem nos ajudar a assumir controle de nossa vida – porque é disso, em última instância, que se trata.

A primeira medida é ganhar clareza sobre como gastamos o nosso tempo – fazendo um acompanhamento detalhado dos nossos dias durante um certo período.

A segunda medida é analisar cuidadosamente esses dados, classificando-os entre “Importantes e Urgentes”, “Importantes mas não Urgentes”, “Não-Importantes mas Urgentes” e “Não-Importantes e Não-Urgentes”.

A terceira medida é imediatamente deixar de fazer o que não é nem importante nem urgente. Ler jornais e revistas semanais de cabo a rabo, navegar sem rumo pela Internet, checar os e-mails duzentas vezes por dia, arranjar os ícones de aplicativos no desktop, brigar com a operadora de telefone por causa de um erro de cinco reais na conta, etc. – nada disso é importante ou urgente. Ganham-se preciosos minutos por dia e por semana deixando de fazer isso.

A quarta medida é tentar lidar com o que é urgente mas não importante. Como as coisas aqui são urgentes, não é possível simplesmente deixar de fazê-las. A solução é delega-las. Uma secretária, um assistente, um estagiário, um office boy, uma empregada doméstica – ou mesmo o cônjuge ou os filhos – podem assumir muitas dessas tarefas. O problema é que muita gente não consegue delegar. Conheço um grande advogado que não delega a estagiários nem mesmo a tarefa de ir ao fórum para acompanhar o andamento de processos. Segundo alega, uma vez fez isso e perdeu um prazo importante porque o estagiário bobeou. Mas nunca iremos conseguir administrar o tempo se não soubermos delegar – e lidar com eventuais problemas à medida que aconteçam.

Isso resolvido, temos de lidar com o que realmente vale a pena: as coisas importantes.

Algumas delas são também urgentes: se não pudermos delegá-las a quem possa realizá-las bem, temos de nos dedicar a elas imediatamente e fazê-las o mais rápido possível. Sem relaxo, mas, também, sem perfeccionismo. A incapacidade de delegar e o perfeccionismo são, talvez, os dois maiores inimigos da boa administração do tempo. A pressa, dizem, é inimiga da perfeição. Mas a busca da perfeição, embora necessária nas artes e no esporte, é inimiga da gestão eficaz do tempo. O artista e o esportista só conseguem chegar perto da perfeição porque são focados exclusivamente numa coisa – e deixam tudo o mais de lado. Nós, pobres mortais, que não podemos fazer isso, tempos de abrir mão da busca da perfeição  – sem, porém, abrir mão de certos padrões de qualidade.

Outras coisas importantes não são tão urgentes, ou assim parece. A nossa tendência aqui é procrastinar – empurrá-las com a barriga. A procrastinação é o terceiro grande inimigo da boa administração do tempo. Ter tempo de qualidade com a família é importante para você? Priorize isso. Abra mão, se necessário, de outras coisas menos importantes. Cuidar de sua saúde, exercitar-se, ter lazer, é importante para você? Priorize isso. Nada faz com que algo importante se torne também urgente como um grande susto com a saúde: um infarto, por exemplo. Sei do que falo nesta questão – embora às vezes me pegue me comportando como se não soubesse…

É Domingo:

Qual são as consequências para quem não consegue tempo para a saúde, para o lazer, para a família?

Eduardo Chaves:

Um infarto, por exemplo, como acabo de mencionar… Ou o cônjuge encontrar alguém que lhe dê mais tempo e atenção… Ou perceber que os filhos cresceram e você não notou, e, hoje, são quase estranhos em sua vida… Ninguém conscientemente deseja essas coisas. Mas, frequentemente, nos comportamos como se as desejássemos.

É Domingo:

No que isso pode prejudicar no mundo dos negócios?

Eduardo Chaves:

Uma pessoa de negócio com problemas de saúde ou com problemas familiares não tem condições de apresentar o mesmo desempenho que apresentaria se a saúde estivesse 100% e tudo estivesse bem com o cônjuge e os filhos.

É Domingo:

Quais são as principais barreiras encontradas pelas pessoas que não conseguem administrar sua agenda? E como elas podem rompê-las?

Eduardo Chaves:

Já as listei: incapacidade de delegar, perfeccionismo, procrastinação. É possível adquirir novos hábitos nessas áreas – mas não é fácil: exige determinação, paciência e persistência. Sempre vai haver recaídas – mas não podemos usá-las como justificativa para voltar aos velhos hábitos.

É Domingo:

O que é preciso saber para conseguir sucesso na vida profissional e pessoal?

Eduardo Chaves:

Gosto de listar os Seis P’s: Pensamento, Propósito, Paixão, Plano, Produção, Persistência.

O sucesso só vem para quem sabe o que busca, para quem sabe aonde quer chegar. Essa a função do Pensamento: uma ideia norteadora que vai nos servir de bússola.

Mas o Pensamento só não basta: é preciso que ele se transforme em um Propósito.

É preciso que esse Propósito seja perseguido com Paixão.

Mas a Paixão não é substituto para a elaboração de um Plano racional para realizar o Propósito.

Um Plano certamente não pode ficar na cabeça ou no papel: precisa ser posto em prática, transformado em ação. Essa é a função do que chamo de Produção.

Por fim, Persistência. Vai haver problemas e dificuldades, haverá horas em que ficaremos tentados a desistir… Mas os que são bem sucedidos são aqueles que, mesmo quando caem, “levantam-se, sacodem a poeira e dão a volta por cima”.

É Domingo:

Por fim, sua formação profissional e especialidades.

Eduardo Chaves:

Fiz curso de Graduação e Mestrado em Teologia e Doutorado em Filosofia. Fui professor universitário durante 35 anos – 32 dos quais na UNICAMP, da qual me aposentei no final do ano passado. Há cerca de 25 anos me enveredei pela área do uso da tecnologia na eficiência pessoal, no treinamento, na educação. Isso é hoje uma de minhas áreas de atuação profissional, como consultor. A Microsoft é minha principal cliente aqui. Desde janeiro deste ano sou Secretário Adjunto de Ensino Superior do Governo do Estado de São Paulo.

Em Campinas, 25 de fevereiro de 2007

Administração do Tempo – Entrevista para o Site do Padre Marcelo Rossi

1. A que se deve o surgimento (ou mesmo o crescimento) da necessidade de se controlar o tempo das atividades? Será que o relógio dominou o homem?

Importante que esta seja a primeira pergunta, porque ela me permite combater, desde o início, o maior mito que já se disseminou sobre a administração do tempo: a ideia de que administrar o tempo é “controlar o tempo das atividades”, ficar escravo do relógio.

Administrar o tempo não é equivalente a cronometrar nossas atividades, para ver se conseguimos reduzir o tempo dedicado a cada uma delas (assim fazendo mais ao final do dia — do mês, do ano, da vida).  Administrar o tempo envolve, acima de tudo, analisar séria e cuidadosamente nossas atividades, para determinar sua importância e urgência, ou seja, sua prioridade – e, depois, agir de conformidade com essa prioridade.

As atividades que desenvolvemos ao longo do dia, do mês, do ano, da vida, podem ser classificadas em quatro grandes categorias:

  • Atividades importantes e urgentes
  • Atividades importantes mas não urgentes
  • Atividades urgentes mas não importantes
  • Atividades nem importantes nem urgentes

A simples elaboração dessa lista já nos faz pensar.

A primeira categoria (coisas importantes e urgentes) certamente deve incluir nossas atividades prioritárias: aquelas a que devemos dedicar a maior parte do nosso tempo e do nosso esforço.

A quarta categoria (coisas nem importantes nem urgentes) é tão pouco prioritária que podemos simplesmente ignorar as atividades que porventura se incluam nelas. Se algo não é nem importante nem urgente, por que fazer?

O problema é definir a prioridade relativa entre as atividades da segunda e da terceira categorias: coisas importantes mas não urgentes e coisas urgentes mas não importantes.

O resultado mais significativo desse exercício, entretanto, não é uma lista priorizada de atividades às quais você se compromete dedicar o seu tempo e a sua energia — embora isso seja o que você está buscando. O resultado mais significativo é que você começa administrar a própria vida — afinal, tempo é vida, não é mesmo? Quando acaba o nosso tempo, acaba a nossa vida. Administrar o tempo, portanto, é administrar a própria vida. Esse o título de um artiguete que escrevi há vários anos.

Administrar a própria vida é se perguntar o que é realmente importante para a gente — e, se a gente não está fazendo o que realmente é importante, investigar por quê.

Como se vê, administrar o tempo não é ficar, cronômetro na mão, controlando o tempo que levamos para fazer o que de fato fazemos: é determinar se o que de fato fazemos vale a pena, se não existe algo mais importante a que deveríamos estar dedicando nosso tempo.

Se estou ouvindo uma música de que gosto muito, ou se estou assistindo a um de meus filmes favoritos, ou se estou brincando com meu neto pequeno — o importante não é tentar fazer essas coisas no menor tempo possível: o importante é prolongar o gozo de estar envolvido nelas, desfruta-las, degusta-las, como se degusta a um bom vinho (i.e., devagar…).  Se consigo fazer isso, estou administrando bem o meu tempo.

Se, por outro lado, passo o meu dia correndo atrás de coisas que não são importantes, e, às vezes, nem tão urgentes, ou, pior, se fico perdido, sem saber o que fazer, seja porque tenho coisas demais que parecem requerer minha atenção, seja porque tenho tão poucos interesses que nada parece valer a pena fazer, então estou administrando mal o meu tempo (i.e., a minha vida).

2. As pessoas estão correndo demais e olhando de menos para as coisas que fazem, isto é, há um desperdício do tempo utilizado?

Certamente a vida de hoje numa grande cidade brasileira é muito mais agitada do que costumava ser — e é muito mais agitada do que a vida numa pequena e pacata cidade do interior (Lucélia, por exemplo, onde nasci).  Até crianças pequenas têm agendas, hoje, que indicam que a maior parte do seu tempo está planejado e programado para elas: têm horas marcadas para se levantarem, ir à escola, almoçar, ir ao curso de Inglês, ir à escolinha de futebol (ou ao balé), tomar banho, jantar, fazer deveres escolares, quem sabe assistir a um pouco de TV e ir dormir.

Numa situação assim, que aflige a maior parte das pessoas e famílias das grandes cidades hoje em dia, o problema não é que o tempo das pessoas esteja sendo desperdiçado, que elas estejam gastando mais tempo para fazer as coisas do que é necessário. O problema é que as pessoas não estão refletindo o suficiente sobre o que estão fazendo, não estão se perguntando se essa agitação toda é necessária, se não há coisas mais importantes, no longo prazo, ou que trazem mais satisfação, no curto prazo, que poderiam estar fazendo.

A agitação da vida moderna não é um fatalismo que temos de aceitar. Se, ao refletirmos sobre tudo que fazemos, e que torna a nossa vida agitada (às vezes nos levando à morte por uma dessas doenças relacionadas ao estilo de vida, morte essa que decreta o fim do nosso tempo), concluímos que é isso que de fato queremos da vida, então o nosso estilo de vida passa a ser fruto de uma decisão consciente e não teremos por que reclamar, nem mesmo quando estivermos na UTI de um hospital em decorrência de estresse decorrente de nosso estilo de vida. Mas se, no processo de refletir, concluímos que essa agitação toda, além de tudo, não nos permite fazer o que realmente é importante para nós, como passar tempo com quem amamos, curtir as coisas boas e em geral simples da vida, então é hora de mudar — e teremos sorte se conseguirmos mudar enquanto é (há) tempo.

Tempo desperdiçado não é aquele em que ficamos sem fazer nada: é aquele em que fazemos aquilo que não nos é importante. Ficar sem fazer nada (do ponto de vista exterior) talvez seja, de vez em quando, a coisa mais importante que podemos fazer.

3. As pessoas têm acumulado coisas a mais que sua capacidade para fazer, daí estaria a causa do problema?

Essa é certamente uma parte do problema. É interessante se perguntar por que estamos assumindo tantas coisas – mais do que conseguimos fazer sem prejudicar nossa saúde física ou mental, ou sem ter de deixar de lado outras coisas que nos são realmente importantes (como passar mais tempo com a família — tempo de qualidade, “reservado”, não tempo “sobrado”).

Se temos coisas demais para fazer, é hora de nos perguntar se não podemos delegar algumas delas a terceiros, ou se não estamos, por causa, às vezes, de um perfeccionismo abstrato, gastando tempo demais com coisas que não merecem tanto tempo, por não serem tão importantes e prioritárias.

A causa principal do problema, parece-me, está no fato de que, entre essas coisas todas cuja realização assumimos, há inúmeras que não são realmente importantes para nós — importantes em termos de nossos próprios valores, não dos valores de terceiros! É aí que devemos atacar a questão do chamado desperdício de tempo.

4. Qual a importância de administrar seu tempo na realização de tarefas?

Resumindo o que já disse anteriormente, administrar o tempo não é tanto uma questão “de varejo”: é administrar estrategicamente a própria vida, definindo prioridades — e, em seguida, concentrar nosso tempo e energia no que é prioritário (importante ou urgente), deixando de lado aquilo que não é importante e gerenciando o melhor possível aquilo que é urgente sem ser importante.

Aqui talvez seja o melhor lugar de lidar com uma questão central na vida da maior parte de nós.

Muitos de nós trabalhamos como empregados em uma empresa, ou em uma organização não-governamental, ou em um órgão do governo. Quem trabalha como empregado está, na realidade, vendendo ao empregador parte de seu tempo (e do uso de sua inteligência, de suas competências, de seu esforço) em troca de um salário (dinheiro). Isso quer dizer que o uso de nosso tempo durante o horário de trabalho é, em parte, determinado pelo nosso empregador, não por nós mesmos. Isso, naturalmente, não quer dizer que não possamos, até certo ponto, administrar nosso tempo no trabalho (vamos discutir essa questão na resposta à pergunta seguinte) — mas quer dizer que a nossa flexibilidade na administração do nosso tempo enquanto no trabalho é mais limitada.

Se olharmos a questão do trabalho assalariado (venda de nosso tempo e do uso de outras qualidades nossas) numa perspectiva mais abrangente, vamos constatar que da mesma forma que vendemos nosso tempo, nós também compramos tempo dos outros ao contratarmos o trabalho alheio – ou o fruto desse trabalho. Se contratamos uma empregada doméstica, estamos comprando o tempo dela (e, naturalmente, o uso de algumas de suas qualidades) — ela vai fazer para nós coisas que, se nós fôssemos fazer, gastariam parte de nosso tempo. Como preferimos fazer algumas outras coisas com o nosso tempo (como vendê-lo ao nosso empregador em troca de um salário melhor do que o que pagamos à nossa empregada) compramos o tempo dela (em troca de um salário menor do que o nosso).

Na verdade, eu conheço mulheres que trabalham fora (i.e., vendem o seu tempo a um empregador) em troca de um salário que não é muito maior do que o que pagam à empregada doméstica que precisam contratar para cuidar de sua casa enquanto trabalham fora. Por que fazem isso? Porque preferem trabalhar fora (isto lhes traz mais satisfação ou realização pessoal) do que ficar trabalhando em casa fazendo um trabalho que acham chato e sem encontrar pessoas interessantes — uma questão de prioridade.

Eu, por exemplo, poderia fazer o jardim da minha casa. Mas como há um bom jardineiro que faz isso a cada quinze dias para mim por um preço relativamente barato, prefiro pagar-lhe esse preço para cuidar de meu jardim enquanto eu fico lendo ou escrevendo (e vendo o jardineiro trabalhar no jardim lá fora). Novamente, questão de prioridade.

Se não somos ricos por herança, e temos de trabalhar para sobreviver, o nosso trabalho se torna algo não só urgente mas (pelo menos indiretamente) importante — importante pelo menos por aquilo que ele nos permite realizar com o salário que recebemos: nos manter a nós mesmos e à nossa família. O horário dedicado ao trabalho, assim, assume importância e deve ter prioridade — mesmo que aquilo que fazemos dentro desse horário não nos pareça importante ou sequer urgente.

Se temos de trabalhar como assalariados, e a maioria de nós tem, não resta a menor dúvida de que a melhor opção, se é que temos escolha, é por um trabalho que é, em si, interessante (“gratificante” é o termo da moda) — não por um trabalho chato e maçante.  O problema é que a maioria de nós não tem muita escolha — e, por isso, muitas vezes somos levados a trabalhar com algo que não traz satisfação e realização pessoal. Mesmo quando isso acontece, porém, é preciso encarar o trabalho da perspectiva daquilo que o seu fruto (o salário) nos permite realizar — e isso em geral nos obriga  a colocar o trabalho entre as coisas que são importantes (além de, sem dúvida, urgentes).

Rubem Alves nos diz, em vários de seus livros, que a educação é o processo pelo qual criamos e equipamos duas caixinhas: uma caixinha de ferramentas e uma caixinha de brinquedos. A primeira contém aquelas competências e habilidades que são necessárias para nos manter vivos; a segunda contém aquelas competências e habilidades que nos fazem querer continuar vivos, isto é, que dão razão e sentido à nossa vida. O ideal sem dúvida é que consigamos nos manter vivos fazendo coisas que nos dão prazer e satisfação, que nos fazem felizes. Se isso não é possível, porém, devemos encarar o nosso trabalho da perspectiva daquilo que ele nos permite fazer, fora do horário de trabalho, com nossa caixinha de brinquedos.

5. Administrar o tempo reduz gastos nas empresas? Por quê?

As empresas, como as pessoas, acabam por desenvolver rotinas, que se incorporam em sua cultura organizacional, que são ineficientes.

Uma atividade é ineficiente quando a sua execução não otimiza — vale dizer, desperdiça — recursos, isto é, consome mais recursos para promover um determinado fim do que é necessário — ou do que uma atividade alternativa consome para chegar aos mesmos resultados. Os recursos em pauta podem ser financeiros, materiais ou humanos (o tempo das pessoas, por exemplo). Certamente a administração do tempo pode levar as empresas a descobrir quais atividades dentro dela estão sendo ineficientes pelo menos no uso do recurso tempo – e a tomar as medidas necessárias para corrigir a ineficiência (tornando as rotinas de trabalho mais eficientes no uso desse recurso ou até mesmo substituindo-as por outras mais eficientes).

Mas as empresas, muitas vezes, desenvolvem atividades que são ineficazes.

Uma atividade é ineficaz quando ela é não produz os resultados desejados (dado um determinado contexto), nem mesmo ineficientemente. Ser eficaz, portanto, é fazer a coisa certa (aquilo que deve ser feito para produzir os resultados que desejamos) — ainda que essa coisa seja feita do jeito errado (isto é, de forma ineficiente).

O ideal é ser eficiente e eficaz: fazer certo a coisa certa.

O problema de muitas empresas é que elas fazem um número enorme de coisas ineficazes, isto é, que realmente não produzem os resultados desejados. Essas atividades devem ser abandonadas, porque, ainda que realizadas eficientemente (sem que haja desperdício de recursos na sua realização) elas são, em si, um desperdício de recursos, pois não produzem os resultados desejados (ainda que sejam realizadas com a maior eficiência). Em outras palavras: não vale a pena fazer bem o que não deve ser feito: o que não deve ser feito simplesmente não deve ser feito.

Esse conjunto de considerações tem levado muitas empresas a analisar com cuidado suas “competências básicas” (o seu “core business”) e, em alguns casos, a adotar a chamada “terceirização”.

Uma empresa de alta tecnologia como a Microsoft tem suas “competências básicas” (seu “core business”) na área de desenvolvimento de software. Ela não é especializada, digamos, na realização de serviços de limpeza e de fornecimento de refeições. No entanto, em suas enormes instalações em Redmond, WA, nos Estados Unidos, atividades como a limpeza dos prédios e o fornecimento de refeições aos empregados têm de ser realizadas. Qualquer ação que as realizar é, assim, eficaz — produz resultados que são desejados. A Microsoft tem alternativas sobre a melhor maneira de produzir esses resultados. Ela pode contratar empregados que façam essas coisas ou pode terceirizar esses serviços para empresas especializadas — que, provavelmente, por serem especializadas, vão conseguir prestar esses serviços para a Microsoft com melhor qualidade e com menor custo (i.e., maior eficiência) do que se a Microsoft, ela mesma, contratasse as pessoas para realizar os serviços. Dentro das prioridades da Microsoft, ela prefere focar o tempo de seus empregados e a sua energia organizacional na realização daquilo que lhe é, acima de tudo, importante. Isso lhe permite ser eficaz (conseguindo que algo que precisa ser feito seja feito) e mais eficiente (reduzindo os custos e melhorando a qualidade dos serviços que estão fora de suas competências básicas).

Num desenvolvimento interessante, algumas empresas, como a Nike, acabaram definindo seu “core business” de forma que lhes permite terceirizar a maior parte de suas atividades. A Nike, como se sabe, só cria os seus produtos e cuida do marketing necessário para vendê-los. A manufatura, em si, de toda a sua linha de produtos é terceirizada.

6. Saber administrar o tempo é uma saída para se destacar dentro da empresa, ou seja, a pausa para o café é mal vista pelo chefe?

A maior parte das grandes empresas, que, em geral, são mais bem administradas, não enfoca a questão desse ângulo  de “micro-gestão”: de ficar fiscalizando se seus empregados estão gastando muito tempo na pausa para o café, ou se estão conversando demais durante o expediente, ou mesmo se estão usando a Internet para realizar atividades pessoais (pagar contas, por exemplo), não relacionadas ao trabalho.

A maior parte das grandes empresas hoje em dia encara a administração do tempo em termos dos resultados obtidos. Em geral elas dão razoável flexibilidade aos empregados sobre a forma de alcançar esses resultados. Se posso citar novamente a Microsoft, os empregados, lá, têm a possibilidade de adotar um horário de trabalho relativamente flexível (flextime). Ou podem sair, durante o expediente, para relaxar (nadar, fazer exercícios, receber uma massagem). Ou podem até mesmo, querendo, cochilar um tempo em seu escritório. O importante é que não percam de foco suas metas, como empregados da empresa, colocando em risco os resultados que a empresa está determinada a alcançar. Se uns empregados gastam mais tempo no café ou no almoço, ou chegam mais tarde, ou saem mais cedo, isso, em si, não é problema — desde que as coisas importantes e urgentes estejam sendo feitas dentro dos prazos combinados e no nível de qualidade desejado.

7. Que tipo de dica o senhor poderia dar para as pessoas prestarem mais a atenção durante seu trabalho e regularem melhor o tempo com suas obrigações?

A melhor sugestão de certo modo já foi dada meio que en passant. As pessoas em geral têm um desempenho muito melhor no trabalho quando o seu trabalho lhes permite unir o útil ao agradável: ganhar a vida e fruí-la, ou gozá-la, ao mesmo tempo, fazer convergir os objetivos organizacionais e os objetivos pessoais, tornar o urgente importante, fazer da caixinha de ferramentas ao mesmo tempo uma caixinha de brinquedos. Para a pessoa que gosta de fazer aquilo que o seu trabalho exige que ela faça o trabalho não vai ser penoso e, por isso, não vai parecer trabalho: vai parecer mais como um lazer escolhido para dar prazer — e, por isso, ela não terá problemas em lhe dar a devida importância e prioridade. Os melhores profissionais são aqueles que têm prazer no que fazem — que estariam fazendo aquilo com gosto mesmo que não fossem pagos para fazê-lo.

Isso nem sempre é possível. Mas nossa educação deveria nos preparar para isso. O ideal é não separar trabalho e lazer / prazer – e trabalhar, meio que contra a vontade, apenas porque o trabalho torna possível fazer o que dá prazer quando a gente está fora do trabalho, ou no fim de semana, ou em férias, ou aposentado. O ideal é definir com clareza aquilo que nos dá prazer, aquilo que gostamos de fazer — e, daí, encontrar uma forma de ganhar dinheiro fazendo aquilo… Se conseguirmos, não teremos problema algum em administrar o nosso tempo no trabalho.

Em Campinas, 24 de agosto de 2005

Administração do Tempo (Livreto)

Administração do Tempo (*)

Eduardo Chaves


I. Por que Administrar o Tempo?

II. Empecilhos à Administração do Tempo

III. Ferramentas de Administração de Tempo


Santo Agostinho afirmou, em suas Confissões, que discutir o tempo é algo muito complicado, pois o tempo parece ser, quando não tentamos discorrer sobre ele, algo simples, que todo o mundo conhece. Basta, porém, tentar teorizar sobre ele para que nos vejamos diante de grande confusão .

I. Por que Administrar o Tempo?

Ao me propor discutir a administração do tempo estou, de certa forma, correndo riscos semelhantes. De um lado, o risco de ficar discutindo o óbvio, que é do conhecimento geral. De outro, o de, ao tentar fugir do óbvio, cair na maior confusão.

Neste trabalho tento evitar confusão, mesmo correndo o risco de só dizer óbvio. Na verdade, às vezes precisamos ser relembrados do óbvio.

Comecemos por analisar alguns mitos acerca da administração do tempo.

O primeiro é que quem administra o tempo torna-se escravo do relógio. A verdade é bem o contrário. Quem administra o tempo coloca-o sob controle, torna-se senhor dele. Quem não o administra é por ele dominado, pois acaba fazendo as coisas ao sabor das pressões do momento, não na ordem e no momento em que desejaria.

Esse mito se alimenta do fato de que muitas pessoas que tentam administrar o tempo acreditam (pelo menos no início) que é possível programar 100% do seu tempo. Administrar o tempo, para elas, acaba sendo, por causa disso, como vestir uma camisa de força e não mais tirá-la. A verdade é que administrar o tempo não é programar a vida nos mínimos detalhes: é adquirir controle sobre ela. É necessário planejar, sem dúvida. Mas é preciso ser flexível, saber fazer correções de curso. Se você está fazendo algum trabalho e está  inspirado, produzindo bem, não há razão para parar, simplesmente porque o tempo alocado àquela tarefa expirou. Se a tarefa que viria a seguir, em seu planejamento, puder ser reagendada, sem maiores problemas, não interrompa o que você vem fazendo bem. Administrar o tempo é fazer o que você considera importante e prioritário, é ser senhor do próprio tempo, não é programá-lo nos mínimos detalhes e depois tornar-se escravo dele.

O segundo mito é que a gente só produz mesmo, ou então só trabalha melhor, sob pressão. Esse é um mito criado para racionalizar a preguiça, a indecisão, a tendência à procrastinação. Não há  evidência que o justifique, até porque os que assim agem poucas vezes tentam trabalhar sem pressão para comparar os resultados – sobre si mesmos e sobre os que os circundam. A evidência, na verdade, justifica o contrário daquilo que expressa o mito. Em contextos escolares, por exemplo, quem estuda ao longo do ano, com calma e sem pressões, sai-se, geralmente, muito melhor do que quem deixa para estudar nas vésperas das provas e, por isso, vê-se obrigado a passar noites em claro para fazer aquilo que deveria vir fazendo durante o tempo todo. Nada nos permite concluir que o que vale no contexto escolar, a esse respeito, não valha em outros contextos.

O terceiro mito é que administrar o tempo é algo que se aplica apenas à vida profissional. Falso. Certamente há muitas coisas em sua vida pessoal e familiar que você reconhece que deve e deseja fazer mas não faz – “por falta de tempo”. Você pode estar querendo, há  anos, reformar algumas coisas em sua casa, escrever um livro ou um artigo, aprender uma língua estrangeira, ou então a dançar, desenvolver algum hobby, tirar duas semanas sem perturbações nas montanhas, curtir os filhos que estão crescendo, tudo isso sem conseguir. A culpa vai sempre na falta de tempo. A administração do tempo poderá permitir que você faça essas coisas em sua vida pessoal e familiar.

O quarto mito é que ter tempo é questão de querer ter tempo. Você certamente já  ouviu muita gente dizer isso. De certo modo essa afirmação é verdadeira – até onde ela vai. Normalmente damos um jeito de arrumar tempo para fazer aquilo que realmente queremos fazer. Mas a afirmação não diz tudo. Não basta simplesmente querer ter tempo para ter tempo. É preciso também querer o meio indispensável de obter mais tempo – e esse meio é a administração do tempo.

Contrária a esses mitos, a verdade é que administrar o tempo é saber usá-lo para fazer aquelas coisas que você considera importantes e prioritárias, profissional ou pessoalmente. Administrar o tempo é organizar a sua vida de tal maneira que você obtenha tempo para fazer as coisas que realmente gostaria de estar fazendo, profissional e pessoalmente, e que possivelmente não vem fazendo porque anda tão ocupado com tarefas urgentes e de rotina (muitas delas não tão urgentes nem tão prioritárias) que não sobra tempo.

Quem tem tempo não é quem não faz nada: é quem consegue administrar o tempo que tem. Todos nós conhecemos pessoas (um tio idoso, uma prima) que (pelos nossos padrões) não fazem nada o dia inteiro e, no entanto, constantemente se dizem sem tempo .

Por outro lado, quem administra o tempo não é quem está  todo o tempo ocupadíssimo. Pelo contrário. Se você vir algum que trabalha o tempo todo, fica até mais tarde no serviço, traz trabalho para casa à noite e no fim de semana, pode concluir, com certeza, que essa pessoa não sabe administrar o tempo. Quem administra o tempo geralmente não vive numa corrida perpétua contra o tempo, não precisa trabalhar horas extras – e, geralmente, produz muito mais!

Mas não se engane: o processo de administrar o tempo não é fácil. É preciso realmente querer tornar-se senhor de seu tempo para conseguir administrá-lo. Se você ainda não se compenetrou da necessidade de fazê-lo, aqui vão algumas considerações que podem convencê-lo.

1. Tempo é Vida

Embora o equipamento básico de que dispomos para viver seja a nossa mente (e, no caso da maioria das pessoas que estão lendo isto, não a força, ou a velocidade), o tempo é o recurso fundamental da nossa vida, a matéria prima básica de nossa atividade.

Quando o nosso tempo termina, acaba a nossa vida. Não há maneiras de obter mais. Por isso, tempo é vida. Quem administra o tempo ganha vida, mesmo vivendo o mesmo tempo. Prolongar a duração de nossa vida não é algo sobre o qual tenhamos muito controle. Aumentar a nossa vida ganhando tempo dentro da duração que ela tem é algo, porém, que está ao alcance de todos.

O tempo é um recurso não renovável e perecível. Quando o tempo acaba, ele acaba mesmo. E o tempo não usado não pode ser estocado para ser usado no futuro. O tempo não é como riquezas, que podem ser acumuladas para uso posterior. Quem não administra o seu tempo joga sua vida fora, porque um dia só pode ser vivido uma vez. Se o tempo de um dia não for usado sabiamente, não há  como aproveitá-lo no dia seguinte. Amanhã será sempre um novo dia e o hoje perdido terá sido perdido para sempre . Eu avisei que ia dizer o óbvio. Poucas coisas são tão óbvias como o que foi afirmado neste parágrafo – mas quão freqüentemente nos comportamos como se não o soubéssemos!

Mas o tempo, embora não renovável e perecível, é um recurso democraticamente distribuído. A capacidade mental, a habilidade, a inteligência, as características físicas são muito desigualmente distribuídas entre as pessoas. O tempo, porém, enquanto estamos vivos, é distribuído igualmente para todos. O dia tem 24 horas tanto para o mais alto executivo como para o mais pobre desempregado. Todos recebemos 24 horas de tempo por dia. Na verdade, temos todo o tempo que existe: não existe tempo que alguém possa guardar para si, em detrimento dos outros. Alguém pode roubar meu dinheiro, os objetos que possuo. Mas ninguém consegue roubar meu tempo: outra pessoa só conseguir  determinar como eu vou usar meu tempo se eu o consentir.

Se é assim, devemos nos perguntar por que alguns produzem tanto com o tempo de que dispõem e outros não conseguem produzir nada – no mesmo tempo. Não é que os últimos não façam nada (não são daqueles que se levantam mais cedo apenas para ter mais tempo para não fazer nada): às vezes são ocupadíssimos, e, no entanto, pouco ou mesmo nada produzem. A explicação está no seguinte: o importante é o que fazemos com nosso tempo.

2. Tempo é Dinheiro

É importante se compenetrar do fato de que nosso tempo é valioso. Há pessoas e instituições que estão dispostas a pagar dinheiro pelo nosso tempo. Por isso é que se diz que tempo é dinheiro . Quem administra o tempo, na verdade, ganha não apenas vida: pode também transformar esse ganho de vida em ganho de dinheiro.

Para alcançar um determinado resultado ou produzir alguma coisa, com determinado nível de qualidade, precisamos investir fundamentalmente tempo e/ou dinheiro.

Imaginemos exemplos corriqueiros. Seu carro está precisando de uma limpeza. Ou é preciso consertar a instalação elétrica de sua casa. Suponhamos que você saiba lavar um carro e fazer um conserto elétrico com um nível de qualidade aceitável, e que em ambos os casos o serviço vai levar cerca de uma hora de seu tempo.

Independentemente de quanto valha a hora de seu tempo, se você não tem mais nada que realmente queira fazer (como dormir, assistir a um jogo de futebol na TV, etc.), provavelmente vai concluir que vale mais a pena você mesmo lavar o carro, ou consertar a instalação elétrica, do que pagar um lava-carro ou um eletricista para fazer o serviço. O uso de seu tempo economiza dinheiro, nesse caso. Se, porém, você pode empregar seu tempo ganhando mais dinheiro do que você vai economizar, ou, então, se há  coisas que você queira fazer que são mais importantes, para você, do que o dinheiro que irá gastar, provavelmente vai concluir que vale mais a pena pagar um lava-carro ou um eletricista para fazer o serviço.

Por outro lado, mesmo que você tenha tempo, se você deseja um trabalho de melhor nível de qualidade do que aquele que é capaz de produzir, pode  valer mais a pena pagar um bom profissional para fazer o serviço.

A questão a manter em mente é que o tempo tem um valor monetário para quem tem objetivos: a decisão de empregá-lo ou não em determinada tarefa deve levar em consideração esse valor. Se lavar o carro leva uma hora e você economiza dez reais fazendo, você mesmo, a tarefa, então seu tempo, naquela situação, vale dez reais por hora. Por outro lado, se você não tem nada mais a fazer, além da tarefa que está contemplando realizar, então o fator tempo deixa de ser uma variável relevante.

Um outro exemplo pode ajudar. Suponhamos que você não possua nem bicicleta, nem carro, nem helicóptero e queira ir a São Paulo. Você pode ir a pé (e levar três dias), alugar uma bicicleta (e levar várias horas), ir de ônibus (e levar cerca de três horas, ponto a ponto), tomar um taxi (e levar um hora), ou fretar um helicóptero (e levar quinze minutos). Cada uma dessas opções envolve um certo uso de tempo e um determinado dispêndio de dinheiro. Se você tem pouco tempo e bastante dinheiro, pode decidir gastar mais dinheiro e fretar o helicóptero. Se você tem pouco dinheiro e bastante tempo, pode decidir ir a pé. Dependendo da “mistura”, você pode escolher uma das opções intermediárias.

A qualidade do resultado, porém, também precisa ser levada em consideração. Indo a pé, você vai chegar em São Paulo cansado, sujo, estropiado. Indo de helicóptero, você vai chegar como saiu. Isso pode eventualmente pesar na decisão .

Digamos, portanto, que um investimento de tempo T e de dinheiro $ produz um resultado com um determinado nível de qualidade Q.

Se continuarmos a investir a mesma quantidade de tempo e de dinheiro, é de esperar que a qualidade vai se manter a mesma. Se aumentarmos o investimento de tempo, podemos manter a qualidade diminuindo o investimento de dinheiro, ou vice versa.

Se aumentarmos o investimento de tempo, mantendo o investimento de dinheiro estacionário, ou vice-versa, podemos melhorar a qualidade, que pode ser  mais melhorada ainda se aumentarmos ambos os investimentos.

Se diminuirmos o investimento de tempo, mantendo o investimento de dinheiro estacionário, ou vice-versa, iremos piorar a qualidade, que pode ser pior ainda se reduzirmos ambos os investimentos.

Por aí você vê que pode trocar seu tempo por dinheiro. Na verdade, o trabalho é uma permuta de tempo por dinheiro: alguém me paga pelo meu tempo (isto é, pelo meu tempo produtivo). E isso nos traz à questão da produtividade.

3. Administração do Tempo e Produtividade

Quem administra o tempo, aumenta sua produtividade. Produtividade é o produto da eficácia pela eficiência.

Ser eficaz é fazer as coisas certas, isto é, fazer aquilo que consideramos importante e prioritário.

Ser eficiente é fazer as coisas certo, isto é, com a menor quantidade de recursos possível.

Ser produtivo é fazer certo as coisas certas, isto é, fazer aquilo que consideramos importante e prioritário com a menor quantidade de recursos possível. E tempo é um recurso fundamental: nada pode ser feito sem tempo. Por isso ele é freqüentemente escasso e caro.

É possível ser eficaz, isto é, fazer o que precisa ser feito, sem ser eficiente. Todos conhecemos pessoas que fazem o que devem fazer, mas levam tempo demasiado, ou gastam muito dinheiro, para fazê-lo. Essas pessoas são eficazes mas ineficientes.

Por outro lado, todos conhecemos pessoas que fazem, de maneira extremamente eficiente, coisas que são inessenciais, que não têm a menor importância. Quem consegue colocar cem mil pedras de dominó em pé‚ sem derrubar nenhuma, possivelmente seja muito eficiente nessa tarefa – mas extremamente ineficaz.

Vemos, talvez até mais freqüentemente, pessoas que são ineficazes e ineficientes. Todos já vimos o balconista de loja ou o caixa de banco que tenta atender a mais de um freguês ou cliente ao mesmo tempo, que simultaneamente tenta responder às perguntas de outro, conversar com colegas que vêm pedir informações ou jogar conversa fora, etc. Esse indivíduo parece ocupado – na verdade está ocupado – mas é improdutivo: no mais das vezes não consegue fazer as coisas que devem ser feitas nem fazer o que faz de maneira correta.

Tornar mais eficiente quem é ineficaz (por exemplo, dando-lhe um computador) às vezes até piora a situação. Um exemplo exagerado pode ajudar. Um bêbado a pé é ineficaz e (felizmente) ineficiente. Se o colocarmos ao volante de um automóvel, poderá tornar-se muito mais eficiente em sua ineficácia (isto é, fazer muito mais rapidamente o que não deveria fazer, causando um dano muito maior) .

Ser produtivo, portanto, não é a mesma coisa que ser ocupado. Está errado o ditado americano que diz: “If you want something done, give it to a busy person”. A pessoa pode ser ocupada e não produtiva, em cujo caso não fará a tarefa adicional que lhe está sendo pedida.

4. Administração do Tempo e Redução de Stress

Quem administra o tempo reduz o stress causado pelo mau uso do tempo.

Aqui também a idéia de mau uso ou desperdício do tempo pressupõe a noção de objetivos.

Se não tenho nenhum objetivo, seja profissional, seja pessoal, então provavelmente vou deixar o tempo fluir, despreocupadamente, como um rio que passa por debaixo de uma ponte. Não há como avaliar meu uso do tempo nesse caso. A única coisa que posso querer fazer é “matar o tempo”. Numa situação como essa, provavelmente não vou ter stress.

O tempo aparece como bem ou mal usado apenas para a pessoa que tem objetivos, que quer realizar alguma coisa. O bom ou mau uso do tempo depende do que se pretende alcançar . O mau uso do tempo causa stress porque tempo mal usado é tempo usado para fazer aquilo que não consideramos importante e prioritário.

Usar o tempo de forma não planejada não equivale, necessariamente, a fazer mau uso do tempo (como já se indicou). Freqüentemente temos que alterar nosso planejamento, fazer coisas que não estavam na nossa agenda. Nosso tempo só terá sido desperdiçado se essas alterações nos levarem a fazer coisas que não consideramos importantes.

Mau uso do tempo não é ficar sem fazer nada, gastar tempo no lazer, dedicar tempo a hobbies ou à família, se é isso que julgamos importante e queremos – e todos nós desejamos isso em determinados momentos. Se, entretanto, num dado momento, você realmente quer estar lendo um livro, ou trabalhando num relatório, e se vê obrigado a fazer um passeio com as crianças, ou a entreter familiares, você se sente tenso, porque o tempo não estará sendo utilizado para aquilo que você considera importante e prioritário naquele momento – e, portanto, não estará sendo bem usado.

É sempre bom lembrar que, da mesma forma que o mau uso do tempo causa stress, o bom uso do tempo normalmente traz satisfação, sentido de realização e felicidade.

II. Empecilhos à Administração do Tempo

Com exceção de alguns poucos que se pretendem defensores da liberdade irrestrita e assim se posicionam contrários a todo tipo de administração, inclusive do tempo, a maior parte das pessoas reconhece que não sabe administrar seu tempo, gostaria de fazê-lo, mas se vê diante de uma série de empecilhos que dificultam e parecem mesmo impossibilitar o bom uso do tempo.

Esses empecilhos são de várias naturezas. Os principais são de ordem institucional (administrativa, ambiental) e de ordem pessoal. Vamos discutir primeiro os empecilhos de natureza institucional (excesso de tarefas, de papéis, de interrupções, de telefonemas, de reuniões). Geralmente concluímos (erradamente) que o problema está mais nos outros do que em nós mesmos. Ao final discutiremos alguns empecilhos de natureza pessoal: a tendência à procrastinação, a indecisão, a tentativa de esconder a verdade de nós mesmos. Estes são os empecilhos mais difíceis de vencer. Mesmo que os obstáculos institucionais sejam removidos, nossas possibilidades de administrar o tempo serão poucas se os empecilhos pessoais não forem conquistados.

1. Excesso de Tarefas

Um empecilho famoso é o excesso de tarefas. Grande parte das pessoas, e certamente a maioria daqueles que estarão lendo este trabalho, têm coisas demais para fazer. O excesso de tarefas freqüentemente paralisa: a pessoa não sabe por onde começar e acaba ficando imobilizada.

2. Excesso de Papéis

Junto do excesso de tarefas, e parcialmente gerado por elas, há o excesso de papéis.

O excesso de papéis, porém, tem causas independentes do excesso de tarefas. Muitas pessoas e instituições nos mandam papéis não solicitados que nada têm que ver com nossas tarefas. As malas diretas geradas por computador agravaram sensivelmente o acúmulo de correspondência que nada significa mas que freqüentemente é olhada antes de ser jogada fora (ou, pior, antes de ser colocada de lado para uma eventual necessidade).

Além disso, alguns colegas e muitos superiores nos mandam papéis que não lhes interessam e com os quais não sabem o que fazer. Limpam, assim, suas mesas às custas da nossa.

A conseqüência disso é que nossa mesa de trabalho fica escondida debaixo de uma montanha de papéis. Quando precisamos de algo importante, não sabemos exatamente onde está, gastamos tempo a procurar, custamos a achar, encontramos outras coisas que nos interessam e que desviam e consomem nossa atenção, e assim por diante. Por causa do excesso de papéis, acabamos gastando minutos preciosos, às vezes horas.

3. Excesso de Interrupções

A maior parte das pessoas não consegue trabalhar por um período razoável de tempo sem interrupções de colegas ou de estranhos – exceto, talvez, aquelas pessoas que, pela sua posição e estilo de trabalho, ou por terem uma secretária ciente de seus deveres, conseguem controlar o acesso à sua sala.

Aqueles que trabalham em locais abertos ou em empresas que adotam o estilo da “porta aberta” freqüentemente se vêem forçados a dar do seu tempo a todos aqueles que se julgam no direito de colocar a cabeça para dentro da sala e dizer: “Você tem um minutinho?”, “Posso fazer uma perguntinha?”, “Dá para você me dar uma ajudazinha aqui?”, etc. Sempre usam o diminutivo para dar a impressão de que serão breves. Nem sempre o são. Uma coisa leva à outra, e quando o interrompido se dá conta a “perguntinha”, a “ajudazinha”, o “minutinho” acabou levando meia hora (quando não mais).

Como a manutenção de boas relações pessoais no trabalho é algo que a maior parte das pessoas julga importante, elas ficam sem saber como lidar com o problema sem ser indelicadas. Acabam se prejudicando, tendo que ficar trabalhando até mais tarde, ou que levar trabalho para casa, ou não fazendo com a qualidade desejada o que tinham para fazer.

4. Excesso de Telefonemas

Algo semelhante acontece com telefonemas – principalmente para quem tem que atender seu próprio telefone, sem o filtro de uma secretária eficiente. Na verdade, telefonemas são uma forma especial de interrupção.

Muitas firmas não têm rotinas e procedimentos bem estabelecidos para responder a perguntas ou a pedidos de informação, de sorte que vários tipos de telefonemas acabam tendo que ser atendidos por pessoas cujo tempo seria muito mais bem empregado em outras tarefas. Um telefonema inconveniente, ou num momento inconveniente, pode estragar um dia.

5. Excesso de Reuniões

O problema do excesso no número e na duração das reuniões no Brasil é dos mais sérios. Temos muito mais reuniões do que seria necessário, elas duram muito mais do que seria sensato esperar, e muito mais gente participa delas do que seria preciso. No Brasil há essa noção esquisita de que a importância de uma pessoa de certa forma se mede pele número de reuniões para as quais ela é convocada .

Além disso, as reuniões são convocadas não raro sem a devida antecedência, causando miséria nas agendas das pessoas, seus objetivos não são anunciados com clareza e antecedência, nem a pauta com a lista de participantes é distribuída previamente, as pessoas convocadas não sabem porque estão sendo convocadas nem o que se espera delas, não podendo, portanto, se preparar. As reuniões nunca começam na hora, freqüentemente por atraso de quem as convoca ou de pessoa que (na hora se fica sabendo)‚ indispensável para sua condução. Nunca se fixa um limite para a duração da reunião. Uma vez iniciada a reunião, todo mundo parece sentir que tem a obrigação de dizer alguma coisa para justificar sua presença . A duração e o conteúdo das intervenções não é controlado. Gasta-se um tempo enorme discutindo questões paralelas. Depois das reuniões nenhum dos participantes tem idéia clara do que ficou resolvido, se é que alguma coisa foi resolvida, nem é informado do andamento das coisas que foram decididas.

6. Tendência à Procrastinação

A tendência à procrastinação parece ser uma característica comum dos seres humanos. Poucas são as pessoas que tomam uma decisão de imediato, assim que confrontadas com uma tarefa ou um problema. A incapacidade de tomar uma decisão leva muitas pessoas a protelar, na esperança de que o problema se resolva por si só e a decisão se torne desnecessária.

É preciso distinguir a tendência à procrastinação do bom senso que recomenda não tomar uma decisão no calor de uma discussão, ou quando não há informações suficientes, ou coisa equivalente.

A tendência à procrastinação aparece principalmente quando a tarefa a ser realizada é muito difícil, complexa, longa, ou desagradável. Parece que temos esperança de que as coisas se farão ou se resolverão por si próprias, se as deixarmos sós.

III. Ferramentas de Administração do Tempo

Listar os problemas não é difícil. A maioria das pessoas conhece bem as suas dificuldades no tocante à administração do tempo. Mais difícil é encontrar soluções para essas dificuldades. As soluções, em regra, não passam de bom senso. Mas o mais difícil de tudo é seguir o bom senso.

1. Para o Excesso de Tarefas

As coisas que temos a fazer são, freqüentemente, de natureza bastante diversa. Algumas delas são para ser feitas ao longo do tempo, e podem se desdobrar em várias tarefas, prolongando-se por meses e anos (como escrever um livro). Outras podem ser episódicas e rápidas, envolvendo uma só tarefa (como pagar a conta de luz). Algumas dizem respeito ao nosso serviço e são urgentes (terminar o relatório para a reunião do Conselho Diretor na próxima segunda feira). Outras têm que ver como nossa vida pessoal e não têm maior urgência (aprender a dançar, ou perder uns quilinhos). Algumas são desagradáveis (terminar um noivado ou um casamento de vários anos), outras prazerosas (sair de férias e passar duas semanas na praia).

A primeira coisa a fazer é separar, entre aquelas coisas que desejamos ou precisamos fazer, aquelas que se constituem verdadeiros projetos, envolvendo várias tarefas, e aquelas coisas que, pela sua natureza, já são “agendáveis” enquanto tais. As primeiras vão para uma Lista Mestre (“Master List”); as segundas, para uma “Lista de Lembretes” (“To Do List”).

A. A Lista Mestra

A Lista Mestre é aquela lista dos projetos que você quer ou precisa desenvolver a curto, médio e longo prazo. Deve incluir coisas como “Preparar Relatório Anual do Departamento”, “Escrever Artigo sobre Tendências Atuais de Marketing”, “Planejar Reforma da Casa”, “Aprender Inglês”, “Perder 10 kg”, etc. Ela deve incluir também os seus projetos de vida, como “Estar financeiramente independente dentro de seis anos”, “Ir morar na França daqui a dez anos”, etc.

Depois de elaborada e revista a lista, ela dever  ser priorizada. A cada um dos projetos nela incluídos dever  ser atribuída uma prioridade, que reflete o seu grau de importância em relação aos outros projetos. A forma mais fácil de fazer isso é comparar, dois a dois, projeto por projeto, decidindo qual deles é mais importante, até que a lista esteja ordenada segundo suas prioridades. Mas o problema de priorização será discutido em maior detalhe adiante.

Alguns desses projetos são relativamente simples no tocante aos meios necessários para realizá-los. Para aprender inglês, por exemplo, basta procurar uma boa escola e se matricular. Outros projetos são bem mais complexos. Quais são os meios que nos levam à independência financeira em seis anos? O que devemos fazer para ter condições de morar na França daqui a dez anos? Para que você realize esses projetos dentro do prazo previsto, possivelmente é preciso que comece já a fazer aquelas coisas que são condições necessárias para o sucesso do projeto.

Esclarecidas essas questões, você terá que quebrar seus projetos prioritários em tarefas, até que elas sejam suficientemente pequenas para poder ser incluídas em sua Lista de Lembretes para agendamento.

B. A Lista de Lembretes

A Lista de Lembretes incluirá todas as coisas que você tem que fazer e que podem ser incluídas em sua agenda diária como um item. Nada nessa lista deve, portanto, em princípio, levar mais do que quatro, ou, talvez, do que duas horas por dia.

Essa lista vai incluir coisas de todos os tipos, desde “Retirar talão de cheques no Banco” até “Fazer levantamento bibliográfico para artigo sobre Marketing”. A primeira tarefa pode ser executada em 15 minutos (dependendo da proximidade do banco), a segunda pode não estar concluída ao cabo de quatro horas, tendo que permanecer na lista.

É com base nessa lista que você vai compor sua agenda diária, que vai incluir outras coisas como reuniões de rotina, reuniões especialmente convocadas, atendimento de clientes, etc.

C. Priorização

Antes de discutir a elaboração da agenda (semanal e diária), é preciso analisar um pouco mais a questão da priorização.

Estudos de administração têm sido virtualmente unânimes em apontar o que é freqüentemente chamado de Princípio de Pareto . Não importa a área ou a atividade, oitenta por cento dos retornos que você obtém provêm de vinte por cento de seus investimentos: oitenta por cento dos lucros de uma empresa provêm das vendas de vinte por cento de seus produtos, oitenta por cento dos votos de um candidato provêm de vinte por cento de locais, e assim por diante.

Esse princípio, também chamado de princípio dos 80/20, provavelmente se aplica a você. Oitenta por cento do sucesso que você obtém, ou virá a obter, depende, ou dependerá, de vinte por cento de suas atividades. Isso significa que se você se contentar com apenas oitenta por cento do sucesso que você aspira a alcançar, você poderá eliminar oitenta por cento das coisas que hoje faz!

O problema, porém, é saber identificar quais são os vinte por cento que respondem (ou responderão) por oitenta por cento de seu sucesso. Só sabendo fazer essa identificação é que você será capaz de dar prioridade àquilo que realmente merece prioridade.

A primeira coisa a manter constantemente em mente é a distinção entre o importante e o urgente.

Conceitualmente, todos nós sabemos distinguir o importante do urgente.

Para você poder identificar o que realmente é importante para você é preciso responder com clareza à seguinte pergunta: O que você realmente quer na vida ou da vida? Riqueza? Poder? Sabedoria e conhecimento? Tranqüilidade e paz de espírito com um mínimo de segurança financeira e profissional? O quê? Importantes serão aquelas coisas que contribuem para que você atinja seus objetivos maiores de vida. Urgentes serão aquelas coisas que precisam ser feitas, mesmo que você não veja como elas possam se encaixar em seus objetivos mais abrangentes.

Se, em relação a uma tarefa específica, você tem dúvidas se ela é importante para você, tente investigar o que de pior poderá lhe acontecer se você simplesmente deixar de fazê-la. Se a tarefa diz respeito ao seu serviço, pergunte: Você receberá uma repreensão de seu superior? Você perderá a oportunidade de ser promovido? Você será despedido? Caso a resposta seja negativa a todas essas perguntas, procure descobrir se o tempo que você dedicaria a essa tarefa poderia ser mais bem aproveitado fazendo uma outra tarefa que poderia lhe render maiores dividendos profissionais em termos de seus objetivos maiores.

Não se esqueça de que, em relação às coisas que você contempla fazer, há sempre quatro possibilidades:

  • Elas são importantes e urgentes
  • Elas são importantes e não-urgentes
  • Elas são não-importantes e urgentes
  • Elas são não-importantes e não-urgentes

Começando com os extremos, se a tarefa que você contempla fazer é importante e urgente, dê-lhe prioridade e agende-a imediatamente; se não é nem importante nem urgente, esqueça-a e passe para a seguinte.

A dificuldade maior está em lidar com coisas importantes mas não urgentes e urgentes mas não importantes. Minha sugestão é que você dedique tanto tempo quanto possível às tarefas importantes, para as quais você se sentirá naturalmente motivado (a despeito de sua não-urgência). Quanto às tarefas urgentes, mas que não são importantes em termos de seus objetivos maiores de vida, contemple as seguintes possibilidades:

Se você tem subordinados, investigue a possibilidade de delegá-las a algum deles. Cuidado, porém, para não delegar apenas “abacaxis”.

Se você não tem subordinados, procure descobrir algum colega que goste de realizá-las e seja competente para fazê-las bem (geralmente existe alguém!), e sugira ao seu superior que aquela pessoa talvez seja mais bem indicada para essas tarefas (explicando porquê).

Faça o exercício de investigar o que de pior poderá lhe acontecer se você simplesmente deixar de realizar a tarefa. Muitas coisas são tidas como urgentes mais por hábito ou tradição, não tendo nenhuma importância. Elimine-as, neste caso.

Se eliminá-las não for possível, procure substituí-las: use sua criatividade examinando qual a finalidade da tarefa e procurando encontrar outra maneira de atingir os mesmos objetivos sem realizar a tarefa específica em questão, e realizando outras que você considere mais importantes, por lhe trazerem mais dividendos e/ou satisfação.

Caso não haja como delegá-las, transferi-las, eliminá-las ou substituí-las, concentre-as todas em um só bloco de tempo e tente se livrar delas de uma vez. Procure tratar delas como se bebe um remédio amargo: de uma só vez, e de preferência em horário “não-nobre” (veja a seguir).

D. A Agenda (Semanal e Diária)

Uma vez que você tenha clareza sobre essas questões, não é difícil priorizar suas atividades com vistas ao seu agendamento.

Ao planejar sua agenda, procure pensar nela em termos de pelo menos uma semana, composta de blocos de horários diários. Use um formulário de Agenda Semanal que mostra toda uma semana.

Procure descobrir seu “horário nobre”: aquele em que você funciona melhor, está mais bem disposto, mais alerta, aquele, enfim, em que você é mais produtivo. Digamos que seja o período entre 8:30 e 11:30 da manhã. Tente bloquear esse tempo em sua Agenda Semanal para trabalhar sem interrupções nas atividades mais importantes para você (nos vinte por cento que lhe trarão oitenta por cento dos retornos).

Bloqueie em sua Agenda Semanal os horários de reuniões e compromissos rotineiros, procurando transferir para outro horário aqueles que regularmente vêm acontecendo dentro de seu horário nobre.

Use algumas das sugestões que serão dadas a seguir para conseguir blocos de três horas sem interrupções. Feche a porta de sua sala, diga à sua secretária que não pode atender ninguém (exceto seu chefe, sua mulher, etc.), ponha na porta uma nota dizendo que não pode ser perturbado, fuja para a biblioteca ou outro lugar sossegado (caso haja). Não atenda telefonemas (exceto, novamente, de seu chefe, sua mulher, etc.), autorizando sua secretária a dizer que você não está, ou está ocupadíssimo, ou então instalando uma secretária eletrônica com uma mensagem cortês. Se não conseguir transferir as reuniões e os compromissos marcados para seu horário nobre, investigue a possibilidade de mandar alguém em seu lugar ou de simplesmente não comparecer. E assim por diante.

Sua Agenda Semanal deve lhe permitir que planeje sua semana em grandes blocos de horário. Isso feito, comece a elaborar sua Agenda Diária, com base em sua Lista de Lembretes e usando a estrutura fornecida por sua Agenda Semanal.

Agende em primeiro lugar aquelas tarefas importantes e que envolvem um pequeno dispêndio de tempo. Faça todas elas e você já sentirá um pouco da satisfação que a realização do que é importante traz.

Quanto às tarefas importantes e que envolvem bastante tempo, procure quebrá-las em sub-tarefas e agende-as em blocos de uma ou duas horas, dentro de seu horário nobre. A divisão em sub-tarefas lhe dará uma perspectiva melhor do tempo que ser  necessário para a tarefa inteira e a realização de algumas sub-tarefas lhe dará o incentivo para enfrentar as outras.

Reserve um bloco de meia ou uma hora, fora de seu horário nobre, para lidar com a rotina: correspondência, telefonemas, recados, etc. Procure fazer isso no final dos períodos da manhã e da tarde, quando você está mais cansado e sua produtividade para tratar de coisas mais importantes não é tanta. Procure não se ocupar dessas coisas de rotina fora dos horários reservados para isso.

Se você precisa sair de seu local de trabalho para fazer uma visita ou alguma outra tarefa, reúna todas as coisas que você tem que fazer fora do local de trabalho e procure realizá-las enquanto você estiver fora. Organize seu trajeto de modo a permitir a realização do maior número de tarefas em uma só saída.

Seja realista, e agende seu dia com uma certa folga. Seja flexível, e não considere sua agenda como imutável. Ao final de cada dia, examine o dia seguinte, e faça os ajustes necessários. Não se esqueça de fazer isso no domingo, porque os compromissos de segunda-feira de manhã, muitas vezes vistos apenas na sexta-feira anterior, são freqüentemente esquecidos.

E. Delegação de Tarefas e Follow-Up

Delegar a tarefas é algo que toda pessoa em posição de direção, chefia, supervisão ou coordenação precisa aprender a fazer.

Algumas pessoas têm grandes dificuldades em delegar tarefas, tentando concentrar em si mesmas todas elas (geralmente por achar que a responsabilidade é sua). Além disso, delegar exige um investimento inicial de tempo para explicar ao subordinado as tarefas que ele deve realizar, para deixar claras as expectativas em relação ao trabalho, para treiná-lo e dar-lhe suporte, se for o caso. Muitas vezes uma tarefa delegada não é executada a contento não por falha do subordinado, mas sim da pessoa que delegou, que não explicou exatamente o que deveria ser feito, de que maneira, em que prazos, etc.

Delegar é uma arte. Como já mencionado, não se deve delegar apenas tarefas desagradáveis, mas também tarefas estimulantes e que tragam satisfação.

Seja qual for, porém, a natureza da tarefa delegada, tão difícil quanto delegar, ou talvez mais difícil ainda, é, tendo delegado, manter um esquema eficiente de acompanhamento ou follow-up das tarefas delegadas. Sem um follow-up efetivo torna-se muito difícil verificar se elas estão sendo executadas adequadamente.

A melhor sugestão que conheço para o problema é a seguinte. Numa gaveta de arquivo ao seu alcance, preferivelmente em sua própria mesa de trabalho, coloque 43 pastas. Como alternativa use duas pastas sanfona, uma de 31 e uma de 12 divisões. Identifique as pastas ou as divisões com os números 1 a 31 (para os dias do mês) e com os nomes dos doze meses. As pastas ou as divisões com os números dos dias serão usadas para follow-ups do mês em curso, as pastas ou divisões com os nomes dos meses para follow-ups dos meses subseqüentes.

Isso feito, toda vez que você delegar uma tarefa a alguém, registre numa folha de memorando (você pode até fazer uma folha padrão e xerocopiar ou duplicar) a tarefa, a pessoa, e a data em que você quer fazer um acompanhamento ou para a qual você solicitou retorno. Arquive essa folha na pasta ou divisão do dia correspondente a essa data, se é no mês em curso, ou na pasta ou divisão do mês correspondente a essa data, se é em mês subseqüente.

No final de cada dia você verifica a pasta do dia seguinte, e caso haja alguma ação a tomar (telefonema, reunião, etc.), agende-a para o dia seguinte. No último dia do mês, pegue a pasta do mês seguinte e separe o seu material, arquivando-o nas pastas dos dias do mês.

Desta forma você poder  se manter sempre em dia sobre o andamento das tarefas que delegou.

F. Eliminação de Tarefas

Por mais que você racionalize suas atividades e delegue tarefas, será sempre necessário reduzir o número de coisas que você faz, eliminando tarefas. Elimine, primeiro, aquelas que não são nem importantes nem urgentes; depois, na medida do possível, as que parecem urgentes mas não são importantes. É incrível o número de coisas que fazemos simplesmente por hábito, sem jamais questioná-las.

2. Para o Excesso de Papéis

Muitas pessoas têm um apego muito grande aos seus papéis. Colecionam todo e qualquer papel que lhe caia sobre a mesa. Pegam cópia de tudo (as vezes mais de uma cópia) e guardam tudo, com a idéia de que aquilo um dia poder  ser útil.

Se você é assim, vai precisar se reeducar drasticamente. Aqui vão três princípios que podem ajudá-lo.

Não guarde cópia de nenhum papel que você possa localizar facilmente na biblioteca ou nos arquivos gerais da empresa. Se um dia você realmente precisar do papel, saberá onde encontrá-lo.

Só guarde aquilo que não estará disponível facilmente em outro local e que você tenha certeza de que poderá precisar. Se tiver a menor dúvida quanto à utilidade, jogue fora.

Examine, uma vez por mês, os papéis que você guardou fora de arquivo e jogue fora os que já caducaram ou aqueles que você entrementes concluiu que não vai usar.

A. Sistema de Arquivos de Acordo com a Lista Mestre

Os outros papéis, que são importantes para seus projetos, devem ser arquivados em pastas dedicadas a cada um dos itens constantes de sua Lista Mestre, que deverão ser mantidas tão à mão quanto possível.

Quando você receber ou ler alguma coisa que é relevante a esses projetos, arquive imediatamente na pasta correspondente: não deixe sobre a mesa. Quando você se lembrar de algo relativo a esses projetos, faça uma anotação e a arquive na pasta correspondente.

B. Correspondência

Falemos, em primeiro lugar, sobre a correspondência recebida.

Todos os dias, ao examinar sua correspondência no horário especialmente dedicado a isso, compenetre-se do princípio de que cada item deverá ter um destino, nada devendo, em princípio, ser colocado em cima da mesa para decisão posterior.

Se o item não lhe interessa, jogue-o fora ou mande-o para alguém a quem realmente seja de interesse, com clara indicação de que a pessoa pode jogar o material fora se não o desejar (caso contrário ela poderá devolvê-lo).

Se o item se refere a alguma coisa que deve ser providenciada por um subordinado, remeta-o a ele e faça uma nota para follow-up, caso necessário.

Se o item se refere a um dos projetos de sua Lista Mestre, e não exige ação imediata, arquive-o na pasta correspondente.

Se o item se refere a um projeto já concluído, arquive-o na pasta respectiva, que deve estar, se possível, num arquivo morto, fora de sua sala.

Se o item exige uma resposta fácil e curta, elabore-a e despache-a imediatamente.

Em última instância, caso não consiga realmente tomar uma decisão a respeito do item de correspondência, coloque-o na pasta de correspondência do dia seguinte. Mas cuidado: nunca deixe um item na pasta de correspondência por mais de três dias. O ideal é limpá-la diariamente.

Quanto à correspondência expedida, seja sucinto na correspondência interna, usando tanto quanto possível cartas-padrão, reservando cartas mais bem elaboradas (o que não quer dizer longas) para destinatários e assuntos que assim o exigirem. Mesmo no caso de uma correspondência externa, se ela se destina apenas a pedir informações sobre um produto, pode ter certeza de que a carta deve ser  atendida, mesmo que seja padrão e não atinja os melhores níveis de qualidade gramatical e estilística.

Procure arquivar toda a correspondência expedida em duas cópias: uma ordenada seqüencialmente pela data da correspondência e outra na pasta do projeto a que se refere ou em alguma outra pasta. Dependendo de sua situação de trabalho, você pode optar por abrir pastas para seus superiores, para cada um de seus funcionários, para cada um dos principais departamentos da empresa, etc., para ali guardar (inter alia) a segunda cópia da correspondência interna relativa a eles expedida por você.

C. Relatórios

É incrível o número de relatórios (gerados interna ou externamente) que aparecem em uma companhia de porte médio para cima. A maior parte deles não merece ser lido. Infelizmente, para que saibamos se o relatório merece ou não ser lido geralmente temos que lê-lo, ou pelo menos folheá-lo.

Poupe tempo lendo o índice, ou lendo a introdução e conclusão. Se não encontrar material de interesse, economize o tempo que seria dedicado a uma leitura detida.

Uma solução saudável para o problema é o chamado Sumário Executivo, que muitas empresas exigem seja juntado aos relatórios, que nada mais é do que um resumo objetivo, de no máximo duas páginas, do conteúdo do relatório. Lendo o sumário, já temos uma idéia razoavelmente clara se devemos ou não investir mais tempo na leitura.

Quando você concluir que determinados relatórios que lhe são enviados de rotina não lhe interessam, peça para ser tirado da lista de pessoas a quem o relatório é enviado. Isso poupa tempo e espaço em sua estante ou em seu cesto de lixo e ajuda a outra pessoa a economizar recursos.

D. Leituras

Dependendo da sua área de atuação você poderá ter uma quantidade razoável de leituras técnicas (e, talvez, até não-técnicas) a fazer. Se você tem uma especialização técnica (digamos que seja engenheiro ou analista de sistemas) mas está atuando em, digamos, marketing ou vendas, você poder  ter uma quantidade ainda maior de leituras, pois provavelmente desejará se manter mais ou menos atualizado quanto aos principais desenvolvimentos em sua área de origem e na área em que está atuando. Não é difícil encontrar pessoas que se sentem obrigadas a ler mais de dez revistas técnicas ou profissionais por mês.

Nesta área é preciso tomar uma série de decisões por vezes muito difíceis.

Em primeiro lugar, é preciso limitar a quantidade de jornais, revistas e periódicos que você lê. Limite-se às revistas técnicas e profissionais mais importantes e essenciais à sua tarefa. Elimine, tanto quanto possível, aquelas leituras que muita gente faz apenas para verificar se há ali alguma coisa interessante (como, por exemplo, no caso de jornais, mesmo jornais mais técnicos, como a Gazeta Mercantil). A menos que seu serviço dependa de informações que se alteram dia a dia, um jornal é perfeitamente dispensável (exceto por curiosidade). Se a notícia é de importância, ela permanecerá em noticiário por mais de um dia e atrairá sua atenção. Se sua companhia é relativamente grande, considere a possibilidade de atribuir a algum funcionário que possa chegar mais cedo a tarefa de folhear os jornais, mandar recortar e xerocopiar as notícias que podem ser de interesse para a companhia, para serem distribuídas às pessoas que você achar que precisam lê-las.

Em segundo lugar, é preciso conter um pouco a curiosidade. O ser humano é naturalmente curioso. Muitas pessoas, ao ler uma revista, freqüentemente tentam fazê-lo de capa a capa, lendo índices, editoriais, colunas assinadas, artigos de fundo, seções especializadas, resenhas – muitos lendo até mesmo os anúncios (que podem ser úteis caso seu trabalho envolva decisões acerca de compras significativas). Alegam, para justificar seu comportamento, que é preciso se manter bem informado. Mas essa leitura de capa a capa é perda de tempo. A alegação de que é necessário manter-se bem informado precisa ser analisada com cuidado. É verdade que qualquer profissional hoje precisa estar bem informado. Mas há uma diferença entre estar bem informado e acumular dados acerca de fatos freqüentemente triviais e sem importância. Estar bem informado é ter conhecimento das informações necessárias para o bom desempenho de suas funções. E mais do que isso: é saber onde encontrar as informações desejadas, caso você não as tenha à mão. O restante freqüentemente pode ser dispensado. O problema é mais qualitativo do que quantitativo.

Em terceiro lugar, procure não dedicar um momento exclusivo em sua agenda ao exame de revistas técnicas. Essa é uma atividade que você pode realizar facilmente em situações não agendadas. Folheie suas revistas, por exemplo, enquanto estiver falando ao telefone ou quando no banheiro, ou então carregue-as consigo para folheá-las enquanto espera ser atendido em escritórios ou consultórios, ou enquanto aguarda em filas. Ou folheie-as enquanto viaja (caso não dirija você mesmo).

Em quarto lugar, encontre ou invente um sistema de assinalar os artigos que são de interesse para uma leitura cuidadosa mais tarde. Algumas pessoas marcam as páginas com clips, dobrando-as, ou inserindo um pedaço de papel. Outros arrancam os artigos ou os xerocopiam, para arquivá-los em pastas de leituras ou dedicadas a vários assuntos de interesse. Qualquer que seja o método, certifique-se de que você será capaz de localizar o artigo mais tarde, quando for lê-lo. Poucas coisas são tão exasperantes e produzem tanta perda de tempo como tentar lembrar, e procurar encontrar, onde lemos determinada coisa de que agora temos necessidade. Se você é daqueles que não têm coragem de arrancar as páginas dos artigos de suas revistas e não têm possibilidade de xerocopiar tudo que é de interesse, anote em um caderninho o assunto do artigo e a fonte, para referência posterior .

Em quinto lugar, é preciso ler os artigos de importância. Para tanto, o melhor momento é quando você está trabalhando em um projeto para o qual as informações contidas nos artigos são importantes. É nesse momento que eles provavelmente serão lidos com atenção e cuidado: quando você realmente precisa deles. Certifique-se, portanto, de que o sistema de arquivo que você montou permite localizar com rapidez e eficiência todos os artigos sobre determinado assunto que você marcou como interessantes, quando você tiver necessidade deles .

3. Para o Excesso de Interrupções

A solução clássica ao problema da interrupção é o bloqueio, geralmente através de uma secretária competente e enérgica. Essa solução, porém, está ficando difícil de implantar, seja porque as empresas adotam uma política de porta aberta e livre acesso, seja porque adotam sistemas de “pools” de secretárias, exceto para seus executivos mais graduados. Nessas condições, torna-se difícil organizar o acesso ao local de trabalho de modo a diminuir as interrupções.

Diante disso, as alternativas que restam a quem não tem secretária nem pode fechar a porta são as seguintes, que tratam tanto de evitar interrupções como de diminuir seus danos, quando elas ocorrem.

A. Como Evitar Interrupções

Para evitar interrupções, comunique cortesmente aos seus colegas e subordinados que você prefere trabalhar sem interrupções em determinados períodos e peça-lhes que, na medida do possível, respeitem sua privacidade. É preferível que o período seja fixo, todos os dias, durante o seu “horário nobre” (o período em que você é mais produtivo) — digamos das 8:30 às 11:30 h. Coloque-se à disposição deles em outros horários claramente anunciados.

Ainda para evitar interrupções, fuja para a biblioteca ou sala de reuniões, caso existam e estejam disponíveis, a fim de trabalhar com sossego. Ou trabalhe em casa, se sua empresa o permitir e sua casa for mais tranqüila do que seu ambiente de trabalho.

B. Como Lidar com Interrupções

Quando, a despeito de suas providências, você for interrompido durante seu horário de privacidade, ou mesmo em outra ocasião em que prefira não sê-lo, diga com franqueza a quem o interrompeu que você está fazendo algo importante e/ou urgente e que passará pela sala dele assim que terminar. Se não for nada importante, ele lhe dirá de pronto. Se for importante, você manterá maior controle sobre o momento de encerrar a conversa estando na sala da outra pessoa do que estando ela em sua sala.

4. Para o Excesso de Telefonemas

Novamente aqui a solução clássica é o bloqueio, através de uma secretária competente. Caso você não tenha uma secretária própria, fica mais difícil, mas alguma filtragem de seus telefonemas pelo PABX pode ser viável. Se não for, e você tiver que atender seus telefonemas, considere a possibilidade de instalar uma secretária eletrônica no seu telefone, caso isso não seja proibido pela empresa.

Além disso, há várias medidas que podem ser adotadas para diminuir o problema, tanto em termos de diminuir o número de telefonemas como em termos de diminuir seus danos.

A. Redução do Número de Telefonemas

Procure limitar o número de telefonemas, usando ao máximo outras alternativas, como Correio Eletrónico (caso exista esse sistema em sua empresa). Ao telefone, uma conversa puxa a outra e, quando menos se percebe, se foram 15 minutos.

B. Como Lidar com Telefonemas

Procure controlar a duração dos telefonemas, interrompendo os mais longos, se for preciso. Alegue que tem outro telefonema para atender, que seu chefe acaba de chamá-lo, ou, em última instância, desligue abruptamente, dando a impressão de que a linha caiu (a culpa vai cair na companhia telefônica, desde que você não faça isso mais de uma vez com a mesma pessoa…).

Quando você receber um telefonema que preferiria não ter atendido, diga que está extremamente ocupado e que chamará de volta assim que se desocupar. Quando você chama, você tem maior controle sobre a duração do telefonema.

Se você recebe um telefonema sobre um assunto que poderia ser resolvido por um subordinado, diga que ligará de volta, e mande seu subordinado ligar em seu nome. A outra pessoa receberá o recado de que deve tratar desse assunto com o subordinado, principalmente se for bem atendida.

Em situações extremas, em que não puder fugir de um telefonema longo e desinteressante, procure fazer mais alguma coisa ao mesmo tempo: ler uma revista, assinar papéis, atualizar sua agenda, cortar ou lixar as unhas, etc. Assim o tempo que você gastaria para fazer essas coisas compensa um pouco o tempo perdido com o telefonema desgastante.

5. Para o Excesso de Reuniões

Há problemas distintos relativos às reuniões de que você participa e às que você organiza. Falarei, primeiro, sobre as reuniões de que você participa, sem ser por elas responsável, e, depois, discutirei as reuniões que você é responsável por organizar.

Antes de prosseguir, porém, é preciso ressaltar que alguns autores encaram reuniões de uma forma muito mais positiva. Este é o caso, por exemplo, de George David Kieffer, em seu livro The Strategy of Meetings. Arriscaria a dizer que parte da razão pela qual as reuniões são vistas com bons olhos por Kieffer é que ele define como reunião qualquer ajuntamento de duas ou mais pessoas que seja orientado para negócios ou profissão . Assim sendo, se o presidente da empresa chama à sua sala o seu assistente, temos uma reunião. Se você vai até a mesa de sua secretária para discutir uma questão com ela, temos outra. E assim por diante. Neste texto estou considerando como reuniões apenas aquelas especialmente convocadas como tais, que possuem um coordenador, vários participantes, etc. e não todo e qualquer contato profissional ou de negócios.

Por outro lado, é oportuno ressaltar que Kieffer não nega que grande parte das reuniões é improdutiva. O que ele sugere é que cada um deve saber usar reuniões em proveito próprio, para levar adiante a sua “agenda pessoal” e promover os seus objetivos (que podem não coincidir com os da reunião). Dessa forma, mesmo uma reunião desastrosa, do ponto de vista global, pode vir a ser excelente, do seu ponto de vista pessoal, se, por exemplo, foi convocada por um seu concorrente a uma promoção interessante. Neste caso, sua agenda pessoal é contribuir (hábil e discretamente) para que a reunião não seja bem sucedida (tomando cuidado para que você não pareça estar boicotando a reunião ou o colega). O fracasso desse tipo de reunião é o seu sucesso pessoal.

Embora respeitando algumas das colocações de Kieffer, neste texto estou considerando reuniões apenas do ponto de vista dos objetivos declarados para os quais foram convocadas (supondo que esses objetivos tenham sido explicitados, coisa que freqüentemente não acontece). Embora reuniões possam, em muitos casos, tornar-se excelentes palcos em que você pode promover seus objetivos pessoais, não me parece que isso seja sempre o caso, ou que apenas esse fato possa justificá-las.

A. Redução do Número de Reuniões

É incrível o número de reuniões de que participamos sem que delas retiremos qualquer proveito .

  • Às vezes somos convocados para uma reunião (freqüentemente de rotina) porque a pessoa que exercia nossa função anteriormente se interessava pelo assunto (em nível pessoal e não institucional) e era chamada a participar. Ela saiu, e continuamos a participar, sem saber direito porquê.
  • Outras vezes fomos nós que mudamos de função e, no entanto, continuamos a participar de reuniões que se relacionam com nossa função anterior, meramente por hábito ou rotina.
  • Às vezes participamos de reuniões simplesmente porque achamos que é preciso estar informado sobre o que se passa na empresa.

Se você se enquadra em algum desses casos, pode ter certeza de que está usando mal o seu tempo. Há várias maneiras de saber o que se passa em reuniões sem delas participar (pedindo para receber as atas ou minutas, por exemplo: em cinco minutos você lê o que ficou duas horas sendo discutido). Além disso, não é preciso ressaltar que poucas coisas são realmente decididas em reuniões. Estas são freqüentemente usadas (na melhor das hipóteses) para explorar ou testar idéias e para “brainstorming”, ou (na pior das hipóteses) para ratificar decisões já tomadas e dar uma sensação aos participantes da reunião de que eles estiveram envolvidos no processo decisório.

Reduza o mais possível o número de reuniões de que você participa e só participe daquelas que realmente forem importantes. Se não for possível eliminar sua participação em uma reunião que você considera irrelevante, considere mandar algum subordinado em seu lugar, chegar atrasado e sair mais cedo, pedir para só ser chamado se for discutido algum assunto que exija a sua presença, e, eventualmente, faltar. A melhor alternativa, porém, é procurar convencer a pessoa que convoca a reunião de que sua presença é desnecessária – para a reunião e para você.

No caso de uma reunião que você considera irrelevante mas à qual é obrigado a comparecer, leve alguma coisa para fazer durante a reunião. Um relatório ou uma revista para folhear, papéis para assinar, etc. Seu cérebro consegue processar muito mais informação do que aquela que é veiculada em uma reunião típica. Se você não consegue evitar a participação em uma reunião irrelevante, participe dela “em piloto automático”, usando parte de sua atenção para fazer outras coisas.

B. Redução do Tempo e Aumento de Produtividade

No caso de reuniões convocadas por você, só convoque aquelas que forem estritamente necessárias. Examine a possibilidade de substituir a reunião por consultas telefônicas, teleconferência ou correio eletrônico. Se for realmente preciso realizar a reunião, tome os seguintes passos:

  • Antes da reunião, com antecedência mínima de 72 horas, prepare e distribua uma convocação que explicite claramente o(s) objetivo(s) da reunião, que aponte os resultados que você espera alcançar, que contenha o nome e telefone de todos os participantes e uma breve indicação do que cada um deles deve trazer à reunião, que informe o horário de início e de término da reunião, o local exato em que ela se realizar  (com instruções, caso necessário), e o número de seu telefone para confirmação e contato. É muito importante que a convocação esclareça a natureza da reunião: se é exploratória, se é para transmitir ou colher informações, se é deliberativa ou decisória, se é para referendar decisões já tomadas, etc. Escolha para participar apenas aquelas pessoas cuja presença é indispensável à sua condução.
  • No início da reunião, distribua uma pequena pauta com a ordem em que os assuntos serão discutidos (os mais importantes primeiro) e os blocos de tempo a serem dedicados a cada um deles. Os assuntos devem todos estar vinculados ao objetivo declarado na convocação. Especifique, oralmente ou por escrito, as regras do jogo (por exemplo: intervenções de não mais de três minutos, mais de uma intervenção da mesma pessoa sobre o mesmo assunto só com a concordância dos demais, processo para apresentação e votação de moções, se for o caso, etc.).
  • Durante a reunião, exerça sua coordenação com mão firme, fazendo uso, se necessário, de humor e/ou delicadeza para desarmar os participantes mais recalcitrantes. Mantenha o foco da discussão nos assuntos da pauta e nos objetivos da reunião, observe a alocação de tempo para cada assunto, e termine a reunião no horário previsto, mesmo que nem todos os itens tenham sido discutidos. Se você colocou os assuntos mais importantes primeiro, eles terão sido discutidos. Inclua os assuntos que não forem discutidos na pauta de uma outra reunião ou consulte os participantes por telefone sobre eles.
  • Após a reunião, distribua uma ata sucinta que inclua a data, local e nome dos participantes, e uma indicação dos resultados da reunião (por exemplo, as decisões tomadas, caso a reunião tenha sido decisória), junto com o nome da pessoa responsável pelo seu acompanhamento ou pela sua implementação. Nada de transcrever o teor das discussões realizadas ou o processo seguido para a tomada de decisão (exceto quando absolutamente essencial em casos controversos ou delicados), muito menos o que cada um disse durante a reunião.

6. Para a Tendência à Procrastinação

Aqui entramos a área dos empecilhos pessoais à administração do tempo. Para combater a tendência à procrastinação ou protelação, é necessário entender suas causas. Elas são todas de natureza psicológica.

A principal causa da procrastinação é a falta de vontade de fazer determinada coisa. Isto se dá, como vimos, quando e porque a tarefa a ser realizada é muito difícil, complexa, longa, ou desagradável. Em relação a esse tipo de tarefa, todos temos uma inclinação natural a seguir o conselho de Mark Twain: “Nunca deixe para amanhã o que você pode deixar para depois de amanhã” .

Recordêmo-nos de quando éramos crianças. Muitas crianças detestam espinafre e a maioria delas, quando obrigadas a comê-lo, deixam-no para o fim (na esperança, talvez, de que alguma coisa aconteça que as desobrigue da detestada tarefa). Algo semelhante acontece com executivos.

A forma de lidar com essa causa é enfrentar o problema com coragem e determinação: comer o espinafre primeiro, e então dedicar-se àquilo que nos causa maior prazer. Assim sendo, quando confrontados com uma tarefa desagradável ou difícil, mas necessária, devemos procurar realizá-la imediatamente e, se possível, de uma só vez (remédio ruim se toma de um só gole). Caso contrário, ela se torna vítima de nossa tendência à procrastinação.

A experiência tem mostrado que as pessoas de maior sucesso são as que tratam o mais rápido possível das tarefas desagradáveis ou particularmente difíceis. Fazer o resto, depois, torna-se um prazer.

Outra causa da procrastinação é o perfeccionismo. Os perfeccionistas, porque desejam fazer tudo com a maior perfeição, freqüentemente têm dificuldade para começar tarefas que não dominam bem ou para as quais não existam critérios explícitos de desempenho. Sentem-se obrigados a se capacitar primeiro, adquirindo as habilidades necessárias, ou então a buscar critérios de desempenho. Como dificilmente estão contentes com o domínio que possuem de qualquer habilidade, e como os critérios de desempenho em determinadas áreas são difíceis de definir, nunca começam a realizar determinadas tarefas, porque não se consideram prontos, ou nunca as concluem, porque nunca estão satisfeitos com o produto.

A melhor maneira de lidar com essa causa da procrastinação é reconhecer que num contexto gerencial não existem muitas tarefas que possam ser desempenhadas com perfeição, mesmo que existam critérios de desempenho bem definidos. Devemos também reconhecer que, a maior parte das vezes, o que fazemos poderia ser feito melhor, mas apenas com um maior investimento de tempo, que, talvez, não compense. Perfeccionistas precisam aprender a conviver com o fato de que freqüentemente é preciso fazer o que tem de ser feito, mesmo que em nível de qualidade aquém do desejado, porque a alternativa realista o mais das vezes não é um produto de melhor qualidade, mas, sim, nenhum produto.

Procure se compenetrar do fato de que nem todas as tarefas precisam ser feitas com o mesmo nível de qualidade, e, portanto, nem todas elas precisam receber quotas equivalentes de tempo. Um relatório interno, por exemplo, não precisa ser muito burilado. Se você se contentar com uma redução de 10% na qualidade do produto, e isso lhe poupar 40% do tempo que seria gasto no relatório, então o tempo poupado provavelmente poder  ser melhor utilizado em outra tarefa.

Por outro lado, se o relatório for dirigido à presidência da empresa, ou aos acionistas, ou ao público em geral, uma redução de 10% na qualidade e 40% no tempo de elaboração pode não ser aceitável. Considere tudo isso.

Uma terceira causa da procrastinação é a ilusão de que não fazemos a tarefa que estamos procrastinando por falta de tempo. Para manter a ilusão, procuramos nos manter ocupados – mas geralmente com trivialidades (coisas sem importância) ou com coisas que não têm muita urgência. Resolvemos, por exemplo, limpar nossa mesa, arrumar nosso arquivo ou armário, colocar em dia nossa contabilidade pessoal, etc. Assim, damos a nós mesmos a impressão de que estamos ocupadíssimos, para poder justificar a não realização da tarefa procrastinada, mascarando nossa procrastinação de falta de tempo.

A eliminação dessa causa envolve reconhecer que, por mais hábeis que sejamos em enganar-nos a nós mesmos, no fundo sabemos que o problema real não é falta de tempo. Essa tática, na verdade, nos causa stress, porque sabemos que estamos engajados em um teatro do qual somos atores e audiência, e do qual só poderemos sair perdendo.

Uma quarta causa de procrastinação pode ser detectada em jovens de talento que, aparentemente por acharem que sua competência é tão óbvia e visível, acreditam que nunca precisam demonstrá-la. Afirmam que poderiam ter realizado maravilhas, se apenas tivessem querido. O problema é que nunca querem, talvez por medo de fracassar e assim destruir a imagem de competência que têm procurado criar. Alimentam essa imagem com a alegação de que nunca fracassaram. O que não é dito é que nunca se engajaram em fazer nada.

O enfrentamento dessa causa da procrastinação envolve, novamente, honestidade com nós mesmos. No fundo, conhecemos nossos receios mais profundos. A única forma de vencê-los é enfrentando-os.

Na verdade, o temor do fracasso é, em geral, uma causa independente da procrastinação e da indecisão. Quem não tenta não falha – mas também não alcança sucesso .

Há, por fim, uma série de táticas que podem nos ajudar a derrotar a procrastinação.

A primeira delas é dividir um problema complexo e difícil em vários problemas menores, ou estágios, e atacar imediatamente os mais simples e fáceis. Mesmo a jornada mais longa começa sempre com o primeiro passo. A lembrança disso nos dará um certo sentido de realização, à medida que progredimos, que poder  nos ajudar a enfrentar o restante do problema.

A segunda é nos dar um prêmio ou uma recompensa pela conclusão de cada parcela ou estágio da tarefa. Mas devemos manter a honestidade: a recompensa deve vir depois da conclusão, não antes ou em vez dela.

Na verdade, a honestidade com nós mesmos é o fator chave na luta contra a procrastinação. Não devemos tentar mascarar a realidade: isso sai freqüentemente caro, em termos objetivos ou psicológicos.

7. Como o Computador Pode Ajudar

Há vários tipos de software que podem ser úteis ao objetivo maior de administrar o tempo. Entre eles os mais importantes são Gerenciadores de Informações Pessoais, Gerenciadores de Contatos e Recuperadores de Texto. É bom que se diga que nenhum desses instrumentos trata dos empecilhos pessoais à administração do tempo.

A. Gerenciadores de Informações Pessoais

Gerenciadores de Informações Pessoais, ou “Personal Information Managers” (PIMs), estão se tornando extremamente populares hoje em dia. Há vários deles no mercado, com recursos e características às vezes bem diferentes, mas um bom PIM deve ajudá-lo pelo menos nas seguintes tarefas:

a. Agendamento

A maior parte dos PIMs permite que você registre todos os seus compromissos (com hora de início e término), inclua anotações relativamente longas acerca dos eventos (como, por exemplo, uma pauta, lembretes, registros para lembrança futura, etc.), anote eventos cíclicos (como aniversários, feriados, pagamentos fixos a serem feitos mensalmente, outros compromissos recorrentes, etc.). Os PIMs lhe oferecem uma mapa do tempo disponível, detectam conflitos caso você tente marcar mais de um compromisso no mesmo horário (mais deixam que você marque, depois de alertá-lo), começam a notificá-lo do evento com n dias de antecedência, caso você assim o determine, ou fazem tocar um alarme n minutos antes, caso você o deseje. A maior parte deles o avisará dos compromissos que você teve (ou deveria ter tido) desde que ligou o computador pela última vez – algo que permitirá  que você pelo menos se justifique, no caso de ter se esquecido deles. Todos os PIMs permitem que você imprima a agenda de um dia, de uma semana, de um mês, em vários formatos.

b. Base de Dados de Endereços e Telefones

A maior parte dos PIMs também permite que você construa, de forma mais estruturada, uma base de dados de nomes, endereços e telefones, que poderá ser pesquisada a partir de qualquer campo ou sub-campo – na verdade, a partir de qualquer cadeia de caracteres. Eles também permitem que você anexe anotações várias a qualquer nome, que ficarão vinculadas a ele, podendo, porém, também ser recuperadas independentemente.

c. Registro de Telefonemas (Phone Logs)

Os PIMs podem ser usados também para “phone logs”, que lhe permitem fazer anotações sobre telefonemas recebidos ou feitos – geralmente até 64 mil caracteres por entrada. Cada log poderá indicar quem iniciou a chamada, o dia e a hora em que foi feita, quais os assuntos discutidos, se deverá haver um follow-up, e quando, etc. O log poderá ficar vinculado ao registro da pessoa com quem você conversou, de modo que, a qualquer momento, você poderá ter um registro completo de todos os contatos telefônicos realizados com aquela pessoa.

d. Notas Livres

Os PIMs são excelentes para registrar anotações livres, sobre qualquer assunto, desde “Telefonar para IBM” até registros detalhados sobre os números e senhas de suas contas bancárias e seus cartões de crédito. Você pode usar essa característica para anotar onde leu determinados artigos, onde viu determinadas coisas, ou seja, para registrar tudo aquilo que você normalmente anota em caderninhos, folhas soltas, envelopes usados, “Post Its”, etc. Os PIMs possuem recursos para que você seja lembrado das anotações que fez em determinadas datas, recorrentes ou não, permitindo até que você seja notificado com antecedência de n dias ou que um alarme venha a soar em determinada hora de um dado dia, trazendo a anotação em questão para a tela.

e. Tarefas e Projetos

Quase todos os PIMs também permitem que você faça um gerenciamento (não muito complexo) de tarefas e/ou projetos, dando-lhe a oportunidade de definir itens, como tarefas ou projetos, a serem desenvolvidos sob a sua responsabilidade ou de outra pessoa, com prazo de realização, com dada prioridade vis-à-vis outras tarefas e outros projetos, etc. Embora não sejam tão sofisticados como Gerenciadores de Projetos, os PIMs podem ser tudo o de que você precisa nessa  área.

f. Recuperação de Informações e Busca de Texto

A maior vantagem de fazer tudo isso através de um PIM está no fato de que as informações nele registradas podem ser recuperadas com extrema rapidez, visto que na maior parte deles todo o texto é indexado. A grande vantagem dessa característica para a organização do material que você leu ou tem que ler já foi assinalada em notas de rodapé. Mas há outros usos. Se você não se lembra se discutiu o orçamento numa reunião com Pedro ou num telefonema para Paulo, mas sabe que fez uma anotação sobre isso em seu PIM, uma busca da palavra “orçamento” lhe fornecerá na tela todos os contextos em que ela foi usada, seja em um item na agenda, em uma anotação sobre a pauta de uma reunião, no registro de um telefonema ou em uma nota livre em que você fez um lembrete para si próprio acerca do assunto.

É desnecessário frisar que sua lista mestre, sua lista de lembretes, sua agenda (semanal ou diária), etc., tudo isso pode estar computadorizado com a ajuda de um PIM.

B. Gerenciadores de Contatos

Gerenciadores de Contatos (ou “Contact Software”) são um tipo especializado de PIM dirigido a profissionais cujo trabalho se realiza quase que exclusivamente pelo telefone, como pessoal de telecompras, televendas, telemarketing, etc. Eles permitem que cada contato seja detalhadamente registrado e que todas as informações acerca de um determinado fornecedor ou cliente sejam agrupadas através de vários critérios.

C. Recuperadores de Texto

Recuperadores de Texto, ou “Text-Retrieval Software”, são programas especializados em localizar expressões, palavras ou cadeias de caracteres em arquivos gerados por gerenciadores de bases de dados, planilhas eletrônicas, processadores de texto, ou qualquer outro programa.

Suponhamos que você sabe que escreveu uma carta para a Encyclopaedia Britannica, mas não sabe em que arquivo de seu disco rígido está armazenada a carta. Um software de recuperação de texto varrerá todos os arquivos de seu disco (ou todos os arquivos com extensão .DOC) e localizará aqueles que contenham a palavra “Britannica”. Ou talvez você não se lembre do nome usado para gravar a planilha de custos. O software fará  uma busca em todos os arquivos de planilha e em um instante localizará aquelas que contêm a palavra “custo”.

Tendo em vista o fato de que às vezes gastamos um tempo incrível procurando coisas nas centenas de arquivos de um disco rígido, um software como este pode ajudar bastante na economia de tempo. Não o confunda com o PIM, que só localiza palavras ou cadeias de caracteres no material que foi introduzido nele. Os Recuperadores de Texto localizam qualquer palavra ou cadeia de caracteres em qualquer tipo de arquivo de texto.


(*) Este livreto foi escrito em 1992, para figurar como Introdução a uma agenda de uma empresa da qual eu era sócio. Em 1998 preparei um breve artigo, que é um resumo dele, chamado “Administrar o Tempo é Planejar a Vida”. O link aqui indicado leva para sua versão de 2021. Ele passou, de 1998 a 2021, por cinco revisões e cresceu um pouco. Ele originalmente tinha doze parágrafos. Hoje (20.1.2021) tem vinte.


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Last revised: 02 May 2004

Administrar o Tempo é Planejar a Vida, v.5 (2021)

1. Administrar o tempo não é uma questão de ficar contando os minutos dedicados a cada atividade em que nos envolvemos: é uma questão de definir prioridades. Provavelmente (numa sociedade complexa como a nossa), NUNCA vamos ter tempo para fazer tudo o que precisamos e desejamos fazer. Administrar o tempo é ter clareza sobre o que, para nós, é prioritário, dentre as várias coisas que precisamos e desejamos fazer, e tomar providências para que o prioritário seja feito – com plena consciência de que o resto provavelmente nunca vai ser feito (mas tudo bem: as coisas que compõem o resto, neste caso, não são prioritárias).

2. Dentre as coisas que colocamos na categoria de prioritárias, algumas estarão na lista porque são importantes, outras porque são urgentes. Assim, o prioritário é composto do importante e do urgente. É razoável supor que algo que não é NEM importante NEM urgente não estará na lista de prioridades de ninguém. E, também, que a lista de todo mundo conterá coisas que são IMPORTANTES ao lado de coisas que são URGENTES. Não resta a menor dúvida de que as coisas que são ao mesmo tempo importantes E urgentes devem ser feitas imediatamente, ou, pelo menos, na primeira oportunidade. Poucas pessoas questionarão isso. O problema surge com coisas que consideramos importantes, mas não urgentes, e com coisas que são urgentes, mas não importantes.

3. Digamos que você considere importante ficar mais tempo com sua família do que normalmente consegue ficar. Por outro lado, você tem de trabalhar x horas por dia – onde x é um número relativamente flexível, sobre o qual você tem algum nível de controle. Se, para você, trabalhar é mais importante do que ficar com a família, o problema está resolvido: você trabalha, mesmo que isso prejudique a convivência familiar. Mas e se o trabalho não é mais importante para você do que a convivência familiar? Nesse caso, provavelmente o trabalho é urgente, no sentido de que tem de ser feito, pois doutra forma você pode ser demitido (ou perder clientes, se for autônomo ou empresário) e, assim, vir a ter dificuldades para manter sua família (embora, sem trabalho, provavelmente vá poder passar bem mais tempo com ela…).

4. É nesse conflito entre o importante e o urgente que a maior parte de nós se perde, e por uma razão muito simples: algumas das tarefas que temos de realizar não são escolhidas por nós: elas nos são impostas. Isto significa que não somos donos de todo o nosso tempo. Quando aceitamos um emprego, por exemplo, estamos, na realidade, nos comprometendo a ceder a outrem parte do nosso tempo (e, também, o nosso esforço, a nossa capacidade, o nosso conhecimento, a nossa criatividade, etc.). Este é um problema real e de solução difícil: não temos, em relação ao nosso tempo, toda a autonomia que gostaríamos de ter.

5. Acontece, porém, que geralmente usamos mal o tempo que dedicamos ao trabalho (e, por isso, precisamos fazer hora extra ou trazemos trabalho para casa) e até mesmo o tempo que passamos em casa (que poderia ser considerado tempo de lazer). Usar mal o tempo QUER DIZER usar o nosso tempo para fazer o que, tanto no trabalho como em casa, não é nem importante nem urgente para nós, mas apenas algo que, ou sempre fizemos, pela força do hábito, ou, então, algo que nos foi solicitado e não tivemos coragem de dizer “NÃO”. Ou algo que nos foi imposto, por força das circunstâncias.

6. Alguém me disse, quando eu era criança, que a gente nunca deveria abandonar a leitura de um livro, por pior que ele fosse. Que bobagem! Mas até que descobri que isso era uma bobagem, desperdicei muito tempo terminando de ler coisa intragável e que de nada me serviu — por causa desse malfadado conselho! Por outro lado, uma vez me peguei dizendo a meus filhos que não poderia sair com eles (não me lembro exatamente para fazer o quê) num domingo de manhã porque precisava ler os jornais. Naquela época eu lia, religiosamente, a Folha e o Estadão (principais jornais de São Paulo) nos domingos de manhã – e, no domingo, esses jornais são enormes! Lia por puro hábito. Achava que um professor tem de se manter informado (mesmo sobre as coisas mais remotas e desinteressantes). Mas quando disse que “precisava” ler os jornais me dei conta de que realmente não precisava lê-los. Perguntei-me o que de pior poderia me acontecer se eu não os lesse… e NADA foi a resposta que, honestamente, tive de me dar. Se houver algo importante nos jornais provavelmente ficarei sabendo pelo noticiário da TV ou pela Internet.

7. Daí me perguntei: existe alguma coisa mais importante que eu possa fazer nas manhãs de domingo que ganhei? E a resposta foi simples: claro que sim, muitas coisas, como, por exemplo, sair com os filhos — COISAS PARA AS QUAIS EU ANTES NÃO TINHA TEMPO. Ganhei as horas dos jornais de domingo e, dali em diante, fui ganhando uma horinha aqui, outra ali, para outras coisas que eu realmente queria fazer há muito tempo e para as quais não encontrava tempo…

8. Outras vezes não é a força do hábito que nos atrapalha, mas nossa incapacidade de dizer “NÃO”. Recusar um pedido de alguém de quem você gosta, ou a quem admira, e que, portanto, não gostaria de desagradar, é uma das coisas mais difíceis da vida. (Estou pressupondo aqui que não se trata de seu chefe, que não pede, manda…). Mas nunca vamos conseguir administrar bem o nosso tempo, i.e., as nossas prioridades, se rotineiramente dermos aos outros (que não o nosso chefe no trabalho) o poder de determinar a nossa agenda. Admiro os que, mesmo diante de um pedido cativante de alguém a quem amam ou respeitam, são capazes de dizer: “Sinto muito, não posso. No momento estou dando atenção às minhas prioridades para o dia de hoje” – e as prioridades, no caso, podem até envolver ficar descansando, sem fazer mais nada, ou terminar de ler um romance cuja leitura nos é importante.

9. Administrar o tempo é ganhar autonomia sobre sua vida, não é ficar escravo do relógio. Administrar o tempo é uma batalha constante, que tem de ser ganha todo dia. Se você quer ter a autonomia de decidir passar mais tempo com a família, ou sem fazer nada, ou nas leituras há tempo postergadas, você tem de ganhar esse tempo deixando de fazer outras coisas que são menos importantes para você. Em última instância pode ser que você tenha até de, eventualmente, arrumar outro emprego ou outra ocupação – ou de reduzir suas horas de sono.

10. O tempo é distribuído entre as pessoas de forma bem mais democrática do que muitos dos outros recursos de que nós dependemos (como, por exemplo, a inteligência, a motivação, a capacidade de trabalho, a criatividade, o dinheiro). A menos que se trate do último dia de nossas vidas, todos os dias cada um de nós recebe exatamente 24 horas: nem mais, nem menos. O rico não recebe mais horas no dia do que o pobre, o professor universitário recebe o mesmo número de horas que o apedeuta; o executivo e o operário recebem quantidades de tempo exatamente idênticas a cada dia. Entretanto, apesar desse igualitarismo (que, convenhamos, não existe em relação à inteligência, à motivação, à capacidade de trabalho, à criatividade, ao dinheiro), uns conseguem realizar uma grande quantidade de coisas num dia e outros, ao final do mesmo dia, têm o sentimento de que o dia se esvaiu e não fizeram nada.

11. A diferença é que os primeiros percebem que o tempo, apesar de democraticamente distribuído, é um recurso altamente perecível. Uma hora perdida hoje (perdida no sentido de que não realizamos nela o que precisaríamos ou desejaríamos realizar) não é recuperada depois: é perdida para sempre. O mesmo vale, com muito maior razão, para um dia, uma semana, um mês, um ano. (Ou uma década: em economia fala-se frequentemente em “décadas perdidas”).

12. Há os que afirmam, hoje, que o recurso mais escasso na nossa sociedade não é dinheiro, não são matérias primas, não é energia, não é nem mesmo inteligência: é tempo. O tempo é o luxo do século 21. Mas tempo se ganha, ou se faz, fundamentalmente de três maneiras:

a) deixando de fazer as coisas que não nos são nem importantes nem urgentes;

b) delegando a terceiros, se possível e viável, as coisas que são urgentes mas não tão importantes;

c) concentrando nossa energia nas coisas que são importantes – ou, que sendo urgentes, não é possível ou viável delegar.

13. A questão da delegação aponta para o fato de que, apesar de o rico ter a mesma cota diária de tempo que o pobre, ele tem uma enorme vantagem sobre o pobre: ele pode, mediante pagamento, contratar o tempo de terceiros. O assistente, a secretária, o motorista do carro ou o piloto do helicóptero, o mordomo, os empregados domésticos, todos eles são contratados (em regra para cuidar das urgências) a fim de que os que os contratam possam ter mais tempo para dedicar ao importante (importante, naturalmente, para eles). Mas mesmo os mais pobres delegam – como, por exemplo, quando a mãe manda um dos filhos (hoje em dia, pode ser menina ou menino) limpar a casa ou o pai manda um dos filhos (de novo, menino ou menina) ir comprar alguma coisa que ele, o pai, precisa para fazer o seu trabalho.

14. Quem tem tempo não é quem não faz nada: é quem consegue administrar o tempo que tem de modo a poder fazer aquilo que precisa e que deseja fazer. Por outro lado, ser produtivo não é equivalente a estar ocupado. Há muitas pessoas que ficam ocupadas o dia inteiro exatamente porque são improdutivas – não sabem onde concentrar seus esforços e, por isso, ciscam aqui, ciscam ali, mas nunca produzem nada. Ser produtivo é, acima de tudo, saber administrar o tempo, ter sentido de direção, saber aonde se vai.

15. Administrar o tempo, em última instância, é planejar estrategicamente a vida. Para isso, precisamos de várias coisas:

a) Definir Objetivos: saber aonde queremos chegar: onde quero estar, o que quero ser, daqui a 5, 10, 25, 50 anos?

b) Estabelecer Estratégias: transformar objetivos em metas (com prazos e quantificações) e decidir, em linhas gerais, como as metas serão alcançadas.

c) Criar Planos Táticos: explorar as alternativas específicas disponíveis para chegar aonde queremos chegar, escolher fontes de financiamento (emprego, em geral, é fonte de financiamento), etc.

d) Executar: fazer o que tem de ser feito: agir.

e) Monitorar e Avaliar: verificar constantemente se estamos nos movendo na direção desejada e avaliar os meios que estamos usando, para aferir se estão nos levando mais perto de onde vamos querer estar ao final do processo; se não, façamos correção de rumo e/ou troquemos de meios (procuremos outro emprego, por exemplo).

16. Mas tudo começa com uma verdade tão simples que parece uma platitude: se você não sabe aonde quer chegar, provavelmente nunca vai chegar lá – por mais tempo que tenha e por melhores que sejam os recursos que use.

17. Quando o nosso tempo termina, acaba a nossa vida. Não há maneira de obter mais tempo. A morte é o fim absoluto do nosso tempo. Por isso, tempo é vida. Quem administra o tempo ganha vida, mesmo vivendo o mesmo tempo. Prolongar a duração de nossa vida não é algo sobre o qual tenhamos muito controle. Aumentar a nossa vida ganhando tempo dentro da duração que ela tem é algo, porém, que está ao alcance de todos. Basta um pouco de esforço e determinação.

18. Nossa morte pode chegar a qualquer hora, através de um acidente, um atentado, ou uma doença grave, uma epidemia descontrolada. Se nada disso acontecer, provavelmente viveremos mais de setenta ou mesmo de oitenta anos. Isso significa que, mesmo desconhecendo a hora de nossa morte, há um momento na vida, na maior parte dos casos antes de completarmos cinquenta anos (viver mais de cem anos é ainda exceção), em que já teremos vivido mais anos do que ainda vamos viver. Mesmo reconhecendo que a definição desse momento é imprecisa, é importante defini-lo – e é importante redefinir nossas prioridades para a metade mais curta de nossa vida.

19. Eventos que colocam nossa vida em sério risco, como um infarto ou um acidente grave, em geral nos fazem agudamente conscientes da precariedade da nossa vida: num minuto estamos vivos, no seguinte, talvez não. Mas é o fato de que a vida é altamente precária que imprime valor a ela e torna extremamente importante administrar o tempo (no sentido aqui visto). Se fôssemos imortais, se nada que fizéssemos ou deixássemos de fazer pudesse causar ou apressar o fim de nossa vida, ela não teria tanto valor (porque, então, não viveríamos sob a égide do tempo, mas, sim, sob a égide da eternidade).

20) Em última instância, é o fato de que algumas de nossas decisões podem encurtar nossa vida, apressar o seu fim, ou mesmo encerrá-la, que imprime valor a cada uma de nossas decisões e que torna a definição e hierarquização de prioridades, que é a essência da administração do tempo, tão importante. Precisamos viver cada dia de nossa vida como se fosse o último. Um dia isso será verdade e não apenas filosofia de vida.

NOTAS:

(*) Este artiguete é um resumo, feito em 1998, de um livreto, Administração do Tempo, que escrevi em 1992. O texto do resumo vem sendo levemente revisado periodicamente nos últimos vinte anos. Está hoje (12.1.2021) em sua versão 5. Nesse tempo já cresceu dos doze parágrafos originais para os vinte atuais. Espero parar por aqui, porque, caso contrário, o texto fica muito longo e muitos não vão terminar a sua leitura.

(**) Mas se você tiver mais tempo e interesse no assunto, veja também duas entrevistas que dei e que, apesar de inevitáveis sobreposições, complementam este artiguete: (1) “Administração do Tempo – Entrevista para o Site do Padre Marcelo Rossi”; (2) “Administração do Tempo – Entrevista para a Revista ‘É Domingo’ (de Sorocaba)”. [Nota acrescentada em 18.1.2021].

 Em São Paulo, 12 de Janeiro de 2021, com pequena revisão em 18.1.2021.

Boulos

Dois amigos, no Facebook, Carlos Barbosa e Isaias Laval, levantaram a questão de como é que se explica os dois milhões de votos de Boulos na capital de São Paulo. Creio que eles tocaram numa questão importante. Como é que se explica que um cara como Boulos possa receber mais de dois milhões de votos numa cidade como São Paulo? Se fosse no Rio de Janeiro, vá lá, mas aqui?

Vou dar o meu palpite. Acho que há, basicamente, pelo três explicações.

PRIMEIRA: O Lula tentou ser eleito presidente não sei quantas vezes e não conseguiu, até que virou o Lulinha Paz e Amor. Vestiu uma máscara, mudou até a aparência, e passou a ser visto como um cara legal, nada radical, fez uma carta aos brasileiros, etc. Elegeu-se duas vezes e conseguiu eleger a anta duas outras. O Boulos está tentando seguir a mesma trilha. Há anos não invade um prédio, emagreceu, perdeu a aparência balofa e os cabelos encaracolados, mudou a voz, passou uma nova imagem, e enganou um monte de gente, principalmente entre os mais ignorantes e os mal intencionados. Muitos votos petistas migraram para ele pq o candidato petista era uma nulidade.

SEGUNDA: O Boulos escolheu a Erundina como candidata a vice. Ela é uma esquerdista que tem um certo respeito entre a população, porque parece ter sido uma das poucas esquerdistas que esteve no governo e não roubou. Foi ela que fez de Paulo Freire Secretário Municipal da Educação. Erundina = honestidade e preocupação com a educação. O Boulos disse que iria resgatar as ideias e o legado de Paulo Freire, combatido pela direita… Herdou os votos de muita gente favorável a uma esquerda honesta e bem intencionada.

TERCEIRA: O Boulos concorria contra Covas, um cara do PSDB, partido que é odiado por uma boa fatia do povo paulista e paulistano, em especial agora, nessa encarnação embonecada do Ditadória. O Boulos herdou o voto anti-PSDB e anti-Dória, e, também, em especial o voto dos funcionários públicos revoltados com as sacanagens do Dória e o voto dos que estão revoltados com a gestão que o Dória imprimiu à pandemia do COVID.

Essas três razões explicariam os mais de 2 milhões de votos de Boulos. Parte deles é de quem viu nele um novo Lula. Parte é de quem viu nele uma Erundina-cum-Paulo Freire, a esquerda honesta e bem intencionada, que se opõe à direita. Parte é de quem viu nele o Anti-PSDB, o Anti-Dória, a revolta contra as restrições do COVID.

Tenho comigo que o Boulos não segura essas três imagens juntas por muito tempo. Ele é grosso e explosivo, não conseguirá manter o bom-mocismo, o apoio da Erundina ele perde logo, e vão surgir outros anti-PSDBistas e Anti-Dórias e a epidemia pode deixar de ser uma obsessão.

Mas mesmo assim, é preocupante. A esquerda (especialmente na mídia) está tentando fazer o Boulos parecer uma coisa nova, uma lufada (malufada?) de ar refrescante (quem sabe até meio fresco: beijar o Lula? só ele!).

Precisamos tentar impedir que isso cole como, parcialmente, aparentemente colou nesta eleição.

Em Salto, 1 de Dezembro de 2020.