A Escola e a Liberdade

Este artigo meu dá continuidade a (pelo menos) quatro outros artigos meus, que publiquei neste mesmo blog, Liberal Space:

O mais recente é “A Controvérsia Acerca do ‘Escola Sem Partido’ Continua: PL 867/2015“, publicado em 14/5/2018, neste endereço: https://liberal.space/2018/05/14/a-controversia-acerca-do-escola-sem-partido-continua/.

Antes, do anterior, publiquei, “Doutrinação e Educação: A Esquerda Pretende Argumentar que Doutrinar não Passa de um Jeito ‘Crítico’ de Educar“, no dia 28/5/2016, no endereço: https://liberal.space/2016/05/28/doutrinacao-e-educacao-a-esquerda-pretende-argumentar-que-doutrinar-nao-passa-de-um-jeito-critico-de-educar/.

Antes do anterior, publiquei ainda “‘Educação Sem Doutrinação’ e ‘Escolas Sem Partido’“, que foi publicado em 10/4/2010, já há mais de oito anos, neste endereço: https://liberal.space/2010/04/10/educacao-sem-doutrinacao-e-escolas-sem-partido/.

Por fim, o mais antigo dos artigos, “Dogmatismo e Doutrinação“, foi publicado em 3/4/2009, há quase dez anos, no endereço https://liberal.space/2009/04/03/dogmatismo-e-doutrinacao/.

Este é, portanto, o quinto artigo de uma série que começou há quase dez anos neste blog que defende o Liberalismo Clássico e uma educação que o leve a sério, combatendo uma educação que foi moldada para impedi-lo e para promover uma educação de viés socialista, quando não comunistizante.

o O o

Críticos da Proposta “Escola Sem Partido” (ESP), alguns deles encastelados até mesmo no Supremo Tribunal Federal (STF), acusam a proposta de trazer a censura para dentro da escola, pois essa proposta impediria os professores de exercer a sua “liberdade de ensinar”, violando, por conseguinte, a vetusta “liberdade de cátedra” (que nem sei se, quando foi criada, foi com a intenção de que se aplicasse até mesmo à Escola Básica – à qual vou me limitar neste artigo).

Antes de discutir essa questão – se o ESP viola a liberdade de ensinar no professor, e, portanto, propõe a implantação de censura em sala de aula – eu quero discutir uma outra questão, que está contida nas duas perguntas a seguir, que formam uma disjunção:

  • A escola (básica) existe para que professores possam ensinar?

OU

  • A escola (básica) existe para que crianças, adolescentes e jovens possam aprender?

Assumindo que haja uma liberdade para proteger dentro da escola, pergunto eu: De quem é a liberdade que é preciso proteger na escola?

  • A liberdade de ensinar do ensinante?

ou

  • A liberdade de aprender do aprendente?

A mim não resta a menor dúvida de que:

  • Há uma liberdade que é mister proteger dentro da escola;
  • A liberdade a ser protegida dentro da escola é a liberdade de aprender do aprendente.

Vou procurar demonstrar essa tese – a de que há uma liberdade que é mister proteger dentro da escola, mas que essa liberdade é a liberdade de aprender do aprendente, não a putativa liberdade de ensinar do ensinante – enunciando e discutindo algumas premissas básicas cuja verdade me parece auto-evidente (mas, mesmo assim, existem bons argumentos que as impõem) :

  1. Se a escola tem alguma função (além de custodiar crianças, adolescentes e jovens) é contribuir para a educação de quem a frequenta – que, no caso da educação básica, são crianças, adolescentes e jovens.
  2. A educação, no entanto, é algo que começa no nascimento de uma pessoa e só termina com sua morte – e, portanto, a escola participa apenas de uma pequena parte da educação de uma pessoa.
  3. A principal responsabilidade pela educação de uma criança é de seus pais, que a geraram ou adotaram, assumindo responsabilidade pela vida dela em todos os seus aspectos, entre os quais a sua educação, até que ela possa cuidar da própria vida de maneira autônoma e competente.
  4. As crianças, quando nascem, não são capazes de fazer virtualmente nada, exceto aquilo que seus instintos animais lhes permitem fazer: respirar, chorar, mamar, excretar resíduos alimentares, etc.
  5. Entre os instintos humanos há um extremamente importante, sem o qual as crianças não sobreviveriam para se tornar adultos autônomos e competentes, e, por conseguinte, livres: uma incrível capacidade de aprender.
  6. Essa capacidade de aprender, que é inata, e não precisa ser aprendida (sendo falacioso, portanto, que, para aprender, é preciso primeiro aprender a aprender) é a força motriz que torna possível a educação.
  7. Aprender, em seu sentido mais básico, não é, essencialmente, receber e assimilar informações e conhecimentos: é, no seu mais fundamental, tornar-se capaz de fazer aquilo que não se era capaz de fazer anteriormente.
  8. Assim, antes de ir para a escola, as crianças já começaram a se educar, em interação com o mundo e, em especial, com sua família.
  9. Ao serem colocadas na escola, as crianças, em sua grande maioria, já progrediram bastante em sua educação, já tendo dominado, em regra, as seguintes aprendências:
    • Já aprenderam a reconhecer padrões visuais e auditivos e a reconhecer a face e a voz da mãe, do pai, dos irmãos e de vários outros parentes;
    • já aprenderam, certamente, a engatinhar, a ficar de pé sozinhas, a andar, a pular, a correr;
    • já aprenderam, por descoberta, que alguns sons emitidos pelos seus próximos têm sentido, e já aprenderam a identificar o sentido de um bom número de palavras;
    • já aprenderam a balbuciar e, pouco tempo depois, em interação com outros humanos, e com o apoio e o incentivo deles, a falar, isto é, a dotar de sentido alguns dos sons emitidos pela sua boca;
    • já aprenderam, com um pouco mais de tempo, a cantar, e, muito provavelmente, se tornaram capazes de memorizar a melodia e a letra de várias canções infantis ou mesmo não-infantis, mas simples;
    • já aprenderam a brincar, sozinhas ou em companhia de outras crianças, assim se entretendo e se divertindo;
    • já aprenderam a ouvir histórias com atenção e a desenvolver preferências por umas histórias sobre outras;
    • já aprenderam a assistir, na tela, a desenhos animados e pequenos filmes feitos para crianças;
    • já se tornaram capazes de focar sua atenção em um brinquedo ou uma brincadeira, em uma história ou um desenho animado;
    • já desenvolveram interesses, desejos e preferências;
    • já desenvolveram, ou demonstram possuir, talentos e habilidades especiais para algumas coisas ou em algumas áreas;
  10. Já aprenderam, em muitos casos, a fazer muitas outras coisas, por emulação ou, neste caso, porque estas coisas lhes foram explicitamente ensinadas: algumas escovam os dentes pelo menos duas vezes por dia, algumas toman banho todos os dias, algumas dão graças antes de comer, algumas oram antes de ir dormir, algumas desenvolveram o hábito de frequentar uma igreja ou um clube social desde pequeninas, e lá possuem um círculo de amigos, etc.
  11. Assim, quando chegam à escola, as crianças já são seresinhos humanos (“ser-humaninhos”) até bem desenvolvidos: não são uma tabula rasa, ou uma folha de papel em branco, que agora os pais encarregam a escola de educar; não são uma massinha de modelar, que agora os pais entregam aos professores para que estes modelem; são pequenos seres humanos, já bem desenvolvidos, mas não ainda totalmente, que têm interesses, desejos e preferências, bem como potenciais, talentos (alguns já aflorados) e habilidades, seres humanos únicos e inconfundíveis, que estão aprendendo a ser – ser livres – e a exercer essa sua liberdade, a praticar a sua independência “em dependência” (ou seja, a ser independente sem negar sua interdependência), e a entender o que é responsabilidade…
  12. A quem recebe essa criança na escola, a professora, ou, cada vez mais, o professor, incumbe reconhecer que a criança já vem para escola com um itinerário de aprendizagem já formado, que é preciso respeitar, que ela tem um espaço de liberdade, que inclui o desejo e a vontade de aprender algumas coisas em preferência a outras, que inclui o desejo e a vontade de não aprender algumas coisas (que, talvez, a professor quisesse lhe ensinar), e que sua liberdade, inclusive de aprender, precisa ser plenamente respeitada; ela vem de um ambiente familiar em que crenças, valores e costumes são vivenciados, nos quais ela se encaixou, porque, afinal de contas, aquele ambiente é a sua família…
  13. A professora ou o professor tem o dever de ajudar a criança em sua aprendizagem e de facilitar a sua jornada em busca do que ela um dia irá ser… Muitas vezes a criança não sabe o que deseja se tornar, e é mister ajuda-la a descobrir / construir o seu projeto de vida. Nunca impor. Nunca obrigar. Nunca proibir. Nunca ensinar. Como disse Sócrates, o professor é uma parteira. Ele não concebe nada, não traz nenhuma concepção para dar à criança. É a criança que deve conceber – ideias, valores, projetos – e dá-los à luz. Depois de dá-los à luz é a criança que deve nutri-los, cuidar que se desenvolvam e se tornem realidade. É a liberdade do aprendente – criança, adolescente, jovem – e de sua agenda de aprendizagem que deve ser respeitada, por que é da vida dele que se trata.
  14. A professora ou o professor podem perguntar: e a minha liberdade de pensamento e de expressão? Ela vai ser censurada? Não. A escola não vai interferir com ela. A escola, como a instituição à qual aquela criança preciosa e única foi confiada pelos pais, vai, e com todo direito, impedir que a professora ou o professor interfira com a liberdade de aprender das crianças que foram trazidas de boa fé para a escola, na expectativa que a escola, através das professoras ou dos professores, não violasse a integridade e inviolabilidade de sua pessoa, de sua mente, que são, no mínimo, tão preciosas quanto a integridade e inviolabilidade do seu corpo (que todos reconhecem que não deve ser violado).
  15. É um princípio básico da Democracia Liberal que todos são igualmente livres, mas que a liberdade de qualquer um nunca é absoluta: ela vai até onde começa igual liberdade do outro. A liberdade da professora ou do professor, na escola e em sala de aula, encontra seu limite natural e inquestionável na liberdade do aluno. A liberdade de ensinar do professor é limitada pela liberdade de aprender do aluno, em função do qual a escola existe e o professor exerce a sua função, que é de ajudar o aluno a aprender, e não de inculcar em sua mente ideias, crenças, teorias, doutrinas, valores, posturas, atitudes, por mais caro que esse conjunto de lhe seja e por mais verdadeiro que lhe pareça.
  16. A liberdade de aprender do aluno na escola é parte da liberdade de ser, de vir a ser, de conviver, de perseguir seus sonhos (interesses, desejos, paixões). Há mais uma razão muito forte para que o professor respeite essa liberdade do aluno. O aluno da escola básica é um ser em formação, em regra bem mais novo do que o professor, já adulto, já formado, já de cabeça feita. Imaginar que esse ser adulto, formado e de cabeça feita, possa ter liberdade de se postar diante de uma criança, um adolescente, um jovem, que não é seu filho, e fazer a cabeça dela, ensinar-lhe o que deve crer, o que deve fazer, como deve viver, que valores deve adotar, é um absurdo: essa liberdade simplesmente não existe. Se o professor não tem o direito de fazer isso nem com um outro adulto, como ele, fora da escola, por que teria ele o direito de fazer isso com um ser ainda não plenamente formado, que é colocado, cativo, à sua frente, em relação ao qual ele, professor, está em posição de autoridade, que ele pode punir com ironias, sarcasmos e insinuações, para não dizer com notas, com envio para a diretoria, com detenção depois do fim da aula, com dever extra para casa, etc.?
  17. Fazer isso é doutrinar, não é educar. Catequisar ou doutrinar no contexto de uma igreja ou em reunião de um partido político, que uma pessoa, criança ou adulto, frequenta de livre e espontânea vontade ou em respeito à vontade de seus pais, até poderia parecer defensável, em comparação. Mas admitir que um adulto, um total estranho, com sabe-se lá que crenças, que valores, que costumes, que hábitos, investido de uma função de autoridade que lhe permite penalizar, punir, castigar, pôr o aluno fora da classe, manda-lo para a diretoria, recomendar a sua expulsão, possa dizer para um aluno ainda não adulto o que pensar e como pensar, possa tentar cativa-lo ou seduzi-lo com ideias que os pais do aluno consideram detestáveis, possam alicia-lo para fazer isso ou aquilo, se comportar desta ou daquela maneira, só porque ele, como professor, teria um direito inalienável de falar, ensinar, convencer, persuadir, condicionar, lavar o cérebro de uma criança que nem parente dele é… ISSO É TOTALMENTE INADMISSÍVEL.
  18. É contra esse estado de coisas que investe a proposta Escola Sem Partido. O ESP quer proteger a liberdade, da criança, de aprender o que ela, ou, dependendo da idade dela, os seus pais, acham que ela precisa, deve, ou deseja aprender. A escola existe por causa e em função do aluno, não do professor.
  19. Se a escola e os professores não querem respeitar a liberdade de aprender dos alunos, e preferem achar que a liberdade que é preciso defender é a deles, de ensinar, doutrinar, convencer, persuadir, condicionar… OS PAIS DEVEM TER O DIREITO DE TIRAR AS CRIANÇAS DA ESCOLA E EDUCA-LAS EM CASA EM ALGUM OUTRO LUGAR EM QUE ELAS POSSAM SER EDUCADAS COMO ELAS QUEREM OU, DEPENDENDO DE SUA IDADE, COMO SEUS PAIS PREFEREM. Mas até essa liberdade de tirar as crianças da escola para educa-las em casa o Supremo Tribunal Federal negou aos pais.
  20. Nos Estados Unidos os Amish não admitem que suas crianças sejam obrigadas a frequentar escolas do governo ou de quem quer que seja que não seja Amish. E lá o governo reconhece esse seu direito. Como reconhece o direito de Home Schoolinge até de Unschooling.
  21. No Brasil, país atrasado, as escolas e os professores acham que são donos das crianças, que podem fazer suas cabeças, mudar suas crenças, alterar suas lealdades, modificar seu comportamento, como eles acham que têm o direito de fazer. Lavam os cérebros dos alunos e estes ocupam as escolas para que possam continuar a ser escravos de seus professores. Até pomposos ministros da Suprema Corte se manifestam. Nem percebem as contradições em que caem. Acham que nas Universidades um bando de alunos intolerantes tem a liberdade de coagir os demais a aceita-los e a conviver com eles – mas negam que uma família tenha o direito de, por não concordar com o que se ensina e doutrina na escola, educar seus filhos em casa… punindo os pais se não enviarem seus filhos à prisão que a escola se tornou, ocupando cada vez mais anos de sua vida, cada vez mais dias do seu ano, cada vez mais horas do seu dia, a ponto de se tornar uma “escola de tempo integral”.

É isso.

Em São Paulo, entre 1 e 10 de Novembro de 2018

NOTA de 11/5/2018

Como salientado no início deste artigo, ele é parte de uma série de cinco artigos que começou há quase dez anos neste blog Liberal Space e que defende o Liberalismo Clássico e uma Educação Liberal, que leve o Liberalismo Clássico a sério, combatendo uma educação que não merece o nome, pois é mais doutrinação do que educação, que foi moldada para combater o Liberalismo Clássico e para promover uma educação de viés socialista, quando não comunistizante.

São estes os cinco artigos:

O mais antigo dos artigos, “Dogmatismo e Doutrinação“, foi publicado em 3/4/2009, há quase dez anos, no endereço https://liberal.space/2009/04/03/dogmatismo-e-doutrinacao/.

Em seguida, “‘Educação Sem Doutrinação’ e ‘Escolas Sem Partido’“, que foi publicado em 10/4/2010, no endereço https://liberal.space/2010/04/10/educacao-sem-doutrinacao-e-escolas-sem-partido/.

O terceiro artigo, “Doutrinação e Educação: A Esquerda Pretende Argumentar que Doutrinar não Passa de um Jeito ‘Crítico’ de Educar“, que foi publicado em 28/5/2016, no endereço https://liberal.space/2016/05/28/doutrinacao-e-educacao-a-esquerda-pretende-argumentar-que-doutrinar-nao-passa-de-um-jeito-critico-de-educar/.

O quarto artigo, “A Controvérsia Acerca do ‘Escola Sem Partido’ Continua: PL 867/2015“, publicado em 14/5/2018, no endereço https://liberal.space/2018/05/14/a-controversia-acerca-do-escola-sem-partido-continua/.

Por fim, o quinto artigo, “A Escola e a Liberdade”, publicado em 10/11/2018, no endereço https://liberal.space/2018/11/10/a-escola-e-a-liberdade/.

Eduardo CHAVES

Israel e Jerusalém

Conteúdo

    1. Introdução. 2
    2. Israel, o Judaísmo e o Cristianismo. 2
    3. A História dos Judeus: Dois Primeiros Milênios 4
    4. A História dos Judeus: Os Dois Milênios mais Recentes. 5
    5. Destaque para os Últimos 120 Anos. 7
    6. 1897-1917: O Sionismo e a Palestina sob Controle Otomano. 7
    7. 1917-1937: A Palestina sob Controle Britânico. 8
    8. 1937-1947: A Palestina Dividida. 9
    9. 1947-1967: A ONU, o Estado de Israel e o Estado da Palestina. 10
    10. A Criação do Novo Estado de Israel: 1948. 10
    11. A Proclamação e a Guerra de Independência de Israel: 1948-1949. 12
    12. Jerusalém Declarada a Capital de Israel: 13/1/1949. 13
    13. A Guerra dos Seis Dias: Junho de 1967. 13
    14. Jerusalém é Reunificada e a Sequência da Guerra. 14
    15. 1967-1987: Israel Basicamente Toma Controle da Palestina 14
    16. A Guerra de Yom Kippur: 6 a 24/10/1973. 15
    17. O Acordo de Camp David: 18/9/1978. 15
    18. 1987-2017: A Era do Terrorismo e dos Levantes (Intifadas) 15
    19. A Invasão do Líbano e as Intifadas: 1982-presente. 15
    20. Conclusão desta Subseção. 15
    21. Conclusão. 15
    22. O Reconhecimento de Jerusalém como a Capital 16
    23. Estados Unidos 16
    24. Guatemala. 16
    25. Brasil (Prometido) 16
    26. Bibliografia 18

 

o O o

1. Introdução

Uma primeira versão deste artigo foi publicada como post no Facebook, em 7 de Dezembro de 2017. Revisado, e, portanto, em uma segunda versão, o que era um post se tornou, no dia seguinte, 8 de Dezembro de 2017, um artigo no meu blog História da Igreja (basta clicar no título do blog para aceder a essa versão). Essa segunda versão teve o título de “Israel e Jerusalém, sua Capital (em tempos modernos, desde 1949)”.

Tanto a primeira como a segunda versão do artigo foram bastante bem recebidas. Por isso, resolvi deixa-las como estavam e escrever uma terceira versão do artigo, com um título diferente (apenas “Israel e Jerusalém”), bem mais material, e uma tentativa de ordenar melhor a disposição e a apresentação do material – que, nas duas primeiras versões do artigo, não foi dividido em seções e subseções, ficando como um único bloco de texto, só ordenado por parágrafos. Incluí, na terceira versão, uma seção inicial, preambular, para justificar a inclusão do artigo em um blog de História da Igreja, que é onde ele continuou a ser publicado, menos de duas semanas depois, em 20 de Dezembro de 2017.

Esta quarta versão, que aqui apresento, quase um ano depois, não será mais publicada no blog de História da Igreja, mas, sim, no blog que eu hoje dedico primariamente a questões políticas: Liberal Space. Isto porque acrescento uma seção ao final, na forma de adendo, em que discuto basicamente a mesma questão levantada no final da terceira versão: a decisão de Donald Trump de mudar a sede da Embaixada Americana em Israel de Telavive para Jerusalém – algo que cumpriu ao longo deste ano. Nesta quarta versão, é a decisão anunciada pelo presidente-eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, de fazer a mesma coisa com a Embaixada Brasileira, que é discutida. Até agora, além dos Estados Unidos, apenas a Guatemala teve coragem de fazer a mudança da Embaixada. Se Bolsonaro cumprir com presteza, depois de empossado, o que prometeu, o Brasil será o terceiro país a colocar a Embaixada em Jerusalém.

Mantenho a Nota Preambular da versão anterior, com título diferente, e agora como Seção e, a seguir, para preservar a natureza mais abrangente do artigo.

2. Israel, o Judaísmo e o Cristianismo

Por que Israel e sua capital afetam tanto os países predominantemente cristãos, como é o caso dos Estados Unidos, da Guatemala e do Brasil, os três no Continente Americano, um em cada uma das Américas, levando seus primeiros mandatários a tomar medidas que são do interesse de Israel, o país, e do Cristianismo, a religião (pelo menos em alguns de seus ramos), mesmo às custas de muitas críticas e ameaças, estas dos países árabes, aquelas da esquerda política?

É isso que se discutirá nesta seção, realçando os fatos a seguir descritos.

Primeiro, o fato de que o Cristianismo começou como uma seita judaica. Jesus de Nazaré, que posteriormente veio a ser chamado de Jesus Cristo pelos cristãos, nasceu em território judaico na Palestina (na época controlada pelo Império Romano). Alguns historiadores consideram que Jesus nasceu em Nazaré, não em Belém, como afirma o Novo Testamento cristão, mas que a tradição, posteriormente, floreou a história para fazer constar que ele havia nascido em Belém, cidade considerada como mais importante, por ser conhecida como a Cidade de Davi, o segundo e mais famoso rei de Israel. Maria e José, pais de Jesus, também eram judeus. O relato do nascimento de Jesus no Novo Testamento se esforça, em algumas manipulações genealógicas, para fazer com que Maria, a mãe de Jesus, seja de Belém. A genealogia dos judeus era, em regra, elaborada pela linhagem masculina da pessoa. No caso de Jesus, porém, Mateus elabora a genealogia de Jesus pela linhagem materna, por causa da crença de que ele foi concebido em Maria pelo Espírito Santo de Deus, sem a participação de José (muito embora em outros lugares os autores do Novo Testamento não hesitem nem um pouco em se referir a José como seu pai, aparentemente desconhecendo ou deliberadamente deixando de lado a história do nascimento virginal de Jesus. No mais, Jesus cresceu e foi educado como judeu (embora haja pouca coisa sobre sua infância e juventude no Novo Testamento, exceto pelo relato, aparentemente visto como miraculoso, de que ele, quando adolescente, aos doze anos, já discutiu com os doutores da Lei, com grande conhecimento de causa, a Lei Judaica (chamada de Torah), quando de sua primeira visita ao Templo de Jerusalém. Quando resolveu a se tornar um mestre e pregador itinerante, Jesus, ainda segundo o relato do Novo Testamento, se fez batizar por João Batista, no Rio Jordão, que fica no território que então pertencia, e hoje de novo pertence, a Israel. Jesus escolheu para si doze discípulos que eram, todos eles, sem exceção, judeus. Em seu ministério, frequentou o Templo de Jerusalém (de onde expulsou os mercadores) e ensinou nas sinagogas. Sua mensagem e sua atitude foram malvistas pelas lideranças religiosas judaicas e, segundo tudo indica, estas acabaram se tornando responsáveis pela sua morte, por crucificação. Consta do Novo Testamento que, na cruz em que Jesus foi pregado, havia uma inscrição que, com ironia ou não, o designava como Jesus Nazareno Rei dos Judeus (frase cujas iniciais em Latim formam o acrônimo INRI – Iesvs Nazarenvs Rex Ivdæorvm. A gênese do Cristianismo se situa, portanto, claramente dentro do Judaísmo e a geografia de Israel está inextricavelmente ligada aos eventos fundantes do Cristianismo. Por isso, Israel, chamada de Terra Santa, é o lugar preferido de peregrinação ou turismo religioso dos cristãos. As Cruzadas, na Idade Média, foram empreendidas com o objetivo declarado de reconquistar para os cristãos a Palestina, que havia caído em mãos islâmicas.

Segundo, depois da morte de Jesus os onze discípulos (doze menos Judas, que foi quem o traiu, segundo o Novo Testamento, começaram a pregar, inicialmente apenas para os judeus, a mensagem de que ele havia ressuscitado, ascendido aos céus, e que voltaria, para julgar os vivos e os mortos. A experiência do Pentecostes, em que Pedro discursou, foi, segundo o relato do livro de Atos, totalmente dirigida aos judeus, que, não contentes com haverem conseguido obter das autoridades romanas (Pilatos, no caso) a sentença de morte para Jesus, continuaram a perseguir os seus seguidores. O livro de atos relata, em seus capítulos iniciais, que um desses seguidores, Estêvão, foi apedrejado por um grupo de judeus que tinha Saulo de Tarso, judeu proeminente, à frente – o mesmo que, depois, se converteu no caminho de Damasco, onde ia perseguir mais cristãos. Na ocasião de sua conversão, Saulo teve seu nome alterado para Paulo. Vários historiadores do Cristianismo, entre eles o maior de todos, Adolf von Harnack, consideram Paulo o verdadeiro fundador da religião cristã entre aqueles que não eram judeus — os chamados gentios.

Terceiro, parece provável, com base no relato do Novo Testamento, que, se Paulo, uma vez convertido, não tivesse decidido levar aos gentios (não-judeus) a mensagem acerca do significado da morte e da ressurreição de Jesus, o Cristianismo teria continuado uma seita judaica, podendo ou não ter desaparecido ao longo do primeiro ou do segundo século de nossa era. Embora especulativa, essa hipótese contrafatual não é de todo desprovida de fundamento e sentido.

Quarto, mesmo depois de o Cristianismo haver basicamente se separado do Judaísmo, assumindo identidade própria e relativamente autônoma, algo que aparentemente se deu, em definitivo, por ocasião da Guerra Judaico-Romana de 70-74 AD, em que os judeus foram expulsos da Palestina e o seu Templo (o segundo e último) foi destruído, os cristãos, agora identificados como membros de um movimento religioso que, embora tivesse raízes judaicas, havia se tornado independente, os cristãos aceitaram como suas, e as absorveram, as Escrituras Judaicas, que foram renomeadas de Velho Testamento, quando os cristãos reconheceram um certo número de escritos próprios como também sagrados e os nomearam de Novo Testamento, insistindo no fato que várias profecias do Velho Testamento haviam tido cumprimento em Jesus de Nazaré e que a Igreja Cristã era a herdeira da eleição que, no Velho Testamento, tinha como objeto o povo judeu.

Quinto, dados esses desenvolvimentos, as duas religiões, a judaica e a cristã, embora concorrentes e rivais, acabaram por ficar inevitável e definitivamente entrelaçadas, havendo, até hoje, cristãos, em regra conservadores, que consideram que várias das profecias do Velho Testamento e do livro de Apocalipse no Novo Testamento estão, por assim dizer, ainda em aberto (i.e., não foram ainda cumpridas), devendo elas ser cumpridas no “final dos tempos”, que não chegará sem que antes os judeus voltem para a Palestina, e lá reconstituam, de forma plena, sua nação, com capital em Jerusalém, que, para tanto, precisaria ou pelo menos deveria (segundo se afirma hoje) ser una, indivisível e não compartilhada.

Essas cinco considerações justificam, plenamente, a meu ver, a inclusão deste artigo em um blog de História da Igreja Cristã, como aconteceu com sua terceira versão.

3. A História dos Judeus: Dois Primeiros Milênios

A história do povo judeu é longa e cheia de percalços. Uma boa parte dela é narrada nas Escrituras Judaicas (ou o Velho Testamento da Bíblia Cristã), sem, naturalmente, a pretensa e pretendida objetividade da historiografia moderna. A história do povo judeu registrada no Velho Testamento é narrada para mostrar que o povo judeu é o povo eleito de Deus, isto é, o povo escolhido por Deus (chamado de YHWH, no Velho Testamento) para executar, aqui na Terra, e na História, a vontade divina. Em decorrência dessa escolha, Deus teria dado aos judeus um território (Canaã, a Terra Prometida, hoje basicamente a Palestina) e uma missão, cuja natureza é muito discutida. O povo que veio a ocupar a Terra Prometida, se organizou em províncias (chamadas de tribos), cada uma delas como o nome de um dos doze filhos de Jacó, neto de Abrahão (o fundador da religião judaica). Jacó teve seu nome mudado de para Israel, depois de ter enfrentado um anjo de Deus e com ele até mesmo lutado. No devido tempo essas doze tribos se organizaram em nação que veio a se chamar Israel, em homenagem ao neto de Abrahão. Tempos depois a nação se dividiu em duas, ficando a chamada Israel ao Norte, com capital em Samaria, e a chamada Judá, ao Sul (compreendendo o território onde se localizava a cidade sagrada de Jerusalém, que, a partir da divisão, se tornou a capital apenas de Judá).

É muito difícil fazer sentido e compatibilizar as várias genealogias e os dados históricos contidos no Velho Testamento. Em regra, estima-se que, de Abrahão até a formação do reino (então unido, um só) de Israel, sob Saul, o primeiro rei de Israel, tenhamos um período de mais ou menos mil anos – o primeiro milênio da história do povo que eventualmente veio a ser chamado judeu.

Assim, e parcialmente repetindo, depois de ser governado por Juízes, esse povo se constituiu em reino por volta de 1050 AC (estimativa), sob Saul, depois Davi, e depois Salomão, filho de Davi, cada um deles com reino de mais ou menos quarenta anos, segundo o Velho Testamento. (A data estimada para o reinado de Salomão é 970-931). Outros reis menos conhecidos vieram depois de Salomão e o Reino de Israel se dividiu em dois, como já assinalado: o do Reino do Norte (Israel) e o Reino do Sul (Judá), este com a capital em Jerusalém, onde Salomão havia constituído um magnífico Templo (conhecido como o Primeiro Templo) – a data do término da construção é por volta de 940 AC).

Cada um dos dois reinos veio a ser dominado, em diferentes momentos, por potências estrangeiras: o Reino do Norte, pela Assíria (por volta de 740 AC), o Reino do Sul, pela Babilônia (por volta de 587 AC). Nesses momentos de dominação, boa parte da população de Israel e Judá foi deslocada para os países que conquistaram os territórios que eram seus, ou para outros lugares.

A maior parte das tribos do Reino do Norte que foram levadas em cativeiro acabou nunca voltando, tendo se misturado com outros povos, e sendo chamadas de  “As Dez Tribos Perdidas de Israel”. O Cativeiro Assírio representa, portanto, o fim do Reino de Israel (Reino do Norte).

Muitos dos habitantes do Reino do Sul, Judá, levados cativos a partir de 587 BC, ocasião em que o Primeiro Templo foi destruído, acabaram voltando para a Palestina menos de cinquenta anos depois, por volta de 540 BC, reconstituindo lá o Reino de Judá, reconstruindo em Jerusalém o Templo que havia sido construído por Salomão. Embora frequente se fale em reconstrução, na realidade o que houve foi a construção de um novo Templo, concluída por volta de 530 BC, que veio a ser chamado de Segundo Templo. Esse é o Templo que foi destruído pelos romanos no ano 70 AD, na Guerra Judaico-Romana de 70-74 AD, restando dele apenas ruínas, das quais a principal é o Muro das Lamentações.

Depois da volta do cativeiro babilônico, o Reino de Judá, o remanescente do antigo povo de Israel, então esparramado por outras terras do Oriente Médio, continuou a ter sua capital em Jerusalém – muito perto da qual se encontra a cidade de Belém, em que o rei Davi teria nascido, e, segundo a tradição considerada lenda por muitos, Jesus também nasceu. Jerusalém assim se firmou como a capital do que restou do antigo Reino de Israel — o Reino de Judá. É por ter o Reino de Judá ficado como remanescente do Reino de Israel que os judeus são hoje chamados de judeus, e não israelitas. (Israelis são os cidadãos da nova nação criada em 1948 para o povo judeu, e que recebeu o nome antigo: Israel, como se verá adiante.

Em algum momento, mais para o final do primeiro milênio antes de Cristo, a Palestina veio a ser ocupada pelos Romanos, que usavam, em regra, testas de ferro judeus para governar a província (como era o caso do tristemente conhecido Herodes, que era um judeu a serviço dos romanos).

Na já mais de uma vez mencionada Guerra Judaico-Romana de 70-74, agora já na Era Cristã (AD), os judeus foram derrotados e expulsos da Palestina. Com a expulsão dos Judeus da Palestina, começou o período chamado da chamada Nova (Segunda ou Terceira) Diáspora, termo que pode ser traduzido como Espalhamento. Os judeus que habitavam a Palestina se espalharam pelo mundo inteiro (como os cidadãos do Reino do Norte acabaram fazendo, na Primeira Diáspora, quando foram conquistados e removidos da Palestina pelos Assírios. (Uso a expressão “Primeira Diáspora” para me referir a essa diáspora, ocorrida ao redor de 740 AC, “Segunda Diáspora” para me referir à diáspora decorrente do Cativeiro Babilônico do Reino do Sul, a partir de 587 AC, e “Terceira Diáspora” para me referir à diáspora causada pela expulsão dos judeus da Palestina em 74 AD.). Em princípio, os judeus só começaram a voltar para a Palestina no final do século 19, como o movimento Sionista (vide adiante).

Depois da expulsão dos judeus da Palestina no ano 74 AD, a Palestina foi ocupada por vários povos que são os ancestrais dos palestinos que hoje disputam com Israel o direito de ocupar a terra que um dia foi dos Israelitas, depois dos Judeus, e a partir do século primeiro de nossa era, por uma série de povos.

Assim, de Abrahão (quando teria começado a história do povo judeu) até sua Diáspora, em 70-74 AD, temos um período de mais ou menos dois mil anos, por aí (talvez um pouco mais).

4. A História dos Judeus: Os Dois Milênios mais Recentes

De 74 AD até hoje, temos outro período de mais ou menos dois mil anos (talvez um pouco menos). Ao todo, a História dos Judeus parece cobrir quatro milênios. Convenhamos que não é pouco. É basicamente o dobro da História dos Cristãos.

Por dois mil anos, depois da queda de Jerusalém, os judeus ficaram espalhados (“diasporados”) pelo mundo. Foram perseguidos em quase todo lugar em que decidiram se estabelecer. Isso se deu, em parte, porque, apesar de todas as suas desgraças, os judeus continuaram a se considerar o Povo Escolhido de Deus, ou seja, um contingente humano especial, destinado a um grande destino, infinitamente superior ao das demais nações (que constituíam os “gentios” – termo que quer dizer simplesmente “não judeu”). Só que agora, os judeus tinham a concorrência dos cristãos, que acreditavam que a eleição dos judeus tinha sido transferida para eles…

É mais fácil contar a História dos Judeus nos primeiros dois mil anos, porque, de certo modo, apesar de, no início, esse povo ser nômade, e não sedentário, e a despeito dos dois cativeiros (sem contar o cativeiro preliminar, supostamente de 40 anos, no Egito, que resultou no Êxodo, sob o comando de Moisés), havia um povo israelita / judeu bem identificado e mais ou menos concentrado em um território relativamente bem delimitado.

É bem mais difícil contar a história dos dois milênios seguintes, porque neles o povo judeu está espalhado pelo mundo inteiro, não estando agrupado em um só território. Durante esse período, embora tenha continuado a existir um povo judeu (o termo israelita não foi mais usado), esse povo não estava constituído em nação, muito menos sendo identificado com um só território – até 1948. O povo judeu, ao longo da maior parte desses dois mil anos mais recentes, era composto de “judeus errantes”, judeus que viviam em nações de terceiros, por assim dizer. (Quem não conhece, pode consultar qual é a lenda do Judeu Errante [Wandering Jew] na Wikipedia.)

Certo ou errado, os cristãos, porém, viera a se considerar os verdadeiros herdeiros da História dos Judeus, alegando (principalmente com base em argumentos de Paulo, o apóstolo tardio) que Deus abandonou os judeus, por causa de sua infidelidade a ele, e transferiu sua escolha ou eleição para o povo cristão, composto predominantemente de gentios (não-judeus).

Criou-se, assim, uma rivalidade entre os cristãos, que começaram como uma seita judaica, e os judeus, que originalmente hospedaram essa seita. Os dois movimentos sobreviveram, mas os cristãos se deram melhor, em especial porque vieram a ser escolhidos como a religião preferencial do Império Romano, em 313 AD, pelo Imperador Constantino I, e, depois, a única religião lícita do Império Romano, em 381 AD, por decreto do Imperador Teodósio I. Até o ano 381, o Judaísmo também era religião lícita no Império Romano, como eram todas as religiões não-exclusivistas, porque acreditava-se que o Judaísmo, embora exclusivista (“só nós somos os eleitos”), era basicamente uma religião étnica, e, por conseguinte, não inclinada à atividade missionária e ao proselitismo. Mas com o decreto de Teodósio I, em 381, declarando o Cristianismo a única religião lícita do Império, ato que, na prática, fez do Cristianismo a religião oficial do Império, o Judaísmo se tornou, automaticamente, uma religião ilícita (junto de todas as demais, o Cristianismo sendo a única exceção).

A partir desse momento, fim do século 4, os cristãos começaram a perseguir os judeus, algo que continuou durante toda a história do Cristianismo. Ou seja: de religião perseguida, o Cristianismo se tornou uma religião que passou a perseguir o Judaísmo e as religiões pagãs.

A acusação principal dos cristãos em relação aos judeus era que estes haviam sido os principais responsáveis pela morte de Jesus de Nazaré, que, na fé cristã, veio, oportunamente, a ser considerado o Cristo (termo grego que quer dizer Messias, Ungido, etc.) e, a partir dos Concílios de Nicéia, em 325, e Calcedônia, em 451, uma das pessoas da Trindade – isto é, o próprio Deus. A julgar pelo texto dos livros que vieram a constituir o Novo Testamento da Bíblia Cristã, a acusação procede. Resta saber se o Novo Testamento é confiável como fonte de informação histórica – mas essa é uma outra questão.

Durante a chamada Reforma Protestante, os judeus sofreram bastante, em especial nas mãos de Lutero, que escreveu tratados detestáveis contra eles, sendo, por essa razão, considerado por alguns como o pai do antissemitismo moderno, que frutificou no Nazismo, que floresceu na Alemanha, a terra de Lutero. Outros colocam a origem do antissemitismo moderno mais tarde, no Iluminismo. Em pleno século das Luzes, os judeus também foram difamados e perseguidos. Voltaire foi um dos grandes difamadores dos judeus nesse período. Mas ele disse coisas semelhantes sobre a Igreja Católica, segundo ele a infame, que deveria ser esmagada… (“Écrasez l’infâme”, foi o seu brado). (Vide, a propósito, Arthur Hertzberg, The French Enlightenment and the Jews: The Origins of Modern Antisemitism; vide também meu artigo de 1972, “Was Voltaire an Anti-Semite?”, a ser publicado em meus blogs proximamente, embora escrito há quase 50 anos, quando eu fazia o doutorado na University of Pittsburgh. Eu defendo Voltaire da acusação. Recentemente, ao estudar a fundo a Reforma Luterana de 1517, a propósito de seus 500 Anos, concluí que não há como defender a postura de Lutero, vendo nele as raízes do antissemitismo que frutificou em Hitler, até porque Lutero é um dos maiores heróis alemães. (Vide, a esse respeito, Scott H. Hendrix, Martin Luther: Visionary Reformer, o Prefácio, e meu artigo “Percepção da Importância de Lutero (Scott H. Hendrix), em meu blog Reformation Space, https://reformation.space/2017/05/29/percepcao-da-importancia-lutero-scott-h-hendrix/.)

Nessas idas e vindas, chegamos ao limiar do século 20.

5. Destaque para os Últimos 120 Anos

Embora os últimos 120 anos da História do povo judeu façam parte dos milênios cobertos na seção anterior, eles receberão destaque aqui. Esses 120 anos serão divididos em seis blocos, seguindo de perto a sugestão de Martin Bunton, em seu livro The Palestinian – Israeli Conflict: A Very Short Introduction, que divide o período basicamente dessa forma:

  1. 1897-1917: A Palestina sob Controle Otomano (Turco)
  2. 1917-1937: A Palestina sob Controle Britânico
  3. 1937-1947: A Palestina Dividida
  4. 1947-1967: A ONU, o Estado de Israel e a Palestina
  5. 1967-1987: Israel Basicamente Toma Controle da Palestina
  6. 1987-2017: A Era do Terrorismo e dos Levantes (Intifadas)

Como se vê, há quatro períodos de 20 anos, um de 10 e um, final, de 30. (No livro de Bunton, publicado em 2013, o último período só tem 20 anos, terminando em 2007, fato que faz com que o período inteiro tenha 110 e não 120 anos).

A. 1897-1917: O Sionismo e a Palestina sob Controle Otomano

Há cerca de 120 anos, em 1897, foi criada, na cidade de Basileia, na Suíça, a Organização Sionista Mundial (World Zionist Organization). O movimento que essa organização começou a patrocinar foi chamado de Sionismo. Seu objetivo era envidar esforços para reunir o povo judeu, na forma de uma nação, na Palestina – ou, como se formulou na época, “criar um lar nacional (“a national home”) para os judeus na Palestina”.

O líder do movimento Sionista foi Theodor Hertzl (1860-1904), um jornalista de nacionalidade húngara. A Hungria pertencia, na época, ao Império Austro-Húngaro, que foi governado, durante toda a vida de Hertzl, por Francisco José (Franz Joseph), que foi imperador desse império de 1848 até sua morte, em 1916, durante a Primeira Guerra. (Franz Joseph foi casado com a Imperatriz Elizabeth, a “Sissi”, representada por Romy Schneider na série de três filmes que ficaram famosos nos anos 50. A Imperatriz foi assassinada em Genebra por um anarquista italiano em 1898. O Império durou até o final da Primeira Guerra.)

Hertzl se convenceu, enquanto trabalhava na França, que a melhor forma de proteger os judeus do sentimento antissemita que já existia em boa parte dos países europeus (haja visto o affaire Dreiffus na França!) era criando-lhes uma pátria que pudessem chamar de sua. O evento que criou a Organização Sionista Mundial contou com mais de duzentos delegados, a maior parte deles judeus oriundos do Leste Europeu.

Criou-se, na ocasião, o slogan “Uma terra sem povo para um povo sem terra” (A land without a people for a people without a land).

Não teríamos os conflitos que temos hoje na região, e que começaram a existir, de forma mais ou menos  sistemática, desde 1897, se a Palestina fosse realmente uma terra sem um povo. Não era. Como já foi mencionado, ela era habitada principalmente por populações árabes, a maior parte delas professando a religião muçulmana, que vieram a ser conhecidas como “o povo palestino” e que para ali pouco a pouco se dirigiram depois da expulsão dos judeus da Palestina em 74 AD – isto é, um pouco mais de mil e oitocentos anos. O que não havia, na Palestina, na ocasião, era uma nação ou um estado.

A Palestina era, naquela época, um dos domínios que fazia parte do Império Otomano, controlado pelos Turcos – os mesmos turcos que, em 1453, passaram a controlar Constantinopla e boa parte do Oriente Próximo e Médio. Como os Turcos eram, majoritariamente, muçulmanos, da mesma forma que a maior parte da população palestina, era de esperar que o Império Otomano, e os muçulmanos, em geral, não vissem com bons olhos a proposta do movimento sionista. Em especial a sutil alusão de que aquela seria uma terra sem donos, esperando para ser tomada e controlada novamente pelos judeus.

Embora alguns judeus começassem a imigrar para a Palestina a partir dos países em que moravam, em especial na Europa (com concentração no Leste Europeu e na parte não europeia da Rússia), o movimento sionista não deslanchou durante os primeiros vinte anos de sua existência, desde sua criação em 1897 até o final da Primeira Guerra Mundial.

Estima-se que antes do início do movimento Sionista havia cerca de 15.000 mil judeus na Palestina, para cerca de 400.000 árabes, em sua maioria muçulmanos – ou seja, quase vinte e sete árabes para cada um judeu. Quando a Primeira Guerra Mundial começou, com a Palestina ainda sob controle dos otomanos, o número de judeus era 60.000 e o de árabes 700.000 – quase doze árabes para cada um judeu. Algo fantástico ocorreu ao longo da Primeira Guerra, porque logo depois do final da guerra, em 1918, quando o controle da região já havia passado para os britânicos, com a derrota dos otomanos e o desmembramento de seu império, o número de judeus na palestina havia crescido cerca de 1000% (desde o início da Primeira Guerra) para 600.000 e o número de árabes não havia sequer dobrado (isto é, não havia crescido nem mesmo 100%), tendo chegado a 1.300.000. (Esses dados populacionais foram retirados do livro publicado por Charles Rivers Editors, com o título de The Partition of the British Mandate of Palestine: The History and Legacy of the United Nations Partition Plan and of the Creation of the State of Israel, dos três primeiros capítulos logo depois da Introdução.).

O crescimento do número de judeus na região era mais do que suficiente para deixar altamente preocupadas as lideranças da população árabe que ali vivia. Mas o controle da região, desde 1917, havia mudado de mãos.

B. 1917-1937: A Palestina sob Controle Britânico

A partir do final da Primeira Guerra Mundial os aliados derrotaram os turcos otomanos e a Grã-Bretanha, um dos países vitoriosos na guerra, recebeu o mandato de controlar a Palestina, o chamado Mandato Britânico, que passou a integrar o Império Britânico (do qual se dizia, em virtude de sua extensão, que o Sol nunca deixava de iluminar uma parte dele, em qualquer ponto das 24 horas de um dia).

Já no final de 1917, no dia 2 de Novembro, quando a Revolução Russa estava acontecendo, e com o final da Primeira Guerra Mundial já claramente em vista, inclusive com a divisão dos espólios, os britânicos aprovaram um comunicado, chamado de Declaração de Balfour, no qual se comprometem a criar, na Palestina, um “Lar Nacional” (National Home”) para os judeus. Essa declaração veio ao encontro das pretensões do Movimento Sionista. Foi considerada muito bem-vinda. O comunicado britânico foi divulgado pela imprensa uma semana depois.

Afirmaram, porém, os britânicos que isso seria feito sem prejuízo dos direitos civis e religiosos dos demais povos que habitavam a Palestina – quase todos eles árabes e muçulmanos; uns poucos cristãos. Como isso seria feito não foi esclarecido.

Eis a parte relevante do texto da Declaração de Balfour:

 “O governo de Sua Majestade vê de forma positiva o estabelecimento, na Palestina, de um lar nacional para o povo judeu, e envidará seus melhores esforços para facilitar a realização desse objetivo, ficando claro, porém, que nada será feito que possa prejudicar os direitos civis e religiosos de comunidades não judaicas existentes na Palestina, bem como os direitos e a condição política desfrutada pelos judeus em qualquer outro país”. [https://en.wikipedia.org/wiki/Balfour_Declaration]

Registre-se que quando essa declaração foi feita a Primeira Guerra Mundial não havia sequer terminado ainda, e, portanto, a Inglaterra não havia ainda recebido o seu mandato em relação à Palestina. Mas a Inglaterra estava em guerra com o Império Otomano desde Novembro de 1914, quando a Primeira Guerra Mundial teve início.

Terminada a guerra, em 1918, os britânicos atribuíram direitos iguais aos judeus que já habitavam a Palestina, tendo se mudado para lá principalmente a partir da criação do Movimento Sionista e muitos deles durante a guerra – provavelmente fugindo dela. Mas não tocaram na criação de um ou dois estados ali.

De 1917 até 1937, isto é, do fim da Primeira Guerra até quando a Segunda Guerra Mundial estava às portas, houve um período de relativa tranquilidade na Palestina – relativa tranquilidade diante do que estava por vir depois do final da Segunda Guerra Mundial.

Mesmo assim, os primeiros conflitos violentos entre judeus e árabes, que haviam começado em 1921, se intensificaram a partir de 1936, e principalmente no período de 1936 a 1939 (que já pega o período a ser analisado na subseção seguinte.

C. 1937-1947: A Palestina Dividida

Este período vai de dois antes do início da Segunda Guerra Mundial até dois anos depois do seu término. Tecnicamente, durante esse período, a Palestina ainda estava sob controle do Mandato Britânico, mas a Grã-Bretanha, a partir de 1939, com a invasão da Polônia por Hitler, e a subsequente declaração de guerra da Grã-Bretanha à Alemanha, tinha problemas maiores em suas mãos do que os problemas da Palestina.

Antes disso, porém, a Grã-Bretanha havia feito uma proposta de criação de dois estados na Palestina, um judeu e um árabe. Essa proposta teria dado aos judeus cerca de 25% do território da Palestina e, para os povos árabes que ali habitavam (os chamados palestinos), 75%, ou seja, 3/4 do território. Os judeus, que anteriormente não tinham território algum, aceitaram a proposta, apesar de ela representar bem menos do que eles pretendiam. Jerusalém, por exemplo, que sempre foi considerada a Cidade Santa dos judeus, ficaria em território que seria atribuído aos árabes. Mas estes, em um gesto que se tornou típico, recusaram a proposta: nada lhes era aceitável exceto o controle total da Palestina e a expulsão de lá dos judeus que habitavam a região. Nunca o reconhecimento de um Estado de Israel, que implicaria a admissão de que Israel tinha um direito de existir como nação, e, o que é pior, existir ali na Palestina.

Depois da ascensão de Hitler ao poder na Alemanha, primeiro como Chanceler, em 1933, e, depois, como Führer, em 1934, e em especial durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando ficou evidente que Hitler buscava a chamada “Final Solution”, o extermínio total dos Judeus na Alemanha e nos territórios já ocupados pelos nazistas, a situação dos judeus que viviam na Alemanha, na Áustria anexada (em 1934), na Polônia e demais territórios anexados, ficou crítica.

Mesmo em países não ocupados pelos nazistas, como a Rússia e outros países da União Soviética, havia forte antissemitismo, que se expressava em discriminação, perseguições de diversos tipos, é até mesmo em matanças generalizadas (pogroms). Na Rússia e em países vizinhos e satélites no Leste Europeu esses ataques em larga escala ocorriam muito antes da chegada de Hitler ao poder na Alemanha e do início da Segunda Guerra. Desde por volta de 1880 eles haviam se tornado comuns e frequentes, tornando-se um dos grandes motivos para Hertlz criar o movimento sionista no final do século. Também esses judeus procuravam um lugar para o qual pudessem emigrar.

Nesse quadro, muitos judeus europeus procuraram fugir do extermínio representado pelo Nazismo, ou das perseguições, e da violência dos pogroms dos outros países do Europa Oriental, mudando-se para outros países, distantes da Europa Continental. Vários foram para a Inglaterra, mas só como passagem, porque a Inglaterra estava em guerra. De lá geralmente iam para Austrália ou a Nova Zelândia. Muitos foram para os Estados Unidos e seus protetorados. Ainda outros vieram para a Argentina e para o Brasil (onde havia uma razoável população de origem alemã, oriunda da forte imigração do final do século 19, dentro da qual muitos eram judeus. O Brasil, em relação à Segunda Guerra, depois de alguma hesitação, ficou do lado dos Aliados.

E muitos dos judeus que queriam emigrar de seus países queriam imigrar para a Palestina, a terra original dos judeus.

Com o final da Segunda Guerra, e a descoberta e libertação pelos Aliados dos Campos de Concentração, principalmente na Alemanha, Polônia e Bélgica,  o movimento sionista insistia que o número de judeus na Palestina (havia quotas meio secretas) teria de aumentar para que fossem ali abrigados aqueles que estavam sendo liberados dos Campos de Concentração após o fim da guerra.

Isto deixava as lideranças da população árabe extremamente preocupadas. Mas também a Grã-Bretanha ficou preocupada. Não imaginava, ao aceitar o mandato de controlar a Palestina ao final da Primeira Guerra que teria um problema dessas  proporções em mãos. Impôs agora quotas declaradas para a migração de judeus europeus para a Palestina. Ouviu protestos humanitários de quase o mundo inteiro, e, naturalmente, do movimento sionista. Cedeu um pouco, admitindo mais flexibilidade na migração para a Palestina, mas isso irritou os árabes. Diante dessa situação, a Grã-Bretanha, que tinha enormes desafios na reconstrução de seus próprios territórios, severamente danificados por bombardeios nazistas, entregou os pontos.

A antiga Liga das Nações, criada depois da Primeira Guerra, foi substituída pela Organização das Nações Unidas (ONU), criada em 1947, pelos vencedores da Segunda Guerra. A Grã-Bretanha entregou a ela o mandato que lhe havia sido dado, com o argumento de o problema era grande e complexo demais para ser resolvido por ela. Mas apesar da “entrega”, o mandato continuou em vigência até que viesse a ser substituído por algum outro arranjo.

Na Palestina, nesse ponto, o número de judeus começava a chegar perto do número de árabes e ameaçava ultrapassá-lo em pouco tempo.

D. 1947-1967: A ONU, o Estado de Israel e o Estado da Palestina

a. A Criação do Novo Estado de Israel: 1948

Como mencionado no fim da subseção anterior, depois do final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a Organização das Nações Unidas (ONU) foi criada para substituir a Liga das Nações, que havia sido criada depois da Primeira Guerra.

Recebendo o problema judaico-palestino como seu primeiro grande desafio, a ONU criou uma comissão para estuda-lo e propor soluções. Essa comissão recomendou dividir a Palestina em dois estados: um Estado de Israel e um Estado dos Árabes na Palestina, separando o território de modo a deixar com cada estado o maior percentual de sua própria população que fosse possível, sem necessidade de deslocamentos.

A Grã-Bretanha, que havia passado o “abacaxi” para a ONU, foi contra a recomendação da Comissão, optando por sugerir a criação de um estado só, com as duas principais populações, árabe e judia. Como elas iriam conviver pacificamente, ambas crescendo, e o território sendo limitado em tamanho, e contendo uma boa parcela de desertos e pouca água e terra árida, a Grã-Bretanha não indicou.

Os Estados Unidos se opuseram ao seu principal aliado de guerra e ficaram a favor da proposta da Comissão da ONU, alertando que um território maior para os judeus seria desejável, para resolver os problemas causados pela tentativa de extermínio dos judeus pelos nazistas e pela perseguição dos judeus fora do âmbito nazista, em especial no Leste Europeu.

Assim, em um de seus primeiros atos, a ONU decidiu criar, agora não mais apenas um Lar Nacional, mas, sim, um estado judeu na Palestina – ao lado de um estado árabe. Parece uma “decisão salomônica”, que agradaria os dois lados. Mas no fundo, não agradou nenhum dos dois lados.

No entanto, mesmo sem que a proposta lhes agradasse, os judeus concluíram que era estrategicamente conveniente que eles a aceitassem e, assim, resolveram aceitar a proposta, em princípio, deixando pendente o tamanho e os limites do território.

Os árabes, no entanto, rejeitaram total e liminarmente. Eles queriam um estado só, um estado sob o seu controle. Aceitar dois estados era aceitar a tese de que Israel tinha o direito de existir, que passava a ser uma nação entre as nações. Além do mais, a proposta reconhecia que Israel tinha direito de existir na Palestina. Assim, os árabes não quiseram nem discutir e o tamanho e os limites do território que a ONU imaginava poder entregar-lhes. Para eles, a terra da Palestina era deles já há quase dois mil anos e eles não queriam compartilhá-la e muito menos dividi-la . O fato de que a mesma terra havia pertencido aos judeus por cerca de dois mil anos, antes de lhes ser tirada à força, para que pudesse ser ocupada, a partir de um determinado momento, por seus antepassados, simplesmente não interessava aos árabes.

No entanto, os grandes vencedores da Segunda Guerra, Estados Unidos, Inglaterra e União Soviética acabaram conseguindo criar esse estado no final de 1947 (em 29 de Novembro). Isso significava que haveria, na região, um Estado Judeu e um Estado Árabe na Palestina.

A divisão proposta era complicada, porque, além de criar os dois estados, criava zonas desmilitarizadas, estradas neutras separando os dois estados, etc. Além disso, a proposta esforçou-se por honrar o princípio de que cada estado deveria conter maioria de habitantes de sua própria gente (em termos de etnia / religião). Assim, as linhas limítrofes entre os dois estados ficaram meio estranhas por causa dessas exigências demográficas / religiosas.

Entretanto, dezenas de povoações judias iriam ficar dentro do estado árabe e centenas de povoações árabes ficariam dentro do estado judeu. A área reservada ao estado judeu foi um pouco maior do que a reservada para o estado árabe, por causa da expectativa de que, uma vez criado o estado de Israel, a imigração para ele iria aumentar rápida e sensivelmente. Apesar de ter, no momento da divisão, cerca de 32% da população, o estado judeu teria 56% do território.

Nos seus 56% de território, os judeus teriam cerca de 499.000 judeus e 438.000 árabes, num total de 937.000 habitantes. Mas seu território compreenderia o Deserto de Negev, ao Sul. Os árabes teriam 42% do território, com uma população de 818.000 árabes e 10.000 judeus, num total de 828.000 habitantes.  A população total dos dois estados seria de 1.765.000 habitantes: 1.256.000 árabes e 509.000 judeus.

Jerusalém e Belém ficariam fora dos dois estados e seriam administrados pela própria ONU.

Muitos sionistas protestaram apontando o seguinte fato. Dos territórios incluídos em seu mandato, a Grã-Bretanha havia dado autonomia à Jordânia, em 1946, que representava 75% do território controlado pelos britânicos, e a Jordânia era árabe. Assim de todo o território do Mandato, ficaram com os árabes os 75% da Jordânia e, dos 25% restantes, mais 10,5% do restante (os 42% de 25% correspondentes ao Estado Árabe), enquanto os judeus ficaram com apenas 14% (56% de 25% correspondentes ao Estado Judeu. Mesmo assim, os judeus aceitaram a divisão, e os árabes a rejeitaram incondicionalmente.

(Dados de território e população retirados de Charles Rivers Editors, The Partition of the British Mandate of Palestine: The History and Legacy of the United Nations Partition Plan and of the Creation of the State of Israel, capítulo “The United Nations Partition Plan”.)

O curioso é que tecnicamente a Palestina ainda estava sob o Mandato Britânico. Por isso, a Grã-Bretanha, desejosa de ser ver livre da “encrenca”, comunicou unilateralmente à ONU e ao mundo, em Fevereiro de 1947, que declararia encerrado o seu Mandato sobre os territórios da Palestina em 14 de Maio de 1948.

b. A Proclamação e a Guerra de Independência de Israel: 1948-1949

Como os árabes haviam rejeitado incondicionalmente a proposta de partilha e, diante dessa rejeição, a ONU não havia tomado nenhuma outra decisão relativa à Palestina, os judeus foram proativos e tomaram a decisão: no dia 14 de Maio de 1948, horas antes de expirar o Mandato da Grã-Bretanha sobre a região, David Ben-Gurion, chefe da Agência Judaica, que representava os judeus da Palestina, leu o documento da Proclamação da Independência do Estado de Israel (na realidade, o documento da criação formal do novo Estado de Israel).

Sabiamente, os Estados Unidos, no mesmo dia, reconheceram de facto o novo estado. A União Soviética foi além e o reconheceu de jure em 17 de Maio.

Mas no dia seguinte ao da proclamação da Independência de Israel, ou seja, em 15 de Maio de 1948, uma coalisão composta por Egito, Síria, Líbano, Jordânia, e Iraque atacou Israel, naquela que veio a ser chamada de Guerra Árabe-Israeli, ou, simplesmente, de Guerra da Independência de Israel. Essa guerra durou até Março de 1949. O objetivo dos árabes palestinos e seus aliados era varrer do mapa o estado dos judeus — agora oficialmente proclamado independente e nomeado Israel.

Segundo Paul Johnson (A History of the Jews) a Liga Árabe declarou literalmente: “Esta será uma guerra de exterminação e um massacre sem precedentes na história”.

Quem apoio a liga dos árabes nessa guerra apoiou uma tentativa deliberada e consciente de extermínio de mais de 500.000 judeus. Os judeus, exatamente três anos depois de terminada a Segunda Guerra, que representou uma tentativa deliberada e consciente de extermínio de milhões de judeus, tentativa bem sucedida no caso de cerca de seis milhões deles, sofreram agora uma segunda tentativa de extermínio, agora de meio milhão deles que haviam fixado residência na Palestina, a maioria absoluta deles no Estado de Israel, que a ONU havia aprovado para os judeus.

Embora o estado dos judeus estivesse ainda em sua primeira infância, tendo apenas um dia de existência de existência formal, não estando ainda nem mesmo totalmente organizado, tendo uma força militar relativamente pequena, e com armamentos inferiores aos dos palestinos e seus aliados, Israel se organizou rapidamente e venceu a guerra, com o apoio de alguns aliados. Israel poderia, na realidade, ter literalmente varrido da face da terra 1.256.000 de árabes, que estavam, parcialmente em no território do Estado de Israel e, majoritariamente, no território que a ONU ofereceu aos árabes para que ali constituíssem o seu estado – mas eles incondicionalmente rejeitaram. Mas Israel não fez isso.

A Guerra da Independência foi terminando aos poucos. Vários armistícios foram assinados ao longo de 1949. O Iraque não assinou armistício nenhum: simplesmente removeu suas forças e equipamentos e abandonou a guerra.

Finda a guerra, o resultado líquido dessa chamada Guerra da Independência foi que Israel aumentou consideravelmente o território sob seu controle. A divisão que, em 1937, havia sido sugerida como 25% para os judeus e 75% para os árabes, e que, em 1947, na proposta da ONU, foi de 56% para os judeus e 42% para os árabes, acabou ficando agora, depois da guerra, cerca de 77% território judeu e cerca de 23% território árabe. Esses 23% ficaram nas mãos da Jordânia e do Egito. A primeira ficou com a maior parte: toda a margem ocidental do Jordão (conhecida em Inglês como o “West Bank” e em Português como Cisjordânia) e a maior parte de Jerusalém, a parte Oriental, que correspondia a cerca de quase 80% da cidade). O Egito ficou com a Faixa de Gaza, uma faixa de terra junto ao Mediterrâneo no Oeste da Palestina, adjacente à cidade de Gaza.

Em resumo, com a Guerra de Independência (que eles não iniciaram), os judeus ganharam e anexaram cerca de 50% dos territórios que haviam sido oferecidos aos árabes, mas eles recusaram, e os árabes controlavam apenas 23% do território inicialmente dividido (mais, naturalmente, a Jordânia, que representava, originalmente, 75% do território do Mandato Britânico original.)

É compreensível que os árabes chamem essa guerra de “A Catástrofe”.

Finda a guerra, houve perseguição aos judeus que viviam em outros países árabes e eles se mudaram, em grande medida, para o Estado de Israel.

Quanto aos territórios conquistados, houve várias negociações, no período posterior ao fim da guerra, em que Israel esteve disposto a devolver alguns territórios conquistados na Guerra da Independência, mas os Palestinos queriam tudo de volta e se negavam a reconhecer a existência de jure do estado de Israel e reivindicam controle total da Palestina, assim fazendo com que até mesmo a existência de facto de Israel também fosse reduzida a nada.

Nessas condições, prevaleceram os armistícios assinados ao longo de 1949.

c. Jerusalém Declarada a Capital de Israel: 13/1/1949

Em 13 de Janeiro de 1949 Jerusalém é declarada a capital do Estado de Israel. O controle de Jerusalém está dividido entre Israel (parte ocidental da cidade) e a Jordânia (parte oriental da cidade).

d. A Guerra dos Seis Dias: Junho de 1967

Os árabes juraram vingança e começaram a se preparar para uma nova guerra, que eles alardeavam que seria a definitiva. Eles tinham agora a liderança da Gamar Abdel Nasser, presidente do Egito, que advogava a formação de uma Liga Pan-Árabe, e que tinha o apoio da União Soviética. O presidente egípcio aparentemente tinha uma confiança exagerada nos armamentos e no apoio logístico fornecido pelos soviéticos. Em Maio de 1967 ele ordenou mobilização total de suas forças armadas e colocou 100.000 homens na Península do Sinai, expulsando dali uma força internacional da ONU, que monitorava o local. Além disso, fechou o Estreito de Tiran, importante passagem, que é mais um sinal de guerra iminente. No início de Junho as forças armadas israelenses capturaram mensagens oriundas da Jordânia, que indicavam que uma invasão do território israelense era iminente.

Israel, por seu lado, também havia se preparado para a guerra, e contava com o apoio dos Estados Unidos. Não esperou o Egito invadir, fazendo um arrasador ataque preemptivo às forças egípcias no dia 5 de Junho de 1967, que destruiu basicamente toda a força aérea egípcia antes que ela conseguisse sair do chão. As forças terrestres egípcias, sem o apoio de sua força aérea, recuaram, e as forças israelenses avançaram, capturando facilmente toda a península do Sinai, incluindo a Faixa de Gaza, que havia ficado sob controle egípcio ao final da guerra anterior.

Os aliados árabes do Egito procuraram revidar de outros lados, mas as forças israelenses os rechaçaram e avançaram, capturando o Planalto de Golan (chamado de “Golan Heights”), um plateau que separava Israel da Síria, capturando toda a margem ociental do Jordão (o Wast Bank, chamado de Cisjordânia), que estava sob controle da Jordânia, e conquistando a zona oriental de Jerusalém e a cidade de Belém, que também estavam sob o controle da Jordânia, assim reunificando a cidade que era sua capital desde 1949.

Em seis dias a guerra que era para ser a vitória definitiva dos árabes estava encerrada com vitória total de Israel – razão pela qual foi chamada de a Guerra dos Seis Dias (5 a 10 de Junho) A derrota árabe foi absoluta e a vitória israelense ampliou consideravelmente os seus territórios. Se o resultado da guerra anterior foi uma catástrofe, o desta foi uma catástrofe e meia.

A vitória acachapante de Israel, além dos ganhos territoriais, e do impacto que criou na opinião pública mundial a quantidade e qualidade de seus armamentos e de suas forças armadas, e a competência com que foram utilizados para destruir os inimigos árabes que vinham se preparando há muito tempo para essa guerra, lhe trouxe alguns problemas. Israel agora se viu de posse territórios muito além daqueles originalmente previstos na divisão de 1947, e que eram o lar de mais de um milhão de árabes. Dos territórios conquistados, Israel oficialmente anexou a zona leste de Jerusalém e as “Golan Heights”. Deixou os habitantes da margem esquerda do Jordão, o “West Bank” (Cirjordânia), da Península do Sinai e da Faixa de Gaza em um limbo. Não anexando essas terras, não deu cidadania aos seus habitantes. Mas não abriu mão do controle sobre a região, deixando o status da população mais ou menos em um limbo.

A recusa de Israel de sair de abrir mão de controle dos territórios conquistados e voltar aos limites territórios de 4 de Junho de 1967, que, de repente, pareceram altamente aceitáveis aos árabes, fez, também, com que Israel começasse a perder a batalha pela opinião pública mundial.

e. Jerusalém é Reunificada e a Sequência da Guerra

Como já assinalado, tendo derrotado a Jordânia, que controlava a parte oriental de Jerusalém, Israel reunificou toda a cidade, mantendo-a sob seu comando. Isso se deu em 7 de junho de 1967, mas a reunificação da cidade foi comunicada oficialmente ao mundo apenas em 28 de Junho de 1967.

Diz Paul Johnson, op.cit. (ênfase acrescentada), sobre o resultado da Guerra dos Seis Dias:

“Ao final da Guerra dos Seis Dias, Israel havia unificado Jerusalém e ocupado a margem esquerda inteira do Jordão. Ocupou também o Planalto de Golan na Síria e chegou a 30 milhas de Damasco. Na frente ocidental, ocupou toda a planície do Sinai. O resultado líquido da operação foi que, pela primeira vez, Israel conquistou fronteiras defensáveis, bem como uma capital unificada, e a maior parte dos seus famosos territórios históricos”.

Em 12 de junho de 1967 Israel declarou, formalmente, que não voltaria a reconhecer as linhas limítrofes firmadas no Armistício de 1949 — a menos que isso se desse como resultado de um processo de negociação amplo e formal, que reconhecesse a existência de Israel e lhe garantisse fronteiras permanentes. Israel agora faz exigências a partir de uma posição de força, pois controlava basicamente a totalidade dos territórios da Palestina (talvez um pouco mais do que seus territórios de antigamente.

Em 1 de Setembro de 1967, os líderes dos países árabes se reúnem em Kartum, no Sudão, e dão sua resposta a Israel, aprovando uma declaração curta e grossa chamado de “The Three No’s”: “No recognition of Israel. No negotiations with Israel. No peace with Israel.”

Note-se bem: esta foi a posição oficial dos países árabes.

Apesar disso, houve novas negociações, correção de algumas linhas divisórias, um breve período de paz.

E. 1967-1987: Israel Basicamente Toma Controle da Palestina

A próxima guerra foi a de Yom Kippur, em 1973.

a. A Guerra de Yom Kippur: 6 a 24/10/1973

Durante o feriado religioso judaico de Yom Kippur de 1973, houve nova guerra, a terceira, Nesta Israel foi apanhado de surpresa, mas reagiu e venceu a guerra, consolidando seu controle dos territórios já conquistados. Essa foi a chamada Guerra de Yom Kippur, que durou de 6 a 24 de Outubro de 1973 e foi liderada pelo Egito e pela Síria, com o apoio de Força Expedicionária dos outros países árabes. O acordo de desengajamento militar com o Egito só foi assinado em 18 de Janeiro de 1974.

b. O Acordo de Camp David: 18/9/1978

Depois dessa guerra houve uma tentativa séria de negociação entre o Egito e Israel, em 1978, liderada pelo presidente americano Jimmy Carter, negociação que resultou no chamado de Acordo de Camp David, firmado em 18 de Setembro de 1978. Do acordo resultou a retirada de Israel da Península do Sinai e sua devolução ao Egito, basicamente encerrando as hostilidades entre os dois países. Os demais árabes, convidados,  não quiseram participar das negociações que levaram ao acordo. Nessa ocasião lhes foi proposta uma solução dos conflitos que envolvia (como proposto pela Grã-Bretanha já em 1917, na famosa Balfour Declaration), a existência de dois estados independentes, Israel e um estado árabe. Mas os palestinos insistiam numa “solução” que envolvesse a dissolução do Estado de Israel e a devolução dos territórios que deveriam ter sido ocupados pelos árabes, mas que foram conquistados por Israel em guerras planejadas, iniciadas e perdidas pelos árabes. Hoje, os árabes da Palestina lutam por isso, que lhes foi proposto pela ONU, em 1947, mas eles então recusaram.

F. 1987-2017: A Era do Terrorismo e dos Levantes (Intifadas)

a. A Invasão do Líbano e as Intifadas: 1982-presente

De lá para cá, têm havido várias operações militares entre Israel e seus vizinhos. Entre Junho e Dezembro de 1982, por exemplo, Israel invadiu o Sul do Líbano para combater as forças da Organização para a Libertação da Palestina. Na verdade, só em 24 de Maio de 2000 Israel veio a retirar totalmente suas forças do Sul do Líbano, mantendo controle do Planalto de Golan. Em 1987 os vizinhos palestinos atacaram Israel nas chamadas Intifadas. E assim teve continuidade o conturbado relacionamento de Israel com seus vizinhos árabes.

b. Conclusão desta Subseção

Em junho de 1967, em decorrência de uma guerra formalmente declarada pelos árabes e provocada por eles, Israel ganhou vários novos territórios e unificou a cidade de Jerusalém, que, logo depois da criação do Estado de Israel, em 1947/1948, foi declarada, em 13/1/1949, sua capital (embora à época Israel só controlasse a parte ocidental da cidade). Em 7/6/1967 Jerusalém é reunificada, durante a Guerra dos Seis Dias.

Várias vezes, em especial nos Acordos de Camp David, os palestinos tiveram ocasião de ter um estado palestino reconhecido junto do estado judeu (Israel). Recusaram-se a aceitar essa solução, porque ela referendava a existência de Israel, algo que eles achavam inadmissível.

6. Conclusão

Agora hoje [07/12/2017], momento em que Israel detém virtualmente a hegemonia da Palestina, os palestinos querem impor condições, fazendo de conta que Israel é intransigente por não aceitar os dois estados. A situação de fato, agora, é que Israel controla a maior parte da Palestina, detém controle unificado de Jerusalém, que é sua capital oficial desde 1949.

Que razão oferecem os palestinos hoje para que Israel aceite os dois estados e novamente divida Jerusalém, admitindo que a cidade seja também a capital do possível estado palestino? Só oferecem parar com o terrorismo — mas não têm moral nem credibilidade para oferecer isso, nem autoridade sobre suas várias facções para garantir que, fosse essa solução aceita por Israel, os palestinos, como um todo a respeitariam.

7. O Reconhecimento de Jerusalém como a Capital

Dois países já reconheceram Jerusalém como a capital de Israel, transferindo para lá a Embaixada que tinham em Telavive. Um terceiro, o Brasil, prometeu fazê-lo através de seu presidente-eleito Jair Bolsonaro.

A. Estados Unidos

O que Donald Trump, o controvertido presidente dos EUA fez, em 6 de Dezembro de 2017, foi apenas declarar que os EUA, que já reconheciam há muito tempo que Jerusalém era a capital de Israel (algo que é fato já há quase 60 anos), iria mudar sua Embaixada de Telavive para Jerusalém.

Quando Bill Clinton foi presidente dos EUA ele propôs e o congresso americano aprovou que isso fosse feito. Mas de lá para cá aquilo que o congresso americano aprovou vinha tendo sua implementação adiada, a cada seis meses. Trump simplesmente resolveu acabar com a hipocrisia e a palhaçada.

Em 14 de Maio de 2018, o dia em que Israel comemora 70 Anos de Independência, a Embaixada Americana em Jerusalém foi inaugurada.

Quando o anúncio da mudança foi feito em 6 de Dezembro de 2017, eu escrevi, em versão anterior deste artigo: “Vai levar algum tempo para mudar a Embaixada Americana, não resta dúvida. Essa é uma operação complexa, em especial num território complicado como Israel. Mas que vai ser mudada, vai.” Eu estava parcialmente errada. Não levou tempo. Em cinco meses a nova Embaixada ficou pronta e os Estados Unidos a inauguraram.

B. Guatemala

Dois dias depois dos Estados Unidos mudarem sua Embaixada para Jerusalém, a Guatemala fez o mesmo, tornando-se o segundo país do mundo a mudar sua Embaixada junto a Israel para Jerusalém. Em 1948, os Estados Unidos foram o primeiro país a reconhecer Israel como uma nova nação independente; a Guatemala foi o segundo.

O presidente guatemalteco Jimmy Morales e o Primeiro Ministro israelense Benjamin Netanyahu participaram da inauguração, em um complexo comercial em Jerusalém Ocidental.

C. Brasil (Prometido)

Em 1º de Novembro de 2018, antes mesmo da realização do Segundo Turno das eleições presidenciais brasileiras, Jair Bolsonaro, então candidato favorito a vencer o segundo turno (como de fato venceu), confirmou que, se e quando eleito, mudará a Embaixada brasileira junto a Israel para Jerusalém. Depois de eleito, Presidente-Eleito do Brasil comunicou ao Estado de Israel sua intenção de, depois de empossado, transferir, gradualmente, a Embaixada Brasileira junto ao Estado de Israel, de onde ela agora se encontra (Telavive), para Jerusalém.

Deveria ser uma coisa simples e burocrática entre os dois países.

Muita gente está protestando.

Alguns – toda a esquerda favorável aos árabes e até alguns evangélicos que não se consideram de esquerda – estão chiando. Alguns acusaram Bolsonaro de estar servilmente seguindo Trump. Não conhecem o Bolsonaro. Sobre isso escrevi alguns posts no Facebook, cuja substância resumo aqui.

O Brasil não está simplesmente seguindo o Trump. Está seguindo o princípio de que o país com o qual temos relações diplomáticas define onde é sua capital. Israel definiu, o Brasil põe a Embaixada lá. Se um dia a capital de Israel mudar de lugar (algo que considero virtualmente impossível), o Brasil muda.

Em resposta a alguém que disse que “Na minha opinião, errou o presidente eleito. Jerusalém não é como Brasília ou Washington. Desde 1947, com a Liga das Nações, está sob disputa entre dois povos, aguardando as decisões sobre o processo de paz”, respondi o que segue:

Pelo que me consta, a Liga das Nações foi extinta em 20/4/1946. O Estatuto das Nações Unidas foi aprovado em 26/6/1945, e entrou em efeito em 24/10/1945. Em 1947 fez uma proposta de criação de dois estados na Palestina, um judeu e um árabe, com territórios mais ou menos equivalentes (o alocado a Israel era um pouco maior). Os árabes recusaram incondicionalmente a proposta.

Diante do impasse, a Grã-Bretanha anunciou que renunciava ao mandato que a antiga Liga das Nações lhe havia dado, de coordenar as relações entre árabes e judeus na Palestina, a partir de 14 de Maio de 1947.

Nesse dia, quando o mandato estava para terminar, Israel proclamou sua independência.

No dia seguinte, apelaram para a guerra, optando por tentar obter pela força 100% do território em vez de aceitar uma parte dele, pacificamente arbitrada pela recém-criada Organização das Nações Unidas. Assim, perderam todo direito de, posteriormente, reivindicar, pelo direito internacional, ou por arbitragem, o que preferiram tentar obter pela força, achando que a recém-criada nação de Israel não lhe seria páreo nessa arena. Enganaram-se e estão pagando o preço por esse engano. E enganaram-se várias outras vezes depois. Perderam também, como se verá, todo direito de reivindicar parte de Jerusalém — a parte oriental — como sua capital.

A guerra iniciada pelos árabes em 15 de Maio de 1948 durou até 20 de Julho de 1949, com sua derrota fragorosa e acachapante. Nessa guerra Israel não só manteve os seus territórios mas conquistou parte significativa do território que havia sido previsto para os árabes. Guerra é guerra, e quem perde uma guerra que ele próprio iniciou, em regra perde os territórios conquistados pelo inimigo — ponto final. Os árabes parecem não entender essa verdade simples.

Em Junho de 1967 os árabes estavam prontos para atacar Israel de novo, através do Egito, e Israel se defendeu. A guerra resultante foi chamada de Guerra dos Seis Dias e durou de 5 a 10/6/1967 (6 dias). Israel venceu de novo, de forma indiscutível, e conquistou a península do Sinai e outros territórios, inclusive Jerusalém Oriental e a Margem Ociental do Jordão (o West Bank).

Assim, Jerusalém foi unificada, sob controle de Israel.

De novo, guerra é guerra, e quem perde uma guerra que provocou, perde os territórios que não conseguiu manter pela força.

Os árabes se prepararam para atacar Israel de novo em 1973, agora de surpresa, durante o feriado religioso de Yom Kippur. Atacaram e perderam a Guerra de Yom Kippur — e, com ela, mais territórios.

Em 1980 Israel proclamou a cidade de Jerusalém, completa e não dividida, como a capital do Estado de Israel.

Israel tem sido uma nação generosa, devolvendo alguns territórios conquistados, como a Península do Sinai, para o Egito. Mas garantiu que nenhuma parte de Jerusalém, agora unificada sob controle de Israel e proclamada como capital do Estado de Israel, será devolvida aos árabes — e eu acho que está com toda razão. Quem provou que não aceitou e não respeita a decisão das Nações Unidas de 1948 foram os árabes. Fizeram três guerras contra Israel e perderam todas.

Está certo o Brasil em reconhecer, como capital de Israel, aquilo que Israel considera como sua capital. Ponto final. Alguém tinha de ter coragem de fazer isso. E o Bolsonaro prometeu fazer.

Parecendo não perceber que estamos sob nova administração, tem gente que ainda reage — e o que é pior, sem conhecer total e exatamente os fatos da situação.

Bibliografia

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Charles Rivers Editors, The Partition of the British Mandate of Palestine: The History and Legacy of the United Nations Partition Plan and of the Creation of the State of Israel

Daniel Gordis, Israel: A Concise History of a Nation Reborn (Harper-Collins, New York, 2016)

David Horowitz, Why There is No Peace in the Middle East (David Horowitz Freedom Center, Sherman Oaks, 2009)

David Horowitz, Why Israel is the Victim (David Horowitz Freedom Center, Sherman Oaks, 2013)

David Meir-Levi, Stolen History: How the Palestinians and their Allies Israel’s Right to Exist by Erasing its Past (David Horowitz Freedom Center, Sherman Oaks, 2011)

Howard M. Sachar, A History of Israel: From the Rise of Zionism to Our Time (Knopf, New York, 3a edição, revisada e expandida, 2013) [Obra exageradamente completa e detalhada – 1.200 páginas]

Ian Carroll, Israel and Palestine: The Complete History (Dark River, Oakamoor, 2006, Revised 2018)

John Bright, A History of Israel (Westminster Press, 1952; 4a edição, 2000)

Mark Stanislawski, Zionism: A Very Short Introduction (Oxford University Press, New York, 2017)

Martin Bunton, The Palestinian – Israeli Conflict: A Very Short Introduction (Oxford University Press, New York, 2013)

Martin Noth, A History of Israel (Harper & Row, New York, Revised Edition, 1960)

Paul Johnson, A History of the Jews (Harper-Collins, New York, 1988, 2009)

Schlomo Send, The Invention of the Jewish People (Verso, New York, 2009)

Versões 1, 2, e 3 em São Paulo, 7, 8 e 20 de Dezembro de 2017; esta versão 4, revisa a versão 3 e lhe acrescenta a Seção 7, Adendo, é publicada também em São Paulo, em 5 de Novembro de 2018.

A Filosofia e as Utopias

Entre as características intrigantes do ser humano há duas que particularmente me fascinam.

A primeira é nossa capacidade de filosofar. É essa característica que nos permite olhar para o que está aí – olhar a realidade – e perguntar “Por quê?” “Por que as coisas são assim?”.

A filosofia é a ciência-mãe dos porquês. Talvez o porquê mais básico seja: “Por que existe alguma coisa, e não nada?” Mas há outros porquês interessantes. “Por que dividimos os enunciados que fazemos acerca das coisas, das pessoas, dos eventos, dos processos, etc. em verdadeiros e falsos?” – e, em regra, não admitimos outra alternativa (tertium non datur)? “Por que distinguimos entre conhecimento e mera opinião?” “Por que classificamos ações (posturas, atitudes, etc.) em moralmente certas, moralmente erradas” — e, neste caso, reconhecemos outras que não são nem uma coisa nem outra, e, portanto, parecem ser moralmente neutras? “Por que diferenciamos as coisas (pessoas, cenas, paisagens, etc.) entre belas e feias” — e, também neste caso, talvez, ainda outras, que não são nem uma coisa nem outra, parecendo ser esteticamente neutras? “Por que acreditamos que haja uma forma perfeita de viver, pessoalmente, como indivíduos, e, coletivamente, como sociedade?”

A segunda característica intrigante do ser humano é nossa capacidade de construir utopias. Essa característica está relacionada à última pergunta mencionada no parágrafo anterior: “Por que acreditamos que haja uma forma perfeita de viver, pessoalmente, como indivíduos, e, coletivamente, como sociedade?” Somos capazes de construir utopias porque acreditamos que a perfeição é possível e que devemos lutar para alcança-la.

É essa segunda característica que nos permite olhar ao que está aí (a realidade), imaginar algo que nos parece melhor, e daí perguntar “Por que não?” “Imagine all the people living life in peace…” “Imagine all the people sharing all the world…” Por que não?, pergunta John Lennon – e muita gente segue a sua trilha…

O pensamento filosófico tenta entender o que está aí, procurar suas causas, buscar suas razões…  O pensamento utópico tenta nos levar além do que está aí, na busca de uma realidade melhor, quiçá perfeita…

Será que nossa capacidade de filosofar e nossa capacidade de, digamos, utopizar (construir utopias) são apenas duas faces de uma mesma moeda? Serão essas características do ser humano simplesmente complementares?

Não resta dúvida de que, sendo ambas características tipicamente humanas, a nossa capacidade de filosofar e a nossa capacidade de utopizar estão ancoradas numa mesma natureza que quer, ao mesmo tempo, entender e explicar a realidade, mas, também modifica-la, transcendê-la, torna-la melhor, trazê-la mais perto da perfeição…  Karl Marx chegou a dizer que os filósofos procuraram entender e explicar o mundo – mas que o importante seria transforma-lo… O “imagine all the people sharing all the world and living in peace” de Lennon talvez seja a visão poética de uma sociedade marxiana para qual cada um contribui segundo as suas habilidades e da qual cada um retira segundo suas necessidades, sem conflitos, numa boa, e, portanto, sem necessidade de um estado que, estando acima dos indivíduos, resolva os litígios, salomonicamente, de modo que as partes litigantes concluam que saíram ganhando (win-win)…

O problema é que Marx tenta, ao mesmo tempo, filosofar (no sentido em que estou usando o termo, que inclui “cientifizar”) e utopizar… Talvez o maior nó górdio de sua obra esteja nessa mistura: está Marx falando aqui como cientista ou como idealista revolucionário? Está fazendo uma predição científica ou expressando um desejo intenso (para a atinção do qual seriam necessários, primeiro, um novo homem, a ser formado pela educação “partisane”, e uma nova ordem social, a ser construída pela violência revolucionária)? Será possível que as duas características co-existam pacificamente numa mesma pessoa, ao mesmo tempo – ou será que estamos fadados a exibir, alternativamente, ora uma, ora outra, tentando lidar, no processo, com possíveis incoerências, ou mesmo contradições, de abordagem e postura?

Não resta dúvida de que devemos filosofar (que inclui o cientifizar), isto é, conhecer a realidade, inclusive a realidade da natureza humana, e de que devemos utopizar – isto é, sonhar, porque as utopias são feitas de sonhos… E também não resta dúvida de que muita coisa que, no passado foi apenas sonho, e, portanto, utopia, hoje é realidade… (Apesar do desencanto de muitos com o mundo atual, ele é muito melhor do que qualquer outro mundo que já existiu: o progresso humano e social é uma realidade inegável). Alguém já nos aconselhou a tomar cuidado com aquilo com que sonhamos, porque os sonhos podem se tornar realidade…

Reinhold Niebuhr, famoso teólogo protestante americano, uma vez propôs uma oração cujo conteúdo (excluída a forma de prece) ganhou o endosso até mesmo da atéia Ayn Rand. “Ó Deus”, disse ele, “dá-me serenidade para aceitar o que não é possível mudar, coragem para mudar o que é possível mudar, e sabedoria para reconhecer onde estão os limites de um e de outro”… A oração de Niebuhr reconhece que há muita coisa que é possível mudar (utopia) – mas reconhece também que há coisas que não é possível mudar (realidade). O desafio é saber o que se encaixa numa e noutra categoria. [A oração de Niebuhr na verdade foi copiada de um teólogo alemão do século 18: Friedrich Christoph Oetinger (1702–1782)].

Agostinho, de longe o mais importante Pai da Igreja, escreveu um opus magnus chamado Civitas Dei / Cidade de Deus. Nessa obra descreveu, de um lado, a ordem divina, como prevista na criação, e, de outro, a ordem humana, contaminada pelo pecado (introduzido no mundo pela queda de nossos primeiros pais, que transformou o nosso DNA de forma irremediável…) A primeira, perfeita; a segunda, condenada a imperfeições diversas. Ao fazer a distinção entre essas duas ordens, ou cidades, e reconhecer que a humana é inescapavelmente imperfeita, tanto no plano individual como no social, Agostinho reconhece, digamos que realisticamente, que somos, em nossa vida pessoal e nas construções sociais que elaboramos, inevitavelmente imperfeitos, e que, portanto, desejar e esperar perfeição, nesta cidade humana, é enganar-se e, assim, condenar-se à decepção e à frustração. Perfeição só existe na Cidade de Deus – mas por ora não vivemos nela… (Jesus Cristo, que era ao mesmo tempo homem, Jesus de Nazaré, e Deus, ou o filho dele, o Cristo de Deus, o Enviado de Deus, convivia, simultaneamente nas duas cidades, era um homem perfeito, e, nessa condição, nos liberta, nos salva, da necessidade de buscar a perfeição… A narrativa é fantástica, não há como não reconhecer…).

Por causa dessa visão metafísica da natureza da realidade, inclusive da realidade humana, a antropologia filosófica e a filosofia política de Agostinho foram extremamente realistas. Os governos, admitiu ele, não passam de bandos de ladrões e de corruptos… Imaginar que os governos possam ser puros na intenção e na conduta é desconhecer a realidade da Cidade do Homem… Acreditar que um determinado governo possa ser outra coisa que não um bando de ladrões e corruptos é enganar-se, é tornar-se presa mais fácil dos ladrões e dos corruptos, é condenar-se à decepção e à frustração. Jair Bolsonaro, crente, e presidente que eu ajudei a eleger, devia, no momento certo, ler um pouco de Agostinho…).

A visão realista e, por causa disso, pessimista de Agostinho influenciou os reformadores protestantes. Calvino, em especial, talvez o mais agostiniano dos reformadores, absorveu muito dela. Alguns autores chegaram até a imaginar que Calvino tivesse sido influenciado por Maquiavel, mas, acredito, a água que Calvino bebeu foi mais a que jorrava da fonte do sábio africano do que a do pensador florentino… Ele acreditava que a natureza humana havia sido corrompida pelo pecado, e, que, portanto, mesmo o crente salvo e santificado não consegue escapar da condição humana e, por conseguinte, chegar à perfeição… Apesar do que acreditam alguns calvinistas, a santificação é algo que já ocorreu, em Jesus Cristo, não algo pelo qual devemos batalhar no dia-a-dia da vida cristã…

Adam Smith, filósofo do século XVIII, escocês (a Escócia foi, depois da Suíça Francesa, onde o calvinismo surgiu, a primeira nação realmente calvinista no mundo), o melhor amigo de David Hume e o pai do liberalismo laissez faire que se tornou o alicerce da nação americana (durando cerca de um século ali), aprendeu as lições agostinianas e calvinistas. O homem, diz ele, é egoísta, pensa primeiro em seus interesses e em suas necessidades. Por isso, a ordem social deve ser construída em cima dessa premissa, não negando-a. Tentar construir uma ordem social imaginando ser possível, primeiro, mudar a natureza humana, torná-la altruísta, focada nas necessidades dos outros, é agir na ignorância dessa premissa básica. Tentar construir uma nova ordem social – “um novo mundo é possível” – imaginando que, no processo, conseguiremos criar um novo homem novo, diferente, heterofocado, não egofocado, é condenar o empreendimento, desde o início, ao fracasso – e nos condenar à decepção… A origem do mal, na sociedade humana, a tentação diabólica que sempre nos persegue, desde o Éden, está na “sedução do impossível”… A Serpente seduziu Adão e Eva lhes prometendo que, se desobedecessem a Deus, e comessem do fruto proibido “se tornariam como Deuses” – a sedução do impossível! (Vide Mario Vargas Llosa, La Tentación de lo Imposible / A Tentação do Impossível, a propósito de Les Misérables / Os Miseráveis, de Victor Hugo).

A ordem social possível, segundo Adam Smith, é aquela que (para usar as palavras de Bernard de Mandeville) procura transformar “vícios privados” em “virtudes públicas”… Nas palavras de Adam Smith, o padeiro não pensa primariamente nas minhas necessidades, quando me vende pão: ele pensa, egoisticamente, no interesse dele, que precisa ter uma fonte de renda. Mas ele sabe que seu interesse só vai ser satisfeito se ele pensar na minha necessidade… De igual forma, eu compro o pão dele não porque esteja pensando que o padeiro tem necessidade de dinheiro, precisa de uma fonte de renda, mas porque tenho um interesse, muito egoísta, de me alimentar e prefiro me livrar de um pouco de meu dinheiro comprando pão feito a gastar meu tempo fazendo eu mesmo o pão… Os dois, o padeiro e eu, somos egoístas – mas nosso “vício privado” se transforma numa “virtude pública” que nos beneficia a ambos (e a muitos outros, no processo). Aquilo que, na esfera privada, é um vício, na esfera pública se torna uma virtude. (Vide Ayn Rand, The Virtue of Selfishness / A Virtude do Egoísmo).

Pulemos, agora, do plano social para o plano individual… Saltemos de Agostinho, Maquiavel, Calvino, Adam Smith, e Karl Marx para Vinicius de Moraes…

Uma vez, assistindo ao casamento de um dos filhos de uma de minhas primas, ouvi o pastor dizer algo assim: “Se vocês estão aqui pensando que o casamento vai tornar vocês felizes, podem virar nos calcanhares e ir embora… O objetivo do casamento não é nos fazer felizes, mas, sim, nos dar uma excelente oportunidade de fazer o outro feliz, de tornar feliz o casamento”… Bonito, mas pouco realista. Creio que Aristóteles estava certo de que o animal humano nasce para ser feliz – e vai sempre buscar, egoisticamente, a sua felicidade…  Quando duas pessoas se amam e resolvem viver juntas, um tenta fazer o outro feliz, mas isso acontece, não altruisticamente, porque a felicidade do outro nos importa mais do que tudo, mas egoisticamente, porque ver o outro feliz nos torna felizes… Quando, por alguma razão, a felicidade do outro não nos torna mais felizes, é porque o amor deixou de existir, ou surgiu um outro amor, maior… Nesse caso, deixamos de perseguir a felicidade de nosso parceiro e vamos tentar ser felizes com outro… Assim é a vida… Assim é a realidade…

Vinicius de Moraes… A melhor poesia do diplomata brasileiro convive com uma visão realista da natureza humana… O amor, diz ele, não é imortal, posto que é chama… O máximo que podemos pretender é que seja infinito, enquanto dure! A razão pela qual o amor não é imortal, segundo ele, não está no fato de que nós, que amamos, somos mortais. O amor não é imortal porque ele, o amor, é chama – e a chama pode se apagar a qualquer momento, diante dos ventos que constantemente a açoitam… (No caso do amor, o que parece impossível pode, aparentemente, acontecer: vemos amores que duram 70, 80 anos, e que são, para todos os fins práticos, eternos – casos em que, quando um morre, o outro também morre em seguida, sem precisar se suicidar, porque o que era a vida dele já se acabou e se trata apenas de deixar o corpo morrer também…)

Mas o normal não é isso. Diante da lição de realismo de Vinícius de Moraes, até mesmo o voto de “amar até que a morte nos separe” é uma promessa que, o mais das vezes, por mais que queiramos, não temos como cumprir… a menos que a morte do corpo chegue cedo demais, antes da morte do amor… Amar para sempre, amar eternamente, amar até depois da morte – tudo isso é, na visão do poeta, utopia… O limite do seu realismo está em procurar tornar o amor infinito, enquanto ele dura – sabendo que ele pode terminar a qualquer momento, pela nossa morte… O infinito, para Vinicius, não é sinônimo do eterno.

Em São Paulo, 30 de Outubro de 2018

O Discurso da Vitória e o Discurso da Derrota

O Discurso da Vitória

Jair Messias Bolsonaro

Nunca estive sozinho, sempre senti o poder de Deus e a força do povo brasileiro, orações de homens, mulheres, crianças, famílias inteiras que, diante da ameaça de seguirmos por um caminho que não é o que os brasileiros desejam e merecem, colocar o Brasil, nosso amado Brasil, acima de tudo.

Faço de vocês minhas testemunhas de que este governo será um defensor da Constituição, da democracia e da liberdade. Isso é uma promessa não de um partido, não é a palavra vã de um homem. É um juramento a Deus. A verdade vai libertar este grande país. E a liberdade vai nos transformar em uma grande nação.

A verdade foi o farol que nos guiou até aqui e que vai seguir iluminando o nosso caminho. O que ocorreu hoje nas urnas não foi a vitória de um partido, mas a celebração de um país pela liberdade. O compromisso que assumimos com todos os brasileiros foi de fazer um governo decente, comprometido exclusivamente com o País e com o nosso povo. E eu garanto que assim o será.

Nosso governo será formado por pessoas que tenham o mesmo propósito de cada um que me ouve neste momento. O propósito de transformar o nosso Brasil em uma grande, livre e próspera nação. Podem ter certeza que nós trabalharemos dia e noite para isso.

Liberdade é um princípio fundamental. Liberdade de ir e vir, andar nas ruas em todos os lugares deste País. Liberdade de empreender. Liberdade política e religiosa. Liberdade de informar e ter opinião. Liberdade de fazer escolhas e ser respeitado por elas.

Este é o país de todos nós, brasileiros natos ou de coração, um Brasil de diversas opiniões, cores ou orientações. Como defensor da liberdade, vou guiar um governo que defenda e proteja os direitos do cidadão que cumpre seus deveres e respeita as leis. Elas são para todos, porque assim será nosso governo: constitucional e democrático.

Acredito na capacidade do povo brasileiro, que trabalha de forma honesta, de que podemos juntos, governo e sociedade, construir um futuro melhor. Este futuro, de que falo e acredito, passa por um governo que cria condições para que todos cresçam. Isso significa que o governo federal dará um passo atrás, reduzindo a sua estrutura e a burocracia, cortando desperdícios e privilégios, para que as pessoas possam dar muitos passos à frente.

Nosso governo vai quebrar paradigmas. Vamos confiar nas pessoas. Vamos desburocratizar, simplificar e permitir que o cidadão, o empreendedor, tenha mais liberdade para criar e construir o seu futuro. Vamos desamarrar o Brasil. Outro paradigma que vamos quebrar: o governo respeitará de verdade a federação. As pessoas vivem nos municípios. Portanto, os recursos federais irão diretamente do governo central para os Estados e municípios. Colocaremos de pé a federação brasileira. Neste sentido, é que repetimos que precisamos de mais Brasil e menos Brasília. Muito do que estamos fundando no presente trará conquistas no futuro.

As sementes serão lançadas e regadas para que a prosperidade seja o designo dos brasileiros do presente e do futuro. Este não será um governo de resposta apenas às necessidades imediatas. As reformas a que nos propomos são para um criar novo futuro para os brasileiros. E quando digo isso falo com uma mão voltada para o seringueiro no coração da selva amazônica e a outra para o empreendedor suando para criar e desenvolver sua empresa. Porque não existem brasileiros do sul ou do norte. Somos todos um só país, somos todos uma só nação. Uma nação democrática.

O Estado democrático de direito tem como um de seus pilares o direito de propriedade. Reafirmamos aqui o respeito e a defesa desse princípio… Constitucional… e fundador das principais nações democráticas do mundo. Emprego, renda e equilíbrio fiscal é o nosso compromisso para ficarmos mais próximos de oportunidades e trabalho para todos.

Quebraremos o círculo vicioso do crescimento da dívida, substituindo-o pelo círculo virtuoso de menores déficits, dívida decrescente e juros mais baixos. Isso estimulará os investimentos, o crescimento e a consequente geração de empregos. O déficit público primário precisa ser eliminado o mais rápido possível e convertido em superávit. Este é o nosso propósito.

Aos jovens, palavra do fundo do meu coração, vocês têm vivido um período de incerteza e estagnação econômica. Vocês foram, e estão sendo testados, a provar sua capacidade de resistir. Prometo que isso vai mudar. Essa é a nova missão. Governaremos com os olhos nas futuras gerações e não na próxima eleição.

Libertaremos o Brasil e o Itamaraty das relações internacionais com viés ideológico a que foram submetidos nos últimos anos. O Brasil deixará de estar apartado das nações mais desenvolvidas. Buscaremos relações bilaterais com países que possam agregar valor econômico e tecnológico aos produtos brasileiros. Recuperaremos o respeito internacional pelo nosso amado Brasil.

Durante a nossa caminhada de quatro anos pelo Brasil uma frase se repetiu muitas vezes: “Bolsonaro você é a nossa esperança”. Cada abraço e cada aperto de mão, cada palavra ou manifestação de estímulo, que recebemos nessa caminhada, fortaleceram o nosso propósito de colocar o Brasil no lugar que merece.

Nesse projeto que construímos cabem todos aquele que têm o mesmo objetivo que o nosso. Mesmo no momento mais difícil dessa caminhada, quando por obra de Deus, e da equipe médica de Juiz de Fora, e do Alberto Einstein (sic), ganhei uma nova certidão de nascimento, não perdemos a convicção de que juntos poderíamos chegar a essa vitória.

É com essa mesma convicção que afirmo: ofereceremos a vocês um governo decente que trabalhará verdadeiramente para todos os brasileiros. Somos um grande País e agora vamos juntos transformar esse País em uma grande nação.

Uma nação livre, democrática e próspera. Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.

28-Out-2018

https://istoe.com.br/veja-na-integra-o-pronunciamento-de-jair-bolsonaro-apos-a-vitoria/

O Discurso da Derrota

Fernando Haddad

Boa noite a todos vocês. Estela, Manuela, Lucca, meus filhos, minha mãe, minhas irmãs, todos os companheiros de todos os partidos presentes.

Queria saudar em especial Guilherme Boulos, que foi candidato a presidente, companheiros do PSB, PSOL, presidenta Dilma, senador Suplicy, nossos deputados e senadores.

Em primeiro lugar, gostaria, por minha formação, de agradecer aos meus antepassados. Aprendi com meus antepassados o valor da coragem para defender a justiça a qualquer preço. Aprendi com minha mãe, meu pai, aprendi com a memória dos meus avós que a coragem é um valor muito grande quando se vive em sociedade, porque todos os valores dependem dela.

Queria agradecer a todos os partidos que estiveram conosco, a sua militância aguerrida. Primeiro porque nos levou ao segundo turno, depois, porque nos levou a ter 45 milhões de votos hoje. É uma parte expressiva do povo brasileiro, que precisa ser respeitada neste momento. Que diverge da maioria, tem um outro projeto de Brasil e que merece respeito no dia de hoje.

Sei que entre os 45 milhões de eleitores que nos acompanharam até aqui, muita gente não é de partido político, não é de associação. Sobretudo na última semana o que vimos foi a festa da democracia nas ruas do Brasil. Gente que saiu na rua com colegas, esposa, marido, filhos, que passou a panfletar no país inteiro, que colocou um banco numa praça, colocou cartaz no pescoço e passou a dialogar e reverter o quadro que se anunciava na primeira semana do segundo turno.

E houve uma reversão importante, em função da conscientização sobre o que estava em jogo. E era muita coisa que estava em jogo. Vivemos um período já longo em que as instituições são colocadas a prova a todo instante. A começar de 2016 com o afastamento de Dilma, depois com a prisão injusta do presidente Lula, a cassação do registro de sua candidatura, desrespeitando uma determinação da Nações Unidas, mas seguimos de cabeça erguida, com determinação, com coragem, para levar nossa mensagem aos rincões do país: ao campo e à cidade, às periferias e aos centros, aos estudantes e aos idosos, aos LGBTs, aos homens, mulheres, brancos e negros, evangélicos, àqueles que pertencem a religiões de matriz afro, aos ateus, a todos os brasileiros.

Nós, de forma determinada, fomos a todos os rincões levar a mensagem que vale a pena levar. De que a soberania nacional e a democracia como nós a entendemos está acima de todos nós. Nós temos uma nação e temos de defendê¬la daqueles que de forma desrespeitosa pretendem usurpar o nosso patrimônio, o patrimônio do povo brasileiro.  E entendemos a democracia não só no seu ponto de vista formal, embora isso seja muito importante lembrar no dia de hoje. São os direitos civis, são os direitos políticos, são os direitos trabalhistas e são os direitos sociais que estão em jogo.

Portanto nós temos uma tarefa enorme no nosso país, que é em nome da democracia defender o pensamento e as liberdades destes 45 milhões de brasileiros que nos acompanharam até aqui. Nós temos a responsabilidade de fazer uma oposição colocando os interesses nacionais, o interesse de todo o povo brasileiro, acima de tudo. Por que nós, aqui temos um compromisso com a prosperidade. Nós aqui ajudamos a construir uma das maiores democracias do mundo e temos de ter um compromisso e mantê-la. E não aceitar provocações, e não aceitar ameaças.

Vocês verão que a nação, lembrando nosso hino nacional, verás que um professor não foge à luta. Nem teme quem adora a liberdade à própria morte. O nosso compromisso é um compromisso de vida com este país. Nós temos uma longa trajetória de militância, de vida pública, nós reconhecemos a cidadania em cada brasileiro, em cada brasileira e nós não vamos deixar esse país pra trás. Nós vamos coloca-lo acima de tudo e nós vamos defender os nossos pontos de vista, respeitando a democracia, respeitando as instituições, mas sem deixar de colocar o nosso ponto de vista, sobretudo o que está em jogo no Brasil a partir de agora.

E tem muita coisa em jogo e nós precisamos compreender o que está em jogo. Nós temos que fazer uma profissão de fé e que nós vamos continuar nossa caminhada, conversando com as pessoas, nos reconectando com as bases, nos reconectando com os pobres desse país, para retecer um plano, um programa de nação que há de sensibilizar mentes e corações desse país.

Daqui a quatro anos nós teremos uma nova eleição, nós temos que garantir as instituições, nós não vamos sair das nossas profissões, dos nossos ofícios, mas não vamos deixar de exercer a nossa cidadania. Vamos estar o tempo inteiro exercendo essa cidadania e talvez o Brasil nunca tenha precisado mais do exercício da cidadania do que agora.

Eu coloco a minha vida à disposição desse país, tenho certeza que falo por milhões de pessoas que colocam o país acima da própria vida, acima do próprio bem-estar. Quero dizer pra aqueles que eu, olhando nas ruas desse país em todas as regiões, eu senti uma angústia e um medo na expressão de muitas pessoas. Que às vezes chegavam a soluçar de tanto chorar.

Não tenham medo. Nós estaremos aqui. Nós estamos juntos. Nós estaremos de mãos dadas com vocês. Nós abraçaremos a causa de vocês! Contem conosco! Coragem! A vida é feita de coragem! Viva o Brasil! Viva o Brasil!

28-Out-2018

https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/2018/10/28/haddad-fala-em-nao-aceitar-ameacas-a-democracia-leia-integra-do-discurso.htm

Outro Discurso da Derrota

Barack Obama

“Muitos americanos como nós estão hoje exultantes hoje. Muitos outros, nem tanto. Mas esta é a natureza de campanhas eleitorais. Esta é a natureza da democracia. Viver a democracia é difícil. E, em algumas ocasiões, a vida numa democracia é conflituosa e barulhenta. Nem sempre viver numa democracia é algo inspirador. Há ocasiões em que você perde uma discussão. Em outras, você perde uma eleição. Mas é assim que a política funciona numa democracia. Tentamos, com todas as nossas forças, persuadir as pessoas de que estamos certos. E daí as pessoas votam. Se nós perdemos, devemos aprender com os erros que fizemos: refletimos um pouco, lambemos nossas feridas, sacudimos a poeira, e voltamos para a arena. Retomamos o jogo. Tentamos de novo, lutando com mais forças ainda. O importante é que todos caminhemos para a frente, com a presunção de que há boa fé naqueles que, como nós, são cidadãos do mesmo país. Porque essa presunção, de que os outros agem em boa fé, é essencial para uma democracia vibrante e que funciona bem. Antecipo fazer tudo o que possa para que o próximo presidente tenha sucesso em manter esse tipo de democracia. Como eu já disse antes, vejo o ofício de presidente como uma corrida de revezamento. Você pega o bastão, corre o melhor que você consegue, na esperança de que, na hora de entregar o bastão ao próximo corredor, você tenha aumentado a vantagem do seu time, você o tenha colocado um pouco mais à frente. E eu posso dizer que nós fizemos isso e quero ter certeza de que nossa transmissão do bastão seja bem executada, porque, afinal de contas e acima de tudo, somos todos corredores de um mesmo time.”

[Tradução de Eduardo Chaves]

Notas Posteriores de Eduardo Chaves, autor deste post

[NOTA 1]

Não gosto do Barack Obama — e acho que ele foi um péssimo presidente dos Estados Unidos, país que considero meu país fora do Brasil. Mas a atitude e a fala dele aqui, depois da vitória do Donald Trump sobre Hillary Clinton, são perfeitos. Embora a derrotada tenha sido Clinton, Obama também foi derrotado, porque ele fez campanha para Clinton, meteu-se em sua campanha e em sua defesa até o pescoço. E perdeu, sim, com ela e junto dela. Mas ele Obama teve um discurso perfeito. A atitude dele, naquela hora, também foi perfeita. Antes da eleição ele se envolveu na campanha de Clinton muito mais do que seria recomendável para um presidente em pleno exercício do cargo. Parecia até que o candidato a Presidente que concorria com Trump era ele, Obama, e não Clinton. Depois da vitória de Trump, em que ele fez este discurso, ele se perdeu de novo e não seguiu a própria prescrição, dando alguns golpes baixos em Trump (e quebrando a praxe de que um ex-presidente, que já esteve no maior cargo da nação, não critica o seu sucessor e não tenta fazer a vida dele mais difícil do que normalmente já é). Mas na hora da eleição do adversário em quem muita gente não punha nenhuma fé, seu discurso e sua atitude foram impecáveis. Isso deve ser reconhecido.

Em um post no Facebook, logo depois que foi anunciado de que Haddad não iria cumprimentar Bolsonaro, escrevi o seguinte:

“Nos Estados Unidos, antes de a CNN anunciar que Donald Trump havia ganho, Hillary Clinton havia ligado para lhe dar os parabéns. Noblesse oblige.

Aqui no Brasil, assessores do Haddad disseram que ele não vai ligar para ninguém. Aqui não há nobreza nenhuma no PT.”

O Discurso da Derrota de Haddad veio depois desse comentário meu, no tempo (no dia 28/Out/2018.

[NOTA 2]

Em 29-Out-2018, cedo, foi divulgado o seguinte tuíte de Antonio Amoêdo, quarto colocado no Primeiro Turno, que eu publiquei em meu Facebook:

“Gostaria de cumprimentar o Deputado Jair Bolsonaro pela eleição ao posto máximo da nação brasileira. A partir de agora ele deixa de ser o candidato de muitos brasileiros, para ser o Presidente de todos, com a missão de unir o país.”

[NOTA 3]

Em 29-Out-2018 Haddad, mais tarde, quem sabe envergonhado pelas lições de  Barack Obama e de João Amoêdo, reviu sua posição e divulgou o seguinte tuíte, que também publiquei em meu Facebook, com o comentário ‘Meno male”:

“Presidente Jair Bolsonaro: Desejo-lhe sucesso. Nosso país merece o melhor. Escrevo esta mensagem, hoje, de coração leve, com sinceridade, para que ela estimule o melhor de todos nós. Boa sorte!”.

[Nota 4]

[Acabo (29/102018, 12h30) de publicar este post no meu Facebook, compartilhando um artigo.]

Magnífico o artigo de meu xará Eduardo Affonso, aqui no Facebook, com o título “Deus Mora nos Detalhes”… (o link está abaixo). A capacidade de observação dele é incrível. Mas mais importante é a sensibilidade, em alguém que se diz ateu, de alcançar uma visão de Deus que é extremamente instigante… mas evangélica… (Jesus não era o Filho de Deus que se esperava — por isso os Judeus não viram nele o Filho de Deus…) Eu, que também me disse ateu por muito tempo, e realmente acreditava que fosse, hoje não mais o faço, fiquei emocionado com o artigo. Fez-me lembrar textos de Elienai Cabral Junior (que escreveu o livro Salvos da Perfeição).

Aqui vai a transcrição: :

“Podendo morar onde quiser, no Joá, na Provence, na Costa Amalfitana, num sítio em Lumiar, Ele prefere um cantinho (detalhes são sempre acanhados), um pormenor (detalhes são sempre periféricos) para chamar de seu.

Deus vive é nas desimportâncias, nos avessos, nas entrelinhas. Jamais será encontrado sob os holofotes, de megafone na mão, no centro das atenções. Quem está ali é um figurante, uma pista falsa.

Nas selfies diante do espelho do banheiro, Deus não está no peito inflado, no decote, na barriga tanquinho, mas na calcinha pendurada na torneira lá atrás, no limo da junta do azulejo, no frasco de xampu de cabeça para baixo.

Procure Deus nos discursos de ontem. É tão divertido quanto procurar Wally.

Lá estará ele, insofismável, na bandeira torta que serve de pano de fundo, pregada à parede pelas pontas com fita isolante. Na menorá que espreita a cena do vão entre o gaguejante presidente e a empolgada tradutora da linguagem dos sinais.

O enquadramento é tosco, a qualidade do vídeo é precária: isso é Deus, o mesmo Deus presente nas cenas em que o futuro presidente aparece sob um varal onde secam panos de chão, por trás da mesa em que repousa uma raquete de matar mosquito, abaixo da gambiarra que lhe servirá de luminária. O meio é a mensagem.

Apure o ouvido, e ouvirá Deus nos discursos da vitória. Ele não estará nas palavras, na sintaxe, nas promessas, mas nas pausas erradas, na dicção tatibitate, na leitura monocórdia à la aluno de ensino fundamental. Deus não consegue ler certo pelas linhas tortas do teleprompter de papel A4.

Onipresente, Ele não se furta a comparecer ao discurso do candidato derrotado. Ei-lO na forma da vice que carrega a filha no colo (o corpo fala). Está, inteiro, eloquente, nas frases não ditas – na inadmissão dos erros, na recusa em desejar sucesso ao novo governo – e nas narrativas reiteradas.

Olha Deus lá no fundo, à esquerda, fora do enquadramento, de taiê vermelho – o mesmo do impítimã, da derrota para o senado em Minas. Deus não mora nos protagonismos, mas nas irrelevâncias.

Não há negros na cena dos que defendem os negros. Isso é Deus.

Há um negro com o largo sorriso dos eleitos na cena dos que odeiam negros. Isso é Deus.

Há uma tradutora (ligeiramente acima do peso) para surdos-mudos na cena dos que excluem minorias. Isso é Deus.

É Deus também não haver atenção aos portadores de deficiência auditiva na cena do porta-voz dos excluídos.

É doméstica, improvisada, a cena dos vencedores, dos ricos, dos de ensino superior completo.

A dos vencidos, dos pobres e oprimidos, é profissional, com palanque montado em hotel 4 estrelas.

Detalhes são coisas muito grandes para esquecer. Não só porque Deus more lá, mas porque é também lá que o Diabo se hospeda.

 

Em São Paulo, 29 de Outubro de 2018.

Novas Gerações Mimadas e “Estragadas”

Um livro interessante, de autoria conjunta de Jonathan Haidt e Greg Lukianoff, discute um problema sério que existe nos Estados Unidos hoje: a sensibilidade das duas últimas gerações (por aí) está se tornando por demais exacerbada, porque essas gerações foram mimadas demais – e o excesso de mimo as “estragou” (da mesma forma que o excesso de atenção, cuidado e liberalidade pelos avós “estraga” os nossos filhos).

O americano mais antigo, que livros e filmes costumavam chamar de “The Ugly American” (O Americano Feio), tipificado por Marlon Brando, no filme de 1954 On the Waterfront (Sindicato de Ladrões, no Brasil, Há Lodo no Cais, em Portugal), era um sujeito de “casca dura”, que aguentava bastante bem um bate-boca pesado, e, no mais das vezes, se saía vencedor dele. O americano das novas gerações, ao contrário, é o que os autores chamam de “The Coddled American” (O Americano Mimado), um sujeito de “casca fina”, extremamente delicada, supersensível, protegido ao extremo, tratado com excesso de indulgência, que foi “estragado” por excesso de mimo… Qualquer coisa o magoa ou ofende – e sua reação não é revidar, partir para o bate-boca pesado, de gente grande… Sua reação é buscar a proteção da autoridade – em última instância, do governo (que, por sinal, tem atendido a maior parte de suas demandas – o que torna a situação ainda pior, porque mostra que, de certa forma, dá certo e vale a pena se passar por vítima). Os Estados Unidos viraram uma nação de vítimas.

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Haidt e Lukianoff deram ao seu livro o título de The Coddling of the American Mind: How Good Intentions and Bad Ideas are Setting Up a Generation for Failure. O verbo “coddle” quer dizer mimar, superproteger, “estragar” uma criança por excesso de atenção e cuidado (como em geral o fazem, do ponto de vista dos pais, os avós, como mencionado atrás). A tradução (admitidamente difícil) do título poderia ser Excesso de Indulgência para com a Mente do Americano: Como Boas Intenções e Ideias Ruins Estão Preparando uma Geração para o Fracasso. O livro foi publicado neste ano de 2018 pela Penguin Press (New York). Ambos os autores têm livros importantes que, de certo modo, prepararam o caminho para este. Jonathan Haidt é autor de The Righteous Mind: Why Good People Are Divided by Politics and Religion (A Mente Justa: Por que Pessoas Boas São Divididas pela Política e pela Religião) e Greg Lukianoff de Unlearning Liberty: Campus Censorship and the End of American Debate (Desaprendendo a Liberdade: Censura no Campus e o Fim do Debate nos Estados Unidos).

A tese dos autores (um, Haidt, é psicólogo na linha da Psicologia Positiva de Martin Seligman, o outro, Lukianoff, é advogado que concentra sua atenção na defesa do direito de pensar livremente e expressar com igual liberdade o pensamento através da linguagem) é relativamente simples. Essa sensibilidade exacerbada prejudica as pessoas e enfraquece a nação.

Haidt e Lukianoff começam o seu livro discutindo “Três Grandes Inverdades” – algo que poderia ser mais bem descrito como “Três Grandes Tendências Prejudiciais aos Indivíduos e à Sociedade”.

A primeira dessas tendências pode ser introduzida, pela via negativa, por um ditado que existe, em variante, aqui no Brasil. Aqui o ditado é “O que não mata, engorda”. Nos Estados Unidos é “O que não mata, fortalece” (versão, na minha opinião, bem mais adequada). Esse ditado expressa uma grande verdade (não uma inverdade). A ideia do ditado, em sua versão americana, evidentemente é que debate, a discussão, o bate-boca, ainda que acirrado e pesado (desde que não chegue às vias de fato, em que um debatedor silencia o outro na porrada e, em casos extremos, matando-o), só torna as pessoas mais fortes. Os autores lamentam o fato de que o ditado acabou se tornando diferente, na realidade o seu oposto, na vida acadêmica americana, onde vigora hoje o seguinte princípio: “Mesmo que não mate, a linguagem que usamos pode machucar e, assim, enfraquecer as pessoas com quem dialogamos, ou a quem nos dirigimos, ou a quem nos referimos”. Essa a primeira tendência, que os autores chamam de primeira grande inverdade.

A coisa começou na universidade, que, com (talvez) a boa intenção de não permitir que pessoas de raça, sexo e orientação sexual diferente fossem ofendidas pelas demais (de raça “majoritária”, de sexo “forte”, de orientação sexual “dominante”), criaram Speech Codes (Códigos de Fala), proibindo determinados tipos de palavras e expressões em debate, em discussão ou mesmo em conversa informal e corriqueira no campus. Da universidade a coisa se expandiu para a mídia e de lá para a sociedade em geral. Determinados termos, determinadas expressões, e mesmo determinados conteúdos (ainda que expressos em linguagem inatacável) se tornaram tabus. Com isso surgiu o que poderia ser chamada de uma polícia linguística (que, na realidade, é uma “polícia do pensamento”, que se incumbiu (e em muitos casos foi oficialmente incumbida) de punir linguagem “politicamente incorreta”. O politicamente correto acabou por ir além de temas como raça, sexo e orientação sexual.

O fenômeno já chegou ao Brasil. Talvez o exemplo mais chocante tenha sido o do crítico de cinema Rubens Ewald Filho, na transmissão do Oscar de 2018 pela TNT. A apresentação da canção “Mystery of Love“, trilha sonora do filme que em Português se chama “Me Chame Pelo Seu Nome”, foi feita por uma pessoa chilena que é “transgender” e que é conhecida pelo nome de Daniela Vega. Ela, que foi a protagonista do filme  “Uma Mulher Fantástica” (título em Português), premiado como o melhor filme estrangeiro, em que representa uma pessoa “transgender”, estava linda, maquiada como mulher e vestida de mulher. Com o intuito de informar os telespectadores – era para isso que ele ali estava, não é verdade? – Rubens Ewald Filho disse no ar algo como: “Apesar da aparência e do nome, ela é um rapaz”. Foi crucificado. Houve abaixo-assinados para que ele fosse imediatamente demitido de sua função de crítico do Oscar pela TNT – que não o demitiu mas o censurou publicamente, levando-o a pedir desculpas também publicamente, não se sabe muito bem a quem: provavelmente aos que se ofenderam com sua insensibilidade. Foi execrado como sexista e transfóbico. Esse tratamento em geral é chamado de “public shaming” (envergonhamento publico, execração pública). (Vide https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2018/03/05/tnt-reprova-comentarios-de-rubens-ewald-filho-no-oscar-critico-se-desculpa.htm).

A segunda dessas tendências (ou inverdades) é que as pessoas se dividem, naturalmente, em dois grupos: as pessoas do bem (que aceitam sem problema a nova sensibilidade) e as pessoas do mal (que se recusam a aceita-la): em geral, “nós”, a gente do bem, e “eles”, a gente do mal.

Os do mal, nos Estados Unidos, são facilmente identificados por seu uso de linguagem politicamente incorreta – ainda que esse uso seja não-intencional, como frequentemente acontece com pessoas para quem o Inglês é uma segunda ou terceira língua. Apesar de aparências e mesmo afirmações ao contrário, o Inglês é complicado. O artigo “the” pode significar “o”, “a”, “os” e “as” – e certas palavras, como “professor”, “teacher”, “doctor”, etc. podem se referir tanto a alguém do sexo masculino como do sexo feminino. Tradicionalmente, era normal e aceitável (parte da norma culta) dizer “I asked a doctor and he told me that…”, usando o pronome em concordância com o gênero masculino, independentemente do sexo da pessoa. Isso não mais se admite na universidade. É necessário usar uma linguagem que, a muitos, em especial aos estrangeiros, parece canhestra: “I asked a doctor and he/she told me that…” ou “I asked a doctor and s/he told me that…” ou, hoje mais comum, “I asked a doctor and they told me that…”. No último caso, tornou-se uma praxe do politicamente correto usar o pronome no plural (em que they significa tanto eles como elas). Alguns autores preferem alternar, usando ora “he / his”, ora “she / her / hers”, quando não se revela o sexo do referente. Usar a forma tradicional de concordar uma referência a alguém de sexo não definido com o pronome masculino é incorrer no grande pecado de “sexismo”.

Algo parecido se dá com o uso de termos que passaram a ser considerados tabus.

A forma de se referir a alguém de outra raça (ou mesmo etnia) também se complicou. Tradicionalmente se referia a alguém da raça negra como “a negro”. (Nunca “a nigger”, que sempre demonstrou preconceito, exceto quando usado por um negro / uma negra (!) para se referir a si próprio / própria (!). Depois que os próprios / as próprias (!) começaram a se referir a si próprios / próprias (!) como “blacks”, esse termo se tornou mais ou menos padrão, embora haja quem prefira usar “people of color” como uma expressão supostamente mais neutra, que inclui negros, vermelhos (índios ou aborígenes – os tradicionais “peles vermelhas”, expressão hoje condenada), marrons (hispânicos – que em regra incluem os portugueses e brasileiros), amarelos (orientais, em geral), etc. A expressão tradicional “colored people” para se referir aos negros /negras / pretos / pretas (!) foi anatematizada, porque coloridos / coloridas somos todos / todas  (embora a expressão “people of color” exclua os brancos / as brancas (!), que, supostamente, são “sem cor”…). Não ser sensível a essas nuances de linguagem pode fazer com que alguém seja acusado de usar linguagem racista – talvez um pecado mais grave do que ser chamado de sexista. (No Brasil, ser racista dá cadeia. Ser sexista, ainda não.) Reflita-se se é possível compor um texto estilisticamente decente com todas essas precauções. Jorge Amado que o diga.

A forma de se referir a alguém que é homossexual também se complicou. O termo “gay” se tornou razoavelmente padrão (embora haja dúvida se ele se aplica a todos os homossexuais, independentemente de seu sexo, ou se o termo “lesbian” deve ser preferido para homossexuais do sexo feminino). As variações de comportamento sexual mais recentemente admitidas, como “bisexual” (em Inglês com um “s” só) e “transsexual” (este com dois “s” em Inglês) acabou por levar à sigla LGBT (Lesbian, Gay, Bisexual, Transsexual), hoje amplamente usada, inclusive no Brasil, onde algumas letrinhas são acrescentadas, que só os ultra-especializados conseguem explicar (embora, no caso do último termo, hoje se prefira “Transgender” a “Transsexual”).

A preocupação de Haidt e Lukianoff não é com os detalhes da linguagem politicamente correta, mas com o fato de que a sua adoção é usada como critério para demarcar “a turma do bem” da “turma do mal”, entre “nós” e “eles”.

Isso já se dá também no Brasil.

Se alguém inicia uma palestra dizendo “Boa noite a todos e todas”, em vez do convencional “Boa noite a todos” (que inclui todas as pessoas e todos os pessoos (!), independentemente de seu sexo), ele ou ela (!) está dizendo que faz parte da turma do bem… (Se quem está falando for mulher, é de rigueur que diga “Boa noite a todas e todos” – pondo o pronome feminino antes. Quem não segue essa praxe é considerado insensível à questão do gênero (expressão aqui preferível à expressão “questão do sexo” ou “questão sexual”, porque é de palavras, vale dizer, de linguagem que se trata, não de biologia).

Aqui no Brasil já se começa ver, na televisão, negros se referirem a si mesmos como pretos. (Alguns negros / pretos sempre usaram os termos “crioulo / crioula” para se referirem a si próprios, mesmo depois desses termos serem considerados pejorativos se usados por um branco / uma branca (!) para se referir a alguém da outra raça. (Mesmo falar em “raça” se tornou problemático, havendo “cientistas” que afirmam que raças não existem). Quando eu era adolescente havia um jogador de futebol do Fluminense cujo apelido era “Escurinho”. Esse apelido era considerado tão normal quanto apelidos como Japonês / Japa, Português / Portuga, Alemão, Gringo (para Americano), etc. Houve época em que, em formulários, ao preencher ao campo “Cor”, alguns, hoje denominados pardos, informavam: “Escurinho / Escurinha” (ou, então, “Moreno  / Morena”). Hoje, não mais.

Como é que se designa alguém nascido / nascida (!) nos Estados Unidos ou que é cidadão / cidadã (!) daquele país. Tradicionalmente se dizia “americano / americana” (!). O nome oficial do país é “United States of America”, ou, na prática, simplesmente “America”. Nosso país, quando se tornou independente, e por muito tempo, se denominou “Estados Unidos do Brazil” (assim com “z” na grafia antiga). Embora a gente também vivesse numa das Américas, a gente se designava simplesmente “brasileiro / brasileira” (!).

Hoje a gente encontra no Brasil toda forma de absurdos: “norte-americano / norte-americana” (como se os canadenses e mexicanos / mexicanas (!) não o fossem; “estadunidense”, embora ninguém nascido / nascida (!) no Brazil / Brasil de antigamente se denominasse “estadunidense”, em vez de brasileiro / brasileira (!), etc.

A terceira das três tendências (ou inverdades) é que essas questões de sensibilidade / insensibilidade nada têm que ver com a razão, mas, sim, com o sentimento (identificado pela intuição e não pela razão). Assim se elimina toda uma área, a importante área da linguagem, da fala, da escrita, do discurso, do âmbito da análise racional, deixando-a à mercê dos sentimentos e da intuição – que é algo que, supõe-se, não se discute ou debate, simplesmente se reconhece.

Como já observado, muitas dessas questões se aplicam ao Brasil de hoje, dividido entre dois grupos: a esquerda e a direita, os petistas e os antipetistas. É forçoso reconhecer que há antipetistas que se reconhecem como de esquerda, e que, entre os restantes, há muitos que não se reconhecem como de direita, preferindo se identificar como liberais. Eu, por exemplo, sou antipetista radical, mas sou a favor do aborto, em várias situações, não sou contra o reconhecimento legal de uma sociedade conjugal entre pessoas do mesmo sexo, defendo uma educação libertária, não tradicional, e desescolarizada (vista a escola como ela é hoje), isto é, sem currículo, sem ensino, sem professor, sem avaliação, etc.

Para que algumas dessas questões se resolvam, concordo com os autores que, antes de mais nada, a nossa sensibilidade deve se tornar menos exacerbada. Devemos reconhecer, entre outras coisas, que a linguagem, excetuados os casos claros de calúnia, difamação e real injúria objetiva (não a injúria subjetiva frequentemente alegada hoje), não fere ou machuca, embora, dependendo de quem venha, possa irritar e e até mesmo magoar. Reconheço que as linhas demarcatórias entre um xingamento e uma calúnia, entre uma ofensa absorvível e uma difamação, entre um abuso (chamar alguém de vagabundo, estrupício, canalha, mau caráter, etc.) e uma real injúria, que cause danos e prejuízos à pessoa, são difíceis de definir – mas é preciso tentar, desde que o Judiciário tenha bom senso e saiba analisar os fatos e as normas com neutralidade e isenção.

Nos séculos 16 e 17 houve várias guerras motivadas por questões religiosas. Hoje o clima de opinião e sentimento é tão aguçado, em especial nos Estados Unidos e no Brasil, que não é difícil imaginar que possa haver guerras por questões políticas. Brigas e assassinatos por causa de futebol já são comuns. Neste contexto, recomendo a leitura deste livro e do livro anterior de Haidt, mencionado atrás.

Em São Paulo, 20 de Outubro de 2018.

Aprendizagem sem Hora Marcada

RECOMENDO, sem reservas, o livro cuja capa aparece na foto a seguir e cuja resenha é acrescentada como Anexo.

Timeless Learning

Seu título é Timeless Learning: How Imagination, Observation, and Zero-Based Thinking Change Schools. O título é meio difícil de traduzir para o Português, mas eu o traduziria livremente como Aprendizagem sem Hora Marcada: Como a Imaginação, a Observação, e uma Abordagem Teórica que Começa do Zero Mudam as Escolas. Seus autores são Ira Socol, Pam Moran, e Chad Ratliff e o livro acaba de ser lançado em 2018 pela Jossey-Bass, uma marca inovadora da tradicional casa editorial, John Wiley & Sons, fundada em 1807, duzentos e onze anos atrás (https://www.wiley.com/). Esse fato já é, em si, simbólico: ele mostra que tradição e inovação não são necessariamente abordagens incompatíveis. (Um pouco mais sobre isso, abaixo.)

Clicando no link abaixo você vai para uma excelente resenhado livro escrita por Will Richardson, que me foi enviada por meu grande amigo, o educador australiano Bruce Dixon (do qual fui colega durante dez anos, de 2003 a 2013, no International Advisory Boardda iniciativa global da Microsoft na área da Educação conhecida como Partners in Learning (PIL). Ambos, Will e Bruce, coordenam o importante site Modern Learners (https://modernlearners.com/).

Há muito tempo que eu estou totalmente convicto de que a escola tradicional / convencional (a praga que temos espalhada por aí, em todo canto) já viveu pelo menos meio século, ou, talvez, mais de um século, de total anacronismo.

Ela é se tornou anacrônica já há algum tempo porque foi criada para a Civilização Industrial— a civilização das coisas padronizadas e estandardizadas, do cada coisa “a seu tempo”, “em série” e na “ordem certa”, a civilização dos grandes estoques, e não da produção “Just in Time” e “Just Enough”… – e essa civilização já acabou e está morta, faltando só enterra-la definitivamente.

Nessa Civilização Industrial todo mundo, quando chegava a uma determinada idade (sete, seis, cinco anos, por aí), era internado em uma mesma instituição, a escola, para aprender as mesmas coisas (uma grade curricular inflexível, composta de informações e conhecimentos organizados em matérias e disciplinas, centradas em linguagem, matemática e ciências – e que não era chamada de “grade” por acaso…), da mesma forma (assistindo a aulas monótonas e cansativas ministradas por professores / ensinantes entediados por estarem aulando as mesmas coisas pela enésima vez), na mesma sequência (séries), as séries sendo “casadas” com as idades das crianças / adolescentes / jovens, e a “aprendizagem” destes (entendida como a absorção das informações e conhecimentos que lhe eram passados) sendo avaliada mediante testes, provas e exames.

A vida das pessoas, na Civilização Industrial, também era segmentada: uns poucos anos para brincar(de um a seis, cinco ou quatro), vários outros anos supostamente para aprender(mais quatro, cinco, seis, dez, quatorze, dezoito) para aprender, cerca de trinta a quarenta para trabalhar, e, ao fim, o que sobrar para finalmente desfrutar a vida, e/ou preparar-se para a morte, ao longa da aposentadoria.

A razão pela qual a internação na escola precisou ser gradualmente estendida – a escolaridade obrigatóriaera de quatro anos, inicialmente, hoje é de cerca de dezoito – deveu-se ao fato de que se acreditava que, na vida, havia uma fase dedicada exclusivamentea aprender, durante a qual se deveria aprender tudo aquilo que pudesse vir a ser necessário nas fases posteriores (num processo semelhante ao de estocagem), em especial na fase dedicada ao trabalho produtivo. Assim, além de se estender o número de anos de internação na escola, também aumentou-se o número de dias passados na escola durante o ano (o calendário escolar também foi espichado), e o número de horas passadas na escola durante o dia se ampliou – o ideal passando a ser a “escola de tempo integral” – em que crianças / adolescentes / jovens passam internados durante cerca de dezoito anos na melhor fase da vida! Assim a educação das crianças / dos adolescentes / dos jovens foi escapando das mãos da família nuclear e estendida, e da comunidade imediata em que essa família vivia, para passar para as mãos do estado, a ponto de o nosso nefasto Supremo Tribunal Federal há dias ter negado aos pais o direito de conduzir a educação dos filhos sem interna-los na prisão escolar.

Essa civilização começou a ser suplantada e substituída pela Civilização da Aprendizagem(que recebe vários outros nomes, como Civilizaçãoda Criatividade, ou, com base em seu insumo básico, Sociedade da Informação e Sociedade do Conhecimento) desde o final da Segunda Guerra, ou, pelo menos, a partir de meados dos anos 1950, quando mais pessoas passaram a trabalhar na área de serviços, relacionamentos, informações e conhecimentos(o chamado setor terciárioda economia) do que nas áreas da extração de matérias primase da agropecuária(o setor primário da economia) e da indústria de transformação (o setor secundário da economia) COMBINADAS.

Tomei conhecimento desse fato em 1980, quando li pela primeira vez o livro The Third Wave/ A Terceira Onda, de Alvin Toffler, publicado naquele ano, dez anos depois do seu também muito bem sucedido Future Shock/ Choque do Futuro, de 1970). Assim que li o livro resolvi dar um curso eletivo sobre ele no Curso de Pedagogia aa Faculdade de Educação da UNICAMP, da qual havia me tornado diretor naquele ano, e fiz exatamente isso (apesar de o Diretor ser dispensado de aular).

Desde então, passei a estudar regularmente esse ingresso do nosso mundo ocidental civilizado na Terceira Onda. Aqui no Brasil nós, apesar de avanços, estamos sempre atrasados. Nossa economia ainda é tremendamente dependente de atividades de Primeira Onda (extração de minerais e petróleo, agricultura, pecuária, etc.), nossa atividade na área da Segunda Onda (indústria de transformação) é relativamente pequena e oscilante, e ainda não ingressamos de forma generalizada na Terceira Onda, exceto em grandes cidades da linha de frente da economia, como, no Estado de São Paulo, a capital, São Paulo, Campinas, São José dos Campos, Ribeirão Preto, etc. e, fora do Estado de São Paulo, principalmente Curitiba.

Inicialmente, defendi a tese de que era preciso radicalmente transformar a escola, para adequa-la à Civilização da Aprendizagem e da Criatividade. Escrevi um livro, em 1998, a pedido do Ministério da Educação (MEC), com o título Educação e Tecnologia: O Futuro da Escola na Sociedade da Informação. Por desentendimento com o MEC acerca de direitos autorais, o MEC acabou não distribuindo o livro – e eu o distribuí muito mal, colocando em meu site uma versão PDF, a partir do ano 2000. Ao longo de 2001-2002, escrevi outro livro, em decorrência de minhas consultorias à Microsoft Brasil e ao Instituto Ayrton Senna, que acabei não publicando, depois de já estar aprovado pela editora (SENAC), porque meu pensamento estava evoluindo muito rápido naquela época, em especial em função de minhas conversas e discussões com dois educadores de escol, Rubem Alves e Antonio Carlos Gomes da Costa. O título que dei ao livro foi Educação e Desenvolvimento Humano: Uma Nova Educação para uma Nova Era. Ele foi usado para uma formação que dei aos primeiros constratados pelo Ricardo Semler e pela Helena Singetr para serem os tutores e mestres iniciais da Escola Lumiar. (Para os interessados, estou presentemente a tomar providências para publicar esses dois livros em formato de e-book através da Editora Kapenke, de meu sobrinho, Vítor Chaves de Souza).

A partir de alguns anos atrás tenho defendido a tese illichiana da Descolarização da Sociedade, que eu chamo (com algumas nuances de sentido) de Desescolarização da Educação, como se pode constatar em meu blog / site Deschooling Education (https://deschooling.education/).

Temos tido, minha mulher e eu, interessantes discussões sobre a questão da viabilidade da escola hoje. Ela, Paloma E M C Chaves, ainda acredita que a escola tem algum futuro, desde que radicalmente transformada. Eu, da minha parte, prefiro lutar diretamente por uma Learning and Creative Society– uma Sociedade da Aprendizagem e da Criatividade, em que livremente se aprende anytime, anywhere and anyhow, ao longo da vida inteira, em função das necessidades e dos interesses de cada um, sem que a aprendência e a criativivência sejam institucionalizadas.

Note-se que John Dewey(e discípulos brasileiros seus, como Anísio Teixeira), embora ainda não estivessem prontos para considerar a desescolarização ou desinstitucionalização da educação, defenderam uma educação centrada nos aprendentes (não nos ensinantes) e entremeada com a vida, os interesses, e a experiência desses aprendentes, tanto dentro como, especialmente, fora da escola. Esse tipo de educação foi chamado de Educação Ativaou Educação Progressista. Mais recentemente (começando uns trinta anos atrás), li com o maior interesse as obras de John Holt, considerado o pai não só do movimento chamado de Home Schooling, um nome que considero inadequado, mas também do movimento denominado, mais apropriadamente, Unschooling. Mas esses dois movimentos ainda são bastante minoritários.

Hoje em dia temos, em movimentos majoritários, temos duas tendências.

De um lado, defensores da escola tradicional / convencional, apoiados em algumas iniciativas reformadoras, mas quase nunca radicalmente transformadoras, e em geral centradas no uso controlado (ensinante) e domesticado da tecnologia (uso esse não-disruptivo do currículo e da metodologia escolar), têm procurado reforçar a tese de que a escola deve centrar sua atenção nas matérias e disciplinas básicas, que, para eles, são Linguagem, Matemática e Ciências – talvez com uma breve pitada de Solução de Problemas, para os mais inclinados para as Ciências Naturais, as Engenharias, e as Tecnologias em geral.

Do outro lado, temos defensores de uma educação escolar liberal, focada na leitura dos Clássicos e das Grandes Obras Filosóficas e Literárias da Civilização Ocidental, que hoje também não prescide do uso da tecnologia, mas que é voltada para os mais inclinados para a área de Humanidades e Ciências Humanas (como certamente é o meu caso).

Lembram-se do tempo em que o Segundo Ciclo do Ensino Secundário, o chamado Colegial, era dividido entre Científico e Clássico? Eu comecei a cursar o Científico e o abandonei depois de um semestre apenas: fui cursar o Clássico, em que me realizei. A divisão de alguma forma continua…

Mas eu evoluí…

Se você está entre aqueles que, como eu, acha que a Educação não deve preparar apenas para uma carreira e uma profissão, mas para a vida, e que sempre ficaram, nos últimos tempos, em que as ideias de John Dewey ficaram em baixa, espremidos nessa briga entre Cientistas Naturais e Engenheiros, de um lado, e Bacharéis e Intelectuais, do outro, o livro resenhado é um alento.

Depois de passar os olhos, em leitura dinâmica, pelo livro resenhado, estou quase a concluir que não é preciso decidir, primeiro, se a escola, enquanto tal, é recuperável ou se ela está definitiva e irrecorrivelmente condenada à morte, sem direito a sursis. O futuro decidirá isso.

O que é preciso fazer com urgência é refocar a educação na Vida e no Desenvolvimento Humano. Para isso, a tecnologia (hardware + software) é importante, mas não é essencial. Essencial é entender a educação como desenvolvimento do nosso mindwarepara que possamos viver vidas realizadas e felizes. Por isso publico este artigo também nos meus blogs Mindware Education(https://mindware.education/), EduTec Space (https://edutec.space/), e no meu Portal de Blogs, Chaves Space(https://chaves.space/).

Em Cortland, OH, 1º de Outubro de 2018.

o O o

ANEXO:

Choosing Progressive Education for Modern Learning

By Will Richardson

July 31, 2018

https://modernlearners.com/choosing-progressive-education-for-modern-learning/

While it’s hard to count the number of profound thoughts and insights that frequent Timeless Learning, the absolutely powerful new book from Ira Socol, Pam Moran, and Chad Ratliff that’s coming out next week, this one particular passage had my inner and outer edu-activist pumping his fist:

Adults may argue about this – they do argue about it – but despite the historical victories of industrial education, the fundamental utility of school has now firmly shifted to the progressive educational ideal, what John Dewey wanted” (97).

Finally, some well-respected voices who categorically state that for this modern era, for the sake of  today’s kids living in today’s world, we must choose Dewey over Thorndike, not the other way around.

To be sure, I know many progressive educators in classrooms and schools right now. Heck, there are actually a smattering of fully functioning and fully committed progressive schools where absolutely amazing things are happening with kids and teachers who are all passionate learners. That said, too many in and out of education have long been hesitant to embrace that “progressive” moniker, partially because of the baggage it carries (it’s “soft,” you know) and partially because not enough people really understand what the word means in the context of learning.

Ira and Pam and Chad, all from the Albemarle (Va) School District, don’t just know what it means. With Pam’s guidance as superintendent, over the last 13 years (she retired this spring) Albemarle has moved from a fairly traditional public school district to one that is a living, breathing exemplar of a) what schools can become if we truly put kids at the center of our work, and b) what professional practice looks like when it’s deeply rooted in a commitment to beliefs and values and, importantly, a clear understanding of the opportunities and challenges of the modern world. In other words, “progressive.”

For that reason alone, this book is important. The story that the authors tell is not one about buzzwords, cool new technologies, some new acronym-forced strategy, or vague word salads about whatever new innovations or new pedagogies or new skillsets are the flavor of the month. Instead, as the title suggests, it’s a story about the timeless knowledge that we all share about how kids learn, how adults learn, and how we learn together in schools. I hesitate to say that you won’t read anything especially surprising in this book; you’ll likely be nodding your head on every page. But if you read it to the end, you may be surprised at how high your bar gets set when thinking about where to take your own work in schools and classrooms, even for those of you for whom “change” has been a focus already.

The inspiration here is this: It can be done. The message is this: It must be done. We have to stop hewing to the systems and structures that have for so long defined “school” and start seriously articulating and living a different vision. And it’s the living part that makes this book so special. As the authors say, it’s not a “how to;” every school is different. It is, instead, a model for what can happen when you commit fully over time to build from a deep understanding of how powerful learning happens for kids.

So let me share a couple of let’s-not-mince-any-words snips that speak to the progressive ideal, to the urgency for change, and to the realities of the system today.

“In our observations, we’ve discovered that educators with a bias toward the child—those who embrace children’s engagement, happiness, agency, and strengths—share a core belief that the essential role of school communities is to empower children through a multitude of learning pathways. Such progressive educators support children to develop life competencies through a wide bandwidth of democratic and experiential learning opportunities in both formal and informal settings—projects, maker learning, collaborative exploration of interests, technologies of all kinds used to produce learning, and exhibition of learning to authentic audiences. These educators speak with conviction about the value of knowing children as individuals rather than focusing on the data inherent in traditions of scientific management. They do not represent the norms of educational systems developed over decades through “cells and bells” structures, direct instruction, and bell curve expectations. In short, they work hard to free the child from the shackles of the compliance-based system they’re trapped in” (40).

And another:

“There are societal changes that now enable educators to leverage making as a tool – or as a philosophy inside compulsory education that we can leverage as a pathway toward a progressive education model. When people say, “Well, we all shouldn’t be makers,” we ask, “How do you define making?” Should everybody need to know how to use a 3D printer? We don’t think so. Should everybody need to know how to come up with their own ideas, and then know how to learn what they need to know about those ideas, and how then to make those ideas real, and introduce them into society in some authentic way, whatever is meaningful to the individual? Then yes, yes. Every learner should learn to do that – and they shouldn’t only have their one cool government teacher to do that. We have 13 years of iterative experiences through which we are working to do that. We are pushing back at nurturing the compliance that America’s present-day schools are built upon” (139).

And, finally, just one more to get you thinking:

“Incremental shifts in practice are not the focus of our work. We are committed to significant transformation of the teaching and learning culture in our schools. We know from our work that for individual teachers and whole faculties to change pedagogies, they themselves must commit to learning how to learn in today’s world. This means reflection, inquiry, and study in collaboration with colleagues and mentors. Provocation of thought and processing drives professional growth beyond superficial change of little magnitude to deep change that results in substantively different learning experiences for young people. We have seen this occur when professional learning opportunities shift from the normative top-down, program-driven professional development to experiential learning that gets educators out of the box we call school. When our educators come to embrace and own their own learning in a context of seeing themselves as designers, creators, and makers, it changes the game in how they approach working with learners” (159).

Change in schools is not about teaching. It’s not even about education. It’s about learning. And, ironically, that’s what makes it so challenging. The unpleasant truth is that schools were not built for learning. To change them to actually be about learning is hard, difficult work. It’s work that honestly, most people don’t want to tackle at scale. It’s easier to drive numbers. It’s easier to offer more AP tests or carve out a “Genius Hour.” It’s easier to try to keep parents and policy makers and union reps happy by just tweaking the recipe a bit than it is to peel back all the layers and start asking the deeply important questions about what’s actually best for all kids, every day, today.

But just remember: “The fundamental utility of school has now firmly shifted to the progressive ideal.” You may not believe that…yet. You may not think that shift is about your school. But it is. Your kids are writing a new story of learning outside of school that at some point will require your full embrace inside of school. That is the story of  Timeless Learning, and you ignore it at your own peril.

And to your kids’ detriment.

o O o

Jair Messias Bolsonaro

Só decidi apoiar Jair Bolsonaro para a presidência do Brasil no dia em que ele foi apunhalado, 6/9/2018. Como eu não vou votar no dia do primeiro turno, 7/10/2018, porque estarei no exterior, não achava que precisava me definir até lá.

Mesmo assim, minha maior simpatia ficava com João Amoêdo, um liberal, como eu, embora eu seja mais radical do que ele, um cara articulado, bem falante, sereno, tranquilo, simpático – gente fina e culta.

Isso não quer dizer que eu não tivesse simpatia pelo Jair Bolsonaro também – e há muito tempo. Na verdade, desde que tomei consciência de sua existência na Câmara dos Deputados. Sempre o achei pessoa íntegra, honesta, honrada, com ideias no lugar certo, e inacreditável coragem. Achava-o um homem simples, do povo – característica que de modo algum o desabonava, na minha maneira de ver. Em alguns aspectos, ele era oposto do João Amoêdo. Falava rápido demais, atropelava-se a si próprio, não era sereno e tranquilo. Às vezes, quando estava irado (a maior parte das vezes, com toda a justificação), não era simpático, nem muito menos fino e culto. Seu riso era meio exagerado e, de vez em quando, dependendo do contexto, soltava um palavrão (mas de forma sempre apta). É isso, em parte, que leva muita gente fina e culta a considera-lo meio chucro, tosco, mal acabado, com verniz barato, daquele que cobre os móveis baratos das lojas populares.

Para mim, uma vez mais, esses fatos não o desabonavam, de forma alguma, porque eu gostava de vê-lo desancar o PT e a esquerda, dizendo as verdades que ninguém mais tinha coragem de externar. Sempre convivi bem com gente como o Bolsonaro, inclusive em minha própria família.  Sinto-me extremamente bem como sitiante. Tenho sítio mesmo, não chácara de fim de semana. O sítio tem vaca, cavalo, cabrito, porco, galinha, pato; plantação de berinjela, pimentão, feijão, aveia, milho; fedor de adubo no ar em alguns momentos, e fedor do chiqueiro de porcos, quando o vendo vem do chiqueiro  para a casa… Apesar de ter concluído meu doutorado em meados de 1972, dias antes de completar 28 anos, e de ter passado, na sequência, 35 anos como professor universitário, aposentando-me no final de 2007, prefiro os ambientes mais rústicos e as companhias mais simples às companhias mais cultas e aos ambientes mais refinados, embora consiga me virar nesses contextos e com esses relacionamentos também. Assim, sempre tive simpatia pelo Jair Bolsonaro – e sempre achei o FHC, por exemplo, um fresco vaidoso e cheio de si (um “bochecha nadegosa”, para usar a expressão de um colega meu da UNICAMP, de Piracicaba, também simples como eu, para traduzir “cara de bunda” para linguagem fina…).

Enfim… estava deixando a coisa correr para decidir o que fazer no segundo turno (quando já estarei de volta no Brasil), só quando fosse estritamente necessário.

Isso, até o dia do atentado contra a vida de Jair Bolsonaro por um ex (?) militante do PSOL. Naquele dia, e no momento que eu soube, lá em Buenos Aires, decidi apoiar o Bolsonaro, na certeza de que não conseguiremos sobreviver mais quatro anos com alguém da esquerda (Lul’Haddad, Canga’Ciro, Marina) na presidência da nação. Como sabemos, o PT tem envolvimento com várias mortes (Celso Daniel, Toninho de Campinas, mais sete envolvidos na investigação do primeiro assassinato — no mínimo). Concluí ali que nem o Alckmin é duro o suficiente para com a esquerda para fazer a limpeza que precisa ser feita no cenário político do nosso país. O Alckmin é soft and mellow demais. Muito Opus Dei… E concluí, também, que, se o Bolsonaro não ganhar no primeiro turno, há um sério risco de ele não ganhar, porque os demais vão se juntar contra ele, em um eventual segundo turno. Por isso, precisamos fazer de tudo, especialmente agora que ele está hospitalizado, e não pode fazer campanha nas ruas, para tentar coloca-lo no Planalto já em 7 de Outubro, sem segundo turno – especialmente usando a Internet e, nesta, as Redes Sociais. Comecei a trabalhar no mesmo dia – para choque de algumas pessoas que não me conhecem direito, para surpresa de outras, e para a satisfação de muitas outras que me conhecem um pouco melhor.

Revoltou-me, em especial, a reação de muitos, da esquerda, e mesmo de alguns, não tão à esquerda, ao apunhalamento de Bolsonaro. Eles tentaram pôr a culpa na vítima, algo que eles em geral repudiam, quando, por exemplo, gente sem noção culpa as mulheres pelo estupro… Revoltou-me em especial aqueles (para minha surpresa, na maioria aquelas) que lastimavam que o tal militante do PSOL fosse incompetente e não houvesse concluído o seu trabalho a contento. A primeira coisa que publiquei no Facebook foi curta — uma nota dizendo: “Pelo jeito, já começaram a culpar a vítima” (6/9/2018, 19h11). Quebrei o gelo.

Na sequência, publiquei várias análises mostrando porque Jair Bolsonaro precisava ganhar no primeiro turno. Como já mencionei, se não ganhar no primeiro turno, mas passar para o segundo, o que parece quase certo, há muito risco de, mesmo passando ele com a maior votação para o segundo turno, ele não levar, dado o esprit de corps da esquerda. Nisso a esquerda conta com o apoio da gente de bem mais à direita, que se sente envergonhada, quando não enojada, de votar em Jair Bolsonaro, preferindo votar, digamos, no Haddad, que, afinal de contas, se parece com o pessoal modernoso, progressista – exceto por ser capacho e limpa-pés do Lula, que, sempre que ele tenta levantar um pouquinho a cabeça, o humilha… Em 2010 Haddad, hoje sendo chamado de Dilma-2, certamente era um melhor post do que Dilma (Dilma-1). Ambos eram ministros do Lula. Mas este fez questão de passa-lo para trás, embora mais bem preparado, daquela que se tornou uma piada nacional, quiçá internacional.

Não vou repetir essas análises aqui. Elas estão disponíveis na minha Linha do Tempo no Facebook.

O que quero fazer aqui é retomar algo que também já fiz no Facebook. Lá eu escrevi o seguinte, dirigindo-me a uma audiência específica, na qual se encontram vários amigos meus:

“Se você pensava votar no Amoedo, ou no Dias, ou no Alckmin, e é liberal, pense bem: é preciso resolver essa batalha contra a esquerda no primeiro turno. No segundo, será arriscado. Mude o seu voto, como muitos já estão fazendo…”

Como disse alguém no Facebook ou elegemos JAIR no primeiro turno, ou JAERA.

Uma dessas pessoas de bem, profissional conceituado, e meu bom amigo, depois de ler a passagem citada, me perguntou o seguinte:

“Esclarecendo… Essa mensagem é para pessoas como eu que jamais votariam no Bolsonaro?”

Eu respondi, no dia 8 de Setembro, às 20h49:

“Caro amigo:

Você pergunta: [. . .] “Essa mensagem é para pessoas como eu que jamais votariam no Bolsonaro?”

Eu responderia da seguinte forma, que é mais precisa e, acredito, correta:

 “Não. [. . .] Essa mensagem é para a aqueles que NÃO QUEREM ter como presidente, mais uma vez, um pau mandado de um criminoso demente”.

Se você QUER, ou NÃO SE IMPORTA, a mensagem não é para você: vá em frente e vote em quem você já escolheu… Mas ore bastante para não vir a ser culpado de eleger, uma vez mais, um pau mandado de you know who. Vai ser necessário um milagre.”

Dirigi meus principais argumentos apresentados aos eleitores que não são da esquerda (e que, portanto, não vão votar no Haddad, no Ciro e na Marina), e, talvez, a alguns eleitores do Alckmin que estão céticos acerca de suas chances de vitória. Esses argumentos, outras coisas que elas leram, suas reflexões, baseadas em seus valores, levaram várias pessoas a mudar seus votos para o Bolsonaro ou a admitir que o fariam, ainda que com certa relutância.

Duas pessoas, em especial, a quem eu respeito muito e quero muito bem, disseram que votariam nele com um “voto útil mas envergonhado”, relutantes como quem precisa tomar um “remédio amargo” – e, ainda assim, apenas “se fosse necessário”, para impedir o PT de voltar ao poder.

Respondi a elas desta forma (hoje, 13/9/2018, às 20h54):

Acho que será necessário, sim. Diferentemente de vocês, já me senti representado pelo Jair Messias Bolsonaro muitas vezes, quando ele desancava o PT no Congresso. Ele pode até não ter apresentado muitos projetos de lei [na verdade, apresentou mais de 600], mas ele não deu sossego ao PT e à esquerda. Por isso, não o considero um “remédio amargo”. Acho que ele é um remédio necessário. E o meu voto também é útil, mas não envergonhado. Vim acompanhando esse processo eleitoral criticando a esquerda e apoiando o Amoêdo, que, de certo modo, é o candidato ideal para os liberais, como eu (embora, como já disse, eu seja bem mais radical do que ele – eu beiro o libertarianismo). Mas o Amoêdo não vai ganhar de jeito nenhum. Eu achei, por um tempo, que o segundo turno seria entre o Bolsonaro e o Alckmin — algo que para mim até estaria ok, por deixar o Haddad, o Ciro e a Marina de fora. Como vocês vêem, o meu voto é útil. Não acho, de modo algum, o Bolsonaro a besta fera que muitos insistem em afirmar que ele é. Ele é, isto sim, uma pessoa séria, honesta, honrada, com ideias no lugar certo (como se pode ver no vídeo da entrevista dele na Globonews onde ele declinou o Brasil que ele quer ter no futuro). E é uma pessoa simples, do povo: bom marido, bom pai, bom amigo, patriota e religioso (cristão). Se ainda não viram o trecho essencial do vídeo, em que ele diz isso, vejam na minha timeline. Por isso, o meu não é um voto envergonhado, nem é um remédio que, para mim, tenha gosto amargo. E acredito que o de vocês também não será totalmente envergonhado, no frigir dos ovos. Aquilo de que a gente tem vergonha a gente normalmente não faz em público. O fato de vocês haverem feito aqui, de público, sem coação, as declarações que fizeram, deixa claro que o voto de vocês pelo menos não será escondido. O vídeo do Bolsonaro na GloboNews está em:

https://www.facebook.com/joseeduardo.sallum.94/videos/288141028455870/.

Resumo aqui o que Jair Bolsonaro disse a Miriam Leitão em resposta à pergunta: “Qual é o Brasil que o senhor quer para o futuro?” Eis a resposta dele:

“Eu quero um Brasil onde tenhamos um só povo, um país sem divisões, de brancos e negros, héteros e homos, ricos e pobres, nordestinos e sulistas…

Eu quero um Brasil onde se respeite a família, acima de tudo, que é a base da sociedade…

Eu quero um Brasil onde a criança seja respeitada em sala de aula

Eu quero um Brasil menos violento e com mais empregos.

Eu quero um Brasil negociando com o mundo todo sem o viés ideológico.

Eu quero um Brasil que invista em pesquisa e em desenvolvimento para explorar a nossa biodiversidade, e agregue valor aos outros recursos minerais que temos aqui.

Eu quero um Brasil sorridente, que se abra para o turismo, dadas as condições de segurança e infraestrutura.

Nós temos tudo, mas tudo, mesmo, para ser uma grande nação.

O que precisamos para chegar lá?

Precisamos, sim, de um homem — ou de uma mulher — que seja honesto, que seja patriota, e tenha Deus no coração.

É este o Brasil que eu quero, para todos nós.

Se esta for a vontade de Deus, eu tenho certeza que cumprirei esta missão ao lado do povo brasileiro.”

É isso.

São Paulo, em 14 de Setembro de 2018

[ADENDO acrescentado em 29/10/2018, depois da vitória de Bolsonaro, no segundo turno.]

Como é sabido de todos, Bolsonaro foi para o Segundo Turno com Haddad e ganhou o Segundo Turno com mais de 10% de diferença (55,13% a 44,87%), tendo recebido 57.797.815 votos, contra 47.040.902 de Haddad (diferença de mais de 10 milhões de votos).

A diferença que acabou sendo de 10% esteve sempre, antes do Segundo Turno, até cinco dias finais da última semana, entre 16% e 20%. Considero que três razões explicam a redução da diferença.

a. A publicação de um vídeo de um filho de Bolsonaro dizendo, seis meses atrás, em um cursinho no Paraná, que para fechar o STF basta um cabo e um soldado;

b. Palavras fortes de Bolsonaro em uma mensagem aos que manifestavam a favor dele no domingo anterior, 21/10, na Av. Paulista;

c. Acusações até aqui totalmente infundadas feitas pela Folha de S. Paulo, e exploradas com alarde e exagero por Haddad, de que Bolsonaro havia sido financiado por empresários que pagam empresas para impulsionar “FakeNews” acerca de Haddad, no que seria, acusava-se um Caixa 2 de Bolsonaro, o crítico dos Caixa 2.

Outras razões podem sem dúvida aparecer.

Em relação a essas razões tenho a observar o seguinte:

a. O filho de Bolsonaro não propôs o fechamento do STF, só usando uma observação (provavelmente copiado de algo que o Jânio disse acerca do fechamento do Congresso), em um ambiente fechado de sala de aula, sobre como seria fácil fechar o STF, se o STF se comportasse de forma ilegal ou irresponsável. O ex-deputado federal Damous, mão-direita do Lula, e o próprio Lula, já disseram coisas muito piores sobre o STF, propondo, eles sim, o seu fechamento, sem que ninguém fizesse um escândalo sobre o que disseram.

b. No dia seguinte à fala de Bolsonaro, Haddad disse, diante das câmaras, que Bolsonaro não era um ser humano e que merecia ser varrido da face da Terra — algo mais forte do que aquilo que Bolsonaro havia dito, ficando tudo por isso mesmo.

c. Além de não haver nenhuma evidência de que aquilo que a Folha disse e Haddad repetiu ad nauseam fosse verdadeiro, pesquisas feitas mostraram que os dois lados usaram as Redes Sociais na mesma proporção e usando os mesmos métodos, havendo um percentual de Fake News por parte dos dois lados — e que o efeito dessas Fake News sobre a decisão de voto dos eleitores foi mínimo.

São Paulo, em 29 de Outubro de 2018

 

A Importância de Viver Desentribado: Uma Defesa do Liberalismo

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Mario Vargas Llosa
[Credit: Christopher Anderson/Magnum, for The New York Times]

Acabei de ler o capítulo inicial do mais recente livro de Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura de 2010, e um dos meus escritores favoritos. O nome completo dele é Jorge Mario Pedro Vargas Llosa. O livro, que ganhei de presente de minha mulher pelo meu aniversário de 75 anos (que será no dia Sete de Setembro, mas a semana inteira é de comemoração), tem o título sugestivo de La llamada de la tribuA chamada da tribo, The call of the tribe. Poderia bem se chamar, alternativamente, A atração do entribamento, embora a palavra “entribamento” soe meio feio. Se a palavra “entribamento” não existe (e parece que não existe), acabo de cria-la, com o verbo correspondente, com o sentido de “ato de entribar (-se)”, “condição de pertencimento a uma tribo”. “Entribar”, ou, talbez melhor, “entribar-se”, teria o sentido, naturalmente, de “tornar-se membro de uma tribo”, ou mesmo de “pertencer a uma tribo”.

Mário Vargas Llosa sabe do que fala. Pertenceu à tribo vermelha dos comunistas, em sua juventude, à tribo rosa escuro dos socialistas, logo depois, e à tribo rosa claro dos sociais democratas, ainda um pouco mais tarde. Depois, desiludido com as tribos da esquerda, desentribou-se (esse verbo também fica criado).

Engana-se quem pensa que, tendo se desentribado das tribos da esquerda, Vargas Llosa simplesmente mudou de tribo, passando a pertencer à tribo liberal clássica (com alguns ajustes aqui e ali). Ele se desentribou de vez, “überhaupt”. Decidiu não mais pertencer a nenhuma tribo. Tornou-se o que os americanos chamam de “rugged individualist”, um individualista vigoroso e resistente. O livro, que é, em grande medida, uma autobiografia, procura mostrar por que o entribamento é um perigo para a liberdade, para a autonomia, para o ser dono do próprio nariz, para o viver “my way”, “à mi manera”, “de ma façon”, “auf meine Weise”, do meu jeito, à minha moda, sem precisar dar satisfações a quem seja… (exceto no caso daqueles deveres que o afeto e respeito impõe).

Como disse, li apenas o primeiro capítulo, até agora. O livro tem oito. Os outros sete discutem sete influências liberais sobre a vida do autor (os nomes estando ordenados pela data do nascimento): Adam Smith (1723-1790), José Ortega y Gasset (1883-1955), Friedrich August von Hayek (1899-1992), Sir Karl Popper (1902-1994), Raymond Aaron (1905-1983), Sir Isaiah Berlin (1909-1997), Jean-François Revel (1924-2006). Todos estes estão entre meus autores favoritos. Deles, Ortega y Gasset é o que menos li. Dos demais, tenho e já li de dez livros para cima, de cada um.

Confesso que sinto falta de alguns nomes, em especial dos de (ordenando pelo mesmo critério) Ludwig von Mises (1881-1973), Ayn Rand (1905-1982), e de Milton Friedman (1912-2006) nessa lista. Eu completaria a lista com esses três nomes, deixando-a com dez – com, além do próprio Vargas Llosa, dois Prêmios Nobel de Economia, von Hayek (1974) e Friedman (1976), e dois Sirs, Karl Popper e Isaiah Berlin. Nada mal.

Voltemos, porém, ao primeiro capítulo do livro. Ali Vargas Llosa esclarece, com precisão e rara felicidade, a diferença entre o Liberalismo (estilo clássico) e o Conservadorismo, o Liberalismo e o Libertarianismo, o Liberalismo e o Anarquismo, etc. Discute ainda por que o Liberalismo (desse matiz) não é uma Ideologia. E defende, com cuidado, no final do capítulo, a importância da Educação para o Liberalismo – para que, na corrida da vida, todos possam ter uma linha de largada mais ou menos comparável, e se possível equivalente – certamente não intolerantemente desigual. A busca por uma linha de largada exata e impecável, igualíssima para todos, é uma utopia não liberal.

Recomendo. É uma excelente análise do Liberalismo Clássico — e é uma defesa, também. No processo, é uma interessante autobiografia intelectual. E, por fim, é uma discussão, importante e pertinente, da questão da atração, em alguns casos quase que irresistível, que tem sobre nós o entribamento.  Muitos anseiam por uma tribo que, fazendo-os sentir aceitos e devidamente entribados e enturmados, os dispense de buscar / construir sua identidade pessoal individual, própria e única e de pensar por si próprios. Passam a se ver apenas como membros de uma tribo, daquela tribo, que pensa por eles. Esta é a essência do “group think“. Os entribados precisam esperar que o pajé da tribo revele o que ele pensa para saber o que eles próprios pensam.

Não creio que o livro já esteja em Português. Saiu no primeiro semestre deste ano.

Em 5 de Setembro de 2018.

As Batalhas Internas de Trump neste Fim de Ano

Começa hoje, 4 de Setembro de 2018, mais uma batalha de Donald Trump no Senado Americano: a de manter, numericamente, e incrementar, em radicalidade, a pequena vantagem de 5×4 a favor dos liberais-clássicos e seus aliados conservadores na Suprema Corte Americana.

No ano passado, em 7 de abril de 2017, Donald Trump teve a oportunidade de preservar e incrementar o perfil majoritariamente liberal-clássico e conservador da Suprema Corte Americana. Nessa ocasião, foi aprovado pelo Senado Americano, o nome de Neil Gorsuch, de 51 anos, e, portanto, razoavelmente jovem, para substituir Antony Scalia, que faleceu em 2016, aos 80 anos. Scalia era, também, liberal-clássico e conservador, mas bem mais moderado. Os leitores se lembrarão que Barack Obama, no último ano de seu mandato, declinou de indicar o substituto de Scalia, por achar, num raro gesto nobre (mas só aparente), que o próximo presidente o fizesse. Só que ele imaginava que o presidente seguinte seria Hilary Clinton. Danou-se.

Esse perfil liberal-clássico e conservador que a Suprema Corte Americana tem tido nos últimos tempos é alinhado com os Republicanos, que, nos EUA, agrupam, de um lado, os liberais clássicos, estilo laissez-faire na política (estado pequeno), na economia (ausência de controle pelo estado) e na vida privada (visão libertária, beirando ao anarquismo), e, de outro lado, os culturalmente conservadores, que incluem a direita religiosa, que não é nada laissez-faire na vida privada (são contra o aborto, o casamento gay e outros costumes mais favorecidos pela esquerda, como o feminismo, a identidade de gênero, a diversidade racial e cultural, etc. .), que defende um estado forte (quando se trata de defender costumes tradicionais e a religião), etc.

Antes de alcançar a maioria de 5×4, com Juizes-Ministros indicados por Reagan e pelos dois Bushes (pai e filho, George H. W. e George W., respectivamente), a Suprema Corte Americana, teve um perfil majoritariamente social-democrata e progressista por um bom tempo, alinhado com os Democratas, que, nos EUA, apesar de se chamarem liberais, ficam entre, de um lado, os social-democratas, e, do outro lado, os socialistas soft, defendendo causas parecidas com as defendidas aqui no Brasil pelas forças de esquerda.

Em 30 de Julho deste ano de 2018 aposentou-se Anthony Kennedy, de 82 anos, nomeado por Ronald Reagan, em 1987, e que passou nada menos do que 31 anos na Suprema Corte. Kennedy, embora alinhado com os Republicanos, também era razoavelmente moderado. Trump indicou para o seu lugar Brett Kavanaugh, bem mais conservador e bem mais jovem (nasceu em 1965, e, portanto, tem 53 anos). É a batalha de sua confirmação pelo Senado que se inicia hoje, 4 de Setembro.

Joseph Kennedy, que era um Republicano moderado, foi, muitas vezes o fiel da balança da Suprema Corte, ora ficando para cá, ora indo para lá… Se Kavanaugh for aprovado, os Republicanos terão um Juiz/Ministro mais consistente em seu liberalismo-clássico e conservadorismo do que Kennedy.

Daí a importância de mais esta batalha no Senado. Se Trump ganha-la, manterá, numericamente, a vantagem de 5×4 na Suprema Corte e a tornará mais radicalmente liberal-clássica e conservadora.

Os Republicanos, desde a eleição de Trump, controlam as duas casas do Congresso, mas, no Senado, a maioria republicana, originalmente de 51×49, tem sido precária, pois alguns senadores republicanos têm votado, de vez em quando, contra o Trump. Isso se deu, em especial, com Joseph McCain, falecido há poucos dias (falecimento que deve ter alegrado o Trump sobremaneira, apesar da cara compungida que teve de exibir em público).

Assim sendo, sem McCain, que não foi ainda substituído, a maioria republicana está reduzida a 50×49. Os Democratas, na verdade, também têm suas dificuldades. Democratas mesmo são só 47: os dois outros que geralmente se coaligam com eles, se declaram Independentes, e, portanto, podem oscilar.

Para complicar a situação, para os dois partidos, no final deste ano de 2018, 33 dos atuais mandatos expirarão, havendo eleições para eles em 6 de Novembro – que será uma eleição decisiva para que Trump mantenha (ou mesmo aumente) a sua maioria, hoje precária, no Senado, mas que, mesmo precária, ele pode vir a perder.

Em geral, o presidente cujo partido ganha maioria no Congresso durante a eleição presidencial, tem essa maioria reduzida ou mesmo perdida na eleição para o Congresso que tem lugar na metade do mandato presidencial. Isso acontece, em geral, porque apoiadores do Presidente que acham que ele não está sendo suficientemente alinhado com sua plataforma resolvem lhe mandar um “recado” para tomar jeito e mostrar mais serviço…

Eu diria que, apesar das críticas a Trump que a gente lê e ouve na mídia, ele está bem posicionado para, pelo menos, manter a sua base de apoio na eleição de Novembro de 2018.

Assim, nos próximos meses, além das eleições brasileiras, temos de prestar atenção à batalha pelo controle da Suprema Corte Americana no Senado Americano, bem como ao resultado das eleições americanas para o Congresso, eleições essas que terão lugar, como foi dito, daqui a basicamente dois meses, em 6 de Novembro deste ano.

Em 4 de Setembro de 2018

A Controvérsia Acerca do “Escola Sem Partido” Continua: PL 867/2015

A controvérsia acerca do movimento “Escola sem Partido” continua…

Os educadores, políticos e jornalistas de esquerda estão se sentindo acuados porque o projeto do “Escola sem Partido” progride na Câmara Federal.

Na Folha de S. Paulo de hoje (14/5/2018) um jornalista chamado RANIER BRAGON, que se descreve como “Repórter da Sucursal de Brasília da FSP” e afirma que foi correspondente em Belo Horizonte e São Luís, depois de se formar em jornalismo pela PUC-MG, chama o projeto de “uma aberração”, em uma uma matéria assinada. Diz ele, em sua peroração:

“Um projeto desses não é só ‘polêmico’ ou ‘controverso’. É uma aberração. Nada menos do que isso.”

Na parte inicial de sua matéria, ele descreveu o projeto do “Escola sem Partido” como

“um dos projetos mais vergonhosos da atualidade”.

Afirmou, em seu segundo parágrafo, que o projeto é

“capitaneado pela bancada religiosa e por toda ordem de conservadores aparentemente saídos de uma fenda ligada à Idade Média”.

Continuou, afirmando que

“o projeto quer fazer crer que o mundo educacional está infestado de comunistas travestidos de pedagogos, prontos a catequizar uma legião de novos Ches e derrubar o capitalismo”.

Chamou o grupo que defende as ideias por trás do projeto de “neocarolismo” e afirmou que,

“mesmo com apenas seis artigos, o projeto é um acinte às bases humanistas da regulação educacional brasileira, que preconiza o pluralismo de ideias, o apreço à tolerância e a ‘liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber’”.

Ele contestou a posição do relator do projeto numa comissão da Câmara, quando este afirmou o  “direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções”.

Rotulou de “os talibãs da moral” aqueles que se opõem à chamada “ideologia do gênero” e que acreditam que, na espécie humana, os termos  “macho” e “fêmea” equivalem a “homem” e “mulher”.

Bem na parte central do artigo apresentou sua “pièce de resistance”:

“O Ministério Público já se insurgiu contra a escalada obscurantista. Em 2017, o ministro do Supremo Luís Roberto Barroso suspendeu lei alagoana. ‘Pais não podem pretender limitar o universo informacional de seus filhos ou impor à escola que não veicule conteúdo com o qual não estejam de acordo. A liberdade de ensinar é mecanismo essencial para provocar o aluno e estimula-lo a produzir seus próprios pontos de vista. Só pode ensinar a liberdade quem dispõe de liberdade’, disse.”.

Esquecendo-se, mais de uma vez, dos princípios do bom jornalismo, Bragon nem explica aos leitores o que é a “lei alagoana”. Se, porém, o leitor deste blog estiver interessado em saber, pode consultar meu artigo “Doutrinação e Educação: A Esquerda Pretende Argumentar que Doutrinar não Passa de um Jeito ‘Crítico’ de Educar”, no qual, na Seção 2-A, discuto a Lei 7800/16 do Estado de Alagoas. Vide https://liberal.space/2016/05/28/doutrinacao-e-educacao-a-esquerda-pretende-argumentar-que-doutrinar-nao-passa-de-um-jeito-critico-de-educar/.

Embora esse artigo de 28/05/2016 (dois anos atrás, no mês) seja longo, sugiro que seja lido pelos interessados, pois ele refuta, uma a uma, as cinco principais críticas feitas ao Projeto do Alagoas, a saber:

  1. A suposta negação do pluralismo de ideias e da diversidade de pensamento, saberes e práticas
  2. A suposta negação da liberdade do professor em sala de aula (liberdade de cátedra) e até mesmo o cerceamento de sua liberdade de expressão
  3. A suposta negação da liberdade de aprender do aluno, em especial de conhecer as divergências e contradições existentes em e entre disciplinas acadêmicas
  4. A suposta confusão entre discutir questões e autores controvertidos e doutrinar ou fazer proselitismo
  5. A alegação de que os proponentes do Escola sem Partido não teriam qualificação para propor essa tese.

Cito, a seguir, um resumo, feito no artigo anterior, de minhas “críticas às críticas”.

“Analisarei, agora, de forma resumida, as críticas feitas às propostas do movimento Escola Sem Partido, seja no episódio do Estado de Alagoas, seja em relação à visita de Alexandre Frota e o pessoal do Revoltados Online ao atual Ministro da Educação.

A esquerda é mestre em acusar os outros dos pecados que lhe são mais caros… O liberalismo, que está por trás do movimento ‘Escola sem Partido’ é o mais tradicional defensor da liberdade de pensamento, da liberdade de crença, da liberdade de expressão – no campo religioso, político ou qualquer outro. A lei alagoana, que é objeto desse tipo de crítica (que supostamente negaria o pluralismo de ideias e a diversidade de pensamento, saberes e práticas), afirma claramente, nos Incisos II, III e IV do Art. 1o, a importância de que, na escola, se respeitem o pluralismo de ideias, a liberdade de aprender e a liberdade de crença.

O conceito de ‘liberdade de cátedra’ foi concebido e instituído para impedir que, em regimes ditatoriais ou autoritários, o governo pudesse determinar ao professor exatamente o que e como ele deveria abordar em sua disciplina, impondo-lhe, assim, um ‘catecismo’ ou uma ‘vulgata’ e não lhe deixando espaço para a livre apresentação e discussão de ideias que pudesse ensejar que o aluno não fosse doutrinado. É totalmente ilegítimo, numa situação em que é o próprio professor que tenta limitar o que acontece em sala de aula, em termos de conteúdo e de método, ao que está prescrito em um ‘catecismo’ ideológico que ele aceita (independentemente de o governo também aceita-lo ou não), invocar a sua liberdade de cátedra para fazer exatamente aquilo que o conceito e a instituição da liberdade de cátedra não queriam que acontecesse em sala de aula, a saber, doutrinação. O professor continua a ter seu direito à liberdade de expressão intato, fora da sala de aula. Lá dentro, tem obrigações que ele deve cumprir, entre as quais está a de respeitar a integridade mental do aluno, não lhe impondo, ou não o constrangendo a aceitar, crenças que ele não tem condições de avaliar exatamente em decorrência da abordagem usada pelo professor.

A liberdade de cátedra do professor não é absoluta: ela é limitada e restringida pela liberdade de aprender do aluno, e a liberdade de aprender do aluno significa exatamente isso, que ele tem o direito de não lhe serem tolhidas, por omissão do professor ou por sua ação deliberada, alternativas e opções que podem lhe ser mais aceitáveis, depois de examinar as evidências e os argumentos disponíveis, opções e alternativas essas que o professor se recusou a apresentar em sala de aula, ou apresentou de forma parcial e distorcida, para promover sua agenda partidária (partisane). ‘Partidária’, aqui, não se refere a partido político, mas, sim, ao fato de o professor tomar partido na discussão, privilegiando uma posição sobre as demais, em vez de assumir a atitude recomendada de isenção e neutralidade, em que todas as opções e alternativas são apresentadas de forma igualmente convincente e persuasiva, como o faria alguém que fosse delas partidário.

Se há divergências e contradições entre essas opções e alternativas, essas divergências e contradições devem ser apresentadas e esclarecidas, não omitidas ou apresentadas de forma tendenciosa, que favorece apenas uma delas.

Os defensores da doutrinação ideológica em sala de aula querem nos fazer crer que não estão proselitizando, mas apenas discutindo, ‘de forma crítica’, questões e autores controvertidos, cuja aceitação está longe de ser pacífica e generalizada fora da sala de aula (nos lares dos alunos, por exemplo). Basta ouvir o que dizem em sala de aula ou ler o que escrevem para perceber quão falta é sua pretensão. Seu objetivo é proselitizar mesmo, não hesitando eles em defender o voto em um candidato e criticar o voto em outro, em insistir que alunos devem participar de marchas e manifestações defendendo um ponto de vista e se recusar a participar de outras que defendem pontos de vista opostos.

Não se pretende impedir que os professores apresentem e discutam em sala de aula questões e autores controvertidos, desde que o façam de forma isenta, neutra, objetiva. O que se pretende impedir é que apresentem e discutam, de forma partidária, apenas um lado da questão, aquele que eles favorecem e privilegiam, com o intuito de ganhar para o seu a adesão dos alunos. Em suma, o que se pretende impedir é que doutrinem com intenção proselitista.

A alegação de que os proponentes da Escola sem Partido não teriam qualificação para propor sua tese é um argumento ad hominem que adeptos de um Presidente da República apedeuta deveriam ter vergonha de utilizar.

É isso, por enquanto.”

 Continuo hoje.

A Constituição Federal afirma, em seu Artigo 205, que

“a educação [é] direito de todos e dever do Estado e da família…”.

Durante a discussão dessa constituição, a esquerda fez de tudo para que ela afirmasse que a educação é dever exclusivo do estado – isto é, um monopólio estatal e que qualquer organização não-estatal (uma ONG ou uma confissão religiosa, por exemplo) só pudesse educar mediante concessão do estado (que poderia ser cassada a qualquer momento).

Essa tese da esquerda perdeu em 1988. Perdeu para a tese de que a educação é direito dos pais, e que o estado, quando se põe a educar, o faz in loco parentis – no lugar dos pais. Mas a esquerda quer fazer de conta que quem ganhou foi ela. Só isso explica que ela ainda tente implantar no Brasil uma educação escolar, como a que havia na defunta União Soviética e nos demais países comunistizados na marra (não existe outro jeito), em que cabe exclusivamente ao estado decidir o que e como se ensina em sala de aula, contestando a tese, totalmente legítima e verdadeira, de que existe o “direito dos pais a que seus filhos recebam educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções”. E educação política também, que é uma forma de educação moral aplicada à vida social.

O fofo Ministro do Supremo Luís Roberto Barroso, esquerdista notório, está totalmente errado quando afirma, na passagem que o autor da matéria na Folha cita, que “Pais não podem pretender limitar o universo informacional de seus filhos ou impor à escola que não veicule conteúdo com o qual não estejam de acordo.” Podem, sim, e devem. E é isso que fazem quando colocam os filhos em escolas particulares de sua esolha – ou tentam educa-los em casa, algo que o estado, absurdamente, se recusa a admitir, chegando ao ponto de prender os pais que assim agem.

Os pais podem pretender limitar o que é veiculado na educação escolar estatal porque a educação de seus filhos é direito e dever deles, e, para a imensa maioria das famílias, sendo a educação escolar obrigatória, e não tendo elas recursos financeiros para escolher uma escola particular do seu agrado, a escola pública é a única alternativa de educação escolar que lhe resta — e a educação não-escolar, em casa, lhes é proibida. Todos sabemos que, assim que uma família consegue pagar uma escola particular, de sua escolha, ela tira os filhos da escola pública e os coloca na escola particular. Isso acontece até mesmo no caso de famílias de professores esquerdistas, como eu cansei de ver em quase 35 anos de Faculdade de Educação da UNICAMP. No caso da educação escolar privada, os pais têm escolha: basta tirar os filhos de uma escola e colocar em outra. Os que são obrigados, por sua condição financeira, a manter seus filhos em escola pública, não têm essa possibilidade de mudar os filhos de escola.

Ao criticar o Escola Sem Partido, a esquerda quer que o Estado lhes forneça, na escola pública, uma audiência cativa para que ela possa catequisa-la de acordo com suas convicções ultrapassadas. Mesmo que fosse para catequisa-la de acordo com suas convicções atualizadas seria errado.

A Constituição Federal determina, em seu Artigo 206, que haja “liberdade de aprender” do aluno – e o faz antes de dizer que deve haver também “liberdade de ensinar” do professor. Este tem liberdade de ensinar DESDE QUE respeite os princípios do “pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas” que é essencial para a liberdade de aprender do aluno. A liberdade de ensinar do professor termina onde começa a liberdade de aprender do aluno.

Monsieur Ranier Bragon afirma que “o projeto [em tramitação na Câmara] quer fazer crer que o mundo educacional está infestado de comunistas travestidos de pedagogos, prontos a catequizar uma legião de novos Ches e derrubar o capitalismo”.

E não está? E não está? E não está?

Os educadores de esquerda não fazem nenhum segredo de suas convicções comunistas e da necessidade de derrubar o capitalismo. E usam a sala de aula para apregoar essas ideias, para convencer seus alunos a participar de passeatas e protestos, para votar assim ou assado (quando eles já podem votar).

Felizmente, a não-esquerda (que não é composta só de direitistas, no sentido convencional, mas também de liberais e libertários anárquicos) tem reagido. A matéria do Bragon tem, no momento (14/5/2018, 9h), dois comentários. Cito os dois:

MARCOS SERRA (Há 2 horas):

“É Sr. Ranier, impor freios à covardia praticada por um enorme número de professores que ao invés de conteúdos das disciplinas insistem em pregar suas ideologias dói aos supostos defensores da liberdade de ideias. A esquerda tem usado e abusado desse artifício para catequizar crianças, jovens e universitários para sua causa, mesmo que isso represente abandonar o que deveria ser o maior objetivo de qualquer professor: ensinar para a vida, racionalizar diferentes correntes, ser liberto. Duro, não?”

PAULO ANTONIO DE FIGUEIREDO (Há 4 horas):

“Contaminar e fazer a cabeça dos jovens nas escolas é uma velha tática para arrigementar zumbis e criar falsos líderes, veja o L(indbergh) Faria, G(uilherme) Boulos, etc. Escola não foi feita para doutrinar política,mas disseminar o conhecimento. Temos que formar cientistas, médicos, engenheiros, técnicos para que o país cresça, e não revolucionários. Exemplo, a UNE serve pra que mesmo? Professores ideológicos perseguem aqueles que são contra sua ideologia. A escola da não deve ter partidos.”

[https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ranier-bragon/2018/05/camara-quer-impor-mordaca-obscurantista-a-professores-do-pais.shtml]

Antes de terminar, um link para um outro artigo meu, mais antigo, mas totalmente relevante no contexto, com o título “Educação sem Doutrinação e Escolas sem Partido”, publicado aqui neste blog, na URL

https://liberal.space/2010/04/10/educacao-sem-doutrinacao-e-escolas-sem-partido/

No Anexo, o Projeto de Lei 867/2015

Em São Paulo, 14 de Maio de 2018

ANEXO ao artigo: PROJETO DE LEI Nº 867, DE 2015

Inclui, entre as diretrizes e bases da educação nacional,
o “Programa Escola sem Partido”.

O Congresso Nacional decreta:

Art.1º. Esta lei dispõe sobre a inclusão entre as diretrizese bases da educação nacional do “Programa Escola sem Partido”.

Art. 2º. A educação nacional atenderá aos seguintes princípios:

I – neutralidade política, ideológica e religiosa do Estado;

II – pluralismo de ideias no ambiente acadêmico;

III – liberdade de aprender, como projeção específica, no campo da educação, da liberdade de consciência;

IV – liberdade de crença;

V – reconhecimento da vulnerabilidade do educando como parte mais fraca na relação de aprendizado;

VI – educação e informação do estudante quanto aos direitos compreendidos em sua liberdade de consciência e de crença;

VII – direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções.

Art. 3º. São vedadas, em sala de aula, a prática de doutrinação política e ideológica bem como a veiculação de conteúdos ou a realização de atividades que possam estar em conflito com as convicções religiosas ou morais dos pais ou responsáveis pelos estudantes.

1º. As escolas confessionais e as particulares cujas práticas educativas sejam orientadas por concepções, princípios e valores morais, religiosos ou ideológicos, deverão obter dos pais ou responsáveis pelos estudantes, no ato da matrícula, autorização expressa para a veiculação de conteúdos identificados com os referidos princípios, valores e concepções.

2º. Para os fins do disposto no § 1º deste artigo, as escolas deverão apresentar e entregar aos pais ou responsáveis pelos estudantes material informativo que possibilite o conhecimento dos temas ministrados e dos enfoques adotados.

Art. 4º. No exercício de suas funções, o professor:

I – não se aproveitará da audiência cativa dos alunos, com o objetivo de cooptá-los para esta ou aquela corrente política, ideológica ou partidária;

II – não favorecerá nem prejudicará os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, morais ou religiosas, ou da falta delas;

III – não fará propaganda político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas;

IV – ao tratar de questões políticas, sócio-culturais e econômicas, apresentará aos alunos, de forma justa, as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito;

V – respeitará o direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções;

VI – não permitirá que os direitos assegurados nos itens anteriores sejam violados pela ação de terceiros, dentro da sala de aula.

Art. 5º. Os alunos matriculados no ensino fundamental e no ensino médio serão informados e educados sobre os direitos que decorrem da liberdade de consciência e de crença assegurada pela Constituição Federal, especialmente sobre o disposto no art. 4º desta Lei.

1º. Para o fim do disposto no caput deste artigo, as escolas afixarão nas salas de aula, nas salas dos professores e em locais onde possam ser lidos por estudantes e professores, cartazes com o conteúdo previsto no Anexo desta Lei, com, no mínimo, 70 centímetros de altura por 50 centímetros de largura, e fonte com tamanho compatível com as dimensões adotadas.

2º. Nas instituições de educação infantil, os cartazes referidos no § 1º deste artigo serão afixados somente nas salas dos professores.

Art. 6º. Professores, estudantes e pais ou responsáveis serão informados e educados sobre os limites éticos e jurídicos da atividade docente, especialmente no que tange aos princípios referidos no art. 1º desta Lei.

Art. 7º. As secretarias de educação contarão com um canal de comunicação destinado ao recebimento de reclamações relacionadas ao descumprimento desta Lei, assegurado o anonimato.

Parágrafo único. As reclamações referidas no caput deste artigo deverão ser encaminhadas ao órgão do Ministério Público incumbido da defesa dos interesses da criança e do adolescente, sob pena de responsabilidade.

Art. 8º. O disposto nesta Lei aplica-se, no que couber:

I – aos livros didáticos e paradidáticos;

II – às avaliações para o ingresso no ensino superior;

III – às provas de concurso para o ingresso na carreira docente;

IV – às instituições de ensino superior, respeitado o disposto no art. 207 da Constituição Federal.

Art. 9º. Esta Lei entrará em vigor na data de sua publicação.

ANEXO ao PROJETO DE LEI

DEVERES DO PROFESSOR

I – O Professor não se aproveitará da audiência cativa dos alunos, com o objetivo de cooptá-los para esta ou aquela corrente política, ideológica ou partidária.

II – O Professor não favorecerá nem prejudicará os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, morais ou religiosas, ou da falta delas.

III – O Professor não fará propaganda político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas.

IV – Ao tratar de questões políticas, sócio-culturais e econômicas, o professor apresentará aos alunos, de forma justa –isto é, com a mesma profundidade e seriedade–, as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito.

V – O Professor respeitará o direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções.

VI – O Professor não permitirá que os direitos assegurados nos itens anteriores sejam violados pela ação de terceiros, dentro da sala de aula.

 JUSTIFICAÇÃO

Esta proposição se espelha em anteprojeto de lei elaborado pelo movimento “Escola sem Partido” (www.escolasempartido.org), que é “uma iniciativa conjunta de estudantes e pais preocupados com o grau de contaminação político-ideológica das escolas brasileiras, em todos os níveis — do ensino básico ao superior”, cuja robusta justificativa subscrevemos: [1]

“É fato notório que professores e autores de livros didáticos vêm-se utilizando de suas aulas e de suas obras para tentar obter a adesão dos estudantes a determinadas correntes políticas e ideológicas; e para fazer com que eles adotem padrões de julgamento e de conduta moral especialmente moral sexual incompatíveis com os que lhes são ensinados por seus pais ou responsáveis.

Diante dessa realidade conhecida por experiência direta de todos os que passaram pelo sistema de ensino nos últimos 20 ou 30 anos , entendemos que é necessário e urgente adotar medidas eficazes para prevenir a prática da doutrinação política e ideológica nas escolas, e a usurpação do direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções.

Trata-se, afinal, de práticas ilícitas, violadoras de direitos e liberdades fundamentais dos estudantes e de seus pais ou responsáveis, como se passa a demonstrar:

1 – A liberdade de aprender assegurada pelo art. 206 da Constituição Federal compreende o direito do estudante a que o seu conhecimento da realidade não seja manipulado, para fins políticos e ideológicos, pela ação dos seus professores;

2 – Da mesma forma, a liberdade de consciência, garantida pelo art. 5º, VI, da Constituição Federal, confere ao estudante o direito de não ser doutrinado por seus professores;

3 – O caráter obrigatório do ensino não anula e não restringe a liberdade de consciência do indivíduo. Por isso, o fato de o estudante ser obrigado a assistir às aulas de um professor implica para esse professor o dever de não utilizar sua disciplina como instrumento de cooptação político-partidária ou ideológica;

4 – Ora, é evidente que a liberdade de aprender e a liberdade de consciência dos estudantes restarão violadas se o professor puder se aproveitar de sua audiência cativa para promover em sala de aula suas próprias concepções políticas, ideológicas e morais;

5 – Liberdade de ensinar assegurada pelo art. 206, II, da Constituição Federal – não se confunde com liberdade de expressão; não existe liberdade de expressão no exercício estrito da atividade docente, sob pena de ser anulada a liberdade de consciência e de crença dos estudantes, que formam, em sala de aula, uma audiência cativa;

6 – De forma análoga, não desfrutam os estudantes de liberdade de escolha em relação às obras didáticas e paradidáticas cuja leitura lhes é imposta por seus professores, o que justifica o disposto no art. 8º, I, do projeto de lei;

7 – Além disso, a doutrinação política e ideológica em sala de aula compromete gravemente a liberdade política do estudante, na medida em que visa a induzi-lo a fazer determinadas escolhas políticas e ideológicas, que beneficiam, direta ou indiretamente as políticas, os movimentos, as organizações, os governos, os partidos e os candidatos que desfrutam da simpatia do professor;

8 – Sendo assim, não há dúvida de que os estudantes que se encontram em tal situação estão sendo manipulados e explorados politicamente, o que ofende o art. 5º do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), segundo o qual “nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de exploração”;

9 – Ao estigmatizar determinadas perspectivas políticas e ideológicas, a doutrinação cria as condições para o bullying político e ideológico que é praticado pelos próprios estudantes contra seus colegas. Em certos ambientes, um aluno que assuma publicamente uma militância ou postura que não seja a da corrente dominante corre sério risco de ser isolado, hostilizado e até agredido fisicamente pelos colegas. E isso se deve, principalmente, ao ambiente de sectarismo criado pela doutrinação;

10 – A doutrinação infringe, também, o disposto no art. 53 do Estatuto da Criança e do Adolescente, que garante aos estudantes “o direito de ser respeitado por seus educadores”. Com efeito, um professor que deseja transformar seus alunos em réplicas ideológicas de si mesmo evidentemente não os está respeitando;

11 – A prática da doutrinação política e ideológica nas escolas configura, ademais, uma clara violação ao próprio regime democrático, na medida em que ela instrumentaliza o sistema público de ensino com o objetivo de desequilibrar o jogo político em favor de determinados competidores;

12 – Por outro lado, é inegável que, como entidades pertencentes à Administração Pública, as escolas públicas estão sujeitas ao princípio constitucional da impessoalidade, e isto significa, nas palavras de Celso Antonio Bandeira de Mello (Curso de Direito Administrativo, Malheiros, 15ª ed., p. 104), que “nem favoritismo nem perseguições são toleráveis. Simpatias ou animosidades pessoais, políticas ou ideológicas não podem interferir na atuação administrativa e muito menos interesses sectários, de facções ou grupos de qualquer espécie.”;

13 – E não é só. O uso da máquina do Estado que compreende o sistema de ensino– para a difusão das concepções políticas ou ideológicas de seus agentes é incompatível com o princípio da neutralidade política e ideológica do Estado, com o princípio republicano, com o princípio da isonomia (igualdade de todos perante a lei) e com o princípio do pluralismo político e de ideias, todos previstos, explícita ou implicitamente, na Constituição Federal;

14 – No que tange à educação moral, referida no art. 2º, VII, do projeto de lei, a Convenção Americana sobre Direitos Humanos, vigente no Brasil, estabelece em seu art. 12 que “os pais têm direito a que seus filhos recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com suas próprias convicções”;

15 – Ora, se cabe aos pais decidir o que seus filhos devem aprender em matéria de moral, nem o governo, nem a escola, nem os professores têm o direito de usar a sala de aula para tratar de conteúdos morais que não tenham sido previamente aprovados pelos pais dos alunos;

16 – Finalmente, um Estado que se define como laico e que, portanto deve ser neutro em relação a todas as religiões– não pode usar o sistema de ensino para promover uma determinada moralidade, já que a moral é em regra inseparável da religião;

17. Permitir que o governo de turno ou seus agentes utilizem o sistema de ensino para promover uma determinada moralidade é dar-lhes o direito de vilipendiar e destruir, indiretamente, a crença religiosa dos estudantes, o que ofende os artigos 5º, VI, e 19, I, da Constituição Federal.

Ante o exposto, entendemos que a melhor forma de combater o abuso da liberdade de ensinar é informar os estudantes sobre o direito que eles têm de não ser doutrinados por seus professores.

Nesse sentido, o projeto que ora se apresenta está em perfeita sintonia com o art. 2º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que prescreve, entre as finalidades da educação, o preparo do educando para o exercício da cidadania. Afinal, o direito de ser informado sobre os próprios direitos é uma questão de estrita cidadania.

Urge, portanto, informar os estudantes sobre o direito que eles têm de não ser doutrinados por seus professores, a fim de que eles mesmos possam exercer a defesa desse direito, já que, dentro das salas de aula, ninguém mais poderá fazer isso por eles.

Note-se por fim, que o projeto não deixa de atender à especificidade das instituições confessionais e particulares cujas práticas educativas sejam orientadas por concepções, princípios e valores morais, às quais reconhece expressamente o direito de veicular e promover os princípios, valores e concepções que as definem, exigindo-se, apenas, a ciência e o consentimento expressos por parte dos pais ou responsáveis pelos estudantes.

Frisamos mais uma vez que projetos de lei semelhantes ao presente – inspirados em anteprojeto de lei elaborado pelo Movimento Escola sem Partido (www.escolasempartido.org) – já tramitam nas Assembleias Legislativas dos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Goiás e Espírito Santo, e na Câmara Legislativa do Distrito Federal; e em dezenas de Câmaras de Vereadores (v.g., São Paulo-SP, Rio de Janeiro-RJ, Curitiba-PR, Vitória da Conquista-BA, Toledo-PR, Chapecó-SC, Joinville-SC, Mogi Guaçu-SP, Foz do Iguaçu-PR, etc.), tendo sido já aprovado nos Municípios de Santa Cruz do Monte Carmelo-PR e Picuí-PB.

Pelas razões expostas, esperamos contar com o apoio dos Nobres Pares para aprovação deste Projeto de Lei.

Sala das Sessões, em 23 de março de 2015.

Deputado IZALCI LUCAS
PSDB/DF
ESP.MFUN.NGPS.2015.03.18

[1]  http://escolasempartido.org/component/content/article/2-uncategorised/484-anteprojeto-de-lei-estadual-e-minuta-de-justificativa

NOTA de 11/5/2018

Este artigo é parte de uma série de cinco artigos que começou há quase dez anos neste blog Liberal Space e que defende o Liberalismo Clássico e uma Educação Liberal, que leve o Liberalismo Clássico a sério, combatendo uma educação que não merece o nome, pois é mais doutrinação do que educação, que foi moldada para combater o Liberalismo Clássico e para promover uma educação de viés socialista, quando não comunistizante.

São estes os cinco artigos:

O mais antigo dos artigos, “Dogmatismo e Doutrinação“, foi publicado em 3/4/2009, há quase dez anos, no endereço https://liberal.space/2009/04/03/dogmatismo-e-doutrinacao/.

Em seguida, “‘Educação Sem Doutrinação’ e ‘Escolas Sem Partido’“, que foi publicado em 10/4/2010, no endereço https://liberal.space/2010/04/10/educacao-sem-doutrinacao-e-escolas-sem-partido/.

O terceiro artigo, “Doutrinação e Educação: A Esquerda Pretende Argumentar que Doutrinar não Passa de um Jeito ‘Crítico’ de Educar“, que foi publicado em 28/5/2016, no endereço https://liberal.space/2016/05/28/doutrinacao-e-educacao-a-esquerda-pretende-argumentar-que-doutrinar-nao-passa-de-um-jeito-critico-de-educar/.

O quarto artigo, “A Controvérsia Acerca do ‘Escola Sem Partido’ Continua: PL 867/2015“, publicado em 14/5/2018, no endereço https://liberal.space/2018/05/14/a-controversia-acerca-do-escola-sem-partido-continua/.

Por fim, o quinto artigo, “A Escola e a Liberdade”, publicado em 10/11/2018, no endereço https://liberal.space/2018/11/10/a-escola-e-a-liberdade/.

Eduardo CHAVES