O que Significa “Ser de Direita” Hoje no Brasil

Vi ontem um videozinho do Luiz Felipe Pondé, discorrendo sobre o que significa “ser de direita” na Universidade hoje. Embora concorde, em grande parte com ele, resolvi escrever sobre o meu ponto de vista acerca do assunto — sem tocar na questão da Universidade, que, para mim, são águas passadas. Faz 15 anos que me aposentei da UNICAMP e posso contar nos dedos as vezes que voltei lá. Vou discutir, portanto, o que significa ser de direita no Brasil hoje. Concordo basicamente com o Pondé na tese de que ser de direita no Brasil de hoje é ser liberal clássico, defender direitos e liberdades individuais, um estado mínimo, e, por conseguinte, a economia de mercado. Sei que há gente que discorda, dando ênfase ao papel de uma “direita cultural” e a “pauta de costumes” (sexo, aborto, etc.). Acredito, como liberal (mais do que isso, vejo-me hoje bem mais próximo do libertarianismo anárquico) na liberdade das pessoas de serem o que desejam ser — mas detesto a criação de causas e movimentos e o proselitismo que essas causas e esses movimentos fatalmente implicam. Mais sobre isso depois.

O que significa ser “de direita” no Brasil de hoje?

  1. Ser “de direita” significa, no Brasil de hoje, em primeiro lugar, numa tese negativa, “não ser de esquerda”. Muita gente não gosta de teses negativas, mas neste caso é apropriado. Boa parte dos brasileiros que se definiu como de direita o fez para marcar posição contra o petismo e os seus petralhistas. Mas reconheço que dizer que ser de direita é não ser de esquerda me obriga a definir, em seguida, o que é ser de esquerda. Não deixarei de fazer isso, como vai ficar claro em seguida.
  2. Ser “de direita” significa, no Brasil de hoje, agora numa tese positiva, considerar sempre o Indivíduo como o elemento mais fundamental nos binômios “Indivíduo e Sociedade”, “Indivíduo e Estado”. A sociedade é composta de indivíduos e não tem existência sem eles. Ela não é um ente platônico que tem existência, direitos, opiniões, voz, etc. à parte dos indivíduos que a compõem. E o estado é uma criação dos indivíduos. É difícil imaginar e crer que tenha havido uma sociedade de indivíduos sem nenhum mecanismo de governança, a chamada “sociedade natural” (erroneamente chamada de “estado natural”, a menos que o termo “estado” signifique apenas “condição”, sem um sentido mais técnico). E difícil imaginar que esses indivíduos tenham se reunido e poderado: “Oi galera, a gente tem brigado muito, vamos criar um estado, botar o Sarney na presidência, e ele cria um congresso para fazer umas leis e um tribunal para decidir quem violou as leis, etc.”. É bem mais provável que as coisas tenham acontecido de modo mais natural, espontâneo, e, em retrospectiva, se invento o mito do “contrato social”.
  3. Considerar o indivíduo o elemento mais fundamental significa nos conflitos inevitáveis que vão surgir entre o indivíduo e a sociedade e o indivíduo e o estado, nossa solidariedade primeira deve estar com o indivíduo. Ele é um — a sociedade são muitos, e o estado representa muitos, pois doutra forma não seria estado, a não ser pelo uso de uma força tão extrema que poria todo mundo contra ele. Isso significa, portanto, que quando falamos em direitos, a saber, o direito de expressar (tanto o seu pensamento como as suas emoções e a sua forma de ser), o direito de ir e vir (tanto dentro do país, como pra fora e pra dentro do país), o direito de se organizar e se associar em grupos ou se associar a grupos para fins lícitos, o direito de possuir bens e propriedades (tanto de bens tangíveis como intangíveis, tanto de propriedades materiais como imateriais), é de direitos de indivíduos, de direitos de pessoas humanas vistas como indivíduos, não de direitos de blocos ou grupos de pessoas, que estamos falando, e que esses direitos devem prevalecer contra a força, o poder e a autoridade da sociedade e do estado. E que, quando os direitos de indivíduos conflitarem uns com os direitos de outros indivíduos, deve haver meios pacíficos e com autoridade moral e de fato para decidir quais direitos prevalecem.
  4. Isso significa, portanto, que uma sociedade organizada com base na primazia dos direitos individuais, esses direitos devem ter primazia, não só com base em princípios utilitários (como se verá) mas, e principalmente, com base em princípios morais. O princípio da maioria pode ser útil para decidir quem vai governar, mas, mesmo neste caso, deve haver previsão para remover maus governantes de forma indolor, e, isso, quando prevaricam, ou por pura incompetência, ou pela prática deliberada de atos imorais — porque não sabem o que fazer ou por escolherem fazer o que não é certo. Até aí a moralidade se aplica, e ela é inerente aos indivíduos, as ações individuais. É preciso considerar sempre o Indivíduo o elemento mais fundamental. Ninguém deve ser exculpado em um linchamento alegando que, “bem todo mundo estava batendo nele, e então eu também fui lá e dei umas porradinhas…”.
  5. Toda essa conversa de “direito individual” como sendo “natural”, “inalienável”, surgiu porque se acredita que haja uma “lei natural”, que se aplica ao ser humano, independentemente de qualquer sociedade em que ele viva, em qualquer época histórica. É ela a base da moralidade, e é ela que torna certos atos individuais imorais independentemente de tempo ou lugar. É por isso que a maior parte dos liberais clássicos não acredita que direitos individuais sejam direitos outorgados por uma sociedade ou por um estado. Para ele à sociedade e ao estado só cabe reconhecê-los e fazer valer esse reconhecimento (até, agora, no caso do estado, pelo uso da força, que só pode ser aplicada para impedir ou corrigir uma injustiça).
  6. Mas o apelo a princípios utilitários também é válido, porque a experiência mostra e a história prova que uma sociedade que protege os direitos e as liberdades de cada um e que, não interferindo com o direito dos indivíduos de viver a sua vida como desejam e de desfrutar de suas liberdades, sem impedimentos, desde que estejam respeitando iguais direitos e liberdades dos demais, é uma sociedade não só mais justa, mas que produz mais e distribui melhor os bens e serviços produzidos, satisfazendo os interesses e as necessidades da maioria das pessoas.
  7. Isso significa, portanto, que a sociedade e o estado não devem nada aos indivíduos a não ser o respeito e a proteção aos seus direitos e às suas liberdades, e que a única forma legítima de os indivíduos alcançarem realização pessoal, felicidade, sucesso material e fama é respeitando esses direitos dos demais e tendo clareza sobre os seus objetivos e metas na vida (Projeto de Vida).
  8. Isso significa, também, que o estado não deve ser maior do que é estritamente preciso. Como sua função é exclusivamente respeitar e proteger direitos individuais, não estão entre suas funções garantir o bem-estar dos indivíduos em sociedade, oferecendo-lhes educação, saúde, seguridade social, muito menos moradia, emprego, esgoto, água tratada, energia, Internet, etc. Quando o estado já está exercendo essas funções, é preciso privatizá-las.
  9. Os limites extremos são individualismo anárquico, do lado direito, sem governo algum, e comunismo totalitário, condição em que o estado é tudo.
  10. Recomendaria que abandonássemos os termos “direita” e “esquerda” e nos concentrássemos nas questões fundamentais: defende o crescimento e fortalecimento de quem? Do indivíduo e das associações privadas? Em caso positivo, é dos meus. Do estado e das organizações estatais, para-estatais, etc.? Em caso positivo, não é dos meus: considero meu adversário político e vou lutar para que não prevaleça.

É só nesse sentido que se pode dizer que sou direita. A pauta cultural ou dos costumes literalmente não me incomoda. A mim não incomoda que alguém seja gay, ou bi, ou trans, que viva com alguém do mesmo sexo (ou até com mais de um), nem mesmo que faça um aborto de uma gravidez indesejável iniciante (não vejo diferença entre fazer sexo com camisinha, ou com coitus interruptus, e usar a pílula do dia seguinte: nesse aspecto sou católico, é tudo a mesma coisa) — desde que não se tente obrigar ou mesmo a constranger os outros a fazer a mesma coisa. Mas, na questão do aborto, chega uma hora é que se torna assassinato — e essa é hora é muito antes do nascimento. Isso é parte dos direitos individuais. É difícil de resolver em casos particulares? Sim, é difícil. Como é difícil fazer a coisa certa em muitas outras circunstâncias. Mas é a consciência moral de cada um (de cada indivíduo) que deve resolver. Não é a igreja ou o partido político.

Em Salto, 13 de Maio de 2022. Dia da Libertação dos Escravos.

A Liberdade

Post com três componentes: um meu (o do meio) e dois de autores portugueses.

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1. Artigo de José Manuel Fernandes, do jornal (na verdade, meio de comunicação) português Observador, sobre o dia 25 de Abril lusitano — o “Dia da Liberdade Readquirida”, recebido, por email, do autor (que não encontrei, enquanto tal, no site da publicação):

A minha reflexão sobre o 25 de abril

“Caro leitor,

‘Quando encontramos pessoas que constituem uma excepção à aparente unanimidade do mundo a respeito de um assunto qualquer, mesmo que o mundo esteja certo é provável que os dissidentes tenham alguma coisa a dizer que vale a pena ouvir e que a verdade perca algo com o seu silêncio’.

Estas palavras foram escritas por John Stuart Mill, um dos filósofos da liberdade, há mais de 150 anos mas continuam muito actuais, tão actuais que as recordo agora que passa mais um aniversário do 25 de Abril – o 48º.

Mais um aniversário e mais uma oportunidade para recordar que liberdade é liberdade e que isso muitas vezes parece contrariar a vontade da maioria. Para recordar também que a liberdade reconquistada nesse dia não vinha com outro programa político senão o de devolver aos portugueses a palavra sobre o seu destino.

No Observador levamos muito sério esta ideia de liberdade – a ideia de que ela naturalmente contraria a unanimidade, até porque a minoria de hoje pode ser a maioria de amanhã. E que todas as vozes têm direito a exprimir-se, até para discordarmos delas.

Num tempo em que a cultura de cancelamento ameaça a liberdade de expressão, numa era em que regressam discursos autoritários, num país onde muitas vezes há receio de discordar e de divergir, o Observador procura a verdade com a noção de só pode fazê-lo se quebrar silêncios e interditos.

É uma missão em que nos empenhamos há quase oito anos (vamos celebrar em Maio o nosso oitavo aniversário), é uma missão de enorme urgência nestes tempos aflitivos e de guerra, é uma missão só possível de levar por diante com os nossos leitores (e ouvintes da Rádio Observador) e sobretudo com os nossos assinantes.

É também a eles que agradecemos em mais este aniversário da liberdade readquirida.”

José Manuel Fernandes
Publisher do Observador

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2. Meu Comentário
(de Eduardo Chaves), a seguir:

A lição de John Stuart Mill é que a liberdade seria fácil de exercer, e dificilmente seria reprimida, se nós apenas a utilizássemos para dizer aquilo com que todo mundo está de acordo. Mas ela precisa ser exercida, e não deve nunca ser reprimida, quando se trata da voz de um que clama sozinho num deserto intelectual, quando se trata da voz das minorias e dos minoritários. O democracia liberal não implica apenas a tomada de decisão pela maioria. Implica isso, mas também exige a preservação do direito das minorias, ainda que de um só, de externar o seu ponto de vista, de dizer e defender o seu ponto de vista, ainda que ele seja, mais do que apenas discordante, desagradável e ofensivo. Se quem foi ofendido julga que a ofensa é mentirosa e lhe causa dano (material ou à honra e a reputação), pode apelar à Justiça. Mas esse é um direito individual e nominado. Não se aplica à própria Justiça à qual cabe apurar se houve dano. Primeiro, porque a Justiça, ou qualquer tribunal, não é um indivíduo, que é o senhor dos direitos individuais. Segundo, porque, ainda que ela assim fosse considerada, ela estaria julgando em causa própria, o que é sempre inadmissível. Nos julgamentos colegiados, juízes que estejam direta ou indiretamente envolvidos, têm de se declarar incapazes de julgar, por falta de objetividade — princípio que, no Brasil foi julgado no lixo pelos membros do nosso tribunal maior.

Está na hora de lutar para recuperar as liberdades que estamos perdendo. É fácil perdê-las: é só não fazer nada que os ladrões da liberdade nô-la roubam e a levam embora.

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3. Artigo publicado também no Observador, de autoria de João Marecos, com o título A Liberdade da Expressão que Ofende (este disponível no site no endereço https://observador.pt/opiniao/a-liberdade-da-expressao-que-ofende/ (06 fev 2018, 06:0018). Ei-lo:

“As redes sociais, este paraíso de comunicação livre, tem vindo a tornar-se num espaço de expressão governado por uma ditadura da maioria – aquilo a que se usa chamar o politicamente correto.

Nunca conheci quem não fosse pela liberdade de expressão, a começar pela sua. Ainda que naturalmente limitada – a difamação, a injúria, o incitamento à violência ou à fraude, por exemplo, são crimes previstos na lei penal -, não restam dúvidas de que é absolutamente central em qualquer sociedade que se queira dizer livre.

Mas para que serve a liberdade de expressão? Por exemplo: posso defender que a cor da pele determina a capacidade intelectual de uma pessoa? Posso acreditar que um género é biologicamente inferior ao outro? Posso mentir sobre mim? Posso mentir sobre os outros? Posso dar opiniões com base em factos falsos? Posso defender realidades que a ciência atual rejeita?

Tudo isto são formas de expressão que, com grandes diferenças de grau – eu sei que estou a misturar muita coisa diferente – reputamos como de menor ou nenhum valor: mentiras, insultos, discurso de ódio, discriminação. E, ainda assim, a questão põe-se: se eu sou verdadeiramente livre para me expressar – se tenho um direito à liberdade de expressão -, não poderei ser racista? Não poderei ser machista? Não poderei ser mentiroso?

Como é, afinal: toleramos o discurso intolerante?

Vamos imaginar que dizemos coletivamente que não: não, o direito à liberdade de expressão não inclui estes discursos ofensivos, vis ou de menor valor. É um conforto: limpamos o espaço público deste tipo de intervenções e passamos a viver num lugar mais asseado.

Ficamos então com o que sobra: o que não ofende, o que não exclui, o que é verdadeiro. Mas quem define o que é ofensivo? Quem define o que é verdadeiro? A maioria? É uma hipótese. Afinal, em democracia, vinga a maioria.

Contudo, a maioria não é estanque. A maioria muda, evolui. E a verdade que aceitamos hoje é a mentira ofensiva de amanhã. Antes, a Terra era plana e as mulheres não votavam. Ai de quem viesse defender o contrário: fogueira com eles. Hoje, rimos com gosto e incredulidade, porque anda por aí um movimento que defende que a Terra é plana e erguemo-nos contra as desigualdades de género. E ainda bem: chegámos a um sítio melhor. Mas precisámos de quem contrariasse a maioria. Precisámos de dar espaço a todo o tipo de discurso, para que do confronto entre duas mundividências resultasse a melhor.

Vem-me tudo isto a propósito deste admirável novo mundo das redes sociais: o paraíso da comunicação livre, onde todos têm uma voz, uma oportunidade de expressar os seus pontos de vista e de entrar em diálogo.

Acontece, porém, que este paraíso de comunicação livre se tem vindo a tornar, progressivamente, num espaço de expressão governado por uma ditadura da maioria – aquilo a que se usa chamar o politicamente correto – onde se põe em causa não só o que foi dito pelo outro, mas o próprio direito do outro a dizê-lo.

O politicamente correto é, no fundo, um manual de regras para uma expressão higienizada. Regula-nos o conteúdo, a forma, o tempo e o meio da expressão.

Há palavras que não se podem usar nunca. Outras que não se podem usar com certas pessoas. Outras que não se podem usar em certas situações. Há coisas que não se dizem. Há momentos para dizer as coisas. Há palavras que podem ser ditas por uns, mas não podem ser ditas por outros. Há coisas com que não se brincam. Há brincadeiras que não são para agora. Há conversas que não se têm. Esta não é a altura certa. Isso não vem a propósito. Isso não se diz. Isso não se faz. Isso não se pensa.

O politicamente correto apresenta-se de cara lavada e com boas intenções: pretende defender os outros da ofensa, do mau trato, da discriminação. Tem, contudo, a perversidade de nos tornar polícias do discurso, dos outros e do nosso, que monitorizamos selvaticamente em busca de transgressões expressivas. E assenta, sobretudo, num engano generalizado e perigoso: o de que o espaço público de expressão não permite a expressão que ofende, que discrimina, que é falsa ou de que simplesmente não gostamos.

Ora, isso não é verdade: nem nós temos autoridade para dizer ao outro o que ele pode ou não pode dizer – insultando-o e perseguindo-o até ele se calar -, nem temos qualquer pretensão a que o discurso dos outros não magoe os nossos sentimentos, ofenda as nossas crenças ou, de um modo geral, nos provoque qualquer alteração negativa de estado de espírito.

O que me leva à questão com que comecei: para que serve a liberdade de expressão? Porque é que a Constituição – a nossa e muitas outras – fez questão de assegurar esse direito? Será que era preciso garanti-lo para proteger as opiniões maioritárias? Para permitir o discurso que não causa desconforto a ninguém? Para afirmar verdades universais e pacíficas?

Faria pouco sentido. Não: o direito à liberdade de expressão serve precisamente para proteger a liberdade, nossa e dos outros, de nos expressarmos, mesmo – ou sobretudo – quando essa expressão é incómoda. Não é grande feito reconhecer ao outro a liberdade de me tratar bem, de concordar comigo ou, no geral, de ser uma pessoa decente. O que precisa de defesa é a expressão que desagrada, a opinião que incomoda, o comentário que suja ou a atitude que escandaliza.

A liberdade de expressão serve para proteger aquilo que nós não gostamos que os outros digam, façam ou pensem. O racista pode ser racista. O homofóbico pode ser homofóbico. O mentiroso pode ser mentiroso. E toda a gente pode ter opiniões insultuosas e sem sentido.

É uma pena que existam? Será. Pessoalmente, acho lamentável. Mas não me cabe a mim proibi-los: cabe-me contrariá-los. É assim que funciona o jogo da livre expressão: cada um tem a sua visão e no final de uma longa, suja, incómoda e barulhenta refrega, provavelmente vai cada um à sua vida com a opinião que já tinha. Contudo, há em cada debate a pequena possibilidade de persuadirmos alguém, seja o outro ou os que assistiram. É também essa possibilidade que a liberdade de expressão quer proteger.

Nas redes sociais, como fora delas, cada um é responsável pelo que diz e justamente avaliado pelos outros em função disso. Aos racistas, aos homofóbicos, aos machistas, aos mentirosos e àqueles que estão simplesmente errados, deve responder-se sempre, incansavelmente, com discursos de sinal contrário, com argumentos, com factos e com críticas.

É através do confronto público, aceso e constante, dessas formas de expressão com as suas falhas lógicas, com os seus erros de base e com os seus preconceitos que as combatemos e derrotamos. Suprimir este tipo de discurso – proibindo-o, ostracizando-o – é escondê-lo na penumbra, é levá-lo para onde não o vemos nem o podemos criticar, mas onde ele continua a fazer o seu silencioso trabalho. Esse discurso tem direito a um espaço na discussão pública – e é só por isso que o podemos vencer.

Tolerar uma expressão não significa aceitar o seu conteúdo. Mas significa aceitar a sua existência. Da próxima vez que se escandalizar, lembre-se disso.”

[João Marecos tem 26 anos, é advogado e estudante de mestrado na New York University. Integrou os Global Shapers de Lisboa em 2014. É um dos autores da página “Os Truques da Imprensa Portuguesa”]

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Parabéns ao João Marecos, por escrever com tanta competência aos 26 anos.

Em Salto, 24 de Abril de 2022

Angela Merkel ou Nós, os Brasileiros: Quem Está Fora da Curva?

É a Angela Merkel ou é o Povo Brasileiro que é Sui Generis?

Faz algum tempo (18.9.2021) eu transcrevi um texto sobre Angela Merkel, que era acompanhado de uma foto dela com seu marido, saindo de um supermercado, onde foram fazer compras. O tempo parecia estar meio frio, porque ambos estavam encasacados – com roupas simples. O texto transcrito, de Oscar Bini, tem a data de 4.9.2020. O texto de Oscar Bini, que não sei quem é, mas escreve em Espanhol, destaca o seguinte, sobre a ex-Primeira Ministra (Chanceler, Kanzlerin) Alemã:  

  • Angela Merkel vive en um apartamento normal, entre vizinhos normais;
  • Angela Merkel vai ao supermercado com o marido para fazer suas compras, como qualquer pessoa;
  • Angela Merkel, como ex-Primeira Ministra, não tem um corpo de seguranças e assessores que a acompanham por todo lugar;
  • Angela Merkel não tem um (muito menos mais de um) carro oficial, com tanque cheio e com com dois ou três motorista(s), 24 horas por dia, à sua disposição;
  • Angela Merkel, quando precisase locomover, usa transporte público ou dirige, ela mesma, seu próprio carro, colocando gasolina, pagando pedágios e eventuais consertos ela mesma;
  • Angela Merkel, se cometer uma infração de trânsito ao dirigir seu veículo, paga ela mesma a multa do seu próprio bolso;
  • Angela Merkel não tem recebe do governo alemão subsídios especiais para custear sua moradia, pagar eletricidade, água, gás, telefone, Internet, muito menos algo equivalente a uma “bolsa paletó” ou uma “bolsa tailleur” para se vestir bem às custas do Estado;
  • Angela Merkel paga seus impostos como qualquer outro cidadão alemão sem privilégios e descontos especiais;
  • Angela Merkel tem os mesmos direitos e deveres de qualquer outro cidadão alemão.
  • Angela Merkel achava que, como política, sua obrigação era servir o povo alemão, não ser servida por ele.

PERGUNTO:

Angela Merkel era uma pessoa única, em seus valores e atitudes, diferente dos demais cidadãos alemães e diferente dos políticos de outros países civilizados, ou será que o povo alemão e os povo dos demais países civilizados não permite ser explorado por políticos. O certo é comparar Angela Merkel com outros políticos ou comparar o povo alemão com o povo brasileiro, que leva tudo na flauta e na brincadeira e não se importa de ser explorado, que, quem sabe, sente um prazer mórbido em reeleger políticos corruptos e ladrões?

Você, brasileiro, não elogia a Angela Merkel, uma pessoa simples e honesta? Por que, então, na hora de votar você parece esquecer que foi o povo alemão que, pelo seu voto, a colocou na liderança da nação, e cogita votar para políticos corruptos e ladrões, que entraram no governo pobres e saíram de lá biliardários? 

Em Salto, 2.2.22

Vinte Anos como Blogueiro (2002-2022)

Este ano de 2022 faz 20 anos que criei os meus primeiros blogs e os meus primeiros posts. 

Eu comecei mexer com coisas relacionadas com a Informática em 1980. Este ano está fazendo 42 anos. 

Eu havia me tornado Diretor da Faculdade de Educação em Abril de 1980. O primeiro projeto de pesquisa que assinei foi um pedido de financiamento para a FINEP para um projeto sobre o uso de computadores da Educação (na aprendizagem dos alunos, não no ensino dos professores), usando a linguagem LOGO, de autoria de Seymour Papert, já falecido, mas então um dos mais conhecidos nomes do Massachusetts Institute of Technology (MIT).  Os coordenadores eram os Professores Fernando Curado, do Departamento de Ciência da Computação do Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação, e Raymond Paul Shepard, do Departamento de Psicologia Educacional da Faculdade de Educação. Li o projeto, um catatau, e me interessei pelo assunto. Fui visitar o trabalho que vinha sendo feito pelas Professoras Maria Cecília Calani e Heloísa Vieira da Rocha (hoje, aposentada, morando em Marília, na região da Grande Lucélia, cidade em que nasci…) do Departamento de Ciência da Computação. O projeto era desenvolvido no Centro de Computação e eu pela primeira vez vi um computador de porte razoável, o DEC-10, da UNICAMP, “DEC” significando “Digital Equipment Corporation”.

No ano de 1981 e no ano seguinte de 1982 houve, no mês de Agosto, dois Encontros, chamados de I e II Seminários Nacionais de Informática na Educação, o de 1981 em Brasília, o de 1982 em Salvador, patrocinados pela Secretaria Especial de Informática (SEI), vinculada ao Conselho de Segurança Nacional da Presidência da República, com apoio financeiro, técnico e logístico do Ministério da Educação (MEC), do Centro Nacional Pesquisas (CNPq), da Financiadora de Estudos e Pesquisas (FINEP), da Fundação Nacional de Televisão Educativa (FUNTEVÊ), etc. e eu, como diretor da Faculdade de Educação da UNICAMP fui convidado a participar e aceitei. (Da UNICAMP participaram a Maria Cecília, já mencionada, a Afira Vianna Ripper (da Faculdade de Educação), e o Vilmar Evangelista Faria (do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, hoje falecido). Nesse encontro fiz algumas grandes amizades: o Professor Fernando José de Almeida (da Faculdade de Educação da PUC-SP), a Professora Léa da Cruz Fagundes (do Laboratório de Estudos Cognitivos da UFRGS), a professora Amélia Americano Franco Domingues de Castro (da Faculdade de Educação da USP, depois da Faculdade de Educação da UNICAMP), o professor Samuel Pfromm Neto (do Instituto de Psicologia da USP), o Professor Ivan Moura Campos (do Instituto de Computação da UFMG, da Sociedade Brasileira de Computação, e um pioneiro da área de Computação no Brasil — e um dos poucos que entendia de Computação nos Encontros), etc. Desses, que eu saiba, alguns já faleceram (Amélia, Samuel), com outros não tenho mais muito contato, com exceção do Ivan. 

Em 1981 algumas coisas me persuadiram que deveria ir mais a fundo na área de “computadores e equipamentos subsidiários” — eles não podiam ficar fora da minha vida. (A expressão entre aspas vem do nome da SUCESU – Sociedade de Usuários de Computadores e Equipamentos Subsidiários, uma sociedade que existia naquela época e nem sei se existe ainda). A UNICAMP, no final de 1981, começo de 1982, passou por uma terrível crise (ficou parada de Outubro de 1981 até Abril de 1982), eu e mais sete colegas diretores de unidades acadêmicas havíamos sido destituídos de nossos cargos de direção e, pelo andar da carruagem (a época era ainda de regime autoritário e Paulo Salim Maluf era Governador do Estado de São Paulo, que financia e controla a UNICAMP) não era inconcebível que a gente viesse a perder até o cargo de Professor da UNICAMP. Essas coisas ainda aconteciam. Diante desse quadro, perguntei-me o que eu faria de minha vida se perdesse meu emprego? Poderia arrumar outro, numa universidade particular ou “confessional”, de oposição, como a PUC-SP ou a PUC-Rio ou a PUC-Campinas. Mas além de ser professor universitário eu não sabia fazer mais nada. Resolvi, então, por sugestão de meu querido colega Maurício Prates de Campos Filho, também destituído como Diretor da Faculdade de Engenharia, que deveria me me entrar de cabeça na área de Informática. Fui à cidade, na People Computação, uma Escola de Informática criada em 1979, por Valter Balazina, matriculei-me num curso (de um ano!) de Introdução em Informática e Programação de Microcomputadores (linguagens BASIC e COBOL), e fiquei amigo do Valter e do José Antonio Ribeiro Neto, um matemático, nascido em Tupã, que era o braço direito do Valter. No início de 1982 fiz uma viagem aos Estados Unidos e comprei um Commodore 64. Nessa época comecei a trabalhar como assessor, na área Técnico-Pedagógica, da People, o Maurício Prates, o Paul Shepard, o Saul Gonçalves D’Ávila, todos colegas da UNICAMP, com a ajuda do José Eustáquio da Silveira Neto, Secretário Executivo da Fundação de Desenvolvimento da UNICAMP (FUNCAMP) criamos uma empresa de treinamento, Centro de Desenvolvimento Profissional e Tecnológico (CEDET), para da cursos em Campinas (a IBM foi a principal cliente).

Em 1983 criei na UNICAMP o Núcleo de Informática Aplicada à Educação (NIED), que vai fazer 40 anos o ano que vem, o NIED submeteu um projeto no Edital do MEC que caiu o Projeto EDUCOM, o NIED foi um dos cinco projetos aprovados (de 26 apresentados), e eu, além de Coordenador do NIED, fui também Coordenador do Projeto EDUCOM da UNICAMP de 1983 a 1986, quando fui para a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, e depois para a Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, acompanhando o ex-Reitor da UNICAMP, Professor José Aristodemo Pinotti, de 1986 até 1990. Nas duas Secretarias fui Diretor do Centro de Informações e Informática. E fui nomeado pelo Governador Orestes Quércia, por dois mandatos de um ano, membro do primeiro Conselho Estadual de Informática (CONEI) do Estado de São Paulo, nos anos 1987-1988. Em 1990 voltei para a UNICAMP, e passei a dar aulas apenas no período noturno. 

Em 1986 criei um Grupo de Discussão sobre Informática na Educação, chamado INFED-L, nos computadores da UNICAMP (agora um VAX, da DEC), que foi implodido, com a melhor das intenções, pelo meu amigo, Professor Valdemar W. Setzer, professor da USP, e também um dos pioneiros da Computação no Brasil, mas que, sendo seguidor de uma filosofia chamada Antroposofia, criada por Rudolf Steiner, e um dos líderes da Escola Waldorf de São Paulo, era o grande crítico brasileiro do uso de computadores na educação, em especial com crianças abaixo de quinze anos. Não desisti e criei outro Grupo de Discussão, o EduTec.Net, em 28.10.1998, que durou até Nine Eleven. O terrorismo islâmico e o anti-americanismo da esquerda brasileira me levaram a fecha-lo, em Setembro de 2001, quando tinha mais de 1.500 participantes regulares. Na mesma época criei o site EduTec.Net, com apoio da subsidiária brasileira da Microsoft, de quem passei a ser consultor, na área da Educação, desde 1998. 

De lá para cá, nunca mais larguei a área de Informática Aplicada à Educação, tendo me enveredado também pela área de Informática em Saúde, por causa dos quatro anos que passei na Secretaria de Saúde do Estado. Fui Pesquisador do CNPq na Escola Paulista de Medicina, durante um tempo, a convite de meu amigo Prof. Dr. Daniel Sigulem, que me incentivou a entrar na Sociedade Brasileira de Informática em Saúde (SBIS) e até a ser o editor da Newsletter da SBIS…

Mas só vim a me meter com blogs em 2002. Naquele ano abri uma conta no Blogger, do Google, e criei quatro blogs:

  • Me, Myself and I: Aspectos de Mim Mesmo
  • Educação 
  • Libertas (Liberalismo)
  • Philosophy

Publiquei poucas coisas. Não estava engrenado ainda. 

Entrementes, troquei de time. A Consultoria que eu dava para a subsidiária da Microsoft no Brasil (a Microsoft Informática Ltda.) recebeu um upgrade em 2003. Por indicação de Márcia Teixeira, então Gerente Sênior de Informática na Educação da Microsoft brasileira, me tornei, em Março de 2003, membro do International Advisory Board da iniciativa global “Partners in Learning”, da Microsoft Corporation, de Redmond, WA, USA. Isso me tornou consultor também da Corp. Fui membro do International Advisory Board da iniciativa por dois mandatos seguidos de cinco anos, até 2013. 

Nessa condição, minha lealdade mudou para a Microsoft… 

Em Dezembro de 2004 estava numa reunião/treinamento, na região de Seattle, no Puget Sound Center for Teaching and Learning, com Les Foltos e Ana Teresa Ralston (que veio a substituir a Márcia Teixeira, quando esta foi promovida para os Estados Unidos). Durante a reunião Márcia Teixeira me enviou uma mensagem perguntando se eu havia visto o novo serviço de Blog da Microsoft, Windows Live Spaces. Era concorrente do Blogger. Eu não havia. Enquanto participava da reunião, entrei no site que a Márcia me havia indicado, e verifiquei o que deveria fazer para criar o meu Space. Em seguida, criei meu Space, Liberal Space (que existe até hoje, com 1.032 artigos, e coloquei nele a primeira mensagem, pequenina, apenas declarando-o aberto. Era o dia 2.12.2004.

Minha carreira como blogueiro desta vez engrenou. Tenho cerca de 50 blogs, hoje na plataforma WordPress, para a qual a Microsoft transferiu seus blogueiros em 2011. 

Mas ela começou em 2002, no Blogger. A conta no Blogger continua aberta, mas nunca mais a usei. 

Assim, comemoro, neste ano de 2022, Vinte Anos como Blogueiro. Ao todo, nos meus cerca de 50 blogs, tenho mais de 1.500 artigos publicados. O carro-chefe de meus blogs hoje é Chaves Space (https://chaves.space), no qual estou publicando este artigo. 

Em Salto, 27 de Janeiro de 2002.

Identidade Pessoal e Mudanças [versão revista de 2022]

Nossa identidade é aquilo que nos define como “eu” – que nos torna “únicos”, que faz com que eu seja eu, e não você, e você seja você, e não eu…

À primeira vista a questão pode parecer simples – mas não é, não. Pelo contrário: é bastante complicada, e já ocupou horas preciosas da reflexão de grandes pensadores…

A questão pode, naturalmente, ser encarada de diversos pontos de vista.

Encarada do ponto de vista físico e biológico – a questão pode parecer mais simples do que de outros pontos de vista (psicológico, social, intelectual [filosófico, religioso, etc.]), etc., mas mesmo aí vem se tornando cada vez mais complicada.

Dizem os entendidos que a impressão digital de uma pessoa é absolutamente única e permanece a mesma durante toda a vida dela. Com a ajuda de algumas informações complementares, a impressão digital poderia, portanto, ser usada para definir quem a pessoa é do ponto de vista físico e biológico: ela é a versão mais idosa (e, é de esperar, mais experiente) do nenê que nasceu no dia tal, a tantas horas, em tal lugar, de fulana de tal.

Mas dizem novamente os entendidos que as células de uma pessoa morrem e são substituídas por outras dentro de determinados períodos (relativamente curtos) de tempo. Assim sendo, ainda que eu tenha a mesma impressão digital do nenê Eduardo Oscar que nasceu em Lucélia, no dia 7 de Setembro de 1943, às 21h45, na Rua Amazonas s/n, de Edith de Campos, então já renomeada Edith de Campos Chaves (sendo Oscar Chaves o pai presumido), as células que aquele rechonchudo bebê tinha, há 65 anos [alterado na revisão: 78 anos completos, a partir do aniversário em 2021], já morreram todas e foram substituídas por outras – e isso muito mais de uma vez. Por algum milagre biológico, a impressão digital continua a mesma, imagino (não tiraram minha impressão digital quando eu nasci) mas, do ponto de vista físico e biológico, nada físico e biológico que aquele nenê tinha permanece em mim hoje exatamente como era em 7.9.1943.…

Atualmente a coisa fica ainda mais complicada. Algumas pessoas fazem transplante de órgãos: trocam, por exemplo, o seu coração pelo de outra pessoa; ou outros órgãos seus, como um rim… Nada impede que uma pessoa, hoje, receba múltiplos transplantes de órgãos de uma outra pessoa que morreu — ou de mais de uma pessoa. Em alguns casos, até, possivelmente, de um animal não humano. No futuro, é possível que seja possível até mesmo transplantar o cérebro de uma pessoal para outra (como Robert Heinlein já previu em I Will Fear No Evil / Não Temerei Mal Algum – livro que recomendo sem reservas no contexto desta discussão). Quando isso acontecer, se x recebe o transplante do coração, do cérebro, dos rins, e saiba Deus lá mais do que, de y, a pessoa resultante será x ou y – ou será uma mescla das duas, digamos xy? São os tribunais que vão resolver se ela continua x, ou y, ou passa a ser xy, ou w? (Que as leis e os tribunais vão ter de enfrentar essa questão mais cedo do que se pensa, não tenho dúvida.)

E ainda há a possibilidade de a pessoa receber próteses de vários tipos, com características visíveis puramente mecânicas ou com aparência humanoide. Um ser com várias próteses (algo concebível) será (ainda) uma pessoa humana ou será (ou passará a ser) um robô?

A possibilidade de transplantes de cérebro levanta questões importantes, porque se acredita que o cérebro é a base física e biológica da memória… e a nossa memória parece ser um componente essencial de nossa identidade pessoal. Quem sofre um acidente que afeta o cérebro pode perder sua memória, em parte ou totalmente.

E aqui o físico-biológico, de um lado, e o mental, do outro, começam a se confundir… E com o mental vêm o intelectual, o afetivo, a criatividade, a imaginação, a sensibilidade… Ou será que essas características não são total ou puramente mentais? 

Na verdade, John Locke, o grande filósofo britânico do século XVII (que, na minha opinião, é o segundo maior filósofo britânico de todos os tempos, e, portanto, da história, perdendo apenas para David Hume, meu santo padroeiro, mas ganhando de Bertrand Russell), uma vez defendeu a tese (em Essays Concerning Human Understanding) que a memória é o ÚNICO critério definidor de nossa identidade pessoal — que fique para lá o físico-biológico, como as impressões digitais ou arcada dentária…

Em um de seus famosos “experimentos mentais” (que ele gostava muito de fazer), John Locke postulou que se, num dado dia, um príncipe e um sapateiro acordassem com suas memórias totalmente trocadas, um teria se tornado o outro (e vice-versa): eles haveriam trocado de identidade pessoal (apesar de manter o mesmo corpo de antes da troca de memória, com suas impressões digitais, arcadas dentais, etc.). Entre outras mudanças, a pessoa que estivesse ocupando o corpo do (até ali) sapateiro passaria a estar apaixonado pela princesa (ou por quem quer que fosse que o príncipe estivesse apaixonado), e a pessoa que estivesse ocupando o corpo do (até ali) príncipe passaria a estar apaixonado pela mulher do sapateiro (ou por quem quer que fosse que o sapateiro estivesse apaixonado). O (até ali) sapateiro passaria a ter a inteligência sofisticada, os gostos refinados, a sensibilidade, a criatividade, a imaginação do (até então) príncipe, passaria a gostar de ler a melhor literatura, ouvir as mais delicadas músicas… Na música, deixaria de gostar de sertanejo raiz, ou de funk, para gostar de Mozart… E vice-versa.

Ou seja, para Locke, a nossa identidade pessoal nada tem que ver com física ou biologia: ela é definida por fatores puramente mentais. Ou seja: cai na província da psicologia ou (como Locke preferia) da filosofia.

(Lembro-me, neste contexto, de um filme de 1991 com Harrison Ford, que tem o título original de Regarding Henry, em que Ford era um advogado mau caráter e muito chato. Sem que ele soubesse, a mulher dele havia optado por encontrar uma companhia menos cansativa. Mas ele recebeu um tiro na cabeça (que atingiu o seu cérebro) durante um assalto e perdeu a memória: não se lembrava nem de quem era – e, num toque de realismo do filme, teve de reaprender a andar, a falar e a funcionar normalmente. A tese do filme é a de que ele, na verdade, virou outra pessoa: uma pessoa com caráter, legal, interessante, por quem a mulher dele (em sua identidade prévia) voltou a se apaixonar… [Vide http://www.imdb.com/title/tt0102768/]. Vide também o filme brasileiro Se eu Fosse Você, de 2006, em que os personagens – Tony Ramos e Glória Pires – trocam de identidade quando a mente de um passa a ocupar o corpo do outro, e vice-versa – ou seria o oposto: quando o corpo de um se apropria da mente do outro, e vice-versa. Curiosa e significativamente, a sinopse do filme no International Movie Data Base, afirma que os dois “trocaram de corpos” – “switched bodies”. No filme um dos personagens pergunta: se eu me jogar da janela, quem vai morrer, eu ou você? [Vide http://www.imdb.com/title/tt0448927/]. Estava para sair (quando eu escrevi a primeira versão deste artigo, em 2008), ou já saiu (hoje eu o reviso em 2022), Se eu Fosse Você 2. [Vide, para a sequência, http://www.imdb.com/title/tt1099227/]).

É verdade que, como sugere Robert Heinlein (com base, provavelmente, no que diz a maioria dos cientistas, que são, quase todos eles materialistas, e não dualistas, como René Descartes, ou até trialistas, como Karl Raymund Popper), nossa memória tem, no cérebro, a sua indispensável base física e biológica (se o cérebro morrer vão-se embora com ele nossas memórias). Talvez, como o próprio Heinlein sugere, em seu famoso romance, até mesmo o restante de nosso sistema nervoso tenha papel nisso, alguns hábitos e trejeitos nossos, que envolvem componentes físico-biológicos, ficando armazenados, não no cérebro, mas no restante do sistema nervoso central, podendo sobreviver até mesmo a um transplante de cérebros! Mas deixando de lado essa controvérsia científica meio futurística, a sugestão de Locke parece fazer muito sentido: eu sou quem eu me lembro de ter sido… Ou, como preferia dizer o Rubem Alves, eu sou o que fui… ou eu sou quem fui… ou, se o Rubem se lembrasse bem de suas leituras de Locke, eu sou quem eu me lembro de ter sido… Eu ainda sou protestante, dizia ele, porque um dia eu fui… e, eu acrescento: e porque me lembro claramente de ter sido! [Veja a esse propósito o belo artigo do Rubem Alves, “Reflexões de um Protestante Obstinado”, escrito originalmente em 1981, e transcrito em mais de um blog meu, mas a transcrição definitiva é no meu blog Rubem Alves: Teólogo, Filósofo, Educador, que eu criei como um tributo ao amigo querido, no endereço https://rubemalves.com/2021/09/16/rubem-alves-confissoes-de-um-protestante-obstinado/.%5D

O leitor atento terá percebido que, na discussão da identidade pessoal, passei rapidamente de características físicas e biológicas, como impressões digitais e arcadas dentárias, passando por questões que parecem, à primeira vista, ser puramente mentais, como nossa memória, algo que é discutido em manuais de psicologia e não em tratados de biologia ou, muito menos, física, e chegando, finalmente, a questões que são quase mais-do-que-mentais, chegando, quem sabe, ao plano do social, ou quem sabe, do socio-mental, ou da psicologia social: nossas características intelectuais e afetivas, nossa criatividade, nossa imaginação, nossa sensibilidade, quiçá nossos valores — tudo isso faz parte de nossa identidade pessoal, não faz? Ou será que devemos distinguir a identidade física-biológica (que é de natureza material), a identidade pessoal (que é de natureza mental, estando vinculada à memória, ou, pelo menos, dependente dela), e a identidade social, ou psico-social, que envolveria essas outras características nossas que acabei de mencionar: nossas características intelectuais (nossa inteligência e nossas ideias) e afetivas (as coisas de que gostamos e as que detestamos), nossa criatividade, nossa imaginação, nossa sensibilidade, quiçá nossos valores mais básicos (não só nossos gostos e preferências, como gosto mais de churrasco de picanha do que de carne moída com farinha de mandioca misturada).

Exceto no caso de alguns dinossauros mentais, que preferem morrer e se fossilizar a mudar de ideias, de afetos, de hábitos e costumes, etc., é possível que esse conjunto de características que estou chamando de psico-sociais (nossas ideias, etc.) mudem mais rapidamente que as células do nosso corpo… Tem gente que hoje pensa uma coisa, amanhã pensa outra, ontem gostava do Bolsonaro, hoje o acha um monstro genocida, antes era calmo, sereno, tolerante, hoje é explosivo, agressivo, disposto a partir para a ignorância diante da menor desavença ou discordância… (Já li em algum lugar que, ao casar, a mulher espera mudar o homem com quem está se casando, e o homem espera que a mulher que está desposando nunca mude, fique sempre como era quando solteiros os dois, carinhosa, delicada, atenciosa, prestativa, de fala mansa e dengosa… Os dois se frustram.)

O grande desafio, como os filósofos gregos já sabiam, é descobrir a continuidade que subjaz à mudança… E a continuidade, Locke descobriu, é dada, no caso da identidade pessoal, por fatores mentais, como a memória! Quando a memória falta, perdemos a continuidade, e passamos a ser outro, como no caso do filme de Harrison Ford. Ou a descontinuidade, como nós descobrimos a cada dia, é dada pela mudança de ideias, de características afetivas, de sensibilidades, de estilos de relacionamento, de formas de tratamento, de hábitos e costumes, etc.

Voltei a pensar sobre essas coisas (sobre as quais penso há muito tempo e até mesmo já escrevi bastante aqui) porque, recentemente, um número razoável de pessoas tem me dito que mudei bastante – talvez até demais – e quer saber quem sou eu hoje: serei eu quem agora pareço ser ou seria aquilo que eu antes era, o que para elas seria o meu eu real??? Em suma: há continuidade por baixo da mudança, ou eu sou um caso de mudança de personalidade?

Pablo Neruda confessou que viveu. Eu confesso, sem nenhuma vergonha, que mudei – na realidade, estou ainda mudando. Porém, a questão de 64 mil dólares é: aquilo que sou agora é o que realmente sou, ou será que meu eu real é aquilo que eu antes era e hoje eu mudei de identidade, vale dizer, de personalidade? 

Durma-se com um barulho desses… A questão é difícil. Confesso que se eu não fosse um cara bastante opinionado, com convições firmes, eu estaria no momento passando por uma enorme crise de identidade. Mas, como sou teimoso, persisto em acreditar, mesmo quando confrontado com evidência em contrário, que eu continuo eu mesmo. Como disse YHWH no passado, eu sou o que sou. A despeito de evidências ao contrário. E acabou. Ponto final. Quem quiser discordar, que discorde – mas eu não posso discordar de mim mesmo.

E estou certo de que continuo o mesmo Eduardo Chaves que eu era porque, afinal de contas, apesar das mudanças que eu não nego nem contesto, mas francamente admito, eu me lembro de que sou o mesmo que fui. Eu me lembro de que vivia, desde minha mais tenra idade, com Oscar e Edith Chaves, e os chamava de pais… Eu me lembro de que meus pais tiveram outros filhos e que, portanto, eu tive – e tenho – irmãos: Flávio, primeiro, depois Priscila, depois Eliane. Eu me lembro de que vivi em Marialva e Maringá no Paraná, nos anos 40 e no começo dos anos 50, e de que me mudei para Santo André no começo de 1952. Eu me lembro de que estudei no Grupo Escolar “Prof José Augusto de Azevedo Antunes”, na Rua Senador Flaquer, em Santo André, e de que tive como professoras, no Primário, de 1952 a 1955, Donas Maria José Ferraz de Alvarenga, Judith Ramos Milaneze, Elídia Lopes Duarte e Mercedes da Silveira Lopes (depois Mercedes Lopes Ferraz, quando ela se casou). Lembro-me de que, junto com o quarto ano Primário, fiz dois meses de Curso de Admissão com a Carla Strambio (hoje minha colega tradutora juramentada). Lembro-me de que entrei no Colégio Estadual e Escola Normal “Dr Américo Brasiliense” em 1956 e lá fiquei até 1959, quando recebi o diploma (ou certificado, sei lá) do Ginásio, no Cine Tangará, em Santo André (e o Pedro Cia foi nosso paraninfo).

Não vou entediar o leitor com todos os fatos de que me lembro – e vou me calar sobre as pessoas que amei, ou sobre aquelas que quis ver mortas (ou que, ainda agora, gostaria de ver mortas, no Inferno, já sofrendo, desde já, as primícias das penas eternas…). Mas eu sou o que fui. Eu sou aquilo que me lembro de ter sido… Admito que a memória é seletiva (deixa coisas de fora) e até mesmo inventiva (traz pra dentro coisas que nunca aconteceram). Foi Mark Twain (se bem me lembro…) que disse, quando já velho, que é mentira que a nossa memória fica mais fraca quando a gente fica mais velho. A memória dele era tão boa, disse, que ele conseguia se lembrar até de coisas que nunca aconteceram… 

De qualquer forma, mesmo admitindo que, excepcionalmente, deletamos uns fatos e inventamos outros, nossa memória é que nos faz ser, hoje, o que somos. Dando por pressuposto que a maior parte de nossas memórias é verídica, nós somos, hoje, o que somos, porque fomos o que fomos no passado – e nos lembramos disso!

Assim, eu sou quem eu sou hoje, apesar de todas as mudanças, porque me lembro de que, em determinados momentos, quis mudar… e, como acontece agora, mudei e continuo mudando – e me lembro também de que, em outros momentos, quis mudar e, por alguma razão, não mudei… E me lembro ainda de que, em relação a determinados aspectos (os físicos e biológicos, por exemplo), mudei sem necessariamente querer mudar… 

E, em outros momentos, quis mudar e alguém me convenceu de que não era bom negócio…

Ontem [esta parte está sendo escrita em 9.1.2022, de manhã, como parte da revisão deste artigo] participei de um encontro virtual de 24 horas de “popperianos” — gente que, em maior ou menor medida, subscreve a ideias originadas pelo filósofo austríaco-depois-britânico Karl Raymund Popper — Sir Karl, como gostam de chamá-lo os entendidos. (Tomem cuidado: Bertrand Russell é “Lord Russell”, o título é herdado, mas Popper é apenas “Sir Karl”, título que nenhum filho herdou, até porque ele nunca teve nenhum filho). Quando recebi o convite, de meu amigo australiano Rafe Champion, me perguntei: mas será que eu sou mesmo, ou suficientemente, “popperiano” para participar? Certamente eu aceito e endosso muitas das ideias extremamente originais de Popper. Mas basta isso para ser popperiano? Não tenho dúvida de que meu orientador no doutorado, William Warren Bartley, III, que, por sua vez, teve Popper como orientador do seu doutorado, é popperiano. Embora eles tenham se desentendido em um momento, e ficado vários anos sem se ver e mesmo sem conversar, por carta ou qualquer outro meio, há razoável consenso entre os “popperianos” de que Bartley foi o “discípulo amado de Popper”, não só o mais brilhante, mas o que, apesar da briga, foi o mais querido, aquele que, para Popper, fez as vezes do filho que ele nunca teve, e que, como qualquer filho, especialmente os muito parecidos com o pai, de vez em quando se rebelam…

Uma ideia puxa a outra, quase como se eu estivesse brincando de deixar a minha consciência entrar em regime de free flow, fluxo livre… Lembrei-me de que, ao longo do meu doutorado (1970-1972) eu, em parte, pela força combinada de ideias de David Hume, sobre quem escrevi minha tese, e de Karl Popper, meu Doktorgrossvater, decidi que eu não era mais presbiteriano, nem protestante, nem cristão, nem “teu” (o oposto de ateu). Mas será que eu havia me tornado uma mescla de humeano e popperiano? Lembro-me de que, na minha recém-descoberta ateicidade, eu me interessei pelas ideias de uma “American Humanist Association“, e pensei em me tornar sócio dela. Quando falei sobre o assunto com Bill Bartley ele me disse algo assim: “O que é isso, você acabou de se livrar de uma gaiola e quer se meter em outra?” (Ele não usou a metáfora da gaiola, que é uma metáfora, tanto quanto eu saiba, criada pelo Rubem Alves, mas a ideia foi essa: você está se libertando de uma prisão e está procurando outra?

Isso me fez refletir, na ocasião, se era possível viver “desengaiolado”, ou, como preferia Bill Bartley, “desengajado”, “sans engagement“, “without commitment“. A tese de doutorado dele, famosa, foi publicada como Retreat to Commitment (Flucht ins Engagement, em Alemão). Nela ele criticou principalmente a Neo-Ortodoxia de Karl Barth, que, desiludido com a Teologia Liberal, resolveu se comprometer (engajar-se, fugir para o engagement) com “a revelação em Cristo”…

E “popperiano”, a gente poderia ser, sem ser criticado? A resposta foi de que popperiano a gente só poderia ser, não como um “ultimate commitment“, nem como um comprometimento total, que negligencia os concorrentes e os críticos, mas como algo provisional, sujeito e aberto a críticas, um popperianismo altamente auto-crítico, e, no caso de críticas irrespondíveis, próprias ou de terceiros, perfeitamente rejeitável — ou, se possível, modificável nos aspectos em que a crítica foi irrespondível.

Um comprometimento que a gente mesmo procura diariamente criticar, para o qual a gente procura críticas de outros… Se você resolve se considerar popperiano, seu dever é ler os críticos, os anti-popperianos, para analisar com seriedade se deve continuar sendo popperiano…

Desse jeito, sou popperiano até hoje, mas com ressalvas, e sem exclusividade. Também sou, em alguns aspectos, aristotélico, humeano, randiano, rothbardiano, cslewisiano, bultmanniano. Talvez até, em alguns aspectos, teísta, cristão, protestante, presbiteriano… Tudo isso sem compromissos definitivos e sem exclusividade.

Seria isso eclético demais? Estaria eu próximo do relativismo? Creio que não e não. Nunca seria, por exemplo, platonista, cartesiano, kantiano, hegeliano, existencialista, marxista, socialista, social-democrata keynesiano, presbiteriano fundamentalista…

Se eu não me lembrasse desses fatos, poderia fazer sentido afirmar que eu mudei recentemente de identidade (ou de personalidade). Mas eu me lembro do que eu era e sei o que eu sou, e sei que as mudanças recentes foram desejadas — e que outras mudanças ainda virão no tempo que me resta, apesar de eu estar beirando os oitenta. Apesar de, no momento, estar contente com o que hoje sou, ou estou me tornando – ainda que possa haver quem prefira que eu não tivesse mudado…

Desculpem-me os leitores se o meu post pode, em alguns aspectos, parecer enigmático ou mesmo ininteligível. Garanto-lhes que não é enigmático e que faz bastante sentido. Podem crer. Raul Seixas poderia até dizer que eu sou uma “metamorfose ambulante” — sem deixar, em nenhum momento, de ser eu mesmo. 

Em São Paulo, 22 de Dezembro de 2008. Revisão, com mudanças significativas, quatorze anos depois, em 9 de Janeiro de 2022. Quem quiser cotejar esta versão revista com a versão original, pode consultar “Identidade Pessoal e Mudanças [versão original de 2008]”, neste mesmo blog, Liberal Space, no endereço https://liberal.space/2008/12/22/identidade-pessoal-e-mudancas-versao-original-de-2008/.

Administrar o Tempo é Planejar a Vida, v.0 (1998)

NOTA: Este artigo é resumo, redigido em 1998, a pedido de meu amigo Wilson Azevedo, de um livreto, Administração do Tempo, que escrevi em 1992.

Geralmente quem escreve sobre administração do tempo não o faz porque seja especialista na questão, mas, sim, porque quer aprender mais sobre o assunto. Pelo menos foi esse o meu caso. Vou relatar aqui algumas de minhas descobertas, como roteiro para a leitura do quarto texto.

1) Administrar o tempo não é uma questão de ficar contando os minutos dedicados a cada atividade: é uma questão de saber definir prioridades. Provavelmente (numa sociedade complexa como a nossa), NUNCA vamos ter tempo para fazer tudo o que precisamos e desejamos fazer. Saber administrar o tempo é ter clareza cristalina sobre o que, para nós, é mais prioritário, dentre as várias coisas que precisamos e desejamos fazer – e tomar providências para que essas coisas mais prioritárias sejam feitas, sabendo que as outras provavelmente nunca vão ser feitas (mas tudo bem: elas não são prioritárias).

2) Dentre as coisas que vamos listar como prioritárias, algumas estarão ali porque nos são importantes, outras porque são urgentes. Imagino que algo que não é NEM importante NEM urgente não estará na lista de ninguém. E também sei que na lista de todo mundo haverá coisas que são IMPORTANTES E URGENTES. Não resta a menor dúvida de que estas coisas devem ser feitas imediatamente, ou, pelo menos, na primeira oportunidade. Poucas pessoas questionarão isso. O problema surge com coisas que consideramos importantes, mas não urgentes, e com coisas que são urgentes, mas às quais não damos muita importância.

3) Digamos que você considere importante ficar mais tempo com sua família. Por outro lado, você tem que trabalhar x horas por dia. Se o seu trabalho é mais importante do que ficar com a sua família, o problema está resolvido: você trabalha, mesmo que isso prejudique a convivência familiar. Mas e se o trabalho não é mais importante para você do que a convivência familiar? Neste caso, provavelmente o trabalho é urgente, no sentido de que tem que ser feito, pois doutra forma você vai ser despedido (ou perder clientes, se for autônomo ou empresário) e vai ter dificuldades para manter sua família (embora, sem trabalho, provavelmente vai poder passar mais tempo com ela…). Aqui o conflito é entre o importante e o urgente – e é aí que a maior parte de nós se perde, e por uma razão muito simples: algumas das tarefas que temos que realizar não são selecionadas por nós, mas nos são impostas. Isto é: não somos donos de todo o nosso tempo. Não temos, em relação ao nosso tempo, toda a autonomia que gostaríamos de ter. Quando aceitamos um emprego, estamos, na realidade, nos comprometendo a ceder a outrem o nosso tempo (e, também, o nosso esforço, a nossa capacidade, o nosso conhecimento, etc.). Este é um problema real e de solução difícil: não somos donos de boa parte de nosso tempo.

4) Acontece, porém, que geralmente usamos mal o tempo que dedicamos ao trabalho (e, por isso, temos que fazer hora extra ou trazemos trabalho para casa), ou mesmo o tempo que passamos em casa. Usar mal QUER DIZER que muitas vezes usamos o nosso tempo para fazer o que não é nem importante nem urgente, mas apenas algo que sempre fizemos, pela força do hábito. Alguém me disse, quando eu era criança, que a gente nunca deveria abandonar a leitura de um livro, por pior que ele fosse. Que bobagem! Mas quanto tempo desperdicei terminando de ler coisa que de nada me serviu por causa desse conselho! Uma vez me peguei dizendo à minha família que não poderia fazer algo (não me lembro o quê) domingo de manhã porque precisava ler os jornais. Eu lia, religiosamente, a Folha e o Estado aos domingos de manhã (sinto muito, folks: há tempo que não freqüento escola dominical). Lia por hábito. Achava que um professor tem que se manter informado. Mas quando disse que “precisava” ler os jornais me dei conta de que realmente não precisava lê-los. O que é de pior que poderia me acontecer se eu não lesse os jornais, me perguntei. NADA, foi a resposta que tive honestamente que dar. Se houver algo importante nos jornais provavelmente fico sabendo no noticiário da TV, ou na VEJA. Mas daí me perguntei: e preciso ler a VEJA todas as semanas? Resposta: não. Existe algo que eu prefiro ler/fazer naquelas manhãs de domingo que ganhei? Claro, muitas coisas – PARA AS QUAIS EU ANTES NÃO TINHA TEMPO. Ganhei as horas dos jornais, ganhei as horas da VEJA, fui ganhando uma horinha aqui outra ali, para as coisas que eu realmente queria fazer há muito tempo e não achava tempo…

5) Administrar o tempo é ganhar autonomia sobre a sua vida, não é ficar escravo do relógio. É uma batalha constante, que tem que ser ganha todo dia. Se você quer ter a autonomia de decidir passar mais tempo com a família, ou sem fazer nada, você tem que ganhar esse tempo deixando de fazer outras coisas que são menos importantes para você. Em última instância pode ser que você até tenha que, eventualmente, arrumar um outro emprego ou uma outra ocupação.

6) O tempo é distribuído entre as pessoas de forma bem mais democrática que muitos dos outros recursos de que nós dependemos (como, por exemplo, a inteligência). Todos os dias cada um de nós recebe exatamente 24 horas (a menos que seja o último dia de nossas vidas): nem mais, nem menos. Rico não recebe mais do que pobre, professor universitário não recebe mais do que analfabeto, executivo não recebe mais do que operário. Entretanto, apesar desse igualitarismo, uns conseguem realizar uma grande quantidade de coisas num dia – outros, ao final do dia, têm o sentimento de que o dia acabou e não fizeram nada. A diferença é que os primeiros percebem que o tempo, apesar de democraticamente distribuído, é um recurso altamente perecível. Um dia perdido hoje (perdido no sentido de que não realizei nele o que precisaria ou desejaria realizar) não é recuperado depois: é perdido para sempre.

7) Há os que afirmam, hoje, que o recurso mais escasso na nossa sociedade não é dinheiro, não são matérias primas, não é energia, não é nem mesmo inteligência: é tempo. Mas tempo se ganha, ou se faz, deixando de fazer coisas que não são nem importantes nem urgentes e sabendo priorizar aquelas que são importantes e/ou urgentes.

8) Quem tem tempo não é quem não faz nada: é quem consegue administrar o tempo que tem de modo a poder fazer aquilo que quer.

9) Por outro lado, ser produtivo não é equivalente a estar ocupado. Há muitas pessoas que estão o tempo todo ocupadas exatamente porque são improdutivas – não sabem onde concentrar seus esforços e, por isso, ciscam aqui, ciscam ali, mas nunca produzem nada. Ser produtivo é, em primeiro lugar, saber administrar o tempo, ter sentido de direção, saber aonde se vai.

10) Administrar o tempo, em última instância, é planejar estrategicamente a nossa vida. Para isso, precisamos, em primeiro lugar, saber aonde queremos chegar (definição de objetivos). Onde quero estar, o que quero ser, daqui a 5, 10, 25, 50 anos? O segundo passo é começar a estrategiar: transformar objetivos em metas (com prazos e quantificações) e decidir, em linhas gerais, como as metas serão alcançadas. O terceiro passo é criar planos táticos: explorar as alternativas específicas disponíveis para se chegar aonde queremos chegar, escolher fontes de financiamento (emprego, em geral, é fonte de financiamento), etc. Em quarto lugar, fazer o que tem que ser feito. Durante todo o processo, precisamos estar constantemente avaliando os meios que estamos usando, para verificar se estão nos levando mais perto de onde queremos vamos querer estar ao final do processo. Se não, troquemos de meios (procuremos outro emprego, por exemplo).

11) Mas tudo começa com uma verdade tão simples que parece uma platitude: se você não sabe aonde quer chegar, provavelmente nunca vai chegar lá – por mais tempo que tenha.

12) Quando o nosso tempo termina, acaba a nossa vida. Não há maneira de obter mais. Por isso, tempo é vida. Quem administra o tempo ganha vida, mesmo vivendo o mesmo tempo. Prolongar a duração de nossa vida não é algo sobre o qual tenhamos muito controle. Aumentar a nossa vida ganhando tempo dentro da duração que ela tem é algo, porém, que está ao alcance de todos. Basta um pouco de esforço e determinação.

Campinas, 27 de Março de 2001

Administração do Tempo – Entrevista para a Revista “É Domingo” (de Sorocaba)

[Entrevista dada por e-mail em 25/2/2007 para Vanessa Olivier, da Revista É Domingo, de Sorocaba.]

É Domingo:

Como organizar o tempo na vida pessoal, conseguindo um equilíbrio entre trabalho, família, lazer?

Eduardo Chaves:

Interessei-me pelo tema porque, há uns 15 ou 16 anos, andava assoberbado pelas demandas do  trabalho – era professor da UNICAMP, consultor de empresas, consultor de escolas, tinha filhos para criar, etc. Lazer, nem se pensava. Muitas vezes a família ia para a praia e eu ficava trabalhando. Trazia trabalho para casa à noite. A maior parte das pessoas conhece bem o problema. Mas, por outro lado, li, naquela ocasião, que o presidente de uma grande empresa multinacional havia saído de férias por 30 dias, indo para a Terra do Fogo, e que esquecia do trabalho durante aqueles dias e queria ser esquecido: nem deixava o telefone de onde estava. Perguntei-me: como ele consegue?

Fui estudar a questão e percebi, primeiro, que não há solução fácil ou mágica. A vida contemporânea é complexa mesmo e faz inúmeras demandas sobre o nosso tempo. Mas, embora nem fáceis nem mágicas, há medidas que podem nos ajudar a assumir controle de nossa vida – porque é disso, em última instância, que se trata.

A primeira medida é ganhar clareza sobre como gastamos o nosso tempo – fazendo um acompanhamento detalhado dos nossos dias durante um certo período.

A segunda medida é analisar cuidadosamente esses dados, classificando-os entre “Importantes e Urgentes”, “Importantes mas não Urgentes”, “Não-Importantes mas Urgentes” e “Não-Importantes e Não-Urgentes”.

A terceira medida é imediatamente deixar de fazer o que não é nem importante nem urgente. Ler jornais e revistas semanais de cabo a rabo, navegar sem rumo pela Internet, checar os e-mails duzentas vezes por dia, arranjar os ícones de aplicativos no desktop, brigar com a operadora de telefone por causa de um erro de cinco reais na conta, etc. – nada disso é importante ou urgente. Ganham-se preciosos minutos por dia e por semana deixando de fazer isso.

A quarta medida é tentar lidar com o que é urgente mas não importante. Como as coisas aqui são urgentes, não é possível simplesmente deixar de fazê-las. A solução é delega-las. Uma secretária, um assistente, um estagiário, um office boy, uma empregada doméstica – ou mesmo o cônjuge ou os filhos – podem assumir muitas dessas tarefas. O problema é que muita gente não consegue delegar. Conheço um grande advogado que não delega a estagiários nem mesmo a tarefa de ir ao fórum para acompanhar o andamento de processos. Segundo alega, uma vez fez isso e perdeu um prazo importante porque o estagiário bobeou. Mas nunca iremos conseguir administrar o tempo se não soubermos delegar – e lidar com eventuais problemas à medida que aconteçam.

Isso resolvido, temos de lidar com o que realmente vale a pena: as coisas importantes.

Algumas delas são também urgentes: se não pudermos delegá-las a quem possa realizá-las bem, temos de nos dedicar a elas imediatamente e fazê-las o mais rápido possível. Sem relaxo, mas, também, sem perfeccionismo. A incapacidade de delegar e o perfeccionismo são, talvez, os dois maiores inimigos da boa administração do tempo. A pressa, dizem, é inimiga da perfeição. Mas a busca da perfeição, embora necessária nas artes e no esporte, é inimiga da gestão eficaz do tempo. O artista e o esportista só conseguem chegar perto da perfeição porque são focados exclusivamente numa coisa – e deixam tudo o mais de lado. Nós, pobres mortais, que não podemos fazer isso, tempos de abrir mão da busca da perfeição  – sem, porém, abrir mão de certos padrões de qualidade.

Outras coisas importantes não são tão urgentes, ou assim parece. A nossa tendência aqui é procrastinar – empurrá-las com a barriga. A procrastinação é o terceiro grande inimigo da boa administração do tempo. Ter tempo de qualidade com a família é importante para você? Priorize isso. Abra mão, se necessário, de outras coisas menos importantes. Cuidar de sua saúde, exercitar-se, ter lazer, é importante para você? Priorize isso. Nada faz com que algo importante se torne também urgente como um grande susto com a saúde: um infarto, por exemplo. Sei do que falo nesta questão – embora às vezes me pegue me comportando como se não soubesse…

É Domingo:

Qual são as consequências para quem não consegue tempo para a saúde, para o lazer, para a família?

Eduardo Chaves:

Um infarto, por exemplo, como acabo de mencionar… Ou o cônjuge encontrar alguém que lhe dê mais tempo e atenção… Ou perceber que os filhos cresceram e você não notou, e, hoje, são quase estranhos em suas vidas… Ninguém conscientemente deseja essas coisas. Mas, frequentemente, nos comportamos como se as desejássemos.

É Domingo:

No que isso pode prejudicar no mundo dos negócios?

Eduardo Chaves:

Uma pessoa de negócio com problemas de saúde ou com problemas familiares não tem condições de apresentar o mesmo desempenho que apresentaria se a saúde estivesse 100% e tudo estivesse bem com o cônjuge e os filhos.

É Domingo:

Quais são as principais barreiras encontradas pelas pessoas que não conseguem administrar sua agenda? E como elas podem rompê-las?

Eduardo Chaves:

Já as listei: incapacidade de delegar, perfeccionismo, procrastinação. É possível adquirir novos hábitos nessas áreas – mas não é fácil: exige determinação, paciência e persistência. Sempre vai haver recaídas – mas não podemos usá-las como justificativa para voltar aos velhos hábitos.

É Domingo:

O que é preciso saber para conseguir sucesso na vida profissional e pessoal?

Eduardo Chaves:

Gosto de listar os Seis P’s: Pensamento, Propósito, Paixão, Plano, Produção, Persistência.

O sucesso só vem para quem sabe o que busca, para quem sabe aonde quer chegar. Essa a função do Pensamento: uma ideia norteadora que vai nos servir de bússola.

Mas o Pensamento só não basta: é preciso que ele se transforme em um Propósito.

É preciso que esse Propósito seja perseguido com Paixão.

Mas a Paixão não é substituto para a elaboração de um Plano racional para realizar o Propósito.

Um Plano certamente não pode ficar no papel: precisa ser posto em prática, transformado em ação. Essa é a função do que chamo de Produção.

Por fim, Persistência. Vai haver problemas e dificuldades, haverá horas em que ficaremos tentados a desistir… Mas os que são bem sucedidos são aqueles que, mesmo quando caem, “levantam-se, sacodem a poeira e dão a volta por cima”.

É Domingo:

Por fim, sua formação profissional e especialidades.

Eduardo Chaves:

Fiz curso de Graduação e Mestrado em Teologia e Doutorado em Filosofia. Fui professor universitário durante 35 anos – 32 dos quais na UNICAMP, da qual me aposentei no final do ano passado. Há cerca de 25 anos me enveredei pela área do uso da tecnologia na eficiência pessoal, no treinamento, na educação. Isso é hoje uma de minhas áreas de atuação profissional, como consultor. A Microsoft é minha principal cliente aqui. Desde janeiro deste ano sou Secretário Adjunto de Ensino Superior do Governo do Estado de São Paulo.

Em Campinas, 25 de fevereiro de 2007

“O CAOS em Revista”: Editoriais e Artigos de Eduardo Chaves, publicados e censurados de 18-3-1966 a 18-8-1966 [2a edição, revista e ampliada]

o O o

NOTA DE 24.10.2021

A matéria que a seguir republico, em duas partes, ambas em 2a edição, ambas revistas, mas apenas a primeira ampliada, é totalmente de minha autoria (exceto por um texto chamado Manifesto dos Quinze, que indico claramente não ter sido escrito por mim).

Primeira Parte

A Primeira Parte foi publicada anteriormente, neste mesmo blog em que agora publico a presente matéria, Liberal Space, na forma de três artigos sequenciais, escritos em 2006, quinze anos atrás (escrevo esta nota em 24.10.2021), que formam um bloco integrado. Ele foram divididos em três artigos apenas por dificuldade de publicar um artigo de blog muito longo. Tanto é assim que, posteriormente, em 2015, com tecnologia mais evoluída, eu agrupei os três artigos em um só e publiquei o resultado, como um artigo só, em um outro blog meu, Autobio Space.

É essa publicação agrupada na forma de um artigo “três-em-um” que eu republico abaixo, com correções, revisões e ampliações, como Primeira Parte.

Segunda Parte

A Segunda Parte foi totalmente escrita, na forma de Editoriais e Artigos, nos meses de Março a Agosto de 1966 (cinquenta e cinco anos atrás, pois escrevo, como já dito, em 24.10.2021). A publicação, em 1966, foi feita no jornal acadêmico O CAOS em Revista, de saudosa memória, que era o órgão oficial do Centro Acadêmico “Oito de Setembro” (CAOS), órgão de representação dos alunos do Seminário Presbiteriano do Sul (SPS), de Campinas, SP, instituição de ensino da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB). Todos os meus Editoriais e Artigos foram censurados. Em alguns casos, a posteriori, envolvendo a determinação (pela Congregação do Seminário) da cessação imediata da distribuição do jornal e o confisco dos exemplares remanescentes (que não haviam ainda sido distribuídos). Isso se deu com os números de Março e Abril de 1966. E, neste ponto, a Congregação do Seminário implantou a censura prévia para qualquer publicação oriunda dos alunos, não só para as publicações do CAOS. Como um grupo de alunos não envolvidos com a Diretoria do Centro Acadêmico, do qual eu era Secretário, além de Editor do jornal, publicou um Manifesto, que ficou conhecido como o Manifesto dos Quinze, por este ser o número dos signatários. Os quinze e seu mentor, Prof. Waldyr Carvalho Luz, fizeram isso sem a autorização prévia da Congregação (fato por mim comprovado mediante carta à Congregação e resposta dela). E a Congregação não os puniu por desobedecer à sua instituição de censura prévia. Diante disso, o CAOS resolveu partir para a desobediência civil e publicou o número de Maio de 1966 de “O CAOS em Revista”, sem submetê-lo previamente à Congregação. O jornal foi novamente censurado (a posteriori) e seus exemplares remanescentes foram confiscados, mas, prevendo o que iria acontecer, editamos e imprimimos o jornal na surdina, fizemos uma tiragem maior e conseguimos distribuir cerca de 200 exemplares antes de a Congregação se manifestar.

Esta Segunda Parte contém apenas as matérias escritas em 1966 (de 18.3.1966 a 18.8.1966), com exceção do Manifesto dos Quinze (transcrito abaixo). Ela foi publicada anteriormente no meu blog Autobio Space, em 7.11.2015, em preparação para a comemoração dos Jubileu de Ouro — 50 Anos — dos Eventos de 1966, o que acabou não acontecendo, em 2016.

Dados da Publicação Anterior dos Materiais

Para facilitar o acesso do leitor, aqui estão os endereços originais de todos os artigos mencionados.

O primeiro artigo, que tem o título de Quarenta anos depois do CAOS: 1966-2006 (I), foi publicado em 8.9.2006, no blog Liberal Space, no endereço https://liberal.space/2006/09/08/quarenta-anos-depois-do-caos-1966-2006-i/.

O segundo artigo, que tem o título de Quarenta anos depois do CAOS: 1966-2006 (II), foi publicado também em 8.9.2006, no mesmo blog, Liberal Space, no endereço https://liberal.space/2006/09/08/quarenta-anos-depois-do-caos-1966-2006-ii/.

O terceiro artigo, que tem o título de Quarenta anos depois do CAOS: 1966-2006 (III), foi publicado também em 8.9.2006, no mesmo blog, Liberal Space, no endereço https://liberal.space/2006/09/08/quarenta-anos-depois-do-caos-1966-2006-iii/.

Esses três primeiros artigos, que, agrupados, formam a Primeira Parte do presente artigo, foram agrupados em um só, para simplificar o acesso, e republicados, em outro blog meu, Autobio Space, em 7.11.2015 (vai fazer seis anos, em poucos dias), com o título “Quarenta Anos depois do CAOS: 1966-2006”, no endereço https://autobiospace.wordpress.com/2015/11/07/quarenta-anos-depois-do-caos-1966-2006/.

O artigo que aqui é publicado como Segunda Parte contém exclusivamente material de natureza histórica, referente à chamada Crise de 1966 no Seminário Presbiteriano do Sul, de Campinas, da Igreja Presbiteriana do Brasil.

Ele contém os Editoriais e Artigos meus escritos para O CAOS em Revista, escritos em 1966 (quarenta anos antes dos três artigos da Primeira Parte), para os interessados na História da Igreja Presbiteriana do Brasil, que assim, podem consultá-los sem meus comentários contextualizadores.

O título original do quarto artigo (o único artigo da Segunda Parte) é “‘O CAOS em Revista’: Editoriais e Artigos de 18-3-1966 a 18-8-1966 (com censura posterior ou prévia)“, e ele foi publicado em meu blog Autobio Space, em 7.11.2015 (na mesma data do artigo agrupado mencionado anteriormente), no endereço https://autobiospace.wordpress.com/2015/11/07/o-caos-em-revista-editoriais-e-artigos-de-18-3-1966-a-18-8-1966-com-censura-posterior-ou-previa/. Na edição original o título era levemente diferente.

Registre-se que o material da Segunda Parte está contido, quase totalmente, nos artigos da Primeira Parte, mas, nesta, está quebrado em diversas citações, que dificultam o entendimento da sequência e da unidade do material.

o O o

PRIMEIRA PARTE

Apresentação da Primeira Parte

Esta é uma contribuição do autor, protagonista e testemunha ocular dos fatos, para a História da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), pois seu conteúdo é tal que as publicações oficiais da IPB, e mesmo os artigos e livros de seu historiador oficial, ignoram, escondem ou camuflam as informações aqui contidas.

Quarenta Anos Depois do CAOS (1966-2006)

CAOS era um acrônimo certo para o nosso Centro Acadêmico naqueles tempos: Centro Acadêmico “Oito de Setembro”. A época, em si, já era de caos, sem necessidade de um CAOS para conturbar ainda mais as coisas.

O Centro Acadêmico “Oito de Setembro” reunia os alunos daquilo que o pessoal da Igreja chamava de “Seminário Presbiteriano do Sul”, localizado em Campinas. A gente, aluno muito metido a besta, dizia que o CAOS reunia os alunos da “Faculdade de Teologia de Campinas da Igreja Presbiteriana do Brasil”. Afinal de contas, a gente (segundo o nosso próprio entendimento) não estudava teologia: estudava e interpretava a realidade brasileira à luz da teologia. Apesar de o Ministério da Educação não reconhecer o Seminário como uma instituição de ensino superior, para nós ele era simplesmente a nossa Faculdade. Ponto final. Até que voltou a ser Seminário e degradou ainda mais para ser Instituto Bíblico…

Não que a gente achasse que o ensino ali ministrado pelos professores fosse de categoria tal a justificar o upgrade para Faculdade. Pelo contrário: nossa opinião, de alunos, acerca da qualidade dos nossos professores e do ensino que nos proporcionavam era a pior possível. “Medíocres” era o rótulo mais generoso que lhes dávamos – com uma ou outra exceção.

O Rev. Francisco Penha Alves, o famoso “Chicão”, era uma delas. Afinal de contas, ninguém pode ser considerado medíocre se ele mesmo se rotula como tal. Ele não era pretensioso: conhecia suas limitações. Era pastor, formado em teologia, em seminário… Mas nos dava aula de filosofia e sociologia. Tive o meu primeiro curso de filosofia com ele. Usava basicamente dois livros como texto s básicos para suas aulas: Living Issues in Philosophy, de H. H. Titus, e Introduction to Philosophy, de George Thomas White Patrick. Era bom professor. Conquistava os alunos para a sua matéria. Devo a ele ter me interessado pela filosofia. Não conseguiu fazer o mesmo com a sociologia.

Eu tinha uma outra exceção: o Rev. Osmundo Affonso Miranda, professor de Novo Testamento, com doutorado no Seminário de Princeton. Ele via talento em mim e eu o admirava. Quando em circunstâncias trágicas ele deixou o Seminário de Campinas – digo, a Faculdade de Teologia de Campinas – para voltar aos Estados Unidos com os filhos, me deu um monte de livros dele e me legou os arquivos pessoais das pesquisas que havia feito para suas teses de Mestrado e Doutorado.

O resto era triste. Alguns, ressalvo, eram gente boa, no plano pessoal, mas péssimos professores – simplesmente despreparados ou, então, extremamente dogmáticos. Outros, nem gente boa eram – além de também serem despreparados ou dogmáticos. Deixo de citar os seus nomes por generosidade (embora os nomes de alguns apareçam adiante em outro contexto).

Entrei na Faculdade de Teologia de Campinas, pertencente à Igreja Presbiteriana do Brasil, em Fevereiro de 1964. O primeiro dia de aula foi 17 de Fevereiro, uma segunda-feira. O nome oficial da instituição era Seminário Presbiteriano do Sul. Mas a gente preferia chamar a instituição de Faculdade de Teologia. Minha festa de calouro estava programada para o dia 1º de abril. É evidente que não houve. Os militares, dando início ao golpe político-militar, com amplo apoio da sociedade, levaram de roldão a minha festa de calouro. Eu tinha uma madrinha, a Yara Lígia, mas nunca entrei com ela na festa. Ela me deu, porém, como presente, o livro Conheça-se a Si Mesmo, de Karen Horney. Na dedicatória dizia: “Ao meu afilhado, Oscar, a bênção de sua madrinha, Yara Lígia”. Yara, estou tentando… (Todo mundo me chamava de Oscar, naquela época, e não Eduardo, porque meu nome é composto, Eduardo Oscar, mas Oscar era o nome de meu pai).

Os dias que transcorriam entre o início das aulas e a festa dos calouros eram de trote. Os calouros tinham de andar de gravata o tempo todo – até indo para o banho. E, por falar em banho, havia o banho de um calouro toda noite, depois do café das 21h. A gente tomava café e os calouros corriam pros quartos. Dali a pouco ouvia o coro dos veteranos subindo as escadas e cantando: “A árvore da montanha, olê-le-a-ô, a árvore da montanha, olê-le-a-ô… A árvore tinha um galho, ai-ai-ai que amor de galho…” Tortura pura. Ameaçavam entrar num quarto, recuavam. Às vezes pegavam um calouro, levavam até o meio do caminho, e desistiam: voltavam e pegavam outro que já se julgava livre por aquele dia. O destino? Uma banheira velha cheia de água no segundo andar do alojamento velho. A gente era levado de óculos, relógio, sapatos, roupa e jogado dentro da água. Às vezes um veterano aparentemente bonzinho dizia: “Ah, vamos tirar os sapatos do calouro, coitado: ele só tem esses…”. Quando o dito calouro caía na água, já encontrava os pobres sapatos flutuando na banheira. Ao sair do banho, o calouro banhado era abraçado pelos veteranos… Ser considerado não-calouro, porém, só depois da festa – que, no meu caso, nunca houve… Culpa dos milicos. Os veteranos precisaram decretar que nossa condição, a partir de um certo momento, era de não-calouro, dando a festa como se tivesse acontecido.

Demorou um pouco para que o espírito repressivo do Golpe de 64 penetrasse os diversos escalões da Igreja Presbiteriana e permitisse que um grupo de pastores perpetrasse, dentro da Igreja, um golpe dentro do golpe. O artífice dessa manobra foi o Rev. Boanerges Ribeiro. O Diabo deve tê-lo em alta conta. Ao perceber que o clima político era propício a uma guinada fundamentalista dentro da Igreja, montou uma estrutura semi-partidária que o levou ao cargo de Presidente da Igreja numa eleição feita em Fortaleza, durante a reunião do Supremo Concílio, em Junho de 1966. Dali para frente foi sarrafo na moçada.

Para entender a razão do sarrafo, é preciso explicar, para aqueles que nunca viveram em Seminário, o que é a vida ali dentro.

Cheguei no Seminário crente piedoso, e tinha certeza de que sairia de lá pastor. Quando saí de lá, dois anos e seis meses depois, tinha perdido a piedade e tinha sérias dúvidas de que realmente viria a ser pastor um dia. Nunca fui.

Do ponto de vista do comportamento, quando cheguei ao Seminário não bebia, não fumava, não dançava, guardava o Domingo. Quando saí de lá, tinha começado a fumar, e, embora nunca de forma exagerada, bebia cerveja, vinho, e, às vezes, até um golinho de pinga. Também tinha tentado aprender a dançar e achava uma bobagem a guarda do Domingo.

O que aconteceu nesse processo? Como é que se processam essas mudanças, que são, na realidade, um processo de desconversão – o caminho inverso de um processo de conversão?

Em outro artigo vou tratar desse processo de desconversão. Aqui basta descrever, com grandes pinceladas, o ambiente que o tornou possível.

O médico que estuda medicina, parece perder o respeito pela doença. Ele muitas vezes a trata de forma brincalhona. Lembro-me de que uma vez minha mãe precisou ser operada, e meu pai assistiu à operação – que foi feita no Hospital Presbiteriano de Rio Claro, pelo amigo dele, e depois amigo meu, Dr. Eduardo Lane. Meu pai ficou irritadíssimo, porque enquanto esperava que a anestesia fizesse efeito, Eduardo Lane (segundo relatou meu pai) havia ficado a fazer uma discreta batucadinha na barriga de minha mãe, sem ligar muito para a gravidade da situação…

Bem, com quem estuda teologia algo semelhante acontece. Rapidamente se perde o espírito de reverência diante das coisas sagradas. Brinca-se com tudo. Dá-se apelido a quem antes não se ousava dizer o nome. O Deus dos Judeus, em Hebraico, é chamado de YHWH – pronunciado Yahweh em Inglês, Iavé (ou Javé, ou Jeová), em Português. Bom, se Deus é Iavé, Jesus Cristo deve ser Iavezinho… Fazia-se gozação com as passagens bíblicas, brincava-se com os milagres… Nada disso significava perda de fé. Era apenas o preço a pagar pela familiaridade excessiva com as coisas ditas sagradas.

Mas não era só a doutrina que era objeto de brinquedo. Brincava-se também com a ética. Embora a maioria absoluta dos seminaristas fosse tão pura quanto o puríssimo coração de Maria, os veteranos adoravam pretender que não eram, para impressionar – através do choque e do escândalo – os calouros… Eles davam a entender que se envolviam em ousadias sexuais que, é mais do que certo, nem em pensamento se arriscavam a perpetrar. Falavam da zona como se fosse um local visitado cotidianamente… E, naturalmente, fumavam, bebiam e dançavam – coisas que, para presbiterianos conservadores, eram quase tão pecaminosas quanto fornicar. No que diz respeito a fumar, beber e dançar não era apenas blefe: aprendi a fazer essas coisas no Seminário. Quanto às outras, se o intuito era chocar, chocavam; se era escandalizar, escandalizavam. Mas os calouros logo viravam veteranos e percebiam que a maior parte desses alardeados comportamentos eram blefe.

Em 1966 entrou uma turma de alunos especialmente conservadora no Seminário. Gente mais de idade, vários casados e com família. Formaram uma patota – e decidiram que iriam converter os devassos veteranos. Conquistaram o apoio do Rev. Waldyr Carvalho Luz (pelos veteranos apelidado de Rev. Trevas), e se reuniam, diariamente, para orar pela regeneração dos colegas que caminhavam rápido no caminho da perdição. Achavam-se os bons, os puros, os eleitos. E nós, os veteranos (eu já estava no meu terceiro ano), adorávamos provocá-los.  E, para provocá-los, exagerávamos nossa heterodoxia (heresia mesmo) e nosso comportamento divergente.

Em Março de 1966 explodiu uma crise no Seminário, da qual, felizmente ou infelizmente, não sei, fui pivô – e estopim. No dia 18 – cerca de um mês, portanto, depois do início das aulas – um estudante do curso breve (curso de três, e não de cinco anos, como era normal), Floramonte Dias Gonçalves, pregou um sermão de prova sobre o livro de Jonas, pressupondo não só a historicidade do profeta mas de todos os mínimos detalhes do relato bíblico. Na exegese do colega, Jonas realmente sofreu um naufrágio, foi engolido por uma baleia, ficou três dias na barriga da baleia e, depois, foi vomitado na praia de Nínive, para onde estava indo quando o ocorreu o naufrágio.

Na crítica ao sermão, o mais conservador de nossos professores, o Rev. Waldyr Carvalho Luz, foi o que mais falou: elogiou o aluno pelo sermão, dizendo, entre outras coisas, que ele fez muito bem em tomar por incontroversa a historicidade do livro, “sem ficar procurando chifres na cabeça de cavalo”. Embora o Rev. Earle D. Roberts (professor de Velho Testamento) houvesse mencionado, meio en passant, que a interpretação histórica do livro enfrentava uma série de problemas levantados pela crítica literária e textual, não explicitou quais seriam esses problemas. O Rev. Osmundo Affonso Miranda (meu guru, professor de Novo Testamento) disse que não concordava totalmente com a interpretação dada ao livro, mas não passou disso. Na verdade, o  comportamento do Rev. Osmundo me irritou mais do que o do Rev. Waldyr, cuja posição não me surpreendeu. Surpreendeu-me, entretanto, a omissão do Rev. Osmundo – até porque eu o admirava muito, tanto no plano pessoal como no profissional. Fui para o quarto pensando o que fazer.

Dias antes, a Diretoria do Centro Acadêmico “Oito de Setembro” (CAOS), do qual eu havia sido eleito Secretário para o ano letivo de 1966, havia decidido publicar um jornalzinho e eu fora escolhido para ser o seu Editor/Redator. Dei-lhe o título, deliberadamente provocante, de “O CAOS em Revista”. Eis o meu primeiro Editorial:

” Em sua reunião de 18 de fevereiro do corrente a Diretoria do CAOS decidiu que se publicasse, periodicamente, um jornal informativo da Diretoria, designando-nos, naquela mesma ocasião, responsáveis pela sua edição. Exatamente um mês após sai o primeiro número. Como primeiro é este um número experimental, para o qual pedimos a opinião dos colegas, para que ele venha a ser a expressão do corpo discente de nossa casa. Não é, porém, apenas a opinião dos colegas que solicitamos. Pedimos também a colaboração de cada um através de artiguetes escritos, através de trechos ou excertos traduzidos de livros ou revistas, através da indicação de livros e artigos recomendáveis. Esperamos que os colegas nos tragam suas colaborações. Será distribuído, gratuitamente, apenas um exemplar para cada colega. A pessoa que desejar mais números terá que pagá-los a razão de Cr$ 200 cada. Será esta uma maneira de arranjarmos um pouco de fundos para a contínua publicação do jornal. Cada vez que houver material suficiente, nas mãos do redator, para a tiragem de um número, este sairá. Contamos, pois, com a colaboração de todos. “

A crítica do sermão (mais do que o sermão em si) me deu o assunto para o primeiro número. O resto foi recheio.

Com toda a paixão dos meus 22 anos, escrevi um pesado artigo sobre o assunto com o título de “Instituto Bíblico em Campinas”. Chamar a Faculdade de seminário já era ofender. Chamar o Seminário de “Instituto Bíblico”, era chamar para briga. Institutos Bíblicos eram, em geral, instituições sem tradição acadêmica, e sem regulamentação, que preparavam leigos para o trabalho na Igreja em locais afastados em que não havia pastores em número suficiente. No artigo, ressalvei o direito de o colega Floramonte pregar sobre o que quisesse, do jeito que quisesse. O que não era admissível, argumentei, sendo a ocasião um sermão de prova, feito, portanto, para fins didáticos, era que os mestres se calassem sobre os problemas e as interpretações alternativas do livro de Jonas. Os problemas eram tantos, afirmei, que ignorá-los era equivalente a não ver chifres na cabeça de um boi – frase que especialmente feriu o Rev. Waldyr, de quem eu era, até aquele momento, um dos alunos mais queridos, por ter tirado algumas das maiores médias em Grego na história do Seminário (acima de 98.5, em três semestres consecutivos). Além do mais, o Rev. Waldyr havia sido colega de meu pai no Seminário.

Mas em vez de resumir o artigo, êi-lo na íntegra:

“ Estamos ainda debaixo do revoltante impacto que nos causou a crítica ao sermão pregado hoje por um de nossos colegas. Queremos, de início, esclarecer que tudo o que aqui vamos dizer não visa à pessoa e às idéias do pregador, mas sim à posição e às idéias dos “críticos”, membros do corpo docente desta “Faculdade”. Colocamos estas duas palavras entre aspas porque não reputamos críticos os que não levam em conta a obra e os resultados da Crítica, fazendo de sua “crítica” tão simplesmente uma avaliação da simpatia do pregador, de sua vestimenta, de sua linguagem, de sua elocução, da estrutura homilética de seu sermão, de sua liturgia, negligenciando o cerne do sermão que é a interpretação dada ao teto. Para se fazer esta interpretação a Crítica Histórico-Literária e Textual é simplesmente considerada “farrapos”. Além do mais não consideramos Faculdade uma instituição de ensino que se aliena, através de seus professores (mas graças a Deus não através de todos os seus alunos) do movimento intelectual teológico contemporâneo. O que está se dando aqui é que nosso Seminário, tido aí por fora como “Faculdade de Teologia”, não passa, atualmente, de um Instituto Bíblico, que acha virtude, através de alguns de seus professores, em nem se aproximar dos problemas levantados pela Crítica Bíblica, e que acha que os alunos não precisam conhecê-los, pois são irrelevantes.

Vejamos, porém, o caso concreto. 

Pregou-se, hoje, uma sermão de prova biográfico sobre JONAS. Como base da mensagem do pregador estava a pressuposição de que o livro de Jonas é um livro histórico no sentido de que as informações nele contidas são historicamente fidedignas, e que o que nele é registrado se deu literalmente como o descreve o livro. O Jonas de que o livro fala foi tido como o profeta Jonas, filho de Amitai, que profetizou em Israel, no século VIII, no reinado de Jeroboão II (Cf. II Reis 14:25). Reafirmamos que o pregador tinha pleno direito de fazer o que fez, ou seja, de dar esta interpretação conservadora ao livro. Não o criticamos por isso. Afirmamos também que os mestres tinham pleno direito de concordar com o pregador a respeito de sua interpretação e da linha de sua mensagem, o que de fato fizeram. Com o que não concordamos, porém, é que o outro lado da questão não tivesse sido sequer mencionado! Um dos professores mencionou de passagem que o livro apresentava problemas críticos, mas nem sequer esboçou quais e que tipos de problemas seriam estes. Apenas afirmou (certamente opinião pessoal sua) que a Crítica havia tornado o livro em “farrapos”, subentendendo-se daí que se é impossível pregar sobre o livro de Jonas com uma interpretação outra que não a sua pessoal, naquele contexto representada também pelo pregador e pelos outros críticos. Um outro crítico mencionou que sua opinião era diferente, mas não julgou conveniente apresentá-la. De qualquer forma o sermão foi tido como muito feliz, pela interpretação sadia, pela riqueza de material, etc., pois fugiu dos problemas críticos, “não procurando chifres na cabeça de cavalo”. Embora um crítico houvesse achado que o sermão carecia de melhoras, a impressão tida após a crítica é que o sermão do colega foi o tipo de sermão ideal, “ungido” (o termo foi usado).

Nossa intenção, aqui neste artiguete, pelo qual somos pessoalmente responsáveis, é apresentar o outro lado da questão, como um dever de consciência, pois o outro lado foi redondamente ignorado pelos “críticos” do referido sermão. Se o fazemos é no interesse de esclarecer os colegas, mostrando que o livro de Jonas é “pregável” mesmo depois de a ele ser aplicada uma crítica bastante radical.

Vamos à questão.

O livro de Jonas é diferente de todos os outros escritos proféticos do Velho Testamento no sentido de que não contém uma coleção de oráculos de um profeta, mas é simplesmente uma história a respeito de um profeta. Pode ser esta a razão pela qual um livro que não reivindica de modo algum ter sido escrito por um profeta (o v.1 diz: “Veio a palavra do Senhor Jonas, filho de Amitai, dizendo:…” – Notar que o livro é escrito na terceira e não na primeira pessoa: “Jonas se dispôs”, “Jonas orou”, etc.), e que no aspecto literário pertence a um tipo bastante diferente, foi incluído entre os Livros dos Doze Profetas. Nem podemos dizer que o livro de Jonas seja um conto profético de natureza histórica e biográfica, porque a base requerida para tal não está presente no livro. O livro de Jonas é um poema didático, podemos mesmo dizer que um poema parabólico, escrito para mostrar que Deus se compadece mesmo dos ímpios quando eles se arrependem (3:10; 4:10). Este poema foi escrito com uma moral dirigida contra a intolerância dos Judeus e sua arrogância para com as nações pagãs, resultantes da doutrina da eleição mal interpretada em um sentido particularista. Bastava somente esta moral para que concluíssemos que o livro é pós-exílico, pois sua atitude básica toma por pressuposta a influência de Dêutero-Isaías com sua idéia de salvação universal. O capítulo 3, versículo 3, dá a entender que Nínive era considerada uma cidade legendária, dos tempos antigos. Além do mais, a linguagem do livro, com seus aramaísmos, e com formas hebraicas bem posteriores em seu vocabulário e estilo (1:6, 7; 2:1; 3:2, 7; 4:6, 8) não permite que se date o livro anteriormente ao século V. Como terminus ad quem há o fato de o livro ser pressuposto no século II (Cf. Eclesiástico 49:12; Tobias 14:4,8).

Não há dúvida, entretanto, de que o autor do livro de Jonas tivesse tido a intenção de fazer com que o Jonas por ele descrito fosse entendido como o Jonas do século VIII. Isto era comum na antiguidade, quando a questão de direitos autorais e de direitos de nome não era problema jurídico. Qualquer pessoa podia escrever um livro em nome de outrem, ou poderia por seu nome em obra de outrem, ou poderia ainda, como no caso, usar a pessoa de outrem como personagem de seus escritos. O autor, contudo, não pretendeu estar escrevendo naquela época. Além do mais há muito no livro que indica que ele vem de um período bem posterior ao século VIII, além do que apresentamos acima. A cidade de Nínive não era tão grande no século VIII. Além do mais é difícil de se crer que uma cidade tão grande quanto a descrita tenha se convertido “desde o menor até o maior” (3:5), o rei inclusive 3:6 sqq. Note-se que em nenhum lugar mais, nem na Bíblia, nem fora dela, se menciona “Rei de Nínive”, pois o rei não era de Nínive, e sim da Assíria, país cuja capital era Nínive, e que isto não tenha sido registrado em nenhum lugar, nem nas crônicas assírias nem nas israelitas. Por cima é difícil de harmonizar como a Nínive convertida a YHWH, inclusive com seu rei, no século VIII, tivesse, com o restante da Assíria, ainda naquele mesmo século (721), conquistado Israel e destruído Samaria, levando cativos os líderes.

Por todos estes motivos é difícil crer na historicidade do livro como tal. Não negamos que tenha existido um Jonas, filho de Amitai, profeta. O que afirmamos é que ele não é o protagonista deste episódio, e que o que é narrado no livro de Jonas é uma parábola escrita com a finalidade acima apresentada, a saber, de mostrar aos Judeus que Deus se compadece e quer a redenção mesmo dos ímpios e gentios. Porque esta mensagem é apresentada com igual clareza por Deutero-Isaías é que se coloca o livro de Jonas mais ou menos na mesma época.

Agora perguntamos: Reconhecer isto é “procurar chifres na cabeça de cavalos”? Cremos que não reconhecê-lo é ignorar chifres na cabeça de um boi! Continuamos: reduz isto o livro de Jonas a “farrapos”? Absolutamente! Devemos deixar de pregar sobre o Bom Samaritano somente porque ele não é histórico? Evidentemente não! Se isto é verdade podemos pregar sobre o livro de Jonas mesmo que o episódio e o personagem ali descritos não sejam históricos. O que importa é a mensagem que o autor quis transmitir, ao criar esta parábola: quebrar as tradições nacionalistas dos Judeus, mostrando que Deus ama até os inimigos de Israel!

Embora o livro por seu tipo literário não seja profético, seu espírito o é, particularmente na tendência geral de pensamento a ele imprimida, quando foi escrito, em tempos pós-exílicos. Para por em cheque o particularismo exclusivista do Judaísmo pós-exílico, e a distorção da doutrina da eleição imposta pelo egoísmo religioso, este livro testifica a grandeza da profética concepção de Deus, e a ampla tolerância que esta concepção implica! O livro ainda hoje é uma voz profética e uma permanente advertência contra tudo o que estreita e particulariza a religião, e contra todo exclusivismo religioso. Porque pretendeu mostrar que a compaixão de Deus é maior que o coração humano, que sua vontade de salvar alcança mesmo além dos limites de seu próprio povo, e portanto o leva à tarefa missionária, este livro pertence aqueles no Velho Testamento que prepararam o caminho para o Evangelho.

Os colegas julguem se a crítica que aplicamos ao livro, privando-o de sua historicidade, tornou-o “impregável”, esfarrapou-o. Julguem se, em uma Faculdade de Teologia do gabarito que a nossa pretende ter, pode alguém pregar sobre Jonas nos termos em que se pregou, sem que qualquer dos professores presentes à crítica tivesse sequer levantado o problema da historicidade do livro.

Aos Colegas, a palavra! “

A crise estava iniciada.

Eis a versão do caso dada pelo Rev. Waldyr Carvalho Luz, em sua autobiografia:

” Eu encontrava séria resistência e era indisfarçada a má vontade para comigo da parte da maioria dos alunos e de certos professores. Assim é que ao criticar um sermão pregado pelo seminarista Floramante [sic] Dias Gonçalves, elemento sério, firme, um dos poucos que se me revelavam amigos, eu o louvei pelo teor edificante da mensagem e pelo fato de não ceder aos pressupostos críticos que negariam a historicidade do profeta e do livro, dizendo eu que tais críticos achariam até “chifres em cabeça de cavalo”. Essa afirmação minha irritou profundamente os “doutos” adeptos da mentalidade liberal-modernista e, na manhã seguinte, circulava um jornaleco ou folhetim do famigerado CAOS (Centro Acadêmico Oito de Setembro), o grêmio dos estudantes, em que um seminarista que viera para o Seminário muito crente e piedoso, filho de consagrado pastor meu contemporâneo de Seminário, agora um dos mais virulentos corifeus da nova linha de pensamento, derramava todo o seu amargo fel em insultuoso artigo contra mim e minha posição teológica. O folhetim não publicaria defesa minha, já que era privativo dos estudantes. A Congregação, fugindo a suas responsabilidades, não tomou medida alguma contra o deselegante rabiscador de inuendos e agravos. Eu, porém, em nada me abalei com esse proceder, seja do estudante, seja da Congregação. ” (Negrito acrescentado na referência a mim como “o deselegante rabiscador de inuendos e agravos”…).

A Congregação, na realidade, determinou ao Reitor (o pacato Rev. Júlio Andrade Ferreira, por quem sempre tive enorme estima pessoal até que faleceu, recentemente), que apreendesse a edição do jornal – o que ele constrangidamente fez (porque, entre outras coisas, também era amigo de meu pai e de minha mãe), mas não antes de havermos distribuído mais de 200 cópias e escondido outras tantas.

O Rev Waldyr, oficiosamente e por iniciativa própria, e certamente com a melhor das intenções (concedo-lhe isto), chamou meu pai a Campinas, mostrou-lhe o artigo, e disse-lhe que, não fora a consideração a ele, meu pai e tutor, eu poderia ter sido suspenso ou mesmo expulso do Seminário incontinenti – no que certamente exagerava. Lembro-me bem de que assistia a uma aula de Alemão, à noite, no Instituto Goethe, no centro da cidade, quando vi meu pai parado perto da porta, do lado de fora. Pensei que minha mãe houvesse morrido, ou que algo igualmente grave houvesse acontecido. Peguei minhas coisas e saí da aula. O assunto era o artigo. Fui severamente repreendido pelo pai e ameaçado de perder a bolsa de estudos pelo tutor. De nada adiantou argumentar. As linhas da batalha estavam definidas.

Voltei para o Seminário naquela noite e quase não dormi. Na noite em claro refleti sobre tudo o que estava acontecendo e tomei a decisão de seguir a minha consciência, que de nada me acusava, e que me lembrava de que mais vale lutar para preservar e ampliar as liberdades que temos do que depois lastimar o seu cerceamento ou mesmo a sua extinção.

Nesse estado de espírito fiquei sabendo, através de um dos colegas (não me lembro quem), que teria sido o meu pai (e tutor), na conversa que teve com o Rev. Waldyr, quem teria recomendado a minha expulsão do Seminário. Liguei para o meu pai para interpelá-lo e verificar a veracidade da informação. Foi uma conversa tensa, que o deixou extremamente preocupado, a tal ponto que ele me enviou, bastante tempo depois, em 30 de abril, um relato escrito do que teria sido a conversa dele com o Rev. Waldyr. Passo por cima do relato por ser muito longo.

Nos dias seguintes à conversa com meu pai, sentei-me à maquina de escrever e escrevi o Editorial do segundo número do jornal, relatando o que acontecera com o primeiro e protestando contra o empastelamento determinado pela Congregação e executado, creio que a contragosto, pelo Reitor. Inspirei-me em Da Liberdade, de John Stuart Mill. Afinal, não estava desobedecendo a nenhuma ordem superior, porque a resolução da Congregação, determinando a apreensão do primeiro número, não havia proibido a publicação de um segundo, nem a discussão do que havia acontecido.

Publicado o segundo número do jornal, em 18 de Abril de 1966, a pancada veio mais forte. O segundo número do jornal também foi apreendido e a Congregação agora determinou que os estudantes nada publicassem sem a prévia censura da Congregação. Eis o editorial-artigo, chamado “Ainda Jonas”, que foi o carro chefe do número:

” No número anterior, primeiro de nosso jornal, procuramos, em um artigo que teve um Sitz im Leben de todos conhecido, dizer algumas palavras sobre o livro de Jonas. Naquele ocasião dissemos que o livro tinha uma mensagem ainda hoje relevante, pois era “uma voz profética e uma permanente advertência contra tudo o que estreita e particulariza a religião, e contra todo exclusivismo religioso”. Nosso interesse hoje é assinalar a relevância e o oportunismo desta mensagem no contexto imediato em que nos encontramos, a saber, na vida da IPB.

Vimos, no artiguete passado, que a mensagem de Jonas foi um brado de protesto contra o nacionalismo particularista dos judeus que se consideravam detentores únicos e exclusivos da divina graça, e que, assim fazendo, limitavam à ação de Deus à nação política Israel. Deus estava cercado dentro dos limites políticos da nação. Qual a relação que isto pode ter com a IPB? A relação é que, ainda hoje há o grupo que se considera detentor exclusivo e único da graça divina, grupo este que, assim fazendo, procura limitar a ação de Deus, não a uma nação política, mas a um círculo ideológico, que procura cercar Deus, não dentro de limites políticos, mas de limites ideológicos.

Concretizamos: aqueles que, no seio da IPB, estão preocupados em tirar do seu caminho todos os que não concordarem em gênero, número e caso com os padrões rígidos de sua “ortodoxia” superada estão praticando o mesmo tipo de exclusivismo religioso (senão pior) praticado pelos judeus aos quais foi dirigida a mensagem do livro de Jonas. Estas normas “ortodoxas” têm se tornado os limites cerceadores da ação de Deus. Quem delas se afastar — dizem, ou se não dizem assim o entendem, pois suas atitudes o comprovam — afasta-se do próprio Deus, e então não é digno de permanecer na IPB. Precisa ser expurgado (palavra, por eles, estimadíssima!).

Vimos, contudo, no artigo passado, que quando o homem estabelece limites que particularizam e estreitam a órbita da ação de Deus o próprio Deus encontra um meio de arrasar com essas pretensões do coração humano. As obras do autor de Jonas e de Dêutero-Isaías são em Israel  evidências típicas disto. Foi porque os israelitas não atentaram ao fato de que Deus queria quebrar (como de fato quebrou) estas barreiras particularizantes que foram por Ele rejeitados.

É conscientes desta verdade que levantamos a nossa voz em protesto contra a estreiteza de mente de alguns dentro da IPB para os quais até opinião é delito, para os quais a livre expressão do pensamento é causa suficiente para expurgo! Como é mais fácil lutar para manter as liberdades que já temos do que lutar para reconquistar as liberdades perdidas, “O CAOS em Revista” se dispõe, em suas páginas, a dar livre expressão ao pensamento dos alunos. O número presente é exemplo disto. Não podemos permitir que nos tolham a liberdade de termos os nossos próprios pensamentos e o livre direito de expressá-los. É esta a base da democracia. É esta a base do regime presbiteriano. Em sua obra Utilitarianism, Liberty and Representative Government (New York: Dutton, 1910) John Stuart Mill faz notar, com toda razão, que silenciar a expressão de uma opinião é roubar a raça humana, tanto a geração presente como a posterior, sendo ainda mais prejudicados os que discordam do que os que mantêm a opinião, pois, se a opinião é correta, aqueles que dela discordam estão perdendo a oportunidade de trocar o erro pela verdade, e, se é errada, os dela discordantes perdem o grande benefício de adquirir uma percepção mais clara e mais viva da verdade, proveniente de sua colisão com o erro. Se as idéias que temos expresso e, esperarmos, continuaremos a expressar através deste jornal não são verdadeiras e são perniciosas, não vingarão, pois a melhor maneira de destruir uma idéia falsa é expô-la! Quem tiver com a verdade não precisa temer idéias, por mais estapafúrdias que sejam, pois terão com que refutá-las, através de um franco diálogo. Aqueles que se crêem portadores de idéias verdadeiras, se querem mantê-las, devem torná-las continuamente relevantes, e não impedir que novas idéias apareçam e sejam disseminadas.

Aquilo que tem sido considerado como delito, isto é, a apresentação de idéias que não se harmonizam inteiramente com os padrões oficiais, o delito de opinião, é um crime que devemos praticar diariamente, sob quaisquer riscos. Se deixarmos de ser “criminosos” neste campo, estaremos roubando as gerações passadas que lutaram, até o sangue, para obter as liberdades de que somos herdeiros, a geração presente que estará tendo sua voz sufocada e reprimida, e a geração futura que sentirá que uma geração deixou de realizar o seu papel na história!

Neste espírito e com este alvo é que “O CAOS em Revista” sai, exatamente um mês depois do primeiro, em seu segundo número. “

O Rev. Waldyr novamente contatou meu pai para informá-lo do ocorrido. Com meu pai, nova conversa difícil. Meu pai relutava em acreditar que eu estivesse agindo de moto próprio. Em uma atitude que mais do que tudo ofendia os meus brios, ele achava que outros estavam me usando e que eu estava apenas servindo de “inocente útil”. É difícil discutir quando o outro lado acredita que você é apenas porta-voz.

A comunicação do Seminário com o meu pai deixou, no mês de Maio, de se fazer apenas de forma oficiosa, por intermédio do Rev. Waldyr. Em 11 de maio de 1966, o Rev. Júlio Andrade Ferreira, Reitor do Seminário, escreveu, a meu pai e tutor, uma carta, para comunicar a decisão tomada pela Congregação vinte e dois dias antes. Eis a carta:

” Campinas, 11 de maio de 1966

Rev. Oscar Chaves
Cx. 626
Santo André, SP

Prezado Colega:

Escrevo-lhe esta, na qualidade de Reitor do Seminário Teológico Presbiteriano de Campinas, para comunicar a decisão tomada pela Congregação desta Casa de Ensino, em sua reunião do dia 19 do mês p.p., nos seguintes termos:

Encaminhar ao PLIS, presbitério a que é filiado o estudante Eduardo Oscar de Campos Chaves, comunicação do caso criado pelo referido aluno, constante de duas publicações no folhetim CAOS EM REVISTA e demais informações atinentes ao caso. Registra-se que na discussão e votação desta matéria não tomaram parte os professores Waldyr Carvalho Luz e Américo Justiniano Ribeiro“.

Junto os dois números do referido jornal do CAOS, bem como a informação de que o 2º número saiu após ter o Reitor dado ordem para que o 1º fosse recolhido, bem como após o Deão ter tido conversa com o aluno, mostrando a inconveniência de atitudes como a assumida pelo aluno, no fazer a crítica constante do 1º artigo.

Pessoalmente, desejo esclarecer que a Congregação resolveu mandar o caso ao Presbitério do aluno, sem tomar, ela mesma, alguma atitude direta quanto ao caso, em virtude de situação interna, que dificilmente poderia expor. O julgamento do aluno, contudo, dificilmente poderia ser justo se todos esses elementos não fossem considerados.

Era o que me cumpria dizer.

Abraça-o, colega e companheiro na seara do Mestre,

Rev. Júlio Andrade FerreiraReitor “

Não tenho certeza de qual seria a “situação interna, que dificilmente poderia expor” em virtude da qual a Congregação do Seminário, segundo o Rev. Júlio, resolveu não tomar “alguma atitude direta quanto ao caso”, e que tornaria o meu julgamento, naquela esfera, “dificilmente justo”. Imagino que os problemas diziam respeito aos dois professores que se omitiram de votar no caso, os Revs. Waldyr Carvalho Luz e Américo Justiniano Ribeiro, que persistiam em abster-se nas votações, mas, por trás, tentavam tramar as ações.

As coisas estavam nesse pé quando explodiu outra bomba — agora do outro lado. Sob a coordenação do Rev Waldyr Carvalho Luz, um grupo de alunos, dos mais conservadores (e, acrescente-se, academicamente mais fracos), escreveu um texto-denúncia, intitulado Manifesto dos Quinze, em que relatavam, para a Igreja, todos os desmandos que estariam ocorrendo no Seminário — que iam desde modernismo teológico, com rejeição das idéias calvinistas, desvios éticos, com aceitação, prática e defesa do fumo, da bebida, do amor livre, etc. O manifesto foi enviado para virtualmente todas as igrejas do país — sem haver sido submetido a apreciação da Congregação!

O texto completo desse Manifesto é o seguinte:

” Aos Membros, Oficiais e Ministros da Igreja Presbiteriana do Brasil

Saudações no Senhor,

Sentimos um dia que Deus nos chamava para o sagrado ministério da Palavra. Obedecendo a esse chamamento, decidimos entregar a vida ao serviço do Senhor, não medindo as dificuldades, os problemas, os sacrifícios que teríamos de enfrentar. Foi nesse propósito que viemos para o Seminário. Não tínhamos ilusões de que não iríamos encontrar um céu aberto. Esperávamos, entretanto, encontrar um ambiente favorável para os estudos, um meio apropriado para cultivar espiritualidade, uma atmosfera de seriedade moral e de respeito, particularmente para com as pessoas e as instituições da Igreja. Preferiríamos não dizer da desilusão que tivemos.

Não queremos prejudicar o Seminário ou a Igreja. Nem desejamos atingir pessoas. Somos os primeiros a reconhecer nossa imperfeição, nosso pecado, nossas falhas, nossa pobreza espiritual, nossas deficiências em todo sentido, contudo, aspiramos um Seminário melhor, mais vida espiritual, mais firmeza de caráter, mais consagração, fé mais vigorosa, convicção mais sólida, testemunho mais cristão e espírito mais dedicado na evangelização e na obra da Igreja. Temos silenciado até agora por que não queríamos nem de longe concorrer para o agravamento da situação. Só Deus sabe das angústias de nossa alma e das preocupações de nosso espírito, das lágrimas que temos vertido, das noites mal dormidas, das lutas em oração que temos sustentado. Chegamos, porém, a um ponto em que não mais podemos manter-nos calados. Por amor ao Seminário e à Igreja temos de sair a público para clamar contra os abusos que presenciamos e a situação em que vivemos. Com tristeza infinita, temos de apelar a todos os corações crentes a que se levantem para defender esta Casa, que tanto amamos, e a IPB nesta hora crítica.

Com o maior dos pesares temos de dizer que o Seminário não é hoje a Casa de Profetas, de onde saíam homens de Deus, fiéis à Bíblia e ardendo de entusiasmo pela salvação dos pecadores, ministros piedosos que continuem a obra dos grandes homens do passado, grandes na fé, grandes na consagração, grandes no fervor, grandes na piedade, prontos a todo sacrifício, varões de Cristo sem reservas. O Seminário é hoje um lugar onde se zomba dos que levam a sério a Bíblia, a oração, a vida espiritual; onde se desmoraliza de todas as formas a liderança da Igreja, suas instituições e seus homens de confiança; onde se hostilizam professores que não se dobram aos interesses do grupo dominante; onde se defende a libertinagem e a imoralidade; onde existem clubes dos que se reúnem para fumar e beber; em cujo refeitório se praticam atos que ferem a mais elementar educação e onde a própria oração é motivo de ridículo e zombaria; onde se defende o amor livre e se condena como pietismo e moralismo todo esforço de viver cristãmente, segundo os padrões do Evangelho; onde se tacham de estreitos todos quantos mantêm firmes as doutrinas do Calvinismo clássico e aceitam a Bíblia como inspirada Palavra de Deus; onde se veiculam idéias modernistas como se fossem a verdade de Deus, somente porque os teólogos do dia e os estafetas dos evoluídos desta e de outras terras o proclamam; onde não existe interesse geral pela evangelização e pela conversão dos pecadores; onde uma cúpula ativista, politiqueira, de simpatias pronunciadamente esquerdista, exerce inexorável pressão sobre os colegas que não rezam pela sua cartilha e trama de maneira traiçoeira contra os líderes da Igreja que não obedecem à sua linha de pensamento; onde figuras estranhas ao Seminário e até à IPB, muitos até ministros, não sentem escrúpulos em manter encontros para desmoralizar a Igreja, autoridades eclesiásticas e professores da instituição de maneira desleal e revoltante; onde impera a irreverência e o cinismo; onde palavrões e piadas picantes são a norma de não poucos; onde a dignidade feminina e a pureza pessoal são objeto de alusões que não podemos aqui referir. Onde colegas são humilhados e tratados de maneira contrária ao amor de que tanto falam, especialmente aqueles que são novatos, vítima de trotes que refletem bem o espírito evoluído dos seus promotores; onde a vida espiritual e devocional é baixa, tanto quanto o pode ser; onde os cultos são mal assistidos e por alguns inteiramente desprezados; onde um círculo de oração iniciado por um grupo desejoso de mais vida devocional é hostilizado e combatido; onde a maioria indiferente e acomodada, querendo manter uma neutralidade impossível, acaba sempre fazendo a jogada da liderança negativista; onde as próprias autoridades não parecem em condições de agir com firmeza.

Irmãos no Senhor, não dissemos tudo que poderíamos dizer. O próprio deão do ano passado, Rev. Dr. Osmundo Afonso Miranda, traçou um retrato bem realista da situação em seu relatório à Diretoria do Seminário, que é um brado de alerta contra a referida situação. A situação é séria, o sentimos. Por amor a Cristo e Sua Palavra, por amor à IPB e seu ministério autêntico, por amor aos crentes sinceros de hoje e às gerações do futuro, é preciso por paradeiro a esses desmandos. Aqui, diante de nosso Deus, obedecendo à voz de nossa consciência, com o coração sangrando de tristeza, bradamos pedindo que alguma coisa seja feita. Não podemos ficar indiferentes nem calar-nos; seríamos cúmplices desse processo de desmoralização da Causa. Pensai no que estamos relatando, informai-vos de tudo, orai muito e agi com firmeza. E que Deus, o nosso Deus, nos dê forças para não fugirmos ao dever, para sermos fiéis à Sua vontade. Amém.

Hermes Mariano, Presbitério de São Paulo
Ariovaldo C. Bomfim, Presbitério de São Paulo
Elpídio Gonçalves, Presbitério do Rio Doce
Evandro Luiz da Silva, Presbitério de Cuiabá
Floramonte Dias Gonçalves, Presbitério Oeste de Goiás
Célio J. Duarte, Presbitério Florianópolis
Francisco Antônio Maia, Presbitério de Brasília
Silas Augusto Tscherne, Presbitério de Rio Claro
Dirceu Xavier de Mendonça, Presbitério de Rio Claro
Gilson Barbosa Gomes, Presbitério do Rio de Janeiro
Eldman Francklin Eler, Presbitério de Governador Valadares
Adolfo Potenciano, Presbitério de Goiânia
José Silvério Júnior, Presbitério de Brasília
José dos Anjos, Presbitério Norte de Minas
Jarbas Dantas, Presbitério de Campinas “

Aqui está um resumo das principais denúncias nele feitas, nas palavras do Rev. João Dias de Araújo:

As de ordem piedosa: Há quem zombe da Bíblia, da oração e da vida espiritual; a vida devocional é baixa; os cultos mal assistidos ou desprezados; o círculo de oração combatido.

As de ordem doutrinária: Desprezo ao calvinismo, apego ao modernismo, negação da inspiração [da Bíblia], etc.

As de ordem ética: Há libertinagem, imoralidade, fumo, bebida, amor livre, palavrões, piadas atentando à pureza feminina, etc.

As de ordem administrativa: Há os que desmoralizam a liderança da Igreja, hostilizam professores; “uma cúpula ativista, politiqueira, de simpatias pronunciadamente esquerdistas, exerce inexorável pressão sobre os colegas”; “tramam de maneira traiçoeira contra os líderes da Igreja que não obedecem à sua linha de pensamento”; “elementos de fora, até ministros, vêm aqui, tramam, etc. “.

Eis o que diz o Rev. Waldyr sobre o manifesto em sua autobiografia:

” Ante o estado de coisas vigente, autoridades sem pulso, alunos sem disciplina, ensino acomodatício, vago, difuso, incerto, incapaz de dirimir dúvidas e firmar vocações, a vida espiritual do Seminário em nível raso, alunos mais sérios e responsáveis, que se não podiam conformar com a situação, decidiram encontrar-se em reunião de oração às seis e meia da tarde nos dias de aula, convidando-me para com eles participar. Eram reuniões ferventes de súplica a Deus em favor do Seminário, rogando-se ao Senhor interviesse e mudasse as coisas para que o ambiente fosse o de real Casa de Profetas e não um reduto de fariseus, mercenários e agitadores, como estava sendo. Essa plêiade de seminaristas, menos de vinte, ridicularizada pelos colegas avançados e revolucionários, com lágrimas não raro, preservava a pureza da fé, o alvo do ministério, a espiritualidade real, a ética genuína, em orações tocantes e sentidas, brotadas de corações sinceros e almas piedosas.

Vinha essa prática sendo mantida já por meses, quando se realizou no Seminário um encontro de qualquer comissão ou grupo de estudos, de que fazia parte o Rev. Domício Pereira de Mattos, um dos expoentes da corrente liberal. Como costumava acontecer sempre que vultos dessa mentalidade apareciam no Seminário, foi ele convidado a falar aos estudantes, promoção do famigerado CAOS. Havíamos encerrado a reunião de oração, quando chegaram dois do grupo, Gilson Barbosa Gomes e Adolfo Potenciano, visivelmente indignados, dizendo não agüentarem mais a situação, revoltados com o que haviam ouvido nesse encontro, em que o canhestro convidado buscara desestimular os que visavam ao ministério, a seu ver, carreira falida e parasitária, a serviço de uma Igreja retrógrada, dizendo que ele continuava no ministério somente porque, já cinqüentenário, não acharia outro emprego, além de que, perguntado por um dos futuros alunos de Exegese aos Romanos, como impedir que eu fosse o professor, ferindo os ditames de até comezinha ética, a despeito de colegas de Seminário que fomos, aconselhava-os a promoverem desordem em classe, buscando irritar-me com provocações e acintes, que eu perderia a serenidade e eles acabariam levando a melhor. Com os dois solidarizaram-se os demais membros do grupo e decidiram redigir um manifesto à Igreja, expondo tudo o que se passava de irregular no Seminário, embora na época fosse proibido pela Congregação qualquer pronunciamento de alunos a entidades externas [Ênfase acrescentada]. Não se dirigiram à Congregação porque sabiam de sobejo que a questão seria abafada em seu clássico imobilismo. Elaboraram o documento, que veio a ser conhecido por MANIFESTO DOS QUINZE, tantos os seus signatários, e o despacharam aos quatro cantos do país para conhecimento de pastores e igrejas. Foi uma bomba! A repercussão foi enorme e traria resultados inimagináveis.

A Congregação ficou entalada em agudo dilema. Os fatos referidos eram de extrema gravidade. Eu que tomara conhecimento do teor do documento desde o início, por muitos havido como de minha lavra, o que não era bem verdade, pois que não o redigi, apenas revi a fraseologia e linguagem, indaguei dos rapazes se eles tinham provas objetivas de tudo quando denunciaram, e afirmavam que sim, porquanto, do contrário, corriam sério risco de exemplar punição. Não tomar medida nenhuma comprometeria a Congregação, inda mais que estava próxima a reunião do Supremo Concílio. Punir os signatários do documento comprovaria evidente parcialidade. Apurar os fatos poderia acarretar pesadas críticas e desprestigiar a Direção do Seminário. Como algo teria de ser feito, decidiu a Congregação encarregar uma comissão de professores, de que eu não fazia parte, de, à base do Manifesto, elaborar um questionário a ser respondido, de surpresa, pelos alunos. Constou de vinte e oito quesitos que abordavam todos os aspectos envolvidos, menos questões políticas. Era esperança de muitos que os acusados negassem o que deles se dizia e os não-acusados pouco ou nada confirmassem que pudesse convalidar as denúncias contidas no Manifesto. Dos acusados apenas um se furtou a responder objetivamente, os demais todos confessaram as faltas denunciadas; dos signatários, um recuou do que havia subscrito, justamente Gilson Barbosa Gomes, que de início se mostrara tão inconformado, os não-denunciados, por sua vez, confirmaram os fatos incriminados. A Congregação não teve outra solução senão encaminhar todo o material ao supremo Concílio para apreciação. Os quinze estavam vindicados! “

A Congregação não puniu os alunos que haviam desrespeitado a sua Resolução nem repreendeu o mestre que os incitou a fazê-lo, tendo até mesmo, segundo admite, ajudado na redação da peça. Não vindo a punição, considerei-me moralmente justificado, nessas circunstâncias, a também ignorar a Resolução da Congregação e publicar o terceiro número do jornal — e foi isso que fiz. 

Foi este o meu Editorial no terceiro número de “O CAOS em Revista”, publicado em 18 de Maio de 1966:

” Novo dia 18. Novo “O CAOS em Revista”. Até aqui temos podido ser pontuais. Esperamos poder continuar a sê-lo.

Muitas coisas aconteceram em nossa casa desde que o segundo número saiu. Dentre elas merece destaque, não pelo conteúdo, mas pela repercussão, o Manifesto (na falta de melhor palavra) que um grupo de quinze alunos endereçou aos membros da Igreja Presbiteriana do Brasil, delatando coisas que se passam aqui dentro (e até as que não se passam), separando estas coisas de seu contexto, julgando-as erradas e pedindo punição para quem as comete. Deve ser dito ainda que o referido manifesto está sendo espalhado ilegalmente, pois não passou pela Congregação, canal competente para o envio de qualquer documento dos alunos para fora dos limites do Seminário.

“O CAOS em Revista” lamenta o sucedido. Lamenta por várias razões.

Em primeiro lugar, o referido manifesto veio dividir definitivamente nossa comunidade. Antes dele havia correntes, tendências divergentes, que não chegavam, contudo, a ser grupos. Havia mesmo aqueles que eram neutros a qualquer corrente: os que se chamavam de “a terceira força”. O manifesto, no entanto, acabou com tudo isto, criando dois grupos apenas: o dos que assinaram o manifesto (quinze) e o grupo dos restantes. Este fato decepou qualquer esperança de se poder viver em real comunidade aqui.

Em segundo lugar, lamenta pelo simples fato de que “roupa suja se lava em casa”.

Lamenta, ainda, pelo mal que os colegas signatários do referido manifesto vão causar ao membros da IPB, escandalizando-os desnecessariamente. Porque o instrumento de escândalo não são tanto os que cometeram determinadas coisas tidas por erradas quanto os que as espalharam a um contexto inteiramente diferente e não preparado para ouvi-las. Se observarmos o que Paulo tem a dizer a respeito do comer carne de porco, vamos notar que o erro não estava no comer em si, mas no escândalo que isto podia causar. Correto. São feitas e ditas coisas aqui dentro de nosso dormitório e de nossos quartos (não tantas e tão terríveis quanto o referido manifesto pretende que sejam) que não escandalizam ninguém no ambiente em que estão sendo feitas e ditas. Levadas, contudo, para um ambiente não preparado para ouvi-las, estas coisas servem de escândalo. O culpado deste escândalo, contudo, não é quem faz o ato, mas quem o espalha para um ambiente não preparado para ouvi-lo.

Isto é o que mais lamentamos no manifesto. Não lamentamos o mal que seus signatários pretenderam causar aos outros, “neutros e liberais”. Lamentamos, sim, pelo mal que causarão e já estão causando, inconscientemente, a uma enormidade de crentes inocentes, que não precisavam saber das dificuldades internas de nossa casa, que, porque internas, deveriam ser resolvidas aqui dentro. A atitude dos que assinaram o manifesto, dos que orientaram ou estimularam a sua confecção, dos que o estão enviando e distribuindo não é nada pastoral em relação aos membros da Igreja que eles querem salvar! Eles, os responsáveis pelo manifesto, não tinham o direito de escandalizar os membros humildes e inocentes das nossas Igrejas. Por isso é que reputo correta a opinião de um pastor que ao receber o manifesto disse: “Isto é antes de um ato de covardia para com os membros da Igreja!” É construindo e não destruindo que se deve alcançar um objetivo.

“O CAOS em Revista” registra, pois, com pesar, esta mancha negra nos anais do corpo discente desta casa. Continuaremos, porém, a lutar, de modo franco e legal, à luz do dia, através do diálogo leal, para que cada um tenha a liberdade de pensamento e ação indispensáveis à vida de cada verdadeiro homem, de cada verdadeiro cristão. É com o intuito de restabelecer diálogo que o redator escreveu o artigo “Parafraseando”. Ele tem esperado em vão a contribuição dos colegas. E ainda espera. Por que algum dos colegas signatários  do manifesto não se decide a um diálogo franco em lugar de fazer ataques subversivos e inesperados? É uma tática mais madura e mais máscula. As páginas de “O CAOS em Revista” estão à espera.

Enquanto isto, colegas, lutemos para que, em nosso meio, cada um possa ter a autonomia de pensamento que o cristão precisa ter. “Lembrai-vos sempre de que não existe felicidade sem liberdade, e de que o fundamento da liberdade é a coragem” (Péricles, Discurso aos Atenienses, citado por Tucídides, em A Guerra do Peloponeso, Livro 2, citado por Celso Furtado, em Dialética do Desenvolvimento). “

O artigo “Parafraseando”, citado no Editorial, foi este, que segue, também escrito por mim:

“ Propôs Jesus também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos por se considerarem justos, e desprezavam os outros” (Lucas 18:9).

Certa vez, em uma Faculdade Teológica, passaram a existir dois grupos: um que se dizia “conservador” e outro que era taxado de “modernista”. Certo dia os conservadores oraram assim: “Ó Deus, graças te damos porque não somos como os demais colegas: defensores da libertinagem e da imoralidade, fumantes e beberrões, defensores do amor livre, mantenedores de simpatias pronunciadamente esquerdistas, irreverentes, cínicos, contadores de piadas e desrespeitadores da dignidade feminina. Louvamos-te, ó Deus, porque assim não o somos. Nós fazemos reunião de oração diariamente, ocasião em que um rabino nos instrui a respeito das idéias ortodoxas da tua palavra e a respeito do calvinismo clássico que tu nos legaste; nós, por ocasião das refeições, ficamos quietos: chegamos a bater palmas e a sorrir para mostrar nosso amor cristão, mesmo quando são proferidos discursos que nos criticam; aceitamos a Bíblia toda como palavra inspirada de Deus; estamos sempre aos pés dos líderes da Igreja para aprender deles como agir honesta, franca e desinteressadamente; saímos três ou mais vezes por semana para pregar a tua palavra, embora nosso estudo seja com isso prejudicado: contudo, teu sábio servo do passado já dizia que “o muito estudar é enfado da carne” — aliás o teu Espírito colocará nos nossos lábios a mensagem, mesmo que nada tenhamos estudado! Ó Deus, atenta para isto: somos fiéis servos e testemunhas da tua palavra aqui neste Seminário; para conseguirmos sê-lo chegamos até a desrespeitar as leis da Congregação, ó Deus, pois mandamos, por trâmites ilegais, um formidável manifesto aos crentes da tua igreja, condenando tudo o que de errado se passa aqui dentro, fora do nosso grupo, evidentemente; por amor à tua causa, ó Deus, chegamos ao ápice da ousadia e da coragem ao afirmar que as próprias autoridades que dirigem este Seminário não parecem estar em condições de agir com firmeza. Mas nós o estamos, ó Deus, e te agradecemos por isto.”

O resto todo o mundo sabe. Aquela criatura de tão excelentes qualidades, o fariseu da parábola de Jesus, não foi o que desceu para casa justificado, mas sim aqueles que era roubador, injusto e adúltero, aquele que era um pária moral na sociedade de sua época. Estranho, não? Mas real. No entanto seria bom perguntar por que o fariseu, que era o pietista, o legalista, o moralista, o ortodoxo da época de Jesus, não foi justificado. A razão parece óbvia, embora muitos não a queiram ver: o fariseu não foi justificado porque colocou como critério de sua auto-avaliação diante de Deus o seu próximo, o publicano. E, nestas circunstâncias, aferindo-se por um critério imperfeito, o fariseu jactou-se diante de Deus, orgulhou-se, e creu que poderia trazer nas mãos e apresentar diante de Deus algo de bom: o seu comportamento, o seu modo de agir, o seu zelo pelo cumprimento da lei divina. E não foi justificado embora praticasse atos muito bons em sua vida, se os considerarmos isolados de sua motivação e de seu contexto. Porque todas as vezes que nos avaliamos por critérios e padrões imperfeitos nos tornamos orgulhosos.

Às vezes este orgulho é disfarçado sob a capa de uma pseudo-humildade, sob palavras tais como estas: “Somos os primeiros a reconhecer nossa imperfeição, nosso pecado, nossas falhas, nossa pobreza espiritual, nossas deficiências em todos os sentidos, contudo…” (grifo meu). Não são, no entanto, nossas palavras a coisa que tem importância primária. É nossa atitude que, lhes subjaz, que é o primariamente importante. Mesmo que pronunciemos, em lágrimas e com o coração sangrando, palavras que falem a respeito de nossa humildade, se nossa atitude for a de um juiz apontando erros nos outros, não estaremos sendo humildes, mas orgulhosos.

Será bom perguntar porque sentimos um prazer imenso em apontar as falhas, erros e os defeitos dos outros, principalmente quando estes são pessoas mais preeminentes que nós, em outros setores, ou talvez no mesmo a que nos dedicamos. Porque no instante que fazemos isto podemos nos jactar e nos consolar intimamente, dizendo: “embora fulano seja melhor estudante que eu, embora se destaque mais em certos círculos, na hora em que souberam que ele faz isto e aquilo eu subirei na cotação do povo, mediante o rebaixamento do outro!” A raiz de todo mexerico, fuxico e de toda delação está nesse nosso desejo de nos compararmos com os outros e de ver neles falhas, e de torná-las ainda mais negras, através de generalizações precipitadas e de mentiras mesmo, porque assim teremos maior realce. Isto até me faz lembrar da história daquela ordem de monges, que nada mais tendo de que se orgulhar orgulhavam-se de sua humildade!

O erro do fariseu não foi fazer todas aquelas coisas. Foi comparar-se com o que não fazia, e julgar-se superior, julgar-se na condição de juiz do seu próximo. Todas as vezes que nos aproximamos de Deus auto-avaliando-nos por critérios imperfeitos nos tornamos orgulhosos, e nos sentimos no direito e em condições de apresentar a Deus alguma realização nossa, algo que nos conceda mérito diante dele. E todas as vezes que assim fazemos estamos sendo fariseus: mesmo que aquilo que estejamos apresentando a Deus seja a nossa fé, seja a nossa “ortodoxia”, seja a nossa conduta impecável!

O mérito do publicano estava em que, quando quis avaliar-se, não tomou para si critérios humanos, e, portanto, imperfeitos, mas colocou o próprio Deus como padrão de sua auto-avaliação. E porque assim agiu sentiu-se imediatamente arrasado. Não viu mérito algum em sua pessoa. Diante de Deus ele não era nada. Então, não podia orgulhar-se. Simplesmente não tinha de quê. Só pode dizer: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador”. E foi justificado.

Como esta parábola deve ter chocado os ouvintes de Jesus! Como aquela crítica tremenda aos “santos” e “justos” fariseus, aos “ortodoxos”, e a sentença de que o publicano havia sido justificado deve ter arrasado os ouvintes de Jesus! Justamente o publicano, que não era apenas “modernista e liberal”, mas HEREGE! No entanto, o impacto que a parábola causou nos ouvintes de Jesus foi esquecido e hoje a parábola não faz parte da Bíblia de muita gente tida por aí como exemplo de santidade.

Finalmente uma palavra aos “quinze”: o que fazeis, vós os que assinastes o manifesto, com textos tais como este (Lucas 18:9:14)? Simplesmente o ignorais? Por diversas vezes já tenho ouvido a acusação de que nós, os “modernistas”, recortamos a Bíblia, para fazer nossa exegese ou formular nossas doutrinas. Será que é verdade? Ou, em última instância, será que é toda a verdade? Porque o que posso perceber é que vós, os conservadores e “ortodoxos”, também a recortais, não através da exegese, mas através do vosso comportamento, através de vossas vidas! E, em assim fazendo, vos tornais mais liberais do que os próprios. Quero crer, no entanto, que assim o fazeis ignorantemente e não de espírito premeditado. Quero, com sinceridade, crer que é inconscientemente que extraís de vossas Bíblias, em vossa vida e através de vossa conduta, textos tais como o acima mencionado, que não é o único. Ou será que não percebestes que a vossa atitude em fazendo o manifesto que fizestes, não permite que a Parábola do Fariseu e do Publicano continue mais em vossas Bíblias? O mesmo se dá com textos tais como Mat. 7:1 sqq; Tiago 4:11-12 e outros.

Minha opinião particular é que fostes, a maioria de vós os “quinze”, ingênuos simplesmente. Não pudestes perceber as dimensões do que fizestes. Os outros, os  “não-ingênuos” que vos manipularam, não passam também de ingênuos nas mãos de outros menos ingênuos do que eles. Quando tiverdes adquirido um pensamento crítico e uma capacidade independente de avaliar as coisas, o que se dará do segundo ano em diante, embora haja alunos que já cheguem aqui com estas qualidades, então podereis observar o quanto fostes insensatos. E vos arrependereis muitíssimo. Pois então vereis porque as vossas expectativas de ter 2/3 dos alunos ao vosso lado (correspondentes ao I e II ano somados), expectativas estas bastante vivas no início deste ano, vieram a falhar, e sois apenas quinze em uma comunidade de quase oitenta. Tendes apenas dois do segundo ano em vosso meio. Os outros “abriram os olhos” (o que não significa que tenham se tornado “modernistas” – apenas perceberam quão estreitos sois). Então (quando adquirirdes um espírito crítico mais aguçado, na pressuposição de que este Seminário vai ajudar-vos a aguçá-lo), vereis porque é que um professor que luta ano a ano para ver seu circulo de influência crescer não consegue, cada ano, fazer com que sua influência abranja senão um pequeno número de calouros. Seu contato influente com os alunos termina em três semestres. Vereis porque de professor de mais ou menos cinco matérias veio ele a lecionar apenas uma, presentemente. Mas é somente o tempo que vos poderá mostrar isto. É com paciência que espero que ele e o Espírito Santo (por que não?) realizem o seu trabalho. “

Para se aquilatar a distância que separava pai e filho, eis a carta que meu pai escreveu ao meu colega Evandro Luiz da Silva, signatário do Manifesto dos Quinze, e líder estudantil do movimento, e, por um tempo, muito admirado por meu pai (depois se desentenderam de forma lastimável e lamentável):

” Esta carta, dirigida a você e extensiva aos seus colegas que assinaram  aquele manifesto, é para dar-lhes o meu apoio  integral e o meu grande abraço pela coragem, pela firmeza, e pela sinceridade que vocês demonstraram naquele brado de alerta. Graças a Deus, nem tudo está perdido. Estava faltando justamente isso que vocês revelaram naquele papel, estava faltando uma denúncia corajosa contra o atual estado de coisas no Seminário, mas uma denúncia partida aí de dentro, mesmo, de alunos que vivem aí e sentem o drama em suas próprias carnes. Quando os de fora acusavam, eram taxados de exagerados, de ignorantes da vida do Seminário, de inimigos dos alunos. Mas agora vocês fizeram o que já deviam ter feito há muito tempo: Deram o alarme! E esse alarme irá despertar a Igreja Presbiteriana e estimular outros alunos que devem estar sentido o mesmo nos outros Seminários. Sei que vocês irão sofrer com a atitude que tomaram, irão ser mal compreendidos, até por alguns de seus próprios Presbitérios. A acusação é tão forte (e diz a verdade) que muitos não acreditam, porque uma grande parte do ministério não sabe o que se passa aí na ex-Casa de Profetas. Vocês sofrerão, mas tenham coragem: vocês não estão sozinhos. Continuem firmes, e Deus os abençoe. O abraço do amigo e companheiro de lutas, Oscar Chaves, pastor da Igreja Presbiteriana de Santo André.

PS. A única nota triste daquele manifesto, para mim, é não estar lá a assinatura do meu filho.”

Os “companheiros de lutas” acabaram lutando um com o outro e dividindo a Igreja Presbiteriana de Santo André em duas, uma para cada um…

O artigo “Parafraseando” lança várias farpas contra o mentor docente dos “Quinze”, o Rev. Waldyr Carvalho Luz. É ele o “rabino” mencionado na frase “Nós fazemos reunião de oração diariamente, ocasião em que um rabino nos instrui a respeito das ideias ortodoxas da tua palavra e a respeito do calvinismo clássico que tu nos legaste”.

Também é o Rev. Waldyr o presumido “não-ingênuo” (deliberadamente entre aspas) que manipulou os “Quinze”, mas que estava sendo manipulado pela direção da Igreja, a quem eu acuso, quando digo: “Minha opinião particular é que fostes, a maioria de vós os ‘quinze’, ingênuos simplesmente. Não pudestes perceber as dimensões do que fizestes. Os outros, os ‘não-ingênuos’ que vos manipularam, não passam também de ingênuos nas mãos de outros menos ingênuos do que eles.” (Alguns anos depois, o próprio Rev. Waldyr seria expulso do Seminário, junto com o Rev. Américo Justiniano Ribeiro, que era parente do Rev. Boanerges Ribeiro).

Também é ao Rev. Waldyr que faço menção quando digo: “Então (quando adquirirdes um espírito crítico mais aguçado, na pressuposição de que este Seminário vai ajudar-vos a aguçá-lo), vereis porque é que um professor que luta ano a ano para ver seu circulo de influência crescer não consegue, cada ano, fazer com que sua influência abranja senão um pequeno número de calouros. Seu contato influente com os alunos termina em três semestres. Vereis porque de professor de mais ou menos cinco matérias veio ele a lecionar apenas uma, presentemente.”

A única disciplina que o Rev. Waldyr acabou lecionando no Seminário era Grego — uma matéria na qual era excelente professor, mas que era desprovida de maior conteúdo teológico, e, portanto, não suscitava muita controvérsia (exceto pelo método do professor, que teve que ser revisado várias vezes, especialmente no tocante às suas famosas “topadas”, ou provas sem data marcada). Enquanto eu estudava no Seminário a Congregação tentou atribuir-lhe a disciplina “Exegese do Novo Testamento”, mas os alunos se recusaram a tê-lo como professor.

Em sua autobiografia o Rev. Waldyr dá sua própria versão desses fatos. Procura explicar-se e até certo ponto defender-se da acusação, nunca no texto explicitada, de que seu comportamento foi no mínimo incoerente. Foi inicialmente o paladino e o maior defensor das mudanças que a Igreja procurava realizar dentro do Seminário. Quando as mudanças finalmente o alcançaram, virou repentinamente crítico da administração, passou de telhado a estilingue, assumiu posturas de oposição.

No que me diz respeito, sempre usou sua famosa retórica para (do seu ponto de vista) atacar-me, sem jamais explicitar o meu nome. Eis, por exemplo, um outro incidente que ele relata a meu respeito:

” Boa amostra do espírito desse aluno [o editor do jornal] dá-o o seguinte fato. A Editora da tradução do NOVO DICIONÁRIO DA BÍBLIA para o português pediu-me fazer a concatenação dos itens compostos para impressão. Como eu não dispunha de tempo para esse trabalho, sugeri algum seminarista. Autorizado pela editora, consultei o referido escrivinhador, moço inteligente, de bom preparo, competente para esse mister. Quis saber primeiro quanto lhe pagariam. Quando lhe disse qual a remuneração prevista, ele que estava em férias, com muito tempo disponível, apesar de tratar-se de livro importante para o povo crente, respondeu que por esse preço não faria o trabalho. Procurei, então, outro seminarista, Célio João Duarte, modesto, firme de convicções, piedoso e consagrado, que, ao dizer-lhe da gratificação oferecida, se prontificou a fazê-lo de graça para ajudar a Igreja, aceitando a custo o minguado pagamento proposto. Não pude deixar de contrastar a atitude dos dois: aquele, avançado de idéias, defensor dos postulados sociais, argentário e ambicioso, a preocupar-se com o dinheiro, este, conservador de pensamento, fiel à doutrina da Igreja, dominado pelo espírito de servir à Causa, desprendido e indiferente a recursos materiais. Era incontestável evidência do espírito diferente gerado pelas duas posições teológicas antagônicas. E enquanto este entrou para o ministério, pastor fiel e dedicado que o tem sido, aquele ‘arripiou carreira’ e hoje parece nem religião ter! “

Devo deixar aqui registrado que, em todo esse processo, o Rev. Waldyr, não sei se em respeito ao meu pai, ou em consideração à “promessa intelectual” que, para ele, eu representava, sempre me tratou, no nível pessoal, de forma extremamente cortês, naquela época e depois. O mesmo não posso dizer de sua esposa, Da. Amélia Luz, que, um dia, na saída da Escola Dominical da Igreja do Jardim da Guanabara, que funcionava no prédio do Seminário, investiu contra mim, tirando satisfações pelas críticas que fazia ao seu marido, falando aos gritos e criando um verdadeiro escândalo no pórtico do Seminário. Que me lembre, não lhe disse nada, em resposta. Sempre tive receio de altercações verbais públicas, preferindo, consistentemente, a via escrita para me debater. (Recentemente, neste ano de 2006, por ocasião do enterro de minha tia, Alice de Campos Sanvido, encontrei Da. Amélia Luz, que me tratou de forma cortês).

Voltando para 1966, eu pretendia publicar um quarto número de “O CAOS em Revista” no mês de Junho – no dia 18, para manter a regularidade. Esse número não saiu. Explico porquê.

No fim de Maio e início de Junho percebi que a história ia acabar mal. A situação política do país prenunciava um endurecimento político, e, dentro da Igreja, parecia certa a vitória do candidato da reação, Rev. Boanerges Ribeiro, que fazia campanha de Norte a Sul do Brasil, prometendo, entre outras coisas, “limpar” e “desinfetar” (ou “salvar”) os Seminários.

O Manifesto dos Quinze começava a surtir efeito também. Algumas Igrejas, entre elas uma de Belo Horizonte e outra do Presbitério de Rio Claro, ajudaram a espalhar o Manifesto pelo Brasil, como prova de que precisava ser eleito um Presidente do Supremo Concílio que tivesse, como parte de seu programa, a “salvação” do Seminário. O circo estava armado.

A Congregação do Seminário apertava o cerco. Embora, em sua reunião de 19 de Abril, a Congregação houvesse decidido não se manifestar sobre o conteúdo dos dois primeiros números de “O CAOS em Revista”, apenas remetendo a questão ao meu Presbitério, depois do número de Maio ela se reuniu novamente e decidiu “reprovar energicamente” as matérias publicadas. Além disso, numa reunião da qual infelizmente não tenho a ata, mas cujo teor me foi oficialmente comunicado, a Congregação deu ordem explícita e inequívoca ao CAOS para não publicar mais nenhum “O CAOS em Revista”, ou equivalente, sem o visto escrito do Reitor ou do Deão. Por fim, o Redator recebeu, pessoalmente, uma repreensão enérgica pela matéria dos três primeiros números e foi advertido de que seria exemplarmente punido por indisciplina no caso de reincidência.

Eu, com meus jornais, acabara por tornar-me o estopim da crise do Seminário de Campinas. Certamente não seria poupado em hipótese alguma. Assim sendo, saí a procurar emprego. Fiz um teste na Bêndix e, no dia 13/6, na Bosch, que me chamou em seguida. Comecei a trabalhar dia 20/6 — por ora ainda mantendo meu quarto no dormitório do Seminário. Como comecei a trabalhar no final do último mês do primeiro semestre, não me vi forçado a tomar nenhuma decisão. Resolvi, até certo ponto, deixar os fatos se desenrolarem por si mesmos.

Preparei, entretanto, um Editorial para o quarto número de “O CAOS em Revista”, que deveria sair em 18 de Junho (para manter o cronograma previsto) e que teria apenas um Editorial, que explicasse o que vinha ocorrendo, e uma seção do livro A Formação da Mentalidade (Mind in the Making), de James Harvey Robinson, então bastante popular aqui no Brasil [traduzido para o Português pelo grande Monteiro Lobato – EC em 2015], que eu considerava relevante para o entendimento do que estava acontecendo. É este o Editorial que escrevi:

” Ainda um “O CAOS em Revista”. O último deste semestre. Os leitores já acostumados à sua leitura talvez notem que, neste número, “O CAOS em Revista” está um pouco diferente, em seu conteúdo, dos números anteriores: está menos vivo. Motivos vários contribuíram para que isso se desse, dentre os quais a falta de tempo do Redator e a falta de colaboração dos colegas no sentido de enviarem artigos, traduções, poesias, etc., para serem publicados.

Outro motivo ainda, a ser notado, é a ordem explícita e inequívoca da Congregação do Seminário Presbiteriano do Sul, que determinou que nenhum “O CAOS em Revista”, ou equivalente, fossem publicado sem o visto do Senhor Reitor ou do Senhor Deão. Esta ordem explícita, acrescentada da reprovação enérgica feita ao Redator, pela matéria contida nos três primeiros números do jornal, e da ameaça de punição por indisciplina em caso de reincidência, esclarecem, sem possibilidade de equívoco, a posição da Congregação e a posição que ela nos reserva. (Observe-se que os dois primeiros números do jornal foram julgados duas vezes pela Congregação. Na primeira vez, ela decidiu não opinar sobre eles, enviando-os ao Presbitério do Redator. Na segunda vez, por razões ignoradas, decidiu reprovar a matéria sobre a qual em vez anterior havia se omitido).

O campo que a Congregação nos permite abranger, contudo, torna-se demasiado restrito quando notamos que ela considera a matéria contida no terceiro jornal fora da competência e do direito de manifestação de um jornal do corpo discente. Torna-se difícil, pois, formular um jornal em que tratar de problemas que diretamente afetam a vida de todos os alunos é considerado “fora da competência” de um jornal de alunos.

Assim sendo, resolvemos, em protesto, transcrever uma seção (Seção 4, no Capítulo II) do livro A Formação da Mentalidade, de James Harvey Robinson. Se o trecho que será transcrito for lido em seqüência aos três primeiros números do jornal, poderá comunicar uma mensagem bastante relevante. É o que esperamos. “

A matéria que seria transcrita do livro de Robinson procurava mostrar que a maior parte das pessoas não aceita as idéias que tem em função de exame crítico, mas, sim, em função das circunstâncias que se encontra. Aqui estão algumas passagens importantes:

” Somos incrivelmente descuriosos da formação das nossas crenças, mas por elas nos enchemos de amor quando no-las querem roubar. Torna-se óbvio que não são propriamente as idéias que nos são caras, sim o nosso amor próprio. [ . . . ]

Gostamos de continuar a crer no que nos acostumamos a aceitar como verdade, e a revolta sentida quando duvidam das nossas verdades estimula-nos a ainda mais nos apegarmos a elas. O resultado é que a maior parte do chamado raciocínio humano consiste em descobrirmos argumentos para continuarmos a crer no que cremos.  [ . . . ]

Esta distinção entre “boas” e “reais” razões é das mais importantes nos domínios do pensamento. Podemos de pronto dar o que chamamos as nossas “boas” razões para sermos católicos ou maçons, republicanos ou democratas, amigos ou inimigos da Liga das Nações. Mas as razões “reais” ficam em outro plano. Não há dúvida que a importância desta distinção é notória, embora obscura. Um missionário batista concorda prontamente em que o budista não é budista por conseqüência do cuidadoso estudo que fez dessa crença, mas simplesmente porque nasceu numa família budista de Tóquio. Mas considerará ofensivo à sua fé reconhecer que a sua parcialidade para com certas doutrinas provém de ter tido ele uma progenitora afiliada à igreja batista de Puddlebury. [ . . . ] Mas nem um nem outro perceberá por que motivo está defendendo as suas opiniões pessoais.

As razões “reais” das nossas crenças vivem ocultas de nós mesmos, tanto quanto dos outros. À medida que crescemos, muito naturalmente vamos adotando as idéias ambientes relativas à religião, às relações de família, à propriedade, aos negócios, ao governo. Absorvêmo-las, de tanto ouvi-las zumbir em torno de nós, no seio do grupo em que vivemos. Ademais, como Trotter notou, essas idéias, como produto da sugestão e nunca do raciocínio, possuem o característico de parecerem perfeitamente óbvias. [ . . . ]

Este espontâneo e leal apoio aos nossos preconceitos — este processo de descobrir “boas” razões para justificá-los — recebe dos cientistas modernos o nome de “racionalização” — palavra nova para coisa muito velha. Nossas “boas” razões nada valem para o honesto esclarecimento de um assunto, porque, por mais solenemente que sejam apresentadas, não passam, no fundo, de resultados de preferências pessoais, ou preconceitos, não refletindo nenhum sadio desejo de acertar. . . .

O fato de uma idéia ser antiga e largamente espalhada não constitui argumento a seu favor, mas sim argumento para que tal idéia seja estudada e testada, a fim de verificarmos se não passa de mera racionalização. “

O Reitor e o Deão não aprovaram nem o Editorial nem a matéria a ser transcrita do livro de Robinson – e o jornal abortou.

Preparei ainda um quinto número do jornal, para ser publicado dia 18 de Agosto, mas com o aborto do número anterior, o quinto, evidentemente, não viu a luz do dia: fui expulso da instituição antes. Eis o que dizia (diria) o Editorial de Agosto:

” Temos em mãos o que seria “O CAOS em Revista” do mês de Junho, mas que não o foi, por causa do aborto que sofreu. O Editorial, que naquela ocasião escrevemos, procurava dar um relato sucinto dos acontecimentos que culminaram na colocação, naquela oportunidade, de “O CAOS em Revista” sob a tutela da Congregação do SPS [Seminário Presbiteriano do Sul], fato este que, por sua vez, ocasionou o aborto mencionado.

Um tempo relativamente longo decorreu desde então. Vivemos em outro contexto: temos outro Reitor, temos outro Presidente no Supremo Concílio. A cúpula que dirigia os destinos da IPB [Igreja Presbiteriana do Brasil] foi trocada. Há uma nova direção.

Todos estes acontecimentos, todas estas mudanças, toda esta “renovação”, pareceriam ser sinais de que a IPB rejuvenesce, reforma-se, atualiza-se, sofre uma renovação, no verdadeiro sentido do termo, sem as aspas indispensáveis ao emprego anterior da palavra. Mas, todos sabemos, isto não é verdade. A IPB preferiu, através da maioria dos representantes presentes ao Supremo Concílio, dar-se um outro rumo: o de lutar, em pleno século de viagens interplanetárias e de armas nucleares, como se fosse “remanescente de uma época de cavalaria”, para usar a apta imagem de Dietrich Bonhoeffer [em Letters and Papers from Prison], isto é: usando uma linguagem que não é a nossa do século XX; valendo-se de meios de ação que mais se assemelham aos da Idade Média; pregando idéias que há um século já eram tidas como desatualizadas, anacrônicas, conservantistas, vetustas; empregando métodos de pressão e repressão que nos fazem lembrar a Santa Inquisição Medieval; sendo dirigida por uma cúpola que, no seu totalitarismo, faria Hitler tremer de inveja no túmulo; expressando-se através de um órgão oficial que nada fica a dever aos periódicos do Rev. Raphael Camacho e do Mr. Robert Rapp! A IPB chegou a este ponto. Ou, melhor dizendo, permitiu que a conduzissem a este ponto.

Lembro-me de uma frase de Goethe, lida algures, que diz: “Muitos preferem morrer a pensar”. Na minha opinião, esta frase explica a razão de ter a IPB se deixado levar à situação em que se acha: “Muitos preferem morrer a pensar”. A IPB já sofre, agora, e vai sofrer muito mais ainda, os resultados da “preguiça intelectual” daqueles aos quais se delegaram poderes para decidir a respeito dos destinos da Igreja. Isto porque, enquanto a maioria prefere morrer a pensar, há aqueles, poucos e raros, que quase morrem de pensar para descobrir meios de manipular a maioria não-pensante, a fim de que esta venha a servir a seus objetivos pessoais, egoístas, de “will to power”. E o resultado, trágico, mas inevitável, a menos que os não pensantes se decidam a pensar por si, é que, muitas vezes, uma pessoa, que se proponha este alvo, consegue manipular uma multidão, quase sempre de boa fé, levando-a a satisfazer às suas aspirações (suas, bem entendido, do manipulador). É mais fácil, realmente, deixar que os outros pensem por nós; que nos ditem o que fazer; que decidam quais destinos devam ser os da Igreja; quais normas devam regê-la; quais doutrinas devam ser sua confissão. É o caminho mais fácil, o “caminho largo”, mas aquele que leva à negação completa do dom da inteligência.

‘Contudo’, talvez diga alguém, ‘o prezado jovem está se esquecendo de algo muito importante: foi o Espírito Santo que fêz com que se deliberasse em Fortaleza como foi deliberado. Ou será que o irmão é dos modernistas que não crêem no Espírito Santo?’ Sim, muitos já disseram isto, e não só uma vez. E é aqui que se situa, no meu entender, a maior heresia dos situacionistas presbiterianos de hoje: a heresia de fazer a vontade soberana, ilimitada, perfeita de Deus identificar-se com sua finita, limitada, imperfeita, egoísta e pecaminosa vontade, a heresia de cercear os limites da ação divina, a heresia de orientar o Espírito Santo em lugar de procurar dele genuína orientação, a heresia de buscar Deus apenas como um meio útil na aquisição de um determinado objetivo e não como um fim em si, a heresia de colocar doutrinas e normas de conduta em nível superior à vontade específica de Deus para o nosso hic et nunc, a heresia de fazer com que a mensageira se torna mensagem, a heresia de tornar a serva maior do que o seu Senhor! 

Parece que exagero. Provo, contudo. Tenho em mãos uma carta escrita pelo Conselho da IP [Igreja Presbiteriana] de Belo Horizonte, data de 2 de julho, quase dez dias antes do Supremo Concílio — carta esta para cuja elaboração um de nossos colegas, especialmente chamado a Belo Horizonte, emprestou sua valiosa cooperação! A carta, que deveria ser enviada a todas as Igrejas Presbiterianas do Brasil, acompanhada de uma cópia do “Manifesto dos 15”, reimpresso por aquela Igreja, denuncia em alto e bom som a “orientação modernista que os nossos Seminários vêm dando aos seus alunos [oxalá!], nossos futuros pastores”. Depois de analisar a situação, o referido Conselho, encabeçado pelo Rev. Wilson de Souza, faz as seguintes sugestões aos Conselhos das Igrejas às quais se destina a carta:

‘ a) Ore e convide outros irmãos a orarem, pedindo a Deus uma solução certa para o problema, promovendo, se possível, reuniões de oração com esta finalidade.
. . . . .
c) Telegrafe AGORA e peça a outros irmãos para telefonarem HOJE ao Presidente do Supremo Concílio, solicitando solução urgente para os problemas dos nossos Seminários. ‘

Até aí compreende-se. A aberração, contudo, vem depois, quando a carta continua:

‘ Esses telegramas poderão ter redações, mais ou menos, como estas:
— ‘Solicito SC tome providências enérgicas contra modernismo reinante nossos seminários’.
— ‘IP de (nome da cidade) espera que SC promova expurgo modernistas que atuam em nossos seminários’. ‘

Mais do que em qualquer outro lugar, aqui se faz presente a heresia atrás mencionada. Aconselhava-se a orar, pedindo a Deus a solução do problema. Para que orar, entretanto, se a solução já estava decidida, como bem o expressam os “telegramas-padrão”. Ei-la, clara, insofismável: EXPURGO dos que conosco não concordam. Esta solução já estava pronta, já havia sido tomada muito antes do Supremo Concílio. E do mesmo modo todas as outras. Aqueles belos apelos feitos pelo agora Presidente do Supremo Concílio, através de sua imprensa privada, para que a Igreja orasse, pedindo que o Espírito Santo orientasse o Supremo, eram desnecessários. As principais decisões e soluções já estavam no bolso de seu colete, Deus sabe já há quanto tempo! Uma prova inequívoca disto é o fato de ter sido designado relator da Comissão que iria estudar os problemas dos Seminários, ninguém menos do que o Rev. Wilson de Souza, o capacho atrás mencionado, que já se demonstrara parcialíssimo e preconcebido em relação ao problema. E a arbitrariedade acompanhou todas as outras decisões. Pobre Espírito Santo! Invocaram-no tanto, mas manietaram-no, cercearam-lhe a ação. Talvez tivesse ele uma outra solução para os problemas, talvez ele não fosse tão conservador quanto se dizem ser os atuais chefes da Igreja, mas seu parecer não foi aceito, talvez por ter sido expresso por alguém da ala contrária, talvez por não se identificar com os moldes dos “telegramas-padrão” e com os planos do partido vitorioso.

E assim caminha o tempo. A história, contudo, saberá passar seu julgamento (além de Deus que será bem capaz de passar o seu) sobre este negro período na vida da IPB. Enquanto, porém, o futuro não vem, para apresentar os vários aspectos e matizes da situação, é dever nosso, ao qual não nos podemos escusar, levantar uma voz profética contra o estado de coisas em que nos encontramos. “O CAOS em Revista” sempre se dispôs a isto. O artigo de Tristão de Athayde reflete o conflito das gerações. O de Alvino Alves, mais específico, é muito oportuno ao caracterizar a ortodoxia conservadora. “O Pequeno Inquisidor”, colaboração anônima, recebida pelo Correio, ataca o problema ainda mais específico da “inquisição” que nos visitou aqui.

O Redator aproveita para comunicar que deixará o cargo, a partir do próximo número, em virtude de seu desligamento do Seminário, a partir de 5 de Setembro até o final do ano. Agradece a colaboração, o estímulo, e o incentivo que recebeu durante o tempo que dirigiu o jornal, e coloca-se, mais do que nunca, ao lado daqueles que, cientes de sua responsabilidade para com Deus e os homens, para com o homem do século vinte, procuram evitar que a Igreja se torne mais uma relíquia, entre outras, dentro de nossa história. Agradece ainda àqueles que programaram este número, e o realizaram, sem os quais ele não sairia.

E até breve. “

O até breve foi um até nunca mais.

Com exceção dos signatários do Manifesto dos 15, nenhum dos demais alunos do Seminário pode se matricular normalmente no segundo semestre de 1966. Para ter direito à matrícula, teriam de assinar um documento em que se comprometiam a se comportar, em doutrina e comportamento, como o Seminário exigiu. Para sua honra, nenhum o fez. Assim, fomos todos literalmente expulsos do Seminário Presbiteriano de Campinas em Agosto de 1966.

Em 8 de Setembro daquele ano, o funesto ano de 1966, não houve celebração no Seminário. E o CAOS não jogou futebol contra ninguém: o CAOS havia sido fechado. Pensaram que com isso acabaria o caos. Não acabou. 

Transcrito em “Liberal Space” em Campinas (ainda!), 8 de Setembro de 2006 

Transcrito aqui em São Paulo, 7 de Novembro de 2015.

o O o

SEGUNDA PARTE

Apresentação [escrita em 2015 e revista e ampliada nesta data de 24.10.2021]

Esta é uma contribuição para a História da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) que suas publicações oficiais, e mesmo os artigos e livros de seu historiador oficial, escondem ou camuflam. 

O material desta Segunda Parte consiste, como afirmado atrás, de Editoriais e Artigos meus escritos para o jornal O CAOS em Revista, no ano de 1966. Os interessados na História da Igreja Presbiteriana do Brasil, que assim o desejem, podem consultá-los aqui, sem os meus comentários contextualizadores que aparecem na Primeira Parte — exceção feita a esta Apresentação.

[O material aqui contido está contextualizado no meu outro artigo “Quarenta Anos Depois do CAOS (1966-2006), que constitui a Primeira Parte do atual artigo, publicado em 2006 (quarenta anos depois do material contido nesta Segunda Parte) e que constitui a Primeira Parte deste artigo.]

Em 2016, cinco anos atrás, completou-se o Jubileu de Ouro da Crise de 1966 no Seminário Presbiteriano de Campinas e da grotesca intervenção autoritária de Boanerges Ribeiro no Seminário e na IPB, intervenção cujos efeitos nefastos se manifestam até hoje no caráter fundamentalista daquela denominação. Passou em brancas nuvens o dito Jubileu. As pessoas que foram vítimas dessa intervenção, e que ainda estão vivas, deveriam ter feito um Desagravo Contra a IPB. Não fizeram. Incluo-me entre os culpados, embora escreva o tempo todo sobre a referida crise. Esta segunda edição, agora em 2021, de material publicado em em 2017, serve de lembrança dos 55 anos da Crise de 1966 que se deplora neste ano.

É bom que se diga que a IPB sempre foi conservadora (sendo herdeira da “Old School” da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos da América, a chamada “Igreja do Norte”, cujo principal teólogo era o princetoniano Charles Hodge), mas a partir de 1966 tornou-se, na minha forma de ver e entender, fundamentalista, mais para Carl McIntire do que para Charles Hodge.

Eis aqui os meus Editoriais e os meus artigos em “O CAOS em Revista”, órgão oficial do Centro Acadêmico Oito de Setembro (CAOS) do Seminário Presbiteriano do Sul, em Campinas. Eu era o redator-chefe do jornal, que teve vida curta. Eu escrevi cinco Editoriais. Os jornais em que apareceram os três primeiros foram confiscados. Os dois últimos não chegaram a ser publicados, sendo vítimas da “Censura Prévia” instaurada no Seminário.

Para os que possam se assustar com a linguagem meio agressiva, registro que eu tinha apenas 22 anos quando vivi essa experiência, que me marcou, na época, e que continua de certo modo a me marcar até hoje.

1. Editorial de 18/3/1966 [Publicado e censurado nos dias seguintes, sendo o jornal confiscado]

Em sua reunião de 18 de fevereiro do corrente a Diretoria do CAOS decidiu que se publicasse, periodicamente, um jornal informativo da Diretoria, designando-nos, naquela mesma ocasião, responsáveis pela sua edição. Exatamente um mês após sai o primeiro número. Como primeiro é este um número experimental, para o qual pedimos a opinião dos colegas, para que ele venha a ser a expressão do corpo discente de nossa casa. Não é, porém, apenas a opinião dos colegas que solicitamos. Pedimos também a colaboração de cada um através de artiguetes escritos, através de trechos ou excertos traduzidos de livros ou revistas, através da indicação de livros e artigos recomendáveis. Esperamos que os colegas nos tragam suas colaborações. Será distribuído, gratuitamente, apenas um exemplar para cada colega. A pessoa que desejar mais números terá que pagá-los a razão de Cr$ 200 cada. Será esta uma maneira de arranjarmos um pouco de fundos para a contínua publicação do jornal. Cada vez que houver material suficiente, nas mãos do redator, para a tiragem de um número, este sairá. Contamos, pois, com a colaboração de todos.

2. Artigo de 18/3/1966: “Instituto Bíblico em Campinas” [Publicado e censurado nos dias seguintes, sendo o jornal confiscado]

Estamos ainda debaixo do revoltante impacto que nos causou a crítica ao sermão pregado hoje por um de nossos colegas. Queremos, de início, esclarecer que tudo o que aqui vamos dizer não visa à pessoa e às idéias do pregador, mas sim à posição e às idéias dos “críticos”, membros do corpo docente desta “Faculdade”. Colocamos estas duas palavras entre aspas porque não reputamos críticos os que não levam em conta a obra e os resultados da Crítica, fazendo de sua “crítica” tão simplesmente uma avaliação da simpatia do pregador, de sua vestimenta, de sua linguagem, de sua elocução, da estrutura homilética de seu sermão, de sua liturgia, negligenciando o cerne do sermão que é a interpretação dada ao teto. Para se fazer esta interpretação a Crítica Histórico-Literária e Textual é simplesmente considerada “farrapos”. Além do mais não consideramos Faculdade uma instituição de ensino que se aliena, através de seus professores (mas graças a Deus não através de todos os seus alunos) do movimento intelectual teológico contemporâneo. O que está se dando aqui é que nosso Seminário, tido aí por fora como “Faculdade de Teologia”, não passa, atualmente, de um Instituto Bíblico, que acha virtude, através de alguns de seus professores, em nem se aproximar dos problemas levantados pela Crítica Bíblica, e que acha que os alunos não precisam conhecê-los, pois são irrelevantes.

Vejamos, porém, o caso concreto. Pregou-se, hoje, uma sermão de prova biográfico sobre JONAS. Como base da mensagem do pregador estava a pressuposição de que o livro de Jonas é um livro histórico no sentido de que as informações nele contidas são historicamente fidedignas, e que o que nele é registrado se deu literalmente como o descreve o livro. O Jonas de que o livro fala foi tido como o profeta Jonas, filho de Amitai, que profetizou em Israel, no século VIII, no reinado de Jeroboão II (Cf. II Reis 14:25). Reafirmamos que o pregador tinha pleno direito de fazer o que fez, ou seja, de dar esta interpretação conservadora ao livro. Não o criticamos por isso. Afirmamos também que os mestres tinham pleno direito de concordar com o pregador a respeito de sua interpretação e da linha de sua mensagem, o que de fato fizeram. Com o que não concordamos, porém, é que o outro lado da questão não tivesse sido sequer mencionado! Um dos professores mencionou de passagem que o livro apresentava problemas críticos, mas nem sequer esboçou quais e que tipos de problemas seriam estes. Apenas afirmou (certamente opinião pessoal sua) que a Crítica havia tornado o livro em “farrapos”, subentendendo-se daí que se é impossível pregar sobre o livro de Jonas com uma interpretação outra que não a sua pessoal, naquele contexto representada também pelo pregador e pelos outros críticos. Um outro crítico mencionou que sua opinião era diferente, mas não julgou conveniente apresentá-la. De qualquer forma o sermão foi tido como muito feliz, pela interpretação sadia, pela riqueza de material, etc., pois fugiu dos problemas críticos, “não procurando chifres na cabeça de cavalo”. Embora um crítico houvesse achado que o sermão carecia de melhoras, a impressão tida após a crítica é que o sermão do colega foi o tipo de sermão ideal, “ungido” (o termo foi usado).

Nossa intenção, aqui neste artiguete, pelo qual somos pessoalmente responsáveis, é apresentar o outro lado da questão, como um dever de consciência, pois o outro lado foi redondamente ignorado pelos “críticos” do referido sermão. Se o fazemos é no interesse de esclarecer os colegas, mostrando que o livro de Jonas é “pregável” mesmo depois de a ele ser aplicada uma crítica bastante radical.

Vamos à questão.

O livro de Jonas é diferente de todos os outros escritos proféticos do Velho Testamento no sentido de que não contém uma coleção de oráculos de um profeta, mas é simplesmente uma história a respeito de um profeta. Pode ser esta a razão pela qual um livro que não reivindica de modo algum ter sido escrito por um profeta (o v.1 diz: “Veio a palavra do Senhor Jonas, filho de Amitai, dizendo:…” – Notar que o livro é escrito na terceira e não na primeira pessoa: “Jonas se dispôs”, “Jonas orou”, etc.), e que no aspecto literário pertence a um tipo bastante diferente, foi incluído entre os Livros dos Doze Profetas. Nem podemos dizer que o livro de Jonas seja um conto profético de natureza histórica e biográfica, porque a base requerida para tal não está presente no livro. O livro de Jonas é um poema didático, podemos mesmo dizer que um poema parabólico, escrito para mostrar que Deus se compadece mesmo dos ímpios quando eles se arrependem (3:10; 4:10). Este poema foi escrito com uma moral dirigida contra a intolerância dos Judeus e sua arrogância para com as nações pagãs, resultantes da doutrina da eleição mal interpretada em um sentido particularista. Bastava somente esta moral para que concluíssemos que o livro é pós-exílico, pois sua atitude básica toma por pressuposta a influência de Deutero-Isaías com sua idéia de salvação universal. O capítulo 3, versículo 3, dá a entender que Nínive era considerada uma cidade legendária, dos tempos antigos. Além do mais, a linguagem do livro, com seus aramaísmos, e com formas hebraicas bem posteriores em seu vocabulário e estilo (1:6, 7; 2:1; 3:2, 7; 4:6, 8) não permite que se date o livro anteriormente ao século V. Como terminus ad quem há o fato de o livro ser pressuposto no século II (Cf. Eclesiástico 49:12; Tobias 14:4,8).

Não há dúvida, entretanto, de que o autor do livro de Jonas tivesse tido a intenção de fazer com que o Jonas por ele descrito fosse entendido como o Jonas do século VIII. Isto era comum na antigüidade, quando a questão de direitos autorais e de direitos de nome não era problema jurídico. Qualquer pessoa podia escrever um livro em nome de outrem, ou poderia por seu nome em obra de outrem, ou poderia ainda, como no caso, usar a pessoa de outrem como personagem de seus escritos. O autor, contudo, não pretendeu estar escrevendo naquela época. Além do mais há muito no livro que indica que ele vem de um período bem posterior ao século VIII, além de que apresentamos acima. A cidade de Nínive não era tão grande no século VIII. Além do mais é difícil de se crer que uma cidade tão grande quanto descrita tenha se convertido “desde o menor até o maior” (3:5), o rei inclusive 3:6 sqq. Note-se que em nenhum lugar mais nem na Bíblia, nem fora dela, se menciona “Rei de Nínive”, pois o rei não era de Nínive, e sim da Assíria, país cuja a capital era Nínive, e que isto não tenha sido registrado em nenhum lugar, nem nas crônicas assírias nem nas israelitas. Por cima é difícil de harmonizar como a Nínive convertida a YHWH, inclusive com o seu rei, no século VIII, tivesse, com o restante da Assíria, ainda naquele mesmo século (721), conquistado Israel e destruído Samaria, levando cativos os líderes.

Por todos estes motivos é difícil crer na historicidade do livro como tal. Não negamos que tenha existido um Jonas, filho de Amitai, profeta. O que afirmamos é que ele não é o protagonista deste episódio, e que o que é narrado no livro de Jonas é uma parábola escrita com a finalidade acima apresentada, a saber, de mostrar aos Judeus que Deus se compadece e quer a redenção mesmo dos ímpios e gentios. Porque esta mensagem é apresentada com igual clareza por Deutero-Isaías é que se coloca o livro de Jonas mais ou menos na mesma época.

Agora perguntamos: Reconhecer isto é “procurar chifres na cabeça de cavalos”? Cremos que não reconhecê-lo é ignorar chifres na cabeça de um boi! Continuamos: reduz isto o livro de Jonas a “farrapos”? Absolutamente! Devemos deixar de pregar sobre o Bom Samaritano somente porque ele não é histórico? Evidentemente não! Se isto é verdade podemos pregar sobre o livro de Jonas mesmo que o episódio e o personagem ali descritos não sejam históricos. O que importa é a mensagem que o autor quis transmitir, ao criar esta parábola: quebrar as tradições nacionalistas dos Judeus, mostrando que Deus ama até os inimigos de Israel!

Embora o livro por seu tipo literário não seja profético, seu espírito o é, particularmente na tendência geral de pensamento a ele imprimida, quando foi escrito, em tempos pós-exílicos. Para por em cheque o particularismo exclusivista do Judaísmo pós-exílico, e a distorção da doutrina da eleição imposta pelo egoísmo religioso, este livro testifica a grandeza da profética concepção de Deus, e a ampla tolerância que esta concepção implica! O livro ainda hoje é uma voz profética e uma permanente advertência contra tudo o que estreita e particulariza a religião, e contra todo exclusivismo religioso. Porque pretendeu mostrar que a compaixão de Deus é maior que o coração humano, que sua vontade de salvar alcança mesmo além dos limites de seu próprio povo, e portanto o leva à tarefa missionária, este livro pertence aqueles no Velho Testamento que prepararam o caminho para o Evangelho.

Os colegas julguem se a crítica que aplicamos ao livro, privando-o de sua historicidade, tornou-o “impregável”, esfarrapou-o. Julguem se, em uma Faculdade de Teologia do gabarito que a nossa pretende ter, pode alguém pregar sobre Jonas nos termos em que se pregou, sem que qualquer dos professores presentes à crítica tivesse sequer levantado o problema da historicidade do livro.

Aos Colegas a palavra!

3. Editorial de 18/4/1966: Ainda Jonas [Publicado e censurado nos dias seguintes, sendo o jornal confiscado]

No número anterior, primeiro de nosso jornal, procuramos, em um artigo que teve um Sitz im Leben de todos conhecido, dizer algumas palavras sobre o livro de Jonas. Naquele ocasião dissemos que o livro tinha uma mensagem ainda hoje relevante, pois era “uma voz profética e uma permanente advertência contra tudo o que estreita e particulariza a religião, e contra todo exclusivismo religioso”. Nosso interesse hoje é assinalar a relevância e o oportunismo desta mensagem no contexto imediato em que nos encontramos, a saber, na vida da IPB.

Vimos, no artiguete passado, que a mensagem de Jonas foi um brado de protesto contra o nacionalismo particularista dos judeus que se consideravam detentores únicos e exclusivos da divina graça, e que, assim fazendo, limitavam à ação de Deus à nação política Israel. Deus estava cercado dentro dos limites políticos da nação. Qual a relação que isto pode ter com a IPB? A relação é que, ainda hoje há o grupo que se considera detentor exclusivo e único da graça divina, grupo este que, assim fazendo, procura limitar a ação de Deus, não a uma nação política, mas a um círculo ideológico, que procura cercar Deus, não dentro de limites políticos, mas de limites ideológicos.

Concretizamos: aqueles que, no seio da IPB, estão preocupados em tirar do seu caminho todos os que não concordarem em gênero, número e caso com os padrões rígidos de sua “ortodoxia” superada estão praticando o mesmo tipo de exclusivismo religioso (senão pior) praticado pelos judeus aos quais foi dirigida a mensagem do livro de Jonas. Estas normas “ortodoxas” têm se tornado os limites cerceadores da ação de Deus. Quem delas se afastar — dizem, ou se não dizem assim o entendem, pois suas atitudes o comprovam — afasta-se do próprio Deus, e então não é digno de permanecer na IPB. Precisa ser expurgado (palavra, por eles, estimadíssima!).

Vimos, contudo, no artigo passado, que quando o homem estabelece limites que particularizam e estreitam a órbita da ação de Deus o próprio Deus encontra um meio de arrasar com essas pretensões do coração humano. As obras do autor de Jonas e de Deutero-Isaías são em Israel  evidências típicas disto. Foi porque os israelitas não atentaram ao fato de que Deus queria quebrar (como de fato quebrou) estas barreiras particularizantes que foram por Ele rejeitados.

É conscientes desta verdade que levantamos a nossa voz em protesto contra a estreiteza de mente de alguns dentro da IPB para os quais até opinião é delito, para os quais a livre expressão do pensamento é causa suficiente para expurgo! Como é mais fácil lutar para manter as liberdades que já temos do que lutar para reconquistar as liberdades perdidas, “O CAOS em Revista” se dispõe, em suas páginas, a dar livre expressão ao pensamento dos alunos. O número presente é exemplo disto. Não podemos permitir que nos tolham a liberdade de termos os nossos próprios pensamentos e o livre direito de expressá-los. É esta a base da democracia. É esta a base do regime presbiteriano. Em sua obra Utilitarianism, Liberty and Representative Government (New York: Dutton, 1910, p.79) John Stuart Mill faz notar, com toda razão, que silenciar a expressão de uma opinião é roubar a raça humana, tanto a geração presente como a posterior, sendo ainda mais prejudicados os que discordam do que os que mantêm a opinião, pois, se a opinião é correta, aqueles que dela discordam estão perdendo a oportunidade de trocar o erro pela verdade, e, se é errada, os dela discordantes perdem o grande benefício de adquirir uma percepção mais clara e mais viva da verdade, proveniente de sua colisão com o erro. Se as idéias que temos expresso e, esperarmos, continuaremos a expressar através deste jornal não são verdadeiras e são perniciosas, não vingarão, pois a melhor maneira de destruir uma idéia falsa é expô-la! Quem estiver com a verdade não precisa temer idéias, por mais estapafúrdias que sejam, pois terão com que refutá-las, através de um franco diálogo. Aqueles que se crêem portadores de idéias verdadeiras, se querem mantê-las, devem torná-las continuamente relevantes, e não impedir que novas idéias apareçam e sejam disseminadas.

Aquilo que tem sido considerado como delito, isto é, a apresentação de idéias que não se harmonizam inteiramente com os padrões oficiais, o delito de opinião, é um crime que devemos praticar diariamente, sob quaisquer riscos. Se deixarmos de ser “criminosos” neste campo, estaremos roubando as gerações passadas que lutaram, até o sangue, para obter as liberdades de que somos herdeiros, a geração presente que estará tendo sua voz sufocada e reprimida, e a geração futura que sentirá que uma geração deixou de realizar o seu papel na história!

Neste espírito e com este alvo é que “O CAOS em Revista” sai, exatamente um mês depois do primeiro, em seu segundo número.

X. “O Manifesto dos Quinze” [Única matéria NÃO escrita por Eduardo Chaves]

[NOTA: Entre o segundo e o terceiro número do jornal, houve a publicação, fora do jornal, do nefasto Manifesto dos Quinze. Para fazer sentido dos Editoriais e do artigo que segue, publico-o aqui, inclusive com o nome de seus indignos signatários.]

Aos Membros, Oficiais e Ministros da Igreja Presbiteriana do Brasil

Saudações no Senhor,

Sentimos um dia que Deus nos chamava para o sagrado ministério da Palavra. Obedecendo a esse chamamento, decidimos entregar a vida ao serviço do Senhor, não medindo as dificuldades, os problemas, os sacrifícios que teríamos de enfrentar. Foi nesse propósito que viemos para o Seminário. Não tínhamos ilusões de que não iríamos encontrar um céu aberto. Esperávamos, entretanto, encontrar um ambiente favorável para os estudos, um meio apropriado para cultivar espiritualidade, uma atmosfera de seriedade moral e de respeito, particularmente para com as pessoas e as instituições da Igreja. Preferiríamos não dizer da desilusão que tivemos.

Não queremos prejudicar o Seminário ou a Igreja. Nem desejamos atingir pessoas. Somos os primeiros a reconhecer nossa imperfeição, nosso pecado, nossas falhas, nossa pobreza espiritual, nossas deficiências em todo sentido, contudo, aspiramos um Seminário melhor, mais vida espiritual, mais firmeza de caráter, mais consagração, fé mais vigorosa, convicção mais sólida, testemunho mais cristão e espírito mais dedicado na evangelização e na obra da Igreja. Temos silenciado até agora por que não queríamos nem de longe concorrer para o agravamento da situação. Só Deus sabe das angústias de nossa alma e das preocupações de nosso espírito, das lágrimas que temos vertido, das noites mal dormidas, das lutas em oração que temos sustentado. Chegamos, porém, a um ponto em que não mais podemos manter-nos calados. Por amor ao Seminário e à Igreja temos de sair a público para clamar contra os abusos que presenciamos e a situação em que vivemos. Com tristeza infinita, temos de apelar a todos os corações crentes a que se levantem para defender esta Casa, que tanto amamos, e a IPB nesta hora crítica.

Com o maior dos pesares temos de dizer que o Seminário não é hoje a Casa de Profetas, de onde saíam homens de Deus, fiéis à Bíblia e ardendo de entusiasmo pela salvação dos pecadores, ministros piedosos que continuem a obra dos grandes homens do passado, grandes na fé, grandes na consagração, grandes no fervor, grandes na piedade, prontos a todo sacrifício, varões de Cristo sem reservas.

O Seminário é hoje um lugar onde se zomba dos que levam a sério a Bíblia, a oração, a vida espiritual; onde se desmoraliza de todas as formas a liderança da Igreja, suas instituições e seus homens de confiança; onde se hostilizam professores que não se dobram aos interesses do grupo dominante; onde se defende a libertinagem e a imoralidade; onde existem clubes dos que se reúnem para fumar e beber; em cujo refeitório se praticam atos que ferem a mais elementar educação e onde a própria oração é motivo de ridículo e zombaria; onde se defende o amor livre e se condena como pietismo e moralismo todo esforço de viver cristãmente, segundo os padrões do Evangelho; onde se tacham de estreitos todos quantos mantêm firmes as doutrinas do Calvinismo clássico e aceitam a Bíblia como inspirada Palavra de Deus; onde se veiculam idéias modernistas como se fossem a verdade de Deus, somente porque os teólogos do dia e os estafetas dos evoluídos desta e de outras terras o proclamam; onde não existe interesse geral pela evangelização e pela conversão dos pecadores; onde uma cúpula ativista, politiqueira, de simpatias pronunciadamente esquerdista, exerce inexorável pressão sobre os colegas que não rezam pela sua cartilha e trama de maneira traiçoeira contra os líderes da Igreja que não obedecem à sua linha de pensamento; onde figuras estranhas ao Seminário e até à IPB, muitos até ministros, não sentem escrúpulos em manter encontros para desmoralizar a Igreja, autoridades eclesiásticas e professores da instituição de maneira desleal e revoltante; onde impera a irreverência e o cinismo; onde palavrões e piadas picantes são a norma de não poucos; onde a dignidade feminina e a pureza pessoal são objeto de alusões que não podemos aqui referir. Onde colegas são humilhados e tratados de maneira contrária ao amor de que tanto falam, especialmente aqueles que são novatos, vítima de trotes que refletem bem o espírito evoluído dos seus promotores; onde a vida espiritual e devocional é baixa, tanto quanto o pode ser; onde os cultos são mal assistidos e por alguns inteiramente desprezados; onde um círculo de oração iniciado por um grupo desejoso de mais vida devocional é hostilizado e combatido; onde a maioria indiferente e acomodada, querendo manter uma neutralidade impossível, acaba sempre fazendo a jogada da liderança negativista; onde as próprias autoridades não parecem em condições de agir com firmeza.

Irmãos no Senhor, não dissemos tudo que poderíamos dizer. O próprio deão do ano passado, Rev. Dr. Osmundo Afonso Miranda, traçou um retrato bem realista da situação em seu relatório à Diretoria do Seminário, que é um brado de alerta contra a referida situação. A situação é séria, o sentimos. Por amor a Cristo e Sua Palavra, por amor à IPB e seu ministério autêntico, por amor aos crentes sinceros de hoje e às gerações do futuro, é preciso por paradeiro a esses desmandos. Aqui, diante de nosso Deus, obedecendo à voz de nossa consciência, com o coração sangrando de tristeza, bradamos pedindo que alguma coisa seja feita. Não podemos ficar indiferentes nem calar-nos; seríamos cúmplices desse processo de desmoralização da Causa. Pensai no que estamos relatando, informai-vos de tudo, orai muito e agi com firmeza. E que Deus, o nosso Deus, nos dê forças para não fugirmos ao dever, para sermos fiéis à Sua vontade. Amém.

Hermes Mariano, Presbitério de São Paulo
Ariovaldo C. Bomfim, Presbitério de São Paulo
Elpídio Gonçalves. Presbitério do Rio Doce
Evandro Luiz da Silva, Presbitério de Cuiabá
Floramonte Dias Gonçalves, Presbitério Oeste de Goiás
Célio J. Duarte, Presbitério Florianópolis
Francisco Antônio Maia, Presbitério de Brasília
Silas Augusto Tscherne, Presbitério de Rio Claro
Dirceu Xavier de Mendonça, Presbitério de Rio Claro
Gilson Barbosa Gomes, Presbitério do Rio de Janeiro
Eldman Francklin Eler, Presbitério de Governador Valadares
Adolfo Potenciano, Presbitério de Goiânia
José Silvério Júnior, Presbitério de Brasília
José dos Anjos, Presbitério Norte de Minas
Jarbas Dantas, Presbitério de Campinas

4. Editorial de 18/5/1966 [Publicado e censurado nos dias seguintes, sendo o jornal confiscado]

Novo dia 18. Novo “O CAOS em Revista”. Até aqui temos podido ser pontuais. Esperamos poder continuar a sê-lo.

Muitas coisas aconteceram em nossa casa desde que o segundo número saiu. Dentre elas merece destaque, não pelo conteúdo, mas pela repercussão, o Manifesto (na falta de melhor palavra) que um grupo de quinze alunos endereçou aos membros da Igreja Presbiteriana do Brasil, delatando coisas que se passam aqui dentro (e até as que não se passam), separando estas coisas de seu contexto, julgando-as erradas e pedindo punição para quem as comete. Deve ser dito ainda que o referido manifesto está sendo espalhado ilegalmente, pois não passou pela Congregação, canal competente para o envio de qualquer documento dos alunos para fora dos limites do Seminário.

“O CAOS em Revista” lamenta o sucedido. Lamenta por várias razões.

Em primeiro lugar, o referido manifesto veio dividir definitivamente nossa comunidade. Antes dele havia correntes, tendências divergentes, que não chegavam, contudo, a ser grupos. Havia mesmo aqueles que eram neutros a qualquer corrente: os que se chamavam de “a terceira força”. O manifesto, no entanto, acabou com tudo isto, criando dois grupos apenas: o dos que assinaram o manifesto (quinze) e o grupo dos restantes. Este fato decepou qualquer esperança de se poder viver em real comunidade aqui.

Em segundo lugar, lamenta pelo simples fato de que “roupa suja se lava em casa”.

Lamenta, ainda, pelo mal que os colegas signatários do referido manifesto vão causar ao membros da IPB, escandalizando-os desnecessariamente. Porque o instrumento de escândalo não são tanto os que cometeram determinadas coisas tidas por erradas quanto os que as espalharam a um contexto inteiramente diferente e não preparado para ouvi-las. Se observarmos o que Paulo tem a dizer a respeito do comer carne de porco, vamos notar que o erro não estava no comer em si, mas no escândalo que isto podia causar. Correto. São feitas e ditas coisas aqui dentro de nosso dormitório e de nossos quartos (não tantas e tão terríveis quanto o referido manifesto pretende que sejam) que não escandalizam ninguém no ambiente em que estão sendo feitas e ditas. Levadas, contudo, para um ambiente não preparado para ouvi-las, estas coisas servem de escândalo. O culpado deste escândalo, contudo, não é quem faz o ato, mas quem o espalha para um ambiente não preparado para ouvi-lo.

Isto é o que mais lamentamos no manifesto. Não lamentamos o mal que seus signatários pretenderam causar aos outros, “neutros e liberais”. Lamentamos, sim, pelo mal que causarão e já estão causando, inconscientemente, a uma enormidade de crentes inocentes, que não precisavam saber das dificuldades internas de nossa casa, que, porque internas, deveriam ser resolvidas aqui dentro. A atitude dos que assinaram o manifesto, dos que orientaram ou estimularam a sua confecção, dos que o estão enviando e distribuindo não é nada pastoral em relação aos membros da Igreja que eles querem salvar! Eles, os responsáveis pelo manifesto, não tinham o direito de escandalizar os membros humildes e inocentes das nossas Igrejas. Por isso é que reputo correta a opinião de um pastor que ao receber o manifesto disse: “Isto é antes de um ato de covardia para com os membros da Igreja!” É construindo e não destruindo que se deve alcançar um objetivo.

“O CAOS em Revista” registra, pois, com pesar, esta mancha negra nos anais do corpo discente desta casa. Continuaremos, porém, a lutar, de modo franco e legal, à luz do dia, através do diálogo leal, para que cada um tenha a liberdade de pensamento e ação indispensáveis à vida de cada verdadeiro homem, de cada verdadeiro cristão. É com o intuito de restabelecer diálogo que o redator escreveu o artigo “Parafraseando”. Ele tem esperado em vão a contribuição dos colegas. E ainda espera. Por que algum dos colegas signatários  do manifesto não se decide a um diálogo franco em lugar de fazer ataques subversivos e inesperados? É uma tática mais madura e mais máscula. As páginas de “O CAOS em Revista” estão à espera.

Enquanto isto, colegas, lutemos para que, em nosso meio, cada um possa ter a autonomia de pensamento que o cristão precisa ter. “Lembrai-vos sempre de que não existe felicidade sem liberdade, e de que o fundamento da liberdade é a coragem” (Péricles, Discurso aos Atenienses, citado por Tucídides, em A Guerra do Peloponeso, Livro 2, citado por Celso Furtado, Dialética do Desenvolvimento, p. 7).

5. Artigo de 18/5/2015: “Parafraseando” [Publicado e censurado nos dias seguintes, sendo o jornal confiscado]

“Propôs Jesus também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos por se considerarem justos, e desprezavam os outros” (Lucas 18:9).

Certa vez, em uma Faculdade Teológica, passaram a existir dois grupos: um que se dizia “conservador” e outro que era taxado de “modernista”. Certo dia os conservadores oraram assim: “Ó Deus, graças te damos porque não somos como os demais colegas: defensores da libertinagem e da imoralidade, fumantes e beberrões, defensores do amor livre, mantenedores de simpatias pronunciadamente esquerdistas, irreverentes, cínicos, contadores de piadas e desrespeitadores da dignidade feminina. Louvamos-te, ó Deus, porque assim não o somos. Nós fazemos reunião de oração diariamente, ocasião em que um rabino nos instrui a respeito das idéias ortodoxas da tua palavra e a respeito do calvinismo clássico que tu nos legaste; nós, por ocasião das refeições, ficamos quietos: chegamos a bater palmas e a sorrir para mostrar nosso amor cristão, mesmo quando são proferidos discursos que nos criticam; aceitamos a Bíblia toda como palavra inspirada de Deus; estamos sempre aos pés dos líderes da Igreja para aprender deles como agir honesta, franca e desinteressadamente; saímos três ou mais vezes por semana para pregar a tua palavra, embora nosso estudo seja com isso prejudicado: contudo, teu sábio servo do passado já dizia que “o muito estudar é enfado da carne” — aliás o teu Espírito colocará nos nossos lábios a mensagem, mesmo que nada tenhamos estudado! Ó Deus, atenta para isto: somos fiéis servos e testemunhas da tua palavra aqui neste Seminário; para conseguirmos sê-lo chegamos até a desrespeitar as leis da Congregação, ó Deus, pois mandamos, por trâmites ilegais, um formidável manifesto aos crentes da tua igreja, condenando tudo o que de errado se passa aqui dentro, fora do nosso grupo, evidentemente; por amor à tua causa, ó Deus, chegamos ao ápice da ousadia e da coragem ao afirmar que as próprias autoridades que dirigem este Seminário não parecem estar em condições de agir com firmeza. Mas nós o estamos, ó Deus, e te agradecemos por isto.”

O resto todo o mundo sabe. Aquela criatura de tão excelentes qualidades, o fariseu da parábola de Jesus, não foi o que desceu para casa justificado, mas sim aqueles que era roubador, injusto e adúltero, aquele que era um pária moral na sociedade de sua época. Estranho, não? Mas real. No entanto seria bom perguntar por que o fariseu, que era o pietista, o legalista, o moralista, o ortodoxo da época de Jesus, não foi justificado. A razão parece óbvia, embora muitos não a queiram ver: o fariseu não foi justificado porque colocou como critério de sua auto-avaliação diante de Deus o seu próximo, o publicano. E, nestas circunstâncias, aferindo-se por um critério imperfeito, o fariseu jactou-se diante de Deus, orgulhou-se, e creu que poderia trazer nas mãos e apresentar diante de Deus algo de bom: o seu comportamento, o seu modo de agir, o seu zelo pelo cumprimento da lei divina. E não foi justificado embora praticasse atos muito bons em sua vida, se os considerarmos isolados de sua motivação e de seu contexto. Porque todas as vezes que nos avaliamos por critérios e padrões imperfeitos nos tornamos orgulhosos.

Às vezes este orgulho é disfarçado sob a capa de uma pseudo-humildade, sob palavras tais como estas: “Somos os primeiros a reconhecer nossa imperfeição, nosso pecado, nossas falhas, nossa pobreza espiritual, nossas deficiências em todos os sentidos, contudo…” (negrito meu). Não são, no entanto, nossas palavras a coisa que tem importância primária. É nossa atitude que, lhes subjaz, que é o primariamente importante. Mesmo que pronunciemos, em lágrimas e com o coração sangrando, palavras que falem a respeito de nossa humildade, se nossa atitude for a de um juiz apontando erros nos outros, não estaremos sendo humildes, mas orgulhosos.

Será bom perguntar porque sentimos um prazer imenso em apontar as falhas, erros e os defeitos dos outros, principalmente quando estes são pessoas mais preeminentes que nós, em outros setores, ou talvez no mesmo a que nos dedicamos. Porque no instante que fazemos isto podemos nos jactar e nos consolar intimamente, dizendo: “embora fulano seja melhor estudante que eu, embora se destaque mais em certos círculos, na hora em que souberam que ele faz isto e aquilo eu subirei na cotação do povo, mediante o rebaixamento do outro!” A raiz de todo mexerico, fuxico e de toda delação está nesse nosso desejo de nos compararmos com os outros e de ver neles falhas, e de torná-las ainda mais negras, através de generalizações precipitadas e de mentiras mesmo, porque assim teremos maior realce. Isto até me faz lembrar da história daquela ordem de monges, que nada mais tendo de que se orgulhar orgulhavam-se de sua humildade!

O erro do fariseu não foi fazer todas aquelas coisas. Foi comparar-se com o que não fazia, e julgar-se superior, julgar-se na condição de juiz do seu próximo. Todas as vezes que nos aproximamos de Deus auto-avaliando-nos por critérios imperfeitos nos tornamos orgulhosos, e nos sentimos no direito e em condições de apresentar a Deus alguma realização nossa, algo que nos conceda mérito diante dele. E todas as vezes que assim fazemos estamos sendo fariseus: mesmo que aquilo que estejamos apresentando a Deus seja a nossa fé, seja a nossa “ortodoxia”, seja a nossa conduta impecável!

O mérito do publicano estava em que, quando quis avaliar-se, não tomou para si critérios humanos, e, portanto, imperfeitos, mas colocou o próprio Deus como padrão de sua auto-avaliação. E porque assim agiu sentiu-se imediatamente arrasado. Não viu mérito algum em sua pessoa. Diante de Deus ele não era nada. Então, não podia orgulhar-se. Simplesmente não tinha de quê. Só pode dizer: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador”. E foi justificado.

Como esta parábola deve ter chocado os ouvintes de Jesus! Como aquela crítica tremenda aos “santos” e “justos” fariseus, aos “ortodoxos”, e a sentença de que o publicano havia sido justificado deve ter arrasado os ouvintes de Jesus! Justamente o publicano, que não era apenas “modernista e liberal”, mas HEREGE! No entanto, o impacto que a parábola causou nos ouvintes de Jesus foi esquecido e hoje a parábola não faz parte da Bíblia de muita gente tida por aí como exemplo de santidade.

Finalmente uma palavra aos “quinze”: o que fazeis, vós os que assinastes o manifesto, com textos tais como este (Lucas 18:9:14)? Simplesmente o ignorais? Por diversas vezes já tenho ouvido a acusação de que nós, os “modernistas”, recortamos a Bíblia, para fazer nossa exegese ou formular nossas doutrinas. Será que é verdade? Ou, em última instância, será que é toda a verdade? Porque o que posso perceber é que vós, os conservadores e “ortodoxos”, também a recortais, não através da exegese, mas através do vosso comportamento, através de vossas vidas! E, em assim fazendo, vos tornais mais liberais do que os próprios. Quero crer, no entanto, que assim o fazeis ignorantemente e não de espírito premeditado. Quero, com sinceridade, crer que é inconscientemente que extraís de vossas Bíblias, em vossa vida e através de vossa conduta, textos tais como o acima mencionado, que não é o único. Ou será que não percebestes que a vossa atitude em fazendo o manifesto que fizestes, não permite que a Parábola do Fariseu e do Publicano continue mais em vossas Bíblias? O mesmo se dá com textos tais como Mat. 7:1 sqq; Tiago 4:11-12 e outros.

Minha opinião particular é que fostes, a maioria de vós os “quinze”, ingênuos simplesmente. Não pudestes perceber as dimensões do que fizestes. Os outros, os  “não-ingênuos” que vos manipularam, não passam também de ingênuos nas mãos de outros menos ingênuos do que eles. Quando tiverdes adquirido um pensamento crítico e uma capacidade independente de avaliar as coisas, o que se dará do segundo ano em diante, embora haja alunos que já cheguem aqui com estas qualidades, então podereis observar o quanto fostes insensatos. E vos arrependereis muitíssimo. Pois então vereis porque as vossas expectativas de ter 2/3 dos alunos ao vosso lado (correspondentes ao I e II ano somados), expectativas estas bastante vivas no início deste ano, vieram a falhar, e sois apenas quinze em uma comunidade de quase oitenta. Tendes apenas dois do segundo ano em vosso meio. Os outros “abriram os olhos” (o que não significa que tenham se tornado “modernistas” – apenas perceberam quão estreitos sois). Então (quando adquirirdes um espírito crítico mais aguçado, na pressuposição de que este Seminário vai ajudar-vos a aguçá-lo), vereis porque é que um professor que luta ano a ano para ver seu circulo de influência crescer não consegue, cada ano, fazer com que sua influência abranja senão um pequeno número de calouros. Seu contato influente com os alunos termina em três semestres. Vereis porque de professor de mais ou menos cinco matérias veio ele a lecionar apenas uma, presentemente. Mas é somente o tempo que vos poderá mostrar isto. É com paciência que espero que ele e o Espírito Santo (por que não?) realizem o seu trabalho.

6. Editorial de 18/6/1966 [Censurado previamente: não chegou a ser publicado]

Ainda um “O CAOS em Revista”. O último deste semestre. Os leitores já acostumados à sua leitura talvez notem que, neste número, “O CAOS em Revista” está um pouco diferente, em seu conteúdo, dos números anteriores: está menos vivo. Motivos vários contribuíram para que isso se desse, dentre os quais a falta de tempo do Redator e a falta de colaboração dos colegas no sentido de enviarem artigos, traduções, poesias, etc., para serem publicados.

Outro motivo ainda, a ser notado, é a ordem explícita e inequívoca da Congregação do Seminário Presbiteriano do Sul, que determinou que nenhum “O CAOS em Revista”, ou equivalente, fossem publicado sem o visto do Senhor Reitor ou do Senhor Deão. Esta ordem explícita, acrescentada da reprovação enérgica feita ao Redator, pela matéria contida nos três primeiros números do jornal, e da ameaça de punição por indisciplina em caso de reincidência, esclarecem, sem possibilidade de equívoco, a posição da Congregação e a posição que ela nos reserva. (Observe-se que os dois primeiros números do jornal foram julgados duas vezes pela Congregação. Na primeira vez, ela decidiu não opinar sobre eles, enviando-os ao Presbitério do Redator. Na segunda vez, por razões ignoradas, decidiu reprovar a matéria sobre a qual em vez anterior havia se omitido).

O campo que a Congregação nos permite abranger, contudo, torna-se demasiado restrito quando notamos que ela considera a matéria contida no terceiro jornal fora da competência e do direito de manifestação de um jornal do corpo discente. Torna-se difícil, pois, formular um jornal em que tratar de problemas que diretamente afetam a vida de todos os alunos é considerado “fora da competência” de um jornal de alunos.

Assim sendo, resolvemos, em protesto, transcrever uma seção (Seção 4, no Capítulo II) do livro A Formação da Mentalidade (Mind in the Making), de James Harvey Robinson. Se o trecho que será transcrito for lido em seqüência aos três primeiros números do jornal, poderá comunicar uma mensagem bastante relevante. É o que esperamos.

7. Matéria para transcrição em 18/6/1966 [Censurada previamente: não chegou a ser publicada]

Somos incrivelmente descuriosos da formação das nossas crenças, mas por elas nos enchemos de amor quando no-las querem roubar. Torna-se óbvio que não são propriamente as idéias que nos são caras, sim o nosso amor próprio. . . .

Gostamos de continuar a crer no que nos acostumamos a aceitar como verdade, e a revolta sentida quando duvidam das nossas verdades estimula-nos a ainda mais nos apegarmos a elas. O resultado é que a maior parte do chamado raciocínio humano consiste em descobrirmos argumentos para continuarmos a crer no que cremos.  . . .

Esta distinção entre “boas” e “reais” razões é das mais importantes nos domínios do pensamento. Podemos de pronto dar o que chamamos as nossas “boas” razões para sermos católicos ou maçons, republicanos ou democratas, amigos ou inimigos da Liga das Nações. Mas as razões “reais” ficam em outro plano. Não há dúvida que a importância desta distinção é notória, embora obscura. Um missionário batista concorda prontamente em que o budista não é budista por conseqüência do cuidadoso estudo que fez dessa crença, mas simplesmente porque nasceu numa família budista de Tóquio. Mas considerará ofensivo à sua fé reconhecer que a sua parcialidade para com certas doutrinas provém de ter tido ele uma progenitora afiliada à igreja batista de Puddlebury. . . . Mas nem um nem outro perceberá por que motivo está defendendo as suas opiniões pessoais.

As razões “reais” das nossas crenças vivem ocultas des nós mesmos, tanto quanto dos outros. À medida que crescemos, muito naturalmente vamos adotando as idéias ambientes relativas à religião, às relações de família, à propriedade, aos negócios, ao governo. Absorvêmo-las, de tanto ouvi-las zumbir em torno de nós, no seio do grupo em que vivemos. Ademais, como Totter notou, essas idéias, como produto da sugestão e nunca do raciocínio, possuem o característico de parecerem perfeitamente óbvias. 

. . .

Este espontâneo e leal apoio aos nossos preconceitos — este processo de descobrir “boas” razões para justificá-los — recebe dos cientistas modernos o nome de “racionalização” — palavra nova para coisa muito velha. Nossas “boas” razões nada valem para o honesto esclarecimento de um assunto, porque, por mais solenemente que sejam apresentadas, não passam, no fundo, de resultados de preferências pessoais, ou preconceitos, não refletindo nenhum sadio desejo de acertar. . . .

O fato de uma idéia ser antiga e largamente espalhada não constitui argumento a seu favor, mas sim argumento para que tal idéia seja estudada e testada, a fim de verificarmos se não passa de mera racionalização.

8. Editorial de 18/8/1966 [Censurado previamente: não chegou a ser publicado]

Temos em mãos o que seria “O CAOS em Revista” do mês de Junho, mas que não o foi, por causa do aborto que sofreu. O Editorial, que naquela ocasião escrevemos, procurava dar um relato sucinto dos acontecimentos que culminaram na colocação, naquela oportunidade, de “O CAOS em Revista” sob a tutela da Congregação do SPS [Seminário Presbiteriano do Sul], fato este que, por sua vez, ocasionou o aborto mencionado.

Um tempo relativamente longo decorreu desde então. Vivemos em outro contexto: temos outro Reitor, temos outro Presidente no Supremo Concílio. A cúpola que dirigia os destinos da IPB [Igreja Presbiteriana do Brasil] foi trocada. Há uma nova direção.

Todos estes acontecimentos, todas estas mudanças, toda esta “renovação”, pareceriam ser sinais de que a IPB rejuvenesce, reforma-se, atualiza-se, sofre uma renovação, no verdadeiro sentido do termo, sem as aspas indispensáveis ao emprego anterior da palavra. Mas, todos sabemos, isto não é verdade. A IPB preferiu, através da maioria dos representantes presentes ao Supremo Concílio, dar-se um outro rumo: o de lutar, em pleno século de viagens interplanetárias e de armas nucleares, como se fosse “remanescente de uma época de cavalaria”, para usar a apta imagem de Dietrich Bonhoeffer [em Letters and Papers from Prison], isto é: usando uma linguagem que não é a nossa do século XX; valendo-se de meios de ação que mais se assemelham aos da Idade Média; pregando idéias que há um século já eram tidas como desatualizadas, anacrônicas, conservantistas, vetustas; empregando métodos de pressão e repressão que nos fazem lembrar a Santa Inquisição Medieval; sendo dirigida por uma cúpula que, no seu totalitarismo, faria Hitler tremer de inveja no túmulo; expressando-se através de um órgão oficial que nada fica a dever aos periódicos do Rev. Raphael Camacho e do Mr. Robert Rapp! A IPB chegou a este ponto. Ou, melhor dizendo, permitiu que a conduzissem a este ponto.

Lembro-me de uma frase de Goethe, lida algures, que diz: “Muitos preferem morrer a pensar”. Na minha opinião, esta frase explica a razão de ter a IPB se deixado levar à situação em que se acha: “Muitos preferem morrer a pensar”. A IPB já sofre, agora, e vai sofrer muito mais ainda, os resultados da “preguiça intelectual” daqueles aos quais se delegaram poderes para decidir a respeito dos destinos da Igreja. Isto porque, enquanto a maioria prefere morrer a pensar, há aqueles, poucos e raros, que quase morrem de pensar para descobrir meios de manipular a maioria não-pensante, a fim de que esta venha a servir a seus objetivos pessoais, egoístas, de “will to power”. E o resultado, trágico, mas inevitável, a menos que os não pensantes se decidam a pensar por si, é que, muitas vezes, uma pessoa, que se proponha este alvo, consegue manipular uma multidão, quase sempre de boa fé, levando-a a satisfazer às suas aspirações (suas, bem entendido, do manipulador). É mais fácil, realmente, deixar que os outros pensem por nós; que nos ditem o que fazer; que decidam quais destinos devam ser os da Igreja; quais normas devam regê-la; quais doutrinas devam ser sua confissão. É o caminho mais fácil, o “caminho largo”, mas aquele que leva à negação completa do dom da inteligência.

“Contudo”, talvez diga alguém, “o prezado jovem está se esquecendo de algo muito importante: foi o Espírito Santo que fêz com que se deliberasse em Fortaleza como foi deliberado. Ou será que o irmão é dos ‘modernistas’ que não crêem no Espírito Santo?” Sim, muitos já disseram isto, e não só uma vez. E é aqui que se situa, no meu entender, a maior heresia dos “situacionistas” presbiterianos de hoje: a heresia de fazer a vontade soberana, ilimitada, perfeita de Deus identificar-se com sua finita, limitada, imperfeita, egoísta e pecaminosa vontade, a heresia de cercear os limites da ação divina, a heresia de orientar o Espírito Santo em lugar de procurar dele genuína orientação, a heresia de buscar Deus apenas como um meio útil na aquisição de um determinado objetivo e não como um fim em si, a heresia de colocar doutrinas e normas de conduta em nível superior à vontade específica de Deus para o nosso hic et nunc, a heresia de fazer com que a mensageira se torna mensagem, a heresia de tornar a serva maior do que o seu Senhor!

Parece que exagero. Provo, contudo. Tenho em mãos uma carta escrita pelo Conselho da IP [Igreja Presbiteriana] de Belo Horizonte, data de 2 de julho, quase dez dias antes do Supremo Concílio — carta esta para cuja elaboração um de nossos colegas, especialmente chamado a Belo Horizonte, emprestou sua valiosa cooperação! A carta, que deveria ser enviada a todas as Igrejas Presbiterianas do Brasil, acompanhada de uma cópia do Manifesto dos Quinze, reimpresso por aquela Igreja, denuncia em alto e bom som a “orientação modernista que os nossos Seminários vêm dando aos seus alunos [oxalá!], nossos futuros pastores”. Depois de analisar a situação, o referido Conselho, encabeçado pelo Rev. Wilson de Souza, faz as seguintes sugestões aos Conselhos das Igrejas às quais se destina a carta:

“a) Ore e convide outros irmãos a orarem, pedindo a Deus uma solução certa para o problema, promovendo, se possível, reuniões de oração com esta finalidade.
. . . . .
c) Telegrafe AGORA e peça a outros irmãos para telefonarem HOJE ao Presidente do Supremo Concílio, solicitando solução urgente para os problemas dos nossos Seminários”.

Até aí compreende-se. A aberração, contudo, vem depois, quando a carta continua:

“Esses telegramas poderão ter redações, mais ou menos, como estas:
‘Solicito SC tome providências enérgicas contra modernismo reinante nossos seminários.
IP de (nome da cidade) espera que SC promova expurgo modernistas que atuam em nossos seminários’.”

Mais do que em qualquer outro lugar, aqui se faz presente a heresia atrás mencionada. Aconselhava-se a orar, pedindo a Deus a solução do problema. Para que orar, entretanto, se a solução já estava decidida, como bem o expressam os “telegramas-padrão”. Ei-la, clara, insofismável: EXPURGO dos que conosco não concordam. Esta solução já estava pronta, já havia sido tomada muito antes do Supremo Concílio. E do mesmo modo todas as outras. Aqueles belos apelos feitos pelo agora Presidente do Supremo Concílio, através de sua imprensa privada, para que a Igreja orasse, pedindo que o Espírito Santo orientasse o Supremo, eram desnecessários. As principais decisões e soluções já estavam no bolso de seu colete, Deus sabe já há quanto tempo! Uma prova inequívoca disto é o fato de ter sido designado relator da Comissão que iria estudar os problemas dos Seminários, ninguém menos do que o Rev. Wilson de Souza, o capacho atrás mencionado, que já se demonstrara parcialíssimo e preconcebido em relação ao problema. E a arbitrariedade acompanhou todas as outras decisões. Pobre Espírito Santo! Invocaram-no tanto, mas manietaram-no, cercearam-lhe a ação. Talvez tivesse ele uma outra solução para os problemas, talvez ele não fosse tão conservador quanto se dizem ser os atuais chefes da Igreja, mas seu parecer não foi aceito, talvez por ter sido expresso por alguém da ala contrária, talvez por não se identificar com os moldes dos “telegramas-padrão” e com os planos do partido vitorioso.

E assim caminha o tempo. A história, contudo, saberá passar seu julgamento (além de Deus que será bem capaz de passar o seu) sobre este negro período na vida da IPB. Enquanto, porém, o futuro não vem, para apresentar os vários aspectos e matizes da situação, é dever nosso, ao qual não nos podemos escusar, levantar uma voz profética contra o estado de coisas em que nos encontramos. “O CAOS em Revista” sempre se dispôs a isto. O artigo de Tristão de Athayde reflete o conflito das gerações. O de Alvino Alves, mais específico, é muito oportuno ao caracterizar a ortodoxia conservadora. “O Pequeno Inquisidor”, colaboração anônima, recebida pelo Correio, ataca o problema ainda mais específico da “inquisição” que nos visitou aqui.

O Redator aproveita para comunicar que deixará o cargo, a partir do próximo número, em virtude de seu desligamento do Seminário, a partir de 5 de Setembro até o final do ano. Agradece a colaboração, o estímulo, e o incentivo que recebeu durante o tempo que dirigiu o jornal, e coloca-se, mais do que nunca, ao lado daqueles que, cientes de sua responsabilidade para com Deus e os homens, para com o homem do século vinte, procuram evitar que a Igreja se torne mais uma relíquia, entre outras, dentro de nossa história. Agradece ainda àqueles que programaram este número, e o realizaram, sem os quais ele não sairia.

E até breve.

o O o

Do “E até breve” até hoje já vão mais de 55 anos.

Todo o material, Primeira e Segunda Parte, transcrito aqui neste blog, em Segunda Edição, Revista e Ampliada, na Estância Turística de Salto, SP, em 24 de Outubro de 2021.

Eduardo CHAVES

LIVROS MENCIONADOS

Celso Furtado, Dialética do Desenvolvimento (Editora Fundo Cultura, São Paulo, 1964. A passagem citada é o mote do livro, que se encontra na p.7. Eu adquiri esse livro em Campinas em 1964, ano de sua publicação.

Dietrich Bonhoeffer, Letters and Papers from Prison (SCM Press / Collins / Fontana Books, 1953). A passagem referida se encontra em uma carta de 30.4.1944, dirigida “a um amigo”, pp.90-93 dessa edição das Cartas e Papéis da Prisão, que eu adquiri em Campinas, em 10.8.1964.

George Thomas White Patrick, Introduction to Philosophy, 2nd edition, revised (Houghton Mifflin Company, Cambridge, MA, 1952 – 1935 foi a data da primeira edição).

Harold H. Titus, Living Issues in Philosophy: An Introductory Textbook, 4th edition (American Book Company, New York, 1964 – edições anteriores de 1946, 1953 e 1959).

James Harvey Robinson, The Mind in the Making: The Relation of Intelligence to Social Reform (Harper & Brothers Publishers, New York and London, 1921). As passagens citadas foram retiradas da Parte II, Capítulo 4, “Rationalising”, pp.40-48. Tenho também a tradução de ninguém menos do que Monteiro Lobato para o Português, sob o título A Formação da Mentalidade, 3a edição (Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1957). As passagens citadas foram retiradas da Parte II, Capítulo 4, “Racionalização”, pp.21-26. O texto citado foi, naturalmente, retirado da tradução de Monteiro Lobato.

João Dias de Araújo, Inquisição sem Fogueiras: Vinte Anos de História da Igreja Presbiteriana do Brasil, 1954-1974, 3a edição (Instituto Superior de Estudos da Religião, Rio de Janeiro, 1985 – a 1a edição é de 1975 e a segunda, de 1982). A citação feita foi retirada das pp.56-57. Há uma 3a edição revista e atualizada, publicada pela Fonte Editorial, em 2010, com Apresentação de Derval Dasílio, e uma 4a edição, em ebook, formato Amazon Kindle, publicada pela Editora Resistência Reformada, em 2020, com Apresentação do Conselho Editorial do Resistência Reformada, Prefácio de Cláudio Márcio Rebouças da Silva, e Posfácio de Ricardo Quadros Gouvêa.

John Stuart Mill, Utilitarianism, Liberty, and Representative Government (New York: Dutton, 1910). O livro On Liberty fica nas pp.61-170. As ideias mencionadas estão discutidas na p.79, no primeiro parágrafo do Capítulo II, que trata Liberdade de Pensamento e Discussão.

Waldyr Carvalho Luz, Nem General, Nem Fazendeiro: Ministro do Evangelho (Editora Luz para o Caminho, Campinas, 1994). Os textos citados estão nas pp.267-268 (“Eu encontrava séria resistência… “), p.268 (“Boa amostra do espírito desse aluno…”), pp.269-271 (“Ante o estado de coisas vigente…”).

Wilfred Trotter, Instincts of the Herd in Peace and War (Macmillan, New York, 1st ed., 1915; 2nd ed., 1919). Trotter é mencionado na passagem citada de James Harvey Robinson, que, em seu livro, se refere especialmente às pp.1-65 do livro de Trotter. Na edição brasileira do livro de Robinson o nome de Trotter está grafado de forma errada, como Totter.

NOTA:

Pretendo ainda transcrever aqui neste artigo, numa Terceira Parte, as cartas e outros documentos pessoais mencionados, que eu eu possuo em forma manuscrita, datilografada ou mimeografada. São documentos raros.

A Igreja, o Estado, o Casamento e a Família

Desde os vinte anos (em 1963) fui um liberal clássico, estilo “laissez faire”. Tornei-me um liberal desse tipo lendo o livro On Liberty, de John Stuart Mill, no meu último ano do Ensino Médio. (Comecei a minha escolaridade quase aos nove anos, e, por isso, terminei a chamada Educação Básica já na maioridade). Essa minha defesa do Liberalismo Clássico foi confirmada e radicalizada quando, aos trinta anos (em 1973), encontrei Ayn Rand e li Atlas Shrugged, pela providencial mediação de Charles King, meu colega no Pomona College, segunda instituição de ensino superior em que trabalhei. Charles posteriormente se tornou presidente do Liberty Fund, instituição liberal na área da cultura e da educação criada por Pierre F. Goodrich ((da família de B. F. Goodrich, o magnata da empresa de pneus criada em 1870). Em Pomona, Charles era responsável pela área de Filosofia Política e eu estava atuando na área de Metafísica, Lógica e Filosofia da Religião. Quanto a mim, ao fazer setenta anos (em 2013), já aposentado há seis anos da UNICAMP, e depois de ter voltado para a igreja e para a teologia, e de ter escrito bastante em defesa do Liberalismo Clássico, fui forçado a reconhecer que, na filosofia política, eu havia avançado para um Libertarianismo Anarquista, à la Murray N. Rothbart. Considero esse um avanço significativo, depois de defender o Liberalismo Clássico ao longo de cinquenta anos, dos meus vinte aos meus setenta anos. Por mais que alguns possam imaginar que se trate de evidência de senilidade, não acredito que se trate disso…

Mas isso significa que hoje estou convicto da possibilidade de uma vida social sem estado, baseada em uma mistura daquilo que David Smith chamava de interesse próprio, ou auto interesse racional (rational self interest), aquilo que Ayn Rand chama de egoísmo racional, bom senso (que inclui o sentido de uma justiça natural (aquela que nos leva a dizer, em várias situações, “isto não é justo”, that isn’t fair), e a percepção de que vale mais a pena, no longo prazo, ser bom, tolerante e pacífico, e conviver bem, e em ordem, uns com os outros, criando instituições privadas, do que as alternativas que envolvem viver em perpétuo conflito e desordem. Pode parecer meio utópico, mas essa postura mas não envolve a criação prévia de um novo homem, altruísta, defensor da igualdade substantiva, batalhador pela justiça social, inconformado com o estado do mundo; uma nova sociedade, sem classes, sem competição, em que a igualdade substantiva sempre tem a condição de trunfo (trump), sobrepujando-se à liberdade; um novo mundo que parece ser o paraíso, que foi perdido no Éden mas é reganho da sociedade sem classes e, por isso, sem conflito, com igualdade, e, por conseguinte, felicidade geral. Aquilo que, hoje, é uma Utopia.

 Na minha visão, basta apenas apelar ao nosso auto interesse racional, que inclui o nosso desejo de viver bem, em paz e em ordem, e o nosso senso natural de justiça, de que a cada cabe apenas aquilo que ele fez por merecer e que lhe é devido. E isso pode ser alcançado sem Estado (donde a referência ao anarquismo), em um clima de libertaridade (o caráter libertário, a mais plena liberdade possível), em que existem desigualdades, mas elas são justas, e, por isso, não intoleráveis.

E tudo isso pode ser feito também em um ambiente de desescolarização — certamente sem escolas públicas ou estatais e até mesmo sem escolas quaisquer,  überhaupt, ou tout court. Digo isso para conectar esta discussão com outro grande interesse meu: a Educação (não a Escola, na qual hoje não tenho nenhum interesse).

Tudo isso tem que ver, naturalmente, com o Estado, ou melhor com a desestatização da sociedade — mas o que tem que ver com a Igreja? O título deste trabalho, afinal de contas, é “Igreja e Estado”.

Antes de me referir ao que penso, é mister que diga que, embora seja defensor do Libertarianismo Anárquico, sou realista o suficiente para ter certeza de que, tão cedo, o Estado não vai embora de livre e espontânea vontade, por iniciativa própria, nem vai ser extinto, contra a sua vontade, pela vontade do povo. Logo, temos de lidar de forma racional e sensata com essa realidade, mesmo que não gostemos dela.

Isso posto, começo meu argumento.

Um postagem na forma de foto com texto que eu compartilhei no Facebook diz o seguinte:

Eis a foto:

Eu fiz o seguinte comentário ao postar essa foto:

Eis o que observei ao compartilhar essa imagem no Facebook:

“Compartilho, mas tenho reservas quanto a esta colocação, [reservas] que já expus em vários artigos, e resumirei aqui, se e quando recomendável. Compartilho, para que a colocação seja discutida, sem endossá-la.”

As reservas que tenho quanto a esta colocação já foram esclarecidas o suficiente nesta série de artigos que publiquei, no meu blog Liberal Space, entre 17 de abril de 2008 e 30 de junho de 2015 — um período de sete anos que terminou seis anos atrás, quase na data exata.

Pensei que o assunto estivesse esgotado — evidentemente, não está, como o mostra a postagem exibida atrás (a fotografia com letreiro).

  1. [17.04.2008] “A Interferência do Estado na Vida Privada: O Casamento”, em https://liberal.space/2008/04/17/a-interferencia-do-estado-na-vida-privada-o-casamento/
  2. [09.04.2013] “O Casamento entre Homossexuais”, em https://liberal.space/2013/04/09/o-casamento-entre-homossexuais/
  3. [19.05.2013] “Ainda o Casamento entre Homossexuais”, em https://liberal.space/2013/05/19/ainda-o-casamento-entre-homossexuais/
  4. [19.11.2014] “Casamento Homossexual, Poligamia / Poliandria, Casamento Poliafetivo, Casamento Incestuoso (Entre Pessoas Relacionadas por Parentesco)”, em https://liberal.space/2014/11/19/casamento-homossexual-poligamia-poliandria-casamento-poliafetivo-casamento-incestuoso-entre-pessoas-relacionadas-por-parentesco/
  5. [27.04.2015] “Contrato Civil de Convivência e Casamento (Religioso)”, em https://liberal.space/2015/04/27/contrato-civil-de-convivencia-e-casamento-religioso/
  6. [05.06.2015] “As Igrejas, o Casamento e a União Civil”, em https://liberal.space/2015/06/05/as-igrejas-o-casamento-e-a-uniao-civil/
  7. [30.06.2015] “Ainda o Casamento Gay (agora a propósito de decisão da Suprema Corte americana”, em https://liberal.space/2015/06/30/ainda-o-casamento-gay-agora-a-proposito-de-decisao-da-suprema-corte-americana/

Como esclareço no primeiro artigo o Estado não deveria meter o seu bedelho nos relacionamentos amorosos e sexuais dos indivíduos, para tentar regulá-los. Como, porém, esses relacionamentos, muitas vezes, geram, além de bebês, expectativas de direito sobre pensões, heranças, etc., o Estado, existindo, fatalmente irá tentar regular essas questões. Não devia, mas deve.

É forçoso reconhecer que, ao longo do tempo, o Estado, sob pressão dos indivíduos, vem retirando sua patinha de algumas dessas questões.

Antigamente, em muitos países, o mero engajamento em relações sexuais fora do casamento, aquilo que a Bíblia chama de fornicação, por parte de indivíduos livres e desimpedidos, solteiríssimos da silva, e de sexo diferente, era considerado crime. Hoje isso não mais se dá — exceto, aqui no Brasil, quando um dos parceiros é menor de quatorze anos (idade antes da qual o Estado presume — erroneamente, porque um adolescente de quatorze anos nos dias de hoje é plenamente capaz de dar consentimento — que ninguém é capaz de dar consentimento, presumindo-se coerção, o que torna o ato, não simplesmente um mero relacionamento sexual, mas um relacionamento sexual não consentido, ou seja, um estupro.

Antigamente, em muitos casos, o mero engajamento em relações sexuais por parte de indivíduos maiores de idade mas do mesmo sexo, era crime. Hoje isso não mais se dá, indivíduos do mesmo sexo podendo até “se casar”, como o povo diz.

Antigamente, em muitos países, o mero engajamento em relações sexuais por parte de indivíduos de sexo distinto, maiores de idade, mas casados um com o outro, o que a Bíblia chama de adultério, termo ainda usado hoje, era crime. Deixou de sê-lo há bom tempo.

E assim vai.

Para livrar-me do encargo de formular ainda uma vez, ab initio, o que penso sobre o assunto, resumirei o meu argumento a partir do artigo mais recente dos mencionados, artigo que escrevi há quase exatamente seis anos atrás, no dia. Nele discuto uma série de argumentos que basicamente implicam, em seu conjunto, a afirmação contida na postagem mencionada atrás (a fotografia com letreiro dizendo “Não foi o ESTADO que criou a FAMÍLIA. Logo, não tem AUTORIDADE para MUDAR o conceito de família.”).

a. A ideia de que alguém, Deus ou um outro ser, ou uma sociedade ou grupo social qualquer criou o casamento e a família nos moldes que o pessoal conservador, religioso ou não, imagina (um homem e uma mulher unidos em casamento para a vida toda, produzindo seus descendentes) é um mito. Nem mesmo na Bíblia há um relato da criação do casamento propriamente dito, como ele é entendido pelos conservadores. Segundo um dos relatos bíblicos, Deus criou primeiro o homem, e, depois, percebendo que ele estava meio entediado, sem o que fazer, criou a mulher. Outro relato sugere que eles foram criados juntos. Mas em nenhum dos relatos se afirma eles foram colocados lado a lado e indagados por Deus se era de sua livre e espontânea vontade que compareciam perante ele para se unir pela vida inteira a fim de manter relações sexuais e produzir descendentes, sendo fieis um ao outro até que a morte os separasse. Independentemente do que possa ter sido dito no momento da criação do homem e da mulher, supondo que foram criados, para não complicar demais o argumento, o relato bíblico mostra que os patriarcas e heróis da fé transavam livremente, com pessoas de sexo diferente ou do mesmo, tinham, no caso dos homens, várias mulheres, e independentemente disso, mantinham relacionamentos adulterinos e incestuosos, que, em alguns casos, geravam prole, etc. Longe de isso ser uma anomalia era o costume dos povos primitivos que aparecem nas páginas da Bíblia, para nos ater à religião cristã. O que encontramos na Bíblia — e na história — é qualquer coisa mas não o casamento convencional defendido pelos conservadores, cristãos ou não.

b. Mesmo que a história, bíblica ou não bíblica, relatasse que os primeiros casais humanos aderiam fielmente ao padrão conservador do casamento, é uma falácia genética, que ignora o fato do desenvolvimento social (ainda que não biológico) humano, imaginar que esse fato, por si só, endossa e valida esse padrão per secula seculorum. Mesmo que o relacionamento entre os sexos tivesse sido, originalmente, heterossexual, para a vida toda, com exigência de fidelidade completa até que um dos dois morresse, isso não prova que esse tipo de relacionamento deva ser mantido para sempre, independentemente das mudanças sociais e biológicas. Fornicação e adultério, bem como atração sexual entre pessoas do mesmo sexo, com o consequente relacionamento sexual entre elas, sempre houve no mundo — e nem a Bíblia não nega isso. Poligamia em paralelo (ainda que apenas para os indivíduos do sexo masculino) existiu em todos os tempos, e a poligamia em série, por morte ou divórcio, sempre existiu, ainda que algumas sociedades primitivas tenham exigido que a mulher fosse enterrada junto com seu marido, se ele morresse antes dela… Por conseguinte, essa história de “conceito original de família” é balela.

c. Por muito tempo, a regulação do relacionamento sexual entre as pessoas era feita pelas instituições religiosas, privadas, não pelo Estado. Foi apenas recentemente que o Estado começou a regular esse relacionamento. Mesmo assim, nunca (que eu saiba) impediu que instituições religiosas implementassem a sua própria regulação, dentro do seu âmbito.  

d. A partir, pelo menos, da Revolução Americana, que resultou na independência das colônias britânicas na América, evento que se celebra no dia de hoje, e que começou a acontecer nesse dia em 1776, firmou-se, em nações fundadas nos direitos individuais e na liberdade, o princípio de que deve haver separação entre a religião (e as igrejas) e o Estado, sem desobrigar as pessoas religiosas e os membros das Igrejas de cumprir seus deveres para com o Estado em áreas ou em relação a questões que não são caracteristicamente religiosas ou morais (envolvendo a consciência).

e. A partir desse momento, consagrou-se o princípio de que o Estado pode até regular algumas questões privadas, como as envolvendo o casamento e a família, naquilo que elas possuem ou envolvem de obrigações para com terceiros em geral. Os Estados Unidos da América, enquanto entidade política, não são um país religioso, muito menos cristão. São um país em que a religião e as igrejas são claramente separadas do Estado, que, assim, só pode ser entendido como laico ou não religioso. Mas a Constituição Americana não exige que os governantes da nação sejam ateus ou agnósticos, que o lema da nação seja “In God We Trust” (Em Deus Confiamos), que a Constituição e o dinheiro (as notas e moedas de dólar) façam referência a Deus.

f. Assim sendo, mesmo países criados sob inspiração religiosa, como os Estados Unidos, ou mesmo, até certo ponto, o Brasil, a Igreja (ou a religião) é uma coisa e o Estado é outra — embora o Brasil tenha tido uma religião oficial pelo menos até o início do período republicano.

g. O que acabou acontecendo nesses países, tanto no Brasil como nos Estados Unidos, foi que o Estado veio a reconhecer e a afirmar a validade, em todo o território nacional, de contratos de união civil (normalmente chamados de “casamentos civis” e, mais recentemente, “contratos de união estável”) entre duas pessoas não casadas de qualquer sexo (ou gênero, se preferem) — e, acrescente-se, de qualquer raça, cor, nacionalidade, religião, preferência política, etc. Num primeiro momento, era apenas o primeiro desses quesitos que estava em jogo — sexo ou gênero. Mas já houve época em que casamento civil interracial era banido e deixou de sê-lo. Provavelmente, num futuro não muito distante, o Estado vai liberar casamento entre mais de duas pessoas (a chamada união poliafetiva ou poliamorosa, antigamente chamada de poligamia), ou entre pessoas que são parentes próximos (o chamado, até aqui, de incesto).

h. Não há nada antirreligioso nessas decisões, como não havia na decisão concernente ao divórcio — embora os católicos e os evangélicos conservadores também tenham protestado. O estado está regulando contratos de convivência civil (CCC) entre duas (e oportunamente mais de duas) pessoas não casadas (e oportunamente já casadas — nada havendo que impeça uma pessoa de ter múltiplas uniões civis). Não se está desafiando Deus, ou a Bíblia. Não nos esqueçamos de que os Patriarcas da Fé do Velho Testamento, Abraão, Isaque e Jacó, eram todos “poliamorosos” ou polígamos — e alguns heróis do Velho Testamento chegaram até mesmo a ter conjunções carnais, como diz o pessoal do direito, incestuosas).

i. Cada igreja ou cada grupo social tem total liberdade de definir um casamento mais significativo ou profundo ou espiritual ou carregado de valores do que o civil da forma que quiser. Pode decidir que ele será exclusivamente hétero e entre apenas duas pessoas (necessária e comprovadamente virgens, se preferem), durará para sempre, não podendo ser desfeito (mesmo que um dos envolvidos, ou os dois, estejam sofrendo de forma desesperadora por causa desse casamento, ou que o casamento envolva violência mental ou física, ou manipulação invasiva dos direitos de um cônjuge por parte do outro cônjuge).

j. Num estado laico não faz sentido que evangélicos, católicos e judeus — para não falar nos maometanos — tentem impor seus valores religiosos a todo mundo. Imaginem que os judeus ortodoxos resolvam que um homem só pode casar se for circuncidado. Vocês acham justos que o estado adote esse ponto de vista religioso e obrigue todo humano masculino a se circuncidar? Não faz sentido, não é verdade? Também não faz sentido querer que duas pessoas, para se unir em união  de convivência civil e viver em família, tenham de ser de sexos ou gêneros diferentes.

k. Por fim, já faz muito tempo que a finalidade principal do casamento civil não é a procriação, mas, sim, a parceria, o companheirismo, o apoio mútuo, a união de esforços para um fim comum, etc. Erra, portanto, e fundamentalmente, demonstrando uma imperdoável pobreza de espírito, Hélio Schwartsman, na Folha de 30.06.2015, quando afirma que “O casamento, vale lembrar, é um mecanismo através do qual o indivíduo pede ao Estado licença para manter relações sexuais com outra pessoa.” Nem de longe. Relações sexuais regulares fazem parte do casamento da maioria das pessoas — mas não de todas. Mas estão longe de ser a única razão para o casamento — em especial numa sociedade liberada como a nossa, em que a maior parte das pessoas começa a ter relações sexuais bem antes de se casar (sem pedir para ninguém, muito menos para o Estado através de sua direção, governo), em muitos casos mantém relações sexuais extraconjugais, e, findo o casamento, continua a ter uma vida sexual regular e normal (em alguns casos, até em asilos de idosos).

l. E as igrejas podem continuar a implementar exigências mais estritas e rígidas para as relações afetivas, amorosas e sexuais entre as pessoas, considerando que a sua versão dessas relações é mais válida do que a preconizada pelo Estado.

m. Mas o Estado estará ultrapassando seus limites se proibir que as igrejas façam isso ou se exigir que elas considerem a união de convivência civil proposta pelo Estado como plenamente equivalente ao casamento que elas endossam (mesmo que haja sobreposição de funções, atribuições e deveres).

n. Assim, oponho-me tanto à intervenção do Estado em questões que envolvem exclusivamente a Igreja como a intervenção da Igreja em questões que dizem respeito exclusivamente ao Estado (numa sociedade em que o Estado ainda continua a existir).

É isso…

Em Salto, 4 de Julho de 2021. Have a good Fourth of July.

“O Difícil Papel das Madrastas”

Assunto complicado é ser madrasta… Mais complicado do que ser padrasto, pelo que parece…

Aqui, matéria da Revista Crescer. [Ver a referência completa no final].

Mas em 2011 fiz um post sobre o assunto, com material do UOL, e com o título “Madrasta Antes dos 30 Anos”, que gerou muita discussão neste mesmo blog, Liberal Space. Quem quiser consultar, pode acessar:

https://liberal.space/2011/04/19/madrasta-antes-dos-30/

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Aqui está o material da Revista Crescer, disponível no seguinte URL:

https://revistacrescer.globo.com/Educacao-Comportamento/noticia/2021/02/o-dificil-papel-das-madrastas-maes-podem-enlouquecer-brigar-xingar-nos-nunca.html

O difícil papel das madrastas: “Mães podem enlouquecer, brigar, xingar. Nós, nunca”

Mulheres que se tornaram madrastas contam suas experiências e revelam como buscam ajuda para lidar com os conflitos: “Precisamos provar que não vamos ser ‘bruxas más'”, desabafam. Conheça histórias

SABRINA ONGARATTO
DO HOME OFFICE25 FEV 2021 – 11H34
ATUALIZADO EM 25 FEV 2021 – 11H34

“Padrasto é herói, assumiu uma família. Madrasta é palavrão, está tentando ocupar o lugar da mãe”, compara uma bióloga gaúcha de 25 anos, que prefere não revelar seu nome. Ela conta que se tornou madrasta recentemente e a notícia veio de surpresa. “Descobrimos durante a pandemia que meu marido tinha uma filha de 5 anos. Em março, vai fazer um ano que estamos vivenciando a ‘madrastidade’ e a paternidade”, diz. Segundo ela, a situação é complexa. “A criança é fruto de sexo casual e já tinha o registro de outro pai na certidão. Até o ano passado, esse homem acreditava ser o pai biológico”, completa.

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“No começo, foi difícil definir meu papel, ocupar meus espaços e viver o luto por ter casado com meu marido sem filhos e saber que ele tinha uma filha, que não saiu de mim. Atualmente, a maior dificuldade é saber quais batalhas eu devo lutar. Às vezes, abraçamos o mundo e tentamos resolver problemas e situações que não são nossas”, reflete.

AMOR E PACIÊNCIA

Quem já passou pela experiência concorda que não é fácil, mesmo quando a pessoa já entra na relação sabendo que o outro tem filhos. Uma advogada do Rio de Janeiro, que também não quis revelar sua identidade, tem dois enteados e conta que, na época em que conheceu o marido, um deles tinha 6 anos e a outra era um bebê de apenas 10 meses. “Sou madrasta há 4 anos. Quando o conheci, meu marido estava divorciado há apenas 8 meses e buscava os filhos quinzenalmente. No início, não nos encontrávamos nesses dias, pois ele se dedicava integralmente a eles. A menor ainda era um bebê e o mais velho estava confuso com a separação. Então, tivemos muito cuidado”, lembra.

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O primeiro encontro aconteceu em um passeio na praia. “A pequena era uma bebê maravilhosa, mas que não me dava muita confiança, pois era agarradíssima ao pai. Quantas broncas tomei nas minhas tentativas de trocar as fraldas… O pai, cuidadoso, tinha todo o ritual com a princesa dele. Mas, após algumas noites em claro, cuidando das crises de bronquite e muitos penteados na frente do espelho, fomos estabelecendo nossa relação. Já com o maior, foi mais fácil! Eu era a companheira para todas as brincadeiras e sua defensora oficial em todas as encrencas e bagunças”, conta.

No entanto, ela diz que, ao longo dos anos, a relação foi mudando. “Quando o litígio entre meu marido e a mãe das crianças aumentou, sofri o impacto direto. O maior, hoje com 10 anos, que era superapegado a mim, foi se afastando. Já chega na nossa casa bem reativo, mas, com muito amor e paciência, vamos nos reaproximando. É um processo bem triste e doloroso, em que todos sofrem. A pequena, que hoje está com 5 anos, é mais tranquila. Ela tem uma afinidade natural com o pai e nossa família, então, esse processo leva, no máximo, uma noite”, disse.

MADRASTA PELA TERCEIRA VEZ

A analista judiciária Ana Carolina Reis Paes Leme, 38 anos, de Curitiba, no Paraná, poderia escrever um livro com cada uma de suas experiências. “Já fui madrasta de uma garota de 17 anos; depois, de duas meninas de 10 e 12 anos e, hoje, me casei e sou madrasta de um menino de 6 anos e dois adultos, de 23 e 26 anos”, conta. “Ah, também sou vódrasta. Minha enteada mais velha tem um filho de 3 anos”, completa.

Ana Carolina conta que a relação com a primeira enteada foi muito tranquila. “Mantemos contato até hoje”, diz. Porém, passou por alguns conflitos na segunda experiência. “Namorei um homem que tinha duas meninas. Me identifiquei muito com elas e tínhamos um bom relacionamento até viajarmos os quatros juntos. A viagem foi de 28 dias para a Europa. Tudo correu relativamente bem até o 22º dia, quando eu perdi a paciência e ficou bem complicado administrar os conflitos. O namoro, claro, acabou. Porém, eu decidi buscar ajuda para compreender melhor o que tinha acontecido”, lembra. “Hoje, acredito que consegui achar um equilíbrio ao desvendar qual é o meu papel como madrasta. Casei com o pai deles, então, a casa é minha, são minhas regras e eles me respeitam muito. Sou a esposa do pai e nunca quis ocupar o lugar da mãe”, afirma.

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MADRASTA X MÃE

Mas nem sempre é fácil chegar a esse entendimento e mais, fazer com que todos a respeitem. Para Ana Carolina, os estereótipos criados pela sociedade atrapalham muito. “As histórias da Disney sempre nos colocam numa posição de bruxa má”, desabafa. Ela ainda esclarece: “Para mim, a melhor definição de madrasta vem do inglês ‘step mother’ ou ‘step mom’, que significa mãe substituta. A madrasta exerce, sim, um papel de cuidado quando a mãe não se encontra no local. Dessa forma, nos dias de semana e finais de semana que o enteado está formalmente com o pai, a criança estará, sim, com o pai e a madrasta”.

Mas, segundo Ana Carolina, um dos maiores desafios é manter um bom relacionamento com a mãe das crianças. “Os meus enteados de 26 e 23 anos são de uma mãe e o de 6 anos é de outra. Eu sou a terceira esposa. Com a primeira, tenho um ótimo relacionamento e admiro muito, mas nunca conversamos sobre a educação dos filhos dela, pois são adultos. A mãe do menino de 6 anos prefere não manter contato comigo e eu tento respeitar, na medida do possível. Eu até gostaria de perguntar a ela sobre certas rotinas do filho dela, mas como não tive abertura, achei melhor não ‘forçar’ a amizade”, diz.

Já a bióloga gaúcha conta que a relação com a mãe da enteada é mais turbulenta. “Não conseguimos construir uma relação de respeito porque, infelizmente, muitas vezes, ela usa a filha como ‘moeda de troca’. Se não buscamos na hora que ela quer ou não pagamos o que ela pede, nos nega convívio”, diz.

Assim como a bióloga, a advogada carioca conta que, apesar de conseguir manter um bom relacionamento com os enteados, o maior problema também costuma ser com a mãe das crianças. “Infelizmente, a relação não é boa”, lamenta. Mesmo assim, ela tenta fazer com que isso não interfira no clima familiar. “Nunca quis ser a mãe dos meus enteados. Quando estão na nossa casa, os recebo com muito amor e também busco oferecer o que tenho de melhor, inspirar o amor ao próximo, oferecer educação, alimentar, estimular a leitura, enfim… Conheço meus enteados desde muito pequenos e os amo como filhos, apesar de muitos não compreenderem esse amor”, disse.

BUSCANDO EQUILÍBRIO

Para Ana Carolina, o primeiro passo para que a relação seja saudável é cuidar-se. “É preciso estar com autoestima muito boa para encarar o desafio de ser madrasta. Mãe pode enlouquecer, brigar, xingar. Madrasta nunca! Nós não temos esse direito. Precisamos ser plenas e estar muito bem com nós mesmas ‘para dar conta do recado’. Porque a criança vai te testar, vai te irritar e você não pode explodir, porque essa explosão poderá significar o rompimento de um relacionamento com o enteado e com o pai dele”, alerta.

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Segundo ela, as dúvidas sobre como proceder com o enteado e como abordar o companheiro sobre os filhos sempre vão existir. Por isso, uma boa dica é buscar uma rede de apoio e falar sobre o assunto. “Eu busquei um grupo nas redes sociais e está sendo um porto seguro. Temos encontros virtuais, grupos no WhatsApp, formamos inclusive subgrupos e, a qualquer momento que alguma de nós está em apuros, a gente se reúne para discutir o problema e auxiliá-la a resolver o imbróglio! (risos)”, conta.

REDE DE APOIO

Ana Carolina faz parte do “Somos Madrastas”. O grupo foi criado por Mariana Camardelli que é educadora parental, terapeuta e escritora, mas, mais do que isso, ela é enteada e também madrasta. “Sou enteada, madrasta e mãe, nesta ordem”, pontua. “A vontade de fazer parte de um grupo que apoiasse emocionalmente mulheres que se tornaram madrastas existe desde que eu me tornei uma — há mais ou menos seis anos. Nunca encontrei esse grupo e foi por isso que decidi criar-lo”, revela. “Ser madrasta é um papel cheio de preconceitos da sociedade e pode ser um lugar muito solitário, por isso acredito que é super importante abrir essa conversa e trazer para perto mulheres que precisem de apoio, de um lugar seguro para desabafar, de entendimento e empatia”, completa.

Mariana diz que, durante os bate-papos, duas questões sempre estão presentes. “Um é o sofrimento advindo do estereótipo em si, de entrar em um relacionamento já com esse rótulo, que acaba gerando bastante ansiedade e confusão. Parece que a gente entra na história devendo, sabe? Que a gente precisa provar que não vai ser ‘bruxa má’. É desgastante a sensação de não poder errar, não poder falar ou fazer alguma coisa apenas porque existe esse estereótipo”, explica. “Outra angústia é a de não saber qual o seu papel. Até onde falar? O que fazer? Como se comportar? Educar ou não a criança? Pouco se conversa abertamente sobre o tema, transformando ele ainda mais em tabu. E assim a gente segue perdidas”, lamenta.

Hoje, o Somos Madrastas tem 17 mil seguidoras no Instagram e 25 grupos de WhatsApp fechados para trocas entre as mulheres, com cerca de 600 pessoas ao todo. Além disso, com o objetivo de organizar os conteúdos e ampliar a conversa, Mariana conta que está lançando no próximo mês, uma comunidade gratuita na internet. “Será um ambiente seguro de troca e de cocriação. Para entrar, a pessoa precisará apenas fazer um cadastro e terá oportunidade de ler, comentar, conversar com outras mulheres e participar de cursos, atendimentos em grupo e jornadas”, esclarece.

“Ao entrar em qualquer relacionamento, você entra em uma montanha russa de emoções. Tem que segurar bem firme pra não cair do carrinho. Só que quando somos madrastas, o carrinho é um pouco mais veloz”, compara a bióloga gaúcha. “O Somos Madrastas foi e é minha mola no fundo do poço. Eu estava muito mal por não saber lidar com minhas angústias e frustrações. Em meio uma pandemia, me vi madrasta e sem rede de apoio, estava enlouquecendo. Mas o grupo me acolheu e me fez enxergar que tem como fazer dar certo e, principalmente, ocupar meu papel sem ofender ninguém”, completa a bióloga.

A advogada carioca também dá um conselho importante: “Busque se colocar no lugar da mãe para entender a perspectiva dela. Fale bem da mãe para os pequenos e veja o sorriso que se abre no rostinho deles. Nunca se esqueça que mãe é mãe e madrasta é madrasta. As duas são igualmente maravilhosas e devem somar na educação de crianças e adolescentes”. “Meu enteado já me chamou carinhosamente de sapadrasta (ao me conhecer), bancodrasta (quando me pedia mesada), semidrasta (quando eu era noiva do pai dele) e depois quasedrasta (após o casamento civil). Então, quando o pai deu a ele a certidão de casamento, ele leu atentamente e me perguntou: “Onde aqui está escrito que você é minha madrasta?”, nós todos rimos muito. Conclusão: Pode ser divertido ser madrasta”, finalizou.

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Transcrito de:

https://revistacrescer.globo.com/Educacao-Comportamento/noticia/2021/02/o-dificil-papel-das-madrastas-maes-podem-enlouquecer-brigar-xingar-nos-nunca.html

Em Salto, 26 de Fevereiro de 2021