A Filosofia e as Utopias

Entre as características intrigantes do ser humano há duas que particularmente me fascinam.

A primeira é nossa capacidade de filosofar. É essa característica que nos permite olhar para o que está aí – olhar a realidade – e perguntar “Por quê?” “Por que as coisas são assim?”.

A filosofia é a ciência-mãe dos porquês. Talvez o porquê mais básico seja: “Por que existe alguma coisa, e não nada?” Mas há outros porquês interessantes. “Por que dividimos os enunciados que fazemos acerca das coisas, das pessoas, dos eventos, dos processos, etc. em verdadeiros e falsos?” – e, em regra, não admitimos outra alternativa (tertium non datur)? “Por que distinguimos entre conhecimento e mera opinião?” “Por que classificamos ações (posturas, atitudes, etc.) em moralmente certas, moralmente erradas” — e, neste caso, reconhecemos outras que não são nem uma coisa nem outra, e, portanto, parecem ser moralmente neutras? “Por que diferenciamos as coisas (pessoas, cenas, paisagens, etc.) entre belas e feias” — e, também neste caso, talvez, ainda outras, que não são nem uma coisa nem outra, parecendo ser esteticamente neutras? “Por que acreditamos que haja uma forma perfeita de viver, pessoalmente, como indivíduos, e, coletivamente, como sociedade?”

A segunda característica intrigante do ser humano é nossa capacidade de construir utopias. Essa característica está relacionada à última pergunta mencionada no parágrafo anterior: “Por que acreditamos que haja uma forma perfeita de viver, pessoalmente, como indivíduos, e, coletivamente, como sociedade?” Somos capazes de construir utopias porque acreditamos que a perfeição é possível e que devemos lutar para alcança-la.

É essa segunda característica que nos permite olhar ao que está aí (a realidade), imaginar algo que nos parece melhor, e daí perguntar “Por que não?” “Imagine all the people living life in peace…” “Imagine all the people sharing all the world…” Por que não?, pergunta John Lennon – e muita gente segue a sua trilha…

O pensamento filosófico tenta entender o que está aí, procurar suas causas, buscar suas razões…  O pensamento utópico tenta nos levar além do que está aí, na busca de uma realidade melhor, quiçá perfeita…

Será que nossa capacidade de filosofar e nossa capacidade de, digamos, utopizar (construir utopias) são apenas duas faces de uma mesma moeda? Serão essas características do ser humano simplesmente complementares?

Não resta dúvida de que, sendo ambas características tipicamente humanas, a nossa capacidade de filosofar e a nossa capacidade de utopizar estão ancoradas numa mesma natureza que quer, ao mesmo tempo, entender e explicar a realidade, mas, também modifica-la, transcendê-la, torna-la melhor, trazê-la mais perto da perfeição…  Karl Marx chegou a dizer que os filósofos procuraram entender e explicar o mundo – mas que o importante seria transforma-lo… O “imagine all the people sharing all the world and living in peace” de Lennon talvez seja a visão poética de uma sociedade marxiana para qual cada um contribui segundo as suas habilidades e da qual cada um retira segundo suas necessidades, sem conflitos, numa boa, e, portanto, sem necessidade de um estado que, estando acima dos indivíduos, resolva os litígios, salomonicamente, de modo que as partes litigantes concluam que saíram ganhando (win-win)…

O problema é que Marx tenta, ao mesmo tempo, filosofar (no sentido em que estou usando o termo, que inclui “cientifizar”) e utopizar… Talvez o maior nó górdio de sua obra esteja nessa mistura: está Marx falando aqui como cientista ou como idealista revolucionário? Está fazendo uma predição científica ou expressando um desejo intenso (para a atinção do qual seriam necessários, primeiro, um novo homem, a ser formado pela educação “partisane”, e uma nova ordem social, a ser construída pela violência revolucionária)? Será possível que as duas características co-existam pacificamente numa mesma pessoa, ao mesmo tempo – ou será que estamos fadados a exibir, alternativamente, ora uma, ora outra, tentando lidar, no processo, com possíveis incoerências, ou mesmo contradições, de abordagem e postura?

Não resta dúvida de que devemos filosofar (que inclui o cientifizar), isto é, conhecer a realidade, inclusive a realidade da natureza humana, e de que devemos utopizar – isto é, sonhar, porque as utopias são feitas de sonhos… E também não resta dúvida de que muita coisa que, no passado foi apenas sonho, e, portanto, utopia, hoje é realidade… (Apesar do desencanto de muitos com o mundo atual, ele é muito melhor do que qualquer outro mundo que já existiu: o progresso humano e social é uma realidade inegável). Alguém já nos aconselhou a tomar cuidado com aquilo com que sonhamos, porque os sonhos podem se tornar realidade…

Reinhold Niebuhr, famoso teólogo protestante americano, uma vez propôs uma oração cujo conteúdo (excluída a forma de prece) ganhou o endosso até mesmo da atéia Ayn Rand. “Ó Deus”, disse ele, “dá-me serenidade para aceitar o que não é possível mudar, coragem para mudar o que é possível mudar, e sabedoria para reconhecer onde estão os limites de um e de outro”… A oração de Niebuhr reconhece que há muita coisa que é possível mudar (utopia) – mas reconhece também que há coisas que não é possível mudar (realidade). O desafio é saber o que se encaixa numa e noutra categoria. [A oração de Niebuhr na verdade foi copiada de um teólogo alemão do século 18: Friedrich Christoph Oetinger (1702–1782)].

Agostinho, de longe o mais importante Pai da Igreja, escreveu um opus magnus chamado Civitas Dei / Cidade de Deus. Nessa obra descreveu, de um lado, a ordem divina, como prevista na criação, e, de outro, a ordem humana, contaminada pelo pecado (introduzido no mundo pela queda de nossos primeiros pais, que transformou o nosso DNA de forma irremediável…) A primeira, perfeita; a segunda, condenada a imperfeições diversas. Ao fazer a distinção entre essas duas ordens, ou cidades, e reconhecer que a humana é inescapavelmente imperfeita, tanto no plano individual como no social, Agostinho reconhece, digamos que realisticamente, que somos, em nossa vida pessoal e nas construções sociais que elaboramos, inevitavelmente imperfeitos, e que, portanto, desejar e esperar perfeição, nesta cidade humana, é enganar-se e, assim, condenar-se à decepção e à frustração. Perfeição só existe na Cidade de Deus – mas por ora não vivemos nela… (Jesus Cristo, que era ao mesmo tempo homem, Jesus de Nazaré, e Deus, ou o filho dele, o Cristo de Deus, o Enviado de Deus, convivia, simultaneamente nas duas cidades, era um homem perfeito, e, nessa condição, nos liberta, nos salva, da necessidade de buscar a perfeição… A narrativa é fantástica, não há como não reconhecer…).

Por causa dessa visão metafísica da natureza da realidade, inclusive da realidade humana, a antropologia filosófica e a filosofia política de Agostinho foram extremamente realistas. Os governos, admitiu ele, não passam de bandos de ladrões e de corruptos… Imaginar que os governos possam ser puros na intenção e na conduta é desconhecer a realidade da Cidade do Homem… Acreditar que um determinado governo possa ser outra coisa que não um bando de ladrões e corruptos é enganar-se, é tornar-se presa mais fácil dos ladrões e dos corruptos, é condenar-se à decepção e à frustração. Jair Bolsonaro, crente, e presidente que eu ajudei a eleger, devia, no momento certo, ler um pouco de Agostinho…).

A visão realista e, por causa disso, pessimista de Agostinho influenciou os reformadores protestantes. Calvino, em especial, talvez o mais agostiniano dos reformadores, absorveu muito dela. Alguns autores chegaram até a imaginar que Calvino tivesse sido influenciado por Maquiavel, mas, acredito, a água que Calvino bebeu foi mais a que jorrava da fonte do sábio africano do que a do pensador florentino… Ele acreditava que a natureza humana havia sido corrompida pelo pecado, e, que, portanto, mesmo o crente salvo e santificado não consegue escapar da condição humana e, por conseguinte, chegar à perfeição… Apesar do que acreditam alguns calvinistas, a santificação é algo que já ocorreu, em Jesus Cristo, não algo pelo qual devemos batalhar no dia-a-dia da vida cristã…

Adam Smith, filósofo do século XVIII, escocês (a Escócia foi, depois da Suíça Francesa, onde o calvinismo surgiu, a primeira nação realmente calvinista no mundo), o melhor amigo de David Hume e o pai do liberalismo laissez faire que se tornou o alicerce da nação americana (durando cerca de um século ali), aprendeu as lições agostinianas e calvinistas. O homem, diz ele, é egoísta, pensa primeiro em seus interesses e em suas necessidades. Por isso, a ordem social deve ser construída em cima dessa premissa, não negando-a. Tentar construir uma ordem social imaginando ser possível, primeiro, mudar a natureza humana, torná-la altruísta, focada nas necessidades dos outros, é agir na ignorância dessa premissa básica. Tentar construir uma nova ordem social – “um novo mundo é possível” – imaginando que, no processo, conseguiremos criar um novo homem novo, diferente, heterofocado, não egofocado, é condenar o empreendimento, desde o início, ao fracasso – e nos condenar à decepção… A origem do mal, na sociedade humana, a tentação diabólica que sempre nos persegue, desde o Éden, está na “sedução do impossível”… A Serpente seduziu Adão e Eva lhes prometendo que, se desobedecessem a Deus, e comessem do fruto proibido “se tornariam como Deuses” – a sedução do impossível! (Vide Mario Vargas Llosa, La Tentación de lo Imposible / A Tentação do Impossível, a propósito de Les Misérables / Os Miseráveis, de Victor Hugo).

A ordem social possível, segundo Adam Smith, é aquela que (para usar as palavras de Bernard de Mandeville) procura transformar “vícios privados” em “virtudes públicas”… Nas palavras de Adam Smith, o padeiro não pensa primariamente nas minhas necessidades, quando me vende pão: ele pensa, egoisticamente, no interesse dele, que precisa ter uma fonte de renda. Mas ele sabe que seu interesse só vai ser satisfeito se ele pensar na minha necessidade… De igual forma, eu compro o pão dele não porque esteja pensando que o padeiro tem necessidade de dinheiro, precisa de uma fonte de renda, mas porque tenho um interesse, muito egoísta, de me alimentar e prefiro me livrar de um pouco de meu dinheiro comprando pão feito a gastar meu tempo fazendo eu mesmo o pão… Os dois, o padeiro e eu, somos egoístas – mas nosso “vício privado” se transforma numa “virtude pública” que nos beneficia a ambos (e a muitos outros, no processo). Aquilo que, na esfera privada, é um vício, na esfera pública se torna uma virtude. (Vide Ayn Rand, The Virtue of Selfishness / A Virtude do Egoísmo).

Pulemos, agora, do plano social para o plano individual… Saltemos de Agostinho, Maquiavel, Calvino, Adam Smith, e Karl Marx para Vinicius de Moraes…

Uma vez, assistindo ao casamento de um dos filhos de uma de minhas primas, ouvi o pastor dizer algo assim: “Se vocês estão aqui pensando que o casamento vai tornar vocês felizes, podem virar nos calcanhares e ir embora… O objetivo do casamento não é nos fazer felizes, mas, sim, nos dar uma excelente oportunidade de fazer o outro feliz, de tornar feliz o casamento”… Bonito, mas pouco realista. Creio que Aristóteles estava certo de que o animal humano nasce para ser feliz – e vai sempre buscar, egoisticamente, a sua felicidade…  Quando duas pessoas se amam e resolvem viver juntas, um tenta fazer o outro feliz, mas isso acontece, não altruisticamente, porque a felicidade do outro nos importa mais do que tudo, mas egoisticamente, porque ver o outro feliz nos torna felizes… Quando, por alguma razão, a felicidade do outro não nos torna mais felizes, é porque o amor deixou de existir, ou surgiu um outro amor, maior… Nesse caso, deixamos de perseguir a felicidade de nosso parceiro e vamos tentar ser felizes com outro… Assim é a vida… Assim é a realidade…

Vinicius de Moraes… A melhor poesia do diplomata brasileiro convive com uma visão realista da natureza humana… O amor, diz ele, não é imortal, posto que é chama… O máximo que podemos pretender é que seja infinito, enquanto dure! A razão pela qual o amor não é imortal, segundo ele, não está no fato de que nós, que amamos, somos mortais. O amor não é imortal porque ele, o amor, é chama – e a chama pode se apagar a qualquer momento, diante dos ventos que constantemente a açoitam… (No caso do amor, o que parece impossível pode, aparentemente, acontecer: vemos amores que duram 70, 80 anos, e que são, para todos os fins práticos, eternos – casos em que, quando um morre, o outro também morre em seguida, sem precisar se suicidar, porque o que era a vida dele já se acabou e se trata apenas de deixar o corpo morrer também…)

Mas o normal não é isso. Diante da lição de realismo de Vinícius de Moraes, até mesmo o voto de “amar até que a morte nos separe” é uma promessa que, o mais das vezes, por mais que queiramos, não temos como cumprir… a menos que a morte do corpo chegue cedo demais, antes da morte do amor… Amar para sempre, amar eternamente, amar até depois da morte – tudo isso é, na visão do poeta, utopia… O limite do seu realismo está em procurar tornar o amor infinito, enquanto ele dura – sabendo que ele pode terminar a qualquer momento, pela nossa morte… O infinito, para Vinicius, não é sinônimo do eterno.

Em São Paulo, 30 de Outubro de 2018

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