Duas magníficas crônicas da Mário Prata

Transcrevo, do site do autor:

As Meninas-Moça (O Estado de S. Paulo, 07/04/1999)

http://www.marioprataonline.com.br/obra/cronicas/prata990407.html

O que é isso, Ministro Paulo Renato? (O Estado de S. Paulo, 16/06/1999)

http://www.marioprataonline.com.br/obra/cronicas/prata990616.html

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O Estado de S. Paulo, 07/04/1999

As Meninas-Moça

Mário Prata

Não sei quantos anos tem a moça, nem o leite da moça. Mas, desde que eu me entendo por gente, que tem uma lata por perto. Com aquela moça com jeitão de suíça (se for búlgara, não faz a menor diferença). Embaixo, está escrito: indústria brasileira. Sim, não tem nada mais brasileiro do que o sempre bem-vindo leite condensado. Qualquer que seja a sua idade.

Sabe com o que as gordinhas sonham nos spas? Com elas. As latinhas condensadas. Não uma, que não sacia. Muitas moças, muitos leites moça.

Um furinho de cada lado, um maior onde vai a boca. E é só chupar que a moça entra dentro de você. Gostosa, macia. Quem já fez isso, sabe o delírio que é.

Quem é que nunca acordou de noite e foi até a geladeira, sem acender a luz da cozinha e, só com a penumbra da luzinha interna, levou a latinha até os lábios pra melecar a língua? Talvez tenha ido dormir com uma certa culpa. Mas tomou e não escovou o dente pra não cortar o barato.

Larica é larica. Vide dicionário.

Tou aqui nessa fissura porque o Leites Nestlé, o time de vôlei feminino de Jundiaí, que já foi tricampeão brasileiro, está fora da final. Por duas gotinhas, ou melhor, dois pontinhos.

Sim, o time feminino. Não ia pegar bem homens subindo na rede com as letras Leite Moça no peito peludo. Não, Leite Moça foi feito para flanar esparramado em seios esplêndidos, chacoalhando no ar, jornadando até as estrelas e viajando ao fundo do mar de nossas emoções.

Isso tudo para falar da estranha torcida das pessoas que gostam de moças, de leite, de Leite Moça. Ou seja, as pessoas, como eu, que gostam de vôlei. Principalmente o feminino, balé de braços, de loiras e altitudes mil. Não tendo nem Corinthians, nem Palmeiras pra torcer, torcer pra quem no vôlei feminino que nos bafeja com aquelas bundinhas divinamente proeminentes?

Quem, em sã consciência, vai torcer por um BCN, que é um banco? Impossível dizer: sou BCN desde pequenininho. E desodorante, gente? Imagina a torcida gritando: de-so-do-ran-te!

De-so-do-ran-te. Pelo amor de Deus!

E vocês acham que os universitários da USP, da PUC, da FAAP, da Federal do Rio, da Veterinária de Uberaba, da Odontologia de Lins, da Santa Marcelina, vão torcer para a Uniban? Universidade Bandeirantes?

Difícil. A UNE ia interferir.

Por mais que eu seja amigo do Felipe – colega de faculdade -, desculpa, Felipe, mas não dá pra torcer pra Petrobrás. Falta-lhe passado esportivo. E o Blue Life, que é uma expressão americana que não significa, absolutamente, vida azul? Vida azul é leite condensado.

Sacou?

Foi pensando nessas bobagens todas que eu fui descobrindo que todo mundo torce pelo Leites Nestlé, no vôlei feminino. É o Flamengo, o Corinthians da categoria. Tem Corinthians até no técnico. O sujeito chama-se Negrão.

Ando lendo por aí que a empresa está pensando em fechar o time. Mas como? Como é que fecham um time? Já pensou, um dia o diretor chega e diz: vamos fechar o Corinthians. Não pode, cara! Aqueles meninas-moças todas voando pela quadra já fazem parte da latinha das nossas recordações. E sonhos: a Leila, mineira como o leite, que deixou até os japoneses desatinados.

E as pernas da Karin, que saem de dentro da lata, como que convocadas pelo gênio das lâmpadas que iluminam as quadras e as redondilhas dos seus ataques fulminantes aos nossos corações torcedores? Onde ficam as pernas da Karin?

E o colorido tropical da americana Tara? E a Elena, que não é do Machado de Assis, e sim dos Gorkis e Gógols?

Não tenho nenhuma dúvida: o Leites Nestlé é o time “da lata”. E ponto.

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O Estado de S. Paulo, 16/06/1999

O que é isso, Ministro Paulo Renato?

Mário Prata

Saber que uma crônica minha, publicada aqui neste espaço, foi tema da prova de português num vestibular para medicina só me envaidece. O ego dá um pulo. Melhor até mesmo que um elogio no The New York Times (sorry, mas eu tinha de contar).

A crônica imposta aos jovens se chama As Meninas-Moça. Publicaram a danada inteira e depois fizeram oito perguntas em forma de múltipla escolha. E eu, que escrevi, que sou o autor, errei as oito. Imagino os meninos e as meninas, que querem ser médicos, submetidos a tal dissecação.

Fico aqui me perguntando, ministro, pra que isso? Será que, para cuidar de uma dor de cabeça, um jovem tem de saber se a minha expressão “esparramados em seios esplêndidos” é uma paráfrase, uma metáfase, uma paródia, uma amplificação ou o resumo de um texto bem conhecido pelo cidadão brasileiro? Com toda a sinceridade, ministro da Educação Paulo Renato, você sabe me responder isso? Algum assessor seu sabe?

A gente educa os filhos direitinho, ensina o que achamos fundamental. Educação, honestidade, indica bons livros, explica porque o Maluf é nefasto, pede para ele torcer pelo Corinthians, apresenta gente decente, paga milhões de reais por bons colégios, ensina inglês e até paga o analista. Para que ele tenha um bom futuro e seja feliz. Meus filhos sabem, por exemplo, o que é larica. Você também sabe. Mas, para ser médico, a larica é outra. Veja mais um exemplo da prova: “Larica é larica. Vide dicionário.” Aí, para ser médico, o jovem precisa saber se esta pequena frase é poética, fática, metalingüística, emotiva-expressiva, referencial, conativa ou apelativa? O que você acha, Paulo Renato? Eu, larica à parte (e bem-vinda), não faço a menor idéia.

Será que não teria sido melhor publicar a crônica (como foi feito) e pedir para a garotada escrever o que quisesse, o que achasse, o que bem entendesse do que eu entendi? Deixar o jovem manifestar a sua opinião, fazer a garota escrever no lugar de ficar ticando opções fáticas?

O título da vestibular crônica,
já disse, era As Meninas-Moça e eu me referia ao time feminino de vôlei da Leites Nestlé que ia acabar. Olha o que eles perguntaram aos alunos, sobre o título:

a – ao usar meninas-Moça, não flexionou no plural o segundo elemento porque criou um neologismo, processo que não se submete a normas da língua;

b – ao criar um novo vocábulo, não transgrediu as regras de flexão dos compostos;

c – usou uma flexão admissível porque o segundo elemento é um nome próprio feminino;

d – ao usar a expressão do composto, violentou a regra da língua que preconiza, para esse caso, a variação no plural para os dois elementos;

e – usou apropriadamente a forma meninas-Moça, visto que o segundo elemento tem função apositiva.

O que você acha, ministro? Eu, fico entre a e b. Mesmo porque eu não tenho a menor idéia do que seja uma função apositiva. E você, Paulo Renato, vota em quem? F, H, C? Ou A, C, M? Ou M, E, C?

E agora, meu querido ministro, só para terminar a aula, me diga, nas expressões abaixo, onde você identifica um exemplo de intertextualidade:

a – “… principalmente o feminino balé de braços, de loiras e altitudes mim”;

b – “Não, leite Moça foi feito para flanar esparramado em seios esplêndidos, chacoalhando no ar, jornadando até as estrelas”;

c – “Aquelas meninas-moças, todas voando pela quadra já fazem parte da latinha”;

d – “Embaixo, está escrito: indústria brasileira”;

e – “… que saem de dentro da lata como que convocadas pelos gênios das lâmpadas que iluminam.”

E agora, C, D, ou F?

Já disse lá atrás, ministro e organizadores da prova, que sinto-me sinceramente envaidecido com a escolha de um texto meu. Mas jamais poderia imaginar que, ao escrever uma crônica pensando naquelas coxas todas, naqueles seios esparramados pelas quadras, ao escrever um texto de olho na Karin, ao digitar uma crônica preocupado com o desemprego da minha namorada (que fazia parte da equipe) fosse dar tanta dor de cabeça para dezenas de milhares de jovens que querem apenas uma profissão digna para enobrecer este nosso País tão mal-educado.

Quanto às pernas da Karin, ministro, vá de a, b, c, d e fim de papo.

Sacou?

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Transcrito em São Caetano do Sul, 19 de Outubro de 2010

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