Bondes e trens em Campinas (e Genebra)

Se a gente conseguisse determinar quem são os responsáveis pela desativação / destruição do sistema de tranporte sobre trilhos no Brasil (bondes, trams, trens de passageiros, etc.), cem anos no inferno seria pouco.

Não cresci em Campinas — mas sempre passei minhas férias, quando criança, em Campinas, pois aqui moravam meus avós maternos (e minha tia — que, velhinha, está ainda viva). Havia um sistema que, inicialmente, tinha doze linhas de bonde, que passo a descrever, para preservação da memória:

Linha 01 – Vila Industrial (saindo pela Rua General Osório [onde hoje fica a Igreja Presbiteriana Central] e Av. Andrade Neves)

Linha 02 – Vila Industrial (saindo na direção oposta, pela Rua Barão de Jaguara e Av. Moraes Salles)

[As duas linhas se cruzava na Av Salles de Oliveira, na Vila Industrial]

Linha 03 – Guanabara

Linha 04 – Taquaral

Linha 05 – Estação (Ferroviária)

Linha 06 – Cambuí (saindo pela Rua General Osório)

Linha 07 – Cambuí (saindo pela Rua Dr. Quirino e Av. Orozimbo Maia)

[As duas linhas cruzavam na Av. Julio de Mesquita]

Linha 08 – Bonfim

Linha 09 – Botafogo

Linha 10 – Castelo

Linha 11 – Cemitério da Saudade

Linha 12 – Bosque

Posteriormente acrescentou-se a

Linha 13 – Alecrins (que ia pra a Chácara da Barra, o Jardim Flamboyant, o Fura-Zóio).

Além dessas doze linhas havia uma linha especial, às vezes chamada de Linha 14, o chamado “bondão verde” (os outros eram amarelos e vermelhos), que ia para Souzas e Joaquim Egídio, até o Morro das Cabras, onde fico o Observatório de Capricórnio. É bom que se diga que Souzas e Joaquim Egídio, quando eu era criança, eram lugares perto do fim do mundo. Hoje eu saio de casa para ir cortar cabelo com o Zezito em Souzas. E Joaquim Egídio virou um lugar badalado, cheio de restaurantes interessantes.

O passeio no Bosque dos Jequitibás era o melhor passeio que uma criança podia fazer naquela época. O Bosque parecia longe. Hoje está dentro do centrão da cidade, como estão o estádio de futebol da Ponte Preta (o Estádio Moysés Lucarelli, que os “guaranienses”, aqui chamados de “bugrinos”, porque o símbolo do Guarani é um indiozinho, insistem em chamar carinhosamente de “pastinho”), que a gente via ao passar no trem da Paulista, chegando de São Paulo a Campinas, se estivesse nos bancos à direita, e o estádio de futebol do Guarani (o famoso “Brinco de Ouro da Princesa” — assim chamado porque Campinas tem o apelido carinhoso de “A Princesa do Oeste”: o campo do Guarani é o brinco de ouro da Princesa…).

Por falar em trens, a viagem de trem entre São Paulo e Campinas era uma delícia. Os trens da Paulista, sempre limpos e bonitos, com suas locomotivas azuis (isto de Jundiaí para o Interior — de Jundiaí para São Paulo as locomotivas eram vermelhas, porque os trilhos pertenciam à Estrada de Ferro Santos Jundiaí). Por algum tempo, houve a litorina, um trem rápido de três vagões que ia de Campinas até Santo André, onde moravam meus pais.

Para ir de Campinas para o Interior, havia várias opções. A Paulista, que ia na direção de Bauru e chegava até Dracena. A Araraquarense, a Noroeste, a Sorocabana, a Mogiana…Tudo isso sumiu no afã estatizante que matou a iniciativa privada do setor. O Estado estatizou para acabar. Uma vergonha.

Bons tempos aqueles em Campinas. A Lagoa do Taquaral ainda não era cercada, e muito menos o centro de lazer que é hoje — por obra e mérito de Orestes Quércia, quando foi Prefeito da cidade, que até colocou na lagoa uma réplica de uma das caravelas do descobrimento (não sei qual delas), hoje em lastimável estado de desconservação, obra de algumas administrações petistas. Antes da obra de revitalização do local realizada pelo Quércia a região não era bem vista, até porque as chamadas moças de vida fácil haviam escolhido o Taquaral como sua zona — zona essa que algum bom prefeito, talvez o Quércia também, mudou para um local bem afastado da cidade, no Jardim Itatinga, já quase chegando em Viracopos. Apesar disso, quando voltei a Campinas, em 1961, para estudar no Seminário Presbiteriano, no Alto da Guanabara, na Av. Brasil, eu não tinha medo nenhum de andar por aquelas bandas (Taquaral, a lagoa ou o bairro), sozinho ou com um namorada que era preciso entregar em casa, lá pela meia-noite. Ia e voltava a pé, porque os bondes paravam de circular por volta das 23 horas…

A gente (eu e meus colegas seminaristas) estudava para ser pastor. A ideologia que dominava o seminário naquela época era esquerdista — até 1966, quando houve o expurgo que até a mim levou de roldão. Por isso, nunca arrumava namorada rica, que morasse ali por perto do Seminário, naqueles casarões que, na época, pareciam maravilhosos — hoje, olhando para eles, vejo que não passavam de casas de classe média, em terrenos com frente de não mais de 10 m, com fundos de no máximo 30 m. A gente buscava umas namoradinhas mais simples e pobres, cujos usos e costumes fossem mais próximos da classe da qual a gente originava (em geral, D e E). Seminário protestante dificilmente era lugar de estudo de gente que tinha dinheiro — esses iam pra USP, ou para a França.

Quando fui para a Europa pela primeira vez, nos idos de 1987, fiquei surpreso de ver trens rodando para toda parte e bondes circulando por todos os bairros da cidade. A primeira cidade em que fiquei tempo razoável na Europa foi Genebra, na Suiça — lá chamada Suisse, com dois s’s — terra de Calvino, de Rousseau e para onde fugiu Voltaire). Eu comprava a Carte Orange e andava de ônibus, bonde (tram) ou trem subúrbio livremente durante um mês. A Carte Orange custava 27 francos suícos. Hoje, que sou “Senior Citizen”, provavelmente pagaria menos, mesmo que o preço tenha subido. De lá era possível sair para qualquer lugar na Europa.

Saudade de meu amigo Aharon Sapsezian, de Genebra, que, há dias, sofreu um infarto e uma parada cardíaca. Não consigo falar com a Zabel, a mulher dele — e, na verdade, tenho até medo de falar.

Wilson Azevedo me enviou o URL de um belo artigo sobre os bondes de Campinas e outro URL com o mapa das linhas de bonde: http://www.tramz.com/br/cp/cp.html e http://www.tramz.com/br/cp/cpm.jpg]

Em Salto, 24 de Junho de 2006 

  1. caro amigo não foi a politica de desativação da ferrovias do psdb que em favor de caminhoes e onibus por causa das multi, aqui em avare-sp da dó ver nossa estação ferroviaria apedrejada sem vidros cheia de mendigos, passa um trem de carga cada dois dias isso a 30 km um verdadeiro ferro velho, sucata mesmo , aqui na extinta sorocabana depois veio a ser fepasa, passava os de trens de passageiros, ao qual viajei, com ar condicionado, poltronas reclinaveis. saudades desse tempo.

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  2. Tenho uma grande dúvida com relação a numeração das linhas dos bondes de Campinas.
    Se bem me lembro:
    1 e 3 > Cambuí
    2 e 4 > Vila Industrial
    8 > Bonfim
    9 > Botafogo
    11 > Cemitério da Saudade
    12 > Bosque
    Havia bondes para o Guanabara, Taquaral, Castelo, mas não me lembro seus respectivos números de linhas.
    Também havia um bonde para Sousas, Joaquim Egídio e Cabras. Era de cor verde.

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  3. Sou filho e neto de ferroviários. Acompanhei de perto(perto demais) o sucateamento das ferrovias, especilamente no Estado de São Paulo, mas estudei bastante o problema e posso dizer que sim: estatitou-se para liquidar. Contudo essa “estatização” foi feita sob comando de interesses capitalistas e sua expansão no Brasil que usou o Estado( sob comando de elites proprietárias nacionais e internacionais) para tal. Isso é bastante óbvio se observamos que ao mesmo tempo aconteceu a implantação da indústria automobilística e anexos. A indústria automobilística(todas estrangeiras) e os distribuidoras de petróleo, conecidadas na época como as 7 irmãs. Poderosíssimas!

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  4. Não discordo de nada do que você diz, Tonhão, meu caro i(a quem desejo um excelente 2012, junto da Eli). Só constato o seguinte:

    1) Você diz muito.bem: “Estatizou-se para liquidar”. Faz bem refletir sobre isso. Por que é que os transportes sobre trilhos não teriam sido liquidados se tivessem permanecidos nas mãos de investidores privados? Porque esses investidores teriam reagido, para proteger o dinheiro que haviam investido, desenvolvendo ou adquirindo prontas as ferrovias (no caso). Ou seja: se o governo não tivesse tido o poder de expropriar ou desapropriar as ferrovias, retirando-as das mãos de investidores privados, nossas ferrovias provavelemente estariam aqui, nos servindo bem.

    2) Como, aliás acontece em vários outros países, todos eles capitalistas e operando na base da eonomia de mercado, como vários países europeus, norteamericanos e asiáticos. O problema, portanto, não se deve ao capitalismo ou à economia de mercado, mas, sim, ao poder que nossa estrutura institucional atribui ao nosso estado, que lhe permite, impunemente, favorecer alguns empresários (transportes rodoviàrios, combustîveis fósseis, construção de estradas de rodagem, etc.) em detrimento de outros (os proprietários de empresas derroviárias, entre as quais aquelas em que seu pai e seu avô trabalhavam e nas quais eu e você viajamos).

    3) Sem dúvida houve corrupção no processo. Mas ela só foi bem sucedida porque vivíamos, e ainda vivemos, num país que acha a corrupção de seus governantes algo normal, que não precisa ser extirpada, como a praga moral que é. Esse, repito, não é um problema do capitalismo ou da economia liberal: é um problema da cultura brasileira e do tipo de gente que essa cultura admite que ocupe os principais postos do nosso governo.

    Um abraço.

    Eduardo.

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