“O Elemento” – A Propósito do Livro de Sir Ken Robinson

Há muitos anos assisti na TV a um filme antigo, daqueles em branco e preto, de cujo nome já me esqueci. Mas não me esqueci de um trecho do filme em que um personagem explica a outro o seguinte.

As pessoas, diz ele, em geral trabalham fazendo coisas de que não gostam, apenas para ganhar dinheiro que custeie as necessidades básicas da vida e, quem sabe, permita que, no tempo livre (à noite, nos fins de semana e feriados, nas férias, na aposentadoria), possam fazer aquilo que realmente gostam de fazer e que lhes dá prazer, satisfação e realização.

É muito difícil ser bem sucedido no trabalho, explicou ele, se a gente não gosta do que faz e, por conseguinte, trabalha sem nenhum prazer.

A chave do sucesso, continuou ele, está em descobrir o que a gente realmente gosta de fazer, e que faria por puro prazer, mesmo que ninguém nos pagasse para fazê-lo, e, daí, encontrar ou inventar formas de ganhar dinheiro fazendo aquilo.

Se conseguirmos realizar essa proeza, conclui sabiamente, passaremos a vida inteira sem sentir que estamos trabalhando, nunca precisaremos nos aposentar, e, possivelmente, seremos bem sucedidos e realizados na vida profissional e felizes na vida pessoal.

Sir Ken Robinson, educador britânico atualmente residindo nos Estados Unidos, é um fantástico palestrante e um grande escritor. Em suas palestras é, além de tudo, divertido (uma busca pelo seu nome no YouTube vai revelar inúmeras apresentações e entrevistas dele – todas excelentes. Recomendo especialmente o conjunto de duas palestras de quinze minutos – assista aos trechos aqui e aqui – em que ele denuncia o fato de que a escola frequentemente desvia as crianças daquilo que elas realmente gostam de fazer e assim mata a sua criatividade. Vale a pena assistir. Essas duas palestras estão legendadas para o português.

Neste artigo, porém, não vou comentar as palestras em vídeo de Ken Robinsonas, mas, sim, um livro dele, publicado em 2009 com o título de The Element: How Finding your Passion Changes Everything (O Elemento: Como sua Vida Pode Mudar se Você Encontrar sua Paixão). “Paixão”, no título, não se refere a amor romântico, naturalmente: refere-se ao que mencionei anteriormente: aquilo que realmente gostamos de fazer, aquilo que nos faz vibrar, aquilo que nos dá prazer sustentável – aquilo que faríamos por puro prazer, mesmo que ninguém nos pagasse nada para fazê-lo.

O livro de Ken Robinson discute, portanto, o mesmo assunto daquele trecho do filme antigo que me ficou na memória até hoje, apesar de visto há cerca de duas décadas.

O termo “elemento” não é fácil de entender e deve ser explicado. Robinson não gasta muito tempo nesse detalhe, de modo que a explicação é em grande parte minha.

Cada animal tem um elemento no qual vive naturalmente – no qual, digamos, se sente em casa. Para os pássaros, é o ar. Embora vivam bem na terra também, é no ar que parecem se realizar. Para os peixes, por outro lado, é a água. Para boa parte dos demais animais, e para nós humanos, o elemento é a terra. A terra é a nossa casa. (Também a Terra o é, mas aqui estamos falando na terra, com minúscula, algo que se contrasta com o ar e a água.)

O ser humano, porém, tem características especiais. Sua “programação genética”, por assim dizer, é relativamente aberta, o que lhe permite definir, no devido tempo, que tipo de indivíduo deseja ser. Mas ele nasce, segundo tudo indica, não uma tabula rasa, na qual qualquer coisa pode ser escrita, mas com certas características pessoais e capacidades ou aptidões naturais (como a de aprender) que o fazem único e inconfundível entre as espécies animais.

Para se desenvolver como ser humano, o bebê humano precisa, em interação com o seu meio social, cultural e natural, desenvolver capacidades adicionais, que são adquiridas ou construídas através da sua capacidade ou aptidão natural para aprender. A essas capacidades adquiridas ou construídas dá-se hoje o nome de competências. Uma competência é um conjunto de habilidades adquiridas ou construídas pela aprendizagem que permite ao ser humano fazer coisas que ele não sabe fazer naturalmente – como, por exemplo, falar uma linguagem verbal específica, ou ler e escrever o código escrito dessa linguagem.

No devido tempo, o ser humano precisa definir para si um projeto de vida: isto é, ele precisa decidir que tipo de vida quer ter ou levar, que tipo de pessoa gostaria de ser… O processo que chamamos de educação é, em última instância, um processo de desenvolvimento humano que abrange dois componentes:

* Um é a definição da pessoa que realmente gostaríamos de ser e da vida que realmente gostaríamos de ter ou levar [isso seria nossa “paixão”, nosso “interesse maior”];

* O outro é o aprimoramento de nossos talentos naturais e o desenvolvimento das competências necessárias para ser essa pessoa e viver essa vida [isso seria o nosso talento, em sentido amplo, não havendo, aqui, necessidade de distinguir o que seria inato e o que seria aprendido e, por conseguinte, adquirido]..

[Nessa visão da educação não somos nós, os educadores, que definimos o tipo de ser humano que queremos “formar”, mas, sim, a criança que escolhe que tipo de pessoa ela quer ser, vale dizer, que ela pretende tornar-se.]

Algumas competências básicas, como falar uma linguagem verbal, são essenciais para qualquer projeto de vida. No tipo de sociedade desenvolvida em que vivemos, ler e escrever o código escrito dessa linguagem também são competências essenciais para qualquer projeto de vida. Muitos argumentam que manejar tecnicamente as tecnologias digitais, e saber o que fazer com elas, também são competências essenciais aos seres humanos privilegiados que vivem no século 21, em que essas tecnologias estão por toda a parte.

Mas, depois dessa excursão a terreno próprio, voltemos ao livro de Sir Ken Robinson.

Ele não tem dúvida (e eu também não tenho, embora reconheça que essa questão, como qualquer outra, esteja aberta à discussão) de que todos nós nascemos com certas capacidades e aptidões naturais adicionais, isto é, além da capacidade ou aptidão de aprender. Normalmente chamamos essas capacidades ou aptidões adicionais de talentos naturais, ou dons – um dom é algo que nos é dado, que não fomos nós que adquirimos ou construímos. Uns têm o dom da comunicação verbal (oral ou escrita), outros o dom de lidar com números, outros o dom da música (que se desdobra em vários dons subsidiários), outros o dom da dança (que também se desdobra em vários dons subsidiários), outros o dom do esporte (que igualmente se desdobra em vários dons subsidiários), outros o dom da negociação e da resolução de conflitos, que desemboca, quando bem sucedida a sua aplicação, em acordos e consensos. E por aí se vai. 

Há cinco coisas importantes que precisam ser ditas acerca desses talentos naturais ou dons:

*  Primeiro, os talentos naturais ou dons dos seres humanos são incrivelmente variados e divergentes;

*  Segundo, todos nós temos algum talento natural ou dom – ou, em muitos casos, mais de um;

*  Terceiro, muitos de nós passamos a vida inteira sem descobrir quais são os nossos talentos naturais ou dons;

*  Quarto, mesmo quando os descobrimos, nada garante que venhamos a ter prazer no exercício de nossos talentos naturais ou dons;

*  Quinto, a escola é uma instituição convergente, oposta à diversidade, e, ao tentar vestir em todos nós a camisa de força da padronização e da uniformização, conspira contra a descoberta de nossos talentos naturais ou dons ou contra o exercício prazeroso e sem culpa deles.

O segundo desses itens pode parecer a alguns um artigo de fé, mas todo o trabalho que tem sido feito acerca do que Howard Gardner chama de “inteligências múltiplas” parece confirmar esse princípio.

Ao lado de nossos talentos naturais ou dons, todos nós – ou, talvez, a maioria de nós – tem uma paixão, pelo menos “umazinha”: alguma coisa que realmente gostamos de fazer, e que faríamos por puro prazer, mesmo que ninguém nos pagasse para fazê-la. Alguns, quem sabe, bafejados pela sorte, têm mais de uma paixão (nesse sentido que estamos usando o termo).

Como disse atrás, é possível ter talento natural ou dom para alguma coisa cujo exercício, entretanto, não nos dá nenhum prazer. O talento sem paixão pode até levar a razoável sucesso, mas não traz realização profissional e pessoal.

Por outro lado, muitos de nós somos apaixonados por coisas para as quais não temos muito talento natural ou dom. Todos nós conhecemos gente que adora cantar ou tocar violino mas acaba martirizando seus amigos com essa paixão sem talento. A paixão sem talento pode até trazer prazer e alguma realização pessoal, mas dificilmente leva à realização profissional e ao sucesso. (Neste caso, se a paixão é cantar, o banheiro, com a porta bem trancada e algum dispositivo de isolamento acústico, é um lugar bastante adequado para o exercício dessa paixão.)

O desafio, diz Sir Ken Robinson ecoando o personagem do filme antigo mencionado no início, é encontrar aquele ponto em que nossos talentos naturais ou dons e nossa paixão  (ou nossas paixões) convergem e finalmente se misturam. Quando o encontramos, estamos naquilo que ele chama de “nosso elemento”. 

Talvez este seja realmente um artigo de fé, mas se o procurarmos com afinco, e principalmente a escola e outras instituições sociais não nos atrapalharem, todos nós oportunamente encontraremos o “nosso elemento”. Infelizmente, às vezes tarde demais para nos valer alguma coisa significativa.

Como sou filósofo por formação, vou terminar vendendo meu peixe. Entre as atribuições da filosofia da educação está definir um conceito de educação. Faz uma diferença enorme – mas enorme, mesmo – qual é o nosso conceito de educação, e, portanto, o nosso entendimento da educação.

Se entendemos a educação como o fez o sociólogo francês Émile Durkheim (1858 – 1917), como o processo através do qual as gerações mais velhas “procuram suscitar e desenvolver, nas crianças, (. . .) [os] estados físicos, intelectuais e morais, reclamados pela sociedade política no seu conjunto e pelo meio especial a que a criança, particularmente, se destine”, nós vamos ver a função da escola de um jeito…

A educação, neste caso, é um processo que age de fora para dentro, é algo que as gerações mais velhas fazem com as mais novas, com o intuito de adaptá-las à vida social, em geral, e para as funções sociais específicas a que a criança particularmente se destine. Nesse caso, os talentos naturais ou os dons da criança – o seu potencial – pouco importam. Ela  tem de ser o que ela tem de ser.

Se entendemos a educação, entretanto, como o faz meu amigo Antonio Carlos, o Toninho, professor de educação básica em Campinas, que chega a dar aulas de História 60 horas por semana na escola pública, como o processo mediante o qual nos tornamos capazes de sonhar os próprios sonhos e competentes para transformá-los em realidade, nós vamos ver a função da escola de um outro jeito…

A educação, neste caso, é o processo que contribui para que encontremos o nosso elemento – e a escola, a instituição que busca promovê-lo, não coibi-lo ou cerceá-lo.

Fazendo a ponte com o meu artigo anterior, quando estamos no nosso elemento, nossas ferramentas são também nossos brinquedos, e nossos brinquedos, as nossas ferramentas de trabalho.

E, neste caso, não faz sentido nenhuma outra educação que não a personalizada.

Em São Paulo, 18 de Abril de 2011; revisto em Salto, 15 de Setembro de 2016. 

(Artigo originalmente publicado no Blog das Editoras Ática e Scipione. URL original: http://blog.aticascpione.com.br/)

  1. Adorei. Penso sobre isso sempre; a meu respeito e em relação aos meus alunos. É bem difícil descobrir o nosso elemento. E talvez ele mude com o tempo…o que torna a busca mais complexa. No meu caso cheguei à conclusão (por enquanto com 45 anos…) que meu elemento é: Flauta-Transversal-Kung-fu-Filosofia-da-Ciência. Uma palavra só!
    Obrigada por compartilhar seus pensamentos! Valeu!

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