What Helena Rosenblatt Calls Liberalism is Mostly Fake Liberalism

NOTE: This is a review, published today in the AMAZON US site, of the book The Lost History of Liberalism: From Ancient Rome to the Twenty-First Century, written by Helena Rosenblatt. The publication is in the following URL, from which it was transcribed here:

First, I want to thank C. Puplick, author of the magistral Liberal Thinking: A Contemporary Statement of Liberal Philosophy, published in 1980, and unfortunately out of print presently, for his review here in this site. In my view it is mostly in the correct direction, and it inspired me to write the present review.

For those that do not know it, Puplick (full name: Christopher John Guelph Puplick) is an Australian former politician (though born in England, in 1948), still alive and kicking… He was a member of the Australian Senate during the late 1970’s and throughout the 1980’s. Then Australia chose to go in a different (illiberal) political direction and he was not reelected, which was too bad (for Australia), in my opinion.

I will in what follows make a light criticism of Puplick’s review, try to make clear why I, like Puplick, but for different reasons, do not agree with the main thesis of Helena Rosenblatt’s book, and, finally, explain why I give her book five stars in this review, although I flatly disagree with her understanding of liberalism and with the main thesis of her book.

FIRST: My major disagreement with Puplick has two prongs: (a) on the one hand, it has to do with his charge that Rosenblatt “misses the fine but critical distinction between liberalism and libertarianism”; and, (b) on the other hand, it has to do with his assertion that “it’s the latter [libertarianism] which owes its origins to the French and American Revolutions and is now [then-date of his review, 2019, probably a bit earlier] manifest in the Yellow Vest and Tea Party movements.”

Regarding (a), Rosenblatt, in my opinion, does not miss the distinction between liberalism and libertarianism. What she does is to place her view of liberalism, which is basically FDR’s New Deal liberalism, which became the main political platform of the Democratic Party in the USA to this day, as the paradigm for looking at the entire history of liberalism. This twentieth-century American version of liberalism is a misnomer, proposed by the American democrats. It certainly does not have its roots in the Founding Fathers of the American Revolution and of the USA and their British antecedents (mostly John Locke and Adam Smith). It is reasonable to suggest that its roots are in nineteenth-century various European socialist initiatives (including the Fabian Socialism in Britain). The American libertarians mentioned by Puplick tried to recover the (classical!) liberalism of the Founding Fathers (and of Locke and Smith) AND radicalize it to the point that it became almost a form of anarchical liberalism or liberal anarchism – and did this in order to prevent the growth of the “liberalism”, in quotation marks, of the American Democratic Party.

Regarding (b), it is not the libertarian movement which arose around the Tea Party initiative which owes its origins to the French Revolution, but the “liberalism” of the Democratic Party. (By the way, Puplick seems to consider that the French Revolution was of the same ideological nature and had the same theoretical basis as the American Revolution: if he does think that I think he is wrong, but this is another issue.)

SECOND: My view of what Helena Rosenblatt tries to do in her book is that it is not a “revisionist” reconstruction of perennial liberalism (classical liberalism, for those that prefer to use this expression). She tries to present as the “real and true liberalism” what in truth is a “counterfeit liberalism”, or “fake liberalism”, namely, the ideology of the French Revolution (not of the American Revolution), which is much closer to the thought of the present-day Democratic Party of the USA (and to the positions of the United Nations Organization) than it is to the thought of the Founding Fathers and of Locke, Smith (and, I should add, David Hume, on whom I wrote my Ph.D. dissertation in the years 1970-1972 at Pitt). This is my main criticism of Helena Rosenblatt.

THIRD: Why do I assign five stars to Rosenblatt’s book even though I totally disagree with her main thesis? Because it is a good piece of academic work that is quite informative and enjoyable to read, even though her main thesis is, in my opinion, wrong. And, after all, because I am a classical liberal who can appreciate a good book even though I totally disagree with its main thesis. The book is well worth reading – if you do it critically.

Salto, SP, Brazil, June 23rd, 2026

Eduardo Chaves

O que Significa “Ser de Direita” Hoje no Brasil

Vi ontem [12.5.2022] um videozinho do Luiz Felipe Pondé, discorrendo sobre o que significa “ser de direita” na Universidade hoje. Embora concorde, em grande parte com ele, resolvi escrever sobre o meu ponto de vista acerca do assunto — sem tocar na questão da Universidade, que, para mim, felizmente, são águas passadas. Faz 15 anos que me aposentei da UNICAMP e posso contar nos dedos as vezes que voltei lá. Resolvi ignorar essa instituição que um dia foi nobre e em que um dia eu me orgulhei de trabalhar. Vou discutir, portanto, o que significa ser de direita no Brasil hoje, sem focar no contexto universitário.

Concordo basicamente com o Pondé na tese de que ser de direita no Brasil de hoje é ser liberal clássico, defender direitos e liberdades individuais, um estado mínimo, e, por conseguinte, a economia de mercado. Sei que há gente que discorda, dando ênfase ao papel de uma “direita cultural” e a “pauta de costumes” (sexo, aborto, etc.). Acredito, como liberal (mais do que isso, vejo-me hoje bem mais próximo do libertarianismo anárquico), na liberdade das pessoas de serem o que desejam ser. Detesto a criação de pautas, causas e movimentos e o proselitismo que a criação dessas pautas, causas e movimentos fatalmente implica. Mais sobre isso depois.

O que significa ser “de direita” no Brasil de hoje?

  1. Ser “de direita” significa, no Brasil de hoje, em primeiro lugar, numa tese negativa, “não ser de esquerda”. Muita gente não gosta de teses negativas, mas neste caso é apropriado. Boa parte dos brasileiros que se definiu como de direita nos últimos tempos o fez para marcar posição contra o petismo e os seus petralhistas, e os movimentos que ficam mais à esquerda do PT (e que chegam até, em alguns casos, a considerar o PT de centro-direita). Mas reconheço que dizer que ser de direita é não ser de esquerda me obriga a definir, em seguida, o que é ser de esquerda. Não deixarei de fazer isso, como vai ficar claro em seguida.
  2. Ser “de direita” significa, no Brasil de hoje, agora numa tese positiva, considerar sempre o Indivíduo como o elemento mais fundamental nos binômios “Indivíduo e Sociedade”, “Indivíduo e Estado”. A sociedade é composta de indivíduos e não tem existência sem eles. Ela não é um ente platônico que tem existência, direitos, opiniões, voz, etc. à parte dos indivíduos que a compõem. E o estado é uma criação dos indivíduos. É difícil imaginar e crer que tenha havido uma sociedade de indivíduos sem nenhum mecanismo de governança, a chamada “sociedade natural” (erroneamente chamada de “estado natural”, a menos que o termo “estado” signifique apenas “condição”, sem um sentido mais técnico). E difícil imaginar que esses indivíduos tenham se reunido e poderado: “Oi galera, a gente tem brigado muito, vamos criar um estado, botar o Sarney na presidência, e ele cria um congresso para fazer umas leis, um tribunal para decidir quem violou as leis, e uma polícia para prender os condenados. É bem mais provável que as coisas tenham acontecido de modo mais natural, espontâneo, e, em retrospectiva, se inventou o mito do “contrato social”.
  3. Considerar o indivíduo o elemento mais fundamental na esfera do humano, não o grupo (o “coletivo”, como a esquerda gosta de denominar o grupo), significa que, nos conflitos inevitáveis que vão surgir entre o indivíduo e a sociedade e o indivíduo e o estado, nossa solidariedade primeira deve estar com o indivíduo. Ele é um ser individual, sozinho — a sociedade são muitos, e o estado representa muitos, pois doutra forma não seria estado, a não ser pelo uso de uma força tão extrema que poria todo mundo contra ele. Isso significa, portanto, que quando falamos em direitos, a saber, o direito de pensar, o direito de expressar (tanto o pensamento como as emoções e a forma de ser), o direito de ir e vir (tanto dentro do país, como pra fora e pra dentro do país), o direito de se organizar e se associar em grupos ou se associar a grupos para fins lícitos, o direito de possuir bens e propriedades (tanto de bens tangíveis como intangíveis, tanto de propriedades materiais como imateriais), etc., é de direitos de indivíduos, de direitos de pessoas humanas vistas como indivíduos, não de direitos de blocos ou grupos de pessoas, que estamos falando, e que esses direitos devem prevalecer contra a força, o poder e a autoridade do estado, da sociedade, e de grupos dentro da sociedade. E que, quando os direitos de indivíduos conflitarem uns com os direitos de outros indivíduos, deve haver meios pacíficos e com autoridade moral e de fato para decidir quais direitos devem prevalecer.
  4. Isso significa, portanto, que em uma sociedade organizada com base no princípio da primazia dos direitos individuais, esses direitos devem realmente ter primazia, não só com base em princípios utilitários (como se verá), mas, e principalmente, com base em princípios morais. O princípio da maioria pode ser útil para decidir quem vai governar, mas, mesmo neste caso, deve haver previsão para remover maus governantes de forma pacífica e indolor, e, isso, quando prevaricam, ou por pura incompetência, ou pela prática deliberada de atos imorais — porque não sabem o que fazer ou por escolherem fazer o que não é certo. Até aí a moralidade se aplica, e ela é inerente aos indivíduos e às ações individuais. É preciso considerar sempre o Indivíduo o elemento mais fundamental. Ninguém deve ser exculpado em um linchamento alegando que, “bem todo mundo estava batendo nele, e então eu também fui lá e dei umas porradinhas…”.
  5. Toda essa conversa de “direito individual” como sendo “natural”, “inalienável”, surgiu porque se acredita que haja uma “lei moral natural”, inerente à natureza do ser humano, que se aplica ao ser humano, independentemente de qualquer sociedade em que ele viva, em qualquer época histórica, independentemente de haver estado (que de forma alguma é sua fonte). É essa lei moral é a base da moralidade do dia-a-dia, e é ela que torna certos atos individuais imorais independentemente de tempo ou lugar — ou de haver uma lei positiva que os proíba. É por isso que a maior parte dos liberais clássicos não acredita que direitos individuais sejam direitos outorgados por uma sociedade ou por um estado. Para eles, à sociedade e ao estado só cabe reconhecê-los e fazer valer esse reconhecimento (até, agora, no caso do estado, pelo uso da força, que só pode ser aplicada para impedir ou corrigir uma injustiça, a saber, uma violação de direito).
  6. Mas o apelo a princípios utilitários também é válido, porque a experiência mostra e a história prova que uma sociedade que protege os direitos e as liberdades de cada um e que, não interferindo com o direito dos indivíduos de viver a sua vida como desejam e de desfrutar de suas liberdades sem impedimentos, desde que estejam respeitando iguais direitos e liberdades dos demais, é uma sociedade não só mais justa, mas que produz mais e distribui melhor os bens e serviços produzidos, satisfazendo os interesses e as necessidades da maioria das pessoas.
  7. Isso significa, portanto, que a sociedade e o estado não devem nada aos indivíduos a não ser o respeito e a proteção aos seus direitos e às suas liberdades, e que a única forma legítima de os indivíduos alcançarem realização pessoal, felicidade, sucesso material e fama é respeitando esses direitos dos demais e tendo clareza sobre os seus objetivos e metas na vida (Projeto de Vida).
  8. Isso significa, também, que o estado não deve ser maior do que é estritamente necessário. Como sua função é exclusivamente proteger e, ele próprio, respeitar direitos individuais, não estão entre suas funções garantir o bem-estar dos indivíduos em sociedade, oferecendo-lhes educação, saúde, seguridade social, muito menos estradas, moradia, emprego, esgoto, água tratada, energia, Internet, etc. Quando o estado já está exercendo essas funções, é preciso privatizá-las.
  9. Os limites extremos são o individualismo anárquico, do lado direito, em que não há governo algum, ou em que o governo, se existir, tem apenas atribuições mínimas essenciais, claramente vigiadas, fiscalizadas e cerceadas, e, do lado esquerdo, comunismo totalitário, condição em que o estado abrange tudo que existe e se produz e tem o direito de interferir em tudo o que existe e se produz.
  10. Recomendaria que abandonássemos os termos “direita” e “esquerda” e nos concentrássemos nas questões fundamentais: um partido ou um movimento defende o crescimento e fortalecimento de quem? Do indivíduo e de associações privadas livres? Em caso positivo, é dos meus. Do estado e de organizações estatais, para-estatais, etc.? Em caso positivo, não é dos meus: considero meu adversário político e vou lutar para que não prevaleça.

É só nesse sentido que se pode dizer que sou de direita.

A pauta cultural ou dos costumes literalmente não me incomoda quase nada. A mim não incomoda que alguém seja gay, ou bi, ou trans, que viva com alguém do mesmo sexo (ou até com mais de um), nem mesmo que faça um aborto de uma gravidez indesejável iniciante (não vejo diferença entre fazer sexo com camisinha, ou com coitus interruptus, e usar a pílula do dia seguinte: nesse aspecto sou católico, é tudo a mesma coisa) — desde que não se tente obrigar ou mesmo a constranger os outros a fazer a mesma coisa. Mas, na questão do aborto, chega uma hora é que ele se torna assassinato — e essa hora é muito antes do momento em que a criança está basicamente pronta para nascer. Isso é parte dos direitos individuais de cada um. É difícil de resolver em casos particulares? Sim, é difícil. Como é difícil fazer a coisa certa em muitas outras circunstâncias. Mas é a consciência moral de cada um (de cada indivíduo) que deve resolver. Não é a igreja, nem, muito menos, o partido político.

Por fim… O feto se torna um ser humano, adquirindo o direito de nascer, bem antes de estar pronto para nascer. Mas quando é que se ele se torna um ser humano autônomo, com capacidade de decidir questões importantes acerca de sua vida? As pessoas e os grupos sociais discordam acerca de quando alguém passa a ser adulto, “de maior idade”, plenamente responsável por seus atos. A idade varia de 12 a 18 (ou mesmo 21) anos, por aí. Uma pessoa de direita em geral acha que alguém que ainda não alcançou a idade de em que tem condições de responder plenamente por seus atos, não pode tomar decisões como se casar ou ter um aborto — ou a decisão de passar a viver e se conduzir como se fosse do sexo oposto, quanto mais a decisão de se operar para remover ou terminar seus órgãos sexuais. Nem mesmo os pais devem tomar esse tipo de decisão pelos filhos menores.

É isso.

Em Salto, 13 de Maio de 2022. Dia da Libertação dos Escravos. Revisado em 15 de Setembro de 2025, ainda em Salto, graças a Deus.