Ayn Rand e A Revolta de Atlas (Atlas Shrugged)

Este artigo é uma compilação de três matérias (dois artigos e uma transcrição) publicadas anteriormente aqui neste blog. Para tentar fazer unidade coerente de matérias escritas em diferentes momentos e com distintas finalidades, precisei revisar, adaptar e atualizar as matérias – que podem ser lidas em suas versões originais nas notas ao final de cada seção. 

I. Introdução e Tema Geral (*)

A “Bíblia” do pensamento liberal clássico na segunda metade do Século 20 não foi um livro de economia ou mesmo de filosofia política: foi um romance de mais de mil páginas: Atlas Shrugged. Para quem não tem muita familiaridade com o Inglês, o título, no original, quer dizer “Atlas Deu de Ombros”, isto é, encolheu os ombros nos quais ele sustentava o mundo e deixou que o mundo se arrebentasse.

O livro foi escrito por Ayn Rand (1905-1981), romancista, filósofa e polemicista russo-americana, nascida na Rússia, em 1905, com o nome de Alyssa Zinovievna Rosenbaum. Ela emigrou para os Estados Unidos em 1926, quando tinha 21 anos. O livro, seu opus magnum, foi publicado originalmente nos Estados Unidos em 1957 (vai fazer 60 anos em 2017, o ano que vem). Por admissão dos próprios, o livro influenciou Ronald Reagan e Margareth Thatcher e, através deles, a história do Ocidente. Alan Greenspan, o todo-poderoso chefe do Federal Reserve Bank americano de 1987 a 2006, se incluía entre os discípulos de Ayn Rand.

Essa clássica defesa da liberdade do indivíduo, que na esfera econômica se conhece como capitalismo, ganhou em 2010 nova edição em Português, com título novo: A Revolta de Atlas, numa reedição da Editora Sextante, do Rio de Janeiro, com o apoio do Instituto Millenium. O novo título segue o título da edição espanhola, La Rebelión de Atlas. A edição brasileira anterior, publicada em 1987, e há muito esgotada, tinha o título de Quem é John Galt? O título anterior corresponde a uma frase frequentemente usada no texto. Mas, para os que não conhecem ainda a obra, é meio obscuro. A tradução usada na presente edição é a mesma, mas ela foi revisada, corrigida e melhorada pela Sextante.

Com 1.231 páginas na presente edição brasileira, o livro tem enredo extremamente complexo, bem elaborado e atraente – e surpreendentemente atual, especialmente quando se leva em conta o fato que foi publicado há quase 60 anos (sua preparação, pesquisa e redação tendo custado mais de dez anos da vida de Ayn Rand). Mais detalhes sobre o enredo serão fornecidos adiante, nesta e na seção seguinte. É bom lembrar que em 1957, quando o livro foi publicado, estávamos, aqui no Brasil, no meio do governo Kubitscheck, na euforia da construção de Brasília e da aceleração do nosso desenvolvimento: cinquenta anos em cinco. Clima de “ninguém segura este país”, “este é um país que vai pra frente”, etc.

Os principais personagens da história também são bem definidos e muito interessantes. Eles são a Vice-Presidente Operacional da principal companhia ferroviária dos Estados Unidos, a única que é verdadeiramente transcontinental, fazendo viagem de Nova York a São Francisco; o proprietário da maior siderúrgica americana, que inventa um metal mais resistente, leve e barato do que o aço; o proprietário e líder mundial da indústria de extração, industrialização e comercialização de cobre, chileno de nascimento; e um inventor misterioso, sobre o qual há suspense nos primeiros dois terços do livro, deixando todo mundo, dentro e fora do livro, curioso. Vem daí o “Quem é John Galt?” Vários personagens secundários, todos eles muitíssimo interessantes, completam o quadro. O meu favorito, dentre os secundários, é Hugh Akston, professor de filosofia, dono de uma lanchonete, e sócio de uma fábrica de cigarros (cuja marca é simplesmente $, the dollar sign). 

Nesta seção darei apenas uma breve descrição do tema escolhido por Rand para seu opus magnum, para que o leitor possa ter uma ideia da dimensão (breadth and depth) da obra.

Publicada em 1957, a história se passa nos Estados Unidos, numa época futura em que o país, seguindo o exemplo de países europeus e latino-americanos, caminha para o socialismo não-revolucionário, aquele socialismo supostamente democrático que transforma a sociedade através da legislação e da demagogia. Os países vão se transformando, um a um, especialmente na Europa, que lidera o processo, em “Repúblicas Populares”, que, gradualmente, têm sua economia totalmente regulada, manietada mesmo, e, assim, controlada e socializada. Os Estados Unidos parecem ainda ser capazes de resistir, mas, aparentemente, não por muito tempo. O clima é de guerra contra os empresários, em especial os industriais.

O livro descreve o que acontece quando aqueles que (como Atlas) sustentam o mundo nas costas resolvem fazer greve, assim sacudindo o mundo dos ombros e deixando que ele literalmente “vá para o brejo”. Na verdade, a guerra é contra todos os que têm habilidade e competência e valorizam no limite a sua independência, a sua autonomia, a sua liberdade — em relação ao governo e à sociedade. 

Pela primeira vez na história, as pessoas de habilidade e competência resolvem fazer greve. O título original do livro era The Strike. Em Francês, continua a ser La Grève.

“Vamos ver o que acontece ao mundo quando quem faz greve contra quem” é frase (retirada do livro) que resume o tema da obra.

Entrando em greve, empresários e empreendedores americanos começam a desaparecer, abandonando suas empresas nas mãos de reguladores e controladores estatais. Grandes filósofos, cientistas e artistas também desaparecem, abandonando seus empreendimentos. O lado otimista da história é que o estado pode confiscar os produtos e as produções de empresas e outros empreendimentos, pode até se apropriar das próprias organizações, mas não consegue obrigar empresários e outros empreendedores a lhe arrendar suas mentes, sua inteligência, sua criatividade, sua habilidade, sua competência, seu trabalho… O estado, portanto, que fique com as empresas e os diversos empreendimentos, decidem seus proprietários na história. Mas eles não colocam mais suas mentes a serviço da sustentação de um mundo onde esse tipo de confisco pode acontecer. Na realidade, aquilo que eles deixam para o estado espoliador não passa da carcaça – a imagem é usada no livro – de empresas e empreendimentos cuja alma eles levaram consigo.

A história narra nos mínimos detalhes o caos que resulta dessa inusitada greve em que aqueles que normalmente são vítimas das greves, os empresários e empreendedores, retiram do mercado sua mente e seu trabalho, e, no processo, deixam o mundo sem bens, sem serviços, sem empregos.

Quando Atlas faz greve, o mundo literalmente para e, a seguir, desmorona (mais ou menos como aconteceu com o mundo comunista em 1989-1991, mais de trinta anos depois do livro – com uma pequena colaboração de Reagan e Thatcher, fãs do livro e de sua autora).

O livro coloca o foco na tentativa heroica da principal personagem, a Vice-Presidente da Taggart Transcontinental, de resistir à greve – mas, no final, ela consegue e (no bom sentido) sucumbe (adere à greve).

Ao final da história, quando as luzes do velho mundo se apagam, simbolizando a derrocada que lhe sobrevém quando Atlas deixa de sustenta-lo, a porta está aberta para a construção de um mundo novo: a greve termina e Atlas está pronto para reassumir seu lugar – agora com um exército consciente e bem preparado de aliados pronto para ajuda-lo.

[* Este primeiro capítulo é uma versão revista, levemente ampliada e atualizada, de um artigo que eu escrevi, a pedido do jornal, para a Folha de S. Paulo, seção Cifras & Letras, publicado em 9 de Outubro de 2010, por ocasião do lançamento da reedição de A Revolta de Atlas. O artigo da Folha foi reimpresso aqui neste blog em 09/10/2010, em https://liberal.space/2010/10/09/a-greve-dos-que-sustentam-o-mundo-nas-costas/, e novamente em 22/12/2014, em https://liberal.space/2014/12/22/excerto-de-a-revolta-de-atlas-obra-de-ayn-rand/.%5D

II. 60 Anos de Atlas Shrugged (**)

Atlas Shrugged, publicado quase 60 anos atrás, continua a ser o mais profundo romance de análise política do Século 20. Um romance engajado de uma escritora radicalmente liberal. Surpreendentemente, é também o mais popular. 

Os críticos literários não gostaram — o que não é novidade. A esquerda — em especial a esquerda marxista — detestou. A esquerda mais light, social democrata, também não gostou, mas controlou um pouco o seu ódio. 

O público leitor, entretanto, amou…

Um pouco antes da última virada do século a Random House, editora americana, resolveu elaborar duas listas dos 100 melhores livros de ficção do Século 20. Para a primeira, solicitou a opinião dos seus editores e críticos literários; para a outra, a opinião do público leitor. Não há surpresa no fato de que as duas listas quase não têm sobreposições. Atlas Shrugged ficou no primeiro lugar na lista dos leitores, seguido de The Fountainhead, também de Ayn Rand (publicado em 1943). As duas listas completas estão disponíveis no site da Random House, no endereço:

http://www.randomhouse.com/modernlibrary/100bestnovels.html 

(A propósito, a lista dos editores e críticos tem Ulisses, de James Joyce, em primeiro lugar, e The Great Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, em segundo.) 

O fato de Atlas Shrugged haver ficado em primeiro lugar na lista dos leitores é surpreendente por várias razões. Uma delas é que o livro tem, em sua edição de capa dura, quase 1.200 páginas. Outra, que essas páginas contêm discussões filosóficas bastante densas acerca da natureza humana, do trabalho, do dinheiro, do sexo, da felicidade; da lógica, do conhecimento e da verdade; da ética e dos valores; da liberdade e dos direitos individuais; da política, do estado e do governo; da economia, da livre iniciativa, da propriedade privada. O livro é uma defesa intransigente do liberalismo, sem adjetivos, e do capitalismo, que é sua expressão na área econômica. A defesa do capitalismo tem como base não só o fato de que ele é o único sistema econômico capaz de realmente produzir riqueza e desenvolvimento (econômico, social e humano), mas também o único sistema econômico compatível com um regime político livre e, portanto, justificável moralmente. A defesa do capitalismo é, portanto, não só utilitária, mas também moral, no sentido mais objetivo do termo. 

A natureza filosófica de Atlas Shrugged pode ser percebida na simples leitura do título de suas três partes:

  • “Não-Contradição” (“Non-Contradiction“),
  • “Ou Um Ou Outro” (“Either-Or“), e
  • “A é A” (“A is A“).

Esses três títulos se referem aos três princípios básicos da Lógica, a saber: o princípio da Não-Contradição (nenhum enunciado pode ser verdadeiro e falso), o princípio do Terceiro Excluído (um enunciado tem de ser ou verdadeiro ou falso, não há uma terceira possibilidade), e o princípio da identidade (se um enunciado é verdadeiro, então ele é sempre verdadeiro; se ele é falso, então ele é sempre falso).

É um tributo à habilidade linguística de Ayn Rand, para quem o Inglês não era a língua mãe (ela nasceu na Rússia em 1902 só veio para os Estados Unidos já adulta, em 1926), que ela tenha conseguido tal domínio dessa língua que seu livro é um considerado um clássico da literatura americana. Nas livrarias, é encontrado sempre entre os clássicos da literatura americana.

É um tributo à habilidade literária de Ayn Rand — que inclui as habilidades de construir um enredo fascinante, de definir personagens marcantes, de gerar e manter suspense, de levar o curso dos eventos a um climax — que Atlas Shrugged, apesar do tamanho e da complexidade da trama, tenha vendido vários milhões de cópias em suas várias edições (no original – não incluindo as traduções).

A história, narrada na terceira pessoa, se passa nos Estados Unidos (como se observou na seção anterior), em algum momento depois da guinada daquele país para a esquerda, algo que aconteceu durante o New Deal (década de 1930, começo da década de 1940). Provavelmente a data melhor para situar os eventos seja por volta do final dos anos finais do Século 20. Na história, os vários países europeus já se tornaram “Repúblicas Populares” (“People’s Republics“), isto é, já se tornaram socialistas, e os Estados Unidos caminham rapidamente na mesma direção. O governo americano, “em nome do povo”, interfere aberta a decididamente na economia, com leis e decretos (“diretivos”) que buscam “igualizar as oportunidades empresariais”, mas que tornam cada vez mais difícil para os empreendedores realmente competentes produzirem livremente, isto é, sem involuntariamente descumprirem ou intencionalmente burlarem alguma determinação governamental. A tentativa de “igualizar as oportunidades empresariais” é feita em nome do princípio marxiano de que os que têm habilidade e competência devem obrigatoriamente ajudar os que precisam: “de cada um conforme a sua habilidade, a cada um conforme a sua necessidade”.

A estratégia do governo regulamentador, como cinicamente revelada pelo Dr. Floyd Ferris, um dos diretores do Instituto Nacional de Ciência (State Science Institute – expressão que contém uma contradição de termos, segundo Rand), não é que todos os empresários cumpram essa miríade de normas e regulamentos. A intenção é que todos os empresários se tornem, inevitavelmente, criminosos, por ser impossível produzir sem quebrar alguma norma ou regulamento governamental. Como o poder governamental é, acima de tudo, o poder de punir os criminosos, o governo, assim, adquire um enorme poder de barganha, vendendo favores através de esquemas cada vez mais corruptos. 

(Apesar da distância no tempo e no espaço, qualquer semelhança com o Brasil de hoje é pura coincidência…)

O governo não tem nenhum poder de barganha com o inocente: sua força advém do fato de que ele pode punir — aqueles que quebram suas leis. Se as leis forem mínimas e racionais, pouca gente as descumpre. Se os impostos forem baixos, pouca gente deixa de paga-los. Se existirem, porém, leis e impostos em grande quantidade e formarem um emaranhado indecifrável de normas e regulamentos de interpretação sempre obscura e questionável, todo mundo se torna facilmente criminoso e, portanto, passível de punição por parte do governo. Como é virtualmente impossível punir todo mundo, o governo seleciona aqueles que ele, sob a ameaça de punição, quer “enquadrar”. Faz chantagem com eles, é a expressão correta. 

Nesse quadro, começa a aparecer um desenvolvimento interessante e curioso, que fornece o elemento central do enredo do romance. Quando a pressão se torna perto de insuportável para um grande industrial, ele simplesmente desaparece sem deixar vestígio – tira o time de campo. Às vezes ele deliberadamente destroi sua indústria antes de partir, como o fez Ellis Wyatt, o magnata do petróleo. Outras vezes ele a deixa virtualmente intacta (como o faz Hank Rearden, o dono da siderúrgica), na certeza de que, sem ele, ela não vai durar muito. Gradativamente vai se mostrando que esses desaparecimentos não são atos de covardia individuais, sem coordenação, mas, sim, parte de uma greve muito bem organizada dos empresários realmente competentes e produtivos, dos quais depende a economia nacional — greve inicialmente pequena, mas que ganha momento e começa a preocupar não só os empresários que ainda não aderiram, mas o próprio governo que, pouco a pouco, percebe que a economia está entrando em colapso.

O objetivo da greve é mostrar ao mundo quem sai realmente perdendo quando quem entra em greve… As greves tradicionais, feitas pelos trabalhadores contra os empresários (especialmente do setor industrial), tentam mostrar que os trabalhadores são os reais produtores, a fonte real da riqueza dos empresários industriais, que os exploram, retendo para si a “parte do leão” do preço de venda dos produtos (a “mais valia”). A greve dos empresários industriais procura mostrar que eles são os reais geradores de riquezas, fazendo dinheiro com sua capacidade criativa (suas idéias inovadoras) e produtiva (sua habilidade de transformar essas idéias em realidade, isto é, em produtos e serviços). Sem eles a maior parte dos trabalhadores não teria trabalho e literalmente morreria de fome (como frequentemente acontecia antes da era liberal-capitalista e aconteceu nos regimes comunistas). Os empresários industriais e demais empreendedores são, portanto, o Atlas que segura o mundo nos ombros. Ao entrar em greve, eles estão sacudindo os ombros e deixando o mundo literalmente ir para o brejo.

Resumindo e repetindo, Atlas Shrugged foi publicado pela Random House nos Estados Unidos. O livro foi publicado em Português, no Brasil, em 1987, trinta anos depois de sua publicação nos Estados Unidos, sob o título Quem é John Galt? A tradução é de Paulo Henriques Britto e a publicação foi feita pela Editora Expressão e Cultura, do Rio de Janeiro. Tenho duas cópias dessa tradução, uma em um volume, dentro de uma caixinha de papelão, e outra em dois volumes. Esgotada essa edição brasileira, uma nova edição está sendo preparada pela Editora Sextante, com uma revisão do texto.

[** Este segundo capítulo é uma versão revista e atualizada de um artigo que publiquei neste blog em 05/10/2007, cinco dias antes do quinquagésimo aniversário da publicação do livro em Inglês. Seu endereço é: https://liberal.space/2007/10/05/50-anos-de-atlas-shrugged/%5D

III. Trecho de A Revolta de Atlas (Atlas Shrugged) (***)

O trecho abaixo é longo. É parte de A Revolta de Atlas (Atlas Shrugged).

Transcrevo segundo o texto da tradução brasileira de Paulo Henriques Britto (com pequenas modificações minhas), originalmente publicada sob o título Quem é John Galt? e, atualmente, sob o título A Revolta de Atlas. A primeira edição foi publicada em um volume pela Editora Expressão e Cultura, Rio de Janeiro, 1987, e a segunda, em três volumes, pela Editora Sextante, São Paulo, 2010. O texto é basicamente o mesmo nas duas edições, com pequenas correções e melhorias.

A maior parte do trecho é uma explicação, por parte de um ex-empregado, do porquê da falência da fábrica (Twentieth-Century Motors / Motores Século Vinte) em que ele trabalhava. Trata-se, naturalmente, de uma obra de ficção.

Como disse, o texto é o da tradução brasileira, com pequenas modificações minhas, e foi retirado das pp. 510-515 da primeira edição e das pp. 343-353 do segundo volume da segunda edição. Forneço a indicação do número das páginas da segunda edição.

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[p.343]

— Bem, foi uma coisa que aconteceu na fábrica onde trabalhei durante 20 anos. Foi quando o velho morreu e os herdeiros tomaram conta. Eles eram três, dois filhos e uma filha, e inventaram um novo plano para administrar a fábrica. Deixaram a gente votar, também, para aceitar ou não o plano, e todo mundo, quase todo mundo, votou a favor. A gente não sabia, pensava que fosse bom. Não, também não é bem isso, não. A gente pensavam que queriam que a gente achasse que era bom. O plano era o seguinte: cada um trabalhava conforme sua capacidade, e recebia conforme sua necessidade.

. . .

— Aprovamos o tal plano numa grande assembleia. Nós éramos 6 mil, todo mundo que trabalhava na fábrica. Os herdeiros do velho Starnes fizeram uns discursos compridos, e ninguém entendeu muito bem, mas ninguém fez nenhuma pergunta. Ninguém sabia como é que o plano ia funcionar, mas cada um achava que o outro

[p.344]

sabia. E quem tinha dúvida se sentia culpado e não dizia nada, porque, do jeito que os herdeiros falavam, quem fosse contra era desumano e assassino de criancinhas. Disseram que esse plano ia concretizar um nobre ideal. Como é que a gente podia saber? Não era isso que a gente ouvia a vida toda dos pais, professores e pastores, em todos os jornais, filmes e discursos políticos? Não diziam sempre que isso era o certo e o justo?

. . .

— Bem, pode ser que a gente tenha alguma desculpa para o que fez naquela assembleia. O fato é que votamos a favor do plano, e o que aconteceu conosco depois foi merecido.

A senhora sabe, nós que trabalhamos lá na Século XX durante aqueles quatro anos, somos homens marcados. O que dizem que o inferno é? O mal, o mal puro, nu, absoluto, não é? Pois foi isso que a gente viu e ajudou a fazer, e acho que todos nós estamos malditos, e talvez nunca mais vamos ter perdão. . .

A senhora quer saber como funcionou o tal plano, e o que aconteceu com as pessoas? É como derramar água dentro de um tanque em que há um cano no fundo puxando mais água do que entra, e cada balde que a senhora derrama lá dentro o cano alarga mais um bocado, e quanto mais a senhor trabalha, mais exigem da senhora, e no fim a senhora está despejando baldes 40 horas por semana, depois 48, depois 56, para o jantar do vizinho, para a operação da mulher dele, para o sarampo do filho dele, para a cadeira de rodas da mãe dele, para a camisa do tio dele, para a escola do sobrinho dele, para o bebê do vizinho, para o bebê que ainda vai nascer, para todo mundo à sua volta, tudo é para eles, desde as fraldas até as dentaduras, e só o trabalho é seu, trabalhar da hora em que o sol nasce até escurecer, mês após mês, ano após ano, ganhando só suor, o prazer só deles, durante toda a sua vida, sem descansar, sem esperança, sem fim. . .

De cada um, conforme sua capacidade, para cada um, conforme sua necessidade.

. . .

— Nós somos uma grande família, todo mundo, é o que nos diziam, estamos todos no mesmo barco. Mas não é todo mundo que passa 10 horas com um maçarico na mão, nem todo mundo que fica com dor de barriga ao mesmo tempo. Capacidade de quem? Necessidade de quem, quem tem prioridade? Quando é tudo uma coisa só, ninguém pode dizer quais são as suas necessidades, não é? Senão qualquer um pode dizer que necessita de um iate, e se só o que conta são os sentimentos dele, ele acaba até provando que tem razão. Por que não? Se eu só tenho o direito de ter carro depois que eu trabalhei tanto que fui parar no hospital, depois de garantir um carro para todo vagabundo e todo selvagem nu do mundo, por que ele não pode exigir de mim um iate também, se eu ainda tenho a capacidade de trabalhar? Não pode? Então ele não pode exigir que eu tome meu café sem leite até ele conseguir pintar a sala de visitas dele? Pois é. . . .

Mas então decidiram que ninguém tinha o direito de julgar suas próprias

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capacidades e necessidades. Tudo era resolvido na base da votação. Sim, senhora, tudo era votado em assembleia duas vezes por ano. Não tinha outro jeito, não é? E a senhora imagina o que acontecia nesses eventos? Bastou a primeira para a gente descobrir que todo mundo tinha virado mendigo — mendigos esfarrapados, humilhados, todos nós, porque nenhum homem podia dizer que fazia jus a seu salário, não tinha direitos nem fazia jus a nada, não era dono de seu trabalho, o trabalho pertencia à ‘família’, e ela não lhe devia nada em troca, a única coisa que cada um tinha era a sua ‘necessidade’, e aí tinha que pedir em público que atendessem às suas necessidades, como qualquer parasita, enumerando todos os seus problemas, até os remendos na calça e os resfriados da esposa, na esperança de que a ‘família’ lhe jogasse uma esmola. O jeito era chorar miséria, porque era a sua miséria, e não o seu trabalho, que agora era a moeda corrente de lá.

Assim, a coisa virou um concurso de misérias disputado por 6 mil pedintes, cada um chorando mais miséria que o outro. Não tinha outro jeito, não é? A senhora imagina o que aconteceu, que tipo de homem ficava calado, com vergonha, e que tipo de homem levava a melhor?

. . .

— Mas tem mais. Mais uma coisa que a gente descobriu na mesma assembleia. A produção da fábrica tinha caído 40 por cento naquele primeiro semestre, e então concluiu-se que alguém não tinha usado toda a sua ‘capacidade’. Quem? Como descobrir? A ‘família’ também decidia isso no voto. Escolhiam no voto quais eram os melhores trabalhadores, e esses eram condenados a trabalhar mais, fazer hora extra todas as noites durante os seis meses seguintes. E sem ganhar nada a mais, porque a gente ganhava não por tempo nem por trabalho, e sim conforme a necessidade.

Será que preciso explicar o que aconteceu depois disso? Explicar que tipo de criaturas nós fomos virando, nós que antes éramos seres humanos? Começamos a esconder toda a nossa capacidade, trabalhar mais devagar, ficar de olho para ter certeza de que a gente não trabalhava mais depressa nem melhor do que o colega ao nosso lado. Tinha que ser assim, pois a gente sabia que quem desse o melhor de si para a ‘família’ não ganhava elogio nem recompensa, mas castigo. Sabíamos que para cada imbecil que estragasse um motor e desse um prejuízo para a fábrica — ou por desleixo, porque não tinha nenhum motivo para caprichar, ou por pura incompetência — quem ia ter que pagar era a gente, trabalhando de noite e no domingo. Por isso, a gente se esforçava o máximo para ser o pior possível.

Tinha um garoto que começou todo empolgado com o nobre ideal, um garoto muito vivo, sem instrução, mas um crânio. No primeiro ano ele inventou um processo que economizava milhares de homens-hora. Deu de mão beijada a descoberta dele para a ‘família’, não pediu nada em troca, nem podia, mas não se incomodava com isso. ‘Era tudo pelo ideal’, dizia ele. Mas, quando foi eleito um dos mais capazes e condenado a trabalhar de noite, ele fechou a boca e o cérebro. No ano seguinte, é claro, não teve nenhuma ideia

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brilhante.

A vida inteira nos ensinaram que os lucros e a competição tinham um efeito nefasto, que era terrível um competir com o outro para ver quem era melhor, não é?

. . .

Pois deviam ver o que acontecia quando um competia com o outro para ver quem era o pior.

Não há maneira melhor de destruir um homem do que obrigá-lo a tentar NÃO fazer o melhor de que é capaz, a se esforçar por fazer o pior possível, dia após dia. Isso mata mais depressa do que a bebida, a vadiagem, a vida de crime. Mas para nós a única saída era fingir incompetência. A única acusação que temíamos era a de que tínhamos capacidade. A capacidade era como uma hipoteca que nunca se termina de pagar.

E trabalhar para quê? A gente sabia que o mínimo para a sobrevivência era dado a todo mundo, quer trabalhasse quer não, a chamada ‘ajuda de custo para moradia e alimentação’, e mais do que isso não se tinha como ganhar, por mais que se esforçasse. Não se podia ter certeza de que seria possível comprar uma muda de roupas no ano seguinte — a senhora podia ou não ganhar uma ‘ajuda de custo para vestimentas’, dependendo de quantas pessoas quebrassem a perna, precisassem ser operadas, ou tivessem mais filhos. E, se não havia dinheiro para todo mundo comprar roupas, então a senhora também ficava sem roupa nova.

Havia um homem que tinha passado a vida toda trabalhando até não poder mais, porque queria que seu filho fizesse faculdade. Pois bem, o garoto terminou o secundário no segundo ano de vigência do plano, mas a ‘família’ não quis dar ao homem uma ‘ajuda de custo’ para pagar a faculdade do filho. Disseram que o filho só ia poder entrar para a faculdade quando houvesse dinheiro para os filhos de todos entrarem para a faculdade — e, para isso, era preciso primeiro pagar o ensino médio dos filhos de todos, e não havia dinheiro nem para isso. O homem morreu no ano seguinte, numa briga de faca num bar, uma briga sem motivo. Brigas desse tipo estavam se tornando cada vez mais comum entre nós.

Havia um sujeito mais velho, um viúvo sem família, que tinha um hobby: colecionar discos. Acho que era a única coisa de que ele gostava na vida. Antes, ele costumava ficar sem almoçar para ter dinheiro para comprar mais um disco clássico. Pois não lhe deram nenhuma ‘ajuda de custo’ para comprar discos — disseram que aquilo era ‘luxo pessoal’. Mas, naquela mesma assembleia, votaram a favor de dar para uma tal de Millie Bush, filha de alguém, uma garotinha de oito anos feia e má, um aparelho de ouro para corrigir seus dentes — isto era uma ‘necessidade médica’, porque o psicólogo da empresa disse que a coitadinha ia ficar com complexo de inferioridade se seus dentes não fossem endireitados. O velho que gostava de música passou a beber. Chegou a um ponto em que nunca mais era visto sóbrio. Mas parece que uma coisa ele nunca esqueceu. Uma noite, ele vinha cambaleando pela rua quando viu a tal da Millie Bush, então lhe deu um soco que lhe quebrou todos os dentes da menina. Todos.

. . .

— A bebida, naturalmente, era a solução para a qual todos nós apelávamos, uns

[p.347]

mais, outros menos. Não me pergunte onde é que achávamos dinheiro para isso. Quando todos os prazeres decentes são proibidos, sempre se dá um jeito de gozar os prazeres que não prestam. Ninguém arromba mercearias à noite nem rouba o colega para comprar discos clássicos nem caniços de pesca, mas, se é para tomar um porre e esquecer, faz-se de tudo. Caniços de pesca? Armas para caçar? Máquinas fotográficas? Hobbies? Não havia ‘ajuda de custo de entretenimento’ para ninguém. O lazer foi a primeira coisa que cortaram. Pois a gente não deve ter vergonha de reclamar quando alguém pede para abrirmos mão de uma coisa que nos dá prazer? Até mesmo a nossa ‘ajuda de custo de fumo’ foi racionada a ponto de só recebermos dois maços de cigarro por mês — e isso, diziam eles, porque o dinheiro estava indo para o fundo do leite dos bebês.

Os bebês eram o único produto que havia em quantidades cada vez maiores — porque as pessoas não tinham outra coisa para fazer, imagino, e porque não tinham que se preocupar com os gastos da criação dos bebês, já que eram uma responsabilidade da ‘família’. Aliás, a melhor maneira de conseguir um aumento e poder ficar mais folgado por uns tempos era ganhar uma ‘ajuda de custo para bebês’ — ou isso ou arranjar uma doença séria.

. . .

— Bom, não demorou muito para a gente entender como a coisa funcionava. Todo aquele que resolvia agir certinho tinha que se abster de tudo. Tinha que perder toda a vontade de gozar qualquer prazer, não gostar de fumar um cigarro nem mascar um chiclete, porque alguém podia ter uma necessidade maior do dinheiro gasto naquele cigarro ou chiclete. Sentia vergonha cada vez que engolia uma garfada de comida, pensando em quem tinha tido que trabalhar de noite para pagar aquela garfada, sabendo que o alimento que comia não era seu por direito, sentindo a vontade infame de ser trapaceado ao invés de trapacear, de ser um pato, e não um sanguessuga. Não podia ajudar os pais, para não colocar um fardo mais pesado sobre os ombros da ‘família’. Além disso, se ele tivesse um mínimo de senso de responsabilidade, não podia se casar nem ter filhos, pois não podia planejar nada, prometer nada, contar com nada.

Mas os indolentes e irresponsáveis se deram bem. Arranjaram filhos, seduziram moças, trouxeram todos os parentes imprestáveis que tinham, todas as irmãs solteiras grávidas, para receber uma ‘ajuda de custo de doença’, inventaram todas as doenças possíveis, sem que os médicos pudessem provar a fraude, estragaram suas roupas, seus móveis, suas casas — pois não era a ‘família’ que estava pagando? Descobriram muito mais ‘necessidades’ do que os outros, desenvolvendo um talento especial para isso, a única capacidade que demonstraram.

Deus me livre!

. . .

— A senhora entende? Compreendemos que nos tinham dado uma lei, uma lei MORAL, segundo eles, que punia quem a observava — pelo fato de a observar. Quanto mais a senhora tentava seguir essa lei, mais sofria; quanto mais a violava, mais lucrava.

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A sua honestidade era como um instrumento nas mãos da desonestidade do próximo. Os honestos pagavam, e os desonestos lucravam. Os honestos perdiam, os desonestos, ganhavam. Com esse tipo de padrão do que é certo e errado, por quanto tempo os homens poderiam permanecer honestos? No começo éramos pessoas bem honestas, e só havia uns poucos aproveitadores. Éramos competentes, nos orgulhávamos do nosso trabalho, e éramos funcionários da melhor fábrica do país, para a qual o velho Starnes só contratava a nata dos trabalhadores. Um ano depois da implantação do plano não havia mais um homem honesto entre nós. Era ISSO o mal, o horror infernal que os pregadores usavam para assustar os fiéis, mas que a gente nunca imaginava ver em vida. A questão não foi que o plano estimulasse uns poucos corruptos, e sim que ele corrompia pessoas honestas, e o efeito não podia ser outro — e era isso que chamavam de ideia moral!

Queriam que trabalhássemos em nome de quê? Do amor pelos nossos irmãos? Que irmãos? Os parasitas, os sanguessugas que víamos ao redor? E se eles eram desonestos ou se eram incompetentes, se não tinham vontade ou não tinham capacidade de trabalhar — que diferença fazia para nós? Se estávamos presos para o restante da vida àquele nível de incompetência, fosse verdadeiro ou fingido, por quanto tempo nos daríamos ao trabalho de seguir em frente?

. . .

— Não tínhamos como saber qual era a verdadeira capacidade deles, não tínhamos como controlar suas necessidades — só sabíamos que éramos burros de carga lutando às cegas num lugar que era meio hospital, meio curral — um lugar onde só incentivavam a incompetência, as catástrofes, as doenças — burros de carga que só serviam às necessidades que os outros afirmavam ter.

Amor fraternal? Foi então que aprendemos, pela primeira vez na vida, a odiar nossos irmãos. Começamos a odiá-los por cada refeição que faziam, cada pequeno prazer que gozavam, a camisa nova de um, o chapéu da esposa de outro, o passeio que um dava com a família, a reforma que o outro fazia na casa — tudo aquilo era tirado de nós, era pago pelas nossas privações, nossas renúncias, nossa fome.

Um começou a espionar o outro, cada um tentando flagrar o outro em alguma mentira sobre suas necessidades, para cortar sua ‘ajuda de custo’ na assembleia seguinte. Começaram a surgir delatores, que descobriam que alguém tinha comprado às escondidas um peru para a família num domingo qualquer, provavelmente com o dinheiro que ganhara no jogo. Começamos a nos meter um na vida do outro. Provocávamos brigas de família, para conseguir que os parentes de alguém saíssem da lista de beneficiados. Toda vez que víamos algum homem começando a namorar uma moça, tornávamos a vida dele um inferno. Fizemos muitos noivados se romperem. Não queríamos que ninguém se casasse, não queríamos mais dependentes para alimentar.

Antes, comemorávamos quando alguém tinha filho, todo mundo contribuía para ajudar a pagar a conta do hospital, quando os pais estavam sem dinheiro. Nessa época, quando nascia uma criança,

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ficávamos semanas sem falar com os pais. Para nós, os bebês eram o que os gafanhotos são para os fazendeiros: uma praga.

Antes, ajudávamos quem tinha doente na família. Depois . . .

. . .

— Bom, vou contar apenas um caso para a senhora. Era a mãe de um homem que trabalhava conosco havia quinze anos, uma senhora simpática, alegre e sábia, conhecia todos nós pelo primeiro nome, todos nós gostávamos dela antes. Um dia ela escorregou na escada do porão, caiu e quebrou a bacia. Nós sabíamos o que isso representava para uma pessoa daquela idade. O médico disse que ela teria que ser internada, para fazer um tratamento caro e demorado. A velha morreu na véspera do dia em que ia ser levada para o hospital. Ninguém nunca explicou a causa da morte dela. Não, não sei se foi assassinada. Ninguém disse isso. Não se comentava nada sobre o assunto. A única coisa que sei — e disso nunca vou me esquecer — é que eu, também, quando dei por mim, estava rezando para que ela morresse. Que Deus nos perdoe! Eram essas a fraternidade, a segurança, a abundância que nos haviam prometido com a adoção do plano.

. . .

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— Bem, quando a gente via isso, entendia qual era a motivação verdadeira de todo mundo que já pregou o princípio ‘de cada um conforme sua capacidade, a cada um conforme sua necessidade’. Esse era o segredo da coisa. De início, eu não entendia como é que os homens instruídos, cultos e famosos do mundo podiam cometer um erro como esse e pregar que esse tipo de abominação era direito quando bastavam cinco minutos de reflexão para verem o que aconteceria quando alguém tentasse pôr em prática essa ideia. Agora sei que eles não defendiam isso por erro. Ninguém comete um erro desse tamanho inocentemente. Quando os homens defendem alguma loucura malévola, quando não têm como fazer essa ideia funcionar na prática e não têm um motivo que possa explicar essa sua escolha, então é porque não querem revelar o verdadeiro motivo.

E nós também não éramos tão inocentes assim, quando votamos a favor daquele plano na primeira assembleia. Não fizemos isso só porque acreditávamos naquelas besteiradas que eles vomitavam. Nós tínhamos outro motivo, mas as besteiradas nos ajudavam a escondê-lo dos outros e de nós mesmos, nos ofereciam uma oportunidade de dar a impressão de que era virtude algo que tínhamos vergonha de assumir. Cada um que aprovou o plano achava que, num sistema assim, conseguiria faturar em cima dos lucros dos homens mais capazes. Cada um, por mais rico e inteligente que fosse, achava que havia alguém mais rico e mais inteligente, e que esse plano lhe daria acesso a uma fatia da riqueza e da inteligência dos que eram melhores que ele. Mas enquanto ele pensava que ia ganhar aquilo que ele não merecia e que cabia aos que lhe eram superiores, ele esquecia os homens que lhe eram inferiores e que também iam ganhar aquilo que não mereciam. Ele esquecia os inferiores que iam querer roubá-lo tanto quanto ele queria roubar seus superiores. O trabalhador que gostava de pensar que suas necessidades lhe davam o direito de ter uma limusine igual à do patrão se esquecia de que todo vagabundo e mendigo do mundo viria gritando que as necessidades deles lhes davam o direito de ter uma geladeira igual à do trabalhador. Era ESSE o nosso motivo para aprovar o plano, na verdade, mas não gostávamos de pensar nisso. E então, quanto mais a ideia nos desagradava, mais alto gritávamos que éramos a favor do bem comum.

Bem, tivemos o que merecíamos. Quando vimos o que havíamos pedido, era tarde demais. Havíamos caído numa armadilha, e não tínhamos para onde ir. Os melhores de nós saíram da fábrica na primeira semana de vigência do plano. Perdemos nossos melhores engenheiros, superintendentes, chefes, os trabalhadores mais qualificados. Quem tem amor-próprio não se deixa transformar em vaca leiteira para ser ordenhada pelos outros. Alguns sujeitos capacitados tentaram seguir em frente, mas não conseguiram aguentar muito

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tempo. A gente estava sempre perdendo os melhores, que viviam fugindo da fábrica como o diabo da cruz, até que só restavam os homens necessitados, sem mais nenhum dos capacitados. E os poucos que ainda valiam alguma coisa eram aqueles que já estavam lá havia muito tempo.

. . .

— Antigamente, ninguém pedia demissão da Século XX, e a gente não conseguia se convencer de que a companhia não existia mais. Depois de algum tempo, não podíamos mais pedir demissão porque nenhum outro empregador nos aceitaria — aliás com razão. Ninguém queria ter qualquer tipo de relacionamento conosco, nenhuma pessoa nem firma respeitável. Todas as pequenas lojas com as quais negociávamos começaram a sair de Starnesville depressa, e no fim só restavam bares, cassinos e salafrários que nos vendiam porcarias a preços exorbitantes. As esmolas que recebíamos eram cada vez menores, mas o custo de vida subia. A lista dos necessitados da fábrica não parava de aumentar, mas a quantidade de fregueses diminuía. Havia cada vez menos renda para dividir entre cada vez mais pessoas.

Antes, dizia-se que a marca da Século XX era tão confiável quanto a marca de quilates num lingote de ouro. Não sei o que pensavam os herdeiros do velho Starnes, se é que pensavam alguma coisa, mas imagino que, como todos os planejadores sociais e selvagens, eles achavam que essa marca era um selo mágico que tinha um poder sobrenatural que os manteria ricos, tal como enriquecera seu pai. Mas quando nossos fregueses começaram a perceber que nunca conseguíamos entregar uma encomenda dentro do prazo, nem produzir um motor que não tivesse algum defeito, o selo mágico passou a ter o valor oposto: as pessoas não queriam um motor, nem se ele fosse dado, se ostentasse o selo da Século XX.

E no final nossos fregueses eram todos do tipo que nunca pagam o que devem, e nunca têm nem mesmo a intenção de pagar.

. . .

— No entanto, Gerald Starnes, dopado por sua própria publicidade, ficava todo empertigado, com ar de superioridade moral, exigindo que os empresários comprassem nossos motores, não porque fossem bons, mas porque tínhamos muita NECESSIDADE de encomendas.

Àquela altura, qualquer imbecil já podia ver o que gerações de professores não haviam conseguido enxergar. De que adiantaria nossa necessidade, para uma usina, quando os geradores paravam porque nossos motores não funcionavam direito? De que ela adiantaria para um paciente sendo operado, quando faltasse luz no hospital? De que adiantaria para os passageiros de um avião, quando as turbinas pifassem em pleno voo? E se eles comprassem nossos produtos não por causa do seu valor, mas por causa de nossa necessidade, isso seria correto, bom, moralmente certo para o dono daquela usina, o cirurgião daquele hospital, o fabricante daquele avião?

Pois essa era a lei moral que os professores e líderes e pensadores queriam estabelecer por todo o mundo. Se era este o resultado quando ela era

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aplicada numa única cidadezinha onde todos se conheciam, a senhora pode imaginar o que aconteceria em escala mundial? Pode imaginar o que aconteceria se a senhora tivesse de viver e trabalhar afetada por todos os desastres e toda a malandragem do mundo? Trabalhar — e quando alguém cometesse um erro em algum lugar, a senhora é que teria de pagar. Trabalhar — sem jamais ter perspectivas de melhorar de vida, sendo que suas refeições, suas roupas, sua casa e seu prazer estariam à mercê de qualquer trapaça, de qualquer problema de fome ou de peste em qualquer parte do mundo. Trabalhar, sem nenhuma perspectiva de ganhar uma ração extra enquanto os cambojanos não tivessem sido alimentados e os patagônios não tivessem todos feito faculdade. Trabalhar, tendo cada criatura no mundo um cheque em branco na mão, gente que a senhora nunca vai conhecer, cujas necessidades a senhora jamais vai saber quais são, cuja capacidade, preguiça, desleixo e desonestidade são coisas de que a senhora jamais vai ter ciência nem terá o direito de questionar — enquanto as Ivys e os Geralds da vida resolvem quem vai consumir o esforço, os sonhos e os dias de sua vida. E é ESSA lei moral que se deve aceitar? ISSO é um ideal moral?

. . .

— Olhe, nós tentamos — e aprendemos. Nossa agonia durou quatro anos, da nossa primeira assembleia à última, e acabou da única maneira que podia acabar: com a falência da companhia. Na nossa última assembleia, foi Ivy Starnes que tentou manter as aparências. Fez um discurso curto, vil e insolente, dizendo que o plano havia fracassado porque o restante do país não aceitara que uma única comunidade poderia ter sucesso no meio de um mundo egoísta e ganancioso, e que o plano era um ideal nobre, mas que a natureza humana não era suficientemente boa para que ele desse certo.

Um rapaz — o mesmo que fora punido por dar uma boa ideia no primeiro ano – se levantou, enquanto todos os outros permaneciam calados, e se dirigiu até Ivy Starnes, que estava no tablado. Sem dizer nada, ele cuspiu na cara dela. Foi assim que acabaram o nobre plano e a Século XX.

[*** Este texto foi originalmente publicado em 1998, em meu site Ayn Rand, no endereço http://aynrand.com.br, que não existe mais. (Atualmente esse endereço remete a este blog, Ayn Rand Space). Depois o texto foi transcrito em meu blog Liberal Space em 17/05/2005, no endereço https://liberal.space/2005/05/17/trecho-de-atlas-shrugged-quem-e-john-galt/. Ele foi ainda republicado, com pequenas correções e revisões, para ficar fiel à segunda edição da obra, no mesmo blog em 22/12/2014 no endereço https://liberal.space/2014/12/22/excerto-de-a-revolta-de-atlas-obra-de-ayn-rand/.]

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O presente artigo, em três seções, foi composto de material pré-existente, mas revisto, já publicado neste blog, e republicado aqui em Salto, 1 de Junho de 2016. 

 

Desigualdades: Inevitáveis ou Intoleráveis?

Em 2/11/2013 publiquei em um de meus blogs um artigo com o título “Nós os Liberais e a Questão da Direita vs Esquerda de Novo”, que pode ser encontrado no URL https://liberal.space/2013/11/02/nos-os-liberais-e-a-questao-da-direita-vs-esquerda-de-novo/.

Cerca de quatro meses depis, em 9/3/2014, alguém com o nome de Gustavo Andrade Ferreira comentou o artigo e disse:

“Eu estou mais inclinado a pensamentos liberais, mas não concordo em dar total liberdade a um indivíduo quando o mesmo explora esse poder em detrimentos de outros. Quero que uma pessoa inicie seu negócio e ganhe dinheiro com isso, mas não quero que essa pessoa chegue a um ponto de alta lucratividade realizando a exploração de outrem, ou seja, quero que as pessoas se diferenciem entre si – pois são sim diferentes – entretanto devem fazer isso com exercício do bom senso. Pra mim, a liberdade deve ser reprimida quando ela beira o exagero e a ganância exorbitante.”

Tento responder, agora, mais de dois anos depois, porque só encontrei o comentário hoje – e porque o comentarista acha que tem inclinações liberais (apesar da terminologia que emprega – os termos relevantes, na minha forma de entender o problema, estão sublinhados por mim).

O princípio básico do Liberalismo é que todos os indivíduos, sem distinção, têm alguns direitos individuais básicos, e que cada um deve respeitar esses direitos em relação aos demais indivíduos. Um direito se expressa sempre na forma de uma liberdade. Se eu, aos dezesseis anos, tenho o direito de chegar em casa a hora que quiser, eu, na realidade, tenho a liberdade de voltar para casa a hora que bem me aprouver – o que, por sua vez, implica que não tenho o dever ou a obrigação de retornar até determinada hora. Se eu tenho o direito de me associar com quem quiser (desde que, naturalmente, as pessoas com quem quero me associar também queiram se associar comigo) e de não me associar com quem não eu quiser, eu estou livre para me associar com quem eu bem entender, e só – punto y basta. Nesta hipótese ninguém pode ter o direito de se associar comigo contra a minha vontade – não importa que sexo, orientação sexual, cor da pele, preferência política ou religião tenha.

No Liberalismo, se, porventura, houver razão suficiente para que, em alguma circunstância, se restrinja, limite ou mesmo suspenda algum dos direitos individuais básicos em relação de alguém, o Liberalismo exige que a cláusula que restringe, limite ou suspenda esse direito se aplique, sem exceção, a qualquer ser humano em circunstância idêntica. A precisa definição de cláusulas restritivas, limitativas ou suspensivas de direito é sempre complicada, por tratar sempre de circunstâncias excepcionais, mas é possível fazer isso, com um pouco de paciência e bom senso.

No corpo do artigo mencionado no início eu listo e defino os direitos individuais básicos como sendo seis: integridade, expressão, locomoção, associação, ação e propriedade. Alguns autores, como é o caso de Thomas Jefferson, na Declaração de Independência de 1776, os reduzem a três: a vida, a liberdade e a busca da felicidade. O direito à vida corresponde ao direito à integridade da pessoa, ou seja, o direito à sua segurança pessoal e à proteção de sua própria vida; o direito à liberdade compreende os direitos à livre expressão, à livre locomoção (ir e vir), e à associação; e o direito à busca da felicidade engloba o direito de agir para a definição e execução de um projeto de vida (fim) e o direito de obter a propriedade dos recursos e bens necessários (meios) para tanto.

A essência do Liberalismo está aí.

Muitos tentam identificar o Liberalismo com o Capitalismo, afirmando que a gênese do Liberalismo tem que ver com as exigências da infraestrutura econômica da sociedade na passagem de uma economia com modo de produção feudal (predominante na Idade Média) para uma economia com modo de produção industrial (predominante na Idade Moderna).

Discordo disso.

A essência do Liberalismo, na minha forma de ver as coisas, é muito mais ampla, posto que tem que ver com a Liberdade, e esta abrange muito mais do que apenas a economia. Os dois termos, Liberalismo e Liberdade, têm exatamente a mesma raiz. E a liberdade de que se trata não é só econômica, longe disso, mas é primariamente:

  • liberdade de consciência e de expressão (o livre pensar e o livre expressar daquilo que se pensa);
  • liberdade de religião (a livre escolha da religião a que se dedica, liberdade que implica o direito de não se dedicar a nenhuma);
  • liberdade social (a liberdade de, em sociedade, ir e vir, associar-se com quem se quer e não se associar com quem não se quer, viver como bem se entende e decide, ou seja, comendo que se deseja, vestindo-se como se acha melhor, ou ficando até mesmo nu, etc.);
  • liberdade política de se relacionar com o estado no menor nível possível, posto que ele deve ser mínimo, com funções bem definidas e especificadas, e bem restrito em suas atividades, por mecanismos internos e pela eterna vigilância do cidadão, de modo a deixar a maior liberdade possível para o indivíduo / cidadão;
  • liberdade econômica de, em decorrência da propriedade do indivíduo sobre o próprio corpo, trabalhar e produzir, e poder guardar para si, sem restrições, os frutos desse trabalho produtivo, trocando ou comercializando esses frutos de forma livre e negociada, e aplicando os rendimentos dessa troca ou comercialização da forma que achar melhor.

A maior parte dessas liberdades e desses direitos não tem que ver com a economia – embora eu não pretenda reduzir a importância desta.

Vejamos um exemplo.

Imaginemos que dois indivíduos, A e B, se descubram amando a mesma mulher, M. Trata-se de um caso típico e comum de conflito de interesses em que os interesses não são (necessariamente) econômicos.

É direito deles, de A e de B, amar M. Também é direito deles tentar conquistar a amada – respeitando, naturalmente, os direitos dela. Esse respeito se expressa (entre outras formas) no reconhecimento de que nenhum dos dois, A e B, tem direito de ter os seus sentimentos aceitos e correspondidos por M. E é um pressuposto razoável assumir que M não irá optar com ficar com os dois, A e B, ao mesmo tempo e em condições equiparáveis.

Imaginemos, ainda, que, na sequência, A seja capaz de convencer M de que ele é um melhor partido para ela do que B e que M acolha o amor de A, corresponda a ele, e decida viver com ele – por um conjunto qualquer de razões, que aqui não vêm ao caso (e que pode até nada ter que ver com as evidências e os argumentos que A possa ter lhe apresentado). A e M ficam juntos e, ao longo de sua vida em comum, são incrivelmente felizes.

B, por outro lado, fica terrivelmente frustrado e deprimido, chegando até mesmo a contemplar o suicídio… Em sua tristeza, conclui que A é culpado de sua condição miseravelmente infeliz. Da sua condição sofredora conclui (certo ou errado, não importa), que A venceu a competição entre os dois porque era mais bonito, mais culto, mais bem empregado, mais rico… Conclui que a concorrência entre os dois foi desigual, pois ele, além de mais feio, era mais pobre, e, por isso, não teve condições de frequentar as melhores escolas, obter os melhores empregos, receber os melhores salários, muito menos de se tornar sócio da atraente empresa de serviços da qual A era sócio e administrador. Em suas elucubrações imagina formas de tornar a competição pelas mulheres mais desejáveis mais igualitária, ou, que fosse, menos desigual. Cotas nas melhores universidades para os feios, pobres, menos favorecidos pela loteria da sorte? Lei que obrigasse as pessoas excepcionalmente belas a fazer uma plástica que tornasse sua aparência mais comum? Lei que colocasse teto nos patrimônios financeiros impedindo algumas pessoas de se tornaram ricas demais?

Deus apenas sabe por onde caminha a imaginação e a criatividade humana quando o indivíduo está down e inconformado com a sorte… Não se conformando com a sorte, ele quer encontrar fórmulas mágicas de impedir que as desigualdades que nos assolam sejam vistas e tratadas como inevitáveis. Deseja e procura formas de eliminar ou reduzir as desigualdades. Se não por possível elimina-las de todo, pelo menos reduzir as mais gritantes, aquelas que podem ser descritas como intoleráveis. Ao mesmo tempo, dar tratamento preferencial aos menos favorecidos pela sorte para que, achatando uns por cima, e elevando outros por baixo, o gap da desigualdade se reduza…

Pressupõe-se, na história inventada, que A e B eram igualmente livres para tentar convencer M de que a amavam e de que eram o melhor partido para ela. Mas não se pressupõe que ambos fossem igualmente  bonitos, simpáticos, ou atraentes, nem que fossem igualmente escolarizados ou cultos, nem que fossem capazes de conversar e argumentar igualmente bem, nem, por fim, que tivessem as mesmas condições sociais e econômicas. Admito, sem hesitar, que essas variáveis, quando variam, positiva ou negativamente, dão maior  ou menor poder a quem se aplicam. Aqui entra, portanto, a questão do poder, que o comentarista menciona em seu comentário.

Sendo ambos, A e B, igualmente livres para tentar persuadir M, mas sendo, possivelmente, diferentes um do outro em aspectos físicos, psicológicos, mentais, culturais, sociais e econômicos, as chances de sucesso de cada um não eram idênticas. Um fatalmente iria ter mais poder do que o outro, no tocante às possibilidades de sucesso com a mulher que ambos amavam, e, portanto, tinha mais chance de conquistar o seu amor…

Na verdade, porém, nem a liberdade nem o poder garantia nada a nenhum dos dois. Nem a liberdade, nem o poder nem mesmo as duas coisas juntas, garantiam que qualquer dos dois homens, A ou B, fosse bem sucedido em sua pretensão. Um terceiro poderia aparecer de repente e se sair melhor do que os outros dois. Quem o impediria? Ou a mulher poderia ter preferências homossexuais, ou até mesmo ser freira, e não querer, no primeiro caso, nenhum homem, ou, no segundo caso, nenhum homem OU mulher (por já ser “casada com Cristo”, como pretendem as freiras).

Isso posto, não me parece fazer sentido, neste exemplo, afirmar, como o faz o comentarista, que “A explorou o seu maior poder em detrimento de B” – mesmo que se admita que A tivesse maior poder. A escolha, afinal de contas, foi de M. Foi ela que preferiu A a B. E a história nada diz sobre ela, se ela linda, esperta, inteligente, rica…

Seria possível sugerir que, já que ambos amavam a mulher, e ela preferiu A a B, talvez A e M não devessem ter sido tão felizes quanto eu descrevi na história que serve de premissa. Talvez, por solidariedade humana, A e M devessem ter sido um pouco menos felizes, ou, quem sabe, devessem ter ostentado menos a felicidade que sentiam – para que o outro, B, se sentisse menos miserável…

Imagino que o leitor concorde comigo que vida é vida, algo em parte imprevisível, não é um romance de ficção, planejado e executado por um autor. Quem escreve um romance, pode dar-lhe o final que quiser. Mas a vida é governada por fatores ponderáveis, submissíveis ao nosso controle, à nossa escolha, e à nossa decisão, e fatores imponderáveis, que fogem ao nosso controle, sobre os quais não é possível escolher e decidir. A felicidade ou infelicidade de uma pessoa, embora dependa de suas crenças, de seus valores, de suas decisões e escolhas, de seus sentimentos, de sua resiliência, além de uma série de outras características pessoais (sua inteligência, sua criatividade e imaginação, sua capacidade de se relacionar com os outros, sua ambição e motivação, etc.), depende também de fatores imponderáveis, pode ser fruto da sorte ou do azar, ou pode ser obra do destino, ou pode ainda ser resultado da ação da providência divina. Não importa. Embora possamos nos esforçar para planejar e programar o máximo possível, a vida da gente está sujeita a esses imponderáveis que não há como planejar ou programar, ou mesmo controlar, para circunscrever eventuais danos – ou para aproveitar inesperadas possibilidades que as crises trazem.

É evidente, portanto, que numa sociedade livre, uns se saem relativamente bem, outros se saem relativamente mal, ou uns se saem melhor do que os outros, uns se saem incrivelmente bem e outros incrivelmente mal – e isso, não só porque são diferentes uns dos dos outros, mas por causa dos imponderáveis que mencionei (o fator chance).

A gente tem um espaço razoável para escolha, mas não escolhe quando, onde e de quem vai nascer, nem, por conseguinte, qual a herança genética que vai receber, se seremos altos, esbeltos, atraentes, calmos, sensatos, se teremos excelente capacidade de expressão e domínio dos habilidades analíticas e lógicas, se seremos bem dotados na esfera interpessoal, se teremos possibilidade de nos tornar grandes líderes, etc. É verdade que podemos sempre tentar melhorar nosso potencial positivo e reduzir o nosso potencial negativo, mas sempre temos de lidar com algo que nos é “dado”, algo que independe de nós e fica fora de nosso controle.

Se o argumento até aqui está correto, e eu espero que sim, por que é que, quando se trata de maior riqueza ou pobreza das pessoas a gente teria de ser diferente e ser todo mundo mais ou menos igual, “sem exageros”?

Mesmo os que não são comunistas, na verdade nem mesmo socialistas, e que admitem que “alguma” desigualdade socioeconômica é aceitável, talvez porque, segundo tudo indica, inevitável, concluem, no entanto, que chega um ponto em que as desigualdades socioeconômicas passam a ser “intoleráveis”, ultrapassam o limite que é possível admitir. Por quê?

Viviane Senna, que não é pobre nem mesmo remediada, mas está no alto da elite brasileira, acha isso, que chega um ponto em que as desigualdades socioeconômicas se tornam intoleráveis – e daí temos de fazer todo o possível para combate-las, para reduzi-las, para voltar ao nível do tolerável, mesmo que não da igualdade absoluta, hoje reconhecidamente impossível.

Por que seria aceitável que eu ganhasse, digamos, vinte vezes o que ganha a minha empregada doméstica (eu, digamos, vinte mil reais, e ela, digamos, mil reais, por mês), mas é intolerável que o Mark Zuckerberg ganhe cem mil vezes mais do que ganha a babá de sua filhinha (ele, digamos, duzentos milhões de dólares por mês e ela, digamos, dois mil)?

Mas do que “dar certo” (como diz a Viviane Senna), que ele certamente deu, Mark Zuckerberg também “deu sorte”. E pode ser que a babá da filhinha dele também tenha “dado certo” e “dado sorte”, quando comparada a alguém que, quase morrendo de fome, digamos em Bangladesh, ficaria feliz em arrumar um emprego de babá que lhe pagasse um vigésimo daquilo que ganha a babá de Max Chan Zuckerberg (cujo nome em Mandarin é Chen Mingyu).

Por fim, mais uma ideia. Não me parece muito boa, mas vá lá. Se é dificilmente, politicamente e em outros sentidos, impor limites a quão inteligentes, belas, bem preparadas, e ricas as pessoas devem / podem ser, quem sabe as próprias pessoas possam, com o “bom senso” que recomenda o comentarista, impor a si mesmas limites que tornem sua desigualdade menos gritante…

Alguém se arrisca a sugerir a Messi, Neymar e Suárez que, por favor, reduzam um pouco a intolerável desigualdade que os coloca não sei quantos degraus acima dos demais?

Em Salto, 31 de Maio de 2016

Doutrinação e Educação: A Esquerda Pretende Argumentar que Doutrinar não Passa de um Jeito “Crítico” de Educar

Neste artigo vou discutir uma questão atual – que, no entanto, para mim tem sido atual desde 1974, quando comecei a pesquisar a questão, ao chegar à UNICAMP, em meados do ano.

1. Um Ano Atrás: A Doutrinação em Sala de Aula

Compartilhei, hoje, 27/05/2016, no Facebook, um post que foi publicado nesse aplicativo no mesmo dia, no ano de 2015, um ano atrás. Ele continua relevante. Talvez mais do que era um ano atrás.

No post que foi objeto hoje de minhas “Reminiscências” no Facebook, eu disse (com pequenas correções de linguagem e estilo):

“A esquerda fascista e reacionária está contra o projeto de remover das escolas a doutrinação ideológica – qualquer que seja a matriz ideológica dessa doutrinação (projeto este conhecido aqui no Brasil como ‘Escola Sem Partido’). Contra esse projeto a esquerda está defendendo um projeto que chama de ‘Escola Sem Censura’. Dentro da Novilíngua (NewSpeak) da esquerda, Escola Sem Censura significa uma escola em que ela pode continuar a doutrinar livremente, como o faz hoje.

A esquerda tenta nos fazer crer que a expressão“esquerda fascista” é uma expressão autocontraditória. Não é. Vide o livro Liberal Fascism: The Secret History of the American Left, From Mussolini to the Politics of Change, de Jonah Goldberg. O termo ‘liberal’, no título, significa liberal no sentido americano, isto é, esquerdista. O subtítulo deixa isso evidente quando esclarece que o livro vai denunciar o fascismo da esquerda americana – ‘American Left’”.

O que está sendo feito lá precisa ser feito também aqui – sempre com o respeitoso delay.

2. Hoje: A Doutrinação Volta à Baila

Dois eventos recentes têm atraído a atenção para o fenômeno da doutrinação ideológica esquerdista nas escolas brasileiras: uma lei do Estado de Alagoas e a visita, esta semana, de Alexandre Frota ao atual Ministro da Educação.

A. A Lei 7800/16 do Estado de Alagoas

No dia 10 de maio deste ano, um dia antes de ele ser tardiamente defenestrado do Ministério da Educação, o então ainda ministro tomou uma decisão surpreendente para um assim-chamado Ministro da Educação. A edição de O Globo do dia seguinte, 11 de maio, dia em que o Senado começou a votação que removeria Dilma Rousseff e seus ministros do governo – ainda que, por enquanto, apenas provisoriamente – relata, segundo diz o título, “Lei contra ‘doutrinação’ nas escolas de Alagoas é inconstitucional, diz MEC”. O subtítulo da matéria esclarece que “Professores são obrigados a manter ‘neutralidade’ nas salas de aula. Mercadante afirma que lei fere a liberdade de os alunos aprenderem”.

Dá impressão de confusão? Como dizia Grouch Marx, não se deixe enganar: o texto é de fato confuso.

“O Ministério da Educação enviou à Advocacia-Geral da União (AGU), na última terça-feira (10), argumentos contrários à lei que instituiu o programa Escola Livre em Alagoas.  Desde que a lei entrou em vigor, no dia 9 de maio de 2016, os professores das escolas estaduais são obrigados a manter a ‘neutralidade’ em sala de aula, em questões políticas, ideológicas e religiosas. De acordo com o MEC, é justificável entrar com uma ação direta de inconstitucionalidade.”

[Vide a matéria em O Globo: http://g1.globo.com/educacao/noticia/lei-contra-doutrinacao-nas-escolas-de-alagoas-e-inconstitucional-diz-mec.ghtml]

Considero a matéria surpreendente, apesar das aspas colocadas pela matéria em termos e expressões como “doutrinação”, “neutralidade”, porque era de esperar que o então Ministro da Educação defendesse a tese da “neutralidade” dos professores em relação a questões ideológicas. Mas não: Mercadante não quer professores “neutros”: quer professores “partidários” (partisans) – desde que sejam favoráveis ao seu partido, a maior organização doutrinadora e, para não deixar por menos, criminosa que este país já viu.

Isto é feito da mesma forma, e com a mesma cara de pau, que a esquerda internacional defende uma “ciência partidária” (science partisane), não uma ciência neutra e objetiva. Vide Gérard Fourez, La Science Partisane (A Ciência Partidária).

Antes de continuar a comentar, vejamos o que diz a lei que o soi-disant Ministro tenta impugnar. Eis o texto da Lei 7.800/16 do Estado de Alagoas (impresso em azul, no original, e em itálico, para destacar):

LEI Nº 7.800, DE 05 DE MAIO DE 2016.
INSTITUI, NO ÂMBITO DO SISTEMA ESTADUAL DE ENSINO, O PROGRAMA “ESCOLA LIVRE”.

Art. 1º. Fica criado, no âmbito do sistema estadual de ensino, o Programa “Escola Livre”, atendendo os seguintes princípios:

  1. neutralidade política, ideológica e religiosa do Estado;
  2. pluralismo de ideias no âmbito acadêmico;
  3. liberdade de aprender, como projeção específica, no campo da educação, da liberdade de consciência;
  4. liberdade de crença;
  5. reconhecimento da vulnerabilidade do educando como parte mais fraca na relação de aprendizado;
  6. educação e informação do estudante quanto aos direitos compreendidos em sua liberdade de consciência e de crença;
  7. direito dos pais a que seus filhos menores recebam educação moral livre de doutrinação política, religiosa ou ideológica.

Art. 2º.   São vedadas, em sala de aula, no âmbito do ensino regular no Estado de Alagoas, a prática de doutrinação política e ideológica, bem como quaisquer outras condutas por parte do corpo docente ou da administração escolar que imponham ou induzam aos alunos opiniões político-partidárias, religiosas ou filosóficas.

  1. Par. 1º – Tratando-se de disciplina facultativa em que sejam veiculados os conteúdos referidos na parte final do caput deste artigo, a frequência dos estudantes dependerá de prévia e expressa autorização dos seus pais ou responsáveis.
  2. Par. 2º – As escolas confessionais, cujas práticas educativas sejam orientadas por concepções, princípios e valores morais, religiosos ou ideológicos, deverão [fazer] constar [esse fato] expressamente no contrato de prestação de serviços educacionais, documento este que será imprescindível para o ato da matrícula, sendo a assinatura deste a autorização expressa dos pais ou responsáveis pelo aluno para veiculação de conteúdos identificados como os referidos princípios, valores e concepções.
  3. Par. 3º – Para os fins do disposto no § 2º deste artigo, as escolas confessionais deverão apresentar e entregar aos pais ou responsáveis pelos estudantes, material informativo que possibilite o conhecimento dos temas ministrados e dos enfoques adotados.

Art. 3º.  No exercício de suas funções, o professor:

  1. não abusará da inexperiência, da falta de conhecimento ou da imaturidade dos alunos, com o objetivo de cooptá-los para qualquer tipo de corrente específica de religião, ideologia ou político-partidária;
  2. não favorecerá nem prejudicará os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, morais ou religiosas, ou da falta delas;
  3. não fará propaganda religiosa, ideológica ou político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos ou passeatas;
  4. ao tratar de questões políticas, socioculturais e econômicas, apresentará aos alunos, de forma justa, com a mesma profundidade e seriedade, as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas das várias concorrentes a respeito, concordando ou não com elas;
  5. salvo nas escolas confessionais, deverá abster-se de introduzir, em disciplina ou atividade obrigatória, conteúdos que possam estar em conflito com os princípios desta lei.

Art. 4º.  As escolas deverão educar e informar os alunos matriculados no ensino fundamental e no ensino médio sobre os direitos que decorrem da liberdade de consciência e de crença asseguradas pela Constituição Federal, especialmente sobre o disposto no Art. 3º desta Lei.

Art. 5º.  A Secretaria Estadual de Educação promoverá a realização de cursos de ética do magistério para os professores da rede pública, abertos à comunidade escolar, a fim de informar e conscientizar os educadores, os estudantes e seus pais ou responsáveis, sobre os limites éticos e jurídicos da atividade docente, especialmente no que se refere aos princípios referidos no Art. 1º desta Lei.

Art. 6º.  Cabe a Secretaria Estadual de Educação de Alagoas e ao Conselho Estadual de Educação de Alagoas fiscalizar o exato cumprimento desta lei.

Art. 7º.  Os servidores públicos que transgredirem o disposto nesta Lei estarão sujeitos a sanções e as penalidades previstas no Código de Ética Funcional dos Servidores Públicos e no Regime Jurídico Único dos Servidores Públicos Civil do Estado de Alagoas.

Art. 8º.  Esta Lei entrará em vigor na data de sua publicação.

Art. 9º.  Revogam-se todas as disposições em contrário.

GABINETE DA PRESIDÊNCIA DA ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA ESTADUAL

Maceió, 05 de maio de 2016.

Deputado RONALDO MEDEIROS
Vice-Presidente, no exercício da Presidência

A Lei traz dois Anexos, que simplesmente resumem, para referência mais fácil, o que já diz a lei:

ANEXO I
ESCOLAS PÚBLICAS E PARTICULARES EM SENTIDO ESTRITO
DEVERES DO PROFESSOR

  1. O Professor não abusará da inexperiência, da falta de conhecimento ou da imaturidade dos alunos, com o objetivo de cooptá-los para esta ou aquela corrente político-partidária;
  2. O Professor não favorecerá nem prejudicará os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, morais ou religiosas, ou da falta delas;
  3. O Professor não fará propaganda político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos ou passeatas;
  4. Ao tratar de questões políticas, sócio-culturais e econômicas, o Professor apresentará aos alunos, de forma justa, com a mesma profundidade e seriedade, as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito;
  5. O Professor deverá abster-se de introduzir, em disciplina ou atividade obrigatória, conteúdos que possam estar em conflito com as convicções morais, religiosas ou ideológicas dos estudantes ou de seus pais ou responsáveis.

ANEXO II
ESCOLAS CONFESSIONAIS
DEVERES DO PROFESSOR

  1. O Professor não abusará da inexperiência, da falta de conhecimento ou da imaturidade dos alunos, com o objetivo de cooptá-los para esta ou aquela corrente político-partidária;
  2. O Professor não favorecerá nem prejudicará os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, morais ou religiosas, ou da falta delas;
  3. O Professor não fará propaganda político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos ou passeatas;
  4. Ao tratar de questões políticas, socioculturais e econômicas, o Professor apresentará aos alunos, de forma justa, com a mesma profundidade e seriedade, as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito.

O texto da lei, sem os Anexos, é disponibilizado, em reprodução através de fotografia, em O Globo: Vide http://g1.globo.com/al/alagoas/noticia/2016/05/escola-livre-e-publicada-no-diario-oficial-e-lei-passa-valer-em-alagoas.html. Vide o texto final da lei, com os Anexos e até mesmo a justificativa de seu autor, Deputado Ricardo Nezinho (PMDB), em http://www.al.al.leg.br/comunicacao/noticias/confira-o-texto-final-do-projeto-que-trata-do-programa-escola-livre-aprovado-por-unanimidade-pelo-parlamento.

B. A Oposição à Lei 7800/16 do Estado de Alagoas

a. A Crítica do Vice-Presidente da Assembleia Legislativa de Alagoas

Num gesto inusitado, o Vice-Presidente da Assembleia Legislativa do Estado de Alagoas declarou ser contrário à lei, só a tendo promulgado porque estava no exercício da Presidência. Eis o que relata O Globo sobre a posição do Vice-Presidente, Ronaldo Medeiros:

“O deputado Ronaldo Medeiros (PMDB), presidente interino da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa de Alagoas (ALE-AL), promulgou a lei nº 7.800, conhecida como Escola Livre, que defende ‘neutralidade’ política, ideológica e religiosa do professor em sala de aula.  O texto foi publicado no Diário Oficial do Estado (DOE) desta segunda-feira (dia 9), e passa a valer imediatamente.

. . .  De acordo com o deputado, ele só promulgou a lei, de autoria do deputado Ricardo Nezinho (PMDB), por uma questão regimental, já que discorda do conteúdo dela.

‘Promulguei, mas sou contra o Escola Livre. Como o presidente da Mesa está afastado por doença, eu, como vice-presidente, tive que fazer a promulgação, mas sou totalmente contra a lei”, disse o deputado em entrevista ao G1 na última sexta-feira (dia 6).”

[http://g1.globo.com/al/alagoas/noticia/2016/05/escola-livre-e-publicada-no-diario-oficial-e-lei-passa-valer-em-alagoas.html]

Se o deputado é contra a Escola Livre, ele é favor de quê? De uma escola atrelada à esquerda? Escravizada à antiga base aliada do PT?

Em sua conta no Facebook, o deputado disse que “a proposta do Projeto é silenciar o professor e que [ele] é a favor da democracia e da liberdade dentro da sala de aula.” [mesma referência anterior].

Se ele é “a favor da liberdade dentro da sala de aula”, por que rejeita a Escola Livre?

Continua a relatar O Globo:

“A Secretaria de Estado da Educação (SEDUC) informou que vai encaminhar um ofício ainda nesta segunda para que o governador do Estado [Renan Calheiros Filho, filho do presidente do Senado Renan Calheiros] entre com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) por meio da Procuradoria Geral do Estado (PGE). Disse ainda que até que este recurso seja feito não vai cumprir a nova lei, já que esta é ‘impraticável’. A PGE, por meio da assessoria de comunicação, disse que já está pronta para recorrer da Lei assim que o governador Renan Filho fizer a solicitação.”

[Mesma referência anterior: http://g1.globo.com/al/alagoas/noticia/2016/05/escola-livre-e-publicada-no-diario-oficial-e-lei-passa-valer-em-alagoas.html]

O Globo continua a esclarecer, na mesma referência já citada, que o governador do Estado, Renan Calheiros Filho, em vez de acionar a Procuradoria Geral do Estado, vetou a integralmente a lei. A Assembleia Legislativa do Estado, porém, durante sessão plenária no dia 26 de abril, derrubou o veto do governador, promulgando a lei depois de passado o prazo de 48 horas, sem que o governador o fizesse. A lei, portanto, está em vigor.

[Ver http://g1.globo.com/al/alagoas/noticia/2016/05/prazo-vence-e-governo-de-alagoas-nao-promulga-lei-escola-livre.htmlhttp://g1.globo.com/al/alagoas/noticia/2016/04/deputados-de-alagoas-decidem-derrubar-veto-ao-projeto-escola-livre.html].

Filho de Renan, como se vê, Renanzinho é.

b. A Crítica do Ex-Ministro da Educação

Agora é o recém-finado Ministro da Educação que toma a si a responsabilidade de recorrer à Advocacia Geral da União (AGU), então ainda exercida pelo advogado particular de Dilma Rousseff, José Eduardo Cardozo, solicitando que esse oficial maior do Direito no governo de Dilma procurasse invalidar a lei que, claramente, expressa o ponto de vista da maioria dos deputados estaduais de Alagoas.

Como José Eduardo Cardozo também foi defenestrado de seu cargo, e há sindicância dentro da AGU para investigar se ele violou seus deveres enquanto, sem pedir licença de seu cargo, defendeu a presidente temporariamente defenestrada, acusando o Poder Legislativo de perpetrar um golpe de estado e o Poder Judiciário de cumplicidade nesse golpe, a questão deve estar na mesa do atual responsável pela AGU.

O ex-Ministro da Educação alega que a lei alagoana “contraria os princípios legais, políticos e pedagógicos que orientam a política educacional brasileira” nos seguintes pontos:

  1. “O princípio constitucional do pluralismo de ideias” [princípio legal]
  2. “A liberdade do professor” [princípio político]
  3. “Concepções pedagógicas, uma vez que tal pluralidade efetiva-se somente mediante o reconhecimento da diversidade do pensamento, dos diferentes saberes e práticas” [princípio pedagógico 1]
  4. “O cumprimento do princípio constitucional que assegura aos estudantes a liberdade de aprender em um sistema educacional” [princípio pedagógico 2].

[As referências às alegações do Ministro da Educação são extraídas da matéria apresentada em O Globohttp://g1.globo.com/educacao/noticia/lei-contra-doutrinacao-nas-escolas-de-alagoas-e-inconstitucional-diz-mec.ghtml].

Espero que o atual titular da AGU mande para a lixeira o pedido do ex-Ministro, atual serviçal pro bono da Presidente afastada no Palácio da Alvorada, Aloísio Mercadante. Esclareço abaixo por quê. Mas antes, é preciso mencionar que o atual ocupante do Ministério da Educação também foi envolvido na questão da doutrinação a partir de outra iniciativa, como veremos a seguir.

C. A Visita de Alexandre Frota ao Atual Ministro da Educação

Na quarta-feira 25 de Maio de 2016 o atual Ministro da Educação, Mendonça Filho, recebeu em audiência, em seu gabinete em Brasília, o ator Alexandre Frota, acompanhado de um grupo de pessoas envolvidas no site “Revoltados Online”. Da parte do ministro, pouco se noticiou acerca do que realmente transpirou no encontro. Foi o próprio Frota que informou os jornalistas que “uma de suas reivindicações é o fim da doutrinação em sala de aula”. Apesar de aparentemente ter havido outras, essa foi a única reivindicação divulgada. A informação foi dada por O Globo em vários locais em sua edição online do próprio dia 25 e na edição impressa e online do dia seguinte, 26 de Maio (ontem), não raro em tom irônico e gozador.

No Blog de Lauro Jardim, neste caso assinado por Guilherme Amado, refere-se a Frota ironicamente como “um dos mais importantes nomes da educação e da cultura brasileiras”, para, em seguida, abandonar o tom irônico e chama-lo de “ator-ogro” [http://blogs.oglobo.globo.com/lauro-jardim/post/ministro-da-educacao-recebe-alexandre-frota.html; vide também a matéria de Renata Mariz, que faz referência ao blog de Lauro Jardim, mas não inclui o tom irônico e quase debochado: http://oglobo.globo.com/brasil/ministro-da-educacao-recebe-alexandre-frota-ativistas-19376309; o blog de Ricardo Noblat simplesmente transcreve, sem tirar nem pôr, a matéria de Renata Mariz: http://noblat.oglobo.globo.com/geral/noticia/2016/05/ministro-da-educacao-recebe-alexandre-frota-e-ativistas.html].

A visita de Frota, e especialmente o fato de que Mendonça Filho a tenha admitido e até mesmo defendido, causou celeuma. Teve gente, cujo nome me recuso a repetir, que chegou até mesmo a sugerir que o fato de o Ministro ter recebido Frota tem relação direta com o estupro coletivo no Rio de Janeiro. A esquerda consegue surpreender até quando parece que isso não seria mais possível.

D. Críticas à Proposta de Alexandre Frota

O jornal O Estado de S. Paulo relata que “para especialistas em educação ouvidos pelo Estado, a proposta de Frota (de coibição de doutrinação em sala de aula, na linha do Escola sem Partido) pode tanto ser interpretada como um atentado à liberdade de cátedra quanto uma distorção do papel do educador de oferecer o melhor do conhecimento disponível, com suas contradições, aos alunos”.

Um dos ouvidos pelo Estadão foi o ex-Reitor da USP, ex-Ministro da Ciência e Tecnologia e ex mais um monte de coisas, José Goldenberg, que afirmou: “Não é possível não se discutir filosofia e política nas escolas. O que a gente chama de política é algo que Platão fazia há 2.500 anos. É claro que temos de evitar que um professor dissemine política partidária, mas não puni-lo”. Até aí, tudo bem. Mas ele acrescenta, procurando insinuar que a proposta levada ao ministro é algo “retrógrado e obscurantista”: “Agora fico admirado que o ministro da Educação vá se preocupar com isso no começo da gestão, quando há tantos problemas mais agudos para resolver. Me parece retrógrado e obscurantista. Aí amanhã vão querer proibir educação sexual, que vai gerar muito mais problemas. Ou querer o criacionismo no lugar da evolução. Negar isso é andar para trás”.

Outro ouvido do Estadão foi o professor José Álvaro Moisés, diretor científico do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas da USP, que defendeu que o fato de receber o grupo não configura por si só um problema, mas se houve sinalização de apoio ao tema, sim. Disse ele “Faz parte do papel do ministro receber pessoas que queiram apresentar propostas de qualquer natureza. Tem de receber pessoas independentemente da opinião para ouvi-las”, disse. “Mas ouvir não quer dizer concordar e aceitar. Criar uma lei para punir professores que adotem posturas ideológicas não faz o menor sentido. É uma atitude contra a liberdade de expressão e de cátedra e não deve ser aceita pelo governo.”

Ainda outro ouvido pelo Estadão, o professor Renato Janine Ribeiro, “O Breve”, também da USP, ex-ministro “de curta permanência” da Educação, de abril a setembro de 2015, na gestão Dilma Rousseff. Segundo ele, a proposta fere o próprio conceito de educação. “A pretexto de reduzir algum caráter ideológico do ensino, essa proposta coloca em risco todo o ensino. No limite, não se vai poder falar de ciência, do que as ciências sociais e políticas descobriram nos últimos 200 anos. Isso é contra a modernidade  . . .  As ciências humanas têm estudos do socialismo ao capitalismo. Não se pode confundir o ensino das controvérsias que existem na ciência com ideia de doutrinação ou com partido político. Isso é um golpe contra o conhecimento. Estudar Karl Marx é necessário nas ciências sociais, mas não quer dizer quem estuda Marx vira marxista. Não é à toa que quem propõe isso não é exatamente uma referência científica ou em educação.  . . .  Considero um sinal perigoso que o ministro aceite dialogar sobre educação com quem não tem contribuições a fazer sobre educação”, acrescentou.

Aparentemente, nem mesmo um jornal supostamente liberal e até mesmo conservador como o Estadão conseguiu encontrar sequer um intelectual liberal para fazer contraponto às críticas. Coube ao ministro defender a audiência dada a Frota, mas sem entender direito as críticas, imaginando que elas se ativessem ao fato de que Alexandre Frota, entre outros papeis, tem participado de filmes pornôs, e se devessem, portanto, a discriminação contra essa escolha do ator. Segundo o Estadão, o Mendonça Filho “justificou-se” (! de quê? o que ele fez de errado?) afirmando: “Este ministério comporta a pluralidade e o respeito humano a qualquer cidadão.  . . .  Não discrimino ninguém, porque respeito a liberdade de cada pessoa para fazer suas escolhas de vida.  . . .  Não vejo problema na visita. Discriminação é algo tão abominável e tão mal visto por todos os cidadãos com postura civilizada, que o fato de receber um ator como Alexandre Frota é uma questão que absolutamente deve ser respeitada”, falou, dizendo-se uma pessoa “não sectária”. (O articulista cujo nome não declinei atrás acusa Frota de também ser apologista do estupro).

[Todas essas críticas se encontram em http://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,especialistas-criticam-proposta-levada-por-frota-ao-ministro-da-educacao,10000053515].

E. Resumo das Críticas

Tento, primeiro, enunciar as críticas feitas à lei alagoana, especificamente, e à tese do movimento Escola sem Partido, em geral.

O Vice-Presidente da Assembleia Legislativa do Estado de Alagoas alega que:

  1. O objetivo da lei é “silenciar o professor” (vide atrás)
  2. A lei contraria a “liberdade dentro da sala de aula” (vide atrás)

O ex-Ministro da Educação alega, em relação à lei alagoana, que:

  1. A lei “contraria os princípios legais, políticos e pedagógicos que orientam a política educacional brasileira”, a saber:
  2. “O princípio constitucional do pluralismo de ideias” [princípio legal]
  3. “A liberdade do professor” [princípio político]
  4. “Concepções pedagógicas, uma vez que tal pluralidade efetiva-se somente mediante o reconhecimento da diversidade do pensamento, dos diferentes saberes e práticas” [princípio pedagógico 1]
  5. “O cumprimento do princípio constitucional que assegura aos estudantes a liberdade de aprender em um sistema educacional” [princípio pedagógico 2].

O Estadão e os professores da USP ouvidos pelo jornal (os dois andam sempre juntos) alegam que:

  1. A lei contraria a “liberdade de cátedra” e a “livre expressão”
  2. A lei distorce “o papel do educador de oferecer o melhor do conhecimento disponível, com suas contradições, aos alunos”
  3. A lei impede de o professor de discutir filosofia e sociologia, ou as ciências sociais e políticas, em sala de aula
  4. A lei confunde “discussão de controvérsias que existem na ciência” com “doutrinação política” e defesa de plataformas partidárias
  5. A lei confunde “estudar Marx” com proselitismo em favor do Marxismo
  6. A lei pune professores que adotam posturas ideológicas
  7. A lei pode levar a medidas mais “retrógradas e obscurantistas”, com o impedimento de que se discuta a educação sexual ou a teoria da evolução das espécies em sala de aula
  8. Os proponentes da Escola sem Partido não são referência nem em ciência nem em educação

Analisarei, adiante, essas alegações, uma por uma. No fundo, elas são cinco, pois o suposto “silenciamento do professor” é a mesma coisa que a suposta negação da liberdade do professor em sala de aula.

  1. A suposta negação do pluralismo de ideias e da diversidade de pensamento, saberes e práticas
  2. A suposta negação da liberdade do professor em sala de aula (liberdade de cátedra) e até mesmo o cerceamento de sua liberdade de expressão
  3. A suposta negação da liberdade de aprender do aluno, em especial de conhecer as divergências e contradições existentes em e entre disciplinas acadêmicas
  4. A suposta confusão entre discutir questões e autores controvertidos e doutrinar ou fazer proselitismo
  5. A alegação de que os proponentes da Escola sem Partido não teriam qualificação para propor essa tese.

Antes, porém, farei um breve resumo da discussão acadêmica acerca da doutrinação e outros processos afins.

3. Resumo da Discussão Acadêmica

Meu primeiro projeto de pesquisa na UNICAMP, realizado em 1974-1976, logo que ali cheguei, foi sobre o tema doutrinação vs educação. Preocupava-me, naquele momento, em especial a questão da doutrinação religiosa, mas felizmente estudei também a questão da doutrinação política.

A doutrinação tem sido objeto de muita discussão dentro da educação, da psicologia individual e social e da ciência política, pois tem relações de parentesco com temas como “reeducação”, “lavagem cerebral”, “controle do pensamento”, “reforma do pensamento”, etc., bem como com as áreas de propaganda, persuasão forçada, persuasão subliminar, alienação parental, etc. Há uma vasta discussão acadêmica sobre vítimas comuns de alguns desses processos, como, por exemplo, prisioneiros de guerra, tentativas de submeter criminosos comuns multiplamente reincidentes a mudança de comportamento [vide, por exemplo, o filme de Stanley Kubrick Clockwork Orange (Laranja Mecânica)], uso de tortura em suspeitos de crimes (comuns ou políticos), pressão sobre membros mais vulneráveis de famílias autoritárias e outras vítimas de personalidades autoritárias, adolescentes supostamente sequestrados de sua família por cultos religiosos com vistas à sua conversão forçada e posterior total dedicação ao culto, etc.

[Cito aqui, para dar uma ideia da amplitude dos estudos e pesquisas, alguns títulos de livros que tenho aqui em minha estante sobre esses assuntos – em ordem alfabética do primeiro nome do autor:

Bruce Bawer, The Victims’ Revolution: The Rise of Identity Studies and the Closing of the Liberal Mind (A Revolução das Vítimas: O Surgimento de Estudos Identitários e o Fechamento da Mente Liberal)

Clarence T. Rivers, Mind Control: Manipulation, Persuasion, Deception (Controle da Mente: Manipulação, Persuasão e Engano Intencional)

Denise Winn, The Manipulated Mind: Brainwashing, Conditioning and Indoctrination (A Mente Manipulada: Lavagem Cerebral, Condicionamento e Doutrinação)

Diana E. Hess and Paula McAvoy, The Political Classroom: Evidence and Ethics in Democratic Education (A Sala de Aula Política: Evidência e Ética na Educação Democrática)

Diana E. Hess, Controversy in the Classroom: The Democratic Power of Discussion (Controvérsia na Sala de Aula: O Poder Democrático da Discussão)

Gordon W. Allport, The Nature of Prejudice (A Natureza do Preconceito)

Herbert Richardson, editor, New Religions & Mental Health (Novas Religiões e Saúde Mental)

Ivan A. Snook, editor, Concepts of Indoctrination: Philosophical Essays (Conceitos de Doutrinação: Ensaios Filosóficos)

Ivan A. Snook, Indoctrination and Education (Doutrinação e Educação)

J. A. C. Brown, Techniques of Persuasion: From Propaganda to Brainwashing (Técnicas de Persuasão: Da Propaganda à Lavagem Cerebral

John T. Steinbeck, Brainwashing Children: Exposing and Combating the Most Common Form of Child Abuse (Lavagem Cerebral de Crianças: Exposição e Crítica da Forma Mais Comum de Abuso de Crianças)

Jonathan Haidt, The Righteous Mind: Why Good People are Divided by Politics and Religion (A Mente que se Justifica: Por que Pessoas Boas se Separam em Função de Política e Religião)

Joost A. M. Meerloo, The Rape of the Mind: The Psychology of Thought Control, Menticide and Brainwashing (O Estupro da Mente: A Psicologia do Controle do Pensamento, do Menticídio e da Lavagem Cerebral)

Kathleen Taylor, Brainwashing: The Science of Thought Control (Lavagem Cerebral: A Ciência do Controle do Pensamento)

Michael Shermer, The Believing Brain: From Spiritual Faiths to Political Convictions; or How we Construct Beliefs and Reinforce them as Truths (O Cérebro que Crê: Das Fés Espirituais às Convicções Políticas; ou Como Construímos Crenças e as Reforçamos como Verdades)

Richard Warshack, Divorce Poison: How to Protect your Family from Badmouthing and Brainwashing (Veneno no Divórcio: Como Proteger sua Família contra Calúnia e Lavagem Cerebral)

Robert D. Hess and Judith V. Torney, The Development of Political Attitudes in Children (O Desenvolvimento de Atitudes Políticas em Crianças)

Robert J. Lifton, Thought Reform and the Psychology of Totalism: A Study of ‘Brainwashing’ in China (Reforma do Pensamento e a Psicologia do Totalismo: Um Estudo da ‘Lavagem Cerebral’ na China)

Theodor W. Adorno and Else Frenkel-Brunswik, The Authoritarian Personality (A Personalidade Autoritária), 2 volumes.

William Sargant, Battle for the Mind: A Physiology of Conversion and Brain-Washing; or How Evangelists, Psychiatrists, Politicians, and Medicine Men Can Change your Beliefs and Behavior (Batalha pela Mente: Uma Fisiologia da Conversão e da Lavagem Cerebral, ou Como Evangelistas, Psiquiatras, Políticos e o Pessoal Médico Podem Mudar suas Crenças e seu Comportamento).

Fim da citação bibliográfica.]

Vou me ater no que segue aos casos menos escabrosos que podem acontecer, e não raro acontecem, em instituições aparentemente inofensivas como a família, a igreja e, naturalmente, a escola (esta o objeto maior de preocupação aqui). Sobre a síndrome da Alienação Parental, vide os seguintes artigos meus no meu blog Liberal Space:

“Síndrome da Alienação Parental”, in https://liberal.space/2009/09/01/sindrome-de-alienacao-parental/ (01/09/2009)

“A Morte Inventada – Alienação Parental”, in https://liberal.space/2009/09/01/a-morte-inventada-alienacao-parental/ (01/09/2009)

“Alienação Parental – Vamos Combatê-la”, in https://liberal.space/2009/09/01/alienacao-parental-vamos-combate-la/ (01/09/2009)

“Projeto de Lei sobre Alienação Parental”, in https://liberal.space/2009/09/04/projeto-de-lei-sobre-alienacao-parental/ (04/09/2009)

Há várias teorias sobre o que constitui doutrinação (o conceito de doutrinação) e sobre qual o principal critério pelo qual se determina se está havendo doutrinação.

Quanto ao conceito, há certo consenso de que doutrinação tem que ver com tentativas de inculcar crenças ou doutrinas (donde o termo “doutrinação”) na mente de pessoas sobre as quais o doutrinador detém uma posição de certa autoridade: em geral um progenitor em relação aos filhos, um pastor ou um padre em relação aos crentes ou fiéis, um professor em relação aos alunos, etc.

“Inculcar crença”, no caso, quer dizer, “levar alguém a aceitar uma crença de uma maneira que não respeita devidamente o seu direito de livremente decidir, depois de exame independente de evidências e argumentos, apresentados de forma isenta e objetiva, se aceita ou não essa crença”. Não digo que “inculcar crença” é “levar alguém a aceitar uma crença contra a sua vontade”, porque a própria vontade da pessoa pode ser manipulada do processo, dando a impressão, até para a própria pessoa envolvida, de que a crença está sendo aceita voluntariamente, quando, na realidade, não está.

Duas observações adicionais:

Em primeiro lugar, em geral não se usa o termo “doutrinar” quando o objeto é, digamos, apenas mudança  comportamental (desacompanhada de crenças ou de outro componente cognitivo que a justifiquem, ou melhor, “racionalizem”), como quando (mal comparando) se domestica ou adestra um animal. Neste caso em geral se usa o termo “condicionar”, “amestrar”, ou mesmo “treinar”. Doutrinação tem que ver com inculcação de crenças, não com a mudança comportamental que frequentemente a acompanha.

Em segundo lugar, no caso de doutrinação em geral há uma desigualdade de condição entre as partes envolvidas, uma (a parte doutrinada) estando subordinada, e, portanto, em certo sentido, vulnerável, à outra (a parte doutrinadora). Por isso, em geral não faz sentido dizer que uma pessoa sem alguma autoridade sobre outra a doutrinou, como, por exemplo, que o filho doutrinou o pai, ou o crente ou fiel doutrinou o pastor ou o padre, ou que o aluno doutrinou o professor, porque a cadeia de autoridade aqui vai no sentido contrário, por assim dizer. Um aluno, um crente / um fiel, ou um filho pode até influenciar aquilo que um professor, um pastor / um padre, ou um pai pensa, mas não se trataria de doutrinação, nesse caso. Em casos de doutrinação alguma forma de autoridade, ou poder, parece estar sempre envolvida. O pai tem o poder de, de alguma forma, punir o filho (física, psicológica, social ou mesmo financeiramente [retirando-lhe a mesada, deserdando-o, etc.); o pastor ou padre, de igual maneira, têm poder para repreender ou mesmo excomungar seus crentes ou fieis; e o professor tem poder até mesmo de reprovar um aluno, e, assim, direta ou indiretamente, afetar suas possibilidades de sucesso na própria escola ou mesmo, posteriormente, na vida.

Quanto ao critério que nos permite determinar se doutrinação está ou não ocorrendo em casos específicos – ou se se trata de processo educacional totalmente normal e regular, ou, digamos, de um processo inofensivo (dentro da curva da normalidade, por assim dizer) de influenciar outra pessoa através da apresentação de ideias, evidências e argumentação – os autores divergem.

  1. Segundo alguns autores, o critério tem que ver com o tipo de conteúdo que se procura inculcar nos alunos. Segundo esses autores, na área científica não haveria doutrinação. Esta só aconteceria em áreas em que a evidência é disputada ou inexistente e a argumentação dirigida para fazer crer que a evidência inexistente de fato existe ou que a evidência disputada de fato não é disputada, como a religião ou a política (ou, talvez, o futebol…).
  2. Segundo outros autores, o critério tem que ver com o método de persuasão adotado no processo. Se o professor, pastor/padre, pai, etc. usa métodos que não admitem contestação, apresentam apenas um lado da questão, omitem evidências e argumentos que podem levar o aluno, crente/fiel, filho, etc. a questionar a posição do professor, pastor/padre, pai, então está havendo doutrinação. Se o método, por outro lado, é aberto e liberal (republicano, como se diria hoje no Brasil), discute várias alternativas de forma objetiva e isenta, ressaltando seus prós e contras, de modo que os alunos, crentes/fiéis, filhos possam escolher livremente a alternativa que acharem mais razoável, ou, então, não escolher nenhuma, e (adicionalmente) se eles nem sequer conseguem atinar com qual é a alternativa preferida pelo professor, pastor/padre, pai, então dificilmente se pode dizer que tenha havido doutrinação.
  3. Segundo outros autores, é a consequência do processo que determina se houve doutrinação ou não. Se, ao final do processo (aula, pregação, conversa), o aluno, crente/fiel, filho fica com uma crença inabalável em relação ao que foi apresentado, se resolve adotar a crença (ou mesmo a teoria) apresentada com tal convicção que não se dispõe a abandona-la em nenhuma circunstância, nem mesmo diante de evidências inegáveis e argumentos indisputáveis, houve doutrinação por parte do professor, pastor/padre, pai. Se, porém, ao final do processo, o aluno, crente/fiel, filho sai disposto a pensar mais sobre a questão e a examinar melhor as alternativas, cotejando-as com as evidências e os argumentos existentes, para ver qual adotará, ou mesmo se adotará alguma, então provavelmente não houve doutrinação.
  4. Por fim, há autores, entre os quais me situo, que veem na intenção do professor, do pastor/padre, do pai o critério chave. Se o professor, pastor/padre, pai, ao dar uma aula, fazer uma pregação ou preleção, ou mesmo entabular uma conversa, tiver a intenção de fazer a cabeça do aluno, crente/fiel, filho, fazer com que seu interlocutor venha a acreditar no que ele está dizendo não importa que evidências ou argumentos ele possa vir a encontrar em contrário, se seu objetivo é conseguir que o aluno, crente/fiel, filho estreite e limite suas opções na área em questão, em vez de expandi-las e aumenta-las, se seu objetivo é impedir que o aluno, crente/fiel, filho pense por si próprio, tire suas próprias conclusões, impondo-lhe um pacote de ideias pronto e embrulhado, então está havendo doutrinação.

A razão pela qual prefiro “d” é que a intenção me parece abranger os demais critérios. Se minha intenção é a que descrevi em “d”, provavelmente vou me ater a certos conteúdos (e religião e política são os mais prováveis), vou usar métodos mais diretivos e autoritários do que abertos e liberais, e vou esperar que a consequência do processo seja mais uma crença inabalável do que uma crença tentativa, ou uma suspensão de juízo, ou uma dúvida, ou, ainda, mesmo uma contestação e até um protesto.

No relatório de minha pesquisa de 1974-1976 sugeri que uma boa regra de bolso para determinar se alguém está doutrinando ou não é observar como ele reage em relação a quem discorda dele, a quem se recusa a aceitar as ideias e explicações que ele apresenta. Um doutrinador ficará, provavelmente, no mínimo irritado se isso acontecer. Um educador, possivelmente, ficará satisfeito ao ver que seu interlocutor é contrasugestionável e insiste em pensar por si próprio.

4. Resposta às Críticas

Analisarei, agora, de forma resumida, as críticas feitas às proposta do movimento Escola Sem Partido, seja no episódio do Estado de Alagoas, seja em relação à visita de Alexandre Frota e o pessoal do Revoltados Online ao atual Ministro da Educação.

A esquerda é mestre em acusar os outros dos pecados que lhe são mais caros… O liberalismo, que está por trás do movimento “Escola sem Partido” é o mais tradicional defensor da liberdade de pensamento, da liberdade de crença, da liberdade de expressão – no campo religioso, político ou qualquer outro. A lei alagoana, que é objeto desse tipo de crítica (que supostamente negaria o pluralismo de ideias e a diversidade de pensamento, saberes e práticas), afirma claramente, nos Incisos II, III e IV do Art. 1O, a importância de que, na escola, se respeitem o pluralismo de ideias, a liberdade de aprender e a liberdade de crença.

O conceito de “liberdade de cátedra” foi concebido e instituído para impedir que, em regimes ditatoriais ou autoritários, o governo pudesse determinar ao professor exatamente o que e como ele deveria abordar em sua disciplina, impondo-lhe, assim, um “catecismo” ou uma “vulgata” e não lhe deixando espaço para a livre apresentação e discussão de ideias que pudesse ensejar que o aluno não fosse doutrinado. É totalmente ilegítimo, numa situação em que é o próprio professor que tenta limitar o que acontece em sala de aula, em termos de conteúdo e de método, ao que está prescrito em um “catecismo” ideológico que ele aceita (independentemente de o governo também aceita-lo ou não), invocar a sua liberdade de cátedra para fazer exatamente aquilo que o conceito e a instituição da liberdade de cátedra não queriam que acontecesse em sala de aula, a saber, doutrinação. O professor continua a ter seu direito à liberdade de expressão intato, fora da sala de aula. Lá dentro, tem obrigações que ele deve cumprir, entre as quais está a de respeitar a integridade mental do aluno, não lhe impondo, ou não o constrangendo a aceitar, crenças que ele não tem condições de avaliar exatamente em decorrência da abordagem usada pelo professor.

A liberdade de cátedra do professor não é absoluta: ela é limitada e restringida pela liberdade de aprender do aluno, e a liberdade de aprender do aluno significa exatamente isso, que ele tem o direito de não lhe serem tolhidas, por omissão do professor ou por sua ação deliberada, alternativas e opções que podem lhe ser mais aceitáveis, depois de examinar as evidências e os argumentos disponíveis, opções e alternativas essas que o professor se recusou a apresentar em sala de aula, ou apresentou de forma parcial e distorcida, para promover sua agenda partidária (partisane). “Partidária”, aqui, não se refere a partido político, mas, sim, ao fato de o professor tomar partido na discussão, privilegiando uma posição sobre as demais, em vez de assumir a atitude recomendada de isenção e neutralidade, em que todas as opções e alternativas são apresentadas de forma igualmente convincente e persuasiva, como o faria alguém que fosse delas partidário.

Se há divergências e contradições entre essas opções e alternativas, essas divergências e contradições devem ser apresentadas e esclarecidas, não omitidas ou apresentadas de forma tendenciosa, que favorece apenas uma delas.

Os defensores da doutrinação ideológica em sala de aula querem nos fazer crer que não estão proselitizando, mas apenas discutindo, “de forma crítica”, questões e autores controvertidos, cuja aceitação está longe de ser pacífica e generalizada fora da sala de aula (nos lares dos alunos, por exemplo). Basta ouvir o que dizem em sala de aula ou ler o que escrevem para perceber quão falta é sua pretensão. Seu objetivo é proselitizar mesmo, não hesitando eles em defender o voto em um candidato e criticar o voto em outro, em insistir que alunos devem participar de marchas e manifestações defendendo um ponto de vista e se recusar a participar de outras que defendem pontos de vista opostos.

Não se pretende impedir que os professores apresentem e discutam em sala de aula questões e autores controvertidos, desde que o façam de forma isenta, neutra, objetiva. O que se pretende impedir é que apresentem e discutam, de forma partidária, apenas um lado da questão, aquele que eles favorecem e privilegiam, com o intuito de ganhar para o seu a adesão dos alunos. Em suma, o que se pretende impedir é que doutrinem com intenção proselitista.

A alegação de que os proponentes da Escola sem Partido não teriam qualificação para propor sua tese é um argumento ad hominem que adeptos de um Presidente da República apedeuta deveriam ter vergonha de utilizar.

É isso, por enquanto.

Se alguém tem dúvidas de que a esquerda doutrina, e usa até mesmo provas e exames para doutrinar, inclusive o ENEM, para não falar em concursos para ingresso em carreira, veja as seguintes matérias:

http://extra.globo.com/noticias/viral/menina-defende-capitalismo-em-questao-de-prova-leva-nota-zero-mae-questiona-escola-sem-partido-19380565.html

http://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/academicos-atacam-doutrinacao-do-enem-14546063

http://mercadopopular.org/2015/10/doutrinacao-no-enem-o-que-nao-podemos-criticar-no-exame/

http://folhacentrosul.com.br/comunidade/8323/doutrinacao-ideologica-na-educacao-brasileira-forma-militantes-incapazes-de-enxergar-a-realidade

Para o site do Escola sem Partido ver:

http://www.escolasempartido.org/

Em São Paulo, 27-28 de Maio de 2016

A História Acontecida e a História Narrada

Existe um dito, bastante conhecido, segundo o qual “a história é narrada pelos vencedores”. Ele sugere que a História Narrada – aquilo que em alemão geralmente se designa Geschichte – prevalece sobre a História Acontecida – aquilo que em alemão geralmente se designa Historie. Se ninguém narrar algo que de fato aconteceu, parte do que de fato aconteceu não vai aparecer na História Acontecida porque não tem como pertencer à História Narrada – que é a que chega até nós.

Muitos exemplos podem ser dados dessa distinção. A História da Guerra do Paraguai (da guerra entre o Brasil e o Paraguai no século 19) que é contada em nossos livros didáticos e em nossas salas de aula é a História Narrada por nós, brasileiros. É muito provável que os paraguaios tenham uma outra História Narrada da mesma guerra. E onde fica a História Acontecida nessa – bem, nessa história? Ela fica para sempre uma História Escondida? Quem sabe uma História Inacessível? Ou é possível recuperá-la, através de algo que poderia ser chamado de História Científica, ou História Crítica, que consegue atravessar as diversas Histórias Narrativas, alcançar os fatos ocorridos, através da evidência disponível, cientificamente comprovada como tal, e assim chegar a algo que possa ser descrito como, em alemão (pois os alemães criaram esse debate), “Historie, wie es [sie] eigentlich gewesen ist” – a História, como ela de fato aconteceu. Leopold von Ranke (1795-1876) é o historiador alemão que levantou essa lebre. Vide o artigo sobre ele na Wikipedia: https://en.wikipedia.org/wiki/Leopold_von_Ranke.

Mais recentemente, Karl Mannheim (1893-1947), nascido na Hungria, mas que teve, além de uma fase húngara, uma fase alemã e uma fase inglesa, sugere, em sua obra Ideologia e Utopia, que, talvez, não seja o caso de tentar “atravessar as narrativas”, que ele chama de “perspectivas”, mas, sim, de tentar junta-las e integra-las num “todo”, algo que o cientista seria capaz de fazer, por ser capaz de, por sua capacidade crítica, transcender os perspectivismos (representados por nação, região, classe, cultura, religião, época, quem sabe raça e sexo) e o relativismo que eles implicam. O “todo” seria algo “relacional”, mas não “relativo” ou “relativista”.

Mannheim também sugeriu, na mesma obra, que o que chamamos de ideologia deve ser visto, em sua origem, como uma “deliberada tentativa de obscurecer os fatos” – talvez até camuflando-os, quem sabe escondendo-os… O que esse insight parece indicar é que criamos ideologias, para obscurecer, camuflar ou esconder os fatos, quando os fatos não nos parecem aceitáveis – quando é difícil engoli-los e degluti-los… Dentro dessa visão, a História Narrativa seria, possivelmente, uma história cujos fatos são obscurecidos, camuflados e mesmo ocultados para que o de fato acontecido dê lugar ao que gostaríamos de fazer crer que tivesse acontecido (dadas as exigências da nossa ideologia).

Isso o tornou muito mal visto pela maioria dos marxistas, não é muito difícil entender por quê. Vide o artigo sobre Mannheim na Wikipedia: https://en.wikipedia.org/wiki/Karl_Mannheim.

Essa questão toda está na ordem do dia. Estamos vendo, hoje, os fatos da história contemporaníssima do Brasil acontecer diante dos nossos olhos, na televisão, e podemos constatar que os discípulos de Marx, 170 anos depois do Manifesto Comunista, continuam a se esforçar por criar narrativas, que se adaptam aos seus preconceitos ideológicos (sua maneira de ver a realidade), para nos fazer crer que os fatos que vemos acontecer não são o que parecem. Na verdade, que os fatos, na realidade, são outros – que nem parecem ser… Aqui, na verdade, a tentativa não é de obscurecer, camuflar e esconder os fatos: a tentativa é de trocar os fatos (digamos, os fatos verídicos, se isso não é pleonasmo) por outros (por fatos falsídicos, inventados para tentar, na marra, impor uma narrativa histórica que descreve, não o que de fato ocorreu (ou que de fato esteja ocorrendo), mas o que eles gostariam de fazer crer que tivesse acontecido (ou estivesse acontecendo). O que está acontecendo, segundo eles, não é um impeachment, como o que de fato aconteceu, em 1992, com o apoio dos petistas, contra o então presidente Collor. O que está acontecendo agora seria um golpe. Mas como um golpe, pergunta-se, se os militares estão nas casernas, se o rito prescrito pelo Supremo Tribunal Federal (STF) está sendo seguido, se o STF, frequentemente chamado a se pronunciar, o mais das vezes pelos petistas, tem sacramentado o que está ocorrendo? Ah, trata-se de um golpe diferente, um golpe especial: um golpe parlamentar, comandado pelo Vice-Presidente (que atualmente não é parlamentar). Mas como um golpe, pergunta-se ainda, se, ao longo dele, a presidente vai passear em Nova York, no avião oficial, com uma enorme comitiva, deixa no cargo o Vice-Presidente supostamente golpista, em Nova York fica hospedada em hotel caríssimo (como sempre), conta um monte de mentiras para os gringos (como sempre), visita uma exposição num museu, onde almoça, à noite pega o avião, volta para o Brasil, e reassume o cargo (que o Vice-Presidente não move um dedo para impedir)? Ah, mas é um golpe, mesmo assim. É, porque é. Ponto.

A única forma de impor uma narrativa falsa é através da mentira. Da mentira, ainda que deslavada, contada com a cara mais limpa. Por isso, os chefes da nossa esquerda petista, Lula e Dilma, são mestres na arte da mentira. Eles acreditam piamente que a mentira repetida mil vezes passa, pelo cansaço gerado pela oitiva da repetição, a ser vista como verdade pela maioria da população.

Vocês já viram um vídeo do Lula admitindo, orgulhosamente, ser um grande artista da mentira? Um artista que inventa números, tirando-os da algibeira, sem critério algum, para enganar os trouxas dos gringos? Vejam em https://www.youtube.com/watch?v=8Kgo-PykDhk o vídeo em que o Lula admite que mentia deslavadamente para os gringos sobre o número de crianças na rua no Brasil, o número de abortos no Brasil, etc. Quando ele mentiu dessa forma, esclarece, estava em companhia do Roberto Marinho e do Jaime Lerner e não tinha a menor vergonha – e os gringos aplaudiam! O Jaime Lerner teve de adverti-lo para não exagerar demais porque uma hora alguém descobre que ele está mentindo. A audiência diante da qual ele admitiu tudo isso também o aplaudiu pela sua capacidade de mentir. Embora o relato que ele fez pudesse também ter sido inventado! Vai-se saber.

No entanto, um tempo depois, já bem mais recentemente, o mesmo Lula teve a coragem de dizer: “Se tem uma coisa [de] que eu me orgulho neste país . . . é que não tem nesse país uma viva alma mais honesta do que eu” (vide https://www.youtube.com/watch?v=H6KIR5VRxyM). Está mentindo agora ou quando disse que era mentiroso? O caso me faz lembrar de uma conversa do Tim Maia com o Jô Soares, no programa deste, em que o Jô lhe perguntou se era verdade que ele tomava drogas, bebia feito uma esponja, era devasso e promíscuo, etc. e ele negou em todos os casos. Daí esclareceu: o único defeito que eu tenho é que eu sou meio chegado a uma mentirinha…

A história real (a que de fato aconteceu) prova que marxistas e petistas têm certa razão em tentar. O “golpe” deles já deu certo algumas vezes. Na História Acontecida, os militares ganharam de fato a guerra contra a esquerda no período de 1964 a 1984. Mas a esquerda ganhou “a guerra das narrativas”. É a narrativa da esquerda que está transcrita nos livros didáticos e é ensinada nas escolas. A esquerda conseguiu impor a sua História Narrativa (porque ela, seguindo a orientação de Gramsci, se infiltrou nos “aparelhos ideológicos do Estado”: a educação, a mídia, a arte…). Recentemente, estando no poder, a esquerda criou até uma comissão para tentar desenterrar, ou, caso isso se mostrasse impossível ou difícil, gerar ou inventar, fatos que comprovassem sua narrativa do regime militar de 64. Em verdadeiro Newspeak (Novilíngua), chamou a comissão criada de Comissão da Verdade. A “verdade”, no caso, quer dizer “a verdade que queremos narrar e perpetuar”. Vide o vídeo sobre a “Comissão da ‘Verdade’”, com Percival Puggina, em https://www.youtube.com/watch?v=7yK4T9XQa6k.

[Nota: A crítica que faço aqui vai além da que fez à “Comissão da ‘Verdade’” o meu amigo Eliezer Rizzo de Oliveira, em seu livro Além da Anistia, Aquém da Verdade: O Percurso da Comissão Nacional da Verdade. Ele criticou a “Comissão da ‘Verdade’” por ter escolhido investigar apenas um lado, o dos militares, não o outro, o dos terroristas. Assim, criticou a comissão por ter ficado “aquém da verdade”, por ter deixado verdade fora (sem questionar se o que ela concluiu que era verdade de fato o era). Eu critico a tentativa de criar uma narrativa oficial, de reescrever a história, de ir “além da verdade” ou até mesmo procurar criar uma narrativa, “em vez da verdade”, mas uma narrativa que viesse a ficar universalmente reconhecida como a “História Oficial”. A esquerda faz isso ao mesmo tempo que critica a narrativa dos militares como sendo a “História Oficial”. Vide o filme argentino com esse nome. Descrição na Wikipedia: https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Hist%C3%B3ria_Oficial]

Antes de criar a “Comissão da ‘Verdade’” para tentar “comprovar” a narrativa da esquerda petista, esta já havia transformado os guerrilheiros que queriam implantar a ditadura do proletariado no Brasil em “combatentes pela democracia”, em “heróis da resistência democrática”. De igual modo, durante a Guerra Fria, as ditaduras comunistas na Europa Oriental eram chamadas de “Repúblicas Democráticas”, conspurcando não só o termo “democracia” como o termo “república”…

Essas coisas se passam diante de nossos olhos. Vejamos um post que circula no Facebook descrevendo o que aconteceu ontem, 29 de Abril de 2016, no Senado Federal. A advogada Janaína Paschoal estava defendendo o impeachment da presidente quando foi interrompida por uma senadora petista do Rio Grande do Norte, chamada Fátima Bezerra. Disse a senadora, criticando a advogada por pedir o impeachment “de uma presidenta eleita”:

“Não é uma presidente qualquer. É uma mulher que traz no corpo as marcas da tortura que sofreu POR DEFENDER A DEMOCRACIA no Brasil.”

Foi esta a resposta da advogada Janaína Paschoal:

“Prezada senadora: se Dilma foi ou não torturada, não sei. Ela diz que foi, mas ela também diz que nunca soube de corrupção na Petrobras; a senhora decide se a palavra dela merece ou não seu crédito, senadora. Agora, quanto a ter Dilma lutado pela democracia, prezada senadora, veja se consegue entender: Dilma foi membro da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), organização MARXISTA-LENINISTA (a senhora sabe o que é isso, certo?) que praticava assaltos, atentados e sequestros. Tais ações tinham como finalidade (que constava dos estatutos da referida organização, a senhora pode pesquisar) implantar no Brasil uma ditadura do proletariado, um regime de partido único que não permite liberdade de expressão, liberdade de associação partidária, imprensa livre, eleições, nada que vagamente se assemelhe à democracia que a senhora mencionou.”

É isso…

Percival Puggina, em artigo recentíssimo (29/4/2016), critica “O Compromisso com a Mentira”. Diz ele:

“É de autoria da jovem escritora norte-americana Veronica Roth a observação, tão interessante quanto significativa, que determinou o título deste artigo: a mentira exige compromisso. De fato, quem mente faz  um pacto com essa falsidade, agravando de modo crescente seus efeitos e a corrupção da própria consciência. O que descrevi ganha enorme significado no campo político. Neste caso, a mentira pode fraudar a democracia e determinar as mãos para onde vai o poder; pode frear e inibir a Justiça; pode promover a injustiça e pode causar severos danos aos indivíduos e ao interesse público.

Imagine agora, leitor, quanto mal pode advir quando a mentira, corrupção da verdade, é repetida milhões de vezes por multidões que, deliberada ou iludidamente, a reproduzem sem cessar como papagaios de barbearia. Temos visto muito disso por aqui. Impeachment é um instrumento constitucional da democracia, de rito lento e severo definido pelo STF, que exige quorum elevadíssimo em sucessivas deliberações nas duas casas do Congresso. No entanto, sua legitimidade vem sendo contestada através de uma mentira que me recuso a reproduzir aqui em respeito ao leitor cujos ouvidos, certamente, já doem de tanto a escutar.

Agora, um novo mantra está em fase de propagação. É o tema deste artigo. Ouvi-o pela primeira vez há poucos dias: “Se Temer assumir vai acabar com a Lava Jato”. Ué! Em seguida ouvi novamente. E de novo, e de novo. A mentira passou a ser difundida por uma nuvem de papagaios. Em bem pouco tempo, como era de se prever, de tão repetida a mentira virou assunto de entrevistas e comentários em rádio e TV. Ora, quem ouviu a mentira várias vezes proferida por repetidores comprometidos, viva voz ou nas redes sociais, e logo vê o tema sendo abordado em meios de comunicação, aos poucos passa a entender como informação aquilo que repetidamente ouviu. É gigantesca a disparidade de forças entre a verdade e a mentira incansavelmente proferida!

Vamos à verdade. Quem tentou controlar a operação Lava Jato foi o governo. Quem manifestamente odeia o juiz Sérgio Moro são: a presidente Dilma, o ex-presidente Lula, seu partido, seu governo e seus seguidores. Eram os parlamentares do governo que assediavam José Eduardo Cardozo enquanto foi ministro da Justiça para que contivesse as ações da Polícia Federal. Foi por pressão partidária, especialmente de Lula, que ele deixou o ministério onde seu sucessor, o ministro Aragão, já no dia da posse, começou a ameaçar a Polícia Federal. Ou não? Num país onde os absurdos se sucedem abundantes, em cascata e por dispersão, as pessoas esquecem essas coisas e abre-se o campo para quem mantenha relação descomprometida e inamistosa com a verdade.

Ninguém pode deter a operação Lava Jato. Ainda que alguns parlamentares investigados por ela tenham se mudado do governo para a oposição, a operação funciona numa esfera que não pode ser alcançada por cordéis acessíveis aos comandos políticos. O governo, que descobriu ser inútil sonhar com isso, também sabe que pode se valer da ideia para propagar uma falsidade que lhe convém.

[http://www.puggina.org/artigo/puggina/compromisso-com-a-mentira/7849; os grifos são meus]

Na verdade, como sugere Puggina, os mentirosos compulsivos, de tanto mentir, acabam acreditando nas próprias mentiras, acabam por considera-las verdades – mais que isso, verdades evidentes, que apenas a maldade (“o direitismo”, “o reacionarismo”, etc.) dos que as negam os levam a negar.

Vou terminar no mesmo tema, mas noutro tom…

Rudolf Bultmann, um dos maiores teólogos protestantes do século 20, crítico do chamado Historicismo, afirmou, em um dos seus livros, contrariando de certo modo São Paulo (que disse que, “se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé” – I Cor 15:14), que, mesmo que a ressurreição não tivesse sido um fato histórico (historisch), e mesmo que Jesus não houvesse realmente vivido, o que importa é o kerygma (a mensagem, a pregação) da igreja, que é baseada na crença na ressurreição, a narrativa da ressurreição – ou seja, a História Narrada (geschichtlich), não a História Acontecida. Se se perguntar a ele como é que surgiu a crença na ressurreição, se ela não foi decorrente do fato da ressurreição (como descreve a “narrativa oficial” da Igreja, contida no Novo Testamento), ele provavelmente dirá que não está interessado nessa questão – que é, novamente, historisch, relacionada aos fatos, não à narrativa. Pode ter sido deliberadamente inventada pelos discípulos, ou alguém mais a inventou e iludiu os discípulos, que ingenuamente acreditaram nele. O importante, para ele, Bultmann, é a História Narrada – não a História (de fato) Acontecida.

Seria Bultmann um petista, estivesse ele vivo e vivesse ele no Brasil de hoje?

Em Salto, 1 de Maio de 2016.

P.S.

Quatorze dias depois de  eu escrever o post acima, encontrei um artigo do Senador Cristovam Buarque, em O Globo de 14/5/2016, que aborda o mesmo tema discutindo a diferença entre “Teses e Narrativas”.

Teses, afirma ele, são itens de programas que se pretende defender — é algo que se pretende construir.

Narrativas são mentiras e invenções acerca de algo que ocorreu que se pretende ver adotadas como se fossem verdade histórica. Não é história ocorrida: é a história narrada que não leva em conta a história ocorrida, mas atende aos interesses do grupo que constroi a narrativa.

O artigo de Cristovam Buarque está disponível em http://oglobo.globo.com/opiniao/teses-narrativas-19304817. Eis o seu texto completo.

Teses e narrativas

O Partido dos Trabalhadores adotou, durante anos, a prática democrática de debater teses apresentadas por seus grupos organizados, chamados de “tendências”. Ao chegar ao poder, esta prática foi reduzida pela centralização criada para fazer o governo funcionar. As “tendências” foram perdendo força e suas teses, aos poucos, abandonadas.

Nos últimos meses, o partido passou a adotar “narrativas”, criadas conforme a interpretação de alguns dirigentes ou seus marqueteiros, para serem transformadas em lendas acreditadas sem contestações, o contrário do debate de teses. À exceção de alguns poucos líderes, a exemplo de Tarso Genro, que se mantêm fiéis a teses.

Foi propalada a lenda de que os programas de transferência de renda foram inventados e criados, em 2004, pelo governo Lula. A narrativa ignora o programa Bolsa Escola, criado pelo governo do PT no Distrito Federal, em 1995, espalhado para diversas cidades, inclusive São Paulo, no governo da Marta Suplicy, e depois adotado pelo governo Fernando Henrique, em 2001. O programa foi ampliado com o nome de Bolsa Família, mas, ao relegar o aspecto educacional, transformou-se em instrumento de assistência social.

Em 2009, foi criada a narrativa de que o pré-sal era um produto do governo Lula e que suas receitas salvariam o Brasil, especialmente educação e saúde. Anos depois, estes setores não viram os resultados prometidos, e a Petrobras luta para sobreviver após a rapinagem do petrolão.

Vendeu-se a narrativa de que o Brasil havia superado o quadro de pobreza e que 35 milhões ingressaram na classe média, como a família que recebesse em 2012 renda per capita mensal entre R$ 291 e R$ 1.091. Este baixo valor e a elevada e persistente inflação desmoralizaram a narrativa.

Apresentaram a lenda de que as generosas desonerações fiscais seriam capazes de transformar a crise mundial em uma marolinha brasileira. Graças às cotas, positivas, mas localizadas e restritas a raras pessoas, houve a narrativa de que os filhos de todos os pobres tinham vagas nas universidades, mesmo sem a melhoria da educação básica, porque raríssimos pobres terminam o ensino médio com qualidade.

Agora, passa-se a narrativa de que o impeachment é golpe, mesmo se for comprovado crime de responsabilidade previsto na Constituição. Individualmente, cada um pode ter razões para duvidar se as gravidades dos fatos apresentados na petição do impeachment justificam a destituição de uma presidente eleita por mais de 53 milhões de votos. Mas não há razão para acreditar na narrativa de golpe, se o procedimento estiver seguindo as normas, leis e ritos constitucionais, conforme seguiu no caso do ex-presidente Fernando Collor.

Esta narrativa é, porém, um direito do partido na estratégia eleitoral para 2018. É lamentável, porém, que o partido das “teses” tenha se transformado no partido das “narrativas”.

Cristovam Buarque é senador (PPS-DF)

Um Post Scriptum sobre Socialismo Democrático (Social-Democracia) e Liberalismo Social

INTRODUÇÃO

Ao ler o meu artigo anterior “Se o Socialismo não funciona em país rico e de governo honesto, quanto mais aqui…” (https://liberal.space/2016/04/28/se-o-socialismo-nao-funciona-em-pais-rico-e-de-governo-honesto-quanto-mais-aqui/), publicado hoje de madrugada aqui, uma amiga minha no Facebook (o nome dela é Renata Abdelnur-Schäfer), que mora na Alemanha, fez seguinte comentário, que achei bastante instigante — razão pela qual optei por responder a ele aqui, em outro artigo. Disse ela:

Eduardo, gostei muito do seu texto, mas uma coisa me intrigou. Você afirma que o Estado de Bem Estar Social é socialismo. Eu sempre pensei que fosse capitalismo voltado ao social, que veio substituir o socialismo marxista como é no caso da Alemanha. Aqui na Alemanha funciona muito bem. Será que estou confundindo alguma coisa???

Na minha opinião, Renata, você está confundindo algumas coisas, sim. Mas vou tentar esclarecê-las.

Vou  desenvolver meu argumento em dois blocos. O primeiro discute questões de natureza mais teórica. O segundo, algumas questões de natureza mais prática.

1. A QUESTÃO DO ORDENAMENTO DE SISTEMAS DE ECONOMIA POLÍTICA 

É um princípio geral básico da Teoria Política, na verdade um princípio duplo, que, ao definir deveres e direitos do estado e do indivíduo, em ambiente governado pela lei:

  • Ao estado e ao indivíduo é obrigatório (a) fazer tudo o que a lei explicitamente os obrigue a fazer e (b) deixar de fazer tudo o que a lei explicitamente os proíba de fazer (DEVERES);
  • Ao estado é facultado fazer apenas o que a lei explicitamente o autoriza a fazer, sendo-lhe vedado fazer tudo o mais, e ao  indivíduo é facultado fazer tudo o que a lei explicitamente não o proíba de fazer, tudo o mais lhe sendo permitido (DIREITOS).

Façamos um espectro horizontal, com seis posições, que indique, de um lado (o esquerdo), aquilo que cabe ao estado (ou seja, aquilo que o estado tem dever ou direito de fazer), e, de outro lado, aquilo que cabe ao indivíduo (ou seja, aquilo que o indivíduo tem direito ou dever de fazer), na visão de cada sistema de economia política. Teremos algo mais ou menos assim: 

1————2————3——X——4————5————6

a) Nos extremos (nas Posições 1 e 6), o Socialismo Marxista (vulgarmente chamado também de Socialismo Comunista ou só de Comunismo), à esquerda, na Posição 1, em que o estado é tudo (tem todos os direitos) e o indivíduo é nihil (não tem nenhum direito), e o Libertarianismo Anárquico (também chamado de Anarquismo Libertário), à direita, na Posição 6, em que o indivíduo é tudo (tem todos os direitos) e o estado nihil (não tem nenhum direito, porque, na verdade, nem sequer deve existir – como prescrevem os diversos anarquismos). 

b) No meio, da esquerda para a direita, o Socialismo Não-Marxista (Posição 2), a Social Democracia (Posição 3), às vezes chamada de Estado do Bem-Estar Social, o Liberalismo Social (Posição 4), às vezes chamado de Liberalismo com uma Cara Humana, e o Liberalismo Clássico (Posição 5), às vezes chamado de Liberalismo Laissez-Faire

c) O centro do espectro, representado pelo Posição X, seria o que normalmente separaria a Esquerda (Posições 1, 2, e 3) e a Direita (Posições 4, 5, e 6). Quem se diz pertencer ao “Centrão” muitas vezes está meio perdido aí nesse espaço medianeiro, sem saber se se inclina para a Esquerda ou para a Direita. O Centrão é uma posição bastante popular no círculo daqueles que não querem se deixar rotular nem de Esquerda nem de Direita, preferindo posar como Moderados. (A Bíblia tem, em seu último livro, umas palavras muito duras para com aqueles que não querem ser nem frios nem quentes, e optam por parecer mornos).

Na minha forma de entender, Renata, sua dificuldade está em diferenciar entre as Posições 3 e 4 — a Social-Democracia (do lado esquerdo) e o Liberalismo Social (do lado direito). Você acha que a Social-Democracia, ou o Estado do Bem-Estar Social, faz parte do Liberalismo, ou Capitalismo (como você prefere), não do Socialismo. Eu discordo. Para mim, a Social-Democracia indubitavelmente faz parte do Socialismo, não do Liberalismo, ou Capitalismo.

Vou explicar-lhe como eu entendo a questão.

Para mim, como acabei de dizer, a Social-Democracia é uma forma de Socialismo. Ela é herdeira e sucedânea do Socialismo Marxista, com mediação do Socialismo Não-Marxista.

A. Os Socialismos

a. O Socialismo Marxista

O Socialismo Marxista, o mais radical dos Socialismos, defende a exigência ou suposta necessidade de SOCIALIZAÇÃO (ESTATIZAÇÃO) DE TODOS OS MEIOS DE PRODUÇÃO, sem exceção: do sitiozinho que atende às necessidades de subsistência de seu proprietário e sua família até a quitanda do japonês e a padaria do português da esquina.

b. O Socialismo Não Marxista

O Socialismo Não-Marxista, mais soft do que o Socialismo Marxista, abandonou a exigência ou suposta necessidade de socializar todos os meios de produção, mas deseja uma presença marcante do estado em áreas que considera economicamente estratégicas, como, por exemplo, mineração, energia, transporte, comunicações, saneamento básico, etc. Em suma, o Socialismo Não-Marxista quer um estado grande e forte e defende, portanto, a SOCIALIZAÇÃO (ESTATIZAÇÃO) DOS MEIOS DE PRODUÇÃO CONSIDERADOS ESTRATÉGICOS (podendo haver alguma discussão do que é estratégico e do que não é: a laminação do aço, ou a siderurgia, é ou não?). Os demais meios de produção (agricultura e pecuária, indústria não-estratégica, comércio, serviços em geral, etc.) podem ficar nas mãos da iniciativa privada, vale dizer, dos indivíduos, não do estado, o estado só intervindo quando não houver interesse ou possibilidade de a iniciativa privada ocupar esse espaço.

c. A Social Democracia

A Social-Democracia abandona a necessidade de intervenção do estado na maior parte das áreas estratégicas que não são sociais, privilegiando o controle estatal (direto ou mediante regulação) da área social: saúde, educação, e seguridade (aposentadoria, pensão, seguro, etc. – a chamada “rede de proteção social” ou “social safety net“). A Social-Democracia defende, portanto, a SOCIALIZAÇÃO (ESTATIZAÇÃO) DAS ATIVIDADES DA CHAMADA “REDE DE PROTEÇÃO SOCIAL”. Às vezes a área de comunicação social e interpessoal (os chamados meios de comunicação social, como jornais, rádio, televisão e, hoje em dia, a Internet, etc., bem como meios de comunicação interpessoal, como o correio, a telefonia, etc.) é incluída aí. Também a área de transportes, por envolver a locomoção humana, é muitas vezes incluída aí (transporte terrestre, incluindo rodoviário, ferroviário, marítimo e hidroviário, e transporte aéreo).

Para que possamos distinguir a Social-Democracia do Liberalismo Social, é preciso esclarecer o que a esquerda social-democrata normalmente pretende realizar quando propõe a socialização (estatização) de uma “Rede de Proteção Social”.

  1. Pretende, em regra, como primeira opção, que as áreas da saúde, educação,  seguridade, comunicação social e interpessoal, transportes, etc. sejam literalmente estatizadas, ficando sob total controle (propriedade, planejamento, organização, regulação, execução e avaliação) diretamente do estado, cada uma delas em um “Sistema Único”, estatizado, deixando de haver prestação de serviços privados nessas áreas;
  2. Pretende, como alternativa aceitável, caso a primeira opção se mostre inviável (por razões financeiras, políticas, culturais ou outras), que o estado detenha controle parcial (semi-total) dessas áreas, mantendo a propriedade, o planejamento, a organização, a regulação e a avaliação do sistema criado em cada área, mas deixando que a execução fique parcialmente aberta, em regime de concessão, também à iniciativa privada, sem prejuízo da atuação estatal direta na área;
  3. Admite, como alternativa menos aceitável, como aconteceu em parte no Brasil, durante a discussão e aprovação da Constituição Federal de 1988, que áreas como saúde e educação sejam abertas (não como concessão) à iniciativa privada, mas preservando o chamado “controle social” (no caso estatal) do que é feito pela iniciativa privada, que, na maior parte dos casos, depende de autorização estatal, é regulada e avaliada pelo estado, etc.;
  4. Defende o envolvimento do estado em qualquer área, mesmo não social, quando não houver interesse ou possibilidade de a iniciativa privada ocupar esse espaço.

B. Os Liberalismos

Passemos para o lado direito do espectro, agora, começando com o extremo e indo para o centro.

a. O Libertarianismo Anárquico

O Libertarianismo Anárquico (ou Anarquismo Libertário) é um sistema anárquico. Ele dispensa a existência do estado e defende a tese de que os indivíduos são plenamente capazes de conviver com suas diferenças e resolver suas eventuais divergências de comum acordo (por arbitramentos vários, se necessário), sem que haja necessidade de criar um estado e atribuir-lhe funções e recursos que, inevitavelmente, são retirados dos direitos e dos recursos dos indivíduos. Não há, portanto, estado aqui. A fortiori, não há controle de meios de produção ou de rede de proteção social pelo estado. Tudo fica a cargo da iníciativa (necessariamente privada) dos indivíduos.

b. O Liberalismo Clássico

O Liberalismo Clássico (Liberalismo Laissez-Faire), o mais famoso dos Liberalismos, tem uma visão menos otimista da natureza humana. (Para quem conhece um pouco da história do pensamento cristão, ele é mais agostiniano do que pelagiano). Para ele, o ser humano é naturalmente egoísta e, portanto, se não houver um estado que reconheça uma lei natural OU defina um conjunto de direitos e deveres a serem respeitados igualmente por todos, os mais fortes ou mais espertos se imporão aos mais fracos, menos vivos, ou simplesmente mais acomodados. No entanto, o estado será necessariamente governado, não por santos, mas por seres humanos, que não deixarão de ser egoístas quando vierem a ocupar funções no estado. Por isso, o estado deve, para o Liberalismo Clássico, ser mínimo, suas funções devem ser clara e precisamente definidas, ele deve ser organizado em ramos ou divisões funcionais, cada ramo tendo a responsabilidade de vigiar e fiscalizar os outros (checks and balances), e o povo deve se conscientizar do fato de que o preço da sua liberdade é sua eterna vigilância, tendo, assim, o direito e mesmo o dever de agir contra o estado quando se convencer de que o estado está atuando contra seus direitos e interesses.

O Liberalismo Clássico acabou com o poder absoluto dos reis, justificou o direito à revolução e mesmo ao tiranicídio, e colocou o indivíduo como peça fundamental da sociedade, o estado existindo exclusivamente para proteger a liberdade do indivíduo e garantir que seus direitos sejam respeitados por outros indivíduos e pelo próprio estado. As únicas funções que o Liberalismo Clássico permitiu que fossem atribuídas ao estado foram: a legislativa (definição de leis com direitos e obrigações, de preferência dentro de um quadro constitucional); a policial e militar (garantia de que as leis do país serão respeitadas, pelos que moram no país e pelos que moram fora, inclusive por outras nações); e a judicial (aplicação das leis e punição dos que as descumprirem). Nada além disso. Saneamento, infraestrutura, saúde, educação, securidade, comunicação, transportes, etc., tudo isso fica a cargo da iniciativa privada: ao estado cabe apenas “laissez faire“, sair da frente e deixar que os indivíduos resolvam seus problemas nessas áreas, sem interferir e sem mesmo tentar regular.

Até algum tempo atrás fui um Liberal Clássico convicto. De lá para cá tenho sofrido uma tentação quase irresistível na direção do Libertarianismo Anárquico.

c. O Liberalismo Social

Por fim, o Liberalismo Social. O Liberalismo Social está do lado direito, e, portanto, sempre do lado do indivíduo, da sua liberdade e dos seus direitos civis e pessoais. Não é, como é o caso com a Social-Democracia, o mínimo de socialismo a que um socialista pode chegar… É, isto sim, o máximo de socialismo que um liberal pode se permitir

Note-se que o “máximo de socialismo” do Liberalismo Social é menos do que o “mínimo de socialismo” da Social-Democracia.

Isso pode parecer apenas uma questão meramente semântica, ou de onde é que a gente faz a marcação na régua, ou, ainda, de ênfase. Mas, na realidade, não é, como procurarei mostrar.

O Liberalismo Social está comprometido com o Liberalismo, com a liberdade (não com a igualdade ou equalidade). Ele admite que pode haver problemas, além dos admitidos pelo Liberalismo Clássico (Legislação, Segurança Interna e Externa, Justiça), que podem se mostrar de difícil solução em bases predominantemente privativistas. A Educação é um desses problemas. Uma população não educada, ou educada inadequadamente, pode não conhecer os seus direitos e os dos demais cidadãos, pode não entender por que deve respeita-los, pode imaginar que o estado, em vez de proteger sua liberdade e fazer respeitar seus direitos, deve promover seu bem-estar, ajuda-la a viver bem, contribuir para a sua felicidade — e ficar frustrado quando isso não acontece. E por não ser educada, ou não ser educada adequadamente, por escolher mal os seus representantes e os seus governantes.

O Liberalismo Social reconhece que a melhor educação é aquela proporcionada no lar, na comunidade, ou mesmo em escolas criadas, mantidas e administradas pelos cidadãos, sem a interferência do estado. Mas reconhece, também, que em determinadas instâncias o desafio pode ser tal que a iniciativa privada não tem os recursos ou a motivação necessários para cumprir essa tarefa bem. Além disso, há quase sempre populações tão pobres que não podem pagar serviços prestados pela iniciativa privada, que pode agir filantropicamente, mas sempre tem o direito de, assim o desejando, cobrar por seus serviços. Nessas circunstâncias, excepcionalmente, e em caráter supletivo, o Estado pode atuar na oferta de serviços dentro da área educacional (recolhendo taxas e impostos da população beneficiada direta ou indiretamente, não apenas dos usuários ou dos beneficiários diretos) – mas deve estar sempre disposto a remover-se dali tão logo haja interesse e condições de a iniciativa privada assumir esses serviços. O mesmo se aplica, mutatis mutandis, na área da saúde, da seguridade, das comunicações, dos transportes, etc.

A Social-Democracia, por sua vez, está comprometida com o Socialismo e seu ideal de igualdade ou equalidade. Ela se dispõe a sacrificar a liberdade dos indivíduos pagadores de importos no altar desse ideal. Diante de qualquer problema ou necessidade, sua primeira opção é sempre aumentar impostos. Os que se enxergam como social-democratas não se vêem primariamente como pagadores de impostos ou provedores de recursos (que é como os Liberais Sociais e demais liberais se vêem): vêem-se, isto sim, como criadores de programas sociais, e, portanto, como distribuidores de recursos. Enxergam-se, na realidade, como “ongueiros” com o dinheiro dos outros. É fácil e agradável ser um filantropo quando o dinheiro não sai de seu bolso e estando na folha de pagamento do estado.

II. QUESTÕES DE NATUREZA PRÁTICA 

Caminhando para a conclusão…

As telecomunicações e os transportes ferroviários surgiram no Brasil como iniciativas privadas. Havia, para cobrir telégrafos e telefonia, a Companhia Telefônica Brasileira (CTB), que, de brasileira, inicialmente só tinha o nome. No transporte ferroviário, havia companhias que, o mais das vezes, nem o nome brasileiro tinham: Sao Paulo Railway, por exemplo, que depois virou a Companhia Paulista de Estradas de Ferro.

Durante a Ditadura Militar (que, em regra, ninguém considera socialista, mas cuja economia era profundamente socializante), tudo isso foi estatizado, ou seja, o estado autoritário e ditatorial tomou para si o controle tanto das telecomunicações como do transporte ferroviário.

Na área de telecomunicações, criou-se, em 1972, o Sistema Brasileiro de Telecomunicações, conhecido como TELEBRÁS, dividido em sub-sistemas para cada um dos Estados (TELESP, TELERJ, TELEMIG, etc.), que controlou nossa telefonia (e outros componentes das telecomunicações, como a comunicação de dados, através da EMBRATEL) por tanto tempo.

Na área de transporte ferroviário, os militares se aproveitaram da criação da Rede Ferroviária Federal, em 1957, e aperfeiçoaram a estatização de todas as companhias de transporte ferroviário, criando sub-sistemas para cada estado (a FEPASA, por exemplo, no Estado de São Paulo).

O que presenciamos, de 1995 para cá no Brasil (início da gestão FHC, um socialista que virou social-democrata, ou neo-socialista (para contrastar com os chamados neo-liberais), e antes disso, lá fora, foi uma tentativa consciente de privatizar serviços que eram prestados pelo estado na área não-social num passado recente (ainda que num passado mais remoto já houvessem sido privados). Privatizar, no caso, queria dizer transferir os serviços para a iniciativa privada (total ou, mais frequentemente, parcialmente).

Por que se fez isso? Porque a estatização se mostrou um desastre. Na área das telecomunicações, no início da década de 90, era impossível conseguir-se linha de telefone. Cheguei a pagar, quando criei uma empresa em 1994, dez mil dólares, no mercado negro, para adquirir duas linhas telefônicas. Elas estavam em falta no mercado e só o sistema estatal poderia cria-las – a área estava vedada à iniciativa privada. Não havia recursos no estado, mesmo com o sucesso do Plano Real, para investir como se devia em Telecomunicações (e nas outras áreas carentes de investimento). Optou-se por privatizar as atividades estatais em áreas estratégicas não-sociais para concentrar os investimentos na área social. Dois dos principais ministros de FHC, seus amigos pessoais, foram Paulo Renato Costa Souza e José Serra, respectivamente ministros da Educação e da Saúde, durante oito anos (ou quase, no caso de José Serra, que deixou o ministério para se candidatar à Presidência em 2002.

Já em 1995, no segundo ano do governo FHC, começou a se privatizar a área de telecomunicações – sob o comando de seu Ministro das Telecomunicações, Sergio Motta -o trator encarregado de reduzir o tamanho do estado. Morreu tentando. Inicialmente, o Sistema Telebrás resistiu, pois queria, além de manter o que já tinha, incorporar também a Internet, recém chegada, saída dos ambientes torre-de-marfim das universidades, que seria, como já era a telefonia e a comunicação de dados, estatal. Sérgio Motta resistiu e quebrou o monopólio do Sistema Telebrás. A luta, como disse, custou-lhe a vida. Também era amigo pessoal de FHC. Talvez amigo mais querido do que os outros dois, apesar da diferença de temperamento entre ambos.

No tocante aos transportes ferroviários não houve um esforço muito intenso de privatização, mas na área de transportes rodoviários as rodovias que ficavam sob controle das Unidades da Federação foram rapidamente privatizadas, começando com São Paulo. O governo federal, neste caso, ficou para trás. Está atrás até hoje, as estradas federais continuando a ser uma calamidade anualmente denunciada pela mídia.

Não resta a menor dúvida, hoje, de que as privatizações feitas — as mencionadas e outras — foram um sucesso. Se a Petrobrás tivesse sido privatizada então não estaria, agora, em risco de quebrar, principalmente diante dos class-action suits dos investidores americanos.

O que cabe perguntar é como é que um governo anti-comunista, como foi a Ditadura Militar, foi tão estatizante, no tocante à economia, estatizando setores inteiros da economia, criando um número enorme de “Brases”, etc.

A questão aqui tem que ver com a inexistência de modelos puros. Os militares eram contra o Socialismo-Marxista (o Comunismo), em alguns sentidos, em especial seu ateísmo, seu materialismo, sua teoria da luta de classes e da ditadura do proletariado, etc. Na economia, porém, foram muito próximos do Socialismo, em sua versão Não-Marxista: estatizaram tudo o que era área que consideravam estratégica.

Na Europa e no Brasil de hoje o Estado atua na economia mais através de Agências Reguladoras. Os Liberais, de qualquer matiz, são contra essa atuação. O fato dessas Agências existirem e deterem poder mostra que os governos da Europa e do Brasil pendem muito mais para o Socialismo do que para o Liberalismo. O Liberalismo Social só admite a intervenção do estado na área social em caráter excepcional e supletivo, nunca como norma (como o faz a Social-Democracia). A despeito de Margareth Thatcher, a área da saúde da Inglaterra é basicamente socializada. Com maior dificuldade, Barack Obama tenta alcançar algo semelhante nos Estados Unidos com o que os opositores chamam de Obamacare.

Última coisa: A Ditadura Militar foi socializante em sua economia, com suas estatizações, as suas “brases”, as suas reservas de mercado pouquíssimo liberais, que afrontaram o mercado. E A Ditadura Militar não foi nada liberalizante (pelo contrário!!!) no seu trato com os indivíduos: desrespeitou a sua liberdade, violou o seu direito de pensar e de expressar o seu pensamento, o seu direito de se associar, o seu direito de ir-e-vir, o seu direito de propriedade, o seu direito de buscar a felicidade como melhor lhes aprouvesse. Enfim: A Ditadura Militar, com seu viés estatizante, como seu horror à liberdade e aos direitos pessoais e civis dos indivíduos, foi qualquer coisa menos liberal. Não honrou nenhum dos princípios que os liberais endossam e respeitam. É verdade que combateu os comunistas e socialistas, que sempre foram inimigos ferrenhos do Liberalismo. Mas o fez mal e porcamente. Tanto que eles continuam todos por aqui, encastelados no Governo Federal, infernizando a nossa vida e colocando a economia nacional em frangalhos. Desta vez nós os estamos combatendo com outras armas, mais eficazes. Espero que erradiquemos o nosso país dessa praga.

Em Salto, 28 de Abril de 2016

Se o Socialismo não funciona em país rico e de governo honesto, quanto mais aqui…

Escrevo enquanto vejo o programa “Profissão Repórter” na Rede Globo (27/4/2016, à noite, por volta das 23h30). [Fiz uma pequena revisão hoje, 28/4, de manhã]. 

Normalmente não gosto desse programa, por causa da visão de mundo do responsável por ele, o repórter Caco Barcelos, pessoa que vim a conhecer, em 1981, durante a grande crise da UNICAMP, e que, de longe, acompanho, desde então. Naquela data ele trabalhava na VEJA. Mas o programa de hoje está relativamente bem feito. O esquerdismo do Caco não transparece tanto, está bem camuflado.

O tema do programa é o desemprego – ele cobre gente que foi mandada embora do seu trabalho. Na verdade, é mais do que isso: é um programa sobre “desocupação”. Cobre não só gente desempregada, que perdeu, sem querer, o emprego, mas também autônomos, micros, pequenos e médios empresários que não deram certo e quebraram. Essa gente toda, agora, está “desocupada”, sem querer estar – porque a desocupação faz com que fiquem sem salário, sem receita, sem renda. E com um monte de contas para pagar. Contas representadas por dívidas que precisaram contrair, por causa de cheques especiais usados irresponsavelmente e por carnês intermináveis gerados em função de coisas que elas compraram a prazo, quando acreditaram que estavam ficando ricas… Gente que agora procura, desesperadamente, sem encontrar, uma nova “ocupação” que seja rentável. Um emprego, qualquer que seja. Um bico, para fazer qualquer coisa. Qualquer alternativa que produza algum salário, alguma renda, alguma receita — que ponha alguma graninha, por pequena que seja, honestamente no bolso. 

Embora o esquerdismo do Caco Barcelos não transpareça no programa, ele engana o telespectador ao não deixar claro que esse mundaréu de desempregado e de micro, pequeno e médio empresário quebrado está nessa situação por causa de uma severa crise econômica que o PT, além de não ter sabido enfrentar, ajudou a gerar. E que a crise não é causada por outros países nem pelo Capitalismo: foi gerada aqui mesmo em solo tupiniquim, por um governo socialista, pelo PT que, há treze anos e quase meio desgoverna o Brasil.

Caco Barcelos não deixou isso claro, porque deixa-lo envolveria fazer um ‘mea culpa“, o forçaria a reconhecer que o modelo econômico representado pelo Socialismo do tipo “Welfare State” (Estado do Bem-Estar Social) simplesmente não funciona. Não funciona nem em país rico, e que tem governo honesto, como é o caso da Suécia, por exemplo. Em país pobre como o Brasil (e o Brasil é um país pobre, como o é a China, que só tem um PIB alto porque tem muita gente), e, além de tudo, com governo corrupto e ladrão, esse tipo de modelo econômico leva, inevitavelmente, à ditadura ou, então, ao desastre, à falência econômica da nação, e o faz em pouco tempo. Às vezes, produz as duas coisas: ditadura com falência econômica, como chegamos perto de experimentar. 

Como funciona esse modelo de Socialismo “Welfare State”, que se pretende democrático mas acaba, inevitavelmente, em ditadura ou em colapso econômico — ou nas duas coisas? Funciona assim. A “redistribuição de renda” que “equaliza” a situação socioeconômica das pessoas, é feita de forma supostamente democrática, por taxação (aumentando os impostos de forma “progressiva”), não por confisco e desapropriação direta. Os cidadãos que trabalham e ganham mais (mesmo que apenas um pouco mais), nessa “Democracia Social”, vão sendo sufocados por impostos cada vez maiores para que o governo possa dar, “de graça”, saúde, educação, infraestrutura, seguro desemprego, bolsa de todo tipo, etc. para o resto da população, que permanece desocupada… O “bolsista” deixa de ser um desocupado que recebe uma ajuda temporária enquanto encontra uma ocupação rentável e honesta: ser “bolsista” vira a ser ocupação, e os bolsistas são removidos dos índices de desemprego, para que a situação econômica do país pareça ser melhor do que de fato é… 

Sufocada por tanto imposto, a população que ganha MUITO MAIS foge do país. A população que ganha apenas UM POUCO MAIS para de consumir os seus “supérfluos”, deixa de comprar as marcas que preferia, compra menos, para de viajar e ir ao cinema, reduz os seus gastos, e, em consequência, a indústria, o comércio e os serviços reduzem sua produção, suas vendas, sua oferta de serviços. Depois de um tempo, essas empresas despedem empregados. Mais tarde muitas fecham. E o país entra em recessão, porque todo mundo, ganhando e consumindo menos, também paga menos imposto, e, assim, a receita do governo cai e ameaça os seus queridos “programas sociais”, as suas “políticas públicas” que trazem voto. Os que perdem as “bolsas” e as “rendas grátis” começam a ficar revoltados com o governo… E este nem aumentar imposto consegue mais… O resto todos nós, hoje, conhecemos. Em pouco tempo um governo que parecia imbatível, acaba, se dissolve no ar. A única coisa que esse governo sabe fazer é cobrar mais impostos (a bendita CPMF) e roubar. Mas ninguém aguenta pagar mais imposto e ninguém aguenta mais a corrupção e a ladroagem. No Brasil, estamos neste ponto.

Os países europeus, mesmo com governos honestos, estão sentindo o problema. A Europa também está em crise.  Mas quando a crise acontece em um país como o nosso, porém, que país tem tido, durante mais de treze anos, um governo socialista corrupto e ladrão, que desvia, de suas finalidades expressas e declaradas, o dinheiro dos altos impostos pago pela população que trabalha para os cofres dos partidos no poder, para os bolsos dos líderes políticos desses partidos (porque, como se diz, ninguém é de ferro), e, em uma pequena parcela, para o bolso de gente que acreditar que ser bolsista é ocupação e não procura trabalho, quando isso acontece nós chegamos à situação em que nos encontramos hoje: no fundo do poço.

Sair do fundo do poço não vai ser fácil.

O telespectador mais simples que porventura estivesse assistindo ao programa de ontem do Caco Barcelos ficaria com a impressão de que a causa da crise é o “Monstro Capitalista” em que grandes empresários despedem funcionários e impõem condições de comércio aos micros, pequenos e médios empresários que levam estes à falência – tudo por mera e pura ganância.

A crise, no entanto, não é filha do Capitalismo, é filha do nosso Socialismo Moreno, corrupto, ladrão, mentiroso, debochado (“Sou, mas quem não é?”). A crise é filha do PT. Seu pai é o Lula, sua mãe a Dilma. Um pai debochado, desbocado, ladrão, nojento, bebum, e uma mãe que se pretende, se não bela, pelo menos honesta e recatada. O partido que afirmava ter tirado não sei quantos milhões de brasileiros da pobreza, tornando-os verdadeiros cidadãos, criando uma real classe média no país, está, aqui, confirmadamente, colocando milhões de volta na pobreza, agora quase abjeta, produzida pelo desemprego e pelo fracasso de micros, pequenos e médios empresários. Ninguém mais acha emprego nem outra ocupação. Até o tradicional bico está difícil. 

Na verdade, o que temos aqui no Brasil não é, nem nunca foi, Capitalismo: é Socialismo – Socialismo tocado por um governo corrupto e ladrão. A história tem mostrado que nem o Socialismo Honesto consegue sobreviver por muito tempo, mesmo quando o país é “per capitamente” rico. O Socialismo Corrupto em país pobre acaba em ditadura (a Dilma já pensou até em ressuscitar o Estado de Sítio, em que o que resta de nossas liberdades não-econômicas vai para a cucuia) – ou em colapso econômico. Ou, na pior das alternativas, nos dois. E quando se chega aí, sair é muito difícil. Está aí Cuba que não nos deixa mentir.

O Capitalismo não é a causa da nossa crise: é a solução para sair dela. Precisamos de mais, não de menos, Capitalismo. Precisamos de um país cuja economia cresça, em que as pessoas estejam economicamente ocupadas, ganhando sua vida honestamente, em empregos ou empreendimentos, em que as pessoas vivam de seu trabalho, não de “bolsas” e “favores” dados, de mão beijada, por um governo supostamente “amigo dos pobres”., mas que deles espera apenas a gratidão, através do voto… Estamos vendo, agora, quão amigo dos pobres o PT tem sido. O PT é amigo apenas de si próprio e de empresário corrupto. Só isso. De resto, sua atitude para com os pobres foi demonstrada pelo prefeito do Rio, Eduardo Paes, aliado do PT, tirando sarro do sítio cafona do Lula. Isso é sítio de pobre, disse Eduardo Paes – sítio de gerente de Maricá, não quinta de gente de bem de Angra ou Parati…

Dá dó ver, no “Profissão Repórter”, um casal que abriu uma loja de roupas populares faz oito anos, que, nesses anos, ganhou algum dinheirinho, agora precisando liquidar tudo para pagar as dívidas… Eles tentam vender os produtos que restam num estoque que não vira por menos da metade do preço que eles pagaram por ele — tudo para pagar dívidas e, quem sabe, poder ter um dinheirinho no bolso no final… O programa os mostra vendendo o estoque, as araras, as prateleiras, os manequins… Até uma Nossa Senhora que eles guardavam na loja, supostamente para protege-los, para preservar o seu negócio, para salvar o seu investimento, eles acabaram dando de brinde para alguém que comprou várias coisas que restavam. Para outros de seus credores deram, para cobrir a dívida, em parte ou totalmente, as coisas que restaram na loja. Qualquer coisa. No dia de devolver o ponto levaram para casa o pouco que restou.

O programa mostrou também uma babá, dispensada pela patroa, conformadamente defendendo a patroa. Está certa ela, disse a babá. A criança de que eu cuidava está crescidinha, não precisa mais de babá, pode ficar numa creche. A coisa está feia para ela, também. Ela está mudando para um apartamento menor para economizar dinheiro. Nesse apartamento menor não tem quarto para babá… Fazer o quê?

O programa mostrou ainda algumas entrevistas de emprego de uma trabalhadora na área de limpeza que foi mandada embora do seu último serviço – não porque fosse incompetente, mas porque a empresa está mal das pernas. Ela não conseguiu obter o emprego que desejava em várias entrevistas que fez porque… porque não tinha o Curso Fundamental Completo, só tendo feito os primeiros quatro anos, o antigo Curso Primário… Pergunta:  para fazer faxina, é preciso, além de experiência, que ela tinha, ter completado o Fundamental inteiro??? Ou trata-se de desculpa, para fazer a pessoa se sentir culpada por ter abandonado a escola… A culpa fica em cima dos ombros dela, não dos irresponsáveis que quebraram o nosso país.

Que situação triste! Quando vierem as eleições, espero que esse pessoal se lembre de quem os colocou nesse buraco sem fundo em que está nossa economia. E dê um voto de confiança a quem tenta fazer do nosso país um lugar melhor, com mais oportunidade de trabalho e menos malandragem e sem-vergonhice.

Em Salto, 28 de Abril de 2016, de madrugada.

Como um século faz diferença. . . ou não!

Dei-me conta no último fim de semana (que, para nós, aqui em Salto, inclui a segunda-feira, no caso ontem, 25/4/2016) como um século faz diferença – embora seja relativamente pouco tempo (quando comparado com a história do Cristianismo, um século é apenas 1/20; se comparado com a eternidade, então…). No meu caso, por exemplo, só me faltam meros 27 anos para completar um século – se é que eu chego lá (tenho sérias dúvidas).

Comecei a refletir sobre essas coisas ao ler um livro (que não acabei ainda, mas acabarei logo, por ser uma delícia sua leitura) chamado Crowns in Conflict: The Triumph and the Tragedy of European Monarchy – 1910/1918, de Theo Aronson.

É um livro mais de biografia do que de história – embora trate de história também. Na verdade, biografia é história, não é verdade? História com foco numa vida individual – ou num conjunto delas, como no caso desse livro.

Cem anos atrás, em 1916, o mundo (principalmente a Europa) estava no meio a sua primeira guerra mundial, iniciada em 1914.

Cem anos atrás, em 1916, a Revolução Comunista na Rússia não tinha ainda acontecido, e a Rússia era governada pelos czares Nicolau e Alexandre, com a ajuda (? se aquilo foi ajuda…) do sinistro Rasputin. A Revolução Comunista deflagrada dezoito meses depois de Abril de 1916 não durou nem sequer um século – na verdade, nem ¾ de século. Vamos ver como nossos comunistinhas tupiniquins comemoram a Revolução Russa no ano que vem.

Na verdade, em 1910, cento e seis anos anos atrás, uma das datas foco do livro, de todos os principais países europeus apenas a Suíça e a França não eram governadas por cabeças coroadas. Devemos dar um certo crédito também a Portugal, que, nessa época, em 1910, estava tentando derrubar a sua cabeça coroada para implantar um governo republicano, em meio a inúmeros golpes de estado. (Nessa área, de implantação do republicanismo, ganhamos deles por cerca de vinte anos. Não sei se o ganho, no caso, foi progresso, como se verá adiante. Quanto a golpes de estado, creio que eles têm mais do que nós – mesmo contando o que o PT acredita estar em curso no momento).

Fiz, com a ajuda do livro e da Wikipedia, uma lista das cabeças coroadas da Europa em 1910 (por aí), dando as datas do monarca que governava então (monarca = rei, imperador, kaiser, czar, sultão, etc.). Coloco os países na ordem que considero mais adequada à realidade (sem defender essa ordem — embora abaixo fique claro por que coloco a Grã-Bretanha em primeiro lugar):

Grã-Bretanha: Rei Edward VII (1901-1910) e Rei George V (1910-1936)

Alemanha (incluindo a Prússia): Kaiser / Imperador Wilhelm II (1888-1918)

Áustria / Hungria: Imperador Franz Joseph (1848-1916) [o marido da Sissi]

Rússia: Czar Nicholas II (1894-1917)

Itália: Rei Victor Manoel III (1900-1946)

Bélgica: Rei Albert I (1909-1934)

Holanda: Rainha Wilhelmina (1890-1948)

Espanha: Rei Alfonso XIII (1886-1931)

Portugal: Rei Manuel II (1908-1910) [1910: República]

Grécia: Rei George I (1863-1913) e Rei Constantino I (1913-1917)

Sérbia: Rei Peter I (1903-1921) [quiseram copiar a gente…]

Bulgária: Czar Ferdinand I (1887-1918)

România: Rei Carol I (1866-1914)

Turquia: Sultan Mehmed V (1909-1918)

Noruega: Rei Hackon VII (1905-1957)

Suécia: Rei Gustav V (1907-1950)

Dinamarca: Rei Frederick VIII (1906-1912) e Rei Christian X (1912-1947)

Deixei os principados e assemelhados de fora (Mônaco, Liechtenstein, Luxemburgo, San Marino, Montenegro, etc.) bem como alguns outros países que não me pareceram tão centrais.

O ponto de partida do livro de Theo Aronson é 1910, ano em que o Rei Edward VII, da Inglaterra, morreu. Ele, filho da Rainha Victoria, e pai de George V, que o sucedeu, era avô ou tio de boa parte desses outros monarcas – quase todos os monarcas europeus eram aparentados com a Rainha Victoria, que reinou de 1837 a 1901 (64 anos, só menos do que a atual rainha), e teve nove filhos, que se casaram, sem exceção, com realezas (em geral príncipes e princesas). Por isso, com o tempo, quase todo rei, rainha, príncipe, princesa, ou qualquer outra pessoa com outro título de nobreza na Europa era descendente da Rainha Victoria. (Theo Aronson tem outro livro sobre este tema: The Grandmama of Europa: The Crowned Descendants of Queen Victoria. A vida amorosa da Rainha Victoria foi muito, digamos, rica. Mesmo que nem todos os seus seis grandes amores, um dos quais foi seu marido e pai de seus nove filhos, tenham sido “carnais”, no fizer de Aronson, eles foram paixões. Vide, todos de Theo Aronson: Heart of a Queen: Queen Victoria’s Romantic AttachmentsQueen Victoria and the BonapartesVictoria & Israeli.)

Wilhelm II, da Alemanha, e Albert I, da Bélgica, eram netos de Edward VII (e bisnetos da Rainha Victoria). A atual rainha Elizabeth II da Inglaterra, é bisneta de Edward VII (filha de George VI, que era filho de George V, e, portanto, neto de Edward VII) e, por conseguinte, trisneta (caso o termo exista) da Rainha Victoria. A rainha Alexandra, mulher de Edward VII, era tia do Czar Nicholas II, da Rússia. O casal Nicholas II e Alexandra, da Rússia, era relacionado em parentesco com a família real da Grã-Bretanha tanto pelo lado de Nicholas como pelo lado de Alexandra – e, através dela, com as famílias reais do resto da Europa. (A vida amorosa de Edward VII foi meio conturbada. (Theo Aronson tem ainda outro livro de interesse no contexto: The King in Love: Edward VII’s Mistresses.)

Vou transcrever parte de um artigo da Wikipedia (Nicholas II of Russia) em que se discutem alguns dos parentescos do czar, só para dar uma ideia. Infelizmente o texto está em Inglês:

“Nicholas was born in Alexander Palace, Saint Petersburg, Russian Empire, the eldest son of Emperor Alexander III and Empress Maria Feodorovna of Russia (formerly Princess Dagmar of Denmark). He had five younger siblings: Alexander (1869–1870), George (1871–1899), Xenia (1875–1960), Michael (1878–1918) and Olga (1882–1960). Nicholas often referred to his father nostalgically in letters after Alexander’s death in 1894. He was also very close to his mother, as revealed in their published letters to each other. His paternal grandparents were Emperor Alexander II and Empress Maria Alexandrovna of Russia (born Princess Marie of Hesse and by Rhine). His maternal grandparents were King Christian IX and Queen Louise of Denmark. Nicholas was of primarily German, as well as Danish, descent. His last ethnically Russian ancestor was Peter the Great. Nicholas was related to several monarchs in Europe. His mother’s siblings included Kings Frederik VIII of Denmark and George I of Greece, as well as the United Kingdom’s Queen Alexandra (consort of King Edward VII). Nicholas, his wife Alexandra, and Kaiser Wilhelm II of Germany were all first cousins of King George V of the United Kingdom. Nicholas was also a first cousin of both King Haakon VII and Queen Maud of Norway, as well as King Constantine I of Greece. Nicholas and Wilhelm II were in turn second cousins once removed, as each descended from King Frederick William III of Prussia, as well as third cousins, as they were both great-great-grandsons of Tsar Paul I of Russia. In addition to being second cousins through descent from Louis II, Grand Duke of Hesse and by Rhine and his wife Wilhelmine of Baden, Nicholas and Alexandra were also third cousins once removed, as they were both descendants of King Frederick William II of Prussia.”

Mas voltemos ao nosso assunto: Um pouco mais de cem anos atrás (cento e seis, para ser preciso) o “default” (pelo menos na Europa) era ser governado por uma cabeça coroada. A Primeira Guerra Mundial acabou com várias monarquias e impérios – mas o digno de nota é que tantos tenham ficado, dos quais a mais importante é a Grã-Bretanha, cuja rainha, aquela cujo reino tem a maior duração de toda a história da Inglaterra, é ainda um símbolo de continuidade e estabilidade – sem falar que é objeto de quase veneração por boa parte de seus súditos. Ela está no trono desde 6 de Fevereiro de 1952 – eu tinha oito anos quando ela foi coroada. Desde então nós tivemos o Getúlio (pela segunda vez), o Juscelino, o Jânio, o Jango, o Castello Branco, o Costa e Silva, a Junta Militar Provisória, o Garrastazu Médici, o Geisel, o Figueiredo, o Collor, o Itamar, o FHC (duas vezes), o Lula (duas vezes), a Dilma (uma vez e um pouquinho) – e estamos preparando para o Temer. Isto sem falar nos intermediários, Café Filho, Nereu Ramos, Carlos Luz… Durante esse período tivemos uma República Presidencialista, uma República Parlamentarista, uma Ditadura Militar, outra República (supostamente nova)… Tivemos o impeachment do Collor e estamos com o impeachment da Dilma em curso.

Às vezes, mudança, até mesmo muita mudança, não vem acompanhada de inovação e progresso – pelo contrário: a gente muda e a coisa fica pior. Tenho a nítida impressão de que, se somarmos todos os nossos presidentes, desde a Proclamação da República, o total não tem, em termos de cultura, valores, caráter, sensibilidade política, uma parcela do valor que tinha Dom Pedro II – ou que tem a atual Rainha da Inglaterra.

Karl Raymund Popper, em minha opinião o maior filósofo do Século 20, que era austríaco de nascimento, mas britânico de coração e por adoção, disse, em A Sociedade Aberta e seus Inimigos, que o que caracteriza a democracia não é, de modo algum, um sistema (o voto universal), porque, através do voto, podemos eleger um tirano, como a Alemanha fez, no caso do Hitler, um irresponsável ou um incompetente, como o Brasil fez, no caso do Lula e da Dilma. O que caracteriza a democracia, diz Popper, é a existência de mecanismos que permitem que detectemos com rapidez quando cometemos um erro na escolha dos governantes (por qualquer método, direto ou indireto) e que permitem que nos livremos dele também com rapidez e de forma indolor e não traumática. Para Popper – e eu concordo com ele – uma Monarquia Constitucional e Parlamentar como a britânica é o sistema político mais próximo do ideal. Não há impeachment: há o voto de não-confiança, que força uma nova eleição dentro de pouco tempo. A troca de governo, mesmo que ele tenha sido eleito um ano antes, não é traumática porque: (a) é parte da regra do jogo: o Primeiro Ministro não tem mandato, só ficando no governo enquanto goza da confiança da maioria do eleitorado; e (b) a monarquia garante a estabilidade e uma boa medida de continuidade.

Por isso, anos atrás (21/04/1993), quando houve um plebiscito aqui no Brasil sobre a regime e o sistema de governo, indagou-se dos eleitores qual regime político preferíamos (república ou monarquia) e qual sistema político (parlamentarismo ou presidencialismo). É interessante ler o seguinte artigo da Wikipedia e ali ver os resultados da votação:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Plebiscito_sobre_a_forma_e_o_sistema_de_governo_do_Brasil_(1993).

Eu votei pela monarquia e pelo parlamentarismo. Perdi nos dois itens. Ganhou a república presidencialista. Mas continuo achando que eu estava certo. Num plebiscito democrático a maioria leva – mas isso não quer dizer que esteja certa.

Há um ano e meio atrás a Dilma ganhou a eleição mais ou menos democrática (hoje sabemos que ela mentiu, caluniou seus adversários, usou dinheiro ilegal, fez o Diabo – até fraude pode ter havido). Deu no que deu.

Se fôssemos um sistema parlamentarista, a Dilma já estaria recolhendo seu seguro desemprego há pelo menos seis meses e o seu patrono já estaria mofando na cadeia, para onde ela também deve ir, depois de passado o trauma do impeachment.

A gente teria ganho pelo menos um ano na vida do país. Muita gente não teria perdido o emprego. Muita empresa não teria quebrada. E muita gente não precisaria, agora, fazer lavagem auricular depois de ouvir tanta besteira.

NOTA 1: Todos os livros de Theo Aronson mencionados estão disponíveis em formato e-book, formato Kindle, na Amazon, por preço ao redor de 4 a 6 dólares americanos. Cada um deles tem um número de página que vai de 350 a 600, por aí. Os interessados, como eu sou, na história da Europa, em especial na história das casas reais e das dinastias da Grã-Bretanha, têm aí, por cerca de 30 dólares (6 livros de +/- 5,00), uma mina de informações, em mais de duas mil páginas.

NOTA 2: Fiquei em dúvida se usava o termo “czar” ou “tsar”. Fui verificar e descobri que há disputa. Optei pelo termo “czar” com base neste artigo:

“Czar (tsar em russo) significa “imperador“. Foi o título utilizado pelos soberanos russos, no período de duração do Império Russo, entre 1547 e 1917. . . . O feminino de czar é czarina (“tsaritsa” em russo), sendo que o filho de um czar é designado por “tsarevitch” e a filha por “tsarevna.”

(http://www.significados.com.br/czar/)

Em Salto, 26 de Abril de 2016.

Vícios Privados e Virtudes Públicas

Meu último artigo aqui neste blog teve como título “Pessimismo vs Otimismo: O Pecado Original vs a Perfectibilidade Humana“. Vou continuar a comentar o tema.

Vimos hoje, ao vivo e em cores, o PMDB abandonar a base aliada em uma reunião de três minutos, sem a menor cerimônia. Os jornais informam que o PP fará o mesmo, provavelmente amanhã, tendo 30 dos 49 membros de sua base congressual já se manifestado nesse sentido.

Diante desse quadro, vi amigos meus se manifestarem dizendo, com pesar, que essa decisão de abandonar o governo no momento presente não se dá, na maioria dos casos, “por virtude” — dando-se por interesse.

Por isso resolvi voltar à carga retomando o tema do último artigo que publiquei aqui.

A grande lição de economia política de Adam Smith é a seguinte: a natureza humana é um desastre (neste aspecto Smith era um verdadeiro herdeiro de seus antepassados e contemporâneos calvinistas). Para ele, ao construir sua filosofia política, se formos esperar que as pessoas se transformem e passem a agir com motivos elevados (o “novo homem” dos socialistas, que pensa primeiro no “bem comum”, deixando seus interesses pessoais de lado), nada conseguiremos realizar, seja na política, seja na economia. Temos, isto sim, segundo Smith, de encontrar mecanismos e incentivos para conseguir que as pessoas façam a coisa certa ainda que a partir de motivos pouco recomendáveis.

O liberalismo clássico é um sistema realista. Trabalha a partir do que temos, não a partir do que gostaríamos de ter. Mas consegue que a coisa certa seja feita, a partir de motivos até inconfessáveis. Ele transforma, como disse Bernard de Mandeville, vícios privados em virtudes públicas. É isso que estamos vendo agora: virtudes públicas (fazer a coisa certa), ainda que por motivos viciados (interesses pessoais muitas vezes inconfessáveis).

Quem quer converter os outros e transforma-los em santos altruístas e igualitários é o socialismo. O liberalismo clássico — e o presbiterianismo calvinista, do qual deriva — não acreditam na perfectibilidade humana. Trabalham em cima do “eu venho como estou” – ou do “eu tento fazer o melhor com aquilo que tenho”.

Em São Paulo, 29 de Março de 2018.

Pessimismo vs Otimismo: O Pecado Original vs a Perfectibilidade Humana

1. Introdução

Minha prima querida, Alison Biggi Sanvido, escreveu hoje, lá de Calgary, no Canadá, em seu Facebook (usando outra tradução da Bíblia):

“Por acaso, um homem preto pode mudar a cor da sua pele ou o leopardo tirar as suas manchas? Se isso fosse possível, vocês, que só sabem fazer o mal, também poderiam aprender a fazer o bem.” (Bíblia, Jeremias 13:23, NTLH; itálico acrescentado).

A tradução usada pela Alison não diz “homem preto”, diz “etíope”. Mas a Nova Tradução em Linguagem de Hoje (NTLH), que eu usei, fez bem em não eufemizar: é preferível dizer as coisas da forma que elas foram ditas, sem tentar suaviza-las. [Meu Word me informa que o verbo “eufemizar” não existe. Mas existe, sim. Ele deriva de “eufemismo”, cujo sentido é “ato de tentar atenuar e abrandar o sentido ou o impacto palavras e ideias consideradas desagradáveis”. Se não existisse, teria passado a existir a partir do momento em que eu o utilizei.]

Enfim, o versículo de Jeremias, um escritor meio pessimista e mimimi (donde o termo “jeremíada”, que quer dizer “diatribe, lamentação, discurso emocionado e revoltado sobre assunto considerado polêmico”), me fez lembrar de duas coisas, que vou relatar e discutir aqui:

Primeira coisa: de uma aula que dei na semana atrasada (dia 29 de fevereiro), na sequência da “condução coercitiva” do Lulla, que, ultimamente, abandonou a persona “Lulinha, paz e amor” para se parecer mais com um cão raivoso e babento. A aula era de História da Igreja, mas eu resolvi relacionar os eventos da semana (a aula era na sexta, dia 4) com certos temas teológicos que aparecem com frequência na história do pensamento cristão.

Segunda coisa: de um livro de Thomas Sowell, A Conflict of Visions: Ideological Origins of Political Conflicts (Basic Books; 1st ed. 1987; 2nd ed. 2006) que li pela primeira vez em 1999, dois anos depois de publicado em primeira edição, e que voltei a ler recentemente, na versão revista, a propósito de um outro livrinho que comprei na semana passada sobre Thomas Sowell, que mencionarei no capítulo 3.

2. Lula, Eventos Recentes e a História do Pensamento Cristão

Abordei na aula de 4 de Março dois temas ou duas doutrinas cristãs: (a) a doutrina do pecado original combinada com a doutrina da total depravação da natureza humana e (b) a doutrina da dupla predestinação.

A. O Pecado Original e a Total Depravação Humana

O primeiro tema que quero discutir é a doutrina combinada do alegado pecado original do homem e da suposta depravação total de sua natureza humana que esse pecado produziu. Em outras palavras: a doutrina de que, em virtude do fato de nossos supostos primeiros pais terem pisado na bola lá no Jardim do Éden, em que presumidamente viviam, desobedecendo a Deus e, assim, cometendo o primeiro pecado, chamado de “pecado original” pelos teólogos, todos os seus descendentes, vale dizer, toda a humanidade, nós inclusos, ficou, por assim dizer, tão contaminada pelo ação do primeiro casal que, como diria Agostinho, non peccare non potest: não pode não pecar, não é capaz de não pecar, isto é, está destinada a, inevitavelmente, ser pecadora.

Agostinho, no século 4-5 e os reformadores protestantes do século 16 (em especial Calvino, mas, em menor grau, também Lutero) aparentemente sentiam prazer especial em dizer, insistentemente, que o pecado original de Adão e Eva – que podiam não pecar, e, por conseguinte, tinham livre arbítrio, em decorrência do qual, podendo não pecar, escolheram pecar – corrompeu de tal maneira a natureza de seus descendentes que a tornou “totalmente depravada”, a ponto de seus oponentes (pelagianos, arminianos, etc. – movimentos devidamente condenados como heréticos pelos donos da verdade, os ortodoxos) os acusarem de negar que, depois da queda dos pais primevos [Word recusa o termo], nós realmente ainda tenhamos livre arbítrio, isto é, ainda sejamos livres.

Se os críticos de Agostinho e os reformadores protestantes estiverem certos em sua alegação (e eu suspeito que estejam), nós, no entender da ortodoxia protestante, não somos (sem a ajuda divina, registre-se) realmente livres para non peccare, para fazer o bem e o certo, para viver uma vida que, ao final, nos aterrize no céu, por toda a eternidade. [“Aterrizar no céu” é uma expressão que parece contraditória, mas vá lá – e o Word, na companhia de alguns outros frescos, refuga o verbo “aterrizar” – mas prefiro ficar com o Houaiss, que diz que “aterrizar” quer dizer a mesma coisa que “aterrissar”, que é o termo que “les bien-parlants” de hoje preferem. Mas estou digressionando de novo – e uso esse verbo horroroso porque o Word e o Houaiss me asseveram que “digredir”, que eu prefiro, não existe… Voltemos ao assunto]. Em outras palavras: só conseguimos non peccare, fazer o bem e o certo, mesmo assim inconsistentemente, se Deus (ou Jesus Cristo) passar a (de alguma forma) viver em nós e, dentro de nós, a agir por nós. Como dizia Paulo, o santo padroeiro de Agostinho e dos reformadores protestantes, “assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo é quem vive em mim” (Bíblia, Gálatas 2:20, NTLH). É só pelo mérito de Jesus Cristo que a gente pode ter esperança de um dia aterrizar no céu – nunca por nossas próprias ações, e, portanto, pelo nosso próprio mérito.

B. A Predestinação do Homem para a Salvação e a Perdição Eterna

O segundo tema que eu quero discutir é a chamada doutrina da dupla predestinação – que, de certo modo, me parece ser a consequência lógica da doutrina do pecado original cum corrupção total da natureza humana que acabamos de ver.

Se, após a queda de Adão e Eva, o ser humano (i.e., nós todos) ficou incapaz de não pecar, de fazer o que é bom e certo, nós não podemos nos redimir ou salvar: estamos fatalmente condenados, caso haja alguma forma de vida depois da morte (o que nenhum dos teólogos mencionados duvidava), ao sofrimento eterno. (Essa é a malfadada doutrina das “penas eternas” que tanto sofrimento já causou antes mesmo da eternidade). Mas, segundo Agostinho e os reformadores protestantes, nem tudo são más notícias. Em meio a tantas más, há uma boa nova. Deus decidiu – lá atrás, antes mesmo da criação do mundo, e, portanto, antes de os primeiros pais pecarem pela primeira vez – escolher alguns seres humanos para que fossem poupados do sofrimento eterno. Esses são aqueles que as igrejas reformadas chamam de “os eleitos”. Escolheu-os, não porque, sendo onisciente, ele (Deus) soubesse que eles seriam melhores do que o resto. Escolheu-os, sem que eles tivessem qualquer mérito, por ínfimo que fosse. Escolheu-os, embora eles merecessem, como os demais, sofrer as “penas eternas”. Escolheu-os, em sua soberania, porque assim o quis.

Os demais, ele simplesmente não os escolheu. Isso parece sugerir que, em se tratando de Deus, o fato de não ter escolhido os demais para serem salvos implica que os tenha escolhido para, eternamente sofrer no inferno (que será “uma fornalha de fogo” em que os que lá aterrizarem “vão chorar e ranger os dentes de desespero” – o subtema do choro e ranger de dentes em desespero parece ser muito caro a Mateus, a julgar pela frequência que ele o menciona no Novo Testamento: Mateus 8:12, 13:50, 22:13, 24:51, 25:30). Alguns reformados “machos”, mesmo, admitem que Deus escolheu uns para a salvação eterna e outros para a perdição eterna. Outros preferem abrandar um pouco, afirmando que Deus escolheu apenas alguns para a salvação eterna – os demais, ele não escolheu para a perdição eterna, apenas deixou-os sofrer as consequências de sua própria escolha…

Mas aqui surge um problema: como fazer em escolha deles, se eles não escolheram pecar, pecando simplesmente porque não podiam não pecar? Como diziam Agostinho e os reformadores protestantes, eles eram incapazes (non potest) de não pecar (non peccare). Logo eles não tinham a escolha de não pecar. Como puni-los, ou deixar que sofram as consequências de uma escolha que eles não tiveram e, portanto, não fizeram? É aqui que a teologia reformada clássica enfrenta o que talvez seja seu maior problema.

Não vou resolver esse problema porque não sei como. Vou simplesmente voltar à aula que estava dando no dia 4 de Março.

C. É possível Aplicar Essas Doutrinas Hoje?

Não sabemos quem, na visão da teologia agostiniana e reformada, é eleito e quem não é eleito. A pergunta que coloquei aos meus alunos foi se seria justo, da nossa parte, criticar tanto o Lulla, a Dillma, e a petralhada, diante da possibilidades de que eles (a) simplesmente tivessem adquirido, em decorrência de uma ação, não deles, mas de Adão e Eva, lá nos primórdios do tempo, uma natureza humana defeituosa, total e absolutamente depravada e corrompida, e que eles (b) novamente não por decisão deles, mas, agora, de Deus, não estivessem entre aqueles que Deus escolheu redimir e elegeu para a salvação eterna, e que eles, portanto, (c) não pudessem fazer outra coisa que não pecar, isto é, mentir, enganar, roubar, ativamente corromper os outros, assassinar até os colegas de partido, sustentar amantes e filhos espúrios com o dinheiro dos outros, vindo, ao final, merecidamente sofrer as penas eternas, em uma fornalha de fogo, em que só lhes restaria chorar e ranger seus dentes, no maior desespero…

Garanto que a discussão foi boa – e ficou mais acalorada porque havia vários não presbiterianos na classe e porque muitos presbiterianos relutavam em aceitar essas doutrinas clássicas da tradição reformada…

3. Thomas Sowell e Duas Visões da Natureza Humana

Lá atrás disse que o versículo de Jeremias 13:23, publicado no Facebook pela minha prima Alison, me fez lembrar de duas coisas. A primeira eu acabei de descrever. A segunda eu passo a descrever agora.

A tese do versículo é que é tão impossível que aqueles que “só sabem fazer o mal” consigam “aprender a fazer o bem” como o é para um homem mudar a cor de sua pele ou para um animal que tem manchas no corpo deixar de tê-las.

Comprei, na semana passada, um livrinho, escrito por Francisco Amed, chamado Thomas Sowell: Da Obrigação Moral de ser Cético (Editora É Realizações – nome esquisito para uma editora, eu sei), de São Paulo, que é parte da “Biblioteca Crítica Social” da editora, coordenada pelo grande Luiz Felipe Pondé, meu colega, professor de Filosofia da PUC-SP.

Thomas Sowell é simplesmente, na minha modesta opinião, o maior intelectual “etíope” americano (aproveito o termo usado na tradução da Bíblia que a Alison usou). Tenho quase tudo que ele escreveu. E ele chegou a essa posição tendo nascido de pais paupérrimos, com os quais quase não conviveu: o pai morreu antes de ele nascer e a mãe quando ele tinha cinco anos – mas não fez muita diferença porque ele havia sido dado para uma parente, que o criou por um tempo, e, depois, o “disponibilizou” para adoção – tendo ele sido adotado por pais brancos, mas também muito pobres, que, contudo, moravam em New York, e não no Sul dos Estados Unidos, onde ele havia nascido e vivido até essa adoção. Alfabetizou-se a bem dizer sozinho, aos quatro aos, brincando com a irmã de criação. Tomou gosto pela leitura e pelo estudo e, na escola, se tornou o melhor aluno. Aos 15 anos, porém, deixou a escola por não aguentar mais ouvir a mãe dizer que ele precisava trabalhar e não apenas estudar, porque, como estudante apenas, era um peso morto na família, só consumindo recursos e não trazendo nenhum recurso para casa. Ele resolveu trabalhar em tempo integral, aos 18 anos foi ser “marine” na Marinha dos EUA, depois de alguns anos nas Forças Armadas, pediu baixa, arrumou um emprego simples e voltou a estudar. Logo ficou evidente que era um gênio, foi estudar em Harvard, depois em Columbia, depois em Chicago, obteve graduação (magna cum laude em Harvard), mestrado (em Columbia) e doutorado (em Chicago), trabalhou em várias das mais ilustres universidades americanas (Cornell, Amherst, Brandeis, UCLA), ganhou vários doutorados honorários, escreveu inúmeros livros e hoje trabalha no prestigiado e prestigioso “think tank”, o Hoover Institution, da Stanford University, onde, foi Fellow, de 1977 a 1980, e é, desde 1980, Senior Fellow e detentor de uma fellowship que tem o nome de Milton Friedman, seu professor e orientador de doutorado em Chicago – e mentor, depois. Tudo isso sendo negro e pobre e dependendo apenas de seu esforço e de seu trabalho, sem se beneficiar de cotas e outros bichos, sem se considerar vítima, sem achar que merecia uma “reparação” da sociedade americana por ter esta escravizado seus ancestrais, etc. E é um dos poucos intelectuais negros, nos EUA, que pode ser descrito como liberal clássico e conservador. É considerado um public intellectual, isto é, um intelectual que não é mero acadêmico a escrever livros e artigos para outros acadêmicos, mas alguém que escreve para o público em geral, de forma que o público possa entender, acerca dos grandes e candentes temas que afligem a sociedade (no caso, americana).

Mas não vou falar tanto da enorme contribuição de Sowell à economia, às ciências sociais, à história, à psicologia, à filosofia, e às humanidades em geral. Vou  apenas levantar um tema que Pondé destaca no Prefácio do livro escrito sobre ele no Brasil, pinçando referências ao tema ao longo do livro.

O tema, que é abordado principalmente no livro Um Conflito de Visões, de Sowell, mas que eu vou descrever aqui com minhas palavras (tentando fazer uma ponte com o que disse de início, falando de minha aula de 4 de Março), é o seguinte.

Na História Intelectual do Ocidente surgiram basicamente duas visões acerca da natureza do ser humano que, em especial nos últimos séculos, têm entrado em combate constante, tanto no refinamento de suas ideias, em busca da verdade, como na obtenção de adeptos e até mesmo na tentativa de conquistar o poder – cultural e político.

A. A Visão Pessimista da Natureza Humana

Uma dessas visões pode ser chamada de pessimista. Ela tem vínculos com a visão cristã clássica do homem, mas não se restringe ao Cristianismo. Dentro do Cristianismo, ela é marcada pela doutrina do pecado original, embora não dependa totalmente dele.

Seu pessimismo decorre do fato de que ela vê a natureza humana como essencialmente limitada, falha mesmo, incapaz de alcançar a perfeição que, entretanto, em alguma de suas modalidades, o ser humano sempre tenta alcançar. Nesta visão, ele não irá alcança-la nunca, por mais que tente, pois suas limitações se expressam tanto na sua capacidade intelectual como em sua dimensão moral.

Seu conhecimento e suas habilidades cognitivas são limitados. Suas habilidades não cognitivas também são limitadas (sua motivação, coragem, paciência, persistência, dedicação, resiliência, etc.). Sua capacidade de discernir o que é bom e o que é certo é restrita. Em seus sentimentos, ele é profundamente egoísta, pouquíssimo solidário (além do círculo restrito da família e das amizades mais chegadas), incapaz de trabalhar de forma consistente e sustentável em benefício do bem comum. Do ponto de vista de suas emoções ele é vitimado por conflitos internos intermináveis e insolúveis, que o levam a abraçar cursos de ação equivocados e que causam enorme sofrimento aos outros, etc. As guerras, muitas vezes bem intencionadas, e os genocídios contra populações impotentes, são apenas a parte mais visível dessas características.

Essa visão não implica na crença na miséria infernal e eterna do homem, mas certamente implica na crença da impossibilidade da construção de um paraíso aqui na terra. Em última instância esta é uma visão trágica da humanidade, que encontra, talvez, sua expressão maior na grande literatura. Foi Tolstói que uma vez disse que a grande literatura nunca existiria se todo mundo fosse feliz – porque a felicidade de uns, quando a alcançam, é muito parecida com a felicidade dos outros, e não há muito sentido em descreve-la e dramatiza-la. A infelicidade, porém, é variada: cada um aparentemente encontra sua própria forma de ser infeliz, sua própria receita, sua própria fórmula, e é por isso que a literatura (e seus filhotes, o teatro, o cinema, a telenovela) continuam a nos fascinar. O ser humano sempre encontra um jeito novo de arruinar sua vida. [Na verdade, Tolstói não disse tudo isso. Disse apenas, na primeira frase de Anna Karenina, que “todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, mas cada família infeliz é infeliz do seu próprio jeito”.]

Adam Smith, filósofo e economista do século 18, é o grande secularizador dessa visão, removendo-a de suas raízes cristãs. Ele não nega essas características da natureza humana nem propõe que devemos tentar altera-las, criando, de certo modo, um “homem novo”. Ele propõe, isto sim, que criemos sistemas que, a partir dessas características, para ele inalteráveis da natureza humana, possam gerar incentivos e dissuasores que levem os seres humanos a criar o tipo de sociedade em que as pessoas sejam levadas a conviver pacificamente e a colaborar na promoção dos interesses de todos.

B. A Visão Otimista da Natureza Humana

A outra visão pode ser chamada de otimista. Os que adotam a primeira visão consideram esta segunda, utópica. Os que adotam esta segunda visão, por sua vez, têm vínculos com a visão racionalista do Iluminismo, creem que o homem, sendo racional, é capaz de encontrar soluções para todos os seus problemas. O surgimento da ciência moderna, e suas inegáveis conquistas, fortaleceu essa crença, ensejando o aparecimento da crença no progresso – e a crença de que esse progresso era interminável.

Imaginava-se, no limiar do século 19, que o mundo estava prestes a se tornar um paraíso. Teólogos cristãos que adotaram essa visão – os chamados teólogos liberais – passaram a acreditar que o céu seria esta nossa Terra transformada, e que a implantação do Reino de Deus na Terra estava próxima. Os problemas  humanos e sociais seriam resolvidos pela educação e pela política, esta controlada por seres humanos iluminados que seriam capazes de eliminar as injustiças sociais, de alcançar capacidade plena de produção, de inventar fórmulas distributivas que reduziriam as desigualdades existentes e levariam ao enriquecimento de todos. Em outras áreas, técnicas de terapia seriam inventadas que eliminariam a violência, a maldade e até mesmo o egoísmo, e todos ficariam felizes por viver numa sociedade para a qual cada um contribuiria segundo a sua capacidade e da qual cada um retiraria o que fosse preciso para atender as suas necessidades.

Não vem de Marx, mas de Edward Bellamy em seu livro Looking Backwards 2000-1887, escrito em 1889) a mais detalhada crença nessa visão. Sua mais bem elaborada justificativa teórica é o livro Enquiry Concerning Political Justice, de William Godwin, escrito no final do século 18.

Dentro dessa abordagem, Lulla e a Petralhada talvez sejam apenas um subgrupo que deu errado dentro do grupo maior dos Idealistas que a acreditam que “Um Mundo Diferente, E MELHOR, é Possível!”…

4. Conclusão

O que concluir?

O PT é o mal encarnado, sob o comando do Cão Raivoso em pessoa, incorporado no Lulla? Se a visão otimista do mundo está certa, o que foi que deu errado com Lulla e o PT? Suponho que algo tenha dado errado porque acho impossível que alguém possa em sã consciência acreditar que o que estamos vendo aqui no Brasil durante esses últimos 13 anos seja o que realmente se buscava, o mundo diferente, E MELHOR, que se procurava construir…

Se a visão pessimista da natureza humana é tudo o que temos, como é que conseguimos evitar uma guerra de todos contra todos sem cair no PT (que, convenhamos, longe de evitar uma guerra de todos contra todos a promoveu e acirrou)? Ou será que o Liberalismo Clássico está certo e que devemos procurar criar uma sociedade construída, não nas virtudes sociais de cada um (que não existem), mas, sim, em vícios, em seu egoísmo… Será que é crível a tese de que a melhor sociedade é aquela que dá máximas oportunidades para o egoísmo prosperar? Essa é, de certo modo, a tese de Adam Smith em sua famosa passagem, em que afirma que não é da bondade (ou seja, do altruísmo) do padeiro, do açougueiro, do produtor de vinho que eu obtenho meu pão, minha carne e meu vinho, mas, sim, de seu egoísmo, pois esse egoísmo, iluminado ainda que por apenas um pouco de racionalidade, o leva a concluir que é somente me servindo bem, atendendo bem minhas necessidades, que ele irá prosperar?

Para discussão.

Resolvi encontrar algo para escrever para me distrair e fugir do meu estado borocoxô, como disse hoje cedo no Facebook. Então (3h atrás) escrevi:

“Fui dormir, ontem, e acordei, hoje, meio borocoxô.

Para quem não sabe, ‘borocoxô’ quer dizer, segundo o Dicionário Informal disponível na Web, o seguinte:

Borocoxô (adj)

1) Triste, cansado, acabado, deprê, desanimado, cabisbaixo, mole, adoentado, definhando.

2) Fraquinho, simples, sem graça, paia, péba.

Sei que eu melhoraria muito e rápido se caísse um raio fulminante na cabeça do Lulla e da Dillma num dos abraços deles. Ou, pelo menos, se os dois fossem presos. Ou, pelo menos o Lulla, o Cão Raivoso. Da Dillma tenho mais dó do que raiva.

Quem sabe melhoro se conseguir escrever alguma coisa… Mesmo que não seja sobre o que parece me afligir.”

Em Salto, 16 de Março de 2016 (12h35) – revisado e ampliado em 17 de Março de 2016.

Elizabeth Cady Stanton: The Making of a Feminist

(Mais um post dedicado à minha filha Priscilla Epprecht Machado França.)

Este post é, em certo sentido, uma continuação do anterior, embora ele lide com a vida de Cady Stanton antes de ela se tornar importante e famosa — antes de ela ser considerada a “Mãe do Feminismo Americano”.

Ela nasceu em 1815 em uma família razoavelmente abastada, que morava no Estado de New York, a noroeste da capital, Albany, uns 65 km. Seu pai era advogado e se tornou juiz. Os pais dela tiveram onze filhos — mas cinco morreram novinhos. Sobreviveram a infância seis deles: um menino e cinco meninas. Cady foi a oitava dos filhos. O irmão era mais velho, assim como duas das irmãs. Outras duas eram, naturalmente, mais nova do que ela.

Quando Cady tinha onze anos (em 1826) o único homem dos filhos morreu, aos vinte anos. Foi um tsunami emocional para a família — especialmente para o pai, que esperava que Eleazar, o filho que morreu, o substituísse na prática da advocacia e, quem sabe, também se tornasse um juiz.

Não passou despercebido a Cady que aos pais não ocorria que uma das cinco meninas poderia vir a substituir o pai no lugar do irmão morto. Ela começou a pensar por quê.

Lembrou-se de que, quando tinha quatro anos, sua irmã Margareth nasceu — e a reação de todo mundo na casa, mesmo ainda estando vivo o irmão, foi: “Ah que pena que é mais uma menina!”

Inteligente e precoce, Cady achou que mulheres normalmente exerciam funções dentro de casa, e não fora, na rua, no escritório, na fábrica, porque, para trabalhar fora, você precisa estudar bastante e ser ambicioso, ousado, corajoso. Ao alcançar essa conclusão ela resolveu que ela iria estudar bastante, ser uma excelente aluna, e iria exibir aquelas características que faziam os homens ser bem sucedidos fora de casa, no mundo do trabalho.

Ela se tornou uma excelente aluna, a única mulher na academia de Johnstown, que ela frequentou, optou por praticar esportes, entre os quais cavalaria, e se tornou ativa na vida da escola.

Um dia ela ganhou um prêmio pelo seu desempenho em Grego. Chegando em casa, foi correndo contar para seu pai, na certeza de que ele, agora, iria considera-la igual ao filho perdido, permitindo que ela seguisse a mesma carreira e o sucedesse…  O pai ouviu a história e lhe disse, meio desapontado: “Ah… você deveria ter nascido menino!”

Ela ficou desapontada, mas não esmoreceu. Resolveu estudar a fundo, por conta própria, o que era que impedia as mulheres de seguirem carreiras como a do pai. O escritório do pai era anexo à casa e ela começou passar seu tempo livre por lá, ouvindo histórias dos clientes, lendo, refletindo…

Logo descobriu que, na sociedade em que ela vivia, uma mulher casada se tornava basicamente uma mulher morta, depois de casada, aos olhos da lei. Descobriu que, se ela tivesse alguma propriedade antes de casar, ao se casar a propriedade passava a ser do marido, que podia dispor dela sem autorização da mulher. Descobriu que, se ela viesse a trabalhar fora de casa, recebendo salário, ao se casar o seu salário pertenceria ao marido, que, basicamente sendo dono dela, era dono de tudo que lhe pertencia.

Até dos filhos. A mulher casada não tinha a guarda dos próprios filhos. Se o marido perdesse sua confiança de que a mulher era capaz de criar bem os filhos, podia, contra a vontade dela, ou mesmo sem informa-la de sua decisão, optar por dar seus filhos para adoção por parte de terceiros — e estes poderiam optar por nunca mais deixa-los ver sua mãe biológica.

Cady começou a se enveredar pelo Direito, para entender como essas coisas absurdas podiam acontecer. Os estagiários de seu pai, todos estudantes de Direito, faziam brincadeiras com ela por causa das leis que negavam à mulher direitos básicos que os homens possuíam e assumiam com naturalidade. Um dia ela mostrou a um deles um colar e um bracelete de coral que havia ganho no Natal. O colega lhe disse que, se ela se casasse com ele, o colar e o bracelete passariam a ser dele e ela só poderia usa-los com sua permissão… E acrescentou que, se ele desejasse, poderia trocar o colar e o bracelete por uma caixa de charutos e Cady então assistiria a transformação em fumaça do presente que tanto a orgulhava…

“The making of a feminist” estava em pleno andamento…

Quando terminou de cursar a academia de Johnstown, pensou em fazer a faculdade na mesma escola em que seu irmão estava estudando quando morreu, o Union College de Schenectady, NY. Logo descobriu que não poderia: a escola não aceitava mulheres!

“Novamente”, disse ela, “eu senti mais agudamente do que em qualquer momento anterior, a injustiça e a humilhação de não poder fazer algo que eu queria fazer, não por incapacidade, mas por causa do meu sexo”.

A construção de uma feminista ganhou mais um punhado de tijolos…

Ela teve de se contentar em ir estudar em uma escola para moças — com o nome esquisito de Troy Female Seminary — que oferecia, para mulheres, uma educação parecida com aquela que era oferecida para os homens.

Na escola, teve experiência direta do que era um Reavivamento Espiritual — daqueles promovidos por Charles Grandison Finney. Ela havia sido criada na Igreja Presbiteriana, uma igreja que ela considerava meio triste, tétrica até, porque ali se pregava que Deus, em sua soberania, já havia decidido quem iria para o céu e quem iria para o inferno… Independentemente de como as pessoas vivessem, do que fizessem… Tudo que uma pessoa podia fazer era ter esperança de estar entre os eleitos que seriam salvos do inferno!

A pregação de Finney mexia com as emoções das pessoas — e mexeu com as de Cady. Ela ficou muito impressionada: achou que ele era um terrorista da alma, a manipular as emoções das pessoas. Quando voltou para casa, ao final do ano letivo, conversou seriamente com seu pai e com seu cunhado, marido de sua irmã mais velha, que era um indivíduo interessante, cético, racionalista, bom argumentador, culto, com quem Cady gostava de conversar. Seu pai resolveu fazer uma viagem com ela e convidou sua irmã e o cunhado para irem juntos.

A viagem foi um marco para ela, que, ao longo da viagem, começou a abandonar aquilo que ela chamou de suas superstições religiosas e a aceitar uma visão mais racionalista e científica da vida. Aos poucos o medo foi dando lugar a um sentimento mais positivo, de confiança no futuro e em sua capacidade de enfrenta-lo. Sentiu-se feliz. Parece que a vida poderia ter perspectivas interessantes, afinal das contas…

A frustração de ver tantas portas fechadas para as mulheres e o medo de enfrentar um futuro que já estaria decidido de antemão foram, aos poucos, sendo substituídos pela confiança de que ela poderia ter um papel importante em mudar esse estado de coisas.

Estava formada, no plano mais básico, uma feminista.

(Dados retirados do livro Elizabeth Cady Stanton and Susan B. Anthony: A Friendship that Changed the World, de Penny Colman, e da autobiografia de Elizabeth Cady Stanton, com o título Eighty Years and More; Reminiscences 1815-1897. Ambos os livros disponíveis como e-books em formato Kindle na Amazon.)

Em Salto, 23 de Fevereiro de 2016.