As férias do fim de ano – 2

A segunda grande atividade minha nessas férias de fim de ano foi a leitura de coisas que o trabalho não vinha me deixando ler. Coisa séria (mas não urgente) e coisa simplesmente prazerosa.

Do lado sério, li The Secret World of American Communism, de Harvey Klehr, John Earl Haynes e Fridrikh Igorevich Firsov (Yale University Press, 1995). Um catatau, cheio de análises interessantes e de documentos mais interessantes ainda.

Por décadas historiadores e jornalistas identificados com a esquerda americana (o mais das vezes esquerda "light", social-democrata, alinhada com o Partido Democrata) demonizaram o movimento de "caça aos comunistas escondidos no governo americano", movimento esse que acabou ficando conhecido como McCarthysmo, em decorrência do papel proeminente (e, por vezes, meio desastrado) nele representado pelo Senador Joseph McCarthy.

Segundo os historiadores e jornalistas de esquerda, não havia comunistas escondidos no governo americano, muito menos operando como informantes e espiões para a União Soviética. Julius e Ethel Rosenberg, condenados e executados por passarem segredos atômicos para a União Soviética, teriam sido vítimas de uma caça às bruxas injustificada. Alger Hiss, alto funcionário do Departamento de Estado (Relações Exteriores) dos Estados Unidos, acusado de pertencer a um círculo de espiões trabalhando sob ordem da União Soviética, foi condenado por perjúrio, com base principalmente no testemunho e nos documentos amealhados por Whitakker Chambers — vilipendiado pela esquerda. Relatos e depoimentos de ex-comunistas, que revelavam até mesmo os nomes dos agentes, como é o caso de Elizabeth Bentley, nunca foram levados a sério pela esquerda americana — pelo contrário, eram objeto de tentativas de desmoralização.

Bem, tudo isso é história, hoje. Com a gradativa liberação (de 1990 para cá) dos arquivos secretos da União Soviética, e com o trabalho sério do Russian Center for the Preservation and Study of Documents of Recent History, existe, hoje, farta documentação que comprova, além de qualquer dúvida, que, entre outros, os Rosenberg e Alger Hiss eram culpados, como haviam sido acusados, e que centenas de outros membros do Partido Comunista dos Estados Unidos, operando em missões naturalmente secretas, eram informantes e espiões a soldo da União Soviética, e que, apesar de (em muitos casos) serem cidadãos americanos, dedicam lealdade primeira ao governo soviético, traindo vergonhosamente a sua pátria.

O mais interessante é que os acusados sempre negaram — até mesmo que eram membros do PC americano (que, ressalte-se, nunca foi considerado ilegal naquele país). Agora se pode manusear documentos que comprovam, além de qualquer dúvida, que havia boa razão para McCarthy dizer que o governo americano estava cheio de quintas-colunas comunistas, que trabalhavam contra os Estados Unidos e a favor da União Soviética — a maioria dos quais havia entrado para o governo durante os diversos governos de Franklin Roosevelt.

Bom esse foi um dos livros que li nos últimos dez dias.

Um outro livro sério que li foi Lições de Guerra – Vencendo as Batalhas de sua Carreira, de Danilo Talanskas, presidente da Elevadores Otis do Brasil. Ouvi uma entrevista do autor para o Heródoto Barbeiro na CBN e comprei o livro. O estilo é auto-ajuda, mas o livro é interessante. Discute as lições que a estratégia de guerra podem nos ensinar na gestão de nossa vida — em especial de nossa vida profissional.

O que me chamou a atenção na entrevista do autor foi sua classificação das competências que todos devemos ter: competências de natureza pessoal, competências de natureza relacional (especialmente necessárias hoje para o trabalho em equipe), e competências de natureza executiva (relacionadas à ação, especialmente ao empreendedorismo, mesmo no caso de empregados). Essas três categorias me fizeram imediatamente lembrar dos Quatro Pilares da Educação do Relatório Jacques Delors da UNESCO: aprender a ser, aprender a conviver, aprender a fazer, aprender a conhecer. Faltou esse último pilar no livro de Danilo Talanskas, mas o livro é muito útil no contexto pedagógico, e não apenas como material de auto-ajuda.

Por fim, li La Suma de los Días, de Isabel Allende — delicioso, como todos os livros dela. Este livro é claramente autobiográfico, traçando a história da vida de Isabel Allende e sua família de 1993 para cá — 1993 sendo o ano em que morreu sua filha Paula. Na realidade, o livro é uma série de cartas de Isabel para Paula, narrando o que tem acontecido com a família. Gostoso de ler, sensível, triste às vezes, divertido outras, esse livro, vindo na seqüência de uma grande obra, faz de Isabel Allende uma série candidata latinoamericana ao Prêmio Nobel da Literatura. Ainda gostaria que Mario Vargas Llosa recebesse o prêmio antes dela, por ser mais velho e ter uma clara militância política liberal, mas ela também está a merecer o prêmio (a despeito de ser parente de Salvador Allende…).

Além das leituras, assisti a uma série de filmes em DVD — mas sobre eles não vou falar. Em minha mensagem de fim de ano comentei um deles: a biografia de Sylvia Plath. Mas assisti a vários outros, também muito bons.

Bons livros e bons filmes para 2008! Que seria de nós sem eles??? 

Em Salto, 1º de Janeiro de 2008.  

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