Natal

Nesta data recebo muitos cartões de Natal. Felizmente, hoje, a maior parte deles virtual – embora alguns cartões físicos ainda pinguem de vez em quando. Confesso que, ainda que isso possa parecer rude, quase nunca os respondo e, no fim, deleto todos – ou jogo fora os que vieram pelo correio convencional ou por portador (exceto os que contêm alguma informação adicional, além da mensagem de Natal, como é o caso dos cartões de meu amigo Greg Butler, que são uma verdadeira newsletter das andanças da família no ano anterior).
 
Não sou muito de apreciar esses festejos de fim de ano. Não me interpretem mal: gosto de festejar – quando, naturalmente, há o que festejar. Quando o São Paulo ganhar o Campeonato Mundial pela quarta fez, espero que agora em 2007, certamente festejarei – mais do que se a Seleção Brasileira tivesse ganho o seu hexa. O que não aprecio são festejos regulares, artificiais, sem razão de ser, determinados por calendários, de data marcada. Como o Natal.
 
O que celebra o Natal?
 
O foco da celebração é a data (suposta) de nascimento de um judeu nascido na Palestina há cerca de dois mil anos. A Palestina, por sinal, já tinha problemas sérios naquela época: era ocupada pelos Romanos, e, pelo que consta, governada por um preposto romano, Herodes, de sobrenome Antipas, chegado em matar criancinhas indefesas (será por isso que o termo "antipático" tem o sentido que tem? Mas antipático é pouco para descrevê-lo: assassino sanguinário é o que ele era). Registra a história cristã que o nascimento do menino foi envolto em uma série de irregularidades. Ele era, pelo jeito, filho de mãe solteira, e nasceu em lugar absolutamente inóspito, em meio a animais. Consta que, apesar disso, ganhou presentes ricos, como ouro, incenso e mirra – e, ainda por cima, dados por reis e trazidos ali ao estábulo pelos próprios. Toda a história é bastante inverossímil, convenhamos. Reis raramente saem, em pessoa, dando presentes ricos para filhos de mães solteiras nascidos em manjedouras. Nem quando os filhos irregulares são deles.
 
Acreditam os que ainda hoje se dizem seus discípulos que o menino judeu era precoce – em algumas áreas, pelo menos (na área sexual, segundo o relato oficial, nem tanto – embora o relato oficioso lhe seja mais lisonjeiro). Aos doze anos, ao ir ao Templo em Jerusalém pela primeira vez, supostamente engajou sábios judeus ("doutores na lei") em uma discussão acalorada sobre alguma filigrana jurídica e os deixou encurralados, basbaques. Xeque-mate. Depois, porém, surpreendentemente, em vez de seguir o rabinato, carreira para a qual parecia ser eminentemente bem-dotado, enveredou-se por uma atividade braçal: foi ser carpinteiro, em sociedade com o padrasto – este sim, um santo. (A meu ver, o padrasto é o maior santo dessa história. Acreditou que a gravidez da noiva fosse miraculosa e a aceitou como virgem, mesmo depois do nascimento do filhote. Cuidou do filho que não era seu, educou-o, dentro de suas possibilidades, ensinou-lhe seu ofício, e, no devido tempo, ofereceu-lhe sociedade no negócio. Poucos pais fazem isso. Ele tem minha total simpatia.). Simpatias à parte, porém, mais uma história implausível, não é? Judeus em geral dedicam o primeiro filho para o rabinato, especialmente se o menino demonstra sinais precoces de brilhantismo intelectual. E, depois, escolhem uma noiva rica e não muito burra para ele. É assim que aprimoram a raça (pelo menos segundo o livro The Bell Curve). Nada disso, porém, aconteceu neste caso.  
 
Quando o jovem chegou às portas da meia-idade, lá por volta dos 30 anos, ainda na casa materna, sem ter chamado atenção sobre si próprio, com exceção do episódio da discussão no Templo, ele foi batizado, por um primo-segundo, um tipo estranho, cujo nascimento também havia sido envolto em algum mistério. Pois vejam. O presumido pai do primo, um sacerdote, pelo que consta estava já velhinho, não dando mais no couro. Mas a mulher dele, bem mais jovem, queria porque queria um filho. Só um milagre resolveria o problema. E, miraculosamente, o milagre aconteceu. Os detalhes não são esclarecidos no Evangelho, mas o milagre envolveu a presença de um anjo na história, o resultado sendo que a mulher do sacerdote acabou grávida do filho que tanto desejava. (Casar-se com mulher muito mais jovem em geral dá na nisso, sinto dizer. Mulher velha, casar-se com homem muito mais moço, também dá: a Suzana Vieira que o diga.). Mas voltemos à nossa história. Trinta e poucos anos depois de seu nascimento, esse filho milagroso, que era uma espécie de hippie do século primeiro, que andava pregando pelo deserto com uma voz estrondosa, vestido com vestes de pelos de camelo, e comendo gafanhotos e mel silvestre, batizou o primo também milagroso – e, pelo que consta, talvez para valorizar o próprio papel, declarou que o batizado era o cordeiro de Deus que iria tirar o pecado do mundo. É muito milagre pro meu gosto. Pelo jeito o pessoal de antigamente não acreditava que gente nascida de uma transa convencional pudesse ser grande coisa. Pra ser bom o cara tinha de nascer, milagrosamente, de virgem ou, então, numa época em que inexistia Viagra, também milagrosamente de homem sexualmente aposentado.
 
O pior é que o próprio batizado acreditou na profecia do primo, convenceu-se de que era o Messias e resolveu se tornar um pregador itinerante. Ele tinha voz mansa, diferentemente do seu primo. Considerava-se o filho primogênito de Deus, e, por isso, chamava Deus de pai e o tratava por "tu". (Nisso ele foi seguido pelos protestantes que até hoje tratam Deus de "tu". Os católicos, achando isso uma falta de respeito, mudaram a linguagem dele e tratam Deus de "vós" – o que, convenhamos, de certo modo, sendo um tratamento plural, reconhece o caráter uniplural da divindade cristã. Fim de parêntese.) Mas o nosso amigo (se ele me permite essa forma intimista de tratamento) andou em companhia que, admitamos, estava longe de ser considerada acima de qualquer crítica. Prostitutas, em mais de um momento, fizeram parte de sua entourage. A lenda preservada fora dos Evangelhos canônicos é insistente em afirmar que até teve um caso prolongado com uma delas (fato que o redime da alegada imprecocidade sexual) – uma vertente diz que ele até se casou com ele. De qualquer forma, ele causou um reboliço danado no Templo, em Jerusalém, dando chicotadas a torto e a direito nos ambulantes que tentavam ganhar a vida vendendo coisinhas aos fiéis. Não conquistou muitos amigos entre os pequenos empresários locais com esse gesto. Além disso, arrebanhou um grupo de discípulos meio arrebatados: um deles, antes um pescador, chegou a tirar a espada para matar um desafeto. O pregador itinerante, apesar da voz mansa, tinha uma mensagem meio subversiva, alegando que os últimos seriam os primeiros, que os pobres herdariam a terra, que seria preciso ter "fome e sede de justiça", etc. Com tanto problema, não é de admirar que tenha oportunamente sido preso, condenado (em rito mais ou menos sumário, como se faz em Cuba ainda hoje) e crucificado – depois de devidamente traído por um de seus discípulos, negado por aquele seu discípulo valentão e abandonado pelos demais. Isso tudo apesar de ele, de vez em quando, para despistar, designar-se "Filho do Homem", e não "Filho de Deus". (Aqui entre nós, o primo que o batizou também teve triste fim: a cabeça cortada e servida em uma bandeja à filha da mulher de Herodes. Se tivessem perguntado a mim, eu teria dito, do alto de minha experiência de sexagenário, que a coisa não iria dar certo. Deu no que deu.)
 
As histórias fantásticas, porém, continuaram. Depois de morto e sepultado, o corpo do crucificado desapareceu, deu sumiço. Acharam seu túmulo vaziozinho. Mas, apesar disso, a moça (se é que o termo é aplicável: trata-se daquela com a qual a história extra-canônica diz que ele teve um caso) disse que o havia visto vivinho da silva, depois de morto… e alguns dos seus discípulos também se convenceram de que o haviam re-encontrado numa estrada. Ainda hoje, seus seguidores acreditam que ele de fato ressuscitou dentre os mortos e, depois de alguns dias assombrando os desavisados, subiu aos céus onde está até o momento presente e de onde um dia há de voltar para julgar vivos e mortos. Faz dois mil anos que seus seguidores consideram essa volta iminente. Alguns dos seus seguidores acreditam até mesmo que sua mãe também subiu aos céus onde está até hoje, ao lado do filho, tendo, na verdade, enorme influência junto a ele. Muitos até mesmo acreditam que, conversando primeiro com ela, e pedindo para ela insistir junto ao filho famoso, vão conseguir graças especiais. (A propósito, os católicos acham que a mãe dele é virgem até hoje. Certamente é um record de virgindade: dois mil anos! E, o que é pior, sem perspectiva, posto que, segundo os católicos, a virgindade dela está condenada a ser perpétua. Eu acharia cruel condenar alguém à virgindade perpétua – mas, novamente, ninguém me consultou.)
 
Aqui entre nós, e para terminar: se alguém escrevesse um romance com tal enredo fantástico (Gabriel Garcia Marquez perde longe), você acreditaria que a história era verídica? Não tenho dúvida de que haveria gente que iria comprar o livro (compram até os livros mais fraquinhos do puxador de saco do Fidel), e de que Hollywood poderia até fazer um filme (como já fez vários), mas será que isso faria com que você acreditasse que a história era verídica?
 
Não estou sozinho nesse meu ceticismo. Um dos seus discípulos, lá no século II, reconheceu que a história era totalmente absurda. Mas disse: "credo quia absurdum" — "creio porque é absurdo"… Se a história não fosse absurda, raciocinou ele, não era preciso crer – bastava aceitá-la, racionalmente, como a gente aceita tantos outros fatos da história. Um grande filósofo escocês do século XVIII (na minha opinião o maior), que, como eu, era meio desconfiado de milagres, ressaltou que essa história é tão cheia de milagres que só com outro alguém consegue acreditar nela… Quase foi pra fogueira por dizer uma coisa dessas…
 
Pois bem: é o nascimento desse menino judeu, que, depois de morto e supostamente ressurreto, veio a se tornar globalizado, que o Natal comemora. Pergunto: exatamente o que há para comemorar nessa história?

Em todo caso, crendo ou não que haja o que comemorar, desejo a todos que tenham um Feliz Natal.

[Em tempo: Desculpas antecipadas aos meus amigos que se ofenderem. Como se dizia antigamente na Internet, "flames –> null"]. 

[NOTA acrescentada em Dezembro de 2007: O glorioso SPFC não ganhou sua quarta estrela mundial em 2007 — embora tenha sido Campeão Brasileiro, humilhando os concorrentes ao ficar mais de 15 pontos na frente do segundo colocado. Ganhou o Campeonato Mundial o Milan — na realidade, o Kaká, que é são-paulino… Festejei.]
 
Em Salto, 23 de Dezembro de 2006

Uma resposta

  1. Tiozão, obrigado por ter respondido à minha mensagem (virtual) natalina. E permita-me dizer: este é um dos melhores textos sobre o Natal que já li. Como sempre, fenomenal. Abração!!! -Vitor.

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