Morando com mamãe

Interessante a matéria do Ruy Castro na Folha de hoje (22/2/2010). Ele compara os jovens e jovens adultos de hoje com os de 42 anos atrás, em 1968.  Em 1968 eu tinha 25 anos e estava casado. Mas deixei a casa de meus pais no início de 1961, quando eu tinha 17 anos. Hoje, o pessoal se casa muito mais tarde e fica morando com mamãe até os 30 e até mesmo os 40 anos. As vezes se casa e continua morando com mamãe. Se se separa, volta para a casa de mamãe.

O que aconteceu com o desejo de liberdade e autonomia dos jovens??? Será que as estão trocando por um prato diário de lentilhas e roupa lavada e passada??? Difícil de crer que a liberdade e a autonomia lhes valha tão pouco…

EM TEMPO:

Cerca de meia hora depois de escrever o texto acima, li algo relacionado no livro Grown Up Digital, de Don Tapscott.

Ao discutir algumas das críticas feitas aos chamados “Nativos Digitais”, ele menciona, como quarta crítica (p.4) o seguinte:

“Porque seus pais os mimaram e paparicaram, eles acabaram ficando perdidos no mundo, receosos de escolher um caminho por si próprios. É por isso que muitos, depois de cursar a universidade [onde em regra ficam internos], tantos voltam para casa. Não sabem lidar com a própria independência. Os pais em geral adoram, mas os vizinhos ficam preocupados. Por que eles não se estabelecem por si próprios para cuidar de suas vidas? Por que precisam de pais que, como helicópteros, ficam girando em círculos por cima dos filhos enquanto estes são entrevistados em processos seletivos para ingresso na universidade ou mesmo no mercado de trabalho. Segundo William Damon, autor de Path to Purpose, ‘Os jovens têm tanto medo de assumir compromissos que muitos deles nunca se casam, estão tão incertos sobre seus propósitos na vida, que terminam nunca escolhendo uma carrreira. Dessa forma, muitos deles acabarão vivendo na casa dos pais para sempre.’”  

Interessante, não? Don Tapscott não concorda com a crítica – mas reconhece que os fatos sobre ficar na casa dos pais, postergar (ou mesmo evitar) compromissos relacionais sérios, e adiar ao máximo a definição de uma carreira são evidentes.

Eis o texto do Ruy.

—–x—–

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2202201005.htm 

RUY CASTRO
Morando com mamãe

RIO DE JANEIRO – Custei a perceber que era uma tendência: a quantidade de rapazes de 30 anos ou mais, hoje em dia, ainda vivendo com os pais e sendo sustentados por eles -abdicando da liberdade pelos confortos e conveniências da cama, comida e roupa lavada. Foi para isso que os jovens dos anos 60 fizeram duas ou três revoluções?

Nenhum garoto de 1968 trocaria a canja de galinha do Beco da Fome, em Copacabana, às 4h, pelo toddy com biscoitos servido pela mãe às 21h, depois de "O Sheik de Agadir". Ou a aventura de morar num apê tipo já-vi-tudo em Botafogo -o mobiliário consistindo de uma estante de tijolos com uma ripa de madeira por cima (roubados de alguma construção vizinha) e de uma esteira de praia à guisa de cama- pelo quarto acolhedor e quentinho que ocupava desde guri no vasto apartamento dos pais.

Quem chegasse à provecta idade de 20 anos e não tivesse endereço próprio era tido como anormal -a norma era entrar para a faculdade aos 18 ou 19, arranjar um emprego e ir à vida, como até as meninas estavam fazendo. As vantagens de morar sozinho eram poder ir ao banheiro com a porta aberta, namorar a qualquer dia e hora e promover reuniões para derrubar a ditadura ou para escutar o disco novo da Nara, o que viesse primeiro.

Hoje, há marmanjos de até 40 anos morando com a mãe, na Europa, nos EUA e no Brasil. Na Itália são chamados de "mammoni" (filhinhos da mamãe); na Espanha, de "ni-ni" ("ni estudian, ni trabajan"); na Inglaterra, de "kidults" ("kids", crianças, com adultos). Eles se defendem: formaram-se, gostariam de trabalhar, mas o mercado é cruel, não consegue assimilá-los, são desempregados crônicos e não têm como pagar aluguel, comprar um imóvel nem pensar.

E, além disso, ninguém cozinha como a mamãe.

—–x—–

Em São Paulo, 22 de Fevereiro de 2010

  1. E os pais vão financiando pós-graduações, que os "ni-ni" vão colecionando (porque, assim pensam os progenitores, dessa forma aumentarão as probabilidades de conseguir um emprego de topo), pois estar a cursar é uma boa justificação para não ainda não ter arrumado emprego.E tem mais uma coisa: a casa dos pais é como um hotel de luxo, onde o serviço é excelente, mas com a vantagem de que não é cobrada nenhuma diária.

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  2. Se o adulto, seja do sexo masculino ou feminino, mora com os pais porem trabalha, ajuda os pais com as despesas e ao mesmo tempo se sustenta e os pais não acham ruim tem mais e que morar com os velhos mesmo cada um dentro do seu espaço vive a vida do seu jeito o espaço de um só termina quando começa o espaço do outro, aqui na minha cidade e inclusive na minha rua tem uma monte de gente que vive assim inclusive eu. todos nós trabalhamos e seguimos com nossas vidas.

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    • Se todo mundo está de acordo, Luciano, não vejo problema em continuar a morar na casa dos pais… O que o Ruy Castro saliente é que esse é um padrão muito diferente daquele que era seguido quando ele e eu éramos jovens.

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      • Eu não era nascido naquela época, mas minha mãe me conta muito a respeito pois só nasci em 1973, ela foi criada pela madrinha déla e teve uma educação repressora, e só aos 31 anos de idade ela resolveu sair de casa, e conhecer o mundo trabalhando como cozinheira, e desde cedo ela me ensinou a ser independente mesmo morando com ela, tanto é que desde os 12 anos de idade eu faço minha comida, lavo minhas roupas e ajudo com a limpeza da casa.

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  3. a mae do ruy castro tinha que se sustentar sozinha? ou ela tinha um marido para pagar as contas? hoje o casamento é uma instituiçao falida. os homens abandonam as maes sem dar apoio financeiro e muitos filhos assumem o papel de homem da casa, pagando pelo bem estar da progenitora e pela preservaçao de seu patrimonio. pra que vou deixar minha mae a propria sorte atras da minha liberdade? pra casar com um mulher independente, que saiu de casa aos 18, náo tem emprego nem formaçao e ainda tem 4 filhos de 3 caras diferentes? veja a inflaçao do mercado imobiliario: um imovel no centro de SP (maior indice de roubo, apreensao de drogas, estupro de SP – pois é, nao é em guaianases) quadruplicou nos ultimos 5 anos. prefiro manter o patrimonio da minha mae do que rasgar dinheiro com aluguel e morar ao lado de putas e travestis, e desta maneira consegui me formar, ter minha moto e dar um carro zero para ela. em 1968 valia a pena acreditar em uma mulher para constituir família, hoje só vadias pseudo feministas sem perspectiva que na primeira briga dizem: vou me separar e levar metade pra mim.
    a única coisa que minha mae nao pode me dar eu consigo na rua por 20 cruzeiros, ou enganando alguma mulher ‘independente’ com juras de amor.
    sair de casa está mais relacionado com o bem estar social e financeiro do que com a necessidade de ter uma mulher e família. perdi minha oportunidade com uma grande mulher por que náo podia dar a mesma ou uma melhor vida do que ela tinha em sua casa.
    ter medo é sair de casa e abandonar os desafios que merecem ser transponidos.
    Sr. Eduardo, um magnífico filósofo, de olhos bem fechados para o século XXI.

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