O circo petista

A crise avança inexoravelmente.

Ontem (11/8/2005) Duda Mendonça trouxe novos elementos importantes. O Caixa 2 do PT é (era?) globalizado. Duda recebeu, por serviços prestados, não é claro se durante a campanha ou depois de eleito o Lulla, através de uma empresa que criou em um paraíso fiscal, por recomendação do próprio PT – e, pelo que consta, com o apoio do Bank Boston International, no passado presidido pelo atual presidente do Banco Central, indicado pelo PT (embora pertença ao PSDB – "politics makes strange bedfellows", já se disse).

A revelação causou consternação e cenas de ridículo explícito.

O senador Aloízio Mercadante revelou-se "perplexo e indignado". Afinal de contas, Duda havia cuidado de sua própria campanha para o Senado – se bem que ele, Mercadante, afirme que não tratou de dinheiro com Duda nem sabe como Duda foi pago ("Eu jamais negociei qualquer contrato", diz ele, segundo a Folha de hoje). Os petistas são uma raça especial: acreditam que as pessoas lhes prestam favores assim sem mais nem menos, sem esperar nada em troca – só porque os petistas são (eram) puros e politicamente corretos.

Quem vai pagar o Duda? Não importa. Alguém o fará. Afinal, sou amigo do Rei (ou de Deus). São Delúbio, quem sabe, auxiliado pelo Arcanjo Carequinha, fará o pagamento.

No plenário da Câmara houve choro e ranger de dentes. Os petistas que ainda se consideram puros, e que agora acusam e condenam a "banda podre" do partido, com a qual ontem festejavam e jantavam, choraram, repelindo (palavra da hora) e acusando seus antigos companheiros. Duas dezenas de deputados e quatro senadores abriram mão dos cargos de vice-líderes no Congresso – e abandonaram o partido.

É bom que se diga que abandonar um barco que afunda não é nenhum gesto heróico. Quem viu Titanic sabe que gestos bem pouco heróicos acontecem nessa hora.

Já que a analogia com o Titanic me ocorreu, é oportuno ressaltar que Lulla continua como o quarteto do navio: tentando tocar "Closer my God to Thee" e fazendo de conta que nada de extraordinário está acontecendo. Como os músicos do Titanic, que pagaram com a vida (chegando rapidinho mais pertos de Deus, como dizia a música que tocavam) o seu faz-de-conta, Lulla pode pagar com o mandato sua cegueira política – se não com o atual mandato, certamente com o futuro. (A pesquisa DataFolha revelada hoje já mostra que, num eventual segundo turno com o José Serra ele perderia com mais de dez pontos percentuais. Estamos mal: substituir o Lulla com o Zé Serra não é avanço algum – believe me).

Consta que Lulla hoje vai falar à nação. Pelo jeito vai bater na tecla de que foi traído. A propósito, é esse o tema do PT no momento: a traição.

Segundo a Folha de hoje, "Lula fará um discurso em que dirá que foi ‘traído’ [aspas no original] e que alguns companheiros ‘cederam a práticas tradicionais’ que antes eram condenadas pelo próprio PT". As práticas eram antes condenadas pelo PT – o que não quer dizer que não eram praticadas pelo partido ao mesmo tempo em que ele as condenava… A coisa vem de longe. Remember Celso Daniel.

Os petistas pelo jeito são tutti cornuti confessos – a começar, pelo visto, pelo petista mór, Lulla de Castro Chavez (que ontem recebeu o apoio do Hugo Chavez no Palácio do Planalto: quando vai chegar o Fidel Castro?).

Os deputados chorões disseram-se traídos. Segundo a Folha de hoje, "as lágrimas vieram no plenário da Câmara. Orlando Desconsi (RS), Maninha (DF), Chico Alencar (RJ), Iara Bernardi (SP), Nazareno Fonteles (PI), Walter Pinheiro (BA) foram alguns dos que choraram. Alguns dos assessores fizeram o mesmo. ‘Entramos em parafuso’, disse o deputado Ivan Valente (SP)".

O atual secretário-geral do PT e ex-ministro do Trabalho de Lulla, Ricardo Berzoini, para não ficar atrás do Mercadante, se disse nada menos do que "estupefato".

O atual presidente do PT e ex-ministro da Educação, Tarso Genro, também está envolvido com dinheiro valeriano. Ainda segundo a Folha, "depois de várias negativas [NB], o PT gaúcho reconheceu ontem ter recebido R$ 1,05 milhão da empresa SMPB, da qual o empresário Marcos Valério de Souza é sócio". O atual presidente do PT não é melhor do que os três anteriores: Genoíno (o menos genuíno de todos os homens), Dirceu e o próprio Lulla).

Quando se pensa que o PT chegou no fundo do poço, aparece mais fundo de poço para eles se afundarem ainda mais.

Primeiro, a ópera bufa do empréstimo de 30 mil reais que Lulla fez junto ao partido (dez vezes mais do que os 3 mil pelos quais o Marinho se vendeu nos Correios). Por mais de um mês o empréstimo não foi questionado – a única coisa que estava obscura era quem o teria pago. O Palácio do Planalto inicialmente emitiu uma nota dizendo que informações sobre o empréstimo deveriam ser buscadas junto ao PT, não junto à presidência. Depois, ao mesmo tempo em que apareciam documentos mostrando depósitos na conta do PT feitos pelo presidente Lulla, apareceu o ex-tesoureiro do PT, Paulo Okamoto, hoje presidente do SEBRAE (nada é sagrado para o PT), que reconheceu que o empréstimo havia sido feito e que ele próprio o havia pago, com dinheiro do próprio bolso, como presente a Lulla, nunca dizendo ao Lulla o que havia feito (para não "encher o saco" [sic] do presidente com essas bobagens. 30 mil reais para um petista de escol é trocado – dinheiro que a gente dá como gorjeta da mesma forma que os pobres mortais dão de 2 reais para manobrista.

Por fim, o atual ministro da Coordenação Política, Jacques Wagner, veio a público, ao mesmo tempo, para negar que o empréstimo houvesse sido feito um dia, dizendo que Lulla não o reconhece e não vai pagá-lo… Lulla? Quieto. Parece que o problema não é com ele.

O vice-presidente da CPI dos Correios, deputado Paulo Pimenta do PT do Rio Grande do Sul, foi forçado a se demitir do cargo depois de ter sido flagrado mentindo e forjando documentos… Pode ser cassado. Único erro que ele admitiu? O "equívoco" de ter pedido uma carona a Marcos Valério quando este saía do Congresso… "Diga-me com quem andas…"

Pelo jeito, se morrerem todos os petistas só vamos poder dizer, plagiando Nero: "que grandes artistas perde o mundo".

Enquanto isso, Hugo Chaves afirma que os "ataques" a Lulla "deve(m) vir de algum centro de planejamento — na melhor das hipóteses aqui de dentro do Brasil, ou cuidado se não é de fora do Brasil." O MST assina embaixo, e inclui a cumplicidade da imprensa.

Franklin Martins, comentarista político da Globo, chamou ontem o presidente à responsabilidade em termos duros:

"Está na hora de o presidente falar à nação", diz ele. "Não em palanque, em comício, de improviso, porque o momento é grave e exige serenidade, não radicalização. É preciso que Lula diga claramente ao país o que aconteceu no governo e no PT. Se se sente traído, que diga por quem e com todas as letras. Se errou na escolha de colaboradores, que peça desculpas. Que fale olho no olho de cada brasileiro."

É isso. O Franklin Martins é bom que espere sentado.

Em Campinas, 12 de agosto de 2005

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