Rev. Oscar Chaves, a Igreja Presbiteriana Maranata, e outros elos que se restabelecem em torno de Santo André

A Igreja Presbiteriana Maranata, de Santo André, SP, está comemorando nestes dias (ontem e hoje) seu vigésimo segundo aniversário.

Ela foi fundada pelo meu pai, Rev. Oscar Chaves, nos idos de 1986, em decorrência de uma cisão da Igreja Presbiteriana de Santo André (da Rua 11 de Junho, 868-878), da qual meu pai havia sido pastor por 34 anos (desde 1952).

Depois de se aposentar do ministério pastoral, em 1982, por jubilação (no caso, por ter feito 70 anos), meu pai continuou na Igreja Presbiteriana de Santo André. Nunca recebeu a honra de ser chamado Pastor Emérito da igreja à qual dedicou os melhores anos de sua vida [* o acontecido foi anda pior: vide nota abaixo]. Mas isso não o impediu de continuar ali na igreja, procurando cuidar da vida espiritual (às vezes da vida emocional e até mesmo da vida sem qualificativos) de gente que ele havia batizado, ou de quem havia feito a profissão de fé, ou cujo casamento havia celebrado.

Continuar na igreja depois de aposentado, quando já havia um novo pastor, foi um erro sério que o meu pai cometeu. Explico e justifico.

O novo pastor da igreja, Rev. Evandro Luiz da Silva, escolhido a dedo por meu pai, era uma pessoa voluntariosa, de relacionamento (aparentemente) muito fácil, afável (na superfície), bem falante, bom cantor (consta que, em Ituiutaba, MG, perto de Uberlândia, onde passou sua infância, tenha feito dupla com seu amigo — pelo menos ele assim alardeava –Moacyr Franco). Eu o conhecia bem: havíamos sido colegas no Instituto José Manuel da Conceição, em Jandira, em 1962-1963, e no Seminário Presbiteriano de Campinas, em 1966. Ele foi um dos líderes, no corpo discente do seminário, do movimento que acabou implodindo a escola naquele fatídico ano e 1966, em que acabei expulso do seminário. Descobri-o, naquela ocasião, um verdadeiro Tullius Détritus (personagem do Asterix), semeador de cizânia de primeira. Em 1982 tentei advertir meu pai sobre quem era o Evandro, mas meu pai não me deu ouvidos – eu não tinha muito crédito com ele em relação a questões de política eclesiástica, e meu pai admirava as credenciais teológicas conservadoras do meu ex-colega.

A amizade entre os dois durou pouco. Além dos problemas de rivalidade, que quase sempre aparecem quando duas pessoas de personalidade muito forte compartilham um mesmo território institucional, além da inveja do mais novo ao ver o carinho e a atenção que os membros da igreja dedicavam ao pastor mais velho, embora já aposentado, e outras coisinhas mais, começou a reinar na igreja a intriga e o diz-que-diz-que. O resultado foi outra implosão provocada pelo Evandro: a Igreja Presbiteriana de Santo André se cindiu, e meu pai saiu da igreja, com mais ou menos metade dos membros, e fundou o que então se chamava “Segunda Igreja Presbiteriana de Santo André” numa casa alugada, na Vila Assunção. (Na primeira implosão causada pelo Evandro, em 1966, eu saí do Seminário de Campinas; na segunda, vinte anos depois, o meu pai saiu da igreja em que havia estado por 34 anos).

Imagino a tristeza por que passou meu pai, quando deixou para trás tudo o que havia construído ali na Rua 11 de Junho. Chegara, em 1952, para pastorear uma igreja pequena, modesta. Nos 34 anos que ali ficou a igreja se tornou grande, pujante, animada. Ele construiu o novo templo e o edifício de educação religiosa. Era admirado por todos, tinha ali muitos amigos. Agora, resolve sair, deixar tudo para trás, olhar para frente, e começar tudo de novo, em 1986. Ele tinha 73/74 anos quando isso aconteceu. Mas não hesitou em começar de novo.

Naturalmente, magoou-o o fato de que muitos membros da velha igreja, que ele tinha na conta de amigos e aliados, decidiram permanecer lá e, assim, não o acompanharam. Mas alegrou-o o fato de que muitos outros, que ele não esperava que saissem, vieram com ele para a nova igreja. Na minha própria família houve defecções. Minha irmã mais nova, Eliane, não ficou na nova igreja, mas se transferiu para a Igreja Evangélica de Confissão Luterana de Santo André, logo depois da cisão – e está lá até hoje. Mas meu irmão, Flávio, é presbítero da nova igreja até hoje.

A segunda igreja logo comprou um terreno e, mais uma vez, meu pai começou o trabalho de construção do templo. A nova igreja, reconhecida, corrigiu uma injustiça [vide acima e vide nota]: honrou meu pai com o título de Pastor Emérito. Algum tempo depois, o Rev. Luciano Breder, mineiro como o meu pai, e de certo modo filho da Igreja Presbiteriana de Santo André, foi eleito pastor da igreja. Conviveram bem, ele e meu pai, até que o meu pai morreu, em 5 de março de 1991, aos 78 anos e meio. A igreja, mais ou menos nessa época, passou a se chamar Igreja Presbiteriana Maranata (aparentemente por decisão democrática, em que os membros votaram em uma de várias alternativas).

Estive lá ontem à noite (15/11) – pela primeira vez, desde que o corpo de meu pai foi velado ali em 5 de março de 1991, dezessete anos e meio atrás. Houve um bonito culto para comemorar os 22 anos da fundação da igreja. O Rev. Luciano Breder pregou, embora há muito tempo não esteja mais pastoreando aquela igreja. Um longo vídeo amador, passado ao final, mostrou cenas da infância da igreja que recentemente atingiu a maioridade… Nele vi meu pai conversando com as pessoas, cantando, orando, lendo a Bíblia – e o ouvi tocando o órgão elétrico da igreja, acompanhando o hino “Graças dou por esta igreja”, cuja letra era de sua autoria.

Na verdade, eu não era o único filho do Rev. Oscar presente: estávamos ali, pela primeira vez depois de muito tempo, os quatro irmãos: eu, o mais velho, o Flávio, a Priscila e a Eliane.

Não via meu irmão Flávio há mais de três anos, apesar de ele morar em Santo André e eu ter morado em Campinas, não tão longe assim, a maior parte desse tempo. Também não via minha irmã Priscila há um bom tempo – pois não pude comparecer sequer ao enterro de minha mãe, de quem ela cuidava, que morreu no dia 11 de junho deste ano (no dia que adorna o nome da rua da igreja da qual ela saiu, com meu pai, em 1986). Eu estava em viagem no exterior e só soube da morte de minha mãe quando não dava mais para chegar a tempo ao enterro. Minha irmã caçula, Eliane, eu vinha vendo com mais freqüência. Mas fazia muito tempo que os quatro não se reuniam. Na igreja, creio que a última vez foi no enterro do meu pai, em 1991.

Parece que os quatro irmãos estão no caminho de se reconstituírem como família, agora sem o patriarca. Isso se dá, agora, sem ele, mas como quando estavam sob o olhar sério e severo, mas ao mesmo tempo bondoso, do Rev. Oscar Chaves. Meu pai era a personalidade forte e decidida que mantinha a família unida, apesar das diferenças e dos problemas que sempre há em família. Nunca o consegui chamar de “você”. Depois que ele morreu a família foi meio que se esfacelando aos poucos. Minha mãe, a quem eu chamava de “você” de vez em quando, e que deveria ter ocupado o lugar dele, não conseguiu impedir esse esfacelamento – às vezes tendo até contribuído um pouco para ele, contra a sua vontade (quero crer). Entre os irmãos, cada um, preocupado com sua própria vida e com seus problemas pessoais, foi se distanciando dos demais e deixando que eles também se distanciassem. Nem conheço o neto do meu irmão Flávio, que já tem mais de um ano. Como meu querido neto mais velho (e o primeiro neto de meu amigo Antonio Morales), ele também se chama Gabriel.

(Dos netos do Rev. Oscar apenas o Flavinho, filho do meu irmão, estava no culto ontem – e no filme que foi mostrado! O César, irmão dele, pai do Gabriel, está morando em São Paulo, embora vá voltar a morar em Santo André nos próximos dias. O Vítor e o Diogo, filhos da Eliane, são membros da Igreja Luterana e não foram ao culto. Das minhas duas filhas que eram netas do Rev. Oscar, a Andrea estava nos Estados Unidos e a Patrícia estava em Campinas. Nenhum/a bisneto/a do meu pai estava lá. A Olívia e a Madeline estavam nos Estados Unidos com a Andrea. O Marcelinho estava com a Patrícia em Campinas. O Guilherme, primeiro filho da Patrícia, nascido em Setembro de 2003, infelizmente morreu logo depois. E o Gabriel Aiello Chaves estava com os pais dele lá na Zona Leste de São Paulo.)

Como dizia, agora parece haver decisão consciente e deliberada da parte de todos os irmãos de que o processo de distanciamento entre eles deva se reverter. No meu caso particular, essa decisão não é arbitrária, fruto do acaso ou de sentimento espontâneo: ela tem participação consciente e deliberada de causa humana muito concreta e específica. Sou, hoje, e espero sempre ser, agradecido por essa interferência, que fatores parcialmente fora de meu controle me impedem de declinar com clareza. Meu irmão a designou como o “elo perdido”.

Voltando ao culto de ontem, depois dele, já no salão social da igreja, encontrei-me com várias pessoas, membros antigos da igreja, e amigos queridos de minha infância, adolescência e juventude que não via há muito tempo: a Juracy e o Daniel (ele ainda o regente do coral e com uma voz cada vez mais linda), o Manuel de Oliveira e a Arminda, mulher dele, a Lílian Loureiro, a Míriam de Souza, a Ivone, a Cleide, a Zuca, o Sr. Norberto e a Da. Odete, uma filha e uma neta da Eunice de Souza, que, infelizmente, não estava lá. O Manuel e a Arminda são pais do Amauri, e a Lílian e o Carlos são pais da Lídia: os dois, que formam um casal, criaram a comunidade “Rev. Oscar Chaves” no Orkut (vide: http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=72089849).

No último mês o mesmo “elo” reativou vários links meus com contados do meu passado santo-andreense: a Albernice, a Josira, a Abelair, o Machadinho, todos eles irmãos e todos ex-membros da Igreja Presbiteriana do Parque das Nações, em Santo André, que meu pai também pastoreou. Para não falar em outro time de irmãos, o Benedito, o Jonas, o Rubens, o Nicodemos e o Gideão dos Santos (este falecido, e ex-marido da Albernice), também da Igreja do Parque das Nações… Estes não encontrei ainda pessoalmente, mas espero fazê-lo em breve. (Aprendi a dirigir com o Benedito). Por fim, encontrei, durante uma palestra que dei em São Bernardo, a Neusa, filha do Francisco “Mineiro” e da Marlene, que também são amigos da minha infância, adolescência e juventude em Santo André. (O Francisco e a Marlene, embora grandes amigos do meu pai e da família, ficaram na igreja da 11 de Junho – o que prova que há muitos fatores, além de lealdade essoal, que interferem nma decisão de mudar de igreja).

É isso… Passei vários dias sem escrever, mas agora, talvez, tenha escrito demais.

Antes de terminar: o meu pai dá nome ao Coral da igreja, a uma escola municipal e a uma pracinha em Santo André. E, como disse, há uma comunidade dedicada a ele no Orkut (“Rev. Oscar Chaves”). Senti saudades dele ao vê-lo no filme, já velhinho, mas ainda bonito (como sempre foi), poucos meses antes de morrer.

[* NOTA: Meus irmãos me escreveram corrigindo a informação acima: A (primeira) Igreja Presbiteriana de Santo André (da rua Onze de Junho) concedeu ao meu pai o título de Pastor Emérito, logo depois que ele se aposentou – mas posteriormente cassou o título, “desemerenciando” meu pai, por decisão do Conselho, de iniciativa do Rev. Evandro Luiz da Silva. Igrejas às vezes dão um testemunho lastimável contra os princípios e sentimentos que deveriam inspirar.]

Em São Paulo, 16 de Novembro de 2008.

  1. Prezado Eduardo Chaves,

    Sou presbiteriano e santo-adreense, mas não fui ovelha do seu pai ainda que ele fosse muito amigo do meu pai, presb. Helio Machado, que foi a Santo André buscar uma pastor auxiliar do seu pai, Rev. Abel José de Paula, indicado pelo próprio Rev. Oscar para pastorear a Igreja Presbiteriana de Vila Formosa, onde fui batizado. Tivemos contato alguns anos atrás quando eu era pastor em Castro. Lembro que você me perguntou sobre o muito querido, infelizmente falecido, Sr. Geraldo Alves. Aliás me lembrei de você no enterro do filho de Sr. Geraldo em 2008, o Miltom Scheleski de Souza. No dia do enterro estava voltando da Holanda onde esta iniciando meu doutorado em teologia. Agora estou morando em Roterdã e já sem vínculos com Castro. Ano que vem estou me mudando para a Escócia onde vou servir a Igreja da Escócia. Gosto de ler os seus textos e apesar da diferença de idade me identifico muito com sua história, que parece em certa medida com a minha. Muitos lugares em comum, igreja, seminário, teologia, amizades indiretas, etc. Fico feliz em saber que está bem e que tem trabalhado para trazer à memória o que muitos querem esquecido e outros incapazes de lembrar.

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    • Caro Kleber,

      Obrigado pelo seu comentário. Gosto muito de encontrar pessoas que, de uma forma ou de outra, têm ligação com meu passado. Creio que você é meu único elo de ligação com o Geraldo Etiene Alves de Souza (acho que esse era o nome inteiro dele) e a Leonor Schleski. E, por coincidência, você também tem ligação com Santo André. Gostaria muito de continuar me correspondendo com você, saber o que (especificamente) está estudando na Holanda, ter uma ideia de quando você volta ao Brasil (se volta), o que pretende fazer com seu Doutorado em Teologia (dar aula de Teologia?), etc. Estou frequentando atualmente a Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo, a Catedral, primeira igreja presbiteriana de São Paulo, fundada em 1865 (e que, portanto, celebrou 145 anos de fundação este ano). Meu grande amigo Elizeu Kremm é um dos pastores de lá. Por favor, me mande seu e-mail. Você pode me enviar e-mails para eduardo@chaves.com.br. Um abraço.

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