Tecnologia, Inovação, e Transformação: A Arte de Quebrar Paradigmas

Meu décimo terceiro artigo no Blog das Editoras Ática e Scipione (http://blog.aticascipione.com.br).

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Tecnologia, Inovação, e Transformação: A Arte de Quebrar Paradigmas

Em meu artigo anterior (“A arte de maquiar defuntos e as pseudoinovações educacionais”), discuti a arte de mudar sem quebrar paradigmas. Neste, quero, de forma um pouco mais positiva e construtiva, discutir a arte de quebrar paradigmas. A discussão vai colocar o foco na relação entre tecnologia, inovação e transformação. Esses três conceitos capturam, a meu ver, a essência da arte de quebrar paradigmas.

No centro dessa tríade de conceitos está a inovação. Inovar é, naturalmente, introduzir o novo em determinado contexto. Mas, como sugeri no artigo anterior, é possível também inovar o contexto, ou seja, quebrar o paradigma que constitui aquele contexto e procurar criar um novo contexto que, oportunamente, se torne um novo paradigma.

Aplicando essa tese à educação escolar, poderíamos dizer que pode haver inovação na escola e pode haver inovação da escola. Aquela se localiza dentro do paradigma. Esta procura subvertê-lo, com o intuito de vir estabelecer, eventualmente, um novo paradigma. (Não há nada errado, em si, na busca e na adoção de um paradigma: o problema está em continuar usando um paradigma obsoleto, anacrônico, que já deu o que tinha de dar e que, agora, mais atrapalha do que ajuda).

Inspirando-me no que disse Jay Allard (ex-vice-presidente da Microsoft, em grande parte responsável pelo sucesso que é hoje a plataforma Xbox) à revista Business Week, mas adaptando a sua fala para a área da educação, temos o seguinte:

Para mudar o paradigma de educação hoje vigente, e, assim, radicalmente transformar a educação, criando condições para o surgimento de um novo paradigma, precisamos imaginar uma educação drasticamente diferente do que ela é hoje. Se, ao construir essa nova visão da educação, aproveitarmos muito do conhecimento e da experiência que nos trouxeram até aqui, provavelmente terminaremos exatamente onde começamos: com uma escola muito parecida com a que hoje temos. Para ter um resultado verdadeiramente diferente, temos de olhar as coisas de uma perspectiva totalmente diferente. [A declaração foi feita em artigo de capa publicado da edição de 4/12/2006 da Business Week, com o título “Microsoft’s New Soul”, ou “A Nova Alma da Microsoft”].

Novamente me inspirando em alguém, agora em Stephanie Pace Marshall, em seu artigo intitulado “The Vision, Meaning, and Language of Educational Transformation” (“A Visão, o Significado e a Linguagem da Transformação da Educação”), de 1995, e adaptando o que ela disse à educação, temos:

Quando a raiz ou o fundamento de uma estrutura se racha (como a raiz de um dente ou o alicerce de um prédio, por exemplo), não há como reformá-los. É necessário começar do zero, criando uma nova estrutura. Em outra metáfora, se tomarmos uma lagarta e lhe acrescentarmos asas, não passaremos a ter uma borboleta. Teremos, isto sim, nesse caso, apenas uma lagarta alada, ou seja, uma lagarta muito esquisita, deformada e disfuncional. Para que uma borboleta surja há a necessidade não de reformar da lagarta, mas de um processo que envolve a sua transformação radical. Ao final, não sobra virtualmente nada da lagarta original: a borboleta é algo genuinamente novo.

Por que não ousamos realmente subverter o paradigma atual na área da educação e buscar um novo paradigma, de algo real e radicalmente novo? Algo que possamos contemplar e dizer: “É isso aí!”?

A despeito do fato de que quase todos educadores falam hoje da necessidade de mudar o modelo atual da educação, é inegável que, quando eles especificam quais são as mudanças que têm em mente, a gente constata que, se elas forem efetivadas, pouca coisa vai se alterar substantivamente na educação, porque o que se propõe não passa, na realidade, de pequenas mudanças (“fixes”, jeitinhos, ajeitadas) situadas dentro do paradigma (reforçando-o, portanto, em vez de subvertê-lo). Assim, o paradigma educacional vigente continua firme no lugar, apesar de todo o discurso sobre a necessidade de mudá-lo. Em um caso assim, quanto mais se muda, mais as coisas ficam como sempre foram. Trocam-se os anéis, mas os velhos dedos continuam lá…

Na verdade, muitos educadores vão além e não só afirmam a necessidade de mudanças na educação escolar, mas acrescentam (na linha do que vimos dizendo neste blog) que não bastam mudanças parciais, incrementais, graduais, evolutivas, reformadoras: as mudanças precisam ser sistêmicas e radicais – revolucionárias, mesmo, dizem. E, por cima, insistem que essas mudanças vão levar a educação escolar para além do paradigma da Sociedade Industrial, introduzindo um novo paradigma compatível com a Sociedade da Informação. Sublinham, muitas vezes, a urgência dessa mudança de paradigma… No entanto, quando eles explicitam quais as mudanças que têm em mente, percebemos que fica tudo como dantes no quartel de Abrantes, e que o paradigma vigente continua firme no lugar, a despeito de todo o discurso sobre a necessidade de substituí-lo.

Vejamos alguns exemplos de aparentes mudanças que, ao final, não mudam nada.

Virtualmente, todo mundo que diz que é preciso mudar o paradigma educacional vigente também diz (agora recebendo aplausos da audiência!) que nenhuma tecnologia substituirá o professor, e que o professor será sempre o “gateway” (porta de entrada) para a educação – inclusive e especialmente para a nova educação, que estará no centro de uma escola inovadora. E aproveitam o embalo para nos lembrar de que, para que possam continuar a ser esse “gateway”, os professores precisam de melhor formação inicial, mais programas de aperfeiçoamento profissional, mais tempo fora da sala de aula para prepará-las ou para corrigir trabalhos dos alunos, salários mais dignos, melhores condições de trabalho etc… E a escola precisa de uma arquitetura mais moderna… Em outras palavras, sem muito mais dinheiro, os professores não conseguirão transformar a escola atual em uma escola diferente.

O que há de novo paradigma em tudo isso?

Quem garante que a escola do futuro, radicalmente transformada, terá professores, como os conhecemos?

Na verdade, quem garante que a educação do futuro terá escolas, como as conhecemos?

Como vimos em outros artigos, Ivan Illich vinha, desde 1971 – há 40 anos, portanto –, insistindo na desescolarização da sociedade, na aprendizagem contextualizada no lazer e no trabalho, nos centros de permuta de habilidades, na aprendizagem através de redes de pessoas com interesses afins… E ele propôs essa agenda profundamente transformadora – aqui, sim, temos mudança de paradigma – muito antes de gigantescas redes sociais, viabilizadas pela tecnologia, estarem amplamente difundidas, antes de a tecnologia transformar a sociedade industrial em uma sociedade da informação, do conhecimento, da aprendizagem – isto é, em sociedade aprendente (learning society).

Segundo exemplo de mudança na escola, não da escola.

Virtualmente, todo mundo que diz que é preciso mudar o paradigma educacional vigente também diz que é necessário desenvolver “conteúdo digital” para que os alunos do futuro tenham materiais com os quais trabalhar através de suas maquininhas. É aqui que entram os Webquests, as Weblessons, os objetos de aprendizagem, e outras coisas afins, mencionadas no artigo anterior. Supostamente, quando todo o conteúdo tradicional estiver digitalizado e puder ser acessado por meios eletrônicos, a qualquer hora e a partir de qualquer lugar, teremos chegado à terra prometida do novo paradigma educacional.

Na maior parte dos casos, entretanto, o que se rotula de conteúdo digital não passa do mesmíssimo conteúdo tradicional de nossos livros impressos atuais, só que agora em formato eletrônico (em muitos casos o livro impresso tradicional sendo apenas digitalizado, “pedeefizado”, sem qualquer outra mudança, nem mesmo de layout).

É apenas para isso que serve a tecnologia digital, para que a gente leia na tela o que antes lia em papel? Às vezes o texto é suplementado por imagens, animações e vídeos, mas o conteúdo a ser aprendido permanece a mesma coisa de sempre.

Como disse uma vez meu amigo Bruce Dixon, educador australiano e diretor da Anytime, Anywhere Learning Foundation (Fundação Aprendizagem a Qualquer Hora e em Qualquer Lugar), a pior tragédia que pode ocorrer na área da educação é digitalizar todo o conteúdo que hoje é usado na educação, melhorar a infraestrutura tecnológica da escola para que ela possa estar disponível para os alunos 24 horas por dia, sete dias por semana, 52 semanas por ano, prover cada aluno com seu computador pessoal, para que possa aprender a qualquer hora e a partir de qualquer lugar, e, no entanto,constatar que nada mudou, substancialmente, na educação.

Terceiro exemplo de maquiamento de defunto…

Os smartboards (lousas inteligentes) são anunciados como tecnologia da escola do futuro. A lousa verde substituiu o quadro negro, a lousa branca substituiu a lousa verde, e, agora, na grande apoteose, a lousa eletrônica, supostamente inteligente, substitui todas as anteriores. Escolas tradicionais destinadas às classes mais elevadas investem milhões de reais nessa tecnologia.

Mas será que alguém, em sã consciência, realmente acredita que uma lousa, ainda que digital, pode transformar radicalmente a educação, mudar o paradigma educacional vigente? Afinal de contas, ela ainda é lousa!

E para que serve uma lousa eletrônica dita inteligente numa sala de aula física de uma escola física quando cada aluno tem um computador sofisticado com acesso à internet e está aprendendo a partir de algum outro lugar que não a sua sala de aula convencional e com o auxílio de outras pessoas que não os professores de sua escola física?

Em suma: mesmo os que propõem mudanças não são radicais o suficiente em sua imaginação da educação do futuro. Suas ideias continuam “dentro da caixa”.

Quando afirmamos que os alunos do futuro, munidos de equipamentos sofisticados conectados à Internet, irão aprender o tempo todo, a partir de qualquer lugar, infelizmente nos esquecemos de que a escola física e os professores que a habitam já ficaram necessariamente fora da equação…

Angus King (ex-governador de Maine, EUA, o primeiro governador a colocar um computador nas mãos de cada aluno do seu estado nos Estados Unidos) uma vez disse, em alto e bom tom, que a tecnologia não só está destruindo os limites de tempo e espaço que definem a escola atual, mas que ela também está substituindo o pessoal que tem papel significativo na aprendizagem dos alunos – e que essa mudança talvez seja muito mais importante do que a quebra dos relógios, das paredes e dos muros da escola… Quebrando os relógios, as paredes e os muros da escola, quebrando o horário rígido da atividade escolar, criando a possibilidade de “anytime, anywhere learning”, a tecnologia colocou – na realidade, recolocou – à disposição dos aprendentes uma multidão de pessoas competentes, interessantes, motivadas, dispostas a ajudar os outros a aprender, começando com os colegas, os pais e o restante da família imediata, passando pela comunidade mais próxima, e indo ao extremo de incluir os especialistas de qualquer parte do mundo.

Ou seja, a tecnologia ressuscitou e viabilizou as propostas radicais de Ivan Illich, apresentadas inicialmente 40 anos atrás. Mas mudanças radicais também propõe, hoje, Sugata Mitra, educador indiano. Falemos um pouco dele.

Sugata Mitra, hoje na Universidade de New Castle (Inglaterra), provou, quando ainda morava na Índia e trabalhava para uma empresa de informática, que crianças indianas pobres, de 6 a 12 anos, aprendiam a usar o computador sem nenhum ensino. Seu experimento original foi “The Hole in the Wall” (“Um Buraco na Parede”).

Em Nova Delhi, a empresa em que Sugata Mitra trabalhava ficava ao lado de uma favela. Na verdade, o prédio da empresa dava para a favela. Em 1999 ele colocou, em um buraco feito na parede da empresa, um monitor de vídeo ligado a um potente computador conectado à internet e escondido atrás da parede. Ao lado do monitor, colocou algo parecido com o touch pad de notebooks para fazer as vezes de mouse. O computador estava equipado com software convencional, em inglês, sem nenhum software dito pedagógico. E, naturalmente, colocou uma câmera escondida, do outro lado da rua, filmando o que se passava com o computador cuja tela estava ali disponível no buraco.

Pouco tempo depois um menino, de uns dez anos, pobre, com cara de tímido, parou em frente ao computador. Examinou cuidadosamente o equipamento, olhou para os lados para ver se alguém estava monitorando o que ele fazia, e começou a mexer. Pura tentativa e erro, mas feita por alguém curioso, interessado, inteligente, e, portanto, com vontade de aprender. Logo descobriu que o toque no touch pad afetava o que se exibia na tela, e que apertando os botões do touch pad era possível produzir ações na tela… Logo outro menino se aproximou. O primeiro lhe mostrou sua descoberta. Conversaram, trocaram ideias. Em alguns momentos, percebia-se que discutiam possibilidades e alternativas.

Para encurtar a história, em pouquíssimo tempo, vários meninos estavam operando o equipamento com competência, sendo capazes até mesmo de acessar a web e enviar e-mails. Aprenderam a manejar tecnicamente o computador sem nenhum ensino, sem nenhum professor, sem nenhuma escola…

(A história de The Hole in the Wall pode ser encontrada em diversos vídeos no YouTube. Vide, em especial, este aqui).

o O o

Vou, agora, aparentemente mudar um pouco de assunto, para encaminhar a conclusão. Vou citar um exemplo de fora da área da educação, envolvendo o mercado livreiro. O exemplo de certa forma privilegia o fator tecnologia como agente de mudanças, mas a tecnologia depende da utilização que nos dispomos a fazer dela, podendo ser usada de forma conservadora, reformadora ou transformadora (como já vimos aqui neste blog).

Começo falando sobre a maneira como os livros eram e são produzidos:

  • Os livros manuscritos (usando papiro, pergaminho, velo e finalmente o papel) existiram por pelo menos 5 mil anos (ou 50 séculos), de, digamos, 3500 a.C. até 1500 d.C.;
  • Os livros impressos, como os conhecemos, existem há um pouco mais de 500 anos (ou seja, cinco séculos);
  • Os livros eletrônicos (e-books) existem, como presença significativa no mercado, há pouquíssimo tempo (digamos, para manter a simetria, há apenas cinco anos, ou 0,05 de um século);
  • Os livros manuscritos se constituíram num mercado extremamente estável que durou pelo menos cinco milênios, mas, quando os livros impressos apareceram, em menos de um século eles acabaram totalmente com o mercado dos livros manuscritos;
  • Os livros impressos também se constituíram num mercado extremamente estável, de cinco séculos. Quanto tempo vai levar para que eles acabem, agora que surgiram os livros eletrônicos?
  • Apesar do fato de que livros manuscritos hoje são apenas valiosíssimas relíquias de museus, muita gente importante se apressa em dizer (Chico Buarque, entre eles), que, no caso do livro impresso, isso não vai acontecer, que o livro impresso nunca vai deixar de existir, que ele nunca será totalmente substituído pelo livro eletrônico.

Pode ser. Mas acho difícil.

Vamos adiante e falemos agora sobre a maneira como os livros – primeiro os impressos, depois os eletrônicos – eram e são distribuídos (na verdade, vendidos).

  • As livrarias físicas eram (e, talvez, continuem sendo até hoje) a principal forma de distribuição de livros impressos para os usuários finais. Por muito tempo, elas funcionavam com pouca ou mesmo nenhuma tecnologia (usando cadernos e fichas para controle de estoque, cadernos ou simples máquinas de calcular ou caixas registradoras para registro de vendas e fluxo de caixa, folhas de cálculo para contabilidade e, se fosse o caso, folha de pagamento);
  • A chegada de tecnologia básica (computadores com planilhas eletrônicas ou programas comerciais integrados) permitiu que os livreiros continuassem a fazer a mesma coisa que já faziam, só que, agora, com pequenos ganhos de eficiência – esse é um uso conservador da tecnologia;
  • A chegada de tecnologia ainda básica, mas com acesso à internet, permitiu que os livreiros criassem sites para suas livrarias em que anunciavam os livros disponíveis em suas lojas, assim alcançando potenciais consumidores através de comunicação e publicidade relativamente barata – esse é um uso levemente reformador da tecnologia, que estende a comunicação e publicidade do livreiro;
  • A chegada de tecnologia um pouco mais avançada permitiu que os livreiros passassem a vender livros também online, acrescentando um hotsite de venda ao site de suas livrarias – uso bem mais reformador da tecnologia, que estende o escopo do negócio, posto que qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, pode agora comprar um livro no site;
  • Entra Jeff Bezos em cena e cria uma livraria online, a Amazon, que não tem estoque, só tem catálogo, e que, na realidade, faz a ponte para a venda de livros para o comprador-leitor. Registre-se que todo mundo conhecia a tecnologia que viabilizava essa solução, mas só Jeff Bezos, que não era livreiro, pensou nisso e agiu conforme a sua visão. As grandes livrarias, como Barnes & Noble, simplesmente bobearam. Estão, hoje, ameaçadas de quebrar – enquanto o empreendimento iniciado por Jeff Bezos caminha de vento em popa. Para quem não conhece Jeff Bezos, recomendo a leitura de sua minibiografia no site Academy of Achievement;
  • O desenvolvimento de tecnologia relativamente mais sofisticada permitiu que a Amazon passasse a criar perfis altamente sofisticados dos seus clientes, com base não só nos livros que de fato compravam, mas também nos livros que pesquisavam e cujas resenhas liam – uso criativo de tecnologia (banco de dados com ferramentas analíticas sofisticadas) que leva o uso reformador da tecnologia no ambiente livreiro ao seu limite. (Novamente, registre-se que a tecnologia que permite fazer isso não era desconhecida de outros empreendedores. Mas Jeff Bezos foi o primeiro a pensar em usá-la assim – e esse é um diferencial importante do seu negócio);
  • Tecnologias mais sofisticadas ainda permitiram a criação e comercialização de livros eletrônicos (e-books) e de leitores de livros eletrônicos (e-book readers) – um uso agora criativo, inovador e transformador da tecnologia, que radicalmente revoluciona o mercado livreiro e deixa editores e livreiros tradicionais, para não falar em fabricantes de computadores e até consumidores, em polvorosa. (Registre-se que, embora hoje todo mundo esteja correndo atrás disso, Jeff Bezos foi o primeiro a realmente investir nesse mercado, saindo na frente da concorrência);
  • Ao disponibilizar, para autores que antes não conseguiam publicar seus livros no restrito mercado livreiro tradicional, a tecnologia que viabiliza e facilita a produção de livros eletrônicos, como ele já está fazendo, Jeff Bezos vai revolucionar ainda mais o mundo editorial.

Jeff Bezos conseguiu fazer uma mudança de paradigma revolucionária na maneira como livros são distribuídos, lidos e publicados porque se aproveitou de uma mudança revolucionária na maneira em que livros eram produzidos.

Não contente em revolucionar a forma em que o mundo compra livros impressos, tirando-os, aos poucos, da livraria convencional da esquina e mesmo da megalivraria do shopping e disponibilizando-os pela internet; não contente com revolucionar a forma em que o mundo lê os livros, agora não mais em papel, mas na tela de um leitor de e-books, computador, tablet ou mesmo telefone, Jeff Bezos está agora disposto a revolucionar a forma em que o mundo publica livros, sem passar por uma editora e por um editor… (Na próxima semana vou falar sobre desintermediação).

o O o

A comunicação e o acesso à informação, ingredientes básicos da educação, já foram drasticamente transformados pela tecnologia digital. Houve uma mudança significativa de paradigma nessa área, em cerca de 30 a 35 anos, desde que os microcomputadores apareceram em cena e se tornaram populares.

A carta tradicional, manuscrita ou datilografada, virtualmente desapareceu de cena. O uso do telefone, restrito, porque fixo, e destinado apenas a transmitir a voz, sofreu uma transformação revolucionária. Hoje há mais telefones celulares no Brasil do que gente, e, em sua maior parte, esses telefones são usados não só para transmitir a voz mas para tirar fotografia, ouvir música (em mp3 ou mesmo em estações de rádio baseadas na web), ver televisão digital, trocar e-mails, aceder às informações da web, abrir portas com fechaduras digitais, passar por catracas em estações de metrô e estações ferroviárias e por portões de embarque em aeroportos… Logo, também em catracas de ônibus urbanos.

Caminhamos rapidamente para que cada pessoa tenha, além de seu telefone celular nas proporções convencionais, um notebook ou, possivelmente, um tablet, de dimensões mais avantajadas, para facilitar a digitação e visualização das informações.

Nossos livros, revistas e jornais estão, cada vez mais, disponíveis na internet. O acesso fácil e eficiente à internet, por meios fixos e móveis (especialmente estes), vai rapidamente se tornar universal, na sequência da universalização do uso do telefone celular “inteligente” (smart).

Redes digitais colocam em um mesmo ambiente mais de 10% da população do mundo, certamente os 10% mais bem informados e mais desejosos de compartilhar seus conhecimentos, suas experiências, suas competências.

Por que não conseguimos nos valer de tudo isso e fazer uma transformação na educação de ordem semelhante à que Jeff Bezos, quase sozinho, fez no mercado dos livros?

Por que não conseguimos reinventar a escola como Jeff Bezos reinventou a livraria? Será que a escola é uma instituição tão sui generis que desenvolvimentos que se aplicam a outras instituições de nossa sociedade não podem ter paralelo nela?

Sugiro que, para transformar a escola atual em um ambiente de aprendizagem digno do nome, é preciso repensar, de forma drástica e radical, o que entendemos por educação e aprendizagem e dar respostas verdadeiramente inovadoras a questões como “Por que educar?”, “Para que educar?”, “Por que aprender?”, “Para que aprender?”, “Como aprender?”.

Em outras palavras: a tecnologia é necessária para a transformação da educação, mas não é suficiente. Não teremos essa transformação sem também uma nova visão da educação e da aprendizagem que leve em conta, de forma séria e responsável, a realidade tecnológica em que vivemos e as transformações que essa realidade já efetuou em outros setores da nossa sociedade.

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Em São Paulo, 7 de Junho de 2011

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