Prefácio a um livro de Renato Soffner

No dia 13 de Março de 2007 escrevi o seguinte texto como Prefácio ao livro Estratégia, Conhecimento e Competências: Visão Integrada do Potencial Humano, de Renato Kraide Soffner (cujo trabalho de Doutoramento na UNICAMP eu tive o privilégio de orientar). Dois anos e meio depois, transcrevo o Prefácio aqui.

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PREFÁCIO

Renato Soffner nos diz que, para os chineses, viver em tempos interessantes é uma maldição. Que seja. É nesse tipo de tempo que estamos vivendo. E o livro dele descreve parte daquilo que faz o tempo atual interessante e desafiador.

Neste início de século XXI nós, seres humanos, nos percebemos como tendo algumas características bastante interessantes.

Em primeiro lugar, não nascemos prontos para a vida. Na realidade, nascemos totalmente ignorantes e incompetentes – e, por isso, por um bom tempo, somos absolutamente dependentes dos cuidados dos outros.

Em segundo lugar, bom ou ruim, a nossa natureza não é totalmente programada. Ela deixa espaço para que cada um de nós decida, no devido tempo, o que quer ser, o que quer fazer de sua vida… Isso significa que a vida humana é, em grande medida, projeto – projeto da vida que escolhemos para nós mesmos.

O que chamamos de educação é o processo mediante o qual os seres ignorantes e incompetentes que somos ao nascer se transformam, gradativamente, em seres menos ignorantes, relativamente competentes, capazes de definir, com um grau potencialmente elevado de autonomia, nosso projeto de vida e a estratégia necessária para transformá-lo em realidade. Conhecimento, competência, estratégia – estes são os ingredientes básicos do desenvolvimento humano, vale dizer, da educação.

Em terceiro lugar, nascemos com uma importante – na realidade, essencial e indispensável – capacidade: a de aprender. Se nascemos ignorantes e incompetentes e o objetivo da educação que é que construamos conhecimentos e desenvolvamos competências que nos permitam realizar um projeto de vida autônomo, a educação só é possível porque possuímos essa notável capacidade de aprender.

Aprender não é simplesmente assimilar e absorver, nem mesmo reunir e coletar, informações. Aprender é tornar-se capaz de fazer aquilo que antes não conseguíamos fazer. Na área do saber, construir conhecimentos envolve, entre outras coisas, perceber semelhanças, abstrair o essencial, criar conceitos, elaborar generalizações, construir modelos, inventar métodos para testar generalizações e modelos, derivar de nossos modelos formas de agir ancoradas na realidade e coerentes umas com as outras. Na área do fazer, construir competências, ou “saber-fazeres”, envolve, entre outras coisas, desenvolver conjuntos integrados de habilidades de menor abrangência, que, uma vez dominados, são postos em operação com naturalidade, quase como se fossem automatizados – o quase-automatismo só cedendo lugar ao controle consciente diante do imprevisto.

Embora haja um sentido importante em que nascemos humanos, em outro, e mais importante, sentido, nós nos fazemos humanos através da educação. Ao nascer, somos biologicamente humanos e, por isso, merecemos ser tratados com a dignidade devida a todos os seres humanos. Mas do ponto de vista psicológico, social e cultural, tornamo-nos humanos à medida que vamos definindo o nosso projeto de vida e nos transformando na vida que projetamos para nós mesmos.

Por fim, em quarto lugar, possuímos uma intrigante capacidade de inventar tecnologias. A definição mais ampla de tecnologia é que tecnologia é tudo aquilo que o ser humano inventa para tornar a sua vida mais fácil, ou, então, mais agradável. Há tecnologias que são ferramentas – coisas que são úteis e que facilitam nossa vida porque nos ajudam a fazer aquilo que precisamos ou desejamos fazer. Mas também há tecnologias que são brinquedos – coisas que não são úteis e que não facilitam a nossa vida, mas que nos dão imenso prazer. As artes são tecnologias desse tipo. As tecnologias que são ferramentas nos ajudam a nos manter vivos – mas são as tecnologias que são brinquedos que nos fazem querer continuar vivos.

Esses dois tipos de tecnologia são essenciais para educação: um no plano dos meios, o outro, no plano dos fins.

É nesses espaços conceituais e teóricos que se situa o livro de Renato Soffner. Desfrutem-no. É uma contribuição importante à causa da educação no ambiente acadêmico e corporativo.

Eduardo O C Chaves
Secretário Adjunto de Ensino Superior
Estado de São Paulo

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Campinas, 13 de março de 2007

Transcrito neste space em Salvador, 1º de Novembro de 2009

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