É preciso ensinar a criança a brincar, ou sempre brincar com ela???

Importante artigo de Rosely Sayão na Folha de hoje, para brindar o início das férias de meio de ano no Brasil. Férias dos filhos, é bom que se diga. Porque para os pais, o período é complicado, porque, além de seus afazeres regulares, têm de lidar com crianças que, fora da escola, não sabem o que fazer, porque se acostumaram a só fazer coisas em ambientes em que a ação programada. Nas férias ficam como baratas tontas, perguntando “Mãe/pai, o que eu faço?” As férias, que deveriam ser o período de crianças felizes, por terem a liberdade de fazer o que querem, se torna o período de crianças entediadas, porque desaprenderam a brincar sozinhas sem a orientação de um adulto.

O problema é sério. Fui professor de Filosofia da Educação I durante 32 anos no primeiro semestre do Curso de Pedagogia, na UNICAMP. Ali estavam as alunas (95% dos alunos eram mulheres) ingressantes, novinhas (17-18 anos), sem saber direito por que estavam ali, o que queriam da vida.

Filosofia da Educação I, na UNICAMP, era uma Introdução à Filosofia da Educação, uma matéria que permitia que a gente estudasse quase qualquer coisa relacionada com a educação e a aprendizagem. Eu começava perguntando às alunas o que (relacionado com a educação e a aprendizagem) elas gostariam de estudar durante o semestre. Ninguém sabia. Quando eu pressionava, e demonstrava minha incredulidade de que elas não pudessem dizer uma só coisa que gostariam de estudar e aprender durante o semestre, elas retorquiam: “Sei lá, ué… Você é o professor”. Em outras palavras, quem sabe o que elas devem estudar e aprender é o professor. Elas estudam e aprendem qualquer coisa que o professor escolher. Mesmo quando têm liberdade para escolher, falta-lhes autonomia para escolher, falta-lhes o desejo de protagonizar a própria aprendizagem.

Elas são, alguns anos depois, os alunos que, hoje, nas férias, vão ficar perguntando aos pais o que devem fazer para se divertir, os que, sem uma indicação direta dos pais, às vezes optam por vegetar na frente da TV ou mesmo dormir, na cama e com cobertor (aproveitando a estação) durante o dia quase inteiro. Se os pais estão em casa, são solicitados a levar os filhos a algum lugar: ao shopping, ao cinema, etc., porque eles não sabem bricar, sozinhos, em casa, não têm o gosto pela leitura solitária e prazerosa, não sabem pegar um vídeo e assistir, sozinhos, a um filme: alguém tem de assistir ao filme com eles.

Onde estão as crianças que adoravam as férias porque nas férias podiam ler um monte de livros que não estavam entre aqueles cuja leitura era exigida pela escola? Onde estão as crianças que tinham prazer em estar a sós consigo mesmas, longe de um monte de gente, longe até mesmo dos pais e dos irmãos?

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Folha de S. Paulo
29 de Junho de 2010

ROSELY SAYÃO
roselysayao@uol.com.br

É tempo de criança entediada


As férias mostram que os filhos não sabem mais brincar sozinhos, por responsabilidade absoluta dos seus pais


QUANDO AS FÉRIAS escolares se aproximam, muitos pais já sabem aquilo que os espera. Como os filhos não sabem brincar sem a direção dos adultos, acabam não sabendo como preencher o seu tempo livre .

Então, vão atrás dos pais em busca de ajuda; isso acontece, inclusive, quando os pais estão em horário de trabalho. Ah! Esse telefone celular que acabou com todas as portas fechadas entre pais e filhos…

Hoje, as crianças não sabem mais brincar sozinhas: elas não sabem o que querem fazer, não sabem do que gostam, não têm curiosidade em explorar o que as circunda. E isso acontece por nossa inteira responsabilidade. Desde quando criança precisa aprender a brincar? Pois, agora, elas precisam.

Desde pequenas, acostumamos as crianças com a presença de um adulto responsável, inclusive e principalmente, por entretê-la. Quando pais contratam babás, querem alguém que tenha paciência de brincar com a criança por horas e horas, mais do que cuidar dela.

As escolas de educação infantil, de um modo geral, seguem mais ou menos o mesmo esquema. Do momento em que a criança entra na escola até o final do período, têm atividades previamente programadas. Como se não bastasse tudo isso, desde que nascem as crianças têm à sua disposição uma infinidade de brinquedos de todos os tipos e cores, que produzem os mais variados sons etc. Os pais fazem isso com boa intenção, mas o exagero na quantidade de brinquedos produz o efeito oposto do que pretendiam: em vez de interessar a criança, esse arsenal de objetos lúdicos acaba por cansá-la e fazer com que não tenha interesse real por nenhuma daquelas coisas.

Ter brinquedos não garante à criança o ato de brincar e ter muitos a leva a não dar atenção a nenhum. E não temos reclamado da atenção dispersa, mais tarde?

Quem vê uma criança brincar por muito tempo com um de seus brinquedos? Em geral, o comportamento dela é o de pegar e descartar vários, muito rapidamente. É bom lembrar que quando a criança tem muitos brinquedos não tem nenhum deles porque, ao pular de um para o outro, não consegue construir uma brincadeira.

Temos criado, dessa maneira, crianças que se entediam com muita facilidade.

As férias são uma boa ocasião para os pais saírem da cena tipicamente infantil. Claro que isso não significa abandonar a criança, já que ela teve poucas oportunidades de ser empreendedora em suas brincadeiras. Dar algumas pistas, lançar poucos desafios são exemplos de ofertas que não gerenciam, tampouco desamparam a criança em sua demanda.

Conheço uma mãe que tem conseguido, não sem esforço, levar sua filha a criar suas brincadeiras e ficar bastante tempo interessada nelas. Sua atitude pode servir de inspiração, mas não de modelo.

Ela sugeriu à garota, de pouco mais de oito anos, que construísse uma "caça ao tesouro", brincadeira bem conhecida das crianças.

A garota ficou totalmente concentrada na atividade porque a mãe dissera que, se as charadas fossem fáceis, ela não brincaria com a filha. A estratégia da mãe funcionou: a filha ficou ligada na brincadeira e a mãe gastou pouco mais de 10 minutos, à noite, para participar com a filha e fazer a sua parte.

Digo e repito: temos feito uma grande confusão na convivência com as crianças. Fazemos o que não precisa ser feito e deixamos de fazer o que é imprescindível. Já é hora de revertermos esse quadro.

ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (Publifolha) blogdaroselysayao.blog.uol.com.br

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Em São Paulo, 29 de Junho de 2010

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