Como aplicar “o elemento” à aprendizagem escolar

Transcrevo a seguir meu oitavo artigo no Blog das Editoras Ática e Scipione, que foi publicado ontem. Ele trata da aplicação do princípio que Sir Ken Robinson chama de “o elemento” à aprendizagem escolar.

O texto original foi publicado em:

http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/como-aplicar-o-elemento-a-aprendizagem-escolar/

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Como aplicar “o elemento” à aprendizagem escolar

No meu sexto artigo aqui neste blog, que teve o título de “O Elemento”, falei da necessidade de invertermos o nosso enfoque em relação ao trabalho. Em vez de trabalhar fazendo algo de que não gostamos, apenas para ganhar dinheiro que nos permita fazer, fora do trabalho (no fim do dia, nos fins de semana, nos feriados, nas férias, na aposentadoria), as coisas que realmente nos dão prazer, devemos descobrir e cultivar as coisas das quais realmente gostamos, que nos dão prazer, e que a gente faria por puro prazer, mesmo que ninguém nos pagasse para fazê-lo, e, daí, encontrar ou inventar formas de ganhar dinheiro, fazendo-as.

Neste artigo, o oitavo, queria aplicar esse princípio à aprendizagem escolar.

A escola básica é um ambiente em que crianças, adolescentes e jovens aprendem aquilo que é considerado necessário e importante para a sua educação, para o seu desenvolvimento. Em geral as crianças não têm grande interesse em aprender a maioria das coisas que a escola deseja e espera que aprendam. Por isso, o problema da motivação – na verdade, o problema da falta de motivação – acaba se tornando um dos maiores obstáculos para a aprendizagem dos alunos na escola.

Diante da ausência de motivação intrínseca por parte dos alunos (falta de interesse em aprender o que a escola deseja que aprendam), a escola procura motivá-los extrinsecamente. Aprender as coisas que ali são propostas, afirma-se, é necessário para arrumar um bom emprego e auferir uma boa renda, que, daí, lhes permitirá fazer as coisas em que realmente têm interesse – fora do horário de trabalho, nos fins de semana, nos feriados, nas férias, na aposentadoria… Bons professores tentam, muitas vezes, fazer as aulas divertidas, prazerosas, para compensar a falta de interesse dos alunos. Professores de cursinhos se tornam, em muitos casos, verdadeiros artistas de palco para motivar extrinsecamente os estudantes. Muitas vezes conseguem tornar a aula razoavelmente divertida e conseguem entretê-los relativamente bem – mas não conseguem que fiquem intrinsecamente interessados no que estão fazendo.

É possível, entretanto, encontrar uma solução melhor…

Se o currículo escolar, em vez de focar a assimilação de conteúdos informacionais disciplinares, focar o desenvolvimento de competências e habilidades básicas, é possível mudar o enfoque, de forma análoga à sugerida em O Elemento, o livro de Sir Ken Robinson– e resolver o problema da falta de motivação dos alunos para a aprendizagem.

Digamos que uma das competências previstas no currículo seja resolver ou solucionar problemas – problemas de vários tipos. O foco estará em construir métodos e técnicas para resolver diferentes tipos de problemas. Neste caso, é perfeitamente possível deixar os alunos escolherem em que problema, ou em que tipo de problema, querem trabalhar. Uma aluna pode querer descobrir se animais podem manter relacionamentos homossexuais. Outro aluno pode querer saber por que a temperatura está quente aqui no sul do Brasil quando está fria no norte dos Estados Unidos e da Europa, e vice-versa. Outra aluna pode estar interessada em saber por quanto tempo teria de olhar as crianças da vizinha para ganhar dinheiro suficiente para comprar uma bicicleta. Outro aluno pode querer saber como é que o trem do metrô consegue parar exatamente no lugar certo na estação mesmo sem ter um condutor. E assim vai.

Todos podem trabalhar nos problemas que lhes interessam – e, no entanto, todos vão aprender, se bem assistidos por um professor competente, os mesmos métodos e técnicas de solucionar problemas.

Em outras palavras, aborda-se a aprendizagem a partir dos interesses dos alunos, das coisas que eles já estão interessados em fazer, e daí se descobrem ou inventam maneiras de eles aprenderem, fazendo o que lhes interessa, os métodos e técnicas de solução de problemas que a escola deseja que aprendam. O problema da falta de motivação nem surge aqui.

Na Escola Lumiar de São Paulo, quando trabalhei lá, os alunos escolhiam as propostas em que queriam trabalhar – e, depois, a equipe pedagógica encontrava formas de estruturar os projetos de aprendizagem de modo que eles aprendessem também outras coisas importantes, enquanto faziam o que lhes interessava.

Certa vez os alunos escolheram, por votação, trabalhar com a preparação de alimentos. Queriam aprender a cozinhar, iniciativa que recebeu o grandioso nome de Projeto Gastronomia. O trabalho envolveu a preparação de diversas receitas, de sushi e sashimi, a churrasco, massas, saladas e diferentes tipos de sobremesa.

Enquanto preparavam os pratos, os alunos eram levados a contemplar questões de diversos tipos: por que em alguns alimentos colocamos sal e, em outros, açúcar? Como é que a gente sabe quanto sal deve colocar numa massa ou no arroz e quanto açúcar colocar na massa do bolo? Por que algumas coisas são medidas por xícaras, outras por colheres de sopa, outras por colheres de sobremesa? Não seria possível medir tudo em gramas? Por que alguns alimentos estragam mais rapidamente se ficarem fora do refrigerador? Por que alguns alimentos mofam? Por que ficamos com dor de barriga, ou ainda coisa pior, quando comemos comida estragada? Por que alguns alimentos fazem mal à saúde e outros são considerados sadios? Por que seus prazos de validade são diferentes? Por que as regiões ou países têm hábitos alimentares tão distintos? É sadio tomar leite não pasteurizado? Por que a maior parte dos indianos adota o vegetarianismo? Por que os judeus não comem carne de porco? Por que, tradicionalmente, católicos não comem carne na Quaresma? Por que se consome mais peixe na Semana Santa? Por que os japoneses (e tantos outros) gostam de carne crua? Por que gostamos mais de alimentos que ficam bonitos depois do preparo? A propósito, por que alguns tipos de carne diminuem de tamanho quando cozidas? Por que diferentes tipos de alimentos produzem cheiros diferentes durante seu preparo?

Provavelmente, se um professor tentasse fazer com que as crianças aprendessem as respostas a todas estas perguntas num outro contexto, elas achariam o aprendizado extremamente chato… Aqui, entretanto, quando estão fazendo o que escolheram fazer, tais questionamentos se encaixam bem.

Note-se que não se propõe aqui um anarquismo pedagógico, uma escola em que cada um aprenda o que quiser – inclusive nada, se assim for sua decisão. Defende-se aqui a necessidade de a escola ter uma proposta pedagógica e uma definição clara do que ela espera que seus alunos aprendam, daquilo que espera que os alunos saiam de lá sabendo e sabendo fazer. Mas há, isto sim, o reconhecimento do fato de que existem várias maneiras de aprender algo, e que é possível aprender a resolver problemas, por exemplo, ou a responder perguntas cuja resposta se desconhece, ou a fazer pesquisa, trabalhando com tópicos ou assuntos os mais diversos. Por isto, é perfeitamente possível deixar que os alunos trabalhem naquilo que lhes interessa e, ainda, aprendam o que a escola deseja – desde que o currículo da instituição esteja focado no desenvolvimento de competências básicas ao invés da assimilação de informações de natureza disciplinar, e desde que os professores sejam capazes de mediar o aprendizado desejado a partir dos interesses de cada um dos alunos.

O princípio, aqui, é o mesmo proposto no livro O Elemento, de Ken Robinson. Achar uma coisa que nos interessa, que queremos fazer, independentemente do aprendizado que ela possa propiciar, e daí descobrir ou inventar formas de desenvolver competências e habilidades importantes fazendo aquilo que queremos, de qualquer forma, fazer.

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Em Brasília, 3 de Maio de 2011

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