Macau – onde o Ocidente e o Oriente se encontram

Passei boa parte do dia hoje em Macau. Fiquei com vontade de conhecer a ilha desde que vi uma reportagem sobre ela, com seus cassinos modernos, muito no espírito da China moderna, e seu centro antigo, muito no espírito de Portugal antigo… Vi a reportagem em uma dessas revistas de avião (creio que foi em Hemispheres, da United, a companhia que mais uso). Como  tenho estado aqui em Hong Kong toda esta semana, e tive um tempo livre hoje (7 de outubro), antes de retornar amanhã (8 de outubro), e daqui a Macau se vai de ferry em uma hora, resolvi ir. A despeito do calor horrível na rua, valeu a pena.

É lugar comum dizer que em Macau se encontram o Ocidente e o Oriente, Europa e Ásia, Portugal e China. Portugal controlou a ilha por cerca de 400 anos, tendo que lutar contra a Espanha e a Holanda para manter controle, até que devolveu sua possessão pacificamente à China, em 1999. Hoje Macau é uma Região Administrativa Especial da China – mais ou menos na mesma condição que Hong Kong. Para ir de Hong Kong a Macau e para voltar é necessário passar por Imigração e Alfândega. Até mesmo quem vem da China para as duas ilhas precisam passar por Imigração e Alfândega, como se as duas ilhas fossem países autônomos. Não são – mas fazem de conta.

Mas voltemos a questão da união, na ilha, de duas culturas. Português e Chinês são as línguas oficiais da ilha. Tudo está escrito nas duas línguas em todo lugar. Inglês é entendido de forma limitada: cassinos, hotéis, restaurantes e lojas grandes sempre têm alguém que fala. Mas o povo em geral não fala mais Português. Tive dificuldade para conseguir alguém que me recomendasse um bom e tradicional restaurante português, que servisse um bacalhau à moda tradicional. Encontrei alguém numa pequena Livraria Portuguesa. Chamava-se Carlos, era pequeno e magro, oriundo de Lisboa. Muito simpático, recomendou-me primeiro o restaurante Santos, na Ilha de Taipa, como o melhor, mas eu teria de tomar um táxi para ir lá, pois fica numa pequena ilha que pertence à ilha maior. Como segunda opção, sugeriu-me o Círculo Militar — antigo clube dos militares portugueses, hoje transformado em clube privado, mas que mantém aquele estilo de clube dos dominantes nos países dos dominados… Lembram-se dos clubes de oficiais ingleses na Índia que a gente vê em filmes? Igualzinho – por dentro, pelo menos (por fora a cor é rosa quase choque – algo que ofenderia o gosto britânico). No teto aqueles ventiladores típicos movimentando o ar preguiçosamente. Os garçons extremamente gentis. O maître, com o qual conversei um pouco, Joelito S. Ruiz, é filipino, mas está em Macau há 16 anos.

Para encurtar a história, comi um “bacalhau grelhado sobre grelos e batata a murro com azeite quente e alho” (“grilled codfish over turnip tops and roasted smashed potatos with hot olive oil and garlic). Simplesmente delicioso. Fazia tempo que não comia um bacalhau tão bom. Custou, o prato, 98 patacas. Uma pataca é equivalente a um dólar de Hong Kong, que, por sua vez, é mais ou menos equivalente a um pouco mais de um oitavo de um dólar americano. Logo, o preço do prato foi cerca de 12,50 dólares americanos – menos de 30 reais. O vinho branco português que tomei foi Planalto, safra de 2003 – um vinho dos mais baratos (110 patacas – mais ou menos 14 dólares ou 35 reais a garrafa). Muito bom. Na verdade, a atmosfera faria qualquer vinho saber bem, tenho certeza.

Tirei várias fotos, tanto dos modernos cassinos como, especialmente, dos edifícios antigos – muito parecidos com alguns encontrados no Largo do Rosário em Campinas. Cores vibrantes: azul, amarelo, rosa choque. Até um edifício branquíssimo, no meio desses, parecia ter uma cor vibrante… Era o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais – imagino que a antiga prefeitura, pois estava ao lado do prédio do Senado – na praça do Senado.

Na boa tradição portuguesa, havia prédios governamentais (senado, prefeitura, correios e telégrafos, etc., igrejas (inúmeras) e cartórios (vários) – estes os mediadores entre o governo e a população. Tudo o que se preservou da arquitetura portuguesa foram prédios governamentais, igrejas e cartórios. As igrejas eram em geral acompanhadas de seminários, conventos, e, curiosamente, leprosários – que foram sendo removidos mais e mais para fora da cidade, segundo me informou o panfleto turístico.

O Centro Histórico de Macau foi este ano (em 15 de Julho) designado Patrimônio Mundial pela UNESCO (meu Word automaticamente corrige o acento agudo, usado em Portugal, para acento circunflexo em “patrimônio”). A publicidade chinesa esclarece que o Centro Histórico de Macau é “o 31º sítio designado como Patrimônio Mundial na China” – que, com essa cifra é o terceiro país no mundo em termos de patrimônios mundiais da UNESCO.

Bem no meinho do Centro Histórico, um McDonald’s – moderníssimo dentro de um prédio antigo. Lindo, lindo – mas meio fora de lugar. Não era o único anacronismo. As lojas do Centro Histórico são quase todas franquias multinacionais chiques – dessas que a gente vê em shoppings (“centros comerciais”).  

O que um dia deve ter sido um pátio bonito, e que tem uma placa que designa o lugar como “Pátio do Poeta”, está meio abandonado. Bem que o McDonald’s poderia restaurá-lo…

Hoje teve início na Ilha de Taipa a “Festa da Lusofonia”, que vai continuar até o dia 10. Infelizmente, não tive tempo de ir até lá.

Voltando à herança britânica, placas grandes na rua advertem: “Quem aceita dinheiro para votar acaba por cair nas malhas da justiça”. O anúncio é patrocinado pela “Hotline contra a corrupção eleitoral”. Tudo escrito em Chinês e Português. Pelo jeito a tradição portuguesa é pegar quem recebe – não quem dá o dinheiro para conquistar o voto…

Mas colorida mesma é a língua portuguesa… Lanchonetes são “Estabelecimentos de Comidas”. Uma passagem subterrânea para pedestres é uma “Passagem Inferior para peões”. Curiosamente, uma van para transporte público tinha, na porta, a designação “Porta”. Dei a volta nela para ver o que estaria escrito na porta que fica atrás da van. Estava escrito “Porta de Emergência”. Meno male. Pior seria se estivesse escrito “Porta de Trás”…

Uma praça é uma praça ou um largo – como a Praça do Senado. Uma pracinha é uma praceta – Praceta de Miramar, por exemplo.

Pode ser que esteja errado, mas acho que, aos 62 anos, descobri tardiamente qual é o diminutivo de boca para os portugueses… Fiquei chocado!

Em Hong Kong, 7 de outubro de 2005