A visão religiosa do mundo – 1

Nenhum de nós pediu para nascer… Nascemos porque um homem e uma mulher, nossos pais, um dia transaram — de preferência, de comum acordo, ou, então, um forçando o outro; de preferência, com amor, mas também pode ter sido sem… Desse relacionamento nós surgimos.

Tendo nascido assim por causa de uma decisão às vezes mal tomada, às vezes tomada só por um de nossos pais, é legítimo perguntar: a vida tem algum sentido imanente (“imanente” aqui querendo dizer “além do(s) sentido(s) que nós mesmos procuramos imprimir a ela”)?

Alguns nascem em berço esplêndido: em lares ricos, de pessoas cultas, que vivem em locais em que se respira cultura sofisticada. Ali o acesso ao desenvolvimento das mais variadas competências e à construção dos mais sofisticados conhecimentos é relativamente fácil. Outros nascem em condições bem adversas: basta mudar o sinal das características anteriores para obter uma descrição apta dessa situação. Ainda outros, talvez a maioria, nascem em condições intermediárias: nem tão boas, nem tão ruins.

Sendo assim, é legítimo perguntar: por que isso acontece assim?

Depois de nascidos, uns (muitas vezes independentemente de sua origem) progridem, destacam-se dos demais, se tornam bem sucedidos: “dão certo”, como diz Viviane Senna (qualquer que seja o empreendimento pelo que optem). Outros (mais uma vez sem relação necessária com sua origem) não progridem, por vezes até andam para atrás, destacam-se com o sinal invertido: não pelo seu sucesso, mas pelo fracasso que persiste em visitá-los. “Dão errado”. Ou, como novamente diz a Viviane, tornam-se “seres humanos bonsai”: não se desenvolvem.

Sendo assim, é legítimo perguntar: por que isso acontece assim?

Três vezes eu disse: “é legítimo perguntar”. A essas perguntas, claramente genuínas e legítimas, o ser humano tem dado, ao longo de sua história, dois tipos de resposta.

Um tipo de resposta, o mais comum, parte do pressuposto de que a realidade (o cosmos, a vida em geral, a vida de cada um de nós) tem um sentido transcendente, isto é, que tem origem além ou fora dessa realidade.

O outro tipo de resposta, menos comum, por não ver justificativa no pressuposto do primeiro tipo de resposta, imprime, quando o faz, sentido apenas imanente à vida: a nossa vida só tem sentido quando nós mesmos conseguimos revesti-la de sentido.

O primeiro tipo de resposta é responsável pelo surgimento das religiões. O segundo tipo de resposta se encontra em casa na filosofia – em especial na filosofia de cunho mais naturalista, mais cético, mais racionalista, mais humanista.

O primeiro tipo de resposta parte do pressuposto de que a realidade (o cosmos, a vida, a nossa vida) tem uma finalidade metafísica (sobrenatural) que é lhe atribuída por um ser – ou conjunto de seres – cuja existência está fora dessa realidade, e que, portanto, a transcende (donde o sobrenatural), podendo ser que até mesmo um deles – o maior de todos – a tenha criado, dentro de seus desígnios freqüentemente considerados inescrutáveis. Tendências mais céticas, dentro desse primeiro tipo de resposta, relutam em reivindicar muito conhecimento desses desígnios. Tendências mais crédulas, porém, não hesitam em reivindicar conhecimento bastante significativo desses desígnios (que, no caso, não seriam tão inescrutáveis assim). Com base em supostas evidências de ordem e propósito encontradas na realidade, ou com base em supostas revelações de natureza genérica (feitas, pelo que se acredita, para todos os que se propuserem aceitá-las), os proponentes desse primeiro tipo de resposta acreditam ter resolvido, em grande parte, o mistério da vida humana (e até mesmo do universo como um todo). Dentre esses, uns chegam ao extremo de credulidade representado pela convicção de que não só conhecem esses supostos desígnios superiores (divinos), mas são capazes de influenciá-los através de sacrifícios, oferendas, preces e orações de vários tipos. No extremo da extremidade estão os que são capazes de se convencer (e, por incrível que pareça, de convencer os outros) de que têm canais privilegiados de comunicação permanente com os autores desses desígnios (os deuses): não só falam com eles em oração, mas ouvem respostas e comunicados específicos (profecias, leis, instruções, etc.) – através de idéias ou outras informações que repentinamente aparecem em suas cabeças, ou através de sonhos, ou através de mensageiros especiais (anjos, por exemplo), ou através de sinais que apenas eles são capazes de decodificar.

O segundo tipo de resposta não vê fundamento para esses edifícios teóricos: consideram-nos castelos construídos no ar. Os que a adotam não conseguem encontrar evidência que comprove que esses edifícios teóricos – admitidamente belos – sejam mais do que mitos e literatura. Com base na evidência disponível, argumentam que tudo indica que não nascemos com nenhuma finalidade metafísica atribuída a nós por um ente transcendente e sobrenatural. Propõem, em lugar da resposta do primeiro grupo, que o único sentido que a vida possui é aquele que nós mesmos atribuímos a ela – reconhecendo que alguns não conseguem lhe atribuir nenhum.

Em regra os proponentes do segundo tipo de resposta acreditam que os proponentes do primeiro tipo se iludem, são vãos e pretensiosos, e que, a despeito de suas profissões de humildade, têm mania de grandeza, pois se julgam tão importantes a ponto de acreditar que a divindade não só faz macro-gestão do universo, mas micro-gere a sua vida (não permitindo, por exemplo, que nem mesmo um fio de cabelo caia de sua cabeça sem a intervenção divina), monitorando em micro-detalhes o que acontece em sua vida, ouvindo-lhes os reclamos, dando-lhes informações privativas sobre assuntos de interesse, protegendo-lhes os bens (inclusive humanos: cônjuge, filhos). E eles são agentes dessa micro-gestão. Delegados divinos, imaginam-se.

Por isso, investem tudo de sentido religioso, cósmico, eterno. As coisas mais miúdas e comezinhas da vida assumem sentido religioso. Proíbe-se que se coma isso ou aquilo. Fazem-se jejuns, às vezes prolongados. O faquir indiano dos jejuns — acrescentando a cama de pregos. Proíbe-se que se vista assim ou assado. Mulheres muçulmanas cobrem até o rosto em público. Proíbe-se que, em determinados dias (sextas-feiras, sábados ou domingos), se faça qualquer coisa que não seja religiosa. Considera-se impura a mulher durante o seu ciclo menstrual. Paulo, no Novo Testamento, exorta as mulheres: “E vós, mulheres, obedecei a vossos maridos…”

Por falar nisso, um casamento, dentro dessa visão não é um simples arranjo (contrato entre duas pessoas) que procura viabilizar a consecução de seus objetivos comuns, tornando-as mais felizes. O casamento é sacralizado, sacramentado, investido de sentido religioso, cósmico, eterno, místico: não um acordo terreno (um contrato) que pode ser revogado de comum acordo ou mesmo unilateralmente, dando-se causa, mas uma aliança feita nos céus, para todo sempre (inclusive para uma suposta vida futura que estaria por vir, depois desta – o “porvir”). Romper unilateralmente o contrato matrimonial, nesse caso, não é apenas trair a confiança do cônjuge: é pecar contra a ordem divinamente estabelecida, é ofender a Deus, é (a menos que Deus [sic] perdoe) condenar-se ao eterno fogo do inferno. Pior: é mostrar-se aberto para questionar as demais pedras do edifício – algo a ser coibido de toda e qualquer maneira.

A religião procura dar um sentido favorável e positivo (para o crente) a tudo o que acontece — investindo tudo de uma aura sobrenatural. As coisas vão indo mal e você está, digamos, no fim da fila nesta vida? Ah, mas os últimos serão os primeiros! O incrédulo enriquece e o crente permanece pobre? Ah, mas é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. Alguns são pobres de espírito? Ah, mas também deles é o reino dos céus — que, pelo jeito, é o reino dos pobres em matéria e em espírito. Ao exigir o sacrifício, ao exigir que o bem de outrem seja colocado antes do bem próprio, que é a essência do altruísmo, a religião leva as pessoas a tentarem se regozijar com a felicidade alheia e a se conformarem com o quinhão que (segundo imaginam) lhes cabe na vida, tentando fazer da necessidade uma virtude.

Aos que adquirem algum poder sobre outras pessoas dentro dessa visão de mundo convém manter essa visão a todo custo,  muitas vezes quando nem mesmo acreditam mais nela – pois seu poder sobre os outros advém desse referencial teórico. Conheço dezenas de padres e pastores que não acreditam no que pregam — mas continuam ali, por causa do poder sobre a vida de outras pessoas que o ofício, e, por vezes, algum carisma, lhes outorgam. Vide a passagem sobre o Grande Inquisidor, no magnífico livro de Dostoievsky, Irmãos Karamazov.

A visão religiosa do mundo é mais do que simplesmente falsa: é, em muitos aspectos, perniciosa. Alguém enfrenta problemas típicos dos problemas que todo mundo enfrenta, cedo ou tarde? É o demônio agindo, ou é um mal-espírito que se apossou da pessoa (as vezes pela instrumentação de um “anjo de luz”): é preciso exorcizá-lo. Se bem sucedido o exorcismo, o espírito mau fica sem ter para onde ir e é obrigado a buscar guarida numa manada de porcos… A religião é anti-vida. Privilegiando um mundo futuro, reduz a importância deste. Privilegiando a vida eterna, reduz a importância desta vida curta e mortal — mas tão importante, por ser a única que temos. Ao afirmar que a morte é o portal de entrada para o paraíso, a religião reduz o impacto e o significado da morte, relativiza-a. Para quem não é religioso a morte é importante porque é o fim — e, como tal, precisa ser levada a sério. Para os não religiosos a morte é verdadeiramente final — não é a porta de entrada para o paraíso. Terroristas religiosos muçulmanos se explodem em nome da religião, matando dezenas ao seu redor, trazendo destruição, porque acreditam que, assim fazendo, vão direto ao paraíso, para desfrutar, de imediato, dos encantos de setenta e duas virgens. Dá pra crer?

Alguns religiosos vão dizer que condenam os terroristas que autoexplodem. Infelizmente, operam sob os mesmos princípios que eles.

Parece que nada é tão absurdo que não possa se tornar artigo de fé de uma religião ou outra.

[Continuo, quando eu estiver inspirado].

Em Campinas, 19 de Agosto de 2008 

  1.  
    Eduardo Chaves,
    Tenho seu site entre meus favoritos. Gosto de conhecer o ponto de vista de pessoas que podem pensar livremente.Sua opinião a respeito da visão religiosa do mundo teve o mérito de me animar a fazer o comentário a seguir.
    Quando se fala em visão religiosa pensando numa determinada religião e nos seus rituais, corre-se o risco de empobrecer o assunto. Não restam dúvidas de que Deus, com D ou d, é o produto mais fácil de vender, não só nos nossos dias mas, também, ao longo de toda história.Os ídolos de barro, de ouro ou de conceitos persistem ao longo do caminho.O racionalismo (ou qualquer outro ismo) é apenas um deles.
    O homem, ser no mundo, ao dar um sentido para sua vida, cria uma relação com este mesmo sentido. Essa relação (religião) é, no meu entender, a verdadeira dimensão religiosa do homem. A construção de um sentido da vida é também a construção de uma crença, um valor absoluto (um deus ou Deus) que nos serve de guia.Há, inclusive, os que acham mais importante não dar sentido algum a si mesmos. Há quem absolutize o relativo.Enfim, o vínculo entre o que se crê e o agir, eis a religião, entendida aqui no seu mais amplo sentido.
    É interessante que um incrédulo, mesmo incrédulo, acredite num tal ser humano. Um conceito, uma crença, uma abstração, uma religião. Quem me garante que sejam todos igualmente humanos? Que seus atributos sejam os mesmos que os meus? Será que este conceito não deve ser atribuído apenas aos que, sábios e doutos, estudam, pensam, descrêem e dão certo? 
    Não sei se o homem é um ser por acaso, uma reação química do nada com o nada. Não ouso afirmar que sou apenas o resultado de uma transa, com maior ou menor qualidade de mútuo consentimento entre um macho e uma fêmea. Nem me atrevo a dizer que não existe um sentido transcendente para a existência, nem para a minha nem para a dos outros. Não tenho esse direito. As evidências disponíveis não me permitem pontificar sobre o assunto nem estender minha conclusão para o resto da humanidade. A ciência mesmo, por mais elementos que tenha, não se pronuncia a respeito. Quanto a mim, prefiro ser aprendiz de humano e ficar atento ao mistério da vida. Estar aberto à pedagogia da existência. A incredulidade, assim como a idolatria, empobrecem muito nossa vida.
    Afora o exposto acima, uma coisa temos em comum: o SPFC. Pode não ser nosso deus mas será, sem dúvida, o nosso santo.

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