19 de Agosto

Sempre me lembro desta data.

Foi neste dia, em 1967, quarenta e um anos atrás, que viajei pela primeira vez aos Estados Unidos. Já fiz referência ao fato em anos anteriores aqui neste Space. Faço-a novamente.

Vim de Santo André para Campinas de trem, no dia 19. Saí de Viracopos, à noite, pela PanAm. Parei no Rio (no antigo aeroporto do Galeão) e, de lá, o vôo seguiu nonstop até Nova York (aeroporto JFK). Em Nova York peguei outro avião, se não me engano da TWA (TransWorld Airlines, defunta como a PanAm) e fui para Pittsburgh — onde me esperava o casal William Eichleay, com a filha de 13 anos (linda – sentava-se sobre uma perna, deixando à vista a calcinha), que me hospedaram durante quase dez dias antes de eu ir morar no dormitório do Seminário (Pittsburgh Theological Seminary). As aulas começavam apenas no dia seguinte ao Labor Day — que acontece na primeira segunda-feira de Setembro.

Foi um momento decisivo na minha vida.

Iria completar 24 anos dias depois. No ano anterior, tinha tido razões de sobra para concluir que os meus sonhos estavam todos condenados e que o mundo estava por desabar sobre minha cabeça. Em Agosto (Agosto… sempre Agosto) de 1966 fui expulso do Seminário Teológico Presbiteriano de Campinas. Estava em meu terceiro ano. Era excelente aluno. Modéstia à parte, havia quebrado tudo o que era record nas médias do Seminário. Mostrava grande habilidade especialmente em filosofia e em línguas, nestas, em especial em Grego e Latim. Em Grego fechei três semestres puxados de estudos, com aulas diárias, com a média de 99,81. Eu não tinha dúvida, naquela época, de que meu futuro estava na vida acadêmica. Imaginava-me em alguns anos professor de Exegese do Novo Testamento, ou de Teologia do Novo Testamento, ali mesmo, no próprio seminário, na Av. Brasil em Campinas. Mas veio a bordoada. Perdi a bolsa de estudos do Presbitério Paulistano. Precisava viver: em três dias arrumei emprego na Bosch, no bairro da Boa Vista, em Campinas. (Incidentalmente, em 7 de Agosto [!] de 1924, 42 anos antes, quase no dia, minha mãe havia nascido numa fazenda ali mesmo naquele bairro da Boa Vista). Na Bosch, fui analista de custos. A atividade não era de todo maçante naqueles dias anteriores ao computador porque se exigia bastante raciocínio e cálculo — e eu gostava disso. Mas a função não tinha nenhum futuro para alguém como eu. Parecia fim de jogo.

Mas outras portas se abriram. Ganhei bolsa para ir estudar em Pittsburgh e, por isso, o Agosto seguinte, que hoje comemoro, trazia grandes promessas. Quase todas cumpridas.

Em 8 de Agosto de 1972, cinco anos depois desse Agosto de 1967, defendi meu doutorado na Universidade de Pittsburgh, sob a orientação do grande mestre que foi William Warren Bartley III — falecido jovem.

Mais um Agosto.

Um ano antes, em Agosto de 1971, tive problemas pessoais que quase resultaram na minha separação de minha primeira mulher – e resultaram na perda de um grande amigo. Mas os problemas conjugais foram equacionados de forma satisfatória por um tempo (até num outro Agosto, dali três anos), e pude voltar minha atenção para a tese, que concluí em Maio do ano seguinte (1972) e defendi no dia que indiquei. (A propósito, no dia 11 de Agosto de 1971 assisti ao filme Summer of 42 pela primeira vez.)

Em Agosto (!) de 1972 me mudei de Pittsburgh, na Pennsylvania, para Hayward, na Californa, do outro lado do país, na Baía de San Francisco, juntinho da cidade, para assumir meu primeiro emprego, como Professor de Filosofia na California State University de Hayward. As aulas começariam, como sempre, no dia seguinte ao Labor Day. No intervalo, aluguei um apartamento em Castro Valley (20928 Wilbeam Avenue), ali pertinho. Logo em seguida foi concebida minha filha Andrea, que veio a nascer em 25 de Junho de 1973 e que teve, no endereço que acabei de dar, sua primeira casa.

Em Agosto (!) de 1974 comecei a dar aulas na UNICAMP. Meu contrato só saiu em Maio do ano seguinte, mas foi retroativo a 1/7/1974. Mas a primeira aula que dei na UNICAMP foi em Agosto de 1974 — na disciplina Filosofia da Educação I, que ficou sob minha responsabilidade durante 32 anos. Era a primeira turma de Pedagogia da UNICAMP. De vez em quando ainda encontro alunas daquela primeira turma — agora todas formadas, algumas com Doutorado e dando aula na UNICAMP…

Ainda em Agosto de 1974 dei uma palestra na Faculdade de Educação da UNICAMP sobre o tema "Pesquisa em Filosofia da Educação: A Questão da Doutrinação". Foi nessa palestra que o olhar intenso da Sueli, então assistente de pesquisa na área de Psicologia Genética (Piaget) da universidade, despertou minha atenção. Apenas dois meses depois estávamos vivendo juntos, embora ambos, em Agosto, ainda estivéssemos casados e morando com os respectivos cônjuges.

Trinta anos depois, em 2004, dei uma palestra, em Agosto, na primeira edição do evento TecEduc@tion, em São Paulo. O evento aconteceu de 25 a 27 do mês.

Agostos e Agostos que se empilham em cima de mim.

Aproximo-me do mês de Agosto sempre com alguma trepidação: um misto de expectativa e apreensão. Talvez um resquício de superstição num racionalista ateu. Tenho um pressentimento de que, qualquer ano desses, um mês de Agosto me leva — como aquele bom Agosto de 1967 me levou. Só que, desta vez, para sempre. Sem me dar a chance completar mais um ano dali a uns dias.

Em Campinas, 19 de Agosto de 2008.

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