Idealismo vs realismo político (ou: de fariseus e publicanos)

Embora sempre tenha gostado da política, entendida como a arte de viver em sociedade (na “polis”), sempre tive um certo nojo instintivo da política como profissão – e, naturalmente, de políticos profissionais. Sempre me pareceu que “fazer política”, como a expressão é geralmente entendida, não passa de um “quid pro quo” – daquilo que Roberto Cardoso Alves um dia rotulou com perfeição: um troca-troca  — “é dando que se recebe”…

É verdade que a gama do que se dá e do que se recebe, ao fazer política, é bastante vasta e não se limita, de forma alguma, a dinheiro. Em política, dão-se e recebem-se favores de todos os tipos. Parece que não há outro jeito de fazer política além desse.

Há alguns políticos profissionais que parecem reconhecer esse fato. Admitem que “quem está na chuva é pra se molhar” e… se molham – isto é, se corrompem. Creio que Roberto Cardoso Alves era um desses políticos que reconheciam esse fato.

Um dos entrevistadores do Roda Viva de ontem (20/6/2005) perguntou a Roberto Jefferson se ele se considerava corrupto. Ele no fundo admitiu que sim. Disse que é impossível passar ainda que um filete de água pura por um cano de esgoto. Como Roberto Cardoso Alves, ele é um político que admite que não há outro jeito de fazer política sem “se molhar” – isto é, se corromper.

Os petistas, porém, pareciam acreditar que era possível fazer passar um filete de água pura pelo esgoto. Lula uma vez disse que no Congresso havia mais de 300 picaretas. Excluiu os petistas (caso contrário os picaretas chegariam próximos de 600). Os petistas, em geral, reivindicavam para si o monopólio da virtude, a exclusividade do trato moral das coisas. Achavam que a política, como praticada PELOS OUTROS, não passava de corrupção, pura e simples – mas afirmavam, com grande orgulho, que eles eram diferentes, que com o PT um mundo diferente era possível. Eles eram as vestais — virgens castas, cheias de pureza — num antro de picaretagem e corrupção.

Sempre desconfiei dos que se autoproclamam virtuosos.

Uma vez, em 1966, escrevi um artigo (que me custou a expulsão do Seminário) acusando de fariseus os meus colegas que se autoproclamavam virtuosos e acusavam aos outro de toda sorte de pecadilhos. O fariseu, na parábola “O Fariseu e o Publicano” dos Evangelhos, dizia, orando: “Oh Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros: menos ainda como esse publicano…”. O publicano, reconhecendo-se pecador, orava: “Oh Deus, tem misericórdia de mim, pecador”. Segundo os Evangelhos, este foi para casa justificado.

Parece-me evidente que o petista é o fariseu da parábola, sem tirar nem por. Roberto Cardoso Alves e Roberto Jefferson me parecem bem mais próximos do publicano.

Nos Evangelhos, o publicano, com todos os seus defeitos, é o herói da parábola: foi para casa justificado.

Na vida real, estamos vendo Roberto Jefferson, com todos os seus defeitos, se transformar no herói da história. Mesmo que perca o seu mandato e até venha a ser preso, aos olhos da maior parte da população deste país ele está redimido.

É uma característica da natureza humana sentir certo prazer em ver aqueles que se consideram não só virtuosos, mas paragões da virtude, chafurdar-se na lama moral. Creio que todo cidadão brasileiro, embora sinta vontade de vomitar ao ler e ouvir os relatos das tramóias em que se envolvem os políticos brasileiros, sente, também, se não for petista, um certo prazer íntimo em ver os Zés, Dirceu e Genoíno, pegos com a boca na botija. (Só os ingênuos acreditam que eles não estão com a boca na botija. Os incorrigivelmente ingênuos acreditam que não havia uma botija petista).

Para os idealistas é, admito, uma decepção ver que nem mesmo o PT é incorrompível. O Brasil inteiro parece esperar que pelo menos o Lula se salve da lameira. Acho difícil que isso aconteça.

Roberto Jefferson, político velho e experiente, sabe que os dias de Lulla estão contados, que a coisa vai chegar no Presidente. Mas faz sua média. A Heloísa Helena, política nova e ingênua, já se queimou ao dizer que certamente o Lulla sabe de tudo, porque nada no PT se faz de forma individual, não coletiva…

Quando estudei filosofia política na Universidade de Pittsburgh (1970-1972), aprendi admirar os realistas políticos: Agostinho, Calvino, Maquiavel… Agostinho é o pai do realismo político. Ao dividir o mundo em uma Cidade de Deus e uma Cidade dos Homens, pode encarar com realismo a política: os governos, disse ele, não passam de bandos de ladrões. Que presciência… Parece que via o Brasil de hoje com dezessete séculos de antecedência!

Admito que os realistas políticos de hoje cheirem mais mal que Agostinho. Mas nos ajudam a ver a realidade como ela é.

O duro é agüentar os corruptos que, ao tentar se passar como paragões da virtude, mascaram a realidade – e tentam se esconder, em vão, atrás das máscaras.

Por isso, hoje sinto prazer em ver a agonia dos Zés, Dirceu e Genoíno – o presidente e o vice do PT, nessa ordem, como disse o Roberto Jefferson.

E espero, tranqüilo, chegar a hora do Lulla, que ainda hoje mesmo, em Luziânia, Goiás, se arrogou o título de maior autoridade moral do país: "ninguém neste país tem mais autoridade moral do que eu" para combater a corrupção, disse ele.

É o que veremos.

Em Campinas, 21 de junho de 2005

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