Lucélia… Terra natal

[Os materiais transcritos neste artigo foram retirados do site "Nossa Lucélia": http://www.geocities.com/nossalucelia/]

[Nota: Este material foi colocado aqui no blog no dia 25/7/2006. Não estava muito clara a autoria dos diversos textos que transcrevi. Por isso interpretei o melhor que pude — mas cometi erros. Hoje, 1/8/2006, fui contatado por José Carlos Daltozo, a quem havia atribuído a autoria do artigo de 1942. Isso teria sido possível, porque José Carlos Daltozo nasceu apenas em 1950… Vou corrigir as referências, mantendo a data original da inserção do artigo no blog.]


[Abaixo, texto de Eduardo Chaves]

Nasci em Lucélia, Estado de São Paulo. No dia 7 de setembro de 1943. Só que naquele tempo Lucélia não era uma cidade (município). Não era nem mesmo um Distrito de Paz. Como diz o autor desconhecido do artigo publicado em 1942 no Correio Paulistano, transcrito adiante, Lucélia, quando nasci, "do ponto de vista administrativo não [era] nada": era apenas uma "vila rural", um povoado, um agrupamento de gente, um "patrimônio", como se dizia então. Pertencia, em sua maior parte, a Balisa. Mas Balisa, também, não era quase nada: era apenas um bairro — mas já era Distrito de Paz. Pelo jeito pertencia a Martinópolis (antiga José Theodoro), esta sim, já uma real cidade ("do ponto de vista administrativo") naquela época. 

Minha Certidão de Nascimento original, emitida logo depois de meu nascimento em 1943, esclarece: "Nascido em Lucélia, Distrito de Balisa, Município de Martinópolis, Comarca de Presidente Prudente". Faltou mencionar, como esclarece o artigo transcrito adiante, Valparaíso e Guararapes.

Há pouco tempo (creio que em 2003), quando visitei Lucélia (pela primeira vez, desde que saí de lá em 1944), fui ao Cartório do Registro Civil da cidade (agora sem dúvida uma cidade, e, portanto, alguma coisa, "do ponto de vista adminsitrativo" — mas ainda hoje, mais de sessenta anos depois, apenas com cerca de 20 mil habitantes!) e lá pedi — e, maravilha, obtive — uma segunda via de minha Certidão de Nascimento. Nenhuma referência agora a Balisa, a Martinópolis, a Presidente Prudente. Só se faz referência a Lucélia. E não há, no livro de registros, que fiz questão de ver e fotografiar, nenhuma referência, nas margens, aos meus dois casamentos (e ao meu divórcio, no primeiro casamento), que deveriam estar devidamente averbados lá!!! Segundo o Cartório de Registro Civil de minha terra natal sou solteríssimo da silva. Só o bom senso me impede de fugir para um outro estado e me casar de novo, pela terceira vez… Se o cartório do novo casamento fizesse o que os outros não fizeram, e mandasse averbar o casamento no Cartório de Lucélia, este o faria, sem problemas. Mas não será preciso. O segundo casamento, dizem os entendidos, é a vitória da esperança sobre a experiência. Já o terceiro!!! Esse não seria vitória de nada, a não ser, talvez, do sentimento, ou da tesão, sobre a razão…

Essa bagunça administrativa, o fato de que nasci em uma "terra de ninguém", como diz o artigo publicado em 1942 no Correio Paulistano, talvez explique o meu liberalismo radical, quase anárquico. Se nasci em uma "terra de ninguém", que, "do ponto de vista administrativo", não era nada, e consegui sobreviver, por que precisamos de governo? Ou, pelo menos, de muito governo? Melhor é o governo que menos governa, já dizia Thomas Jefferson (nascido, se bem me lembro, em 1743, duzentos anos antes de mim). 

Transcrevo, abaixo, três matérias, retiradas da Internet. A primeira de autoria de Marcos Antonio Vazniac, jornalista de Lucélia; a segunda é um artigo de José Carlos Daltozo, jornalista de Martinópolis, com o título "Um Distrito Chamado Balisa"; e a terceira é um artigo, de autor desconhecido, com o título "Povoado de Lucélia – Terra de Ninguém", publicado no Correio Paulistano de 11 de março de 1942 (18 meses antes do meu nascimento), e que foi encaminhado para o site "Nossa Lucélia" por Ralph Mennucci Giesbrecht. As três matérias estão todas na página http://www.geocities.com/nossalucelia/1942.html. O texto de Marcos Antonio Vazniac serve de introdução aos outros dois. Dou, portanto, o devido crédito aos responsáveis pelo site "Nossa Lucélia" pelo material transcrito.

Balisa, como afirma José Carlos Daltozo, pelo jeito sumiu não só de minha nova Certidão de Nascimento, mas até mesmo do mapa: simplesmente desapareceu da face da Terra. Quem sabe tenha deixado saudade em alguém. Ouvi, quando estive em Lucélia, que o nome "Balisa" vinha do fato de que naquele lugar houve uma tentativa de demarcar as terras, e os habitantes do local, todos "posseiros" (grileiros?) simplesmente jogaram as "balisas" de demarcação no rio… Donde o nome. No caso de Lucélia, porém, não sei de onde vem o nome da cidade. Só sei que as perspectivas de crescimento da "vila rural" que o autor do artigo no Correio Paulistano descortinou não deram em nada. Mas, pelo menos, Lucélia não teve o destino de Balisa: não sumiu do mapa. Continua lá, à beira da estrada que vai de Marília para Dracena. E tem até Igreja Universal do Reino de Deus na entrada. A população, porém, não chega a 20 mil "almas": 18.316 habitantes, sendo 9.472 homens e 8.844 mulheres, segundo o Censo de 2000.

Apesar de o artigo de José Carlos Daltozo afirmar que Lucélia foi colonizada a partir de 1927 e a cidade ter sido fundada em 1939, pelo que sei Lucélia só se tornou município depois de eu ter nascido (fato de certo modo confirmado pelo artigo do Correio Paulistano, que afirma que em 1942 (ano em que o artigo foi publicado) Lucélia não era uma cidade (município) ainda, só tendo condições de vir a ser "em fins de 1943". Pelo jeito a burocracia complicou a vida do patrimônio que administrativamente não era nada por mais um tempo, ainda, porque pelo que sei não foi nem "em fins de 1943" que Lucélia se tornou um município. Em e-mail José Carlos Daltozo me informa que Lucélia só se "emancipou" (tornando-se distrito de paz, município e comarca ao mesmo tempo) em 1944. Eis o que informa José Carlos Daltozo: "Através do Decreto 14.334, de 30.11.1944, Lucélia se tornou Distrito de Paz, Município e Comarca simultâneamente (um caso raríssimo, senão único, no Brasil). Seu território englobou parte do município de Martinópolis, desde o Rio do Peixe (Balisa deixou de ser distrito de Martinópolis e se tornou um simples bairro rural de Lucélia) e também englobou parte dos territórios de Valparaíso, Guararapes, Presidente Prudente, Presidente Venceslau e outros". Agradeço ao José Carlos Daltozo a gentileza dessas infomações.

Deixo aqui registrados esses fatos para que, se alguém os ler, e souber mais do que eu, possa, tendo a gentileza, me informar… O meu e-mail é eduardo@chaves.com.br.

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[Texto de Marcos Vazniac, diretor do jornal Gazeta Regional, de Lucélia, incluindo referências a um artigo de José Carlos Daltozo, publicado no jornal Folha da Cidade, de Martinópolis – cidade em que Daltozo reside]

A duas léguas do Bairro Balisa, no alto do espigão do Peixe/Aguapeí, acontecia muito rápido o nascimento de LUCÉLIA. E com isso, começava o desaparecimeto do Bairro Balisa.

Nada mais existe no local, nem vestígios de construções. Apenas um rio chamada Balisa, que separa Lucélia de Pracinha. Nas margens desse rio é que existia o povoado.

A reportagem da Folha da Cidade de Martinópolis, esteve no local em 1997 e encontrou um remanescente, um senhor de origem russa, Stepan Povliuk que apesar dos 79 anos, ainda lúcido, contou o que sabia.

"Na época que vim para José Theodoro (nome antigo de Martinópolis), em 1932, já havia uma colônia russa no local chamado Balisa. Ainda nem se pensava que existiria a cidade de Lucélia.

O motivo de se juntarem muitos russos naquele local é que havia um capataz de uma fazenda dessa origem e foi chamando os demais, espalhados em várias cidades do interior paulista. Lá nas margens do rio Balisa, chegou a ter umas quarenta residências, cinco casas comerciais, uma igreja ortodoxa, cemitério, farmácia, uma serraria e hoje nada mais existe. Todos venderam seus lotes baratos e mudaram-se para Lucélia, quando abriram o novo povoado. Só eu estou ainda aqui, neste sítio. Sou nascido em Pitronka, na Bessarábia, atual Romênia. Quando nasci (27.10.1918), minha cidade pertencia à Russia.

A vida naquele tempo era uma dificuldade. Na roça, nosso povo não estava acostumado com lavouras do tipo que se plantava aqui. Foi difícil se acostumar com mandioca, café, banana, mamão, manga. Era tudo desconhecido para nosso povo. Mas sobrevivemos e alguns descendentes hoje moram em Lucélia.

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Um Distrito Chamado Balisa

José Carlos Daltozo
(MTb 32.709)

Hoje é uma simples pastagem, cortada por um riacho assoreado denominado Balisa, mas já foi de grande importância para as cidades de Martinópolis, Lucélia e Osvaldo Cruz. Estamos falando do antigo distrito de Balisa, que pertenceu originalmente a Martinópolis e depois da emancipação de Lucélia, em fins de 1944, passou a ser distrito daquela cidade da Alta Paulista.

Quando surgiu o povoado de Califórnia, atual cidade de Osvaldo Cruz, este também passou a pertencer juridicamente ao distrito de Balisa, como bem informa o escritor José Alvarenga em seu livro Osvaldo Cruz – Achegas Históricas: "…a 16 de novembro de 1942, pelo decreto-lei estadual nº 13.050, a então Vila de Califórnia, sob a administração de Walter Wild, foi elevada à categoria de distrito de 2ª zona com sede em Balisa, no município de Martinópolis e comarca de Presidente Prudente." Balisa era, então, um florescente povoado com várias residências, algumas casas comerciais, uma serraria, um clube esportivo, uma igreja Batista e uma Igreja Ortodoxa Russa, uma vez que ali residiam inúmeros eslavos. O motivo de ter existido, naquele povoado, vários descendentes de povos eslavos, é interessante.

Em recente visita à cidade de Lucélia, entrevistei alguns imigrantes eslavos e fiz um ligeiro apanhado histórico da chegada deles neste longínquo rincão do Brasil. Eles fugiam do comunismo e da pobreza reinante na então União Soviética e nos países satélites. Eram russos, ucranianos, romenos, búlgaros, entre outros, que ao chegar ao Brasil se espalharam por várias cidades do interior paulista. Ficaram sabendo da venda de terras em suaves prestações, por parte de Luiz Ferraz de Mesquita, que estava parcelando parte de sua fazenda de 2.735 alqueires, tendo denominado-a Fazenda Balisa. Mesquita obteve essa fazenda como pagamento pelos seus serviços de agrimensor na demarcação de terras da gigantesca Fazenda Monte Alegre. Deu esse nome ao local porque perdeu três balisas de demarcação nas proximidades do ribeirão que cortava o loteamento rural. Ficava a cerca de 50 km. de Martinópolis, sede do município, pois naquela época nosso território avançava além do rio do Peixe, nossa atual divisa municipal com Pracinha, chegando até o espigão divisor Peixe-Aguapeí.

O povoado de Balisa era pequeno, mas a zona rural ao redor era formada de terras férteis, chegando a ter 2.756 habitantes. Segundo entrevista do autor deste artigo com Stepam Povliuki, em junho de 1997, para o jornal Folha da Cidade de Martinópolis, este relatou: "desci na estação ferroviária de José Teodoro, nome antigo de Martinópolis, no ano de 1932, me dirigindo ao povoado de Balisa, onde já haviam outros russos, uma vez que um capataz de uma fazenda nas proximidades era dessa nacionalidade e foi chamando os conterrâneos. Lembro que Balisa chegou a ter umas quarenta residências, cinco casas comerciais, uma igreja ortodoxa, uma farmácia, uma serraria e um cemitério. Hoje nada mais existe no local, todo mundo foi se mudando para Lucélia quando fundaram aquele povoado e venderam terras baratas. Sou nascido em Pitronska, na Bessarábia, atual Romênia, mas na época que nasci, em 1918, pertencia à Rússia. Tivemos muita dificuldade ao chegar no Brasil e, depois, na adaptação ao clima e costumes da nova terra, pois não conhecíamos lavouras de café, nem sabíamos como cultivá-lo. Também desconhecíamos a mandioca e frutas como banana, mamão e manga. Aqui era tudo muito diferente."

No Histórico de Lucélia, fornecido pela Prefeitura daquela cidade, consta que a colonização de Lucélia foi iniciada por volta de 1927, quando o Dr. Luiz Ferraz de Mesquita iniciou a abertura e formação das fazendas Balisa e Santa Cecília. Nessa mesma época chegaram pela E.F.Sorocabana, imigrantes russos e outros povos eslavos que, negociando com o Dr. Mesquita, se estabeleceram nos bairros de Balisa e Água Grande. A gleba foi ligada por uma estrada de rodagem ao povoado de José Teodoro (atual Martinópolis), de onde o Dr. Mesquita passou a orientar e dirigir os trabalhos de desbravamento e colonização. Os estrangeiros que compravam terras tinham que parar em Balisa para iniciar a derrubada da mata, o que fez dela um patrimônio centro de colonização, com a instalação de uma serraria e uma máquina de beneficiar arroz.

A cidade de Lucélia, fundada em 1939, a seis quilômetros do distrito de Balisa, mas ainda dentro do município de Martinópolis, foi fruto de um plano urbanístico e econômico racional, numa associação de Luiz Ferraz de Mesquita com Max Wirth e a CAIC – Companhia de Agricultura, Imigração e Colonização."

Lucélia tem um histórico curioso em seus primeiros anos de vida, quando era um insipiente povoado e seu território fazia parte de Martinópolis. Os comerciantes estabelecidos no lado esquerdo da atual Avenida Internacional pagavam seus impostos à Prefeitura de Martinópolis, enquanto parte dos comerciantes estabelecidos no lado direito pagavam para a Prefeitura de Valparaíso e outra parte para a de Guararapes.

A avenida, situada exatamente no espigão divisor dos rios Peixe-Aguapei, foi implantanda exatamente na fronteira dos territórios dessas três cidades, uma da região Alta Sorocabana e duas da região Noroeste. O Decreto 9.775, de 30.11.1938, que criou o Município de Martinópolis, foi publicado no Diário Oficial de 19.12.1938 e menciona, no final, a criação de Balisa com as seguintes confrontações: "O distrito de paz de Balisa, que fica criado, terá as seguintes divisas internas, com a sede do município de Martinópolis: começam no rio do Peixe, na foz do Ribeirão da Confusão e descem por aquele até a barra do ribeirão dos Ranchos." Do outro lado, como dissemos anteriormente, ia até o espigão divisor dos rios Peixe-Aguapeí. Uma entrevista realizada há poucos meses com Jorge Cavlak, nascido em Balisa e atualmente residindo em Lucélia, esclarece que na realidade haviam dois pequenos povoados, um ao redor do ribeirão Balisa, no local onde passava a estrada de rodagem de Martinópolis para Lucélia, e outro um pouco mais adiante, no ribeirão Água Grande. Mencionou vários nomes de pequenos proprietários eslavos que residiam em sitios vizinhos ao povoado e à estrada de rodagem. O sítio mais próximo à estrada era de Stefan Paley, no sítio ao lado moravam os Trukshen, em seguida vinham os sítios de Inácio Brichiuk, Simão Popik e por último Demétrio Bastinvadji. Do outro lado do ribeirão, fazendo fronteira com esses proprietários, havia os sítios de Nicolau Uzum, Jorge Delive, Basílio Greck, Hartion, Afanásio, Jeremias Posledniak, Profor, Jacob e por fim Demétrio Cavlak.

Terminando os sítios havia a fazenda do Dr. Mesquita. Nos fundos dos sítios dos primeiros citados, havia os sitios de Jorge Mueulik, Jorge Puskof, Basílio Kirkoff e João Berholf. Do outro lado da estrada só havia dois pequenos proprietários, Stepan Pavioliuk e Pedro Peikof, em seguida vinham as terras pertencentes à fazenda do Dr. Zeferino Veloso. Jorge Cavlak informou também que a igreja próxima à estrada, dentro do sítio dos Paley, era protestante (Batista) e que a Igreja Ortodoxa Russa ficava um pouco mais distante, na propriedade de Jeremias Posledniak. Um padre russo visitava essa igreja poucas vezes por ano, devido à distância da ferrovia e a precariedade das estradas. As recordações que ele tem do pequeno povoado de Água Grande são poucas, ficava distante dois quilômetros de Balisa, em direção de Lucélia. Recorda-se da existência de apenas uma casa comercial, uma serraria e um clube social e esportivo com o nome de ABC. Ambos, Balisa e Água Grande, desapareceram com o crescimento de Lucélia, principalmente depois da chegada da Companhia Paulista de Estradas de Ferro e os atrativos e oportunidades de uma cidade em franco desenvolvimento. Todos os eslavos foram vendendo, aos poucos, suas propriedades rurais e mudando para Lucélia, até extinguir os dois povoados.

A mãe do Jorge, Dona Helena, bastante idosa mas ainda muito lúcida, informou que nasceu na Bulgária, acompanhou seu marido no desbravamento da região de Balisa, onde morou muitos anos. O que mais se recorda são as festas rurais, onde as mulheres podiam se alegrar um pouco. Isso porque os homens, mesmo trabalhando de sol a sol nas lavouras, iam aos jogos de futebol nos finais de semana, ou jogavam baralho, bebiam, viajavam para Martinópolis buscar mantimentos, vender porcos, galinhas etc. As mulheres, no entanto, passavam a maior parte de suas vidas trancadas em casa, costurando, bordando, fazendo comida, cuidando dos filhos. Os bailes e as cerimônias religiosas eram as únicas oportunidades que tinham de se divertir um pouco.

O jornalista Marcos Antonio Vazniac, do jornal Gazeta Regional, editado em Lucélia, também é descendente de eslavos e sempre que consegue algumas fotos antigas, publica-as no jornal onde trabalha, na seção Recordando.

Outro morador de Lucélia, o professor Jeová Severo da Silva, escreveu uma monografia de conclusão de curso de Geografia na Unesp de Presidente Prudente sob o tema "Lucélia-SP, do início ao meio: uma análise da evolução do município", onde também faz breve apanhado histórico sobre Balisa, considerando-a o berço de sua cidade.

Quem passar pela estrada vicinal que liga Lucélia ao novo município de Pracinha, em direção ao Rio do Peixe, verá um pequeno riacho assoreado, barrancos de dois metros de altura nas laterais, algumas árvores nas margens, terreno todo plantado com capim, alguns bois pastando, esse era o local onde existiam os sítios dos russos e demais eslavos, onde um povoado chamado Balisa foi formado, mas que desapareceu completamente a partir da década de 1950. Foi um povoado de grande valor histórico, pertenceu a Martinópolis muitos anos e tornou-se a célula mater de duas importantes cidades da Alta Paulista: Lucélia e Osvaldo Cruz.

(Escrito com a colaboração de Marcos Antonio Vazniac)

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Povoado de Lucélia – Terra de Ninguém

[Autor desconhecido]

(Correio Paulistano, 11 de março de 1942)

Todos nós temos a impressão de que a era de criação das cidades espetaculares, das cidades que brotam do dia para a noite, como se as tocasse a varinha mágica da iniciativa particular, já passou. Os casos típicos de Marília e Presidente Prudente — originada esta de um vagão de estrada de ferro, que servia de posto telegráfico e que já possuía oitocentas casas quando lhe deram o primeiro escrivão de paz, ao mesmo tempo que o primeiro prefeito; enquanto Marília crescia, sistematicamente, de dois mil habitantes por ano, vindo a ter na sede 24 mil almas doze anos depois de nascida — esses casos, dizíamos, parece que já se não poderia reproduzir com facilidade.

É engano, porém. São Paulo continua a ser a mesma terra das surpresas de sempre. E como ainda possui duas largas faixas de zona pioneira, a primeira entre o Rio Grande e o Tietê, na qual se está processando o avançamento da Estrada de Ferro de Araraquara, e a segunda, entre o Aguapeí e o rio do Peixe, em que a Companhia Paulista está realizando seu prolongamento para além de Marília, é nesses territórios que vêm surgindo as repetições daqueles fenômenos.

O noticiário dos jornais se refere a miúdo a uma povoação de Brasilândia que está em formação no município de Tanabi, para além do ribeirão Marinheiro, cerca de cem quilômetros além de Rio Preto, localidade que já possui cerca de duzentas casas, embora não passe, a rigor, de um bairro rural.

O caso mais interessante, entretanto, é Lucélia. Logo depois de criado o distrito de paz de Balisa, no município de Martinópolis, que acaba de ser desmembrado de Regente Feijó, na Alta Sorocabana, a povoação daquela vila começou a mudar-se para um ponto situado no alto do espigão Peixe-Aguapeí e distante de Balisa cerca de duas léguas. O aglomerado cresceu rapidamente em prazo muito curto e dentro de pouco, sob a denominação de Lucélia, paralisou completamente o surto de Balisa e se impôs como o núcleo de uma grande cidade futura. Hoje Lucélia, que do ponto de vista administrativo não é nada, pois não term nem mesmo cartório de paz e registro civil, possui melhoramentos e requisitos que faltam em cidades bem mais antigas.

A dificuldade para pôr ordem na vida daquele povoado provem do fato de que a cidade — chamêmo-la assim — não pertence a ninguém. Foi construída de tal forma que seu perímetro está compreendido dentro de três municípios e de três comarcas diferentes. Já dissemos que fica sobre o espigão. O lado do sul, o território é de Martinópolis, comarca de Presidente Prudente. Do lado norte, as coisas complicam-se ainda mais: o povoado é dividido pela conhecida reta do governo, que vai ao Salto de Carlos Botelho, no rio Aguapeí, e nessas condições a zona de leste é do município de Valparaíso, comarca do mesmo nome, e a zona de oeste é do município de Guararapes, comarca de Araçatuba. E Lucélia fica a cerca de 60 quilômetros tanto de Valparaíso como de Martinópolis como de Tupã, que é hoje a ponto dos trilhos da Companhia Paulista. O remédio, pois, seria dar autonomia municipal ao novo povoado. Mas isto, de acordo com a lei federal, só poderá acontecer em fins de 1943. E até lá Lucélia terá de esperar como simples bairro.

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Em Salto, 24 de julho de 2006 (com correções em 1 de agosto de 2006) 

  1. Prezado Sr.
    Fui morador na cidade de Lucélia de 1963 a 1975. Meus pais estão enterrados nesta cidade. O velho Nica muito querido por todos. Enfim Lucélia é a capita da amizade, muito querida por sinal. Tenho ainda aí muitos amigos, como José Lazinho Furioso, o "Furia". Abraços a todos do popular Vinicius.

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  2. Sou ZEFERINO FERREIRA VELLOSO FILHO, nasci em São Paulo em 1931 e frequentei muito Lucelia na minha Juventude,quando meu pai , colega e socio de LUIZ FERRAZ de MESQUITA desbravaram essa região. Lembro-me do tempo em que diversos imigrantes russos compraram sitios de meu pai e mais tarde foram recomprados no local aonde se formou a nossa fazenda Santa Martha. Com o falecimento de meu pai e minha mãe a Fazenda Santa Martha foi dividida para os cinco filhos. A minha Fazenda Ibiuna vendi-a em 1997 pois morando em São Paulo e tendo cursado Engenharia Aeronautica verifiquei que não era entendido nas atividades rurais e me dedicava mais à minha empreza metalurgica. Lembro-me de papai contar que o bairro da Balisa teve o seu nome originado por terem perdido uma balisa nessa região. Tinhamos algumas panelas de barro indigenas que foram trocadas por camisas com os indios existentes nessa região , isto por volta de 1917. Na década de 30 meu pai construiu um trecho de serra na Serra do Mar para a Estrada de Ferro Sorocabana entre Mayrink e Santos , na ocasião tinha um funcionario alagoano Sr José Firpo que se destacava pela competencia e tendo assim um bom relacionamento. Terminada essa obra meu pai convidou-o para abrir uma fazenda na região de Martinopolis. Assim surgiu um futuro Prefeito de Lucelia : José Firpo muito conhecido na região. Saúdo aqui o Sr Eduardo Chaves contando um pouco das origens de sua cidade natal.

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  3. BOM DIA!
    ESTAVA ASSIM LENDO ALGUMA COISA DA EPOCA AKI DA MINHA CIDADE E VIM PARAR AKI, MEU NOME E ALEXANDRE HENRIQUE PERRONDI, NETO DE DELVAIR PERONDI SEMPRE MOREI AKI EIM LUCELIA NASCI AKI. SO PARABENIZANDO PELA HISTORIA E CONTENTE E CONHECER AMIGOS DE AMIGOS E PESSOAS TAO IMPORTANTES QUE VIVERAM ESSE PASSADO,….ATE MAIS ABRAÇOS

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  5. sempre é bom saber algo sobre nossa terra natal,nasci em lucélia morei no bairro agua grande no sitio do carlos russo ,conheci pessoalmente

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    • continuando conheci o senhor stepam (russo) conheci tambem sr jorge cavilak que digo de passagem na epoca já era dono da metade de lucélia,conheci ainda delvair perrondi (caminhoneiro)pai do carlinhos e do beto perrondi.confesso que quando ouvia alguem falar que no passado teve um cemiterio no bairro baliza ,eu morria de medo pois quando tinha 16 anos morei na fazenda dos vacari e estudava a noite e as vezes tinha que voltar sozinho da escola.concluindo estou longe de casa já á quase trinta anos mas sempre que posso vou no aeroporto na casa da tia belina e do julio meu primo tomar tubaina e tirar foto dos aviões.valeu até breve.

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