45 anos sem Jânio Quadros no cenário político nacional

Hoje, 25 de agosto de 2006, faz 45 anos que Jânio da Silva Quadros renunciou ao seu mandato de Presidente do Brasil, poucos meses depois de uma acachapante vitória nas urnas. Não vou entrar aqui nos méritos e deméritos do político. Achava o homem bastante interessante.

Tive o privilégio de me encontrar pessoalmente uma vez com ele, no final de 1988, quando ele terminava o seu mandato como Prefeito de São Paulo — e, doente, concluía, relutantemente, sua participação na vida política. Jânio havia mandado pendurar umas chuteiras de futebol na porta de seu gabinete para indicar sua intenção de se aposentar como político. Fui visitá-lo com o então Secretário de Saúde do Governo Quércia, hoje Deputado Federal pelo PFL, José Aristodemo Pinotti, que, além de meu chefe na Secretaria (eu era Diretor do Centro de Informações e Informática em Saúde), era, e continua sendo, amigo meu. Éramos colegas na UNICAMP desde 1974, quando eu entrei na Universidade. Não que eu seja amigo de todos os meus colegas da UNICAMP… Os economistas de lá, Paulo Renato Costa Souza, José Serra, e alguns outros, prefiro ver só de longe…

Para entender o que aconteceu no final da reunião com o Jânio, preciso retroceder um pouco no tempo.

Depois de ter renunciado, Jânio Quadros continuou no cenário político até que foi cassado pelo regime militar. Recuperou, porém, seu direitos políticos em 1974, mas, por bom tempo, limitou-se a pronunciamentos, permanecendo afastado das eleições. Em 1982, entretanto, candidatou-se ao governo de São Paulo, mas perdeu. Em1985, entretanto, elegeu-se prefeito de São Paulo, derrotando o candidato do prefeito (biônico) Mário Covas (a quem nunca admirei), o suplente de senador Fernando Henrique Cardoso (a quem admirava menos ainda, como se possível), que viria a ser Presidente da República. Um presidente passado derrotando um futuro. Seu mandato como prefeito foi até o fim de 1988.

Durante 1985 eu era Assessor Especial (um equivalente ao Pró-Reitor de hoje) de Pinotti, que, na época, era Reitor da UNICAMP. Na ocasião, foi dado um almoço na Reitoria, com a participação do mais alto escalão da Universidade, em homenagem ao Fernando Henrique. Eu era o único membro da equipe da Reitoria que torcia, abertamente, pelo Jânio. Dias antes do almoço, andando pelo prédio da Reitoria, vi que estavam reformando uma sala que havia sido ocupada pelo ex-Reitor e fundador da UNICAMP, Zeferino Vaz, depois de ter deixado a Reitoria. Havia virado uma espécie de museu do ex-Reitor. Algumas das relíquias preservadas por ele estavam jogadas pelo chão, meio sujas de tinta, entre elas uma foto de Jânio Quadros, tirada quando fora Governador do Estado em 1966. Jovem, até bonitão — embora já com o olho meio torto… A foto continha a seguinte dedicatória: "Ao Prof. Zeferino Vaz, meu amigo e companheiro, com o respeito que merece a grande obra de Ribeirão Preto, o admirador, J. Quadros. 7.1.59". Ao ver aquela foto ali jogada, correndo o risco de ser destruída, peguei-a, coloquei-a na minha sala, e fui ver o Reitor, comunicando-lhe: "Encontrei uma foto do Jânio dada ao Zeferino em 1959, jogada lá embaixo. Levei-a para minha sala. Se alguém a procurar, está comigo." Nunca ninguém procurou.

Quando o resultado da eleição de 1985 saiu, estava em Nova York, a serviço. Essa foi a eleição em que Fernando Henrique Cardoso se deixou fotografar, antes da eleição, sentado na cadeira de seu amigo Covas, considerando-se eleito antes das eleições. Bom, perdeu. E eu comemorei sozinho em Nova York, indo assistir a uma audição coral numa Igreja Batista do Harlem. Senti-me vingado da hostilidade das forças defensoras da candidatura do Fernando Henrique — as mesmas que foram o PSDB de hoje.

Quando se preparava para ir ao encontro de Jânio, para pedir que cedesse alguns terrenos da Prefeitura de São Paulo para a construção de Centros de Saúde, Pinotti me ligou e disse: "Estou indo visitar o seu ídolo: quer ir junto?" Não pensei duas vezes. Larguei o que estva fazendo, avisei minha secretária que iria sair por umas duas horas, peguei o paletó e fui.

No final da visita a Jânio, Pinotti disse ao ex-Presidente: "Presidente, o Eduardo Chaves, meu colega na UNICAMP e meu assessor na Secretaria, é um fã incondicional seu. Tanto que mantém em sua sala até hoje [isso era brincadeira, vale dizer, mentira] uma foto sua". A isso eu acrescentei: "Que eu obtive por meios, talvez, não muito lícitos…" — e contei a história da foto ao Jânio. Ele deu uma tirada das que o fizeram famoso: "Licitamente ou não, Professor, o importante é que a tenha adquirido!". E chamou sua secretária, uma senhora já de idade que o acompanhava há décadas, e lhe mandou que me desse uma foto atualizada dele — que guardo, carinhosamente, junto da primeira. Achei divertido o comentário e gentil o ato.

Quanto às tiradas de Jânio, lembro-me de duas outras que me são especialmente caras.

Creio que durante à candidatura a Prefeito, ele foi ao programa da Hebe Camargo. E conversando com ela, disse que jornalistas são todos uns cachorros. Ela ficou hebecamargamente horrorizada e, também hebecamargamente, o repreendeu. "Como é que o senhor pode dizer uma coisa dessas, Presidente!". Ele pensou um  pouco e disse: "Está certo… Penitencio-me. Cometi uma injustiça tremenda: contra os cachorros…"

Durante uma entrevista na TV Bandeirantes (acho que era "Crítica e Autocrítica"), durante a mesma candidatura, Jânio, que agora concorria contra Fernando Henrique, foi indagado se, na eleição anterior, havia votado para Fernando Henrique para Senador. Ele disse que sim, e explicou: "Votei porque achei que, como Senador, seria bom, homem inteligente que é. Mas como Administrador, ele nunca provou a que veio, não tendo sequer conseguido administrar a própria cátedra na USP". Um pouco de maldade, aí, porque Fernando Henrique foi aposentado prematuramente da USP pelos militares. Mas, aqui entre nós, uma maldadezinha bem aplicada…

Em fim… Agora, em vez das tiradas inteligentes do Jânio, temos de conviver com o besteirol do Lulla. No plano da inteligência, da linguagem e do humor, perdeos muito. Suspeito que politicamente também tenhamos perdido.

Fica aqui minha homenagem a um homem interessante e um político como poucos.

Este o texto da Carta Renúncia de Jânio, segundo a Wikipedia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Jânio_Quadros)

"Fui vencido pela reação e assim deixo o governo. Nestes sete meses cumpri o meu dever. Tenho-o cumprido dia e noite, trabalhando infatigavelmente, sem prevenções, nem rancores. Mas baldaram-se os meus esforços para conduzir esta nação pelo caminho de sua verdadeira libertação política e econômica, a única que possibilitaria o progresso efetivo e a justiça social, a que tem direito o seu generoso povo.

Desejei um Brasil para os brasileiros, afrontando, nesse sonho, a corrupção, a mentira e a covardia que subordinam os interesses gerais aos apetites e às ambições de grupos ou de indivíduos, inclusive do exterior. Sinto-me, porém, esmagado. Forças terríveis levantam-se contra mim e me intrigam ou infamam, até com a desculpa de colaboração.

Se permanecesse, não manteria a confiança e a tranqüilidade, ora quebradas, indispensáveis ao exercício da minha autoridade. Creio mesmo que não manteria a própria paz pública.

Encerro, assim, com o pensamento voltado para a nossa gente, para os estudantes, para os operários, para a grande família do Brasil, esta página da minha vida e da vida nacional. A mim não falta a coragem da renúncia.

Saio com um agradecimento e um apelo. O agradecimento é aos companheiros que comigo lutaram e me sustentaram dentro e fora do governo e, de forma especial, às Forças Armadas, cuja conduta exemplar, em todos os instantes, proclamo nesta oportunidade. O apelo é no sentido da ordem, do congraçamento, do respeito e da estima de cada um dos meus patrícios, para todos e de todos para cada um.

Somente assim seremos dignos deste país e do mundo. Somente assim seremos dignos de nossa herança e da nossa predestinação cristã. Retorno agora ao meu trabalho de advogado e professor. Trabalharemos todos. Há muitas formas de servir nossa pátria."

Brasília, 25 de agosto de 1961.

Jânio Quadros"

Em Salto, 25 de agosto de 2006

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