Capa Imaginada de VEJA para 27/10/2014

[Capa imaginada de VEJA para a semana que vem, que se inicia em 27 de Outubro de 2014]

[Capa imaginada de VEJA para a semana que vem, que se inicia em 27 de Outubro de 2014]

“A capa da VEJA que todos os brasileiros DECENTES querem ver na semana que vem”.

[Texto de Rodrigo Constantino].

“O Brasil está livre! Vitória esmagadora de Aécio Neves liberta os brasileiros das garras corruptas do PT.

Sub-manchete exclusiva:

“Dilma e Lula são condenados e pedem asilo político em Cuba”.

[Foto também compartilhada de um post de Rodrigo Constantino]

Eduardo Chaves
26 de Outubro de 2014

Casoy e FHC, Datena e Dilma

Eis o texto da entrevista de FHC a Boris Casoy em 1985:

“Boris Casoy – Senador, o senhor acredita em Deus?

FHC – Essa pergunta o senhor disse que não me faria.

Casoy – Eu não disse nada.

FHC – Perdão, foi num almoço, sobre esse mesmo debate.

Casoy – Mas eu não disse se faria ou não faria.

FHC – É uma pergunta típica de quem quer levar uma questão que é íntima para o público, uma pergunta típica de quem quer simplesmente usar uma armadilha para saber a convicção pessoal do senador Fernando Henrique, que não está em jogo. Devo dizer ao senhor Boris Casoy que esse nosso povo é religioso. Eu respeito a religião do povo, as várias religiões do povo, automaticamente estou abrindo uma chance para a crença em Deus.

Casoy – A pergunta não foi respondida. Não se trata de armadilha, nem de convicção pessoal.”

O texto da entrevista foi retirado do artigo de Fernando de Barros e Silva na Folha de S. Paulo de hoje, 15/10/2010.

Entrevista da Dilma ao Datena, disponível no YouTube (http://www.youtube.com/watch?v=EpI3uptRXXY):

“Datena: A senhora acredita em Deus?

Dilma: Olha, eu acredito em uma força superior que a gente pode chamar de Deus. E acredito, mais do que nessa força superior, se você me permitir… acredito na força dessa Deusa-Mulher que é Nossa Senhora.”

É isso… 25 anos depois, a mesma pergunta. E 25 anos depois, a candidata Dilma se embananando na resposta, como o candidato FHC, antes.

Em São Paulo, 15 de Outubro de 2010

Metadiscussão da presente discussão do aborto

Resolvi entrar, de certo modo e até certo ponto, na presente discussão do aborto. Mas vou fazê-lo pela via indireta, trazendo à discussão três artigos, de autores que eu normalmente aprecio bastante: Contardo Calligaris (que conheci pessoalmente em um congresso realizado em Bento Gonçalves, há algum tempo), Hélio Schwartsman e Carlos Heitor Cony. Os três artigos apareceram na Folha de S. Paulo de ontem, mas eu só os li agora de madrugada.

Antes, um preâmbulo para justificar o meu título. Não vou discutir o aborto. Vou discutir a discussão do aborto. Por isso, o que farei aqui (e o que os três autores fazem em seus textos) é uma metadiscussão da atual discussão do aborto, não é realmente uma discussão do aborto.

Quero ressaltar cinco passagens: duas do artigo do Calligaris, duas do artigo do Schwartsman, e uma do artigo do Cony. (Ressalte-se que o psicanalista no artigo de Calligaris é, certamente, ele próprio).

Os dois pontos que me parecem importante no artigo do Calligaris são:

1)  Mesmo em contextos em que a questão do aborto é discutida academicamente, em geral de forma racional e desapaixonada, por pessoas favoráveis e contrárias (erroneamente chamadas de “pro escolha” e “pro vida”) ao aborto, é muito difícil chegar a uma conclusão clara e inequívoca que possa convencer ou persuadir a outra parte. Como diz Calligaris, esse tipo de discussão em geral não chega a conclusão alguma.

A razão por que essa discussão não chega a conclusão alguma me parece evidente. Ela envolve diversos tipos de questões:

* Questões conceituais ou filosóficas – epistemológicas (o que é a vida, quando ela começa, o que é a consciência, quando ela surge, o que é uma pessoa, quando é que algumas células se tornam uma pessoa?);

* Questões fáticas ou científicas (como as discutidas no caso de anencefalia, nas quais a minha amiga, e bióloga, Lenise Garcia, professora de microbiologia na Universidade de Brasília e católica praticante, membro do Opus Dei, vive se envolvendo);

* Questões filosóficas – éticas (o que é moralmente certo e errado, com base em que critério se decidem essas coisas?);

* Questões religiosas – teológicas (quando é que um erro moral é também pecado, há pecados que são mais sérios do que os outros, toda e qualquer forma de colocar um fim não natural à vida, como no aborto, na eutanásia, na ortotanásia, etc., é sempre pecado?).

As respostas a essas questões, quando dadas em contextos acadêmicos, em que a discussão se dá (ou deveria se dar) de forma racional e desapaixonada, em geral são qualificadas, cheias de nuances e semitons. Por isso é muito difícil chegar a uma conclusão clara e inequívoca acerca da questão do aborto e de outras questões equivalentes, mesmo quando elas são discutidas nesse tipo de contexto.

2) Diz Calligaris, no segundo ponto que resolvi ressaltar: “uma eleição é o pior momento para debater qualquer questão que seja. Numa eleição, as pessoas precisam ser a favor ou contra”. E, acrescente-se, numa eleição, os ânimos e as paixões estão exacerbados, por fatores que vão muito além daqueles que influem numa discussão acadêmica. Aqui as pessoas querem ganhar a eleição – e as pessoas (os eleitores, os entrevistadores) em geral esperam respostas claras e inequívocas de seus candidatos: sim ou não? Por isso, a discussão é qualquer coisa menos racional e desapaixonada.

3) O primeiro ponto que quero discutir do artigo de Schwartsman é o seguinte: Se a discussão de questões complexas, cujas respostas, em contextos acadêmicos, são forçosamente qualificadas, nuanceadas, semitonadas, é complicada no contexto de uma eleição, quando essas questões envolvem componentes religiosos e teológicos, a discussão se complica talvez além do gerenciável e o resultado da discussão fica além do ponderável. Discussões puramente teológicas, em Faculdades de Ciências de Religião ou em Seminários, ainda podem ser conduzidas num clima racional e desapaixonado. Mas discussões entre fiéis, entre crentes, são outra coisa. E discussões entre fiéis e crentes, de um lado, e gente que não crê, do outro lado, no contexto de uma eleição, são quase impossíveis. Os fiéis e crentes em geral esperam respostas inequívocas, claras e distintas, do tipo sim ou não. Os políticos, em condições normais, fogem desse tipo de resposta. Mas, no contexto da eleição, não conseguem fugir.

Eis o que diz Schwartsman: “As dificuldades surgem quando a religião se torna a justificativa para posições inegociáveis. Ao pautar a política por uma lógica espiritual, que opera com conceitos como o de pecado, o discurso religioso introduz absolutos morais em questões que não podem ser tratadas de forma dogmática ou maniqueísta sem negar a própria política. . . . Enquanto uma lei positiva se justifica por sua racionalidade, comporta gradações e pode ser objeto de negociação, o pecado, por ter sido definido por uma autoridade incontestável, vem na forma de pacotes inegociáveis. A própria lei de aborto, de 1940, é um exemplo. Ela veda o procedimento, mas prevê exceções (risco de vida para a mãe e estupro) que não são admissíveis na lógica puramente religiosa.”

Perfeito. Não tenho o que acrescentar. Só ilustro.

“O senhor acredita em Deus?” perguntou o Boris Casoy ao Fernando Henrique antes da eleição para prefeito municipal de São Paulo, contra o Jânio. O FHC, acadêmico de boa estirpe, mas, naquela ocasião, político inexperiente, hesitou, gaguejou, e não respondeu de forma clara e inequívoca. Ficou em generalidades e evasivas. O resultado todos conhecemos. O Jânio ganhou, embora estivesse atrás nas pesquisas (fato que levou FHC até a se sentar na cadeira do Prefeito, então ocupada por seu correligionário Mario Covas). É por isso que políticos experientes em geral não discutem essas questões, se podem evitar – especialmente quando são candidatos. Mas é difícil evitar, quando se tem de responder a uma pergunta direta e inesperada.

“A senhora acredita em Deus?”, perguntou à Dilma o Datena, em um vídeo no YouTube. Ela respondeu algo mais ou menos assim: “Acredito em uma força superior. Mas acredito acima de tudo na Deusa-Mulher, Nossa Senhora”. Complicado, não? Sim ou não? Deusa-mulher? Nem os católicos dizem que Nossa Senhora é deusa – dizem que é mãe de Deus. Os protestantes não dizem nem isso.

4) O ponto que quero discutir do artigo do Cony é o seguinte: Serra em geral sai melhor nesse contexto, por uma razão simples. É político mais experiente.

Eis o que diz o Cony:

“Acompanho emocionado o grau de religiosidade que baixou nos dois candidatos. Vi as fotos de Serra beijando um terço e de Dilma fazendo o sinal da cruz durante a missa na Basílica de Aparecida, que ambos visitaram para homenagear a padroeira do Brasil. A Constituição federal e os bons costumes permitem a prática de qualquer religião, inclusive a prática de não ter religião nenhuma, como é o caso do cronista, que teve uma estrada de Damasco às avessas.

Vamos aos fatos e às lendas. Num filme de John Ford (“O Homem que Matou o Facínora”), o editor do jornal aconselha ao seu redator: ‘Se há um fato e uma lenda, publique a lenda’.

A lenda não atinge o Zé Serra, que provavelmente já visitou o santuário em outras ocasiões, como governador do Estado. E nunca se marcou por uma atitude pública contrária aos valores religiosos. O mesmo não acontece com Dilma, que tem um passado de militante petista próxima à periferia marxista, que sempre considerou a religião como o ópio do povo.”

Fim da citação.

Acrescente-se que a Dilma não é política experiente. Por isso, já fez declarações claras e inequívocas, antes de ser candidata, e algumas extremamente obscuras, que não enganam ninguém, depois de sê-lo.

Sendo esses os fatos, não é difícil de entender por que a candidatura do Serra cresce e a da Dilma cai – aos poucos, mas claramente, e que a questão do aborto provavelmente tem algo que ver com isso.

5) Por fim, o segundo ponto do artigo do Schwartsman: Que os fiéis e crentes queiram saber o ponto de vista dos candidatos sobre questões que lhes interessam, e que pautem seus votos pelas respostas dos candidatos, é algo perfeitamente natural e legítimo. Isso não quer dizer que o Brasil esteja se transformando em uma “república fundamentalista”, como alguém acusou.

Diz o Schwartsman:

“Não que religiosos não devam opinar. Na democracia, clérigos são livres para pregar o que bem desejarem e eleitores só devem satisfações do voto a suas consciências. Na verdade, seria impossível pedir às pessoas que não levem em conta seus valores (às vezes amparados em ensinamentos teológicos) na hora de fazer suas escolhas.”

Acho que é isso, por enquanto.

Eis os três artigos.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1410201024.htm

Folha de S. Paulo

14 de Outubro de 2010

CONTARDO CALLIGARIS

A favor ou contra?

É o pior momento para argumentar, porque, numa eleição, as pessoas precisam ser a favor ou ser contra

NO QUE prometia ser um belo dia de primavera de meados dos anos 1970 em Paris, um jovem psicanalista trabalhava no plantão de uma enfermaria psiquiátrica.
Considerando a exiguidade do salário que ele recebia, seria mais correto dizer que ele estagiava. De qualquer forma, ele não estava ali pelo dinheiro, mas para enriquecer sua experiência dos caminhos pelos quais a gente enlouquece e sofre.

O jovem psicanalista estava sempre disposto a topar uma parada que pudesse lhe ensinar algo novo. Naquele dia, embora esta não fosse sua atribuição, ele, com um psiquiatra e dois enfermeiros, embarcou na ambulância que respondia a um chamado da polícia do bairro 13. O comissariado recebera o telefonema angustiadíssimo de um homem que acabava de encontrar sua mulher e sua filha de um jeito que não conseguia descrever, mas que, ele gritava, não era normal.

A ambulância chegou antes dos policiais. O marido, desculpando-se por não ter a coragem de voltar lá dentro, apontou na direção da porta do banheiro do apartamento.

O jovem psicanalista foi o primeiro a entrar e descobriu uma jovem mulher, deitada nua na banheira, cantando feliz enquanto brincava com seu bebê na água. A jovem mulher não pareceu perceber a chegada do estranho e o jovem psicanalista se deu conta de que o bebê era curiosamente inerte, rígido e branco: ele estava morto há tempo.

O jovem psicanalista nunca esqueceria o corpinho que ele apertou contra si, como se houvesse uma chance de esquentá-lo de volta para a vida.

Engravidar e dar à luz (apesar de ser o cotidiano da espécie) são experiências tão extremas que elas podem enlouquecer algumas mulheres, em geral temporariamente, logo após o parto.

A internação da mulher de nossa história durou pouco: ela foi declarada não imputável por razão de insanidade e recuperou a dita sanidade rapidamente.
Durante sua internação, soube-se que, dois anos antes, um irmão do bebê morto na banheira também tinha falecido, aos três meses, de morte súbita e inexplicada. A equipe do hospital se perguntou: não seria legítimo esterilizar compulsoriamente as mulheres que matassem seus bebês numa psicose desencadeada pelo parto? De fato, existe um risco estatístico de recidiva caso elas deem à luz outra vez.

A discussão não chegou a conclusão alguma; ficou suspensa entre o respeito pela esperança de uma mãe que quer tentar uma nova gravidez, a dificuldade de garantir o direito à vida dos nascituros e nossa incapacidade de prever, prevenir e intervir a tempo. Pouco importa, pois nisto eu acredito mesmo: todas as discussões que valem a pena são inconclusas.

Bastante tempo depois, o jovem psicanalista, que não trabalhava mais naquele hospital, recebeu um telefonema do psiquiatra que estivera com ele na ambulância. A jovem mulher da banheira pedira uma consulta na mesma enfermaria onde ela fora internada dois anos antes: ela estava grávida e queria saber se corria o risco de enlouquecer de novo e assassinar seu bebê no berço. Que ela perguntasse era um bom sinal, mas insuficiente para responder com segurança. O que fazer? Encorajá-la a abortar ou a apostar que nada aconteceria? Quem sabe sugerir que levasse a gravidez a termo e se engajasse a entregar o bebê, na hora do parto, para a assistência pública?

Não sei a resposta certa e é por isso que me lembrei dessa história.

Uma eleição é o pior momento para debater qualquer questão que seja. Numa eleição, as pessoas precisam ser a favor ou contra.

Ora, as pretensas discussões entre “a favor” e “contra” me inspiram o mesmo mal-estar que sinto quando assisto a uma cena de violência. Faz sentido porque, nessas discussões, ninguém argumenta, cada um apenas reafirma abstratamente sua identificação: em “eu sou a favor” e “eu sou contra”, o que mais importa é reforçar o “eu”. Com isso, inevitavelmente essas discussões menosprezam, atropelam e violentam a vida concreta de todos.

Depois desse preâmbulo, talvez eu consiga, numa coluna futura, escrever sobre a questão do aborto. Enquanto isso, eis uma leitura que recomendo a todos os que preferem pensar a gritar: “O Drama do Aborto: Em Busca de um Consenso”, de dois médicos, A. Faúndes e J. Barzelatto (Komedi). Sobre o tema, talvez esse seja o escrito mais honesto, menos tendencioso e mais generoso que já li.

ccalligari@uol.com.br

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1410201003.htm

Folha de S. Paulo

14 de Outubro de 2010

HÉLIO SCHWARTSMAN

Liturgia de campanha

SÃO PAULO – Não deixa de ser um pequeno milagre: mesmo sem ter desempenhado papel determinante na votação presidencial, a religião ganhou momento e passou a definir a liturgia da campanha.

É conveniente para todos. Padres e pastores posam de grandes eleitores, Dilma abafa um pouco o caso Erenice e Serra pode continuar sonhando com o advento sobrenatural que subtrairá votos à petista.

Institucionalmente, porém, a transubstanciação da campanha em concurso de coroinhas é algo a lamentar. Não que religiosos não devam opinar. Na democracia, clérigos são livres para pregar o que bem desejarem e eleitores só devem satisfações do voto a suas consciências. Na verdade, seria impossível pedir às pessoas que não levem em conta seus valores (às vezes amparados em ensinamentos teológicos) na hora de fazer suas escolhas.

As dificuldades surgem quando a religião se torna a justificativa para posições inegociáveis. Ao pautar a política por uma lógica espiritual, que opera com conceitos como o de pecado, o discurso religioso introduz absolutos morais em questões que não podem ser tratadas de forma dogmática ou maniqueísta sem negar a própria política.

Enquanto uma lei positiva se justifica por sua racionalidade, comporta gradações e pode ser objeto de negociação, o pecado, por ter sido definido por uma autoridade incontestável, vem na forma de pacotes inegociáveis. A própria lei de aborto, de 1940, é um exemplo. Ela veda o procedimento, mas prevê exceções (risco de vida para a mãe e estupro) que não são admissíveis na lógica puramente religiosa.

Utilizar absolutos na política -religiosos ou ideológicos- é ruim porque eles a descaracterizam como instância de mediação de conflitos. O remédio contra isso, como já intuíram no século 18 os “philosophes” do Iluminismo francês e os “founding fathers” dos EUA, é a separação Estado-igreja. É essa linha que fica meio borrada com a introdução da fé na corrida eleitoral.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1410201005.htm

Folha de S. Paulo

14 de Outubro de 2010

CARLOS HEITOR CONY

Estrada de Damasco

RIO DE JANEIRO – Doutores da alma humana garantiram que nunca é tarde para a conversão súbita. O caso mais famoso foi o de Saul de Tarso, que caiu literalmente do cavalo na estrada de Damasco e se transformou em são Paulo, apóstolo dos gentios e nome de um Estado da Federação brasileira.

Acompanho emocionado o grau de religiosidade que baixou nos dois candidatos. Vi as fotos de Serra beijando um terço e de Dilma fazendo o sinal da cruz durante a missa na Basílica de Aparecida, que ambos visitaram para homenagear a padroeira do Brasil. A Constituição federal e os bons costumes permitem a prática de qualquer religião, inclusive a prática de não ter religião nenhuma, como é o caso do cronista, que teve uma estrada de Damasco às avessas.

Vamos aos fatos e às lendas. Num filme de John Ford (“O Homem que Matou o Facínora”), o editor do jornal aconselha ao seu redator: “Se há um fato e uma lenda, publique a lenda”.

A lenda não atinge o Zé Serra, que provavelmente já visitou o santuário em outras ocasiões, como governador do Estado. E nunca se marcou por uma atitude pública contrária aos valores religiosos. O mesmo não acontece com Dilma, que tem um passado de militante petista próxima à periferia marxista, que sempre considerou a religião como o ópio do povo.

Os tempos mudam, e nós mudamos com o tempo, disse Lotário 1º, imperador do Ocidente -parece também uma citação do poeta Virgílio. Nada demais que, às vésperas da eleição presidencial, num país em que a maioria do povo tem uma religião qualquer, os candidatos procurem demonstrar que também cultivam uma fé e cumprem os seus ritos básicos. Tudo bem.

FHC comeu uma buchada de bode durante sua campanha, cerimônia menos light e de difícil digestão.

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Em São Paulo, 15 de Outubro de 2010



A Linha Amarela do metrô paulistano

Trabalho com tecnologia há 30 anos, desde 1980. Há coisas que a gente sabe com a cabeça – mas não sabe com o coração e o resto do corpo…

Uma delas é que um trem pode andar sozinho, controlado por computadores, sem condutores a bordo. E ir direitinho ao seu destino, parando nas estações no lugar certo, diminuindo a velocidade em curvas, e recebendo comunicação dos sensores que o fazem andar tão bem quanto se estivessem sendo conduzidos por um ser humano.

Quando morei ao lado de San Francisco, na California, em 1972-1973, foi inaugurado o Bay Area Rapid Transit System – BART, que já naquela época era para andar sem condutores. Um acidente na fase de testes – o trem parou depois da estação – fez com que um condutor fosse sempre colocado em cada trem, para prevenir emergências e impedir desastres. Agora, quase quarenta anos depois, a novidade chega a São Paulo, na Linha Amarela do metrô paulistano (que, com o pequeno trecho de 3 km inaugurado na semana passada passa a ter mais de 60 km – longe dos 400 e tantos km do metrô de Londres, mas já uma grande realização para o Brasil.

Hoje tive de ir à United, na Av Paulista 777, e resolvi, depois, ir conhecer a Linha Amarela do metrô, que está funcionando, em caráter de teste, entre as estações Paulistas e Faria Lima, num trecho de 3 km e um pouquinho. (Quando pronta, a Linha Amarela terá as seguintes estações: Luz, República, Higienópolis / Mackenzie, Paulista, Oscar Freire, Fradique Coutinho, Faria Lima, Pinheiros, Butantã, São Paulo / Morumbi,(a casa do SPFC) e Vila Sônia).

Foi emocionante. As viagens são gratuitas, no momento. O trem estava cheio de curiosos. O que mais chamava a atenção de todos era o fato de os trens correrem sem condutor. O primeiro vagão, com duas janelas laterais nos locais onde normalmente estaria o condutor, permite uma visão privilegiada do túnel. É uma experiência emocionante ficar ali. Na ida para a Faria Lima não me dei conta de que era possível ver o trem andando, sozinho, pelo subterrâneo da cidade. Mas na volta, me ajeitei, feito criança, para ficar bem no local mais privilegiado de todos. Incrível a experiência. O trem sai, acelera, reduz a velocidade quando passa nas obras das estações intermediárias e nas curvas mais fechadas, e, ao chegar na estação final, destino, reduz a velocidade e para absolutamente certo no local esperado. Abre as portas de dentro, depois as de fora, e pronto: estamos lá. Numa estação com ar condicionado.

Na ida, ouvia uma senhora, pobre e desdentada (só tinha um dente na boca) falar para um senhor: “Não deveriam gastar dinheiro com esse luxo. Imagine só quantas casas para os pobres que não têm casa eles poderiam construir com esse dinheiro”. Uma outra senhora, também com cara de pobre, imediatamente retrucou. “Não diga bobagem. Isso aqui também é para pobre. Sem isso, eu só conseguia vir para essa parte da cidade andando espremida feito sardinha em lata numa lotação. O Serra está aplicando muito bem o nosso dinheiro, fazendo essas coisas. Olhe só que beleza é andar num trem assim…”. Aparentemente ela convenceu a (mais) velha. Pois esta disse: “Então vamos andar pelo trem, porque neste dá para passar de um vagão para o outro por dentro do trem”. E lá foram as duas, alegres, serelepes… E eu, observando e pensando que iria escrever sobre isso.

A Estação Paulista da Linha Amarela fica, na realidade, na Rua da Consolação – e a Estação Consolação da Linha Verde fica na Av. Paulista… Para ligar as duas estações há um túnel com três esteiras rolantes e um caminho para quem não quer usar as esteiras. Tudo muito bonito, claro, limpo. A Estação Faria Lima fica no cruzamento da Avenida Brigadeiro Faria Lima com a Rua Cardeal Arcoverde e a Rua Theodoro Sampaio, ali cerca de 1 km do comecinho da Faria Lima, ao lado do Largo da Batata (que está sendo totalmente renovado). Para ir do meu apartamento (pego a Linha Verde na Estação Santos / Imigrantes) até à Fundação Telefónica (que fica na Avenida Faria Lima, 1.188), agora é um pulinho… Para a Paloma participar de reuniões no CENPEC, ou para eu ir visitar o Instituto Ayrton Senna ou a Criax, ficou fácil também – mais ainda quando abrir a Estação Fradique Coutinho. E ficou fácil ir até à Fnac da Pedroso de Morais (858) – o antigo Shopping Cultural Ática. (A Ática está hoje absorvida pela Abril Cultural, onde minha amiga Ana Teresa Ralston é Diretora de Tecnologia Educacional e Formação de Professores).

Na Estação Faria Lima há uma bela exposição fotográfica das realizações do Brigadeiro Faria Lima, que foi Secretário de Obras do Jânio e do Carvalho Pinto, Presidente do BNDE na gestão de Jânio na Presidência e, segundo consta, foi informado em 1969 de que seria o candidato do Governo Militar à Presidência da República (no lugar que veio a ser ocupado pelo Médici) quando teve um enfarte e morreu – no mesmo dia em que recebeu a notícia. 

É isso. Parabéns ao governo Serra por ter levado adiante a construção do metrô, em especial nas linhas Verde e Amarela, que me interessam mais de perto – e que são o símbolo desse nosso país carente de gente competente e honesta.

Em São Paulo, 28 de Maio de 2010

Taiwan: engraxates, tocos de cigarro no chão, maus espíritos e outras amenidades

No domingo, quando visitei Taroko State Park, as trilhas estavam bem molhadas. Havia chuvido até por volta de 9h da manhã, e, além disso, as pedras da montanha vertem água por muito tempo, depois que chove. Assim, inevitavelmente sujei os meus sapatos.

Quando chegamos de volta à estação ferroviária, perguntei ao meu guia se haveria algum engraxate na estação para me limpar os sapatos. "Xi, ele disse… vai ser difícil. Mas vou procurar". Não encontrou. E me explicou a razão — mas, no fundo, eu já pressentia qual era a explicação.

Limpar os sapatos dos outros em locais públicos é uma daquelas atividades que não pode custar muito caro — porque, se custar, as pessoas em geral não recorrem a ela. O preço razoável, em quase todo lugar desenvolvido ou semi-desenvolvido, fica entre três e cinco dólares americanos ou euros. Algo que custa no máximo cerca de seis ou sete reais. É razoável pagar isso. Mas dificilmente alguém estaria disposto a pagar, digamos, vinte dólares, ou quarenta reais, por um "shoe shine". O teto do preço que pode ser cobrado, portanto, determina que apenas pessoas bastante pobres se dispõem a entrar nessa ocupação, ainda que temporariamente. Em sociedades desenvolvidas, ou em elevado processo de desenvolvimento, as pessoas, ainda que com pouca qualificação profissional, conseguem um emprego que pague melhor e/ou tenha um status social mais alto em alguma outra atividade. Assim, somem os engraxates. Como aqui.

Isso explica porque não há mendigos e pedintes nas ruas. Antes de pedir, eles seriam encaminhados para o exercício da profissão de engraxate… É mais digno, na cultura local, ganhar uns trocados limpando sapatos do que pedindo esmola. Mas, como não há mendigos e pedintes, não há engraxates.

Algumas sociedades desenvolvidas recorrem a imigrantes para esses serviços: nos Estados Unidos, latinos dos países mais pobres (os negros pobres em geral são orgulhosos e se recusam a exercer a profissão — ou o fazem de forma inadequada: um minuto e meio uma engraxada de três dólares, pela qual eles esperam guardar os dois dólares de troco); na Suiça, portugueses; na Alemanha, turcos. E assim por diante.

Esses países tradicionalmente desenvolvidos têm políticas de imigração que gerenciam o fluxo de imigrantes, em especial nos períodos de maior demanda (alta temporada turística, no caso da Suiça, época da colheita, no Sul dos Estados Unidos). Taiwan parece não ter essas políticas até agora (que eu saiba). Vai precisar ter, mas não sentiu a necessidade ainda. É complicado entrar no país. Para brasileiros, por exemplo, exige-se, para a obtenção de visto de entrada, mesmo como turista, cópia da declaração de Imposto de Renda, comprovação de emprego, três últimos holleriths, carta convite, passagem de volta, etc. Tudo para garantir que você não permanecerá aqui depois de expirado o período de permanência autorizado. E se dá o visto para apenas uma entrada, a menos que você consiga provar que precisa de mais de uma. 

Por isso, não há engraxates em Taiwan. Eles ainda não deixam entrar os imigrantes mais pobres que estariam disposto a fazer o trabalho por aquilo que seria razoável cobrar.

Sinal de desenvolvimento econômico.

Mas vi, aqui, também, sinais de desenvolvimento cultural.

O formulário de solicitação de visto explicita, em letras muito bem visíveis, que o crime de porte de droga em Taiwan é punível com a morte. Simples. Alguém se arriscaria a entrar num país desses com drogas na mala ou na bolsa? Um ou outro doido de vez em quando arrisca — mas acaba sendo preso, condenado e executado. Os inimigos da pena de morte que me desculpem, mas é muito difícil achar usuários de drogas aqui — e muito mais difícil ainda achar os traficantes.

Mas não é preciso ir tão longe.

Crimes (sic) como jogar papel de bala, chicletes ou qualquer outra sujeira na rua têm penalidades altas — e, por vezes, incorrem na penalidade adicional de perda do emprego (fato que tem um estigma social muito forte). Passar a mão numa moça ou encostar-se nela dentro do metrô, também é crime sério.

Desenvolvimento cultural.

Mas a lei já fez o seu trabalho e esses costumes saíram da tradição cultural. Sábado, cedo, quando eu esperava o guia na porta do hotel, vi um senhor, de uns 70 anos, bem vestido e digno, vindo pela rua. Ele viu um toco de cigarro, abaixo-se e pegou-o. Mas à frente, havia outro. Fez a mesma coisa. Carregou os dois tocos de cigarro consigo até encontrar uma lixeira, quando se livrou deles. Alguém havia violado a lei, jogando os tocos de cigarro no chão, provavelmente durante a noite. O ilustre cidadão assumiu a responsabilidade de deixar a rua limpa como ela deveria ter permanecido.

Desenvolvimento cultural ainda mais sofisticado do que o mero cumprimento de uma lei que pune severamente.

Ontem, antes de eu sair para Tainan, percebi uma estranha movimentação na frente do hotel em Taipei (The Tango). Funcionários de todos os escalões, até da cozinha, estavam reunidos na calçada, havia uma mesa com comidas, bebidas, incenso, bandeirolas, bem como um latão em que algo pegava fogo. Perguntei à recepcionista que havia ficado no balcão o que era aquilo. Ela deu um sorrizinho meio sem graça e disse que ontem era o dia de afugentar os maus espíritos na tradição chinesa. Eles usam incenso, porque os maus espíritos não gostam do cheiro bom do incenso. Eles disponibilizam comida e bebida para os espíritos maus, porque estes, apesar de maus, gostam de comer e beber bem. E a lata com coisas queimando, perguntei? Ali se queimava um dinheiro falso: era um jeito de dar uma graninha aos maus espíritos para eles ficarem longe até o ano seguinte. Se os maus espíritos não vierem pegar a comida e a bebida, perguntei, o que vocês fazem com ela?  Daí a gente come, ela me disse com um sorrisinho malandro…

Fiquei pensando com os meus botões… Se a gente conseguisse afugentar os maus espíritos da política brasileira com incenso e dinheiro falso seria uma beleza, não? Mas os espíritos maus brasileiros gostam de cheiros bons (especialmente no corpo de uma mulher) e de dinheiro verdadeiro, do bom, de preferência de origem estrangeira — e tudo por baixo do pano, nada aberto assim na calçada… Se a gente conseguisse exorcizar esses maus espíritos, quem sabe a gente conseguiria também, com o tempo, o desenvolvimento cultural e o conseqüente desenvolvimento econômico de nosso estuprado país?  

 Em Taipei, 28 de Agosto de 2007

Comunicado (novo)

Comunico que pedi, ontem, exoneração do cargo de Secretário Adjunto de Ensino Superior do Estado de São Paulo, e meu pedido foi atendido pelo Secretário Pinotti. A exoneração foi publicada no Diário Oficial do Estado de hoje, sábado, 28 de abril de 2007.

Tive várias razões para tomar essa decisão, das quais destaco duas. 

A principal delas é não deixar que a forte oposição ao meu nome por uma parte da comunidade da UNICAMP — capitaneada pela esquerda nazi-comunista que encontra seu último bastião de influência na universidade — se tornasse um obstáculo constante ao trabalho de meu amigo pessoal de 25 anos, o Secretário Pinotti, por quem tenho grande admiração (que, registre-se, só aumentou durante todo esse episódio). Não busquei o cargo e nunca tive apego a ele. Não sou político e nunca tive filiação partidária. Cargo de confiança no governo não faz parte de minha visão de carreira profissional. Três vezes antes, nos menos de quatro meses que fiquei no Governo, coloquei o cargo à disposição do Secretário, que se recusou a aceitá-lo. Desta vez, porém, insisti que aceitasse e ele o fez. Assim será possível testar a hipótese, aventada por lideranças da UNICAMP (e, aparentemente, assumida até pelo Painel da Folha de 30/3), de que a oposição da universidade à Secretaria de Ensino Superior e ao governo atual teria, hoje, como causa principal, minha presença no governo, no cargo de Secretário Adjunto da Secretaria. Os ingênuos que acreditem. A conferir..

Uma causa secundária é que venho trabalhando sem receber. A Secretaria da Fazenda concluiu que o que percebo como aposentadoria da UNICAMP impede que eu receba o que seria o meu salário pelo cargo de Secretário Adjunto sem ultrapassar o teto de vencimentos do serviço público do Estado. Trabalhar de graça até vai, quando a gente tem satisfação no que faz. Trabalhar de graça nas condições atuais, em que tenho de explicar, quinzenalmente, ao Secretário e ao Governador, o conteúdo de dossiês anônimos mentirosos contra mim e de acusações, devidamente identificadas, na fonte e nos mensageiros, mas igualmente mentirosas, não faz sentido. Tenho mais o que fazer.

Aos que, com otimismo, demonstraram esperanças, quando de minha nomeação, de que alguma coisa pudesse mudar no ensino superior público paulista, em especial na área de Educação a Distância, lamento dizer que não vai ser fácil.   

Aos amigos, agradeço as manifestações de confiança e apoio. 

Em Salto, 28 de abril de 2007 

Aposentadoria e novo cargo

Comunico aos amigos que neste sábado, 13/1/2007, deverá ser publicada no Diário Oficial do Estado minha aposentadoria da UNICAMP, após 35 anos, 2 meses e 28 dias de serviço (contados até 31/12/2006).

Já há cerca de um ano que vinha tirando licenças prêmios e férias, antes de me aposentar. E antes disso tive um infarto e tirei licença saúde. Na verdade, sobraram-me 30 dias de férias, dos quais abri mão para poder me aposentador mais rapidamente.

A razão para a pressa é que fui nomeado pelo Governador José Serra, em 4/1/2007, Secretário de Estado Adjunto de Ensino Superior no Estado de São Paulo. Vou trabalhar com o Prof. José A. Pinotti, colega e amigo, com o qual já trabalhei aí na Reitoria da UNICAMP, de 1984 a 1986 (depois que deixei a Diretoria da FE), na Secretaria da Educação (1986-1987), onde fui Diretor do Centro de Informações Educacionais, e na Secretaria da Saúde (1987-1990), onde fui Diretor do Centro de Informações de Saúde.

A Secretaria de Estado de Ensino Superior foi criada agora e tem a tarefa de pensar a política de ensino superior do estado (questões, por exemplo, ligadas ao acesso/ingresso, à permanência ou evasão, à saída e à empregabilidade, etc. dos alunos de curso superior, em especial público.) Está no campo da missão da secretaria também a questão da eqüidade e como enfrentá-la: não parece justo que a universidade pública e gratuita seja freqüentada predominantemente por alunos mais ricos. O desenvolvimento da Educação a Distância nos níveis de Graduação e Pós-Graduação no Ensino Superior Público Paulista também está na missão da secretaria — e outras coisas mais. As três universidades estaduais paulistas (USP, UNICAMP e UNESP), bem como as Faculdades de Medicina de Marília e São José do Rio Preto, que são escolas isoladas mantidos pelo governo de São Paulo, passam a ficar vinculadas à secretaria. De igual modo o Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas, que será doravante presidido pelo Secretário. Por fim, passa a ficar vinculada à Secretaria a Fundação Memorial da América Latina (onde trabalha mais um grande amigo, este de infância, o Eliézer Rizzo de Oliveira, marido da Evelyna).

Será um grande desafio, porque estamos começando do nada. Embora só venha oficialmente a tomar posse dia 15, depois da publicação da minha aposentadoria no DOE, já estou trabalhando, das 7h40 até 19h40, 12 horas por dia, desde o dia 2/1/2007 (fato que explica a minha ausência deste blog que me é tão importante). Fico em São Paulo, perto do Palácio dos Campos Elíseos, na Rua Guianazes.

Ganhei mais um e-mail, no processo, na Rede Executiva do Estado: eduardochaves@sp.gov.br. Mas os e-mails antigos continuarão a funcionar.

É isso, por enquanto.

Em São Paulo, 11 de janeiro de 2007

Mais um aniversário do suicídio de Getúlio Vargas

Ontem se comemorou mais um aniversário da morte de Getúlio Vargas. Na madrugada de 24 de agosto de 1954, ele se suicidou com um tiro no coração. Lembro-me data ainda hoje. Estava a duas semanas de fazer onze anos. Morava em Santo André, com meus pais, numa casinha geminada na Av. Santos Dumont, 256. A casa tinha um quarto só, onde ficavam a cama de meus pais e o beliche em que eu e meu irmão mais novo dormíamos. Como moradia, era melhor do que a dos cubanos hoje — mas não tanto… Pastor protestante ganhava pouco naquela época. Meu pai tinha o hábito de ligar o rádio às 7 horas da manhã, na Tupi, para ouvir o "jornal falado" de Corifeu de Azevedo Marques. Quando ouviu que Getúlio estava morto, que havia se suicidado, desandou a chorar. Meu pai tinha 42 anos na época. Nunca o havia visto chorar antes — nem nunca vi depois, até a sua morte, em 1991. Mais do que o suicídio do presidente, cuja importância não conseguia compreender muito bem, ficou marcada na minha memória a experiência de ver o meu pai, pego com a guarda-baixa, na primeira hora da manhã, chorar.

Transcrevo abaixo a carta em que Getúlio apresentava os motivos de sua atitude. É uma bela peça de retórica política. Foi retirada da Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Carta_Testamento_de_Getúlio_Vargas.

"Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se novamente e se desencadeiam sobre mim.

Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se às dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a Justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás; mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente.

Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.

Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão. E aos que pensam que me derrotaram, respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue terá o preço do seu resgate.

Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia, não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História."

Em Salto, 25 de agosto de 2006 

45 anos sem Jânio Quadros no cenário político nacional

Hoje, 25 de agosto de 2006, faz 45 anos que Jânio da Silva Quadros renunciou ao seu mandato de Presidente do Brasil, poucos meses depois de uma acachapante vitória nas urnas. Não vou entrar aqui nos méritos e deméritos do político. Achava o homem bastante interessante.

Tive o privilégio de me encontrar pessoalmente uma vez com ele, no final de 1988, quando ele terminava o seu mandato como Prefeito de São Paulo — e, doente, concluía, relutantemente, sua participação na vida política. Jânio havia mandado pendurar umas chuteiras de futebol na porta de seu gabinete para indicar sua intenção de se aposentar como político. Fui visitá-lo com o então Secretário de Saúde do Governo Quércia, hoje Deputado Federal pelo PFL, José Aristodemo Pinotti, que, além de meu chefe na Secretaria (eu era Diretor do Centro de Informações e Informática em Saúde), era, e continua sendo, amigo meu. Éramos colegas na UNICAMP desde 1974, quando eu entrei na Universidade. Não que eu seja amigo de todos os meus colegas da UNICAMP… Os economistas de lá, Paulo Renato Costa Souza, José Serra, e alguns outros, prefiro ver só de longe…

Para entender o que aconteceu no final da reunião com o Jânio, preciso retroceder um pouco no tempo.

Depois de ter renunciado, Jânio Quadros continuou no cenário político até que foi cassado pelo regime militar. Recuperou, porém, seu direitos políticos em 1974, mas, por bom tempo, limitou-se a pronunciamentos, permanecendo afastado das eleições. Em 1982, entretanto, candidatou-se ao governo de São Paulo, mas perdeu. Em1985, entretanto, elegeu-se prefeito de São Paulo, derrotando o candidato do prefeito (biônico) Mário Covas (a quem nunca admirei), o suplente de senador Fernando Henrique Cardoso (a quem admirava menos ainda, como se possível), que viria a ser Presidente da República. Um presidente passado derrotando um futuro. Seu mandato como prefeito foi até o fim de 1988.

Durante 1985 eu era Assessor Especial (um equivalente ao Pró-Reitor de hoje) de Pinotti, que, na época, era Reitor da UNICAMP. Na ocasião, foi dado um almoço na Reitoria, com a participação do mais alto escalão da Universidade, em homenagem ao Fernando Henrique. Eu era o único membro da equipe da Reitoria que torcia, abertamente, pelo Jânio. Dias antes do almoço, andando pelo prédio da Reitoria, vi que estavam reformando uma sala que havia sido ocupada pelo ex-Reitor e fundador da UNICAMP, Zeferino Vaz, depois de ter deixado a Reitoria. Havia virado uma espécie de museu do ex-Reitor. Algumas das relíquias preservadas por ele estavam jogadas pelo chão, meio sujas de tinta, entre elas uma foto de Jânio Quadros, tirada quando fora Governador do Estado em 1966. Jovem, até bonitão — embora já com o olho meio torto… A foto continha a seguinte dedicatória: "Ao Prof. Zeferino Vaz, meu amigo e companheiro, com o respeito que merece a grande obra de Ribeirão Preto, o admirador, J. Quadros. 7.1.59". Ao ver aquela foto ali jogada, correndo o risco de ser destruída, peguei-a, coloquei-a na minha sala, e fui ver o Reitor, comunicando-lhe: "Encontrei uma foto do Jânio dada ao Zeferino em 1959, jogada lá embaixo. Levei-a para minha sala. Se alguém a procurar, está comigo." Nunca ninguém procurou.

Quando o resultado da eleição de 1985 saiu, estava em Nova York, a serviço. Essa foi a eleição em que Fernando Henrique Cardoso se deixou fotografar, antes da eleição, sentado na cadeira de seu amigo Covas, considerando-se eleito antes das eleições. Bom, perdeu. E eu comemorei sozinho em Nova York, indo assistir a uma audição coral numa Igreja Batista do Harlem. Senti-me vingado da hostilidade das forças defensoras da candidatura do Fernando Henrique — as mesmas que foram o PSDB de hoje.

Quando se preparava para ir ao encontro de Jânio, para pedir que cedesse alguns terrenos da Prefeitura de São Paulo para a construção de Centros de Saúde, Pinotti me ligou e disse: "Estou indo visitar o seu ídolo: quer ir junto?" Não pensei duas vezes. Larguei o que estva fazendo, avisei minha secretária que iria sair por umas duas horas, peguei o paletó e fui.

No final da visita a Jânio, Pinotti disse ao ex-Presidente: "Presidente, o Eduardo Chaves, meu colega na UNICAMP e meu assessor na Secretaria, é um fã incondicional seu. Tanto que mantém em sua sala até hoje [isso era brincadeira, vale dizer, mentira] uma foto sua". A isso eu acrescentei: "Que eu obtive por meios, talvez, não muito lícitos…" — e contei a história da foto ao Jânio. Ele deu uma tirada das que o fizeram famoso: "Licitamente ou não, Professor, o importante é que a tenha adquirido!". E chamou sua secretária, uma senhora já de idade que o acompanhava há décadas, e lhe mandou que me desse uma foto atualizada dele — que guardo, carinhosamente, junto da primeira. Achei divertido o comentário e gentil o ato.

Quanto às tiradas de Jânio, lembro-me de duas outras que me são especialmente caras.

Creio que durante à candidatura a Prefeito, ele foi ao programa da Hebe Camargo. E conversando com ela, disse que jornalistas são todos uns cachorros. Ela ficou hebecamargamente horrorizada e, também hebecamargamente, o repreendeu. "Como é que o senhor pode dizer uma coisa dessas, Presidente!". Ele pensou um  pouco e disse: "Está certo… Penitencio-me. Cometi uma injustiça tremenda: contra os cachorros…"

Durante uma entrevista na TV Bandeirantes (acho que era "Crítica e Autocrítica"), durante a mesma candidatura, Jânio, que agora concorria contra Fernando Henrique, foi indagado se, na eleição anterior, havia votado para Fernando Henrique para Senador. Ele disse que sim, e explicou: "Votei porque achei que, como Senador, seria bom, homem inteligente que é. Mas como Administrador, ele nunca provou a que veio, não tendo sequer conseguido administrar a própria cátedra na USP". Um pouco de maldade, aí, porque Fernando Henrique foi aposentado prematuramente da USP pelos militares. Mas, aqui entre nós, uma maldadezinha bem aplicada…

Em fim… Agora, em vez das tiradas inteligentes do Jânio, temos de conviver com o besteirol do Lulla. No plano da inteligência, da linguagem e do humor, perdeos muito. Suspeito que politicamente também tenhamos perdido.

Fica aqui minha homenagem a um homem interessante e um político como poucos.

Este o texto da Carta Renúncia de Jânio, segundo a Wikipedia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Jânio_Quadros)

"Fui vencido pela reação e assim deixo o governo. Nestes sete meses cumpri o meu dever. Tenho-o cumprido dia e noite, trabalhando infatigavelmente, sem prevenções, nem rancores. Mas baldaram-se os meus esforços para conduzir esta nação pelo caminho de sua verdadeira libertação política e econômica, a única que possibilitaria o progresso efetivo e a justiça social, a que tem direito o seu generoso povo.

Desejei um Brasil para os brasileiros, afrontando, nesse sonho, a corrupção, a mentira e a covardia que subordinam os interesses gerais aos apetites e às ambições de grupos ou de indivíduos, inclusive do exterior. Sinto-me, porém, esmagado. Forças terríveis levantam-se contra mim e me intrigam ou infamam, até com a desculpa de colaboração.

Se permanecesse, não manteria a confiança e a tranqüilidade, ora quebradas, indispensáveis ao exercício da minha autoridade. Creio mesmo que não manteria a própria paz pública.

Encerro, assim, com o pensamento voltado para a nossa gente, para os estudantes, para os operários, para a grande família do Brasil, esta página da minha vida e da vida nacional. A mim não falta a coragem da renúncia.

Saio com um agradecimento e um apelo. O agradecimento é aos companheiros que comigo lutaram e me sustentaram dentro e fora do governo e, de forma especial, às Forças Armadas, cuja conduta exemplar, em todos os instantes, proclamo nesta oportunidade. O apelo é no sentido da ordem, do congraçamento, do respeito e da estima de cada um dos meus patrícios, para todos e de todos para cada um.

Somente assim seremos dignos deste país e do mundo. Somente assim seremos dignos de nossa herança e da nossa predestinação cristã. Retorno agora ao meu trabalho de advogado e professor. Trabalharemos todos. Há muitas formas de servir nossa pátria."

Brasília, 25 de agosto de 1961.

Jânio Quadros"

Em Salto, 25 de agosto de 2006