O Rei do Paraíso Imaginário (ou: Indico Lulla para a ABL)

Já fui assinante de VEJA algumas vezes, quando recebia uma oferta bastante boa. Uma vez, em 1995 ou 1996, o UniBanco me deu uma assinatura anual para abrir uma conta lá – conta que fechei recentemente, quando o UniBanco foi absorvido pelo Itaú. Entre assinaturas, compro um ou outro número na banca, quando há alguma matéria de meu especial interesse. Hoje, assino EXAME – mas sempre estou com um olho na VEJA, por suas denúncias de corrupção no governo, pelos artigos do Diogo Mainardi, etc.

Estou pensando seriamente em voltar a assinar a revista – especialmente se arrumarem uma assinatura eletrônica em que a revista é entregue no meu iPad recentemente adquirido. Já comprei dois números, desde que recebi o iPad, segunda-feira passada: o de 24/11 e o de 1/12 – e ganhei o de 8/12 de brinde, porque o iPad é assunto de capa. A edição da revista no iPad é fabulosa.

Mas comprei um dos números mencionados por causa do artigo de J. R. Guzzo, transcrito abaixo. E, no número de 8/12, que ganhei de brinde, há um outro artigo fabuloso dele, que vou procurar transcrever nos próximos dias. Se voltar a assinar a revista, será por causa dos artigos de J. R. Guzzo.

Abril, se toque: coloque rapidamente à disposição dos assinantes uma assinatura de VEJA via iPad.

Quanto ao artigo abaixo, sugiro que Lulla seja indicado para a Academia Brasileira de Letras pela sua contribuição à ficção nacional. Sempre tive dúvida (e ainda ontem discuti o assunto com a Paloma) se faz sentido falar em Letras Orais (porque seria essa a especialidade presidencial), ou em pessoas que seriam consideradas letradas mas são analfabetas, ou em pessoas que seriam letradas em artes que nada têm que ver com a letra, em si, (como pintura, fotografia, gráficos, etc.)…

Em todo caso, vale o artigo. E o lançamento do quase ex-presidente à ABL é sério – tão sério como a instituição à qual o indico.

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VEJA,
24 de novembro de 2010

Paraíso Imaginário

J. R. GUZZO

De todos os presidentes que o Brasil já experimentou em seus 121 anos de República, provavelmente nenhum teve tanto sucesso em criar um mundo imaginário como Luiz Inácio Lula da Silva. às vésperas de passar o cargo para a sua sucessora, Lula dá a impressão, pelo menos quando fala em público, de acreditar cada vez mais num Brasil que inventou na sua própria cabeça – um Brasil curiosamente parecido com o paraíso terrestre que se pode ver todos os dias na televisão, nos anúncios da Petrobrás, do Banco do Brasil e de outros agentes da propaganda oficial.

É como se o presidente assistisse àquilo tudo, na sua poltrona do Palácio do Planalto, e acreditasse, realmente, que está olhando para um documentário com a imagem de fatos reais; casais felizes correndo com os filhos em gramados impecáveis, operários entusiasmados, transbordando de alegria em uniformes cortados sob medida e sem a mínima mancha de graxa, rostos de todas as raças com sorrisos luminosos nos lábios, máquinas de última geração, plataformas de petróleo em mar de almirante, fábricas do terceiro milênio, usinas espetaculares, todo um mundo de eficiência, operosidade e riqueza. O que mais? Mais tudo aquilo que bons diretores de filmes comerciais conseguem enfiar num anúncio de TV quando são encarregados de inventar uma vida ideal – seja para exibir a família em estado de adoração diante da margarina que vai consumir no café da manhã, seja para mostrar o cidadão comum sendo recebido numa agência bancária como um príncipe da Casa Real da Inglaterra.

Este é, hoje, o Brasil do presidente Lula – e o melhor, para ele, é a quantidade de gente que acredita a mesma coisa, ou algo parecido. Se o homem diz que o país vive uma época de ouro (“estamos num momento mágico”, informa ele), e tanta gente concorda, ou tão pouca gente se dá ao trabalho de discordar, por que não continuar com a mesma procissão? É exatamente o que Lula vem fazendo. Na verdade, em vez de apenas continuar, vai aumentando o conto. “Temos indicadores sociais dos países desenvolvidos”, disse ele tempos atrás – um fenômeno, realmente, em matéria de invenção direta na veia, quando se considera que o Brasil não tem simplesmente nenhum indicador comparável aos do Primeiro Mundo, um só que seja, em àreas fundamentais como educação, saúde, esgotos, transporte coletivo, criminalidade, rodovias, ferrovias, portos, aeroportos e por aí afora. Não tem competência, sequer, para montar um exame de escola como o Enem – mas Lula está convencido, e convenceu o público em geral, de que isso que se vê aí é o Brasil-potência. Da mesma forma, em sua última viagem à África, falou, ao passar por Moçambique , no prodigioso sucesso da política brasileira de ajuda aos países pobres. Justamente em Moçambique – onde o seu governo prometeu, num acordo assinado em 2003, doar aos moçambicanos uma fábrica de remédios que até hoje, sete anos depois, ainda não conseguiu produzir uma única pastilha contra tosse. Julga-se capaz, em encontros como o que acaba de ser feito pelo G-20 em Seul, de intimidar as grandes potências; voltou de lá, mais uma vez, sem que sua presença tivesse alterado coisa alguma.

Lula sempre conseguiu tirar mais benefícios dos seus defeitos do que de suas qualidades; na construção dessas fantasias todas sobre o Brasil Grande, tem se mostrado capaz, também de construir fantasias sobre si mesmo e colocar-se sempre no papel de herói que “este país” nunca teve. Sua mais recente realização no gênero é dizer que foi “o primeiro presidente que teve coragem” de comprar um Airbus de última geração para a Presidência da República. Assim fica tudo muito fácil; se a compra do Aerolula é um ato de bravura, então não há nada que possa estar errado com o seu governo em geral e, menos ainda, com ele em particular. Nem o exame do Enem. Quando o desastre aconteceu, Lula disse que a prova tinha sido um “sucesso total e absoluto” e, como sempre, veio com suas ameaças sobre “gente interessada” no fracasso da sua política educacional. Quando, logo em seguida, achou que perdia mais do que ganhava ao sustentar um disparate desse tamanho, saltou fora de sua convicção sobre o “sucesso total e absoluto” e passou a dizer que o exame poderia ser refeito quantas vezes fosse necessário. E dai? A vida é essa. Como o burrinho pedrês de Guimarães Rosa, Lula nunca entra em lugar de onde não possa sair; seja lá o que diga ou o que faça, sempre resolve seu problema, se alguma coisa der errado, desdizendo o que disse ou desfazendo o que fez.

É o mundo da imaginação.

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Em São Paulo, 5 de Dezembro de 2010

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