A Linha Amarela do metrô paulistano

Trabalho com tecnologia há 30 anos, desde 1980. Há coisas que a gente sabe com a cabeça – mas não sabe com o coração e o resto do corpo…

Uma delas é que um trem pode andar sozinho, controlado por computadores, sem condutores a bordo. E ir direitinho ao seu destino, parando nas estações no lugar certo, diminuindo a velocidade em curvas, e recebendo comunicação dos sensores que o fazem andar tão bem quanto se estivessem sendo conduzidos por um ser humano.

Quando morei ao lado de San Francisco, na California, em 1972-1973, foi inaugurado o Bay Area Rapid Transit System – BART, que já naquela época era para andar sem condutores. Um acidente na fase de testes – o trem parou depois da estação – fez com que um condutor fosse sempre colocado em cada trem, para prevenir emergências e impedir desastres. Agora, quase quarenta anos depois, a novidade chega a São Paulo, na Linha Amarela do metrô paulistano (que, com o pequeno trecho de 3 km inaugurado na semana passada passa a ter mais de 60 km – longe dos 400 e tantos km do metrô de Londres, mas já uma grande realização para o Brasil.

Hoje tive de ir à United, na Av Paulista 777, e resolvi, depois, ir conhecer a Linha Amarela do metrô, que está funcionando, em caráter de teste, entre as estações Paulistas e Faria Lima, num trecho de 3 km e um pouquinho. (Quando pronta, a Linha Amarela terá as seguintes estações: Luz, República, Higienópolis / Mackenzie, Paulista, Oscar Freire, Fradique Coutinho, Faria Lima, Pinheiros, Butantã, São Paulo / Morumbi,(a casa do SPFC) e Vila Sônia).

Foi emocionante. As viagens são gratuitas, no momento. O trem estava cheio de curiosos. O que mais chamava a atenção de todos era o fato de os trens correrem sem condutor. O primeiro vagão, com duas janelas laterais nos locais onde normalmente estaria o condutor, permite uma visão privilegiada do túnel. É uma experiência emocionante ficar ali. Na ida para a Faria Lima não me dei conta de que era possível ver o trem andando, sozinho, pelo subterrâneo da cidade. Mas na volta, me ajeitei, feito criança, para ficar bem no local mais privilegiado de todos. Incrível a experiência. O trem sai, acelera, reduz a velocidade quando passa nas obras das estações intermediárias e nas curvas mais fechadas, e, ao chegar na estação final, destino, reduz a velocidade e para absolutamente certo no local esperado. Abre as portas de dentro, depois as de fora, e pronto: estamos lá. Numa estação com ar condicionado.

Na ida, ouvia uma senhora, pobre e desdentada (só tinha um dente na boca) falar para um senhor: “Não deveriam gastar dinheiro com esse luxo. Imagine só quantas casas para os pobres que não têm casa eles poderiam construir com esse dinheiro”. Uma outra senhora, também com cara de pobre, imediatamente retrucou. “Não diga bobagem. Isso aqui também é para pobre. Sem isso, eu só conseguia vir para essa parte da cidade andando espremida feito sardinha em lata numa lotação. O Serra está aplicando muito bem o nosso dinheiro, fazendo essas coisas. Olhe só que beleza é andar num trem assim…”. Aparentemente ela convenceu a (mais) velha. Pois esta disse: “Então vamos andar pelo trem, porque neste dá para passar de um vagão para o outro por dentro do trem”. E lá foram as duas, alegres, serelepes… E eu, observando e pensando que iria escrever sobre isso.

A Estação Paulista da Linha Amarela fica, na realidade, na Rua da Consolação – e a Estação Consolação da Linha Verde fica na Av. Paulista… Para ligar as duas estações há um túnel com três esteiras rolantes e um caminho para quem não quer usar as esteiras. Tudo muito bonito, claro, limpo. A Estação Faria Lima fica no cruzamento da Avenida Brigadeiro Faria Lima com a Rua Cardeal Arcoverde e a Rua Theodoro Sampaio, ali cerca de 1 km do comecinho da Faria Lima, ao lado do Largo da Batata (que está sendo totalmente renovado). Para ir do meu apartamento (pego a Linha Verde na Estação Santos / Imigrantes) até à Fundação Telefónica (que fica na Avenida Faria Lima, 1.188), agora é um pulinho… Para a Paloma participar de reuniões no CENPEC, ou para eu ir visitar o Instituto Ayrton Senna ou a Criax, ficou fácil também – mais ainda quando abrir a Estação Fradique Coutinho. E ficou fácil ir até à Fnac da Pedroso de Morais (858) – o antigo Shopping Cultural Ática. (A Ática está hoje absorvida pela Abril Cultural, onde minha amiga Ana Teresa Ralston é Diretora de Tecnologia Educacional e Formação de Professores).

Na Estação Faria Lima há uma bela exposição fotográfica das realizações do Brigadeiro Faria Lima, que foi Secretário de Obras do Jânio e do Carvalho Pinto, Presidente do BNDE na gestão de Jânio na Presidência e, segundo consta, foi informado em 1969 de que seria o candidato do Governo Militar à Presidência da República (no lugar que veio a ser ocupado pelo Médici) quando teve um enfarte e morreu – no mesmo dia em que recebeu a notícia. 

É isso. Parabéns ao governo Serra por ter levado adiante a construção do metrô, em especial nas linhas Verde e Amarela, que me interessam mais de perto – e que são o símbolo desse nosso país carente de gente competente e honesta.

Em São Paulo, 28 de Maio de 2010

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