O avô paterno do meu neto Gabriel

 Faz mais de um mês que não escrevo – e volto para tocar num assunto triste…

O avô paterno do meu neto mais velho, o Gabriel, foi informado esta semana de que tem, no máximo, mais dois meses de vida. No dia do último aniversário do Gabriel, 30 de setembro, sentei-me ao lado dele na festa e conversamos o tempo todo. Estava bem. Sentia-se bem. Tinha excelente aparência. Aposentado, andava todo dia, comia sensatamente, e preocupava-se com a saúde. De repente, há pouquíssimo tempo, começou a sentir-se fraco, ninguém descobria o que tinha, até que, a semana passada, em operação feita para explorar a causa do problema, descobriu-se que tinha um câncer galopante e que o fim estava próximo.

Nos últimos dois dias está acontecendo uma corrida contra o tempo em que ele tenta colocar em dia aquilo que pode para facilitar a vida da mulher e dos filhos: contas bancárias, investimentos, escrituras, pequenos detalhes da vida que a gente nunca arruma porque nunca imagina que os dias da gente estão contados.

Seria melhor morrer de repente e deixar aos sobreviventes essas ingratas tarefas? Ou seria melhor ter uma agonia prolongada, como tempo suficiente para arranjar as coisas, sem necessidade de correr desesperadamente contra o tempo? Ou seria melhor ser imortal e nunca morrer?

Karl Popper disse, em algum lugar, com muita sabedoria, que é a morte que acaba por dar sentido à vida. A morte significa – para usar um truísmo sem par – o fim da vida. E é porque a vida tem fim, e, na verdade, pode terminar a qualquer instante, que é possível imprimir a ela algum sentido. Se não morrêssemos, se fôssemos indestrutíveis, não teríamos necessidade de valores. Precisamos de valores porque são eles que orientam as nossas escolhas, e a vida humana é feita de escolhas e opções – porque não é eterna. Na verdade, nossa natureza é tal que precisamos escolher, a cada momento, no mínimo se continuamos a viver ou se nos deixamos perecer. Se não agirmos, se não fizermos um esforço consciente para nos sustentar e nos manter vivos, morremos (a menos que outros nos sustentem e cuidem de nós – em cujo caso, não vivemos nós: tornamo-nos parasitas). Mas o que dá maior sentido e importância à vida é o fato inegável de que, mesmo que escolhamos viver, a vida tem um fim, que (a menos que conscientemente optemos por ele, pelo suicídio) independe de nós, e que pode nos sobrevir repentinamente, sem nenhuma decisão de nossa parte.

O menino do Rio de Janeiro que morreu aos seis anos, arrastado por um carro, e que agora ocupa os noticiários, teve sua vida ceifada abruptamente, sem que pudesse ter feito muitas escolhas ao longo de sua curta vida. Meu amigo Ernesto teve uma vida boa até aqui, cheia de realizações e prazeres. Teve um casal de filhos bem sucedidos na vida, tem um casal de netos lindos, um dos quais tenho a boa fortuna de compartilhar com ele. Viajou bastante, desfrutou a vida. Sabia apreciar a boa comida, o bom vinho. Tem uma casa linda no alto do morro da Ilha Bela, que oferece a vista mais deslumbrante que já me foi dado admirar. Tenho certeza de que ele daria essa casa e muito mais para ter algum tempo mais de vida – se tivesse a escolha.

Há quase cinco anos atrás, no dia, tive um infarto agudo do miocárdio. Era 1º de março de 2002. Estava aparentemente bem de saúde. Tinha resolvido uma série de pendências complicadas: processos na Justiça, decorrentes de brigas homéricas com ex-sócios e ex-amigos, que poderiam ter representado minha falência comercial e total desastre para minhas finanças pessoais e minha auto-estima. Havia, com parte do dinheiro resultante dos acordos, comprado um sítio aqui em Salto, onde me encontro agora – um sítio pequeno, mas lindo e delicioso, além de ser perto de casa. Achei que ia finalmente começar a viver, e quase morro. Fiquei dias na UTI. Meu prontuário (tenho xerox) registra que fui recebido no hospital em “condição crítica”. Sobrevivi, por obra e graça de atendimento competente, na UNICAMP e no UNICOR de Campinas. Vivo, como gosto de pensar, na prorrogação – talvez, sem saber, nos descontos, o juiz podendo apitar o fim do jogo a qualquer momento. E, é que é prorrogação, sei que pode terminar com o “gol de ouro” – e esse gol de ouro não será meu… No entanto, conto com a chance, tenho um monte de coisas desarrumadas na vida que, a menos que eu tome um pouco mais de juízo, ficarão para meus descendentes arrumar. . .

Nossas escolhas são livres, mas pagamos um preço por elas. Ayn Rand uma vez disse que somos livres para escolher como desejamos, mas não somos livres para evitar as conseqüências de nossas escolhas. Uma desatenção ao atravessar uma rua pode cobrar o seu preço de imediato. A escolha de fumar, ou de comer picanhas gordurosas, quando somos jovens, pode vir a cobrar seu preço 30 ou 40 anos depois. Para enriquecer mais rápido, optamos por estilos de vida estressantes. Tentamos de forma tão intensa ganhar a vida que não percebemos que a estamos perdendo no processo.

Nem de longe quero sugerir que meu amigo Ernesto colhe agora o fruto de decisões mal tomadas antes na vida. Mesmo que tomemos sempre decisões corretas, a vida tem um fim, que pode chegar mais cedo ou mais tarde. Esse, talvez, o sentido trágico da vida de que falava Unamuno. No meu caso, tenho perfeita consciência de que poderia ter vivido uma vida diferente e ter, quem sabe, me safado do infarto de 2002. Mas também tenho perfeita consciência de que poderia ter morrido em decorrência do infarto – tantos morrem! E me pergunto: por que eu consegui me safar, se não do infarto, de suas piores conseqüências? E me pergunto também: por que o menino do Rio de Janeiro não teve nenhuma chance na vida? Ou, então, por que o meu neto Guilherme morreu, uma semana depois de nascido, mas quase três meses antes da data em que deveria estar nascendo?

Não há resposta convincente para essas perguntas. Quem acredita em Deus atribui essas coisas todas à sua vontade (sua, no caso, dele – ou d’Ele, como eles gostam de escrever). Quem não acredita fica condenado a acreditar no destino – ou na sorte, que é a mesma coisa.

Comecei essa crônica falando do avô do Gabriel. Passo a falar dele. Como é que um menino inteligente, mas de apenas sete anos, lida com essas coisas? Há dias ele perguntou ao pai dele se o avô poderia morrer em decorrência da doença, e o pai lhe disse a verdade, que sim. Como é que uma criança processa essas coisas, lida com elas? Será que ele tem consciência de que eu já poderia ter ido – ou que, do jeito que são as coisas, poderei ainda ir antes do outro avô dele?  

Seria bom que a gente aprendesse lições das experiências que a vida nos traz e aprendesse a planejar a vida com cuidado, fazer escolhas certas. A vida não é eterna. Se o fosse, num sentido terreno, que eliminasse a possibilidade da morte (e não no sentido dos Evangelhos, em que a vida eterna só vem depois da morte), não precisaríamos fazer escolhas, tomar decisões… Poderíamos viver perigosamente, comer tudo o que quiséssemos, sem correr riscos. Se gostássemos de literatura e filosofia, poderíamos escolher estudar a primeira durante um século e a segunda durante o século seguinte – que diferença faz um século diante da eternidade? Escolher uma coisa não significaria, neste caso, necessariamente, abrir mão da outra. . . Se gostássemos de várias mulheres, de forma igual, poderíamos escolher viver com todas, com cada uma durante, digamos, cinco décadas (ou seria isso demais até mesmo diante da eternidade?) . . . Novamente, escolher uma coisa não significaria, neste caso, necessariamente, abrir mão da outra, mesmo mantendo uma fidelidade “serial” – fidelidade a cada uma de cada vez . . . Mas, feliz ou infelizmente, sei lá, a vida não é eterna. A vida que temos é essa, que tem fim e cujo fim é imprevisível, podendo ser apressado pelas escolhas que fazemos enquanto nos é dado escolher.

Que sentido teria a vida se as escolhas que fazemos não cobrassem seu preço – ou se a vida não tivesse fim, independentemente de nossas escolhas?

Em Salto, 17 de fevereiro de 2007

Acréscimo de 18 de fevereiro de 2007: menos de 24 horas depois de eu escrever e publicar esse texto, Ernest Wild, avô paterno do meu neto Gabriel, sogro de minha filha mais velha, e meu amigo, faleceu em São Paulo.

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