Meet Joe Black — ou Komm, süsser Tod

David Hume, filósofo escocês do século XVIII, sobre o qual escrevi minha tese de doutoramento, escreveu uma vez um ensaio sobre milagres, em que (entre outras coisas) estabeleceu uma distinção entre eventos miraculosos (miracula) e eventos maravilhosos (mirabilia). Estes são eventos que raramente acontecem – mas que encontram, em nossa experiência pessoal, alguns exemplos. Se alguém que estava seriamente doente de repente sara, isso é, segundo Hume, um evento maravilhoso. Embora não com freqüência, a maior parte de nós já viu isso acontecer. Se, entretanto, alguém que estava morto e enterrado há três dias volta à nossa convivência, isso seria, segundo Hume, um milagre. Nenhum de nós (garante ele) jamais viu isso acontecer. Assim sendo, o evento, se acontecesse, contrariaria toda a nossa experiência pessoal – o que comprovaria o seu caráter miraculoso.

A questão principal a que se dedica o ensaio de Hume é se relatos de eventos miraculosos — o fato de serem relatos pressupõe que nós mesmos não os presenciamos — são críveis ou devem ser sumariamente desconsiderados. A resposta dele é que devem ser sumariamente desconsiderados. A única hipótese em que ele se dispõe a acreditar que um milagre relatado de fato aconteceu é se a possibilidade de que quem relatou estivesse enganado ou tentando enganar fosse ainda mais miraculosa do que o fato relatado.

Mas não vou entrar nessa questão. Fiz esse preâmbulo todo para dizer que geralmente não gosto de livros ou filmes que tratam de eventos miraculosos ou mesmo maravilhosos (na acepção Humeana). A exceção é Encontro Marcado (Meet Joe Black – 1998, direção impecável de Martin Brest), com Brad Pitt (no papel de Joe Black, a Morte), o incomparável Anthony Hopkins (no papel do empresário Bill Parrish) e uma das figuras femininas mais doces da tela: Claire Forlani (no papel de Susan Parrish). O restante dos atores está bem lançado mas tem papel claramente subsidiário.

O filme começa com duas momentos bem construídos.

No primeiro, Brad Pitt encontra Claire Forlani numa lanchonete. Parece um caso daqueles em que, num primeiro encontro, um raio fulmina os dois e os deixa fascinados um pelo outro. Mas eles se separam e, sem que ela saiba, ele é atropelado ao virar para trás no meio da rua para verificar se ela está olhando para ele. Atropelado e morto.

No segundo, Anthony Hopkins tem um infarto e é confrontado pela Morte – já encarnada em (no corpo de) Brad Pitt. Desejoso de aprender um pouco mais sobre a vida, a Morte tinha de assumir um corpo humano, e por isso assumiu o corpo do rapaz que havia morrido atropelado mais cedo no dia. Como seu guia e mentor, a Morte escolheu o infartante Anthony Hopkins e lhe propôs um acordo: postergaria a sua morte enquanto ela, Morte, conseguisse aprender e se divertir como ser humano – tarefas de que Anthony Hopkins, que havia vivido uma vida boa e bem sucedida (iria completar 65 anos em poucos dias), teria de se desincumbir. Quando decidisse que era a hora de levar Anthony Hopkins, não haveria discussão. Anthony Hopkins fechou o acordo – a alternativa seria morrer incontinenti.

Brad Pitt recebe o codinome de Joe Black a partir daquele momento e segue Anthony Hopkins para casa, onde é apresentado à família. O romance de Brad Pitt com a deslumbrante Claire Forlani, iniciado na lanchonete, quando o dono do corpo agora ocupado pela Morte ainda estava vivo, é inevitável. Mas toda a platéia, e, certamente, os dois protagonistas masculinos, sabem que o romance não tem futuro. Claire Forlani, naturalmente, não o sabe.

É essa a história. Como se vê, é uma história que envolve componentes no mínimo maravilhosos, na conceituação de Hume. Mas eu não me canso de ver o filme. Procurei fazer um pouco de auto-análise para entender por quê, e cheguei a duas principais razões:

Primeiro, porque assisti ao filme pela primeira vez logo depois de eu próprio ter tido um infarto. Há, portanto, um paralelo importante e vital (mortal?) entre a figura representada por Anthony Hopkins e eu: ambos estamos vivendo em tempo discricionariamente concedido (não me perguntem por quem) – uma prorrogação da duração normal do jogo, que já devia ter-se encerrado. Faz uma diferença enorme viver, digamos, de pleno direito, dentro dos noventa minutos, e viver em um tempo prorrogado, que pode durar mais ou menos, dependendo do arbítrio de um juiz que, na vida real, diferentemente do filme, a gente não encontra…

Segundo, Anthony Hopkins tem um relacionamento especial com a filha mais nova. É paixão de pai para filha – paixão correspondida. A preferência paterna pela caçula é impossível de esconder ou disfarçar – e ele não consegue nega-la para a filha mais velha, quando esta o confronta e lhe diz que o ama, mesmo sabendo de sua preferência pela outra filha. "Não faço questão de ser sua favorita", diz ela ao pai, "porque o importante para mim é que você é o meu favorito"… Os olhos dele se enchem de lágrimas (como os meus, aqui, relatando…) mas ele corajosamente não contesta a afirmação. Qualquer homem mais fraco sucumbiria à tentação de afirmar o igualitarismo naquela situação – não o personagem de Anthony Hopkins. Gosto de vivenciar (ainda que vicariamente) essas questões em que as pessoas não mascaram a realidade em nome de supostos ideais, mas a enfrentam, corajosamente, cara-a-cara, sustentando aquilo que pensam, que sentem, que são, por mais politicamente incorreto que isso possa parecer.

Por essas duas razões, e por uma série de outros detalhes, gosto muito do filme, a despeito de seu fundo maravilhoso ou até meio miraculoso. A prova de que o filme é bem feito está no fato de que eu me identifico com a paixão que Anthony Hopkins tem pela filha – não com o amor que Brad Pitt sente por Claire Forlani, amor esse que, ao final, quando Joe Black deixa de existir, virando novamente a Morte, agora não tão sinistra, mas até doce, faz a Morte ressuscitar o rapaz do qual havia roubado o corpo no início — e isso para não deixar a sua amada sozinha…

A morte de Bill Parrish no filme foi doce. Faz lembrar uma ária de Bach: "Komm, süsser Tod"…

Em Campinas, 21 de fevereiro de 2007

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