Os cismas do PT

A esquerda se parece com o Protestantismo em alguns aspectos. É curioso. Pessoas que concordam em relação a grandes questões, mas pensam diferente em alguns pontos que, de fora, parecem secundários, não conseguem se manter unidas em função de uma causa comum, que parece claramente maior. Com extrema facilidade os esquerdistas racham, dividem-se, separam-se, formam dissidências — que nada mais são do que igrejinhas protestantes.

Na história da igreja isso tem o nome de cisma. Protestantes são, por sua própria natureza, cismáticos. Não estou contente aqui: vou para uma outra igreja — ou, freqüentemente, formo uma outra igreja pra mim. É por isso que há milhares de denominações protestantes — mas a Igreja de Roma continua (em termos) una, ou seja, católica. Católico, segundo Houaiss, é aquilo que tem vocação de universalidade. (Quem não assistiu ao filme Lutero, que o faça. Lutero não só rachou com Roma — rachou em várias maneiras com seus prévios apoiadores. Em outras palavras: conseguiu rachar dentro do racha maior).

A pergunta que o Jânio de Freitas faz na Folha de hoje (27 de setembro) é a pergunta de todos os que acompanham a crise política: por que os cismáticos do PT não continuaram um pouco mais no partido para tentar derrotar o intragável Berzoini? Juntas, as facções da esquerda do PT poderiam derrotar o sedizente campo majoritário na luta pela presidência do partido. É verdade que o diretório está decidido, mas a presidência não é de jogar fora. Por que rachar justo agora? A resposta parece ser: porque se chegou ao limite. Tal qual Lutero, a esquerda do PT diz "Hier steh’ ich: ich kann nichts anders" — "Aqui eu fico [ou, no caso do PT, ‘aqui me vou’]: não consigo fazer outra coisa". Em outras palavras: não dá mais pra continuar. Como nos relacionamentos conjugais, parece que chega o momento em que não dá mais: tudo irrita no parceiro em vias de se tornar ex. Até o jeito de espremer a pasta de dentes.

A esquerda do PT, hoje cismática, sabia o que estava acontecendo – desde sempre. Mas não saiu antes porque esperava ganhar, contava se beneficiar da "máquina eleitoral" em que havia se tornado o partido (para usar a idéia de Plínio de Arruda Sampaio). Esperava conseguir que os outros fizessem o trabalho sujo e eles conseguissem alcançar o controle a máquina "de mãos limpas", sem precisar se enlamear. São, acima de tudo, ingênuos que pretendiam ser espertos. Vão começar tudo de novo com o partido da Heloísa Helena, protestante e esquerdista. (Pra quem achava que as coisas eram incompatíveis, está aí a prova de que não são).

Há uma outra coisa interessante, e que me deixa curioso: os cismas da esquerda são cheios de estardalhaço. Os cismáticos querem marcar posição: chamam a imprensa, fazem declarações escritas e bombásticas, exageram as divergências, acusam os adversários (até ontem aliados) — e estes se vêem obrigados a responder num tom mais alto. Há verdadeiras declarações de guerra — que, em alguns casos, vão além da simples declaração. Na verdade, parece que os cismáticos passam a detestar mais os ex-aliados de agora do que os tradicionais inimigos de sempre.

A direita, que tem fama de inflexível, tem conseguido se manter razoavelmente unida em relação a algumas questões essenciais, mesmo que as diferenças sejam sérias em outros aspectos. Nisso se parece mais com a Igreja Católica: consegue conviver com diferenças e lidar com suas crises internas fora do spotlight das câmeras, sem criar feridas que, depois, não têm condições de ser curadas.

Observemos, a título de exemplo, o que se passa nos Estados Unidos. A despeito do desprezo que sofisticados capitães de indústria do Norte têm pelos fundamentalistas religiosos do Sul, ambos se unem quando se trata de reduzir o tamanho do governo, baixar impostos, tirar o governo de cima da gente. Conquistada a vitória mais importante, depois se entendem, acham um jeito de conviver. Ou, então, podem até rachar — mas só depois de conquistada a vitória naquilo que realmente importa. Não antes. E o racha só dura enquanto não houver uma outra causa mais importante para a união. A esquerda americana foi pega de surpresa com essa união dos liberais do Norte (que estão longe de ser socialmente conservadores) com os conservadores do Sul. (Vide o livro The Right Nation, escrito por dois ingleses, John Micklethwait & Adrian Wooldridge, recomendado aqui neste espaço).

Não estou, naturalmente, dando conselhos para a esquerda. Por um lado, sei que não adiantaria nada. Por outro, quero mais é que a esquerda exploda de vez — ou até mesmo "expluda", como dizia o hoje ausente Chico Anísio. Mas, acima de tudo, compreendo o que sente o Plínio de Arruda Camargo: agüentar Zé Dirceu, Genoíno, Berzoíni e seu baixo clero deve ser prá lá de insuportável. Eu, no lugar dele, teria dado no pé há muito tempo.

É por isso que, apesar de meu ateísmo impenitente, no fundo sigo sendo, à minha moda, protestante. Não consigo participar de nenhum partido que tenha mais de um associado…

Em Campinas, 27 de setembro de 2005

  1. Olá, Eduardo… Bom dia!Me encanta a sua clareza de expressão num momento que respeito sua opinião e até endosso suas palavras!Mas… qu, gostaria de expor minha decepção com nossos políticos, até que se refaçam, se regerem da imagem peçonhenta através da qual se expuseram-nos…Lembra do nosso miguinho … ACM – PFL… honestinho, hein?) e nosso Malufinho Oh céus… perdido nas prais de um paraíso fiscal, digno de compaixão… e não é PT)Daí… essa saladinha estragada, que não podemos deixar de ver… uma salada mista… rsrs… o que você acha?Abraços… Lindo dia pra você e todos os seus!annajulia.

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  2. Olá, Eduardo, passei por alguns longos momentos aprecidando a inteligência e a levesa na exposição das suas idéias.E o "Jaborice" rsrs… muito apropriado, fantás ti co !!!) Seu blog está sensacioinal… e a música de muito bom gosto!Lindo dia para você!Beijos.Annajulia.Annajulia.

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