Educação da sensibilidade — de novo

 
[Transcrevo, a seguir, uma mensagem que coloquei na minha lista EduTec.Net (que não mais existe) quase seis anos atrás, no dia 24 de setembro de 2000. Eu tinha 57 anos na época. Vou fazer 63 agora dia 7 de setembro. Meu neto Gabriel, mencionado no texto, então não tinha nem sequer um ano. Agora vai fazer sete (dia 30 de setembro), está alfabetizado, nada perfeitamente (já participou de competições) é exímio jogador de video game, joga futebol bem (freqüenta uma escolinha de futebol), faz judô… Aqui vai o texto de 24/9/2000]
 
Aos 57 anos estou, como Carlos Heitor Cony, tentando aprender ler os sinais e compreender a vida.
 
Também tenho um violão em cima do armário — embora não seja herança. Comprei-o há 33 anos, nos Estados Unidos, e toquei-o muito pouco — sempre havia algo mais importante para fazer. Sempre quis aprender a tocá-lo direito, mas nunca tive tempo… O urgente sempre impediu o importante de ocupar o seu lugar… Até agora.
 
Será???
 
Estou ouvindo uma enorme seqüência de mp3s de Billy Vaughn, Ray Conniff, Lawrence Welk — e de Connie Francis, cantando boleros. Uma Macieira gostosa esquenta minha garganta. Se ficar com sono, depois do almoço, durmo.
 
Acabei de dar uma volta pelo bairro, com meu neto Gabriel, que fará um ano no dia 30, daqui a alguns dias. Andamos devagar, paramos para ver as florinhas dos jardins e para ouvir um bem-te-vi que cantarolava. Até a cachorros raivosos prestamos atenção — e, miraculosamente, os ditos parece que pararam de latir e ficaram assustados com alguém que não se assustava com eles…
 
Um monte de coisas importantes meu neto vai aprender por si só ou com a ajuda de outras pessoas. Estou procurando dar aos nossos momentos de convivência um foco especial: o da educação da sua sensibilidade, para que eventualmente aprenda a apreciar a beleza que existe no mundo: a admirar as flores, as paisagens bonitas, as pequenas coisas que embelezam o dia-a-dia; para que eventualmente sinta o quão gostoso é uma música leve, melodiosa, sonora — ainda que muitos a achem cafona; para que aprenda a sentir prazer em ficar sem fazer nada de útil, só vivendo e sentido o quanto é bom viver, quando se está realmente vivendo e se tem consciência disso. Para que ele não chegue aos 57 anos sem saber tocar violão direito… Nem aos 80 lamentando aquelas coisas todas que Jorge Luis Borges, plagiando ou não, lamentou não ter feito — ou não ter feito tanto.
 
Os outros, provavelmente o pai e a mãe, se encarregarão de encaminhá-lo para uma profissão ou de levá-lo a apreciar as coisas refinadas e sofisticadas da vida. Eu pretendo me concentrar nas simples — como o violão em cima do armário.
 
Meu sofisticado Pentium III reproduz Billy Vaughn tocando o que em Português era (creio que ainda é) "Acorda, Maria, que é dia, são oito horas e o sol já raiou; os passarinhos já fazem seus ninhos, na janela do teu bangalô".
 
É isso aí. Não chega a ser um sermão dominical. Uma pequena homilia, talvez.
 
Eduardo
Transcrito em Salto, 30 de agosto de 2006

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