Dercy

Quando eu estava quase a considerando imortal, Dercy Gonçalves se foi, no auge de seus 101 anos.

Dercy era um ícone nacional: o símbolo daquele humor escrachado, debochado, desbocado, freqüentemente improvisado, que caracteriza uma parte importante do teatro e da comédia nacional — e que fazia rir até os que contracenavam com ela.

Registrei aqui quando o Golias morreu. A Dercy e o Golias tinham muito em comum. O humor deles nada tinha de fino e sofisticado — não raro descambava para a baixaria. Mas eram autênticos, fiéis a si próprios e ao gênero com que escolheram fazer o Brasil rir. A pseudo-intelectualidade besta não gostava deles: esnobava-os e tentava ridicularizá-los (sem perceber quão ridículos eram eles próprios ao fazer isso). Mas o povo brasileiro os admirava — mais do que isso: amava-os.

Sem Dercy — como, já antes, sem Golias — o Brasil fica menos engraçado e menos capaz de rir de si mesmo.

Na Porta do Céu o Golias devia estar esperando a Dercy para lhe dar um abraço apertado de boas vindas.

Em São Roque, 20 de Julho de 2008

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Transcrevo, a seguir, a crônica do Rubem Alves sobre a Dercy, publicada na Folha de S. Paulo de 22/07/2008:

A aldeia nunca mais será a mesma

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Algo de anormal aconteceu, interrompendo a rotinado cosmos: a Dercy Gonçalves ficou encantada

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ENTRE CERTOS POVOS ditos primitivos, cujos costumes eram rigorosamente regulados por leis que os séculos haviam acumulado, o aparecimento de algum fenômeno incomum nos céus era sinal de que transgressões desses costumes eram permitidas na terra.

É lei dos jornais que só se publicam notícias novas. Isso vale para os tempos normais. Mas algo de anormal aconteceu, interrompendo a rotina do cosmos: a Dercy Gonçalves ficou encantada. Considero esse fato como um sinal nos céus que me permite transgredir a lei dos jornais: vou contar uma história que já publiquei muitas vezes.

É um conto do Gabriel García Marquez, que, na minha opinião, é o conto mais fantástico jamais escrito.

Era uma aldeia de pescadores perdida num fim de mundo, onde a monotonia e o tédio haviam se apossado dos corpos dos homens e das mulheres, de sorte que, dos seus olhos, fugira toda a luz, e ninguém esperava receber das palavras de alguém fosse beleza, fosse sorriso, fosse amor… Era a eterna repetição do mesmo enfado e do mesmo tédio…

Foi então que um menino que olhava para o mar viu uma forma flutuando ao longe, diferente de tudo o que ele já havia visto. Ele gritou -e todos vieram correndo, na esperança, talvez, de uma novidade que lhes desse assunto sobre o que falar.

E lá ficaram, parados na praia, esperando, até que finalmente o mar, sem pressa, depositou a coisa estranha na areia… Era um morto desconhecido, tendo por roupa só as algas, os liquens e as coisas verdes do mar.

Desconhecido, sem passado e sem nome… Mas tinham de fazer o que deviam: os cadáveres têm de ser enterrados. E era costume naquela aldeia que os mortos fossem preparados pelas mulheres para o sepultamento. Assim, o levaram para uma casa e o colocaram eucaristicamente sobre uma mesa, as mulheres de dentro, os homens de fora, e grande era o silêncio -até que uma delas, com voz trêmula, observou: "Tivesse ele morado em nossa aldeia, teria de ter abaixado a cabeça sempre para entrar em nossas casas, pois é alto demais"… E todos assentiram com um imperceptível gesto de cabeça.

Mas logo uma outra falou -e perguntou como teria sido a voz daquele homem, se teria tido em sua boca as palavras que fazem com que uma mulher apanhe uma flor e a coloque no cabelo… E todas sorriram, algumas delas chegando a passar as mãos pelo cabelo, com saudades…

E grande foi o silêncio, até que aquela que limpava as mãos inertes do morto perguntou sobre o que elas teriam feito, se teriam construído casas, travado batalhas, navegado mares e se teriam sabido acariciar o corpo de uma mulher…

Ouviu-se, então, um discreto bater de asas, pássaros de fogo entrando pelas janelas e penetrando nas carnes.

E os homens, espantados, tiveram ciúme do morto -que era capaz de fazer amor com suas mulheres de um jeito que eles mesmos não sabiam. E pensaram que eram pequenos demais, tímidos demais, feios demais, e choraram os gestos que não haviam feito, os poemas que não haviam escrito, as mulheres que não haviam amado.

Termina a história dizendo que eles, finalmente, enterraram o morto. Mas a aldeia nunca mais foi a mesma.

A Dercy Gonçalves morreu. Nossa aldeia nunca mais será a mesma…

Uma resposta

  1. Eduardo
    Seu comentário demonstra a profundez de sua sensibilidade…
    Ela_Dercy_disse:"…Tenho vontade de chorar mas não choro…"
    Hoje,no céu pode chorar por palavras como as suas…
    Feliz dia do amigo!!
     

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