Anti-americanismo

Já discuti este assunto aqui neste space, comentando um livro de Jean-François Revel. Trago-o de novo à baila a propósito de um outro livro.

Comprei, numa megalivraria de origem japonesa em Kuala Lumpur, no sábado, 9/12, dia em que, à noite, saí de lá, um livro interessante, e que mereceria ser traduzido para o português: “Understanding Anti-Americanism: Its Origins and Impact, At Home and Abroad”, editado por Paul Hollander, que também faz uma grande introdução, e publicado por Ivan R. Dee, Chicago, 2004. (A propósito, nunca ouvi falar nessa editora. Uma das razões por que comprei o livro na hora, sem hesitar, foi a editora desconhecida. Editoras desconhecidas têm maior dificuldade para colocar seus livros nas livrarias e de conseguir que eles sejam traduzidos. Assim, é preciso aproveitar a chance: quando encontro um livro que parece interessante, compro-o na hora).

O editor, Paul Hollander, já havia escrito um livro sobre o assunto – mas antes de 11 de Setembro (Nine Eleven) – com o título: “Anti-Americanism: Critiques At Home and Abroad” (New York, 1992), que foi atualizado três anos depois e, curiosamente, saiu publicado, na edição revisada, com um título bastante diferente: “Anti-Americanism: Irrational and Rational” (New Brunswick, NJ, 1995).

Paul Hollander, que é um imigrante húngaro que fugiu do país quando os soviéticos invadiram a Hungria em 1956, indo, primeiro, para a Inglaterra, e, em 1959, para os Estados Unidos, onde fez pós-graduação e acabou se naturalizando americano, foi, durante muitos anos, professor de sociologia da Universidade de Masachussetts em Amherst, MA, estando agora aposentado, como Professor Emérito de Sociologia. 

Hollander faz questão de distinguir “anti-americanismo” de “crítica dos Estados Unidos”. Ele admite, sem problemas, que os Estados Unidos, como país, têm muito que pode e deve ser criticado, e que não há nada de excepcional no fato de que, tanto dentro como fora do país, essas críticas se expressem, até mesmo com certa veemência. O anti-americanismo de que trata o livro, porém, é algo diferente. Ele está muito mais próximo de um ódio generalizado dos Estados Unidos do que de uma crítica objetiva de aspectos isolados da política e da sociedade americana. Esse ódio tem raízes complexas, que o livro se propõe analisar. Algumas dessas raízes podem, no caso de um país ou uma região, envolver elementos geopolíticos, ideológicos, religiosos e até mesmo psicológicos – para mencionar apenas alguns. Os anti-americanos, no mais das vezes, querem a destruição dos Estados Unidos, não reconhecendo no país (na sociedade, na cultura, na economia) nada que o “redima”. Os anti-americanos se regozijaram, em 11 de Setembro, quando as Torres Gêmeas de Nova York foram destruídas, com a morte de mais de três mil pessoas inocentes – civis, não militares. Na verdade, a maioria deles se recusa a reconhecer que as pessoas que morreram eram inocentes: um americano é culpado, e, portanto, objeto legítimo de uma ação terrorista, simplesmente por ser americano. Os anti-americanos, alguns deles dentro dos Estados Unidos e cidadãos do país, se apressaram em afirmar, na seqüência a 11 de Setembro, que os Estados Unidos foram os principais responsáveis pelos ataques terroristas daquele dia, por causa de sua política externa, por causa da ação de seus militares, por causa do controle da economia mundial por parte de suas empresas, por parte da invasão das telas e livrarias do mundo pelos programas, filmes, revistas e livros americanos. Alguns anti-americanos não hesitaram em chamar de “contra-terrorismo” a ação dos terroristas em 11 de Setembro, chamando de “terroristas” as ações do governo e das empresas americanas no mundo. Não faltou quem dissesse, entre os anti-americanos, que Bush era uma ameaça maior para a paz do mundo do que Osama bin Laden ou Saddam Hussein, ou quem o tivesse comparado a Hitler e Stalin, ou, então, acusado os Estados Unidos de estarem no mesmo nível da Alemanha Nazista – ou até em nível pior, porque a Alemanha Nazista pelo menos tinha quem lhe pudesse resistir (a Inglaterra, os próprios Estados Unidos, a Rússia), enquanto os Estados Unidos, hoje, depois do colapso da União Soviética, são um poder político, militar, econômico e cultural sem concorrentes e, por isso, sem possibilidade de contestação e resistência.

O livro editado por Hollander é escrito a várias mãos, e cobre, na primeira parte, depois daintrodução do editor e de um capítulo sobre as raízes filosóficas do anti-americanismo, as raízes regionais do fenômeno, discutindo o anti-americanismo de extração francesa, britânica, alemã, russa (pós-comunista), árabe-islâmica, e latino-americana (com capítulos especiais sobre Cuba e a Nicarágua). Na segunda parte o livro tem como foco o “anti-americanismo doméstico”, surgido (não necessariamente sem influência estrangeira) nos próprios Estados Unidos. Aqui capítulos são dedicados aos problemas do racismo, do feminismo, do multiculturalismo, da chamada “educação para a diversidade e a tolerância”, do movimento pacifista, da esquerda política, e do conteúdo não só crítico, mas profundamente satírico, da cultura e da vida americana que se vê nos filmes e nos programas de televisão que os Estados Unidos distribuem para o mundo inteiro, e que são, na opinião do autor do capítulo, visões extremamente unilaterais e distorcidas da sociedade americana (em que aparecem, como regra, casais interraciais, casais de homossexuais, casais rotineiramente adúlteros ou insatisfeitos com seus casamentos ou relacionamentos, mães e pais solteiros ou divorciados, em que as pessoas ridicularizam os valores da classe média e da religião, etc.). A visão da sociedade e da vida americana que o cinema e a televisão dos Estados Unidos apresentam ao mundo não corresponde à realidade da sociedade e da vida americana.

Entre os múltiplos fatores que explicam o anti-americanismo há alguns que não podem ser esquecidos ou negligenciados, ainda que seu peso maior se dê em casos específicos de anti-americanismo.

Um primeiro desses fatores é ideológico. A esquerda, no mundo inteiro, ficou órfã com a queda fragorosa do comunismo na União Soviética e no Leste Europeu. Os Estados Unidos sempre foram o grande inimigo da União Soviética e do comunismo no mundo, combatendo-o uma e outro dentro e fora de suas fronteiras, sem hesitar em usar meios militares, como aconteceu nas guerras da Coréia e do Vietnam. Era de esperar, portanto, que com a vitória dos Estados Unidos na Guerra Fria, o ódio que a esquerda tinha ao país aumentasse – afinal de contas, os Estados Unidos, através de uma estratégia bem elaborada daquele que a esquerda insiste em chamar de o primeiro cowboy presidente (o segundo seria o Bush), derrotaram a pátria do socialismo comunista, na verdade, sem precisar fazer grande esforço naquele momento específico. É verdade que se pode dizer que a União Soviética se auto-destruiu, caiu de podridão interna – e isso seria, em parte, verdadeiro. Mas não resta dúvida, por mais que a esquerda tente negar, que Ronald Reagan elevou a aposta na Guerra Fria a tal ponto que a União Soviética não tinha como pagar para ver: precisou retirar seu time de campo. E, ao perceber a fraqueza da pátria do socialismo comunista, os demais países comunistas, com exceção de Cuba e da Coréia do Norte, rejeitaram o comunismo e abraçaram princípios liberais na economia e, em parte, na política (a China sendo a exceção: liberalizou-se na economia, mas nem tanto na política).

A vitória dos Estados Unidos provocou enorme frustração e sentimento de fracasso nas esquerdas – sensações que facilmemente se transformaram, no mundo inteiro, em ressentimento para com o vencedor da Guerra Fria. A estratégia de luta da esquerda, derrotada por completo, se alterou, embora pouco e de forma não muito sutil. Agora o foco principal não é mais criticar os Estados Unidos por serem um país liberal-capitalista (hoje, quem não é?), mas, sim, criticar a globalização econômica e cultura liderada pelos Estados Unidos, a posição do governo americano em relação ao ambiente (especialmente sua recusa do Protocolo de Kioto), as ações militares em que os Estados Unidos se envolveram no combate ao terrorismo, seu unilateralismo, que implica rejeição dos multilateralismos patrocinados pela ONU e pela União Européia, etc.

Uma nova pauta de reclamações – mas, no fundo, essa pauta é alimentada pela frustração e pelo ressentimento dos órfãos do comunismo pela vitória retumbante dos Estados Unidos na Guerra Fria, e por ter o país vindo a ocupar, virtualmente sem contestação significativa, posição de liderança na vida política, militar, econômica e cultural do mundo atual.

Um segundo desses fatores é – por falta de melhor termo – a inveja. Já escrevi um longo artigo sobre a inveja, no início da década de noventa, e aqui volto ao tema. Só que, anteriormente, discuti a inveja como um fator importante na busca do igualitarismo e da chamada justiça social – bem como da crítica dos que são bem sucedidos, que raramente recebem o crédito devido para esse sucesso, que, o mais das vezes, é atribuído a exploração, corrupção, quando não a roubo descarado. Aqui a questão da inveja se aplica a nações e regiões, não a indivíduos – embora o princípio seja o mesmo, porque a inveja é sempre expressa por indivíduos (nações e regiões, evidentemente, não falam, a não ser através da boca dos indivíduos que as compõem). Esse fator – a inveja – parece ser um componente importante do anti-americanismo latino-americano atual.

A América Latina é um bloco de países que abrange a maior parte da América do Sul (só se excetuando as Guianas), a América Central como um todo, boa parte do Caribe, e o México, na América do Norte. Territorial e populacionalmente esse bloco é extremamente significativo: representa bem mais território e muito mais gente do que a União Européia – com a vantagem cultural de falar basicamente duas línguas, o espanhol e o português, línguas essas que são indicativas da hegemonia que a Espanha e Portugal exerceram sobre a região. Apesar de ter um bloco tão significativo, territorial e populacionalmente, e de ter tido sua colonização por países europeus iniciada antes da colonização do restante da América do Norte, a América Latina, como um bloco regional, continua a ser um país sub-desenvolvido do Terceiro Mundo, tanto econômica quanto politicamente, enquanto os Estados Unidos são hoje uma potência hegemônica militarmente e a maior potência do mundo em termos políticos, econômicos, e culturais.

Dificilmente os latinoamericanos vão achar a causa desse desempenho inferior em si mesmos. A tendência é colocar a culpa pelos seus males nos Estados Unidos, que viraram bode expiatório para tudo que de mau e ruim acontece na região (e no mundo). Se há um golpe militar na América Latina que interrompe um governo que os latinoamericanos identificam como de esquerda, ou como nacionalista, ou como anti-americano, a culpa é sempre do governo americano e da CIA. Vejam-se as ladainhas sobre o papel da CIA no golpe militar brasileiro e na queda do governo Allende no Chile. Numa atitude que, ironicamente, parece admitir que os latinoamericanos são totalmente incapazes de, por si só, realizar até mesmo golpes de estado que encerram governos não desejados pelas lideranças ou até mesmo pela maioria da população, os latinoamericanos, especialmente os de esquerda, que já possuem propensão ideológica para o anti-americanismo, acusam o governo americano de intervenção, em geral através da CIA. A atribuição da causa de seus males, de seus problemas, e de seus fracassos ao “grande irmão do Norte” (agora visto mais como “Big Brother” do que como realmente “hermano”) leva boa parte dos latino-americanos – as esquerdas, os intelectuais, os artistas, a mídia – a promover, ativamente, um anti-americanismo de invejosos e despeitados.

Por fim, um terceiro desses fatores é a religião. Os Estados Unidos talvez sejam o último país, no Ocidente que um dia foi cristão, em que a religião cristã ainda tem um papel importante na vida social e na vida pública (razão pela qual os europeus, em regra, ridicularizam o país, chamando-o de culturalmente primitivo, fundamentalista, etc.). Fora do Ocidente e do mundo islâmico, Israel é o único outro país em que a religião desempenha um papel importante na vida social e na vida pública. Também é verdade, porém, que, sem contradição, tanto os Estados Unidos como Israel também são países seculares e não teocracias, e, do ponto de vista científico, tecnológico e econômico, extremamente bem sucedidos. Assim sendo, ambos representam uma grande ameaça para o mundo árabe-islâmico, ameaça decorrente do fato de que os Estados Unidos são, aparentemente, o último reduto do Cristianismo e Israel do Judaísmo – as duas grandes religiões que concorrem com o Islamismo. Isso explica porque o ódio dos árabes-islâmicos aos Estados Unidos vai de mãos dadas com seu ódio a Israel.

Além disso, mesmo sem entrar nos problemas geopolíticos que colocam árabes-islâmicos, de um lado, e americanos e israelenses de outro, o caráter moderno e secular dos dois países aparece como a maior ameaça para a visão predominantemente religiosa e teocrática do mundo dos países islâmicos, em especial no mundo árabe. (Não se dá o mesmo na Malásia, por exemplo, país do qual estou retornando para o Brasil, que é islâmico mas é moderno e, até certo ponto, secular – a lei islâmica cobre aspectos da conduta, mas há uma lei secular que regula os demais – e profundamente comprometido com a adoção do modelo de produção, da arquitetura, da tecnologia e de um sem número de outros aspectos da cultura ocidental, vale dizer, predominantemente americana). Assim, o anti-americanismo árabe-islâmico tem componentes geopolíticos, sem dúvida, mas também religiosos e culturais.

Enfim, vale a pena ler o livro. Gostaria de ter tempo de traduzi-lo eu mesmo para o português. Mas aos 63 anos a gente tem de definir cuidadosamente as prioridades: há outros que podem fazer isso, quem sabe até melhor. Talvez este artiguinho os motive.

Em cima do Oceano Atlântico, viajando de Londres para São Paulo, 10 de dezembro de 2006 [em tres horas mais devemos estar chegando a Guarulhos]. 

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