A mídia brasileira e a história do Chapeuzinho

Em geral não acho graça em histórias distribuídas pela Internet, mas esta é muito interessante, porque quem a escreveu realmente captou a essência dos diversos jornais e programas de televisão brasileiros.

O texto tem sido distribuído pela Internet (e-mail) sem indicação do autor. Se alguém souber onde isso se originou, por favor, me comunique (edu@chaves.im).

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AS VÁRIAS FORMAS DE SE DAR UMA NOTÍCIA!

Se história da Chapeuzinho Vermelho fosse verdade, como ela seria contada na imprensa no Brasil?

Veja as diferentes maneiras de contar a mesma história.

Jornal Nacional:
(William Bonner): ‘Boa noite.  Uma menina chegou a ser devorada por lobo na noite de ontem….’
(Fátima Bernardes): ‘…mas a atuação de um lenhador evitou a tragédia.’

Programa da Hebe
‘…que gracinha, gente! Vocês não vão acreditar, mas essa menina linda aqui foi retirada viva da barriga de um lobo, não é mesmo?’

Cidade Alerta
(Datena): ‘…onde é que a gente vai parar, cadê as autoridades? Cadê as autoridades? A menina ia pra casa da vovozinha a pé! Não tem transporte público! Não tem transporte público! E foi devorada viva… um lobo, um lobo safado. Põe na tela, primo! Porque eu falo mesmo, não tenho medo de lobo, não tenho medo de lobo, não!

Superpop
(Luciana Gimenez): ‘Geeente! Eu tô aqui com a ex-mulher do lenhador e ela diz que ele é alcoólatra, agressivo e que não paga pensão aos filhos há mais de um ano. Abafa o caso!’

Globo Repórter
(Chamada do programa): ‘Tara? Fetiche? Violência? O que leva alguém a comer, na mesma noite, uma idosa e uma adolescente? O Globo Repórter conversou com psicólogos, antropólogos e com amigos e parentes do Lobo, em busca da resposta. E uma revelação: casos semelhantes acontecem dentro dos próprios lares das vítimas, que silenciam por medo. Hoje, no Globo Repórter.’

Discovery Channel
Vamos determinar se é possível uma pessoa ser engolida viva e sobreviver.

Revista Veja
Lula sabia das intenções do Lobo.

Revista Cláudia
Como chegar à casa da vovozinha sem se deixar enganar pelos lobos no caminho.

Revista Nova
Dez maneiras de levar um lobo à loucura na cama!

Revista Isto É
Gravações revelam que lobo foi assessor de político influente.

Revista Playboy
(Ensaio fotográfico do mês seguinte): ‘ Veja o que só o lobo viu’.

Revista Vip
As 100 mais sexies – desvendamos a adolescente mais gostosa do Brasil!

Revista G Magazine
(Ensaio com o lenhador) ‘O lenhador mostra o machado’.

Revista Caras
(Ensaio fotográfico com a Chapeuzinho na semana seguinte): Na banheira de hidromassagem, Chapeuzinho fala a CARAS: ‘Até ser devorada, eu não dava valor pra muitas coisas na vida. Hoje, sou outra pessoa.’

Revista Superinteressante
Lobo Mau: mito ou verdade?

Revista Tititi
Lenhador e Chapeuzinho flagrados em clima romântico em jantar no Rio.

Folha de São Paulo
Legenda da foto: ‘Chapeuzinho, à direita, aperta a mão de seu salvador’. Na matéria, box com um zoólogo explicando os hábitos alimentares dos lobos e um imenso infográfico mostrando como Chapeuzinho foi devorada e depois salva pelo lenhador.

O Estado de São Paulo
Lobo que devorou menina seria filiado ao PT.

O Globo
Petrobrás apóia ONG do lenhador ligado ao PT, que matou um lobo para salvar menor de idade carente.

O Dia
Lenhador desempregado tem dia de herói

Extra
Promoção do mês: junte 20 selos mais 19,90 e troque por uma capa vermelha igual a da Chapeuzinho!

Meia hora
Lenhador passou o rodo e mandou lobo pedófilo pro saco!

Agora
Sangue e tragédia na casa da vovó.

Correio da Bahia e TV Bahia
Menina usando um chapeuzinho vermelho é atacada por um lobo e fica na mão – não consegue atendimento em nenhum hospital do Estado. Governador não se manifesta.

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Em São Paulo, 27 de Maio de 2010

Dercy

Quando eu estava quase a considerando imortal, Dercy Gonçalves se foi, no auge de seus 101 anos.

Dercy era um ícone nacional: o símbolo daquele humor escrachado, debochado, desbocado, freqüentemente improvisado, que caracteriza uma parte importante do teatro e da comédia nacional — e que fazia rir até os que contracenavam com ela.

Registrei aqui quando o Golias morreu. A Dercy e o Golias tinham muito em comum. O humor deles nada tinha de fino e sofisticado — não raro descambava para a baixaria. Mas eram autênticos, fiéis a si próprios e ao gênero com que escolheram fazer o Brasil rir. A pseudo-intelectualidade besta não gostava deles: esnobava-os e tentava ridicularizá-los (sem perceber quão ridículos eram eles próprios ao fazer isso). Mas o povo brasileiro os admirava — mais do que isso: amava-os.

Sem Dercy — como, já antes, sem Golias — o Brasil fica menos engraçado e menos capaz de rir de si mesmo.

Na Porta do Céu o Golias devia estar esperando a Dercy para lhe dar um abraço apertado de boas vindas.

Em São Roque, 20 de Julho de 2008

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Transcrevo, a seguir, a crônica do Rubem Alves sobre a Dercy, publicada na Folha de S. Paulo de 22/07/2008:

A aldeia nunca mais será a mesma

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Algo de anormal aconteceu, interrompendo a rotinado cosmos: a Dercy Gonçalves ficou encantada

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ENTRE CERTOS POVOS ditos primitivos, cujos costumes eram rigorosamente regulados por leis que os séculos haviam acumulado, o aparecimento de algum fenômeno incomum nos céus era sinal de que transgressões desses costumes eram permitidas na terra.

É lei dos jornais que só se publicam notícias novas. Isso vale para os tempos normais. Mas algo de anormal aconteceu, interrompendo a rotina do cosmos: a Dercy Gonçalves ficou encantada. Considero esse fato como um sinal nos céus que me permite transgredir a lei dos jornais: vou contar uma história que já publiquei muitas vezes.

É um conto do Gabriel García Marquez, que, na minha opinião, é o conto mais fantástico jamais escrito.

Era uma aldeia de pescadores perdida num fim de mundo, onde a monotonia e o tédio haviam se apossado dos corpos dos homens e das mulheres, de sorte que, dos seus olhos, fugira toda a luz, e ninguém esperava receber das palavras de alguém fosse beleza, fosse sorriso, fosse amor… Era a eterna repetição do mesmo enfado e do mesmo tédio…

Foi então que um menino que olhava para o mar viu uma forma flutuando ao longe, diferente de tudo o que ele já havia visto. Ele gritou -e todos vieram correndo, na esperança, talvez, de uma novidade que lhes desse assunto sobre o que falar.

E lá ficaram, parados na praia, esperando, até que finalmente o mar, sem pressa, depositou a coisa estranha na areia… Era um morto desconhecido, tendo por roupa só as algas, os liquens e as coisas verdes do mar.

Desconhecido, sem passado e sem nome… Mas tinham de fazer o que deviam: os cadáveres têm de ser enterrados. E era costume naquela aldeia que os mortos fossem preparados pelas mulheres para o sepultamento. Assim, o levaram para uma casa e o colocaram eucaristicamente sobre uma mesa, as mulheres de dentro, os homens de fora, e grande era o silêncio -até que uma delas, com voz trêmula, observou: "Tivesse ele morado em nossa aldeia, teria de ter abaixado a cabeça sempre para entrar em nossas casas, pois é alto demais"… E todos assentiram com um imperceptível gesto de cabeça.

Mas logo uma outra falou -e perguntou como teria sido a voz daquele homem, se teria tido em sua boca as palavras que fazem com que uma mulher apanhe uma flor e a coloque no cabelo… E todas sorriram, algumas delas chegando a passar as mãos pelo cabelo, com saudades…

E grande foi o silêncio, até que aquela que limpava as mãos inertes do morto perguntou sobre o que elas teriam feito, se teriam construído casas, travado batalhas, navegado mares e se teriam sabido acariciar o corpo de uma mulher…

Ouviu-se, então, um discreto bater de asas, pássaros de fogo entrando pelas janelas e penetrando nas carnes.

E os homens, espantados, tiveram ciúme do morto -que era capaz de fazer amor com suas mulheres de um jeito que eles mesmos não sabiam. E pensaram que eram pequenos demais, tímidos demais, feios demais, e choraram os gestos que não haviam feito, os poemas que não haviam escrito, as mulheres que não haviam amado.

Termina a história dizendo que eles, finalmente, enterraram o morto. Mas a aldeia nunca mais foi a mesma.

A Dercy Gonçalves morreu. Nossa aldeia nunca mais será a mesma…

Homo sum: nihil humanum a me alienum puto

Este posting tem que ver com o Paredão do Big Brother Brasil 8, realizado ontem, 4 de março de 2008 (na verdade, poucas horas atrás: não fui dormir ainda, estou acompanhando o resultado das Primárias americanas). Para quem possa se surpreender de eu estar escrevendo sobre o assunto, respondo com a frase de Terentius que dá título ao posting: "Sou humano: de nada humano me desinteresso".

Convenhamos desde o início: o doutor tem problemas — o doutor, no caso, é Marcelo, formado em Medicina e, pelo que consta, terminando sua residência em Psiquiatria. Faz sentido. Na realidade, tenho cá pra mim que quem escolhe ser psicólogo ou psiquiatra em geral tem problemas pessoais sérios que espera solucionar exercendo a profissão: ele próprio é seu cliente mais importante. É o caso do "Médico: cura-te a ti mesmo!".

O Marcelo é cri-cri, chato, metido, presunçoso, fala demais. Mas eu estava torcendo para ele Marcelo ficar na casa ao final do Paredão de hoje — e ficou. O blog "De Cara para a Lua" (http://decarapralua.zip.net/), escrevendo antes do Paredão, ofereceu suas dez razões para querer que Marcelo ficasse na casa. Concordo com a maioria delas. Mas eu, escrevendo depois do Paredão, vou oferecer a minhas cinco razões para ter ficado contente com o resultado:

1) O Marcelo é o cara mais inteligente naquela casa (incluindo os que já saíram) e, de longe, o mais hábil jogador;

(A jogada dele quando indicou a Natalia para o paredão, duas semanas atrás — quando todo mundo esperava que fosse indicar o Fernando — foi um golpe de mestre: desequilibrou a estratégia dos demais e os obrigou a fazer o que eles esperavam que ele fosse fazer.)

2) O julgamento dele acerca dos outros jogadores é sempre absolutamente correto.

(A Thatiana é a chatice em pessoa, e mais do que isso: é totalmente desequilibrada emocionalmente. O Marcos é a babaquice em pessoa. O Rafinha, um bobo que pensa que é muito mais vivo do que realmente é — na verdade, só sabe fazer caretas. As outras meninas (Juliana e Natalia), excetuada a Gyselle, são meras peças decorativas — ornamentos da casa — e se comportam como tais.)

3) Todo mundo na casa ficou contra ele esta semana porque ele brigou com a louquinha — até a Gyselle, agora: e eu gosto de torcer pelo "underdog"…

4) Gosto de ver climas de "já ganhou" e "já perdeu" frustrados: todo mundo estava certo de que a Juliana ia ficar e o Marcelo ia sair… O Bial, que é vivo e sabia disso, e sabia do resultado do Paredão, perguntou a cada um deles quem eles desejavam que se salvasse: todos disseram: Juliana (a Natalia acrescentando a Gyselle, porque se salvariam dois). 

5) Sem o Marcelo, não iria ter mais graça olhar o programa (exceto, talvez, para acompanhar uma possível estratégia da Gyselle).

(Creio que a Gyselle brigou com o Marcelo porque o considerou, como os outros, carta fora do baralho. Resta ver o que ela, e os outros, vão fazer agora).

(Convenhamos que, mesmo com o Marcelo na casa, não há tanta graça assim em acompanhar o programa…)

Enfim…

Vamos ver o que acontece agora: quem pega a liderança, por exemplo.  Estou torcendo para o Marcelo pegá-la, novamente — para ver como ele vai jogar. E é preciso ver o que o telefone, se houver, vai determinar. Parece que os Paredões triplos terminaram — só há seis na casa (três casais, se é que se pode chamá-los assim, dadas as orientações sexuais de alguns deles…).

Em Campinas, 5 de Março de 2008

Thelminha

A novela Páginas da Vida termina esta semana. Parece incrível que, ao chegar ao fim, o destaque da história tenha se tornado Grazi Massafera no papel da doce Thelminha. Esta é sua primeira novela, ela entrou tarde na trama, seu papel era de uma doméstica, e ela foi posta a atuar junto de algumas das maiores cobras da televisão e a contracenar diretamente com o principal galã da história. Ela enfrentou o desafio com coragem, humildade e competência, e saiu-se extremamente bem. Apesar de a novela contar com vários colírios para os olhos masculinos, confesso que fico esperando as cenas de Grazi – e não sou o único.
 
O curioso é que o autor da novela foi ajustando a trama para adequá-la à recepção extremamente favorável de Thelminha por parte dos telespectadores. Sinopses antigas sugeriam que Thelminha iria ser tão malandra quanto sua irmã, mas que seria mais bem sucedida no esforço de conquistar o galã da novela. A história evoluiu de tal maneira, porém, que Thelminha o conquistou sem malandragens, só pelo seu jeito de ser — chegando virgem e "invicta" ao final da novela. Isso em si é pouco comum — na vida e especialmente em novela. Do jeito que são as coisas hoje em dia, Manuel Carlos foi, curiosa e paradoxalmente, ousado ao criar um personagem feminino tão atraente que não pula na cama imediatamente com o homem a quem ama (como não o havia feito com o noivo, de quem gosta mas a quem claramente não ama). Se defeito houve na trama foi na caracterização do triste Dorival… Ele poderia ter sido feito um pouco mais atraente, para não tornar a atração de Thelminha por Jorge tão inevitável…
 
Em São Paulo, 28 de fevereiro de 2007 
 
Eis um texto da Revista Época que confirma o que digo (http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG76418-6014-457,00.html):
 
NESTE CARNAVAL, O SAMBA VAI SAIR (LÁ-LÁ- Laiáááááá…) procurando Grazi. Já faz algum tempo que as musas da Sapucaí não são apenas "as mais bonitas entre as cabrochas desta ala", como cantava Chico Buarque em "Quem Te Viu, Quem Te Vê", exaltação às beldades das escolas. Nos últimos tempos, são as estrelas de televisão que têm sido as rainhas do Carnaval. Em 2003, Deborah Secco e Juliana Paes explodiram na novela Celebridade interpretando as loucas pela fama Darlene e Jacqueline Joy. No ano seguinte, a fama veio mesmo – na Sapucaí. Deborah "Darlene" foi a rainha da bateria da Grande Rio e Juliana "Joy" iniciou seu reinado à frente dos ritmistas da Viradouro. Neste ano, a presença mais esperada na passarela do samba volta a ser a da principal estrela da telenovela na atualidade. Grazielli Massafera é a favorita não apenas dos leitores de ÉPOCA – ela venceu a enquete promovida pelo site da revista sobre quem seria a musa do Carnaval, deixando as medalhas de prata e bronze com Juliana Paes e Viviane Araújo. Ela é também a preferida dos telespectadores da novela das 8 da TV Globo, Páginas da Vida. Quando sua personagem, a ingênua Thelminha, aparece em cena, a audiência aumenta. Isso ocorreu, por exemplo, na cena em que a mocinha deu o primeiro beijo no galã Jorge, interpretado por Thiago Lacerda. O ibope subiu para 50 pontos, três a mais que a média da novela. Ciente dessas oscilações, o autor Manoel Carlos aumentou o papel de Thelminha na novela.

Grazi roubou a cena encarnando, na TV, uma fantasia cara aos brasileiros. Ela é a "namoradinha", o tipo consagrado nos anos 70 por Regina Duarte em papéis como a Ritinha de Irmãos Coragem (1970) ou a Patrícia de Minha Doce Namorada (1972). "Grazi é a mais nova namoradinha do Brasil", diz Mauro Alencar, pesquisador da Universidade de São Paulo e um dos maiores estudiosos da telenovela no Brasil. Para Alencar, que escreve um livro justamente sobre o assunto, ser "namoradinha" é mais que encarnar a mocinha "do bem", destinada a derrotar a megera e ficar com o galã no final. "Uma das características principais desse tipo de personagem, claro, é a pureza. Mas não é a pureza da virgindade. Tem mais a ver com a inexperiência com a vida. Mesmo que as personagens de Regina Duarte não fossem virgens de fato, eram recatadas, ou por serem da roça, ou por conta de uma decepção amorosa", afirma Alencar. Assim é a Thelminha de Páginas da Vida. Ela é uma moça do interior de um tipo que não existe mais no interior – que, com a internet, a riqueza derivada do agronegócio e toda uma cultura simbolizada pelos rodeios e festas do peão, é muito diferente do lugar bucólico retratado na Vila de Coroado de Irmãos Coragem. Thelminha cativa tanto por seu jeito fora de moda – potencializado pelo contraste com uma irmã esfuziante, vivida por Danielle Winits – quanto por ressuscitar um tipo que andava sumido desde os tempos de Regina Duarte.

O auge da "namoradinha" foi nos anos 70, quando várias atrizes seguiram o modelo de Regina Duarte (veja o quadro na sequência da matéria). Mauro Alencar cita Eva Wilma (Mulheres de Areia, 1975), Lucélia Santos (Escrava Isaura, 1977) e Glória Pires (Cabocla, 1979). "Nesse período, a que chegou mais perto foi a Carolina de A Moreninha, vivida por Nívea Maria", diz o estudioso. A "namoradinha" começou a entrar em declínio quando Regina Duarte decidiu que sua carreira precisava de um novo rumo e partiu para um papel radicalmente diferente – a divorciada que vai à luta em Malu Mulher. Nos anos 80 e 90, várias atrizes reivindicaram o título, mas os tempos eram outros. À Lurdinha de Anos Dourados, vivida por Malu Mader, faltava a "pureza" de que fala Alencar – embora a personagem fosse virgem no começo da trama. Nenhuma atriz foi mais comparada a Regina Duarte que Adriana Esteves quando ela despontou para o estrelato, vivendo a Patrícia de Meu Bem, Meu Mal (1991). Mas a determinação com a qual ela perseguia o amor do galã Ricardo, homem mais velho vivido por José Mayer, não combinava com o figurino. "Namoradinhas" como Regina Duarte nos anos 70 não vão atrás – esperam que o homem venha até elas. A Thelminha de Grazi é exatamente assim. Com o ar de quem não entende os códigos do amor numa cidade grande, ela parece clamar por um galã que a ensine. É um tipo recorrente na ficção desde que o escritor irlandês George Bernard Shaw o inventou, no começo do século XX, na peça Pigmalião – que inspiraria a mais conhecida versão cinematográfica do personagem, a deliciosa Audrey Hepburn de My Fair Lady. A "namoradinha" é a versão brasileira desse arquétipo literário e cinematográfico.

Grazi já está no imaginário romântico. Agora, ela precisa entrar no imaginário do samba. Com a batucada ao fundo, suspiros e sorrisos de moça recatada ficam em segundo plano. O que conta são atributos mais, por assim dizer, firmes. Para consegui-los, Grazi se esforça. Nos últimos dois meses, a atriz de 1,73 metro de altura e 58 quilos distribuídos em um corpo longilíneo fez mais de 30 sessões de 75 minutos de malhação pesada. O objetivo: aumentar as pernas e o bumbum, principais alvos das câmeras de toda musa no Sambódromo e de um complexo da própria atriz. "Ah, eu sou só ajeitadinha. Tenho as pernas finas e sou desbundada", diz Grazi. Seu cotidiano dos últimos tempos inclui agachamento para as coxas e exercícios com caneleiras de 12 quilos para reforçar o bumbum, além de abdominais para secar a barriga. "Os últimos dias serão para dar uma secada na barriguinha", diz o personal trainer Marcello Barbosa, responsável também por esculpir o corpo da apresentadora Angélica.

Na disputa entre musas não basta ser bonita ou sexy. Para tomar de Juliana Paes o título de Rainha do Carnaval – a morena desfila novamente neste ano na favorita Viradouro -, Grazi enfrenta ainda aulas de samba com as passistas de sua escola, a Grande Rio, vice-campeã do Carnaval do ano passado. "Só não dá pra rebolar que nem elas. Você já viu? Elas têm alguma coisa no quadril que é só delas", afirmou Grazi durante um dos ensaios. O esforço está agradando. O presidente da escola, Jayder Soares, deu de presente à atriz um colar de ouro, rubis e brilhantes com a forma do símbolo da escola.

A trajetória de Grazi é admirável também porque, entre todos os candidatos a ator que passaram pelo programa Big Brother Brasil, ela é provavelmente a mais bem-sucedida. Em 2004, Grazi comemorava o terceiro lugar num concurso de miss, depois de ter sido babá e manicure em Jacarezinho, no interior do Paraná. Escolhida para o Big Brother de 2005, ela chegou à final, vencida pelo professor baiano Jean Wyllys. Foi no BBB que conheceu Alan Passos, seu "namorido (namorado-marido)", na definição da atriz. "No começo, ela era só famosa por ser famosa. Mas conseguiu manter a visibilidade depois do BBB", afirma o publicitário Lula Vieira. Depois do BBB, Grazi tornou-se uma espécie de total-flex da publicidade, fazendo todo tipo de comercial, sem se preocupar com a imagem (por falar em imagem, o fato de ter posado nua para a revista Playboy estranhamente não interferiu em sua aura de pureza). Mas a fama cresceu, e hoje ela é alvo de disputas ferrenhas. De acordo com a legislação, Grazi só poderá aparecer em comercial de cerveja aos 25 anos, idade que completará em junho. Mesmo assim, a cervejaria Itaipava, patrocinadora da Grande Rio, e a Brahma, dona do camarote mais famoso do Carnaval, já disputam a jovem.

Grazi vive hoje numa casa no Recreio dos Bandeirantes, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro, com o "namorido" Alan e Carolina, uma fêmea de golden retriever. "Eu sou musa do meu negão", diz Grazi. Dele, dos leitores de ÉPOCA, dos telespectadores de Páginas da Vida, da torcida do Flamengo – e, se calhar, da do Vasco também. A nova namoradinha do Brasil prepara a fantasia em tons de ouro com que pretende desfilar na Grande Rio. Assim vestida, a musa do Carnaval poderia também ser musa de Chico Buarque:

Todo ano eu lhe fazia
Uma cabrocha de alta classe
De dourado eu lhe vestia
Para que o povo admirasse.

Não parece que "Quem Te Viu (no Big Brother) Quem Te Vê (na Sapucaí)" foi feita para ela?

Ronald de Golias – In Memoriam

Sempre gostei do Ronald de Golias como humorista, desde que comecei a ouvir as noveletas que ele e o Carlos Alberto de Nóbrega faziam no Programa Manoel da Nóbrega na Rádio Nacional. A primeira noveleta que ouvi creio ter sido "A Fera do Mar", no início da década de 50.

Está certo que ele recorria à baixaria, que se repetia, etc. Mas era divertido. E autêntico. Preferia ele ao Chico Anísio e ao Jô Soares, como humorista. Nos outros dois nem acho mais graça. Nele, infelizmente, não vou poder mais achar. Vou sentir sua falta.

Em Campinas, 27 de setembro de 2005.