Thelminha

A novela Páginas da Vida termina esta semana. Parece incrível que, ao chegar ao fim, o destaque da história tenha se tornado Grazi Massafera no papel da doce Thelminha. Esta é sua primeira novela, ela entrou tarde na trama, seu papel era de uma doméstica, e ela foi posta a atuar junto de algumas das maiores cobras da televisão e a contracenar diretamente com o principal galã da história. Ela enfrentou o desafio com coragem, humildade e competência, e saiu-se extremamente bem. Apesar de a novela contar com vários colírios para os olhos masculinos, confesso que fico esperando as cenas de Grazi – e não sou o único.
 
O curioso é que o autor da novela foi ajustando a trama para adequá-la à recepção extremamente favorável de Thelminha por parte dos telespectadores. Sinopses antigas sugeriam que Thelminha iria ser tão malandra quanto sua irmã, mas que seria mais bem sucedida no esforço de conquistar o galã da novela. A história evoluiu de tal maneira, porém, que Thelminha o conquistou sem malandragens, só pelo seu jeito de ser — chegando virgem e "invicta" ao final da novela. Isso em si é pouco comum — na vida e especialmente em novela. Do jeito que são as coisas hoje em dia, Manuel Carlos foi, curiosa e paradoxalmente, ousado ao criar um personagem feminino tão atraente que não pula na cama imediatamente com o homem a quem ama (como não o havia feito com o noivo, de quem gosta mas a quem claramente não ama). Se defeito houve na trama foi na caracterização do triste Dorival… Ele poderia ter sido feito um pouco mais atraente, para não tornar a atração de Thelminha por Jorge tão inevitável…
 
Em São Paulo, 28 de fevereiro de 2007 
 
Eis um texto da Revista Época que confirma o que digo (http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG76418-6014-457,00.html):
 
NESTE CARNAVAL, O SAMBA VAI SAIR (LÁ-LÁ- Laiáááááá…) procurando Grazi. Já faz algum tempo que as musas da Sapucaí não são apenas "as mais bonitas entre as cabrochas desta ala", como cantava Chico Buarque em "Quem Te Viu, Quem Te Vê", exaltação às beldades das escolas. Nos últimos tempos, são as estrelas de televisão que têm sido as rainhas do Carnaval. Em 2003, Deborah Secco e Juliana Paes explodiram na novela Celebridade interpretando as loucas pela fama Darlene e Jacqueline Joy. No ano seguinte, a fama veio mesmo – na Sapucaí. Deborah "Darlene" foi a rainha da bateria da Grande Rio e Juliana "Joy" iniciou seu reinado à frente dos ritmistas da Viradouro. Neste ano, a presença mais esperada na passarela do samba volta a ser a da principal estrela da telenovela na atualidade. Grazielli Massafera é a favorita não apenas dos leitores de ÉPOCA – ela venceu a enquete promovida pelo site da revista sobre quem seria a musa do Carnaval, deixando as medalhas de prata e bronze com Juliana Paes e Viviane Araújo. Ela é também a preferida dos telespectadores da novela das 8 da TV Globo, Páginas da Vida. Quando sua personagem, a ingênua Thelminha, aparece em cena, a audiência aumenta. Isso ocorreu, por exemplo, na cena em que a mocinha deu o primeiro beijo no galã Jorge, interpretado por Thiago Lacerda. O ibope subiu para 50 pontos, três a mais que a média da novela. Ciente dessas oscilações, o autor Manoel Carlos aumentou o papel de Thelminha na novela.

Grazi roubou a cena encarnando, na TV, uma fantasia cara aos brasileiros. Ela é a "namoradinha", o tipo consagrado nos anos 70 por Regina Duarte em papéis como a Ritinha de Irmãos Coragem (1970) ou a Patrícia de Minha Doce Namorada (1972). "Grazi é a mais nova namoradinha do Brasil", diz Mauro Alencar, pesquisador da Universidade de São Paulo e um dos maiores estudiosos da telenovela no Brasil. Para Alencar, que escreve um livro justamente sobre o assunto, ser "namoradinha" é mais que encarnar a mocinha "do bem", destinada a derrotar a megera e ficar com o galã no final. "Uma das características principais desse tipo de personagem, claro, é a pureza. Mas não é a pureza da virgindade. Tem mais a ver com a inexperiência com a vida. Mesmo que as personagens de Regina Duarte não fossem virgens de fato, eram recatadas, ou por serem da roça, ou por conta de uma decepção amorosa", afirma Alencar. Assim é a Thelminha de Páginas da Vida. Ela é uma moça do interior de um tipo que não existe mais no interior – que, com a internet, a riqueza derivada do agronegócio e toda uma cultura simbolizada pelos rodeios e festas do peão, é muito diferente do lugar bucólico retratado na Vila de Coroado de Irmãos Coragem. Thelminha cativa tanto por seu jeito fora de moda – potencializado pelo contraste com uma irmã esfuziante, vivida por Danielle Winits – quanto por ressuscitar um tipo que andava sumido desde os tempos de Regina Duarte.

O auge da "namoradinha" foi nos anos 70, quando várias atrizes seguiram o modelo de Regina Duarte (veja o quadro na sequência da matéria). Mauro Alencar cita Eva Wilma (Mulheres de Areia, 1975), Lucélia Santos (Escrava Isaura, 1977) e Glória Pires (Cabocla, 1979). "Nesse período, a que chegou mais perto foi a Carolina de A Moreninha, vivida por Nívea Maria", diz o estudioso. A "namoradinha" começou a entrar em declínio quando Regina Duarte decidiu que sua carreira precisava de um novo rumo e partiu para um papel radicalmente diferente – a divorciada que vai à luta em Malu Mulher. Nos anos 80 e 90, várias atrizes reivindicaram o título, mas os tempos eram outros. À Lurdinha de Anos Dourados, vivida por Malu Mader, faltava a "pureza" de que fala Alencar – embora a personagem fosse virgem no começo da trama. Nenhuma atriz foi mais comparada a Regina Duarte que Adriana Esteves quando ela despontou para o estrelato, vivendo a Patrícia de Meu Bem, Meu Mal (1991). Mas a determinação com a qual ela perseguia o amor do galã Ricardo, homem mais velho vivido por José Mayer, não combinava com o figurino. "Namoradinhas" como Regina Duarte nos anos 70 não vão atrás – esperam que o homem venha até elas. A Thelminha de Grazi é exatamente assim. Com o ar de quem não entende os códigos do amor numa cidade grande, ela parece clamar por um galã que a ensine. É um tipo recorrente na ficção desde que o escritor irlandês George Bernard Shaw o inventou, no começo do século XX, na peça Pigmalião – que inspiraria a mais conhecida versão cinematográfica do personagem, a deliciosa Audrey Hepburn de My Fair Lady. A "namoradinha" é a versão brasileira desse arquétipo literário e cinematográfico.

Grazi já está no imaginário romântico. Agora, ela precisa entrar no imaginário do samba. Com a batucada ao fundo, suspiros e sorrisos de moça recatada ficam em segundo plano. O que conta são atributos mais, por assim dizer, firmes. Para consegui-los, Grazi se esforça. Nos últimos dois meses, a atriz de 1,73 metro de altura e 58 quilos distribuídos em um corpo longilíneo fez mais de 30 sessões de 75 minutos de malhação pesada. O objetivo: aumentar as pernas e o bumbum, principais alvos das câmeras de toda musa no Sambódromo e de um complexo da própria atriz. "Ah, eu sou só ajeitadinha. Tenho as pernas finas e sou desbundada", diz Grazi. Seu cotidiano dos últimos tempos inclui agachamento para as coxas e exercícios com caneleiras de 12 quilos para reforçar o bumbum, além de abdominais para secar a barriga. "Os últimos dias serão para dar uma secada na barriguinha", diz o personal trainer Marcello Barbosa, responsável também por esculpir o corpo da apresentadora Angélica.

Na disputa entre musas não basta ser bonita ou sexy. Para tomar de Juliana Paes o título de Rainha do Carnaval – a morena desfila novamente neste ano na favorita Viradouro -, Grazi enfrenta ainda aulas de samba com as passistas de sua escola, a Grande Rio, vice-campeã do Carnaval do ano passado. "Só não dá pra rebolar que nem elas. Você já viu? Elas têm alguma coisa no quadril que é só delas", afirmou Grazi durante um dos ensaios. O esforço está agradando. O presidente da escola, Jayder Soares, deu de presente à atriz um colar de ouro, rubis e brilhantes com a forma do símbolo da escola.

A trajetória de Grazi é admirável também porque, entre todos os candidatos a ator que passaram pelo programa Big Brother Brasil, ela é provavelmente a mais bem-sucedida. Em 2004, Grazi comemorava o terceiro lugar num concurso de miss, depois de ter sido babá e manicure em Jacarezinho, no interior do Paraná. Escolhida para o Big Brother de 2005, ela chegou à final, vencida pelo professor baiano Jean Wyllys. Foi no BBB que conheceu Alan Passos, seu "namorido (namorado-marido)", na definição da atriz. "No começo, ela era só famosa por ser famosa. Mas conseguiu manter a visibilidade depois do BBB", afirma o publicitário Lula Vieira. Depois do BBB, Grazi tornou-se uma espécie de total-flex da publicidade, fazendo todo tipo de comercial, sem se preocupar com a imagem (por falar em imagem, o fato de ter posado nua para a revista Playboy estranhamente não interferiu em sua aura de pureza). Mas a fama cresceu, e hoje ela é alvo de disputas ferrenhas. De acordo com a legislação, Grazi só poderá aparecer em comercial de cerveja aos 25 anos, idade que completará em junho. Mesmo assim, a cervejaria Itaipava, patrocinadora da Grande Rio, e a Brahma, dona do camarote mais famoso do Carnaval, já disputam a jovem.

Grazi vive hoje numa casa no Recreio dos Bandeirantes, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro, com o "namorido" Alan e Carolina, uma fêmea de golden retriever. "Eu sou musa do meu negão", diz Grazi. Dele, dos leitores de ÉPOCA, dos telespectadores de Páginas da Vida, da torcida do Flamengo – e, se calhar, da do Vasco também. A nova namoradinha do Brasil prepara a fantasia em tons de ouro com que pretende desfilar na Grande Rio. Assim vestida, a musa do Carnaval poderia também ser musa de Chico Buarque:

Todo ano eu lhe fazia
Uma cabrocha de alta classe
De dourado eu lhe vestia
Para que o povo admirasse.

Não parece que "Quem Te Viu (no Big Brother) Quem Te Vê (na Sapucaí)" foi feita para ela?

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