MindTools: As Ferramentas da Mente

MindTools – Ferramentas da Mente… As três funções principais da mente são pensar, sentir, decidir. Pensamento, sentimento e vontade são as três faculdades da mente – para usar a linguagem da filosofia clássica.
 
Se é isso que a mente faz, quais são as ferramentas com as quais ela pensa, sente e decide?
 
As duas principais são a lógica e a linguagem. Não é fácil dizer qual das duas é mais básica, porque elas se interpenetram e, às vezes, até parecem se confundir. Mas eu considero a lógica a ferramenta mais básica, mais fundamental. Podemos ter várias linguagens – mas, a despeito dos marxistas, que falam em uma suposta lógica dialética, temos apenas uma lógica. Mas não é só por isso. O tipo de linguagem que nós, humanos, temos é conceitual: uma linguagem que, exceto no caso de nomes próprios, se refere a conceitos, não a coisas ou objetos. E um conceito é uma entidade lógica, como veremos a seguir.  
 
Comecemos, portanto, por ela: a lógica.
 
A lógica opera em duas dimensões: a dimensão dos conceitos e a dimensão dos enunciados (ou das proposições). Falemos primeiro da dimensão dos conceitos.
A matéria prima bruta sobre a qual a mente opera são as sensações sensoriais. Estamos, constantemente, sendo submetidos à uma quantidade enorme de sensações visuais, auditivas, olfativas, gustativas, táteis: uma multidão de imagens, sons, cheiros, gostos, impressões táteis (interessante, mas não parecemos ter um nome pronto para o objeto de nossas sensações táteis). Percebemos, no entanto, apenas algumas dessas sensações. O nível da percepção já permite um primeiro processamento das sensações. Mas os nossos "perceitos" (aquilo que percebemos) é sempre particular e concreto. São os perceitos a matéria prima processada da operação seguinte, mais importante: com base nas similaridades que percebemos nos diversos perceitos, construímos conceitos. Enquanto perceitos são particulares e concretos, conceitos são gerais e abstratos. Quantos objetos particulares e concretos que têm quatro patas, são peludos, e latem nós já percebemos? Milhares. Em geral os percebemos ao mesmo tempo que recebemos uma quantidade enorme de outras impressões sensoriais: o pano de fundo em que se encontram esses cachorros. Mas "isolamos" desse pano de fundo as impressões sensoriais correspondentes aos objetos particulares e singulares que chamamos de cachorros. Esse objeto isolado é o que eu chamo de um perceito. Com base em vários perceitos que possuem, entre si, determinadas semelhanças, construímos o conceito de cachorro. O conceito é geral e abstrato. Ele não se confunde com nenhum cachorro particular e concreto que já vimos – mas se aplica a todos eles. Construímos conceito através de um processo de abstração, integração e diferenciação. Em outro artigo discutiremos isso.
 
A lógica dos conceitos trata dos processos através do qual construímos conceitos. Mas conceitos são entidades estáticas. Para que possamos afirmar coisas acerca do mundo em que vivemos, e acerca de nós mesmos, precisamos ir além deles, combinando-os em enunciados ou proposições. "O cachorro de meu neto é um labrador de cor de caramelo". Enunciados ou proposições são afirmações que fazemos acerca do mundo. Sua característica básica é ter de ser ou verdadeira ou falsa – uma das duas, mas não ambas as coisas. Todo enunciado é ou verdadeiro ou falso. Não há enunciado que seja verdadeiro e falso – da mesma forma que não há enunciado que não seja nem verdadeiro nem falso. Por isso, os três axiomas básicos da lógica dos enunciados ou das proposições são:
 
a) Todo enunciado é ou verdadeiro ou falso – não há uma terceira possibilidade (tertium non datur). Esse é o axioma do terceiro excluído.
 
b) Nenhum enunciado é verdadeiro e falso – tem de ser apenas um dos dois. Esse é o axioma da não contradição.
 
c) Se um enunciado é verdadeiro, ele será verdadeiro sempre, e se é falso, será falso sempre. Não há como um enunciado ser verdadeiro agora e falso amanhã, ou vice-versa. Esse é o axioma da identidade.
 
Alguns, que nunca lidaram com lógica pode achar esses axiomas triviais – e de certo modo eles assim o parecem, em parte porque estão tão implantados em nossa mente que parecem óbvios.  Outros podem achar esses enunciados absurdos – especialmente o terceiro.
Em outros artigos lidarei com essas questões. Aqui quero ir direto ao meu ponto final. Conceitos, apesar de entidades lógicas, recebem nomes, que são entidades lingüísticas. E enunciados ou proposições, que também são entidades lógicas, são expressos através de sentenças, frases, orações, que também são entidades lingüísticas.
 
O pensamento, porém, apesar sempre expresso numa linguagem particular e concreta, é uma entidade lógica. E, de igual forma, o sentimento e a decisão.
 
As ferramentas principais da mente são, portanto, a lógica e a linguagem.
 
Uma observação final.
 
Os medievais, quando pensavam em educação, pensavam em um processo de aprendizagem que envolvia três conjuntos de aprenderes básicos (ou o desenvolvimento de três competências básicas): a lógica, a linguagem e a retórica (o Trivium). A retórica é a capacidade de usar a linguagem para evocar emoções e sentimentos, suscitar a ação. Muitos confundem a retórica com a lógica. A função desta é convencer racionalmente; a da retórica é mexer com as "molas propulsoras" de nossas ações, que são as nossas emoções. Uma retórica sem lógica é vazia. Mas uma lógica sem retórica pode ser ineficaz para nos levar a agir.
 
Em Campinas, 27 de fevereiro de 2007

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