A greve dos que sustentam o mundo nas costas

Transcrevo abaixo artigo meu publicado na Folha de S. Paulo de hoje, na seção Cifras & Letras.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/me0910201005.htm

Cifras & Letras

CRÍTICA – LIBERALISMO

Ayn Rand ataca socialismo mostrando greve de patrões

Livro formou economistas como Alan Greenspan, ex-presidente do Fed

EDUARDO CHAVES

Especial para a Folha

A Bíblia do pensamento liberal na segunda metade do século não é um livro de economia ou de filosofia política: é um romance.

“Atlas Shrugged”, a clássica defesa da liberdade, do individualismo e do capitalismo escrita por Ayn Rand (1905-81), romancista e filósofa russo-americana, acaba de ganhar nova edição em português, com novo título: “A Revolta de Atlas”.

A edição anterior, publicada em 1987, e há muito esgotada, tinha o título de “Quem é John Galt?”. A tradução é a mesma, mas foi editada e revisada pela editora Sextante.

Com 1.232 páginas na presente edição, o livro tem um enredo extremamente complexo e bem elaborado, que não é possível resumir aqui.

No entanto, uma descrição, ainda que breve, do tema escolhido por Rand dá ideia da dimensão da obra.

Originalmente publicada em 1957, a história se passa nos Estados Unidos, numa época futura em que o país, seguindo o exemplo de países europeus e latino-americanos, caminha para o socialismo e resolve regular e assim controlar sua economia.

GREVE DOS CHEFES

O livro descreve o que acontece quando aqueles que (como Atlas) sustentam o mundo nas costas resolvem fazer greve, sacudindo o mundo dos ombros e deixando que literalmente se dane.

“Vamos ver o que acontece ao mundo quando quem faz greve contra quem” é frase (retirada do livro) que resume o tema da obra.

Entrando em greve, empresários americanos começam a desaparecer, abandonando suas empresas nas mãos de reguladores e controladores estatais. Grandes filósofos, cientistas e artistas também desaparecem, abandonando seus empreendimentos.

O lado otimista da história é que o Estado pode confiscar empresas e outros empreendimentos, mas não consegue obrigar empresários e outros empreendedores a lhe arrendar suas mentes, sua criatividade, sua competência, seu trabalho.

O Estado, portanto, que fique com os empreendimentos, decidem seus proprietários na história. Mas eles não colocam mais suas mentes a serviço da sustentação de um mundo onde esse tipo de confisco pode acontecer.

(Na realidade, o que deixam para o Estado espoliador não passa da carcaça de empresas e empreendimentos cuja alma eles levaram consigo.)

CAOS

A história narra nos mínimos detalhes o caos que resulta dessa inusitada greve em que aqueles que normalmente são vítimas das greves, os empreendedores, retiram do mercado sua mente e seu trabalho, e, no processo, deixam o mundo sem bens, sem serviços, sem empregos.

Quando Atlas faz greve, o mundo literalmente desmorona (mais ou menos como aconteceu com o mundo comunista em 1989).

Ao final da história, quando as luzes do velho mundo se apagam, simbolizando a derrocada que lhe sobrevém quando Atlas deixa de sustentá-lo, a porta está aberta para a construção de um mundo novo: a greve termina e Atlas está pronto para reassumir seu lugar.

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EDUARDO CHAVES foi professor de filosofia da Universidade Estadual de Campinas e, depois de aposentado, leciona filosofia da educação no Centro Universitário Salesiano de Americana, SP.

A REVOLTA DE ATLAS
AUTORA Ayn Rand
TRADUÇÃO Paulo Henriques Britto
EDITORA Sextante
QUANTO R$ 69,90 (1.232 págs.)

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Em São Paulo, 9 de Outubro de 2010

  1. [Material que ficou de fora, por causa do espaço limitado, da resenha da Folha de S. Paulo]

    AYN RAND

    Extremamente bem conhecida nos Estados Unidos, Ayn Rand (nom de plume de Alissa Zinovievna Rosenbaum) não é bem conhecida no Brasil. Nascida (em 1905) em São Petersburgo, na Rússia tsarista, Rand fugiu para os Estados Unidos em 1926, por não suportar a ditadura comunista implantada no país em 1917.

    Nos Estados Unidos Rand foi trabalhar em Hollywood como roteirista de Cecil B. de Mille, o famoso diretor de Os 10 Mandamentos. Rand só ficou famosa, porém, em 1943 com seu primeiro romance de fôlego, The Fountainhead (A Nascente é o título em Português, reeditado recentemente pela Editora Landscape), que em 1949 se tornou filme, dirigido por King Vidor e estrelado por Gary Cooper e Patricia Neal. Mas foi com Atlas Shrugged, publicado em 1957, que Rand ganhou notoriedade definitiva como uma das mais agressivas defensoras do capitalismo e da liberal democracia (liberalismo clássico, laissez faire) e crítica de todas as formas de socialismo, coletivismo e estatismo. Ela via o capitalismo como uma força revolucionária, não como uma força reacionária, contrária a mudanças.

    (Ressalte-se que Rand também era crítica violenta do conservadorismo de teor religioso de boa parte dos americanos. Atéia convicta, nunca foi bem aceita pelo establishment religioso do país.)

    Depois de 1957 Rand abandonou a literatura e se dedicou a elaborar de forma mais sistemática a sua filosofia. Datam desse período Philosophy: Who Needs it?, An Introduction to Objectivist Epistemology, The Voice of Reason, The Virtue of Selfishness (este traduzido para o Português como A Virtude do Egoísmo), etc.
    A partir dessa data formou-se, nos Estados Unidos e mundo afora, um movimento de seguidores de Ayn Rand, que se denominam (até hoje) Objetivistas – entre os quais figurou, por muito tempo, Alan Greenspan, o todo-poderoso chefe do Federal Reserve Bank americano de 1987 a 2006.

    Rand faleceu em 1981, mas seus livros continuam a fazer sucesso. Uma série de TV sobre Atlas Shrugged é ansiosamente esperada pelos fãs da autora.

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