Uma outra crônica antiga: sobre avós, pais e netos…

 
[A crônica abaixo distribuí pela Lista EduTec.Net no dia 15 de Outubro de 2000. O Gabriel, mencionado na crônica anterior, já tinha feito um ano.]
 
Uma Crônica para o Dia da Criança e do Professor
 
Ontem tive um dia especialmente agradável com meu neto Gabriel, que fez um ano no último dia trinta, que ontem chegou a dar cinco passinhos seguidos, e que, modéstia à parte, me adora (não tanto quanto eu a ele, porém). Brincamos no chão da sala por um bom tempo, bagunçando as coisas da avó, que não achou muita graça na folia. Tirei as almofadas dos sofás, espalhei pelo chão e ele imediatamente descobriu que subindo na almofada conseguia subir no sofá agora desalmofadado, no qual ficava em pé e tentava subir nos braços. Um alpinista de marca maior. À tarde fomos ao Shopping Galleria, tomamos sorvete, e vimos a queda d’água artificial pela qual ele tem especial gosto.
 
Mas essas coisas só interessam a mim e, imagino, a ele. Por isso vou deixá-las de lado para refletir um pouco sobre a questão do título, passando, necessariamente, pela questão intermediária: de pais e filhos. Ouso esperar que essas reflexões tenham algo que ver com o Dia da Criança e o Dia do Professor, que, por coincidência, ficam pertos um do outro no nosso calendário festivo.
 
Lembro-me de que fiquei surpreso, há anos, quando li, num livro de cujo título não mais me lembro (mas que tenho na estante), uma discussão da questao: "Por que as pessoas têm filhos?". Em outras eras, os pais precisavam dos filhos para ajudá-los no trabalho — filhos eram, principalmente, braços, mão de obra. Outros, aparentemente, ainda hoje têm filhos na esperança de que os filhos venham a cuidar deles na velhice — ter filhos seria, para eles, como comprar apólices de seguro. Poucos têm filhos pensando no futuro da raça humana — se ninguém tiver, o ser humano desaparece da face da Terra. Por fim, deixando de fora aqueles que têm filhos sem querer, parece que a grande maioria dos restantes têm filhos porque crianças são (por um tempo) um brinquedo muito gostoso — ou pelo menos assim parecem.
 
Confesso que, quando a li pela primeira vez, a discussão me surpreendeu — talvez porque nunca tivesse pensado muito seriamente no assunto. Lembro-me de que logo que me casei (pela primeira vez) estava convicto de que nunca teria filhos. Achava eu (refletindo o espirito dos tempos) que o planeta já estava super-populado e que eu deveria colaborar para que se alcançasse ZPG — Zero Population Growth (Crescimento Populacional Zero): só podem (devem) nascer pessoas na justa medida requerida para substituir os que morrem. Como eu sabia que sempre haveria os exagerados ou os distraídos que iriam ter mais do que sua cota, eu estava disposto a doar a minha em benefício da qualidade de vida das gerações futuras.
 
Minha primeira filha, Andrea, não foi planejada — foi, eu diria, fruto da distração a que me referi. Mas me encantei tanto dela que abandonei meu propósito de colaborar com a qualidade de vida futura no planeta Terra. Dois anos depois, já em outro casamento, tive outra, a Patrícia — esta mais ou menos planejada (pelo menos, muito desejada). (Parece que pessoas que se unem quando os dois já foram casados antes e tiveram filhos nos casamentos anteriores têm uma certa ansiedade em ter um filho "seu mesmo", dos dois, para selar o seu compromisso, e assim foi comigo e com a Sueli, minha mulher). Foram as duas filhas que tive. Fiquei abaixo da media mundial e brasileira. Os outros dois filhos que tenho, a Tatiana (mãe do Gabriel) e o Rodrigo, a Sueli já os trouxe consigo…
 
Minha mulher, portanto, que já tinha dois filhos do primeiro casamento, tem uma media um pouquinho mais alta, três. (Minha ex-mulher, porem, colaborou para contrabalançar e só teve um, a minha filha).
 
Mas, voltando ao assunto. As crianças, especialmente até uma certa idade, são um brinquedo agradabilíssimo: em geral são bonitas (pelo menos para os pais [e avós]), são fofas, são bem dispostas, e, especialmente, são interativas. O que os autores de programas de computador sempre souberam, e os produtores de programa de televisão estão descobrindo, é que a interação é essencial em qualquer brinquedo: você precisa brincar com alguém (ou alguma coisa) que lhe responda, que lhe dê feedback — que, quando você chega, lhe sorri, vem correndo para os seus braços, lhe dá um "uta" apertado e um beijo lambuzado, e que, quando você vai embora, chora, quer ir junto… Quer coisa mais agradável do que isso?
 
Netos, como acertadamente disse alguém (o Toninho, meu amigo, professor em Campinas), são filhos com cobertura de leite condensado. É por isso que o Toninho, historiador consciente e engajado, compra revistinhas de Pokemon para o Pedro, neto dele. Na prática, o avô sucumbe ao neto, não vice-versa.
 
Na coluna do Millor na Folha de hoje ele faz o seguinte comentário — por sinal, lidando com a história também:
 
"Como sempre gostei de história, sofro o engano de que o gosto continue na minha descendência. Noutro dia provei isso, mas de maneira inesperada, ao falar de história a meu neto, de nove anos. Espantado, ele perguntou: ‘Ué, quando o senhor era criança já tinha acontecido muita coisa?’"
 
Embora na prática, seja o avô que sucumbe ao neto, e não vice-versa, o Millor reflete o sonho, oposto, de todo pai, de todo avô: o de que os nossos gostos se perpetuem na nossa descendência…
 
É isso aí. Fico imaginando como seria bom se o Gabriel se interessasse por filosofia… Já herdaria uma biblioteca de quase 5 mil volumes de livros de filosofia, só para ele — visto que os possíveis concorrentes não estão nem um pouco interessados em filosofia…
 
Tenho certa inveja de meu bom amigo e também filosofo, Antonio Rezende – cujo filho Cristiano faz doutorado em Spinoza no Departamento de Filosofia na USP… (embora, se o filho fosse meu, eu preferisse Hume… — e iria tentá-lo manter longe da Marilena Chauí…).
 
Os meus filhos (contando os do casamento anterior da minha mulher) são engenheiros (dois, um casal), uma administradora de empresas e uma dentista. Ninguém muito interessado em ler a Apologia de Sócrates, uma das obras filosóficas mais lindas que eu conheço. Quem sabe, portanto, um neto? Quem sabe o sorridente Gabriel? Precisamos de filósofos felizes como ele hoje é, desencucados, que tenham amor pela vida e pelas coisas boa que ela pode nos proporcionar.
 
Mas como despertar o gosto sem tolher a liberdade?
 
Eduardo
Transcrito em Salto, 30 de agosto de 2006

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