São todas as culturas iguais?

No artigo anterior fiz umas referências meio desairosas a alguns traços culturais (menos importantes) da cultura chinesa que tive o desprazer de presenciar ontem — em especial na hora de comer. Isso me fez pensar mais uma vez na questão a que sempre volto: o relativismo cultural.

Pretendem os relativistas que não existem valores universais (isto é, universalmente válidos), irrespectivamente do contexto. Valores, para eles, são definidos dentro de um contexto cultural e, portanto, não há como dizer (de um ponto arquimédico supra-cultural) que uma cultura é superior a outra (i.e., melhor do que a outra).

Eu sempre combati esse relativismo. Nunca defendi a tese de que tudo numa cultura é melhor do que na outra. O que defendo é que é possível dizer, em relação a determinados traços culturais, que uns são melhores do que os outros, e é possível dizer isso porque há valores que são inegavelmente universais.

Estou disposto a admitir que regras sobre como interagir com os alimentos não sejam valores, não passando de simples costumes (regras de etiqueta) com os quais não se deve perder muito tempo. Se uns se recusam a trazer pés de galinha fritos à mesa, ou até mesmo a servir outras partes da galinha que seja meio difícil comer sem segurá-las com a mão, e outros se sentem bem e à vontade para, sem o menor pudor, chupar os pés das penosas em público, por que dizer que um costume é melhor do que outro?

Minha resposta está no fato de que o hábito do relativismo (mesmo nos costumes) deve ser desincentivado — e isso porque, por mais inócuo que possa parecer um costume, ele traz, embutido em si, um certo valor… Andar pelo meio do trem com um pé de galinha frito na boca e com as mãos livres reflete uma falta de sensibilidade pelo menos estética que quase causa dor física.

Lembro-me, no contexto, de que, mais de uma vez, já pensei sobre o seguinte. Quase toda cultura faz uma distinção (relativamente clara, nos casos limites) entre o que pode ou deve ser feito em público e o que deve ser feito em privado. Por que é que as funções excretoras são, via de regra, realizadas em privado, e, no entanto, a sua contrapartida natural, as funções ingestoras de alimento, são em geral prestigiadas socialmente, realizadas em público e, boa parte das vezes, em companhia?

A pergunta merece reflexão. Se comemos em público e em companhia, sem o menor pudor, mesmo sendo o ato de ingerir alimentos por vezes deselegante (como no caso dos malditos pés de galinha fritos), por que não defecamos e urinamos em público e em companhia?

Encontro duas respostas possíveis a essa questão.

Primeiro, há a questão do fato de que as funções secretoras são executadas por órgãos que ficam muito próximos dos órgãos sexuais que, em geral, é tabu exibir e, mais ainda, utilizar em público. É difícil imaginar como defecar ou urinar em público ou em companhia sem exibir as "partes pudendas" de que fala nosso Direito (e, assim, cometer "atentado ao pudor").

Segundo, há a questão do cheiro… Fezes e urina em geral têm um odor considerado universalmente como desagradável (embora, a julgar pelos contos eróticos que de vez em quando se encontram na Internet, haja quem goste) — e, assim, o que é objetável no ato de defecar e urinar em público, ou em companhia, é o mal-cheiro que acompanha o ato (fato que contamina também a inofensiva flatulência). 

Estão vendo como mesmo os costumes mais elementares no fundo têm um fundo de valor? No caso, um valor estético — um cheiro desgradável, mais corretamente, sem eufemismos, um fedor.

Na verdade, minha sensibilidade estética está tão aguçada atualmente que estaria disposto a tornar o ato de ingestão de alimentos um ato privado (e não o oposto, isto é, a tornar os atos excretores públicos). Tenho prestado atenção às pessoas comendo, e minha estética — vale dizer, meus valores estéticos — fica constantemente ofendida! Ver um americano gordo, segurando-o com as duas mãos, atacar um Big Mac no aeroporto de Chicago revolta o meu estômago tanto quanto o cara chupando despudoradamente os pezinhos da galinha (chupar os dedos do pé da mulher amada é corretamente considerado um fetiche — algo desusado, quase tanto como a chamada "chuva dourada"). E o ataque ao Big Mac não seria menos ofensivo, do ponto de vista dos valores estéticos, se estivesse sendo perpetrado pela segunda Martha Rocha — a atual Miss Brasil, a (pela segunda vez) injustiçada segunda colocada no concurso de Miss Universo. (Por ela ter sido injustiçada, não menciono aqui a Miss Japão, que ganhou o concurso).

Por falar no concurso de Miss Universo, acho que há critérios objetivos que nos permitem dizer que a brasileira foi injustiçada: não é simples bairrismo ou chauvinismo — até porque eu, em geral, sou, em regra, anti-bairrista e chauvinista, tendendo a acreditar que os bairristas e chauvinistas estão em geral errados (embora não neste caso).

Mas estou me afastando do tema — e queria voltar a ele.

Hoje o relativismo cultural está disfarçado de roupagens multiculturalistas. O multiculturalismo é relativista no sentido de que propõe a tese de que todas as culturas são igualmente válidas — a cultura ocidental feminista e a cultura africana que remove o clitóris das meninas púberes (clitoridectomia) e costura sua vagina, só deixando um espacinho para a urina e o sangue menstrual, para ela não ser tentada a transar antes que seu marido a desvirgine, rompendo a carne que foi costurada.

Mas o multiculturalismo tem ido além: tem sugerido (quando não dito explicitamente) que qualquer cultura, por mais primitiva (eu não hesito em usar esse termo, que os politicamente corretos procuram nos proibir de usar) que seja, é melhor do que a cultura ocidental. Só isso pode justificar o Prêmio Nobel a Rigoberta Manchú — e o fato de que algumas universidades americanas que, antigamente, eram de qualidade, incluam a dita cuja no currículo de literatura universal e deixem William Sheakespeare de fora (porque, afinal de contas, ele era ocidental — e, além disso, homem, branco e, pelo que consta, heterossexual — enquanto a Rigoberta era guatemalteca (que, segundo os PCs, não a qualifica como ocidental — o Terceiro Mundo, para eles, ainda que nas Américas, não é Ocidente). Além de guatemalteca, a Rigoberta era pelo menos mulher e marronzinha (indígena latinoamericano não é pele vermelha para os americanos politicamente corretos: é pele marrom).

Em outras palavras: o multiculturalismo vai além do relativismo cultural e procura mostrar que a cultura ocidental (que tem os seus problemas, ninguém nega) é inferior à cultura de qualquer povo primitivo que se encontre ao sul do Equador.

Vejam, a respeito, o Open-Ed do Ayn Rand Institute, com o qual estou de pleno acordo:

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Op-Ed from the Ayn Rand Institute

Multiculturalism’s War on Education

By Elan Journo

Back to school nowadays means back to classrooms, lessons and textbooks permeated by multiculturalism and its championing of "diversity." Many parents and teachers regard multiculturalism as an indispensable educational supplement, a salutary influence that &q
uot;enriches" the curriculum. But is it?

With the world’s continents bridged by the Internet and global commerce, multiculturalism claims to offer a real value: a cosmopolitan, rather than provincial, understanding of the world beyond the student’s immediate surroundings. But it is a peculiar kind of "broadening." Multiculturalists would rather have students admire the primitive patterns of Navajo blankets, say, than learn why Islam’s medieval golden age of scientific progress was replaced by fervent piety and centuries of stagnation.

Leaf through a school textbook and you’ll find that there is a definite pattern behind multiculturalism’s reshaping of the curriculum. What multiculturalists seek is not the goal they advertise, but something else entirely. Consider, for instance, the teaching of history.

One text acclaims the inhabitants of West Africa in pre-Columbian times for having prosperous economies and for establishing a university in Timbuktu; but it ignores their brutal trade in slaves and the proliferation of far more consequential institutions of learning in Paris, Oxford and elsewhere in Europe. Some books routinely lionize the architecture of the Aztecs, but purposely overlook or underplay the fact that they practiced human sacrifices. A few textbooks seek to portray Islam as peaceful in part by presenting the concept of "jihad" ("sacred war") to mean an internal struggle to surmount temptation and evil, while playing down Islam’s actual wars of religious conquest.

What these textbooks reveal is a concerted effort to portray the most backward, impoverished and murderous cultures as advanced, prosperous and life-enhancing. Multiculturalism’s goal is not to teach about other cultures, but to promote–by means of distortions and half-truths–the notion that non-Western cultures are as good as, if not better than, Western culture. Far from "broadening" the curriculum, what multiculturalism seeks is to diminish the value of Western culture in the minds of students. But, given all the facts, the objective superiority of Western culture is apparent, so multiculturalists must artificially elevate other cultures and depreciate the West.

If students were to learn the truth of the hardscrabble life of primitive farming in, say, India, they would recognize that subsistence living is far inferior to life on any mechanized farm in Kansas, which demands so little manpower, yet yields so much. An informed, rational student would not swallow the "politically correct" conclusions he is fed by multiculturalism. If he were given the actual facts, he could recognize that where men are politically free, as in the West, they can prosper economically; that science and technology are superior to superstition; that man’s life is far longer, happier and safer in the West today than in any other culture in history.

The ideals, achievements and history of Western culture in general–and of America in particular–are therefore purposely given short-shrift by multiculturalism. That the Industrial Revolution and the Information Age were born and flourished in Western nations; that the preponderance of Nobel prizes in science have been awarded to people in the West–such facts, if they are noted, are passed over with little elaboration.

The "history" that students do learn is rewritten to fit multiculturalism’s agenda. Consider the birth of the United States. Some texts would have children believe the baseless claim that America’s Founders modeled the Constitution on a confederation of Indian tribes. This is part of a wider drive to portray the United States as a product of the "convergence" of three traditions–native Indian, African and European. But the American republic, with an elected government limited by individual rights, was born not of stone-age peoples, but primarily of the European Enlightenment. It is a product of the ideas of thinkers like John Locke, a British philosopher, and his intellectual heirs in colonial America, such as Thomas Jefferson. 

It is a gross misconception to view multiculturalism as an effort to enrich education. By reshaping the curriculum, the purveyors of "diversity" in the classroom calculatedly seek to prevent students from grasping the objective value to human life of Western culture–a culture whose magnificent achievements have brought man from mud huts to moon landings. 

Multiculturalism is no boon to education, but an agent of anti-Western ideology.

Elan Journo is a junior fellow at the Ayn Rand Institute (http://www.aynrand.org/) in Irvine, Calif. The Institute promotes Objectivism, the philosophy of Ayn Rand–author of "Atlas Shrugged" and "The Fountainhead." Contact the writer at media@aynrand.org.

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Comecei com pés de galinha frita e acabei chegando em assuntos que são da maior importância. Mas uma coisa leva à outra.

Em Hualien, TW, 25 de Agosto de 2007

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