Jaci Maraschin, amigo por tabela

Jaci Maraschin se foi… No mesmo dia em que também o Pinotti morreu – ou um dia antes. Não conheci o Jaci pessoalmente: só conheci o trabalho dele e os reflexos da pessoa dele em pessoas como o Rubem Alves e o Aharon Sapsezian. Meu sobrinho, Vítor Chaves, já teólogo e futuro professor de teologia, também gostava dele.

Recebi hoje, do Takashi Shimizu, nosso amigo, uma carta que o Aharon escreveu para o Jaci, após a morte deste. Uma peça linda, como só o Aharon sabe escrever. Não pedi ao Aharon autorização para colocar a carta aqui – mas tenho certeza de que ele, quando a encontrar aqui, dará sua autorização ex post facto. Obrigado, Aharon, por uma carta tocante.

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Jaci querido. Você sabia que, pela idade e pela condição de saúde, eu estava na frente, Mas você furou a fila, me passou a perna e entrou primeiro pelos umbrais do além. Me senti só e chorei. Você era mais que um colega, mais que um amigo do peito, mais que companheiro festivo de caminhada. Você compartilhava com a Lelê um pedaço enorme do coração meu e da Zabel. Como sentimos sua ausência na festa que fizemos no Clube Armênio para comemorar nossas bodas de ouro! Só depois soubemos que você tinha sido hospitalizado naquele mesmo dia. Queria tanto prosear com você, sobre qualquer coisa, menos sobre teologia, porque ambos já estávamos fartos disso. Prosear só para prosear. Prosa gratuita, sobre tudo e sobre nada. Só pelo prazer de estar juntos, pela gostosura de existirmos, pela beleza da beleza.. Você me escreveu dizendo que tinha lido as minhas memórias, e que gostara, e que se animara a escrever as suas também. Na idade em que estávamos, eu dois passos à frente, vivíamos mais de memórias que de projetos. Olhando pelo retrovisor, acho que nós dois vivemos a vida como ela se apresentou a nós, como dom, como graça, como mistério luminoso, vida só para ser vivida ao sabor do vento que sopra onde quer. Aceitando o mal e o bem de cada dia, viessem como viessem. O curioso é que o fizemos cantando com Frank Sinatra "I did it my way". Será que o seu Tillich, ou o meu Niebuhr, entenderiam isso? Duvido. Mas deixemo-los em paz. Éramos mais que adultos e já tinhamos aprendido que a vida não era para ser interpretada com malabarismo intelectual, muito menos teológico, mas para ser vivida, na sua espontaneidade, na sua simplicidade, no seu encanto inefável, com intensidade e paixão. E passamos a saboreá-la avidamente como uma suculenta manga madura. Não éramos tolos. Sabíamos que o fim nos espreitava, de tocaia. Não nos metia medo, mas fazía-nos pensar que um dia a cortina cairia e a festa terminaria. Só que você não respeitou a ordem estabelecida. Transgressor inveterado que você era de toda e qualquer convenção, você me deixou pra tráz e partiu antes do que eu. E deixou um enorme vazio. Não há de ser nada. Não tardo, e vou alcançá-lo. Até logo, meu bom Jaci.   

Aharon Sapsezian
Commugny, Suíça

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Em Garden Grove / Anaheim, 7 de Julho de 2009

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