"Você não sabe até onde eu chegaria para te fazer feliz"

Possivelmente uma pequena parcela dos leitores vai estranhar a frase que dá título a este post. Essa mistura de pronomes da terceira e da segunda pessoa é rejeitada por nossa norma culta. No entanto, imagino que boa parte dos leitores não vai notar nenhum problema na frase – até que leiam o que estou escrevendo. Falamos, normalmente, sem nenhum problema, como na frase que dá título ao post – ou como em “Você não sabe o quanto eu te amo”…

A principal razão para essa mistura de pessoas nos pronomes é simples. Provavelmente dá para contar nos dedos as pessoas que, numa situação de vida real, diriam: “Você não sabe do que eu seria capaz para fazê-lo/a feliz”, ou “Você não sabe o quanto eu o/a amo”. Já imaginaram, em meio àquele beijo escaldante, dizer “Eu o/a amo”???

A norma culta deve refletir os usos e costumes de quem fala a língua. Já temos alguns usos esdrúxulos nas formas de tratamento: “Você” com a terceira pessoa do singular, normalmente aquela de quem se fala, não com quem se fala… Ou “Vossa Excelência” também com a terceira pessoa, apesar do “Vossa” explicitado (em “Você” o “Vossa” de “Vossa Mercê” sumiu…).

Para a maioria absoluta da população brasileira, “Você” leva o verbo para a terceira pessoa – mas o verbo transitivo direto concorda com o pronome “te”, da segunda pessoa, não com “o” ou “a”, da terceira, no objeto direto…

Vejamos só quantas vezes Roberto Carlos mistura pronomes da terceira (como sujeito)e da segunda pessoa (este como objeto direto) na canção “Você não sabe”…

“VOCÊ não sabe até onde eu chegaria pra TE fazer feliz…”

“Encontraria uma palavra … pra TE dizer…” [i.e., para dizer para você]

“… loucuras que já fiz pra TE fazer feliz” (duas vezes) [i.e., para fazer você feliz]

“VOCÊ só sabe que eu TE amo tanto…

No entanto, Roberto Carlos corretamente (fiel ao espírito da língua) diz:

“VOCÊ não sabe quanta coisa eu faria por um sorriso SEU…”

O sorriso é o seu – mas a declaração de amor é "eu te amo"…

Então, vamos parar de frescura e falar como o espírito da língua nos move a falar…

Em Americana, 26 de Outubro de 2009

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