A ditadura lingüística do Politicamente Correto

O Politicamente Correto é uma ditadura lingüística que especifica, em detalhes, o que podemos e o que não podemos dizer…

Começou nos Estados Unidos, espalhou-se pelo Canada e pela Europa, chegou ao Brasil já faz algum tempo.

Aqui, por volta de 2005, a Secretaria de Direitos Humanos (a mesma que está tentando agora rever a Lei da Anistia) tentou distribuir uma Cartilha do Politicamente Correto que considerava discriminatório até mesmo o termo “anão”. Cinco mil volumes já estavam impressos quando alguns ministros conseguiram convencer o Presidente Lulla a mandar a cartilha para o lixo. O principal argumento usado foi o de que a cartilha considerava impróprios vários termos que o próprio Lulla usava freqüentemente…

Nos Estados Unidos há várias “Cartilhas do Politicamente Correto” publicadas – mas elas são todas sátiras da iniciativa, gozações bem feitas dirigidas aos acadêmicos e militantes políticos que defendem o Politicamente Correto. Aqui no Brasil o que é piada nos Estados Unidos vira coisa séria.

No Brasil, recentemente, saiu uma cartilha especificando como devemos e como não devemos nos referir a Gays, Lésbicas, Bissexuais, Transsexuais, etc. e a outros aspectos da sexualidade.

Ainda falando de nossa Terra Brasilis, aquela peça de anacronismo que é o deputado Aldo Rebello, do PCdoB, tentou nos impor uma dose maior de patriotismo e brasilidade nos proibindo de usar termos estrangeiros. Pelo jeito ele pensava que, proibindo-nos de usar termos em Inglês, a gente admiraria menos os EUA e o capitalismo. Tudo loucura de esquerdista desvairado…

Esses esforços, estrangeiros e tupiniquins, de incutir valores reformando a linguagem, fazem lembrar o livro 1984, de George Orwell, bastante conhecido como “utopia negativa” da sociedade totalitária. Ele instituía a “novilíngua” (“newspeak”), a que todos deveriam se conformar. Esperava-se reformar a mente das pessoas reformando a linguagem que elas falavam…

Junto com a reformulação da linguagem, veio a reformulação dos contos infantis. Histórias como Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve, etc., foram reescritas para eliminar linguagem e imagens politicamente incorretas. Vira e mexe, alguém acusa Monteiro Lobato de racista…

Os patrulheiros do politicamente correto estão ativos no Brasil. Como mostra o artigo abaixo, de Luiz Felipe Pondé, estão tentando tirar o cachimbo da boca do Saci, para tornar o afrodescendente de locomoção limitada mais correto do ponto de vista político, que hoje condena o fumo…

Abaixo o texto de Pondé. Um protesto lúcido.

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Folha de S. Paulo
5 de Abril de 2010

LUIZ FELIPE PONDÉ
De 1984 a 2010


Tiraram o cachimbo do Saci. Amante de charutos cubanos, me senti diretamente afetado

NO ROMANCE “1984”, de George Orwell, o personagem principal trabalha alterando os arquivos históricos para moldar as consciências para o bom convívio social. Chegamos à época em que essa distopia (contrário de utopia) virou realidade. Só que, desta vez, pelas mãos dos herdeiros dos projetos utópicos “mais bem- intencionados”.

Porém, antes, um reparo. A política é um mal necessário, mas existem formas e formas de política. A minha pode ser entendida como uma política herdada de autores como Isaiah Berlin, filósofo e historiador das ideias do século 20, judeu nascido em Riga, Letônia, radicado na Inglaterra. Em matéria de política, prefiro sempre os britânicos aos franceses ou alemães. Tal como ele diz em seu recém-publicado no Brasil “Idéias Políticas na Era Romântica” (Cia. das Letras), prefiro a liberdade à felicidade.

A felicidade se declina no plural, porque os valores são conflitantes e não acredito em nenhuma forma de resolver essas diferenças. A melhor sociedade é a sociedade na qual ninguém tem razão (ninguém sabe a verdade definitiva sobre o bem e o mal), mas um número significativo de pessoas consegue conviver razoavelmente, mesmo sem saber a verdade sobre o bem e o mal.

O furor coletivo de “verdades do bem” deve ser mantido sob controle rígido assim como delírios de um serial killer numa noite de calor insuportável. A sociedade é o lugar do apenas tolerável.

E a profecia de Orwell? Todo mundo já tinha ouvido falar que na China o governo estaria alterando os livros de história das escolas para que a Revolução Cultural Chinesa (uma das maiores monstruosidades cometidas na história da humanidade) desaparecesse da memória das gerações mais jovens. Vale lembrar que muitas das pessoas que entre nós se preparam para assumir o governo concordavam com aquelas atrocidades: matar, saquear, sequestrar gente inocente.

Mas o que dizer de países democráticos como o Canadá? Recentemente, estudantes e professores “amantes da liberdade” quase lincharam uma intelectual americana, Ann Coulter, e impediram que ela falasse numa universidade. Não ouvi nenhum dos intelectuais de plantão defendê-la. Era de esperar que muitas mulheres do mundo das letras não o fizessem, uma vez que ela é loira e gostosa, pecados imperdoáveis para intelectuais feias e azedas. A causa da fúria da “comunidade intelectual” da universidade no Canadá era porque essa loira conservadora é conhecida por não rezar na cartilha dos opressores “do bem”.
O Canadá é um dos países mais totalitários no que se refere à repressão ao uso livre da linguagem e à crítica aos costumes da nova casta fascista que empesteia o mundo.

Lá, de repente, você pode ser preso porque usou uma palavra que esta casta julga inapropriada. Toda vez que estamos diante do controle oficial da língua, estamos diante de um regime opressor.

Mas fiquemos em nossa cozinha e deixemos os canadenses afogados em seu fascismo do detalhe.

Outro dia vi na mão de uma colega uma foto do “novo Saci”. Tiraram o cachimbo da boca do Saci. Eu, que sou um amante de cachimbos e charutos cubanos (e viva la Revolución!!), me senti diretamente afetado. Meu irmão de fé, o Saci, está sendo reprimido. A ideia é que, com cachimbo, ele é um mau exemplo para as crianças. Imagino que esses caras acham que bom exemplo é mulher vestida de homem coçando o saco.

Outro caso recente é a perseguição a velhas cantigas de roda e histórias infantis. Por exemplo, o “atirei o pau no gato” deve virar “não atire o pau no gato” para que as crianças não cresçam espancando gatos por aí. O fascismo “verde” chega ao ponto de tirar das crianças uma música divertida para torná-las defensoras dos gatos.

Lembro-me de meninas na minha infância que cantavam essas músicas e ainda assim choravam quando os meninos ensaiavam torturar pequenos animais só para vê-las chorar e assim chegar perto delas. Como era bom jogar baratas mortas no lanche das meninas só para ver elas pularem deliciosamente das suas cadeiras em lágrimas.

O Lobo Mau não pode mais ser mau e comer a vovozinha da Chapeuzinho Vermelho. Muito menos o Caçador pode salvá-la, porque estaria estimulando às meninas sonharem com príncipes encantados. O novo fascismo quer que os lobos sejam bonzinhos (pobres lobos) e que as meninas não sonhem com caçadores que as protejam (coitadas).

Sim, 1984 é agora.

ponde.folha@uol.com.br

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Em São Paulo, 5 de Abril de 2010

  1. Adorei este post, principalmente o artigo de Pondé. Isto nos faz repensar alguns conceitos. Tenho dois filhos, uma menina de 3 e um menino de 2 anos e recentemente em uma reunião na "escolinha" os orientadores pedagógicos estavam dizendo exatamente o que Pondé citou no texto. Eles nos orientavam para não mais "atirar o pau no gato" pois isto poderia prejudicar os conceitos da criança. Não concordei mas também não discutí, preferí me calar diante de Pais que estavam achando aquilo o máximo. Acho que infelizmente perdí uma ótima oportunidade de mostrar meu ponto de vista e argumentar sobre o que é realmente educar. Prometo que da próxima vez, com toda diplomacia é claro, tentarei reverter esta situação.Um grande abraço.

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