“Chega de saudade”

Não sou pessedebista. Na verdade, não sou afiliado ou simpatizante de partido político nenhum. Mas considero o Editorial da Folha de hoje perfeito. Ele está transcrito adiante. Endosso-o em sua totalidade.

Só acrescento o registro que boa parte das mudanças que resultaram na liberalização econômica do Brasil, e colocaram o Brasil na trilha do desenvolvimento econômico, foram feitas por Fernando Collor de Mello. Até o seu governo nossos cartões de crédito tinham uma tarja que dizia “Valid only in Brazil”. Foi ele que chamou os carros feitos pelas quatro montadoras que tinham o monopólio (na realidade, um oligopólio) da fabricação de automóveis no Brasil de carroças – e abriu o mercado para outras montadoras, criando um clima de concorrência do qual nos beneficiamos até hoje.

Itamar Franco deu continuidade à obra de Collor – e teve o mérito de nomear Fernando Henrique Cardoso Ministro da Economia. Foi FHC, como ministro de Itamar, que implantou o Plano Real.

Lulla se beneficiou de tudo isso – que chamou de “herança maldita”.

Crédito a quem crédito é devido.

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Folha de S. Paulo
07 de Março de 2010

Editoriais
editoriais@uol.com.br
Chega de saudade

A candidata oficial erra ao voltar-se para o passado com o intuito de forjar uma revanche na disputa particular de FHC e Lula

EM SEU PRIMEIRO discurso depois de deixar a Casa Civil, a candidata Dilma Rousseff insistiu na tentativa de comparar o atual governo com o anterior.

Não se sabe o que pesa mais nessa estratégia enviesada, se a obsessão íntima do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de se medir com o antecessor Fernando Henrique Cardoso ou a percepção de que é mais vantajoso para a representante da situação transformar eleições que decidem o futuro do país em avaliação de fatos passados.

Não é demais lembrar que um brasileiro com 18 anos completados em 2010 comemorava 10 ao término do governo FHC – e era uma criança de dois anos quando o sociólogo tucano assumiu.

Esse hipotético cidadão não terá idade para lembrar em que país se vivia no início da década de 90. Mas, se procurar informações, saberá que coube a FHC, na sequência do impeachment de Fernando Collor, e ainda no governo de Itamar Franco, lançar um plano -depois de várias tentativas frustradas- capaz de superar o perverso ciclo hiperinflacionário que havia anos dilapidava a economia popular e impedia o desenvolvimento do país.

Se pretende incursionar pelo passado, poderia a candidata lembrar a seus potenciais eleitores que o Partido dos Trabalhadores negou sustentação ao presidente Itamar Franco e bombardeou o Plano Real. Ou seja, opôs-se de maneira pueril e ideológica a uma das mais notáveis conquistas econômicas da história moderna do país, que propiciou aos brasileiros pobres benefícios inestimáveis, sob a forma de imediato aumento do poder aquisitivo e inédito acesso ao sistema bancário.

Sabe bem a ex-ministra que se alguém nesses anos mudou de pele foi antes o PT do que o PSDB. O que terá sido a famosa "Carta aos Brasileiros" senão uma providencial e pública troca de vestimenta ideológica do candidato Lula -que, eleito, sob aplausos do mundo financeiro, indicou um tucano para o Banco Central (agora no PMDB) e um ex-trotskista com plumagem neoliberal para a Fazenda?

É um exercício vão buscar comparações e escolhas plebiscitárias entre gestões que se encadeiam no tempo. Os avanços e problemas de uma transformam-se em acúmulo ou em fatos acabados na outra. Ou será que faz sentido questionar como teria sido a gestão lulista se tivesse de formular um plano para vencer a hiperinflação, precisasse sanear instituições financeiras públicas e se visse obrigada a estancar uma crise sistêmica dos bancos privados nacionais?

O Brasil precisa pensar e agir com olhos no futuro. Nada tem a ganhar com a tentativa da candidatura governista de forjar uma revanche de disputas pretéritas. Se o presidente Lula não venceu a contenda com Fernando Henrique Cardoso em 1994 não será agora que o fará -pelo simples motivo de que nenhum dos dois é candidato. O governo que se encerra neste ano teve méritos inegáveis, mas muitos deles, é forçoso reconhecer, nasceram de sementes plantadas no passado.

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Em São Paulo, 7 de Abril de 2010
[Obrigado a Gilmar Rocha que, no Facebook, corrigiu dois errinhos meus. Um na data,que eu havia colocado 7 de Março de 2010, e outro no "monopólio" de quatro empresas que, na realidade, é um oligopólio].

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