Alfabetização, letramento e seus correspondentes no mundo digital

Se bem recordo, havia, desde o meu tempo de escola até recentemente, apenas um termo básico que se aplicava para designar se alguém dominava ou não a linguagem escrita: alfabetização. Ou o fulano era alfabetizado, ou não era. A questão era em branco e preto, sem tonalidades de cinza — certamente, nada de dezesseis milhões de cores ali. Embora as antigas professoras primárias, alfabetizadoras por excelência, pudessem, no primeiro ano do Grupo Escolar, dizer, durante o processo de alfabetização, que um aluno já estava totalmente alfabetizado, o outro estava chegando lá, e o outro estava meio longe ainda, não era questão aberta que, uma vez alfabetizado (algo que acontecia, em regra, até o meio do ano escolar), o dito cujo estava alfabetizado. Ponto final, passemos a outro programa (como dizia a finada PRK-30).

Estar alfabetizado, nesse contexto, era conseguir decodificar as combinações das letras do alfabeto, identificando, por assim dizer, o som que correspondia a cada grafema e, portanto, tornando-se capaz de construir fonemas a partir de textos escritos.

[Posteriormente à escrita deste artigo, escrevi, em 09/11/2010, um outro artigo, menor, mas mais bem focado, em que deixo bem esclarecida essa questão. Vide “Alfabetização e Letramento”, neste mesmo blog, in https://liberal.space/2010/11/09/alfabetizacao-e-letramento/.]

A pequena gradação que as professoras primárias faziam se baseava no fato de que, em Português, o som correspondente a certas combinações de letras é absolutamente não problemático: b+a=ba, e daí vêm be, bi, bo, bu, pa, pe, pi, po, pu, etc. Todo mundo que estava “chegando lá” não tinha problemas com essas combinações das letras do alfabeto. Quem o tivesse, ou estava muito no comecinho ou não tinha jeito pra coisa. Outras combinações, porém, eram mais problemáticas: br, pr, nh, lh, qu, qü, gu…  Quem sabia extrair o som certo de qualquer combinação de letras, incluindo essas dificinhas, estava totalmente alfabetizado. Ponto final de novo.

A questão era simples e, como dizem os anglófilos, straightforward. Nunca se imaginou, naquela época, que alguém pudesse passar a sua vida escolar inteira (muito menos a sua vida inteira) se alfabetizando ou sendo alfabetizado. A alfabetização era algo simples que se liqüidava no primeiro semestre da escola. Depois, a partir do segundo semestre do primeiro ano, partia-se para o que realmente importava: empreendimentos mais prazerosos e mais rentáveis do ponto de vista educacional. Mas a alfabetização, concebida nessa visão objetiva e descomplicada, era a base do resto. Sem saber decodificar os sons escondidos por trás das combinações de letras permitidas pelo alfabeto, era impossível chegar a esses territórios mais recompensadores — a esse Nirvana pedagógico. Mas a tarefa de decodificá-los (processo denominado, a meu ver corretamente, de alfabetização) era relativamente simples. Na verdade, muitos de nós nos alfabetizamos virtualmente sozinhos, com mínima ajuda de terceiros (em geral mãe ou pai). Esse foi o meu caso.

Em Inglês, o termo correspondente a “alfabetização” era, e sempre foi, “literacy”.

Num dado momento, porém, aqui no Brasil, começou a surgir um vocábulo novo nos meios acadêmicos: “letramento”. Imagino que, do ponto de vista vocabular, “letramento” seja uma tradução portuguesa meio pobre de “literacy”. (“Literamento” seria uma tradução ainda mais pobre que, thank God, não vingou.)

O problema é que, com o novo termo, veio um novo conceito… Letramento não seria a mesma coisa que alfabetização. Letramento seria mais um processo, que tem começo (a alfabetização), mas não tem fim, posto que seu objeto (e objetivo) é a expansão e o aprofundamento do domínio que uma pessoa tem do texto, tanto na leitura como na escrita (ou, como preferem alguns, num termo horroroso, na “lecto-escritura”…): do entendimento, em relação à leitura, da expressão, em relação à escrita. 

Nesse contexto, a alfabetização é o estágio inicial do processo de letramento — e, como tal, tem começo, meio e fim. Mas o letramento continua pelo resto da vida — porque é sempre possível expandir ou aprofundar o domínio que se tem do texto (acrescentando-se “gêneros” diferentes de texto…). Assim, pode-se dizer que alguém é alfabetizado, mas não seria possível dizer que é “letrado” (no sentido técnico do termo, em que ser letrado não é sinômino de ser bem-informado, culto).

(Fazendo um parêntese opinativo num texto que se pretende descritivo, o meu problema com o conceito de letramento está no fato de que, letramento, concebido assim de forma tão ampla, geral e irrestrita, me parece ser sinônimo da educação, ou, pelo menos, parte de um todo maior que chamamos de educação).

Quando se começou a considerar a informática como linguagem – os Parâmetros Curriculares Nacionais são, em parte, culpados por perpretrar esse crime aqui no Brasil – começou a se falar em “alfabetização digital” (tradução literal de “digital literacy”). Quando o termo “letramento” se tornou relativamente popular nos guetos pedagógico-lingüísticos (graças, em parte, ao trabalho de minha amiga Magda Becker Soares, que nasceu no dia, mês e ano em que eu também nasci), surgiu a dúvida: vamos continuar falando de alfabetização digital ou vamos passar a falar de letramento digital? Os que não gostavam nem de uma, nem da outra expressão, sugeriram que falássemos, alternativamente, em desenvolvimento / domínio de competências e habilidades digitais – expressão longa e desejeitada (seria admissível chamá-la de canhestra, ou é esnobismo?) que parece desagradar a gregos e troianos.

Fico com a nítida impressão que a discussão é puramente terminológica. Raramente se entra na área da realidade para a qual a linguagem aponta…

Se formos olhar para a realidade, e não para a linguagem que usamos para descrevê-la, vamos encontrar processos basicamente de dois tipos:

a) Um é o processo de aprender a manejar, do ponto de vista técnico, a informática (hardware e software);

b) O outro é o processo de aprender a colocar a aprendizagem anterior a bom uso, aplicando-a na solução de problemas reais e importantes da vida, e assim melhorando a qualidade de nossa vida.

Não é difícil ver em “a” um paralelo com o conceito de alfabetização, tout court, e em “b” um paralelo com o conceito de letramento, tout court.

Dando minha opinião agora fora de parênteses, meu problema é o seguinte:

1) Alfabetização Digital, ou algo mais ou menos correspondente a “a”, tende a desaparecer, à medida que os “nativos digitais” se tornam mainstream. Ninguém vai precisar se preocupar se os meus netos sabem manejar a tecnologia digital, da mesma forma que hoje não nos preocupamos com a questão acerca de como as pessoas vão aprender a usar o lápis, a caneta, o telefone, a televisão…

2) Letramento Digital, ou algo mais ou menos correspondente a “b”, tende a desaparecer, como questão isolada da questão mais ampla da educação, porque será incorporada ao mainstream da educação…

Logo, why worry?

Já desenvolvi um argumento análogo sobre a chamada Inclusão Digital? Why worry? – let time and the market do their job, which they surely will.

Em São Paulo, 14 de março de 2009

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