Da amizade e do amor (e, quem sabe, do sexo)

Uma das coisas mais comuns por esse Brasil afora, quando chega o fim do ano, é a tradicional festa de formatura. Até Jardim da Infância hoje tem sua festa de formatura. Em muitas dessas festas, quando vai chegando o fim, toca-se a canção (Canção da América, letra de Fernando Brant) que Milton Nascimento celebrizou, e que começa dizendo "Amigo é coisa pra se guardar, debaixo de sete chaves, dentro do coração". Enquanto a música toca e todo mundo cantarola junto, os formandos se abraçam, balançam os corpos em sincronia com o ritmo da música. Alguns formandos choram. (Suas mães também).
 
A amizade é uma coisa bonita. Diferente do que acontece no caso do amor, admite-se, sem problema, que tenhamos vários amigos — todos eles verdadeiros. Não deixamos de ser honestos por termos mais de um amigo verdadeiro. Não traímos um amigo ao arrumar outro amigo: mantemos os dois, sem problemas. Talvez "melhor amigo", se o tivermos, só tenhamos um: mas isso é imposição da lógica ou, quem sabe, da semântica. Podemos ter vários amigos verdadeiros, sem hierarquias, sem que um seja o "amigo matriz", ficando para os outros a categoria de "amigo filial", quem sabe de "amigo franquia"…
 
Pode ser que, no fundo, de vez em quando haja uma pequena ponta de ciúme entre alguns dos nossos amigos, uns querendo ser mais amigos nossos do que os outros, mas, no fundo, nenhum amigo pretende ter exclusividade na amizade de seus amigos. Pelo contrário. Quando temos dois amigos que não se conhecem, em geral fazemos questão de apresentar um ao outro, para que se conheçam e se tornem, também, amigos entre si. Quando fazemos uma "reunião de amigos" o objetivo em geral é que nossos amigos que não se conhecem uns aos outros fiquem se conhecendo e se tornem, também, amigos entre si.
 
Ou seja, apesar do que diz a música, em regra não guardamos nossos amigos debaixo de sete chaves — dentro do nosso coração apenas. Pelo contrário. Queremos sempre expandir nosso círculo de amigos e uma maneira de fazer isso é nos tornando amigos dos amigos de nossos amigos, e tornando possível aos nossos amigos, e seus amigos, que se tornem amigos de nossos amigos. Em suma: queremos que nossos amigos também sejam guardados no coração uns dos outros…
 
Outra coisa interessante é que a amizade raramente fenece e morre devido à ausência física, à distância no espaço, ao tempo passado. Tenho bons amigos que raramente vejo, por força das circunstâncias (distância, falta de tempo, um pouco de relaxo). Quando me encontro com eles, porém, parece que não houve um intervalo muito grande de ausência física: tudo se retoma no ponto em que estava. A amizade é a mesma. Não é preciso dar explicações complicadas. Não é preciso inventar desculpas. A canção de Fernando Brant registra isso quando diz: "Amigo é coisa para se guardar, no lado esquerdo do peito, mesmo que o tempo e a distância digam não…"
 
Como muitos aqui sabem, estudei no Instituto José Manuel da Conceição, como aluno interno, de 1961 a 1963. Temos anualmente um ou dois encontros dos ex-alunos daquela instituição (fechada em 1970). Nesses encontros muitas vezes nos encontramos com amigos que não víamos desde os "bancos escolares", há mais de 40 anos. É evidente que, freqüentemente, é difícil reconhecer quem não se vê há muitos anos. Alguns amigos homens engordaram, outros ficaram carecas, outros ostentam barbas e bigodes que inexistiam então… As amigas mulheres raramente continuam as beldades que faziam balançar nosso coração juvenil. Mas quando a identidade se revela, a amizade é retomada como se estivéssemos ainda sentados no alto do morro, ao logo do portão da escola, observando os trens da Sorocabana e as meninas que atravessavam o riozinho para ir para a Casa das Moças. Quarenta anos de ausência não faz diferença na amizade.
Descobrimos até mesmo que alguns ocuparam funções pelas quais não temos muito respeito — um grande amigo meu foi chefe da Censura Federal em São Paulo, outro foi Delegado da Polícia Federal, em ambos os casos em períodos difíceis — mas a amizade, em geral, releva isso, passa por cima dessas coisas, da mesma forma que transcende o tempo. Imaginamos que devem ter tido boas razões para se enveredar por essas profissões meio — como direi? — lúgubres…
 
É verdade que o termo "amigo" tem se desgastado.
 
Chamamos de amigo a quem é mero colega ou simples conhecido. Na rua, às vezes, até mesmo os desconhecidos nos chamam de amigos: "O amigo poderia me dizer onde fica a Rua Eduardo Chaves aqui na Ponte Pequena?", "Amigo, me ajude aqui: estou precisando comprar uma passagem para voltar para o Nordeste…" O Orestes (não o Barbosa: o Quércia) começa suas aparições na TV dizendo "Meus amigos e minhas amigas"… (Você é amigo/a do Quércia?).
 
Mas apesar desses maus usos, o termo "amigo" continua a ter uma conotação nobre. Eu tenho vários colegas e inúmeros conhecidos: mas poucos amigos — dá pra contar nos dedos da mão. Sou muito seletivo em relação às minhas amizades. E não tenho nenhum amigo com quem me abra sem reservas, que seja confidente daquilo que se passa no mais íntimo do meu ser. Essas coisas em geral guardo comigo — "debaixo de sete chaves" — no coração.
 
Um parêntese.
 
Há tempos me intriga a questão se a amizade entre homens é essencialmente diferente da amizade entre mulheres. Muitas mulheres têm me dito que acham as mulheres mais falsas em seus relacionamentos de amizades, mais inclinadas em trair as amigas se a ocasião aparecer. Não sei. Cabe às mulheres dizerem se isso é verdade. Não sou eu que estou dizendo: apenas relato o que já ouvi — de mulheres.
 
Outra diferença curiosa é que homens raramente exaltam, diante dos amigos, as virtudes (de qualquer natureza) das mulheres a quem amam. Podem elogiar (em geral de forma exagerada) as virtudes (se é esse o nome) de uma mulher com quem saíram ou com quem dormiram uma vez — sem maiores compromissos. Mas a respeito das mulheres a quem amam, em geral calam-se: não fazem propaganda delas… As mulheres, por outro lado, quando amam, parecem achar impossível não elogiar seus homens diante das amigas. Parece que, fazendo assim, assumem uma certa superioridade: consegui apanhar um homem melhor do que o seu… (Quando uma amiga se convence do fato e dá em cima do elogiado, a coisa pode ficar feia. Acho incrível o número de casos em que se relata que uma mulher foi traída por sua melhor amiga!
 
Mas aqui já começo misturar os meus dois tópicos: amizades e amores… Fecho o parêntese.
 
Também o termo "amor" tem várias conotações. Os gregos já falavam em agápe, filía e, naturalmente, eros. O amor que Deus teria para com suas criaturas e estas deveriam ter para com ele seria agápe — o amor espiritual, mais puro e nobre. Filía seria algo próximo do amor entre membros de uma família: Filadélfia seria amor fraterno — filia entre adelfoi, irmãos. E eros é o amor com componentes sexuais, "eróticos" ou "erotizados". É deste que pretendo falar um pouco.
 
Sei — sabemos todos — que há casais que admitem o chamado "amor livre". O amor, entre eles, não é exclusivista.
 
Entre eles, há aqueles para quem o amor livre significa, tão somente, sexo livre. O fato de se amarem, nesse caso, não impede de fazerem sexo com terceiros — até mesmo sexo ocasional e, no extremo, anônimo. Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir se amavam desse jeito. Já li as respectivas autobiografias, já li as cartas entre eles (uma quantidade enorme — vários volumes em Francês), e não tenho dúvida de que os dois se amaram a vida inteira. Mas tanto um como o outro transavam sem maiores problemas com outros — e conversavam, entre si, sobre essas transas. Simone, mesmo quando mais madura, sabedora de que Jean-Paul gostava de "carne jovem", agenciava amantes para o seu já envelhecido (mas sempre charmoso) amado. Quando estiveram no Brasil, creio que na Bahia, Jean-Paul teve um aventura sexual até meio escandalosa, diante dos olhos de Simone — que aparentemente não se importava, porque também tinha as suas…
 
Mas há, entre os defensores do amor livre, aqueles que defendem não só sexo não-exclusivo, mas amores não-exclusivos. A própria Simone de Beauvoir, numa de suas visitas aos Estados Unidos, se apaixonou perdidamente pelo escritor americano (O Homem do Braço de Ouro) Nelson Algren. Tenho o livro das cartas apaixonadíssimas que ela escreveu a ele. Simone de Beauvoir, a filósofa que recebe o crédito de ter inventado o feminismo, com seu livro O Segundo Sexo, escrevia a Nelson que deixaria tudo só pelo prazer de cozinhar para ele, de passar as suas roupas, de arrumar a sua casa…
 
Ah, mas ela não deixou de amar Jean-Paul enquanto estava apaixonada por Nelson!!! Pelo contrário: fez questão de levar Nelson até Jean-Paul, para que este o aprovasse… O seu amor por Nelson não seria completo se Jean-Paul, o arqui-amor, não o aprovasse e, de certo modo, compartilhasse o seu amor. Para o restante dos mortais a situação dos três, em Paris, vivendo, parte do tempo, sob o mesmo teto, seria absolutamente constrangedora — totalmente inaceitável, na verdade. Mas para os três, que pareciam capazes de, nietszcheanamente, viver acima do bem e do mal, havia pelo menos uma aparência de naturalidade… Segundo eles, era assim que deveríamos saber lidar com o sexo, era assim que deveríamos saber lidar com o amor.
 
Ayn Rand, para mim a maior filósofa que já viveu, escreveu um livro, que, para mim, é o maior romance jamais escrito, que se chama Atlas Shrugged (Quem é John Galt? em Português). O livro, publicado originalmente em 1957, já vendeu quase 50 milhões de cópias. Nele, há uma heroína maior, Dagny Taggart, e três heróis maiores — Francisco d’Anconia, Hank Rearden e, o maior de todos, John Galt. Ao longo da história Dagny se torna amante dos três — um de cada vez, naturalmente: Francisco, primeiro, depois Hank e, por fim, naturalmente, John. Em nenhum momento ela é amante (no sentido de fazer sexo, fazer amor) com mais de um deles ao mesmo tempo, e, uma vez que comece a fazer amor com um, o caso anterior é devidamente encerrado, lacrado e arquivado (no aspecto sexual). Mas ela continua amando os três até o final do romance — e Galt convive bem com o conhecimento de que ela foi amante dos dois, seus grandes amigos, antes de ser amante dele, e que nunca deixou de amá-los — mesmo que tenha deixado de "fazer amor" com eles.
 
Fora da ficção, na vida real Ayn tentou algo semelhante — e o resultado foi desastroso. Ela se casou, na década de 20, com Frank O’Connor — com quem ficou casada até o fim da vida. Nos anos 50 meio que adotou um casal de filósofos, Nathaniel e Barbara Branden (que não eram casados, mas namoravam, quando, adolescentes, ficaram conhecendo Ayn, então já com quase 50 anos). No início da década de 60 Ayn e Nathaniel se convenceram de que estavam apaixonados. Antes de fazer amor, convocaram os cônjuges e comunicaram a eles que estavam apaixonados e que queriam a anuência deles para começarem a fazer amor… Eles, relutantemente, deram. As coisas continuarem aparentemente bem na superfície, até que tudo explodiu — quanto Ayn descobriu que Nathaniel, além de seu amante e marido de Barbara, estava apaixonado por uma terceira mulher, com quem já tinha transado (sem dizer nada às outras duas): Patrecia (pronuncie-se Patricia)…
 
Enfim: por que conto essas histórias, parte ficção, parte vida real? Para indagar o seguinte: Por que é que gerenciamos relativamente bem nossas amizades, e temos grandes amizades de forma não-exclusiva, e, no entanto, complicamos terrivelmente a nossa vida amorosa, ao exigir total exclusividade? Há cônjuges que virtualmente obrigam o outro a não só não fazer sexo e não ter outro amor fora do casamento, mas até mesmo a abandonar os seus amigos de antes do casamento… ou a abandonar amigos de quem elas não gostem… ou a abandonar amigos de cujas mulheres elas não gostem… 
 
Qual será o componente que torna a nossa vida amorosa complicada: o sexo ou o amor, em si? Ou algum outro componente aqui não declinado, como, por exemplo, o ciúme, o sentimento de posse, na verdade, de posse exclusiva, não compartilhada? Por que é que alguns humanos conseguem aparentemente transcender os problemas que a maior parte dos outros humanos consideram "intranscendíveis", e convive, aparentemente bem, com sexo livre e amor livre, sem ciúmes?
 
Discutimos aqui na lista a questão da educação da sensibilidade, da educação das emoções… Falávamos da educação das emoções DOS OUTROS. Mas E AS NOSSAS??? Será que é possível educar nossas emoções a tal ponto que venhamos a lidar com o amor e com o sexo (com nossas PAIXÕES) com a mesma racionalidade que (em geral) domina nossas relações de amizade?
 
Fica a questão.
 
Em Salto, 6 de abril de 2006 (dia do primeiro aniversário do meu neto Marcelo)

  1. Oi Eduardo,
    O que eu mais gosto no seu blog é encontrar temas polêmicos tão bem argumentados e que me fazem ficar pensando por um bom tempo (dias, meses, anos talvez rss).
    Por um acaso, hoje comentamos sobre isso e  então descobri ao conhecer o  Cesar Kyn da CEDET (em Campinas)  que comentou ser amigo seu de muito tempo.
    []s
    Mary

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