As demonstrações dos imigrantes ilegais nos EUA

Os Estados Unidos não celebram o Dia do Trabalho com o resto do mundo. Aqui, Labor Day é a primeira segunda-feira de Setembro. Ontem (1/5/2006).
 
Ontem, porém, houve passeatas em quase todas as cidades grandes do país. Eu estava aqui em Chicago e testemunhei. Muita gente. Cerca de 400 mil pessoas. Imigrantes ilegais e, digamos, simpatizantes. Gente que está pressionando para que os Estados Unidos liberalizem sua política imigratória — e, acima de tudo, legalize a situação dos atuais imigrantes ilegais, estimados em cerca de 12 milhões!
 
Em Março também houve passeatas. Mas o tiro, então, saiu pela culatra. Naquela ocasião os demonstrantes eram predominantemente mexicanos, carregavam bandeiras do México, e falavam em espanhol. "Sí, se puede" era o seu refrão. A população "mainstream" reagiu. A questão controvertida, afirmaram os defensores de uma legislação mais forte ainda e de uma vigilância maior na fronteira com o México, não é de imigrantes ilegais: é, predominantemente, de imigrantes mexicanos ilegais, ou, então, de imigrantes ilegais de outros países latinoamericanos que entram nos EUA através da fronteira com o México. E os mexicanos, apontavam os defensores de medidas mais duras contra a imigração ilegal via fronteira com o México, não estão interessados em se integrar na sociedade americana. Continuam a ser leais ao México — como provam as bandeiras que carregavam e o fato de que, em um jogo de futebol recente dos EUA com o México, em Los Angeles, a torcida era 90% para o México. Essa gente, continuavam, não quer aprender Inglês: continuam a falar o Espanhol em casa, e muitos nunca aprendem o Inglês.
 
As forças a favor da legalização dos imigrantes ilegais tiveram de pensar rápido e mudar sua estratégia e seu marketing. E trabalharam bem.
 
Nas passeatas de ontem, a bandeira predominante era a americana. De longe. Havia bandeiras de virtualmente todos países latinoamericanos (Brasil inclusive), mas também havia da China, da Coréia, do Vietnam, etc. Isso significa que os mexicanos conseguiram globalizar a demonstração, convidando imigrantes (ilegais e legais) de inúmeros países, até mesmo fora da América Latina. E o Inglês era a língua predominante. Quando se começava ouvir "Sí, se puede", ele era logo abafado por um "Yes, we can" mais forte. Tentou-se não dar a impressão de que o movimento era coisa de chicano.
 
E cantaram o Hino Nacional americano — em Inglês, direitinho, sabendo a letra de cor. Esqueceram a controvérsia de que o hino deveria poder ser cantado também em Espanhol — porque isso de novo latinizaria a demonstração. Saudaram a bandeira americana com respeito — até exagerado: houve gente que se ajoelhou, com um joelho no chão, como se estivesse diante de um altar. E os depoimentos, todos eles em Inglês, ressaltaram que estavam orgulhosos de viver neste país, a verdadeira terra da liberdade e da oportunidade, que se orgulhavam do fato de que seus filhos falavam Inglês sem sotaque… Só não queriam viver sob ameaça constante de deportação para o país de origem — com a conseqüentente separação dos filhos nascidos aqui, que, segundo eles, ficariam aqui na hipótese de deportação.
 
Boa parte das empresas ontem funcionou "a meio pau", porque os imigrantes ilegais (e mesmo alguns legais) nao apareceram para trabalhar. Algumas empresas até resolveram dar apoio moral e declararam feriado por conta.
 
E os demonstrantes foram criativos nas faixas… Uma dizia: "What if the Indians had closed the borders?" — "O que teria acontecido se os Índios tivessem fechado as fronteiras?"
 
A coisa se complica.
 
Os defensores de medidas mais radicais contra a imigração ilegal ficaram quietos ontem — esperavam que os demonstrantes dessem algum passo em falso que pudesse gerar novo backlash. Mas, pelo jeito, não deram. Corrigiram os erros das demonstrações de Março e deram uma demonstração de força e união — e, o que é mais importante, de lealdade ao país que adotaram e em que escolheram viver (ainda que por meios ilegais).
 
Eu acho que os EUA, como nação e sociedade, deveriam se orgulhar do que aconteceu ontem: milhões de pessoas lutando nas ruas para conquistar o direito de morar aqui legalmente. Enquanto países como o nosso vêem milhares de pessoas se matando para sair daqui, no vizinho do norte o problema é o oposto — prova da pujança da sociedade americana, que é capaz de dar oportunidades aos que para cá vêm e que alenta os sonhos de tantos outros que gostariam de estar aqui mas não têm a coragem de tentar.
 
Em Chicago, 2 de maio de 2006

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