Dudu, the Puff (*)

Na minha memória, ele tinha o nome de Dudu, the Puff. Talvez em algum lugar nele estivesse escrito “Pooh”, em vez de “Puff”. Não sei direito. E talvez fosse “de”, e não “the” (*). Ganhei esse ursinho de pelúcia, de cor entre o amarelo e o alaranjado, quando fiz três anos (creio) e eu morava em Marialva, no Paraná. Quem me deu foi minha Tia Alice – a tia querida, que muitas vezes me fez papel de mãe e que me abrigou mais de uma vez na casa dela quando me vi sem teto.

Eu adorava o meu ursinho.

Mas um dia, meu pai decidiu que mudaríamos do Paraná para São Paulo. Eu não sabia, naturalmente. Então já morávamos em Maringá, não muito longe de Marialva.

Saímos em uma longa viagem de Jeep (Willys Overland), por volta de Novembro de 1951: meu pai (Rev. Oscar), minha mãe (Edith), meu irmão Flávio e, naturalmente, eu (as meninas, Priscila e Eliane, só nasceram bem depois). Na data já tinha oito anos completos. Era um hominho. Por isso, não levei o meu Dudu, the Puff. Não ficava bem.

Saímos de Maringá, fomos até Campinas, visitar minha Avó Angelina (materna) e minha Tia Alice (única irmã sobrevivente de minha mãe), e, naturalmente, meu Avô Juca, meu Tio Anello e meus primos Anellinho e Márcia (os outros, Mário, Élcio e Anelice, não haviam ainda nascido). Ficamos vários dias em Campinas – não sei quantos. De Campinas fomos para Patrocínio, visitar meu Tio Raul (irmão do meu pai), minha Tia Catarina (mulher dele) e meus primos Irene, Idília e Edmar. Também não sei quantos dias ficamos lá, mas me lembro muito bem do sítio (chamado de “Retiro”) do meu tio. Lá visitamos meu tio Aldo (irmão mais novo do meu pai). De Patrocínio fomos até Belo Horizonte, visitar minha Avó Alvina (paterna), minha tia Dulce (irmã do meu pai), meu tio Mauro (irmão do meu pai, boêmio, seresteiro, dançarino, pintor, poeta, engenheiro agrônomo… – de longe o mais bonito e fascinante dos meus tios [embora não o mais querido: aqui a taça vai para o Tio Anello mesmo]. Acho que o Tio Mauro era ainda casado com a Tia Esther naquela época. Depois se separaram e, muito tempo depois, ele se casou com a Terezinha – mas nunca a chamei de tia… De Belo Horizonte voltamos para Campinas.

A complicação toda aconteceu nessa hora.

Já era 1952 e (supostamente porque eu já tinha oito anos e nem havia ainda começado a escola, por ser a escola de Maringá muito ruim) o meu pai arrumou sua transferência da Junta de Missões Nacionais, que o colocava sempre na fronteira, abrindo igrejas, para o Presbitério de São Paulo, ao qual pertencia a Igreja de Santo André, que precisava de um pastor. Na minha memória, a mudança foi assim, abrupta: um dia estava tudo certo que iríamos voltar para Maringá, no outro estava resolvido que iríamos ficar em São Paulo, morando em Santo André. Provavelmente as coisas não se deram assim de forma tão abrupta – mas na minha memória, foi assim que elas aconteceram.

Com isso, meu pai resolveu voltar sozinho para Maringá, para buscar nossa mudança. Nós ficaríamos com a Avó Angelina e a Tia Alice, esperando o seu retorno. Criança não apitava nada naquela época. Não tinha nem direito de dizer “Não se esqueça do meu ursinho…”

Pois é… Meu pai foi meio radical. Vendeu quase tudo, para comprar coisa nova em Santo André. Com essas e outras, meu ursinho não veio. Provavelmente foi dado para alguém ou deixado por lá. Só sei que sumiu. Evanesceu (se é que há esse verbo em Português – em Espanhol, sei que há). Na minha memória, quando perguntei ao meu pai o que havia acontecido com o Dudu, the Puff, ele nem soube dizer. O ursinho estava além das preocupações dele. Lembro-me de ter sido repreendido por ficar preocupado com coisas tão pequenas quando coisas tão importantes estavam acontecendo. De qualquer maneira, disse, qualquer hora ele me compraria outro.

Isso foi em 1952. Faz cinqüenta e oito anos. Meu pai morreu em 1991. Nunca comprou o ursinho que iria substituir o meu Dudu, the Puff.

Uma vez contei essa história para a Paloma. E ela deve tê-la registrado lá em algum lugar daquela memorinha prodigiosa dela. (E eu pensava que eu tinha memória boa…)

Em Londres, um dia, quando a Paloma saiu passear sozinha, passou pela Disney Store, e lá me comprou um Winnie, the Pooh. Exclusivo da Disney. Lindo de morrer. Parecidíssimo com o meu Dudu, the Puff. Só que muito mais lindo ainda. E muito mais fofo, como apenas os materiais atuais permitem construir esses bichinhos de pelúcia…

É verdade que a Paloma se afeiçoou ao bichinho, também, que passou a ser não só meu, mas nosso. Mas até isso é bom. Agora compartilho o meu brinquedo. Há mais gente para cuidar dele… Assim, a chance de ele se perder é menor. Ele tem ficado juntinho de nós na cama, à noite, e em cima dela, durante o dia.

Amor, obrigado. Você é linda – e muito sensível. “Thoughtful”, é o termo certo. Obrigado mesmo.

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Ele não é lindo, de verdade? Não me importa que o nome que está na etiqueta (na orelha) diga que ele se chama Winnie, the Pooh. Para mim, ele é o Dudu, the Puff, redivivo. Até porque Dudu é o meu nome de avô, que me foi dado pelo meu primeiro neto, o Gabriel.

[(*) O nome correto do ursinho em Português era — ainda é, presumo — Dudu-de-Puf, com um “f” só. Um comentário de um leitor chamado Fernando Sthetatos esclareceu isso e, depois, em minha resposta ao comentário, coloquei dois links que o comprovam, e que encontrei fuçando no Google.]

No Porto, em 24 de Janeiro de 2010

  1. Na verdade e dudu de puff e e uma encantadora historia se não me engano da escritora Milne ,isso faz parte da vida de milhares de crianças pelo mundo afora e na inglaterra e uma instituição de peso que cuida de crianças .

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  3. Caro Edu,

    Aqui no Brasil o ursinho Winnie-the-Pooh foi chamado de Dudu-de-Puf. Sei disso porque tenho um livro com as histórias de Dudu-de-Puf publicado aqui no Brasil pela editora Melhoramentos.

    Um grade abraço e parabéns pela bela postagem.

    Fernando

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  4. Obrigado, Fernando. . . Agora que você mencionou, surgiu em minha mente uma vaga lembrança de que eu tinha esse livrinho da Melhoramentos. E tenho certeza de que você está certo quanto ao nome. Agradeço a correção. Para não torna-la sem sentido, vou deixar o texto como está, só colocando uma nota de que o nome do ursinho foi corrigido por um leitor. Obrigado, mesmo, e um abraço.

    Vide: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ursinho_Pooh
    Vide: https://www.worldcat.org/title/dudu-de-puf/oclc/39111320

    Eduardo Chaves

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