A Verdade: Contra o Ceticismo, o Relativismo, e o Dogmatismo – 1

Talvez a maior contribuição que Sir Karl Raymund Popper tenha feito ao debate filosófico do século XX tenha sido sua discussão da questão da verdade no âmbito da filosofia, da ciência, e do senso comum.

De um lado, Popper defendeu a verdade contra o ceticismo – que afirma que nada é verdade, que a verdade não existe, que existem apenas opiniões, pontos de vista, etc. – e o relativismo – que afirma que tudo é verdade, que cada um tem a sua verdade, que a opinião ou o ponto de vista de cada um é a (sua) verdade…

Contra essas duas tendências, Popper argumentou que a verdade existe e que é absoluta – e que não há verdades pessoais e relativas. Se um enunciado, devidamente determinado em suas referências espaço-temporais, é verdadeiro, ele é verdadeiro hoje, foi verdadeiro ontem e será verdadeiro para sempre. A verdade de um enunciado devidamente determinado não varia com o espaço e o tempo, com o contexto e a época – é isso que ele quer dizer com a tese de que a verdade é absoluta.

Essa tese de Popper é uma tese no plano da realidade – naquilo que poderíamos chamar de “plano ôntico”, o plano do ser. Para ele, é assim que as coisas são.

Tendo a concordar com ele nessa tese.

De outro lado, Popper defendeu a verdade contra o dogmatismo – que é a arrogante pretensão de que encontramos a verdade e que todos os outros que a buscam, ou que pretendem ter encontrado uma verdade diferente da nossa, estão simplesmente errados – ou, pior, se recusam a ver a verdade manifesta daquilo em que acreditamos.

Contra o dogmatismo, Popper defendeu a tese do falibilismo: no “plano epistêmico”, o plano do conhecer, somos sempre falíveis. Mesmo que estejamos convencidos (como ele estava) de que a verdade existe e é absoluta, nunca poderemos ter certeza de que a alcançamos e, portanto, de que estamos de posse dela. Sabemos que a verdade existe, devemos buscá-la, podemos até mesmo aspirar a encontrá-la, mas nunca poderemos estar certos de que a encontramos e, por conseguinte, de que estamos de posse dela.

Há uma diferença muito grande e essencial, diz Popper, entre aquele que humildemente busca ou persegue a verdade e aquele que orgulhosa e arrogantemente se julga possuidor dela – aquele que, na fala comum, se crê o “dono da verdade”. E aquele provavelmente está mais próximo da verdade do que este…

Também aqui tendo a concordar com Popper.

Essa tese dupla de Popper é importante, porque se torna um poderoso libelo contra o ceticismo, o relativismo e o dogmatismo. Não creio que nenhum outro filósofo tenha tido tanta clareza sobre a questão.

Ao refletir sobre essa questão ontem à noite, lembrei-me da parábola do fariseu e do publicano relatada pelo evangelista Lucas no Novo Testamento… e senti algo que não sentia há tempo: simpatia por alguns elementos importantes dos ensinamentos de Jesus – elementos que eu utilizei em um artiguete de jornal acadêmico em 1966 – mais de quarenta e dois anos atrás.

“Propôs Jesus também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos por se considerarem justos, e desprezavam os outros” (Lucas 18:9).

A história diz respeito a dois homens que foram ao templo orar: um fariseu e um publicano. O fariseu era um líder religioso na sociedade judaica. Julgava-se próximo da perfeição teológica e moral. O publicano era um réprobo: era tido como exemplo de heresia e imoralidade.

O fariseu orou: “Graças te dou, ó Deus, porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros – nem ainda como este publicano”.

O publicano orou: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador”.

Jesus concluiu que o publicano, não o fariseu, retornou para sua casa justificado.

Em suma: aquela criatura de tão excelentes qualidades, o fariseu da parábola de Jesus, não foi o que desceu para casa justificado, mas sim aquele que era visto como roubador, injusto e adúltero, aquele que era um verdadeiro pária moral na sociedade de sua época.

Ensinamento profundo.

O fariseu orgulhosamente se acreditava possuidor da verdade religiosa e moral. O publicano a buscava – e se a buscava era porque sabia que não a possuía. Este, não aquele, teve sua atitude recomendada por Jesus. O fariseu, não o publicano, teve a sua atitude condenada por Jesus.

Se não tivesse morrido em 5 de março de 1991 meu pai estaria completando hoje 96 anos. Ele foi pastor presbiteriano durante quase 50 anos de sua vida (tivesse vivido mais um ano e teria completado o Jubileu de Ouro de seu ministério). Ele era um crente convicto de que a verdade existia – e de que ele a havia encontrado de uma vez por todas. Por isso, embora humilde e tolerante no plano pessoal, ele era, no plano doutrinário e moral, um tanto quanto orgulhoso, arrogante, dogmático  e intolerante. Quem dele ousasse discordar, como eu, estava não só simplesmente errado, mas tinha o “coração empedernido” por se recusar a ver uma verdade que para ele era manifesta, inquestionável, indiscutível. Quando, em 1966, fui expulso do Seminário Presbiteriano de Campinas, me disse que preferia que eu tivesse nascido morto a me ver esposando heresias e imoralidades. Eu havia, dias antes, escrito, no jornalzinho do Centro Acadêmico do Seminário, uma paráfrase da parábola do fariseu e do publicano que especialmente o ofendeu…

Talvez mais do que qualquer outra coisa, essa atitude do meu pai me colocou no caminho que, alguns anos mais tarde, me afastou da religião e da crença em Deus, e, mais tarde, da moralidade altruística e sacrificial do Cristianismo. Foi, provavelmente, essa atitude que me fez ver nas teses de Popper sobre a verdade um “hálito de vento fresco” (“breadth of fresh air”, como se diz em Inglês).

Presto a meu pai, aqui, e de forma admitidamente um pouco atravessada, o meu reconhecimento pelo papel importante que ele teve em minha formação – ainda que de modo, muitas vezes, negativo.

Em São Paulo, 11 de outubro de 2008

  1. A verdade (realidade), no plano ôntico, é portanto, um processo antes que um produto, um dado que cabe nas palavras?  Em que você não concorda com Popper? Gostaria muito que este artigo continuasse. Você, eu, Pilatos e mais alguns continuamos, aqui, de plantão, nos perguntando o que é a verdade.

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