Gratidão

Amanheceu chovendo.

Depois de uma eternidade sem chuva, em que a grama do sítio ficou russa, a estrada que leva a ele, uma poeira só, e o ar ficou tão seco que até as autoridades de saúde se preocuparam, choveu. Chove ainda.

O dia do meu aniversário trouxe a chuva tão esperada e desejada.

É verdade que, quando percebi, de manhãzinha, que estava chovendo forte, com direito a trovões e tudo, fiquei preocupado. Minha filha mais nova, meu filho e um de meus sobrinhos prometeram vir para cá, hoje. Fiquei com medo de que a chuva atrapalhasse os planos. Para as crianças que já estão aqui – há quatro, se a gente, contra a vontade delas, esticar um pouco a definição de criança – a chuva é uma prisão que as obriga a ficar confinadas, dentro de casa, num sítio em que há muito espaço aberto. Ainda bem que há o mezanino, onde montam quebra-cabeças (puzzles) e jogam Nintendo DSi.

Mas tomei a decisão de não ficar preocupado. Se a chuva dissuadir de vir aqueles que ainda não estão aqui, que seja. A chuva é bem-vinda. Ela é sinal de que a vida, por maior que tenha sido a devastação que o Inverno causou, continua embaixo da grama queimada, nos galhos sem folha de algumas árvores (como os meus plátanos), nas folhas amarronzadas pela poeira de outras. Resolvi adotar a filosofia do salmista: “Este é o dia que o Senhor nos deu: alegremo-nos e regozijemo-nos nele.” Ainda que seja um dia chuvoso.

Afinal de contas, hoje faço  67 anos, feliz e com boa saúde. Amando. Amando assim de paixão. Isso, em si só, já é um milagre, nessa idade. Há muitos que, ao chegaram à idade em que passam a ser considerados idosos, já se desiludiram da vida, já abriram mão de amar. Aposentam-se não só do trabalho: aposentam-se do amor e da vida. Poucos têm o privilégio de uma experiência como a minha – de vir a amar depois dos 60 anos, de se apaixonarem numa idade já mais do que madura, como se ainda fossem adolescentes… (Leonel Brizola teve, Roberto Marinho também, para citar apenas dois casos conhecidos e notórios.) E, milagre maior ainda, tendo o privilégio de ser amado por alguém que arriscou tudo o que tinha para ficar comigo, do meu lado, curtindo, no mesmo passo, as urzes da jornada (como diz a poesia). E, além de tudo o mais, amando e sendo amado pelos filhos, pelos netos, pelos irmãos, pelos sobrinhos, pelos filhos dos sobrinhos, pelos primos, pelos filhos dos primos. (Entre os filhos estão, sem dúvida, aqueles que a lei considera enteados.) Por fim, amando e sendo amados por amigos queridos, quase irmãos. E não só sendo capaz de trabalhar, mas gostando dos desafios do trabalho, sentindo prazer em enfrentá-los. E, nos momentos de lazer, vendo e ouvindo os pássaros que, alegres pela chuva (e, imagino, pelo fato de estarem vivos), cantam, trinam, gorjeiam, chilreiam. Um bem-te-vi bemteveia agora aqui do lado na quaresmeira sem flores.

[A propósito, tenho pena dos dicionaristas. Para o Houaiss o bem-te-vi é apenas uma “ave passeriforme (Pitangus sulphuratus), da família dos tiranídeos, que ocorre do Sul dos Estados Unidos à Patagônia; com cerca de 22 cm de comprimento, bico longo e forte, coloração pardo-olivácea no dorso, amarela no ventre e cabeça preta e branca com uma mancha amarela no vértice”. Ele nem sequer diz que o bem-te-vi se chama assim no Brasil porque ele canta bem-te-vi. Na verdade, ele nem diz que o bem-te-vi canta…].

Dois dias felizes, porque ontem a Paloma e eu celebramos, com simplicidade, carinho e muito amor, na companhia da irmã dela e de dois irmãos meus, dois anos de vida em conjunto. Parece que foi ontem, e, no entanto, já se passaram dois anos. E, mais importante, parece que (como disse Vinicius, na Valsinha, que o Chico tão bem musicou) o mundo finalmente compreendeu e deixou o dia amanhecer em paz.

É isso. Fazia tempo que não escrevia assim com sentimento neste space. Faço-o hoje, em gratidão pelo amor, celebrado ontem, pela amizade, compartilhada nos dois dias, e pela vida, comemorada hoje — vida que me tem sido relativamente longa e bastante generosa. “Graças dou por esta vida”, dizia o hino que eu cantava na mocidade e de que meu pai tanto gostava. Continuo a cantá-lo. E a cantá-la, à vida.

Em Salto, n’O Canto da Coruja, 7 de Setembro de 2010

(Em tempo 1: Meu casal de corujas parece ter sumido… Espero que não tenham morrido, ou que não tenham abandonado o sítio em definitivo: que seja apenas hibernação.)

(Em tempo 2: As crianças – Priscilla, André e Bruno – salvaram um passarinho que havia caído na água da piscina. Precisaram quase ressuscitá-lo. Ele se aqueceu, se recompôs e foi embora.)

(NOTA acrescentada depois: A chuva não afugentou ninguém… Todo mundo apareceu. E sol, como que para brindar todo mundo, deu as caras no final do dia.)

  1. Eduardo, aplausos!Apesar da nossa diferença de idades, nem imagina como eu me revejo neste seu escrito.As saudades que eu tenho de, entre outras coisas, ouvir o bemteviar do bem-te-vi…

    Curtir

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: